sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Oarística

Escrito por António Telmo






«Tão arreigada esteve outrora a doutrina racionalista ou intelectualista, de que a palavra é própria do homem (ente espiritual e anímico, pelo que difere essencialmente dos animais), que permaneceu intacta a narração do Genesis, segundo a qual Deus teria falado, e ensinado a falar, a Adão. Enquanto foi vigente a tradição bíblica sempre o homem foi considerado filho de Deus. No erro de que o hebraico representaria a linguagem primitiva, porque em hebraico estão redigidos alguns livros do Velho Testamento, há que ver um símbolo da origem comum da humanidade. O hebraico é apenas um receptáculo, ou um espelho».

Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).


«Em filosofia não há discípulos. Há mestres e epígonos. Os epígonos são ou não identificáveis pelos outros e por si próprios.

Álvaro Ribeiro, juntamente com José Marinho, foi o epígono de Leonardo e, como ele, ao ascender a mestre, criou uma escola destinada a formar, não discípulos dóceis, fiéis e passivos, mas epígonos a quem cumpre adiantarem-se no caminho aberto, na heroicidade do espírito».


Orlando Vitorino («As teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro»).



«Algo de aquático há na língua portuguesa independentemente das metáforas e "locuções do mar e da terra", tónicas fortes contrapostas a vogais surdas, timbres reduzidos cuja frequência é notória; a serena maioria de palavras graves, variedade dos timbres vocálicos, nazalizações e ciciamentos; avessa à nitidez sónica das substâncias duras, sem o cortante dos metais e o fragor dos embates metálicos; envolvente mas discreta e confidencial, nela responder não tem a sonoridade estrídula do contestar castelhano. "Una lengua que es un halago, sobre todo para los que tenemos hechos los oídos al recio martilleo del huesudo castellano", disse Unamuno.

Língua de "povo secreto", a expressão oral é dificilmente captável pelos estrangeiros, ainda que familiarizados com a escrita, porque aos seus ouvidos o português "come" grande parte das vogais e as frases aparecem-lhes quase reduzidas ao "esqueleto" consonântico. Pouco solene para o drama, presta-se à poesia, ao segredo e à ternura, dispondo para isso do recurso de vocábulos em extremos suaves, umbrosos (saudade, meiguice, soturno, luar, nevoeiro, mágoa, voo, dor, devagar, entre os anotados por estrangeiros) alguns intraduzíveis, e de muitos diminutivos carinhosos. Refractária, dado o seu carácter existencial, aos absolutismos e esquemas do pensamento abstracto e linear; ou dificultando-os, serve maravilhosamente as reticências, o claro escuro do processo reflexivo. Orgânica, não geométrica, aplica-se-lhe a instintiva catilinária de Aquilino contra as frases curtas, trinchantes, e a favor da semelhança que a elocução verbal deve manter com o arranjo biológico, distribuída "em pernadas, ramos, folhas, como as árvores"».


Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).








«"Observe bem a pintura" [Escola de Atenas]. Disse ele. "Tem diante de si o quadro das Categorias ou, pelo menos, o movimento que Aristóteles procurou transmitir na enumeração das dez. Se estudar as categorias e souber estabelecer as suas exactas relações, poderá determinar a estrutura oculta da composição de Rafael. Conhecerá o que são os quatro degraus, as duas colunas humanas, o pórtico. De nada vale bater à porta da vida sem bater ao mesmo tempo à porta do espírito. Durante dois mil anos, os estudiosos de Aristóteles têm-se sucessivamente interrogado sobre as dez categorias sem conseguirem estabelecer a doutrina certa. Como se trata de um filósofo grego, a ninguém ocorreu interpretá-las pela Kabbalah que é, como se sabe, a tradição sófica hebraica"».

Tomé Natanael («Filosofia e Kabbalah»).



«Será possível (...) que haja dois mundos geminados, onde existimos simultaneamente em duas presenças separadas?».

António Telmo («Contos Secretos»).






Oarística

"Cada idioma é um órgão invisível que pode ser configurado mediante sinais gráficos e tipográficos, mas que exerce também funções indiscerníveis pela análise literal ou gramatical. No âmbito de cada idioma vão dialogando os seres humanos, e realizam conhecimento ou ciência, na medida em que continuam a relação de espírito a espírito. Fácil será inferir, portanto, que o diálogo mais profundo, de maior alcance gnósico, sófico e pístico, tem a designação clássica de oaristo”.

A palavra oaristo deriva de oar, termo grego para companheira e para esposa, correspondente ao latino soror. Significa, pois, conversa íntima do homem com a mulher. Sendo que língua é o mesmo que diálogo e dado que o diálogo de maior alcance gnósico, sófico e pístico, mais profundo, é o oaristo, à linguística de Álvaro Ribeiro devemos dar o nome de oarística, fazendo coincidir no neologismo o conceito e a assonância de heurística, termo que designa a arte de encontrar, procurando.

Tudo está orientado, no domínio do aperfeiçoamento da linguagem, segundo duas linhas de educação, a masculina e a feminina, para o supremo acto de conhecimento que é o encontro do homem com a mulher. A identificação do acto sexual com o conhecimento (“E Adão conheceu Eva”), própria da Cabala, não deve deixar-nos julgar que a distinção de sexos é apenas física. Quando se diz ou escreve “acto sexual”, há que imaginar uma relação em que as almas também são sexuadas e só isso permite identificá-lo com o conhecimento. A carne é o envolvimento, a manifestação ou, talvez, a projecção no plano natural de uma alma sexuada e os órgãos de criação também são psíquicos. Analogia activa ou dado da observação profunda, isto explicará, do ponto de vista oarístico, a afirmação de que “cada idioma é um órgão invisível”, em cujo âmbito «vão dialogando os seres humanos”; vão dialogando, “e realizam conhecimento ou ciência, na medida em que continuam a relação de espírito a espírito”.

As almas encarnadas ou as “razões animadas” (“razão é o espírito do homem”) buscam-se atraídas pelo amor, mas para se encontrarem na mais elevada e profunda comunicação é necessário que a língua não funcione como obstáculo, degradando o pensamento, para que o diálogo assuma dignidade de relação sexual superior. Daqui o imperativo de uma educação linguística para o rapaz e para a rapariga, diferenciada até à puberdade, a necessidade de que o ensino seja uma oarística.

As doutrinas que explicam a existência de línguas como o resultado de uma evolução animal do grito ou do gemido da palavra, do desejo para a razão, foram completamente destroçadas pela linguística do século XX. Álvaro Ribeiro teve de mostrar e demonstrar que a língua é um órgão invisível, um órgão do espírito. As palavras que os amantes trocam não são o acompanhamento dispensável de um acto puramente animal.








A língua portuguesa, por ser aquela em que escrevia, pensava, conversava e orava, por ser a língua que a mãe lhe ensinou, aparecia a Álvaro Ribeiro como um perpétuo socorro e é fácil avaliar a repulsa que sentia pela doutrinação gnóstica contra toda a palavra e todo o pensamento, dados nela por impedimentos ao conhecimento que identifica com o inefável. Imagine-se um mundo em que a palavra está ausente, um mundo sem logos, extático na contemplação abismática do próprio não-ser e que, subitamente, no grande silêncio cristalizado, uma palavra soa e mesmo que tenha apenas quatro letras como a palavra Deus eis que tudo estremece e se agita, despertando do sonho para o movimento, da estagnação sublime para a acção criadora.

A oarística estuda os movimentos pelos quais os fonemas, as palavras e as frases atraem o pensamento durante o diálogo entre o homem e a mulher. Neste sentido, constitui-se na forma que a linguística do século XX recebe, quando a estudamos à luz da doutrina cabalista do amor. É possível este desenvolvimento porque o estruturalismo deve ser interpretado como uma adaptação da Cabala às exigências científicas dos anos em que foram publicados o Curso Geral de Linguística de Ferdinand Saussure e o livro sobre A linguagem de Eduardo Sapir. Não é porque os linguistas mais famosos que desenvolveram e aplicaram os princípios dos dois fundadores do estruturalismo em linguística, como Roman Jacobson, Noam Chomsky, Benjamin Lee Whorf e Emílio Benveniste, tenham nomes judaicos. O modelo dado pela estrutura das sephiras é a forma ideal para que tendem as variadas interpretações da fonética, da morfologia e da sintaxe, mas no modo como relacionam língua e pensamento, modo que vai até à identificação, devemos ver a reacção da Cabala, recuperando-se da derrota que sofreu da linguística alemã, dominadora de todo o século XIX.

Com efeito, o descobrimento do sânscrito constituiu o instrumento indispensável para estabelecer a Gramática Comparada das línguas indo-germânicas, para abrir um abismo entre as línguas europeias e as línguas semitas e para substituir o mito cabalista do hebraico como língua primordial pelo mito pseudo-científico do indo-europeu. Ao mesmo tempo, foi fundada a Fonética em termos tais que por completo ficaram desacreditados os métodos da Themuria, da Notaria e da Guematria. Trataram Franz Bopp, os Schelegel e os Grim de mostrar que somente os fonemas, pela sua materialidade separável da significação e do pensamento, constituem o fenómeno linguístico, só eles podem constituir o objecto de um estudo rigorosamente científico. Para tanto, havia que os considerar em completa independência das letras ou gramas que os significam. A sintaxe, que relaciona forçosamente a língua com o pensamento, quase foi esquecida durante todo o século XIX.

Eduardo Sapir, fundador com Ferdinand Saussure do estruturalismo em linguística, leva até à evidência o facto de que as próprias interjeições e onomatopeias não podem ser explicadas como a expressão de reacções instintivas, mas, como verificamos pela comparação das diversas formas nas diversas línguas da mesma interjeição ou da mesma onomatopeia, são verdadeiras criações artísticas do génio fonético que as compõe em harmonia com um grande conjunto, em que tudo joga entre si, no grande e no pequeno. Mas Álvaro Ribeiro preferiu utilizar o argumento do mesmo linguista, destinado a mostrar que “a linguagem é um sistema funcional completo que pertence à constituição psíquica ou espiritual do homem”. Esse argumento é o seguinte: “Não há, a rigor, órgãos da fala. Há, apenas, órgãos que são incidentalmente utilizados para a produção da fala. Os pulmões, a laringe, a abóbada palatina, o nariz, a língua, os dentes e os lábios servem todos para esse fim; mas não podem ser considerados órgãos primordiais da fala, do mesmo modo que os dedos não são órgãos de tocar piano nem os joelhos órgãos de genuflexão religiosa”. No desenvolvimento, Eduardo Sapir rebate a tese dos psicofisiologistas que defende a localização da fala no cérebro.




D’A Arte de Filosofar até às Memórias de um Letrado vão vinte e cinco anos. Nos dois livros, a refutação por Bergson da tese que localiza no cérebro o órgão da fala e o órgão do pensamento se segue à menção do argumento de Sapir. O cérebro é um órgão de acção, de tenção à vida, de escolha de direcções activas para imagens e palavras sem lugar físico. Nenhum cientista sério, observa o filósofo citando Ombredanne, aceita hoje a teoria da localização cerebral das palavras. O pensamento é uma actividade invisível que se incorpora em palavras, por um processo análogo ao descrito na Carta sobre a Santidade para a formação do sémen.

Língua é o mesmo que diálogo; o que nos engana é o prestígio do monólogo e do monoideismo, possíveis porque há sempre outro imaginado em nós mesmos, e é essa a razão porque o lirismo no plano mental e o narcisismo no plano físico são possíveis. A moderna linguística, ao centrar o acto de comunicação na relação de um emissor com um receptor pela mensagem, e ao determinar em que condições a fonética, a morfologia e a sintaxe tornam possível esse acto, pôs o fundamento sobre o qual Álvaro Ribeiro estabeleceu a sua oarística. Sendo, pois, o diálogo uma relação de espírito a espírito, até quando o homem parece falar só, as doutrinas gnósticas que desvalorizam a palavra, julgando-a impeditiva com o pensamento que transporta e movimenta, da união inefável com que identificam o conhecimento, actuam como um obstáculo ao progresso da filosofia na república dos homens.

Língua e diálogo são o mesmo. Fora da relação de espírito a espírito não há língua, mas, diz-nos ironicamente Álvaro Ribeiro, se os animais falassem diriam o mesmo que dizem os homens que comunicam entre si diariamente. Diálogo não é, pois, o mesmo que comunicação. Se o acto linguístico é, como o determina a moderna linguística, a relação de um emissor e de um receptor pela mensagem, a qualidade desta é que decide de tudo e tal qualidade é a resultante do encontro de dois verdadeiros espíritos. Por isso mesmo, o oaristo é o diálogo mais profundo, de maior alcance gnósico, sófico e pístico. Por isso mesmo, isto é, porque na conversa íntima entre o homem e a mulher há todas as condições para tornar actual o amor (in Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005, pp. 172-175).


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