sexta-feira, 20 de maio de 2011

Linguística

Escrito por Álvaro Ribeiro



Manuel Kant



A linguística, ou ciência dos fenómenos da linguagem, é tida pela maioria dos historiadores como fundada na primeira metade do século XIX e especialmente devida aos trabalhos dos sábios alemães. Esta tese, que se encontra em qualquer compêndio de filologia, comprova a verdade de que a Alemanha, quando propôs e impôs métodos históricos para o estudo das ciências do espírito, visava a profunda transformação cultural da Europa Contemporânea. Só no estudo da política internacional, de Napoleão até aos nossos dias, poderá verificar-se se a cultura constituída e difundida pelos sábios alemães foi de proveito para os seus fundadores ou beneficiou povos mais astuciosos e mais favorecidos pela sorte.

Durante muitos séculos esteve a Alemanha subordinada à cultura greco-latina, embora por vezes contra ela reagisse em nome de um espírito nacional; mas desde que Manuel Kant, na sua Crítica da Razão Pura (1781), exarou a célebre sentença sobre a lógica de Aristóteles, ou sobre a lógica dos aristotélicos, tornou-se claro na filosofia alemã o propósito de resolver em novos termos, diferentes dos escolásticos, o problema ingente da relação do pensamento com a linguagem, quer dizer, o problema central da psicologia. O método histórico, aplicável às ciências do espírito, atribuiu maior valor à relação cinemática de antecedente a consequente do que à relação estática de sujeito e predicado, e a filosofia alemã, situando assim a causalidade na temporalidade, logo se apressou a opor a vontade certa à representação incerta, quer dizer, a opor o mundo numenal ao mundo fenomenal. Todos quantos admiramos as obras literárias de Goethe, Schiller e Novalis, todos quantos admiramos as obras científicas de Fichte, Schelling e Hegel, todos quantos admiramos as obras místicas de Eckhart, Boehme e Silésius, lamentamos que a cultura oficial alemã esteja prejudicada por demasiado apego à Terra.

A cultura europeia, em tudo quanto não significou repetição anacrónica de moldes clássicos e escolásticos, desenvolveu-se em réplica de simpatia ou de antipatia ao romantismo e ao idealismo dos Alemães, porque os outros povos do Continente não conceberam nem realizaram uma filosofia superior. A ciência «moderna» havia contribuído para a separação entre os estudos filológicos e os estudos filosóficos, causando assim a decadência e o descrédito da Escolástica. Os pensadores europeus, perturbados pelo preconceito da oposição a Aristóteles, deixaram de ver as relações de homologia e analogia que existem nas ciências do espírito, o que equivale a dizer que não viram, nem puderam ver, o significado profundo da revolução cultural levada a efeito pelo pensamento alemão.

A linguística alemã, ao redescobrir a antiga verdade, pareceu oferecer ao mundo uma revelação. Frederico Schlegel, na sua obra Uber die Sprache und Weisheit der Inder (1808), chama a atenção dos linguistas para o parentesco do sânscrito com o grego e o latim, mas também com o persa e o alemão; Jacob Grimm na sua Deutsche Grammatik (1819-1822) estudou a história fonética das línguas germânicas e induziu empiricamente as respectivas leis; Franz Bopp, que em 1820 publicava o primeiro estudo comparativo dos sistemas de conjugação, publica em 1833 a 1852 a sua obra principal que estabelece as bases científicas da gramática comparada. Ainda que para outros se reivindique prioridade ou colaboração nesta fase de estudos, como o inglês William Jones e o dinamarquês R. K. Rask, certo é terem sido os Alemães os criadores da chamada ciência linguística (1).

Interessa-nos prestar maior atenção a que, depois do idealismo e do romantismo (quer dizer, depois da morte de Hegel, ocorrida em 1831), os sábios alemães se deram ao cuidado de reconstruir a linguística românica. Não têm sido suficientemente estudadas as causas profundas do interesse dos Alemães pela história linguística do Império Romano. Seja qual for a motivação profunda, certo é que de 1836 a 1844 Federico Diez escreve a Grammatik der romanischen Sprachen, traduzida para francês em 1844, que haveria de valer de lei por muitos anos nos ambientes universitários (2).



Emílio Littré



A filologia portuguesa adopta, a partir de 1868, o positivismo alemão. É efectivamente nessa data que Adolfo Coelho publica a Teoria da Conjugação Portuguesa, seguido depois por José Leite de Vasconcelos, numa actividade que culmina na Gramática Histórica da Língua Portuguesa de José Joaquim Nunes. Estes filólogos ilustres, que professaram no Curso Superior de Letras de Lisboa, e depois na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foram efectivamente os mais fiéis representantes do positivismo alemão, ao lado de outros filólogos, também ilustres, que seguiam outras orientações, nomeadamente a de Littré (3).

Trabalhadores metódicos e incansáveis, eles reflectiam entre nós as características que o positivismo imprime na metodologia nos estudos históricos. Os Alemães, justamente porque exercitam a vontade, a paciência e a memória, no escrupuloso respeito dos documentos escritos, são exímios na compilação de verbetes, na composição de bibliografias, dicionários e enciclopédias, mas abstêm-se quanto possível de aventuras no descobrir as causas de relação ou de correlação. Esses estudos de biografia das palavras, desde o documento mais antigo até ao mais recente, acumularam-se em extensos dicionários etimológicos, aliás famosos, como o Romanisches Etymologisches Wörterbuch de W. Meyer Lübke.

Sem documentos não se faz história, dizem os positivistas que vão imitando os transformistas nas escavações paleológicas e paleontológicas. Reconhecida, porém, a prioridade da fala sobre a escrita, e consequentemente o valor da tradição, não podem os linguistas deixar de fazer conjecturas sobre as diversas alterações que cada palavra sofreu ao passar da forma mais antiga para a mais recente. A hipotética, ou metafísica, reconstrução dessas formas intermediárias (a que os linguistas, amigos de estrelas, costumam antepor um asterisco, para avisar o leitor de que em parte nenhuma da Terra viram tais formas nos documentos gravados ou escritos), é trabalho mental que pressupõe confiança nas leis naturais da fonética ou na convicção de que estas actuam com a necessidade das leis astronómicas.

Esta ilusória convicção dos linguistas tende a desaparecer na medida em que a própria fonética deixar de se cingir à descrição do aparelho fonador segundo o modelo que nos tratados de anatomia parece valer de esquema uniforme para a humanidade. Ante o reconhecimento de que a emissão de voz difere de pessoa para pessoa, ou pelo menos de que há a considerar diferenças de idade, de sexo e de raça, a classificação dos fonemas reais ou possíveis abre zonas de indeterminação, contingência e liberdade que não eram admitidas pelos positivistas. A actividade fisiológica, que é a emissão de voz, poderá ser demoradamente estudada mediante aparelhos de registo muito delicado, mas só interessa à linguística na medida em que a fala existe para um estímulo psicológico, ou seja, para uma cultura tradicional.

Também os fenómenos fonéticos, devidamente coleccionados, classificados e catalogados pelo primeiro método científico, que é o método empírico, nos parecem susceptíveis de ser subordinados a leis pelo princípio de indução. No estudo da fonética pelo segundo método científico, que é o método analítico, há que evitar a ilusão de descobrir os elementos simples e o erro de reconstruir com eles os fenómenos catalogados, porque em tudo quanto se relaciona com a antropologia os cientistas inclinam-se e precipitam-se, fazendo descer o que é psicológico à ordem do fisiológico, o que é orgânico à ordem do mecânico. No estudo dos fenómenos fonéticos há que ter presente que a imagem auditiva, transmitida por tradição, tem primado sobre as condições orgânicas de quem fala e, finalmente, sobre o resultado gráfico dos registos mecânicos, mais ou menos aperfeiçoados dos laboratórios (4).

Os documentos gravados ou escritos, obras de letrados, poderão representar o paradigma cultural oferecido à língua, visto que a língua é um orgão de cultura, mas não representam a língua tal qual se fala na respectiva época. Há, pois, que estudar a história étnica e a história política antes da história linguística. A dificuldade que ainda hoje existe em determinar os povos que habitaram o território que de há séculos se chama Portugal, e consequentemente a dificuldade de determinar os seus hábitos fonéticos, deixam insolutos muitos problemas da adaptação dos povos analfabetos à progressiva latinização do nosso vocabulário, da nossa sintaxe e da nossa lógica (5).


A Europa segundo o geógrafo e filósofo grego Estrabão.



Considerando que esta faixa ocidental da Península Ibérica foi colonizada e povoada por gente de línguas semíticas com as suas características de pronúncia e de flexão, não podemos deixar de estudar os vestígios que essa tradição deixou em todas as fases históricas da língua portuguesa. Deve-se a Teixeira de Pascoaes a doutrina admirável acerca do equilíbrio entre o elemento semita e o elemento árico na formação da mentalidade portuguesa. Há que estudar, primeiro, as línguas dos povos que estiveram nesta faixa de Península Ibérica se quisermos constituir a sério a filologia portuguesa, e devemos deixar para segunda fase a comparação com o latim e com as línguas românicas, segundo a metodologia de Além-Pirenéus e de Além-Reno.

Não é, porém, consolador o panorama actual dos estudos de filologia portuguesa. Não falando já da má organização destes estudos no quadro do ensino público, porque tal assunto foi inteligentemente discutido pelos melhores especialistas, bastará olhar de relance para o inventário das obras publicadas nos últimos anos. Em jornais, revistas e boletins vão sendo insertos alguns trabalhos que hão-de esquecer se não forem recolhidos em livros, mas entre eles avultam as notas sobre questões de ortofonia, ortografia e etimologia, materiais que aguardam o momento de serem incorporados num grande dicionário da Língua Portuguesa. Além destes trabalhinhos sobre palavras, que correspondem a uma fase já passada da ciência, não regista o bibliógrafo grande número de monografias sobre os fenómenos linguísticos, classificados segundo uma nomenclatura actual, nem consequentemente sobre os fenómenos psicológicos que justificam ou explicam os fenómenos linguísticos.

(...) Muitos indícios de reaproximação entre a filosofia e a filologia, entre os quais a opinião corrente de que não há verdadeiro filólogo sem preparação filosófica, nem verdadeiro filósofo sem preparação filológica, aguardam, porém, a inteligência que os coordene, proponha e imponha à aceitação das pessoas de mediana cultura e de influência política. Enquanto não for estabelecido, nos cursos das Faculdades de Letras, o programa de ensino que corresponde à metodologia aristotélica, enquanto a filosofia portuguesa não for ensinada pelo professor de filologia portuguesa e de literatura portuguesa, continuaremos a ignorar a significação da nossa atitude actual e histórica perante os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. Enquanto não compreendermos também que na escola secundária o mesmo professor deve ensinar língua portuguesa e filosofia portuguesa, segundo um método que garanta a união do espírito com a letra, poderemos considerar radicalmente errado o nosso sistema de ensino público (in A Razão Animada, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, pp. 61-66).


Notas:

(1) Louis H. Gray, Foundations of Language, New York, 1939.

(2) Otto Jespersen, Language - Its Nature, Development and Origin, London, 1922. A. Meillet, Linguistique Historique et Linguistique Générale, Paris, 1948-1952.

(3) José Leite de Vasconcelos, «A filologia portuguesa - esboço histórico» (1888), in Opúsculos, vol. IV, Coimbra, 1929.

(4) Rodrigo de Sá Nogueira, Tentativa de Explicação dos Fenómenos Fonéticos em Português, Lisboa, 1941.

(5) Francisco Adolfo Coelho, «Introdução sobre a língua portuguesa», in Frei Domingos Vieira, Grande diccionario portuguez ou thesouro da lingua portugueza, exposto e aberto ao publico, Porto, 1871-1874.


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