terça-feira, 31 de maio de 2011

Arte de Ser Português (ii)

Escrito por Teixeira de Pascoaes




"Camões na Gruta de Macau"



MANIFESTAÇÕES DA NOSSA ACTIVIDADE EM QUE MELHOR SE REVELA A ALMA PÁTRIA


NA LITERATURA

«Quem ler alguns dos nossos grandes escritores, Camões, Bernardim, António Ferreira, Gil Vicente, Vieira, Camilo e António Nobre, vê que a sua sensibilidade é, por assim dizer, dualista; tem essência e forma e, ante elas, vibra com a mesma intensidade. Quero dizer: a sua emoção nasce do contacto de suas almas humanas com a parte material e espiritual das coisas e dos seres contemplados. E desses dois contactos resulta uma só impressão que lhes dá vida e actividade ao génio literário» (7).

E digo génio literário, porque o escritor é muito mais espontâneo e emotivo do que intelectual (8), o que imprime verdadeiro encanto às suas obras nascidas directamente da Inspiração e para sempre animadas de íntimo calor. Elas ganham, em expressão vivente, o que lhes falta em força dialéctica e construtora de pensamento. E por isso, em Portugal, é pequeníssima a distância entre a literatura culta e a popular.

O escritor português tem o sentimento inato da Paisagem, porque ela responde às suas íntimas qualidades rácicas. Nos romances de Camilo, por exemplo, as personagens estão, para a terra natal, numa relação de parentesco apenas igualada pelas árvores... A Mariana do Amor de Perdição é a mais pura flor silvestre, a obscura flor de sacrifício nascida para ser trilhada; a pequenina Virgem das nossas povoações rurais, que tem, na sua beleza de humildade, aquele casto amor silencioso que se esconde no coração, e ali vive para não morrer...






A esta divina donzela camiliana, responde o Povo cantando:


Se eu não amo deveras,
Deus do céu me não escute,
Estrelas não m'alumiem,
A terra não me sepulte

Eu fui aquela que disse:
Ou contigo ou com a terra!
Se não casasse contigo
Queria morrer donzela

O meu coração do teu
É mui ruim de afastar
É como a alma do corpo
Quando Deus a quer levar.


A Joaninha de Garret lembra uma Flor desabrochando a ouvir cantar um rouxinol...

E a Menina e Moça de Bernardim é toda ermo crepúsculo, queixume de zéfiro outonal... É a alma etérea dos ermos em vulto de humana formosura...

Sobressaem, no romance nacional, os tipos femininos, porque a nossa sensibilidade panteísta visiona a criatura através da Natureza que é mulher.

Mas, na Poesia aparece a alma de um Povo, no que ela tem de mais profundo e misterioso.

É por intermédio dos poetas que o génio popular se vai fixando em figura viva, cada vez mais perfeita.




O poeta é o escultor espiritual de uma Pátria, o revelador-criador do seu carácter em mármore eterno de harmonia.

Devemos considerar divina a missão dos poetas, quando não mintam ao seu destino sublime.

Se a Ciência é a realidade das coisas fora de nós, a Poesia é a sua realidade dentro em nós. A Ciência vê; a Poesia visiona, transcendentaliza o objecto contemplado; eleva o real ao ideal; é criadora, e as suas criações ficam a viver, a pertencer à Natureza que, nelas, se excede e acrescenta às suas formas do domínio Científico, a beleza espiritual.

A Poesia converte matéria em espírito; e, por isso, ela intervém na criação da alma pátria, definindo e sublimando as suas qualidades, e tornando-as, ao mesmo tempo, universais e duradouras.

A obra mais representativa da Raça, por mais espontânea, é o Cancioneiro Popular. Nele transparece encantadoramente a fusão dos contrastes: dor e alegria, vida e morte, espírito e matéria, e a própria divinização da Saudade.


De qualquer sorte que existas,
És a mesma divindade;
Ventura quando te vejo
Se te não vejo, saudade!


O Cancioneiro Popular (9) não é apenas uma obra satírica e amorosa, como tem sido considerado: é, antes de tudo, uma obra religiosa, anunciando o nosso misticismo panteísta (10).


Ó sol, torna-te amanhã,
Eu quero ver-te nascer!
Só a vós é que eu adoro,
Só por vós quero morrer!

Eu sou filho das estrelas,
Junto ao céu fui criado,
Perdi-me na noite escura,
Fui em teu peito encontrado.

Meu coração é um rio
Cheio de águas, mete medo!
Seca-se o meu coração,
Rega-se o teu arvoredo!




Os versos da última quadra, de uma grandeza cósmica difícil de encontrar nos maiores poetas, traduzem a paixão do amor sulcando o coração humano como um rio caudaloso. A água do coração identificada com a das fontes! O amor e a dor disputando às nuvens a graça de fecundar e florir a terra!

No Cancioneiro há também a tragédia do Mistério:


Ó noite que vais crescendo,
Tão cheia de escuridão,
Tu és a flor mais bela
Dentro do meu coração!


Nesta cantiga se desvenda a qualidade sublime da alma popular, que integra a dor lusíada na dor universal, e é mais um aspecto do seu poder saudosista ou do seu parentesco íntimo com as coisas.

O deus Pã, o velho deus alegre das florestas, cobre-se de sombras, e aparece à alma do Povo. É o Medo profundo e mítico, povoando a noite de aparições, dramatizando fantasmaticamente a Natureza. É o medo que nos põe em convivência com o outro mundo, com as almas bem-amadas que partiram, encomendadas, de noite, pela Quaresma, dos altos píncaros solitários:


Irmãos! alerta! alerta!
Que a morte é certa
E a hora incerta!


E este medo saudoso, fonte inesgotável de Poesia, que atingiu na obra de Bocage uma das suas mais belas expressões líricas, não adquiriu ainda a sua forma verdadeira -, forma dramática e trágica; e por isso, o consideramos a origem futura de um grande teatro português.



Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage (1765-1805).



Este Medo, esta Dor fantasma, terrível por indefinida e ansiosa por inatingível, não encontrou ainda o seu Ésquilo.

O Cancioneiro Popular tão pobre como Poética, representa a maior riqueza de Poesia que possuímos. Nele vive tão inteira a alma pátria, que, pelo seu estudo, se pode reconstruir espiritualmente Portugal. E dele pode nascer o romance, o poema, a tragédia, o drama, a filosofia, a estátua, a lei do Estado.

O Cancioneiro e a obra camoniana constituem os dois fundamentos indestrutíveis da nossa Raça. Logo que a Mocidade os compreenda, subordinando-lhes o seu espírito, e obrando a profunda reforma política, religiosa, económica e literária de que a Pátria necessita para se erguer, definida e viva, da nódoa estrangeirada em que a deliram, e apagaram, então, sim, voltaremos, de novo, a ser Alguém...

E com a poesia popular estão de acordo os nossos poetas. O seu lirismo elegíaco, desde Bernardim a António Nobre é longínquo e nubloso: sebastianista. Dentro dele, paira a sombra do Mar, a Aventura na sua aurora de tristeza, a tentação do Remoto e do Mistério.

E o seu amor é o amor saudoso, o dolorido culto da mulher santificada pela ausência (11), contemplada através de uma lágrima que lhe transmuda o corpo carnal em vulto de lembrança. O coração português adora, sobretudo, a imagem da bem-amada. Na sua íntima tendência mística despe a mulher do hábito material e transitório, e adora-a, extasiado, em alma ou presença de saudade.


Chamaste-me a tua vida,
Em tua alma quero ser!

Cancioneiro Popular


Este amoroso platonismo, este vago sentido etéreo das coisas na sua pureza imaterial e original, dá uma delicadeza divina à obra lírica da Raça, e é um sinal da sua religiosidade saudosista. Por isso, todos os nossos líricos verdadeiros são poetas místicos. Divinizam o Amor, imaterializando o seu objecto, por meio de uma ausência real ou imaginária.

Tal sentimento da Mulher anima o nosso culto à Virgem Maria que se humaniza e aproxima de nós, com o Menino Deus nos braços, ou jaz de dor aos pés da Cruz. É a Esposa casta e a Mãe amantíssima, alma da Família, pessoa espiritual de Deus:


E teu filho, madre, esposa,
Horta nobre, frol dos céus,
Virgem Maria.
Mansa pomba gloriosa,
Ó quão chorosa,
Quando o seu filho e Deus
Padecia!

Gil Vicente


Pois que seria, Virgem, quando vistes
Com fel nojoso e com vinagre amaro
Matar a sede ao Filho que paristes!

Camões






O idealismo saudoso, no qual se fundem o espírito e a matéria, a vida e a morte, é o nosso próprio misticismo,


Adeus, minha saudade,
Espelho do meu sentido (12).


a essência do nosso Cristianismo (in ob. cit., pp. 65-73).


Notas:

(7) Cfr. O Espírito Lusitano, p. 9, e O Génio Português, Ed. da Renascença Portuguesa, Porto, 1913, p. 17.

(8) Eis porque a ideia subentendida na Raça, o nosso «ideal colectivo» derivante da nossa natureza moral, vive disperso em nuvens de sentimento e vagas claridades instintivas, na Arte e na Literatura. Daí a sua existência ignorada e incompreendida, que tanto compromete o progresso moral da Pátria, que hesitou no seu caminho, transviando-se.

(9) Cfr. o meu artigo «Camões e a Cantiga Popular», in A Águia, vol. III, p. 177.

(10) Há portugueses que chamam a este ingénito misticismo da nossa raça nebulosidades germânicas!!!

(11) Eis a nossa costela quixotesca. Na verdade, Dom Quixote, no seu divino criador, Miguel Cervantes, participa da alma galega, nossa irmã nos velhos celtas. Daí o seu valor peninsular. A Saudade não é estranha a Dom Quixote, e Cervantes adorou Camões.

(12) Cfr. o citado Cancioneiro Popular.







Dulcineia del Toboso


Continua


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