quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Bateleur (iii)

Escrito por António Telmo







HISTÓRIA SECRETA DA LINGUÍSTICA

Veio o dia, finalmente, em que o antiquário me expôs, com todos os pormenores, a sua teoria da conspiração, até ali apenas insinuada em tudo o que dizia.

As suas ideias neste domínio lançaram-me num mundo de perplexidades. Darei o relato do que me disse e, só depois, mostrarei as conclusões a que cheguei pessoalmente. O que lhe ouvi foi o seguinte.

A linguística nasceu na Alemanha no início do século XIX. Foi imaginada com o fim de fabricar um instrumento suficientemente poderoso para destruir o prestígio da língua hebraica e a glória do seu alfabeto. Esse instrumento recebeu o nome de Fonética.

Porquê a Fonética? Porque só pela Fonética a linguística pôde estabelecer-se como uma ciência exacta e, portanto, irrefutável. A língua, pois que é o domínio de uma actividade invisível e imprevisível, só pelo seu aspecto material parece poder tornar-se acessível a uma manipulação de tipo científico, entendendo por científico aquilo que Kant definiu com a sua distinção dos nómenos e dos fenómenos. A teoria do conhecimento kantista reflecte-se na esfera da linguística na oposição dos nomes e dos fonemas. A semelhança fonética entre nome e nómeno e entre fonema e fenómeno não é apenas ocasional. Se, no domínio da natureza, só há uma ciência possível que é a que tem por objecto os fenómenos, no domínio que é a da linguística só há uma ciência possível, a dos fonemas. Os nomes aparecem-nos como fonemas do mesmo modo que os nómenos nos aparecem como fenómenos, permanecendo ali onde são a coisa em si incognoscíveis. Os fonemas, dado que constituem a materialidade da língua, podem ser contados, pesados e medidos. São determinações quantitativas. Além disso, são produções do corpo humano, ali onde ele funciona mecanicamente como aparelho físico emissor de sons. Pela Fonética, a separação da língua e do pensamento foi facilmente feita. A partir daqui, só houve que encontrar as leis que presidem às relações e às transformações dos fonemas.

Ao constituir-se, a Fonética atirou para o passado, isto é, fez passar à história, a concepção da língua que estava implícita na existência dos alfabetos semitas. Estes alfabetos não registam as vogais. As consoantes são concebidas como destituídas de som; só soam com uma vogal e, por isso, receberam dos antigos gramáticos o nome de consoantes. Por aqui se vê que o que imediatamente distingue a linguística da Kabbalah é a diferença entre a língua entendida como fonação e a língua entendida como audição. Os macacos não falam nem podem falar não é porque não possuam orgãos capazes de proferirem sons, mas porque não têm ouvidos para fonemas. É o facto de o homem possuir o ouvido que falta no macaco que lhe permitiu adaptar e utilizar, para a emissão e formação de palavras, orgãos que a natureza não produziu para falar, mas para comer, beber e respirar.




O fonema não é, pois, apenas um som; é um sentido. A Fonética apreende dele só a sonoridade, aquilo que nele é susceptível de conta, peso e medida.

Para evitar confusões, deveríamos dar aos fonemas o nome de elementos, como o faz Platão, para quem só as vogais são vozes (tá phonéênta). Os elementos, no sistema de interpretação da língua, que é o alfabeto hebraico (e todos os alfabetos semitas), são visíveis pelas letras e tornam-se sonoros pelas vogais. Antes da fala, está a escrita. Dada a fala, é a escrita que a interpreta. Daqui a importância, na Cabala dos gregos ou dos hebreus, dos textos sagrados ou poéticos.

Compreende-se assim que a Fonética, tal como foi concebida e formulada pelos alemães, combata metodicamente todas as classificações antigas dos fonemas, que procediam da letra para o som, e, em consequência, institua como seu único objecto a fala comum, a fala de toda a gente. Com efeito, só aqui a materialidade da língua se oferece plenamente. Compreende-se também que o registo das vogais no alfabeto feito, a primeira vez na história, pelos gregos seja por eles aplaudido como algo de profundamente decisivo para o progresso da cultura humana. Como se sabe, ou como se diz, os gregos receberam dos fenícios o seu alfabeto, mas introduziram nele as vogais.

Todavia, para realizar o segundo intento, o desprestígio da língua hebraica, a Fonética apresentou-se como uma ciência histórica e, como teve que lidar com línguas mortas, isto é, que não são actualmente faladas e de que se ignora a verdadeira pronúncia do tempo em que eram vivas, separou-se aqui daquele princípio sobre o qual se constituíra e teve de deduzir os fonemas falados dessas línguas, principalmente do latim, através das letras gravadas nos textos dos escritores. O seu verdadeiro fim estava, porém, em mostrar que o alemão e todas as línguas da Europa derivavam por sucessivas transformações de uma língua primitiva que recebeu o nome de indo-germânico. Mais tarde, os linguistas substituíram esta designação por outra mais compreensiva, a de indo-europeu.


O sânscrito, também chamado antigo indiano pelos alemães.


A associação da Germânia à Índia apareceu como cientificamente justificada pela descoberta do sânscrito, isto é, pela verificação de que o sânscrito pertencia à mesma família de línguas, àquela família que, por este caminho, se pretendia separar da família das línguas semitas. Aquilo que já estava presente na filosofia germânica e a caracterizava, o seu pessimismo orientalista, recebeu assim uma prova insofismável no campo da linguística.

Goethe tinha dito: "Eles têm o seu Adão e a sua Eva; nós temos os nossos". A linguística vai mais longe: o hebreu não só não é a língua mãe de todas as línguas, como se pretendeu durante tantos séculos, como é apenas uma língua ao lado de outras (o árabe, o fenício, etc.) formando o grupo semita, do qual existirá também uma matriz perdida no tempo, completamente distinta da que é o indo-europeu.

A Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas foi publicada nos primeiros anos do século XIX. Algum tempo depois, Diels, outro alemão, estabeleceu a gramática comparativa das línguas românicas, pela qual se tornou um dogma científico a proveniência latina de todas elas. O século XIX foi, em linguística, o século da Fonética. Cem anos foram mais do que suficientes para que os fins propostos se realizassem.

Em 1916, um século preciso depois de Bopp, são publicadas as lições de Ferdinand Saussure com o título de Curso de Linguística Geral. Na mesma altura, Eduardo Sapir escreveu o seu magnífico livro sobre A Linguagem. Ambos reagem contra a doutrina, defendida na Alemanha por Hitler e na Inglaterra e na França pelos darwinistas, que explica a origem da língua pelas interjeições e pelas onomatopeias. O problema da origem da linguagem humana, dirá mais tarde Emílio Benveniste, é um falso problema. A única coisa de que podemos ter a certeza é de que onde quer que tenha havido sociedade sempre houve língua. Esta é, dizem todos os estruturalistas, um fenómeno social. Falar é comunicar.

Contra a tese da origem interjeicional e onomatopaica, Saussure vem afirmar que o significado e o significante estão de costas voltadas um para o outro. A Fonética, na medida em que ignora o significante ou se mostra incapaz de lá chegar, deve ser expulsa dos estudos linguísticos para ser integrada no domínio das ciências acústicas. Saussure propõe que, em seu lugar, seja estudada outra ciência, a Fonologia, em que os sons da voz humana possam ser classificados pela sua capacidade de distinção de significados. Em vez de fonema, começa a falar-se de traço distintivo. Os fonemas não significam, mas compõem entre si estruturas que funcionam como distintivos de significações. Classificados por este modo os sons da voz (o humana estava a mais), verifica-se que são muito poucos. Observa Saussure que os alfabetos são óptimas classificações dos traços distintivos.

Foi, mais ou menos isto, o que ouvi a Tomé Natanael. Ele via no estruturalismo o sinal de uma reacção judaica contra a linguística alemã, manifesta no repúdio da Fonética que cindia a língua do pensamento, na reabilitação dos alfabetos, na concepção da linguagem como comunicação que irmanava todos os homens no movimento messianista de criação de um verdadeiro universalismo.


AS PERPLEXIDADES DO APRENDIZ

As minhas cogitações, depois de lhe ter ouvido expor o que ele chamava a "história da linguística", tomaram um aspecto que vagamente me assustava. A velha história, renovada por Freud, de que o discípulo deseja subconscientemente a morte do mestre começava a esboçar-se. É uma sabedoria que parece dar razão àqueles que dizem ter sido Judas o discípulo amado de Cristo.

Bíblia Hebraica


Sentia em mim, embora ainda sob forma indecisa, qualquer coisa que nascia e lhe dizia "não ". Interroguei-me se o que estaria lá no fundo não seria o acordar do ódio latente do cristão-velho ao cristão-novo, aquele ódio antigo que faz de Portugal uma alma dividida e dilacerada. Tudo parecia passar-se no plano lúcido das ideias, mas não aprendera eu com Tomé Natanael que as acções são menos activas do que os pensamentos?

Eu sentia que, se seguisse pelos seus caminhos, me fixaria na medíocre subserviência do meu pensamento. Sabia, porém, que, enveredando por outros caminhos, teria de manter-me fiel à mesma estrela para que diante de mim se abrissem horizontes vastos como mares. A mesma estrela guia os navegantes, até quando vão por rotas contrárias.

O estruturalismo, sobretudo pela influência de Ferdinando Saussure e de Noam Chomsky, parecia-me bem mais perigoso do que a Fonética.

Não vou expor tudo o que pensei neste sentido. Direi apenas o essencial.

Quando Saussure funda o estruturalismo sobre a relação do significante com o significado, defende, afinal, aquilo que Hermógenes, vinte e três séculos antes, dissera no Crátilo sobre o convencionalismo dos nomes e, como o próprio antiquário me fez ver, Sócrates, condoído dele, leva-o pela mão até à porta do templo de Hermes. Se algum dia chegou lá a entrar, pôde então ver aquilo a que alude Sócrates no fim do diálogo, que os nomes primitivos ou elementares nasceram da contemplação e da imitação das ideias, que esses nomes-elementos compõem-se para formar a indefinida variedade dos nomes e dos verbos, que estes, ligando-se uns com os outros, dão origem às frases e que estas, caindo no domínio em que os homens fazem da língua um uso prático, são todo o sentido para as palavras que, de facto e só então, passam a funcionar como convenções. Saussure tem razão no plano em que se situa, mas também Hermógenes tinha.





A segunda coisa que Saussure fez foi explicar a frase como uma estrutura de sintagmas em que as palavras funcionam como convenções e não têm um sentido que seja seu, seu por ser o dos fonemas que a constituem. O seu sentido resulta da relação entre os sintagmas, relação em que verbos, nomes, preposições, advérbios estão em pé de igualdade, nenhum por si só faz o sentido e nenhum é por si só condição de haver frase. É assim que o estruturalismo julga atingir o fim para que foi criado: o assassínio do verbo.

E, todavia, o contrário é que é verdade, por mais simples e menos científico que se nos ofereça. Se eu digo "chuva", sem verbo subentendido, não digo nada; se eu digo "chove" toda a gente me entende. O verbo por si só pode formar uma frase; o nome não pode. Este facto corresponde, no domínio da morfologia, ao que se dá, em fonética, na relação das vogais e das consoantes. Se o verbo é a potência que transforma todas as outras palavras da frase em actos, compreende-se que se possa dizer o mesmo das vogais e das consoantes. Só a vogal é capaz de por si só formar uma sílaba; as consoantes tornam-se actos da voz pela potência sonora das vogais.

A crítica de Tomé Natanael à Fonética, por ter anulado a diferença de natureza da vogal e da consoante, deveria alargar-se ao estruturalismo por ter feito o análogo em morfologia.

Noam Chomsky levou ao extremo o caminho aberto por Saussure. Linguística geral o que é? É uma linguística ideal para todas as línguas. Chomsky pretendeu encontrar as fórmulas universais que explicassem todos os comportamentos do fenómeno linguístico, assim como quem quer estabelecer um sucedâneo da Física neste domínio. Identificou os conteúdos das fórmulas, formas ou formas (por favor, feche o o).

Ao menos, a Fonética estabeleceu leis a posteriori. Observou e comparou fenómenos, viu como eles se comportavam nestas e naquelas condições, deu-nos com essas leis uma ciência que perdurará enquanto perdurarem os fenómenos. Tomé Natanael acusava-a de ter "materializado" a língua. Mas o génio de uma língua, o seu espírito, o que faz que seja esta língua e não outra, não residirá precisamente nos seus fonemas, no modo como eles se associam e se repelem, no modo como vivem? Se eu ouvi um dia falar chinês, alemão, inglês e tenho bom ouvido, se volto a ouvir falá-las, saberei reconhecê-las, mesmo que não identifique uma palavra.


Mosteiro dos Jerónimos





Uma língua é, de facto, o seu génio fonético. Toda a morfologia em português resulta da acção desse génio criando ritmos para a significação. Onde isto se verifica com maior evidência é no domínio da conjunção verbal.

Há dois verbos em português que constituem o melhor exemplo do que afirmo: o verbo ser e o verbo ir. As formas destes verbos provêm de temas de verbos diferentes. O verbo ser provem de esse e de sedere; o verbo esse transporta do latim a raiz fu para as formas do perfeito. O génio fonético de Portugal formou de todas essas diferenças o mais harmonioso dos sistemas.

Não comuniquei a Tomé Natanael estas e outras reflexões que corriam no mesmo sentido de oposição às suas teses. Guardei-as comigo. Não que eu temesse a sua crítica. Aquelas ideias eram tão evidentes em mim que também não me sentia atraído pelo seu aplauso. O discípulo começava a libertar-se do mestre.

O que é que Tomé Natanael me diria se eu lhe confessasse isto? (in ob. cit., pp. 37-46).


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