segunda-feira, 16 de maio de 2011

Da filosofia e da sofística (ii)

Escrito por Platão



Templo de Hefesto (Ágora de Atenas).


- Não devemos analisar de seguida, porque é inevitável a degeneração da maioria e tentar demonstrar, se o conseguirmos, que a filosofia também não tem culpa disso?

- Devemos sim.

- Comecemos por recordar o ponto de partida na nossa descrição das qualidades naturais que deve ter o que virá a ser um homem belo e bom. Se bem te lembras, a primeira era a amizade pela verdade, que ele devia sempre e na totalidade demandar, sob pena de ser um impostor, que não participaria da verdadeira filosofia.

- Sim, afirmou-se isso.

- Não é este um ponto em completa oposição com o que de comum se pensa a respeito do filósofo?

-É, de facto.

- E acaso não seria uma apologia adequada, dizermos que aquele que tem um verdadeiro amor do saber, tem uma natural disposição para lutar pelo Ser, e que, longe de se deter nos muitos aspectos particulares que não existem senão em aparência, prossegue sem desfalecer e não desiste do seu amor até alcançar a natureza de cada Ser em si, pela parte da sua alma à qual é dado atingi-lo - porque a sua origem é a mesma - e que depois de se aproximar e unir ao verdadeiro Ser, e de ter dado à luz a inteligência e a Verdade, poderá alcançar o saber e viver e alimentar-se da verdade, assim cessando o sofrimento da sua alma, mas não antes disso?

- Nenhuma defesa poderia ser mais adequada.

- Ora, este homem terá qualquer inclinação para pregar a mentira, ou, pelo contrário, odiá-la-á?

- Odiá-la-á - respondeu.

- E quando a verdade é o corifeu, não creio que se possa dizer que leve atrás de si um coro de vícios.

- Como poderíamos dizê-lo.

- Mas que, pelo contrário, vem atrás dela um carácter são e justo, ao qual se junta a temperança.

- Certo.

- Que necessidade há, então, de repetir desde o princípio a nossa prova da necessária ordem do coro da natureza filosófica? Lembras-te, com certeza, que concordámos em que as qualidades que lhe pertenciam eram a coragem, a grandeza de alma, a facilidade para aprender, a memória. Objectaste-me que seria impossível que toda a gente não fosse compelida a admitir as nossas razões, mas que, se abandonassem as palavras e fixassem os olhos nos filósofos a quem as palavras se referiam, diriam que, dentre esses, alguns eram inúteis, e a maioria inteiramente depravada. Foi examinando a causa desta acusação que chegámos à questão presente: por que será que a maioria é má? E, por atenção a isto, retomámos a questão da natureza dos verdadeiros filósofos e fomos obrigados a defini-la.

- É isso - disse ele.

VI. - Temos agora de contemplar as causas da corrupção deste carácter, como se deteriora na maioria, e quão poucos lhe escapam, aqueles a quem não chamam perversos, mas inúteis; e, depois disso, consideraremos a natureza daquelas almas que, tendo alcançado uma profissão demasiado elevada e além das suas capacidades, pelas muitas desarmonias da sua conduta em todo o lado e de todos os modos, trouxeram à filosofia a reputação de que falas.

- De que causas de corrupção estás a falar?

- Tentarei explicar-tas, se for disso capaz. Penso que toda a gente nos concederá este ponto: que uma natureza, tal como acabámos de postular para o perfeito filósofo, é rara entre os homens e apenas se encontra em poucos. Não te parece?

- Absolutamente.

- Observa o número e a magnitude das coisas que conspiram para corromper esses poucos.

- Quais são?


Atenas

- O facto mais surpreendente de todos é que, cada uma das qualidades dessa natureza que louvámos, tende a corromper a alma do que as possui e desvia-a da filosofia. Estou a falar da coragem, da temperança e de todas as virtudes que enumerámos.

- Isso soa a paradoxo.

- Além destes, todos os chamados bens corrompem e desviam a alma da filosofia: a beleza, a riqueza, a força física, as grandes alianças familiares contraídas na Cidade e todas as vantagens similares. Tens aí uma ideia geral do tipo de coisas de que estou a falar.

- Compreendo, mas de bom grado ouviria uma explicação mais precisa.

- Considera correctamente - prossegui - o que é a corrupção em geral; e então far-se-á luz no teu espírito e não te parecerá tão estranho o que antes se disse a tal respeito.

- Como queres que proceda?

- Sabemos ser uma verdade universal que toda a semente ou rebento, de planta ou de animal, que não obtiver alimento, nem a estação, nem o lugar que lhe convenha, quanto mais forte for, tanto mais padece a privação dessas vantagens, pois o mal é mais oposto ao que é bom do que ao que não é bom.

- É claro.

- É então lógico, segundo me parece, que a melhor natureza, alimentada de modo diferente do que lhe convém, se torne pior do que uma natureza medíocre.

- É lógico.

- Logo, ó Adimanto, não devemos de igual modo afirmar que as almas mais bem dotadas, se acaso se lhes deparar uma má educação, se tornam eminentemente más? Ou supões que os grandes crimes e a maldade pura têm a sua origem numa natureza medíocre e não numa natureza forte, corrompida pela educação, e que uma natureza débil jamais seja causa de grandes bens nem de grandes males?

- Não. É, assim, como dizes.

- Por conseguinte, a natureza que assumimos ser a do filósofo, se receber o ensino que lhe convém, é necessário que, desenvolvendo-se, atinja a virtude sob todas elas as suas formas; se, porém, for semeada, ganhar raízes e crescer num terreno não propício, o resultado será precisamente o contrário, a menos que algum deus venha em seu socorro. Ou acreditas também como a maioria, que há jovens corrompidos pelos sofistas, e que certos sofistas de modo particular corrompem, sem atingir um ponto digno de menção? Não pensas antes, que esses que tal afirmam são os maiores sofistas e educam com mais perfeição e modelam segundo o desejo do seu coração, novos e velhos, homens e mulheres?

- E quando é que o fazem? - perguntou.

- Quando - prossegui - se sentam juntos, em multidão, nas assembleias políticas ou nos tribunais, nos teatros ou acampamentos, ou em qualquer outra reunião pública numerosa e, com grande alarido, censuram algumas das coisas que são ditas e feitas e aprovam outras, sendo excessivos em ambas, quer na gritaria quer nos aplausos e, além disso, os rochedos e os lugares onde se encontram fazem-lhes eco, duplicando o ruído da censura e do louvor. Num tal caso, como pensas que se comportará o coração do jovem de que falávamos? Que educação particular pensas que resistiria, e não seria arrastada submersa pela torrente de censura e louvor? E não virá a julgar como eles sobre o que é belo e feio, e não fará como eles fazem, e não será até semelhante a eles?




- É inevitável que assim seja, ó Sócrates.

VII. - E, além do mais, não mencionámos a mais violenta de todas as necessidades.

- Qual?

- Aquela que esses paideutas e sofistas lhes impõem pela acção, quando não persuadem pela palavra. Ou não sabes que castigam com a atimia [perda total ou parcial dos direitos cívicos], com multas e a morte quem não se deixou persuadir?

- Sim, sei.

- Que outro sofista ou que ensino particular pensas que prevaleceria em oposição a estes?

- Nenhum, ao que julgo.

- Nenhum, com efeito, e seria uma grande tolice tentá-lo. Porque um carácter não se altera, jamais se alterou e jamais se alterará, no respeitante à virtude, tendo sido educado em princípios opostos aos dessa gente, humanamente falando, companheiro; é que, tratando-se de um carácter divino, pô-lo-emos, como diz o provérbio, fora de causa. Deves saber que tudo o que se salvar e se tornar como deve ser, na presente condição de governo, se afirmares que deve a sua salvação a um favor especial do deus, não estarás a dizer mal.

- Nem eu penso de outro modo.

- Há um outro ponto em que, julgo, partilharás do meu pensamento.

- Qual?

- Que cada um destes paideutas privados que trabalham para serem pagos, a quem os políticos chamam sofistas e olham como rivais, nada mais inculcam do que estas opiniões da maioria, que eles propõem quando se reúnem em assembleia, e chamam a isso ciência. É como se um homem, que tenha de criar um animal grande e forte, depois de lhe ter observado com minúcia os humores e desejos, por onde deve aproximar-se dele e por onde lhe tocar, quando e por que é mais selvagem ou meigo, e a propósito de quê tem o hábito de emitir cada um dos sons, e que vozes dos outros o amansam ou irritam, e após ter adquirido estes conhecimentos com a convivência prolongada com a criatura, lhes chamasse ciência e os sistematizasse para fazer deles objecto de ensino, nada sabendo na verdade sobre quais destas opiniões e desejos é belo ou feio, bom ou mau, justo ou injusto, mas aplicando todos estes termos de acordo com as opiniões do grande animal, chamando de boas às coisas que lhe dão prazer, más às que ele detesta, sem ter qualquer outra razão para tanto, confundindo o justo e o belo com as necessidades da natureza, porque a diferença essencial que existe entre o necessário e o bem, jamais a viu, nem é capaz de a explicar a outrem. Não te parece, por Zeus, que um tal homem seria um estranho mestre?

- Sim, parece-me.

- Pois bem, supões que há alguma diferença entre este homem e o que faz consistir a ciência em conhecer os instintos e prazeres da heterogénea multidão reunida em assembleia, quer seja em pintura, em música ou em política? Se um homem comparecer perante esta assembleia, para lhe oferecer e exibir a sua poesia, ou qualquer outra obra da sua arte, ou um projecto de serviço público, e se submetesse ao juízo dessa multidão, mais do que é necessário, a proverbial necessidade de Diomedes, compeli-lo-á a dar ao público o que ele gosta. De que isso seja verdadeiramente bom e belo, já alguma vez ouviste a alguém deste grupo dar uma razão que não seja ridícula?

- Não, e creio que jamais a ouvirei.

VIII. - Agora que tens tudo isto em mente, lembra-te do seguinte: há algum meio de fazer perceber ou reconhecer à multidão, que é o belo em si que existe, mas não a multiplicidade das coisas belas, que é cada coisa em si que existe, mas não a pluralidade das coisas particulares?

- Não há - respondeu.

- Por conseguinte é impossível que a multidão seja filósofa.

- Impossível.

- É então inevitável que os filósofos sejam censurados pela multidão.

- É inevitável.


Sócrates


- E também pelos particulares que, associando-se com a multidão, lhe desejam captar as boas graças.

- É óbvio.

- Partindo deste ponto de vista, que meio de salvação vislumbras para uma alma filosófica, de modo que possa preservar na sua ocupação e atingir a sua finalidade? Considera-o à luz do que dissemos antes. Concordámos em que a facilidade de aprender, a memória, a coragem, a grandeza de alma eram o apanágio dessa natureza.

- Sim.

- Uma pessoa assim dotada, não será desde a infância o primeiro entre todos, sobretudo se a natureza do seu corpo corresponder à do seu espírito?

- Como não há-de ser assim?

- Os seus familiares e concidadãos, desejarão, presumo, fazer uso dele quando for mais velho, para os seus próprios negócios.

- É claro.

- Hão-de prostrar-se a seus pés, com petições e honrarias, antecipando e lisonjeando com antecedência o seu futuro poder.

- É assim que é hábito proceder.

- Como julgas que um tal homem se comportará em tais condições, sobretudo se se der o caso de ser natural de uma grande Cidade, se for rico e nobre, e, além disso, bem parecido e alto? Acaso não se encherá de esperanças impossíveis, imaginando-se capaz de administrar Gregos e bárbaros e não se elevará ainda por cima às alturas, abandonando-se ao fausto e ao vão orgulho, sem dar lugar à reflexão?

- Sim, seguramente.

- E se a um homem nesta embriaguez, alguém, aproximando-se dele com doçura, lhe disser a verdade, que não tem senso e que bem precisa dele, e que o único modo de o adquirir é trabalhar como um escravo para o ganhar, acaso julgas que lhe será fácil escutar-te, no meio de tantas ilusões funestas?

- Longe disso - respondeu.

- E, supondo ainda que devido à sua boa natureza e à sua afinidade com as palavras de advertência, ele seja capaz de lhe perceber a força e seja moviddo e arrastado para a filosofia, que conduta, supomos, será a daqueles que pensam que vão perder os seus serviços e a sua amizade? Todas as acções, todos os discursos, não os dirão e farão, quer junto dele para o impedir de ser persuadido, quer junto do seu conselheiro para aniquilar os seus esforços, quer armando-lhe ciladas na sua vida privada, quer intentando-lhe processos nos tribunais?

- É inevitável.

- Ora bem, existe alguma possibilidade de que um homem nestas condições continue a filosofar?

- Nenhuma.

IX. - Vês - prossegui - em que não estávamos errados, ao afirmar que as próprias qualidades de que é feita a natureza filosófica, quando o ambiente e a educação são maus, se tornam de certo modo, a causa da sua recaída, assim como os chamados bens, as riquezas e vantagens do mesmo género?

- Não, não errámos - respondeu - pelo contrário, dissemos bem.

- Eis, meu espantoso amigo, o exacto e verdadeiro modo como a melhor das naturezas se perde e corrompe pela melhor das profissões, natureza aliás bem rara, como dissemos. É de homens deste tipo que provém os que fazem o maior mal às cidades e aos particulares, e os que fazem o maior bem, quando se dá o caso de se deixarem virar para aquela direcção. Mas uma natureza medíocre jamais fará algo de grande a um particular ou a uma Cidade.

- É bem verdade - respondeu.

- Ora, esses que assim decaem de um estudo que lhe convinha de modo eminente, deixaram a filosofia desamparada e solteira, vivendo uma vida que não convém à sua natureza nem é verdadeira, enquanto outros indignos pretendentes, entram em casa dela, tal como se fosse uma orfã sem parentes, a desonram e cobrem de tais opróbrios, como aqueles que dizes dirigirem-lhe os que a censuram, declarando que alguns dos seus consortes, uns nada valem e a maioria são dignos de todos os males.

- Sim, é isso o que se afirma, com efeito.


Cariátides do Templo de Erectéíon - Acrópole

- E é plausível que se diga - declarei -. De facto, outros homens, de qualidade inferior, observando que o lugar está desocupado, e cheio de belos nomes e pretensões, semelhantes aos prisioneiros evadidos da prisão que tomam santuário nos templos, todos contentes, apressam-se a abandonar as artes mecânicas para a filosofia; e são justamente esses os mais hábeis na sua ocupaçãozinha. Pois em comparação com as outras artes, o prestígio da filosofia, até no seu presente baixo estado, conserva uma superior dignidade; e esta é a ambição e a aspiração daquela multidão de pretendentes imperfeitos por natureza, cujas profissões e ofícios lhes deformaram os corpos, do mesmo modo que se alquebraram e mutilaram as suas almas devido aos seus labores manuais. Não é inevitável que assim seja?

- É, sim - respondeu.

- Ao vê-los, não dirás que se parecem com um ferreiro calvo e baixo que, tendo ganho algum dinheiro, e tendo acabado de ficar livre de algemas, se vai lavar ao banho público, veste um manto novo e, trajado como um noivo, pretende desposar a filha do seu mestre, devido a ter caído na pobreza e abandono?

- Não há diferença alguma.

- Que espécie de seres é provável que sejam procriados por pessoas dessas? Não será bastardos e definhados?

- É inevitável.

- E quando homens inaptos para a educação se aproximam da filosofia e, apesar da sua indignidade, vivem com ela, que espécie de pensamentos, que opiniões, diremos que podem parir? Não será o que de verdade merece ser chamado sofisma e nada que seja genuíno ou participe de um verdadeiro saber?

- Exactamente - disse ele.

X. - Resta ó Adimanto, - prossegui - um bem pequeno número dos que são dignos de desposar a filosofia, a não ser qualquer nobre espírito aperfeiçoado pela educação, retido pelo exílio longe da sua pátria e que, na ausência de corruptores, permanece por natureza fiel à filosofia; ou pode acontecer que uma grande alma nascida numa pequena Cidade, menospreze a administração e não se interesse por ela; e, talvez, um pequeno grupo que, afastando-se justamente de outra arte que desprezam, vêm para a filosofia, para a qual a natureza os dotou. Oxalá que o freio do nosso companheiro Teages também possa aguentar alguns outros. Pois no caso de Teages, tudo quanto há se reuniu para o fazer descer da filosofia, mas os cuidados de uma saúde precária o retêm e afastam da política. Quanto ao meu próprio caso, o sinal divino [o daimon], não vale a pena que dele se fale, pois suponho que poucos ou ninguém o teve no passado. Os que se tornaram membros desse pequeno grupo, provaram a doçura e beatitude de um tal bem. Ao mesmo tempo deram-se conta da loucura da multidão, e que não há, se o posso dizer, nada de sensato em qualquer actual governo das cidades, nem há aliado com a ajuda do qual possam prestar socorro à justiça, sem se expor à morte. Antes - como se fosse um homem que tivesse caído no meio de bestas selvagens, recusando-se a colaborar nos seus desmandos e incapaz de resisitir sozinho à sua selvajaria - perecerá sem ter prestado qualquer serviço à Cidade ou aos amigos, sem vantagem, nem para si, nem para os outros. Por todas estas razões, afirmo que o filósofo se mantêm tranquilo, não se ocupando senão dos seus afazeres, como um viajante que, surpreendido por uma tempestade, se abriga do turbilhão de poeira e de chuva, levantados pelo vento, atrás de um muro. Ao ver os outros alagados em injustiça, sente-se feliz, se de algum modo puder viver neste mundo, puro de injustiça e de impiedade, e se desta vida se libertar sereno e em paz, com uma bela esperança, quando chegar o fim.

- Com certeza - confirmou - que tal libertação não seria consequência de ter feito pouco.

- Nem seria também por ter feito o máximo - retorqui - uma vez que não lhe coube em sorte a governação conveniente à sua natureza; se estivesse onde lhe cumpria, ele, pessoalmente, atingiria a sua plena estatura e, com os seus próprios interesses, asseguraria a salvação dos da comunidade.

XI. - Quanto à causa e à injustiça das calúnias dirigidas contra a filosofia, penso que já dissemos o bastante, a menos que tenhas algo a acrescentar.

- Não, nada mais tenho a dizer sobre esse ponto. Mas qual dos actuais governos entendes ser conveniente à filosofia?

- Nenhum - respondi - o próprio fundamento da minha queixa é que nenhum dos actuais sistemas constitucionais é merecedor do carácter de um filósofo. Esta é a causa da sua perversão e alteração; tal como uma semente estranha semeada num solo diferente, se desnatura e adapta ao solo indígena que a submete à sua lei, também esta espécie, nas actuais condições, não preserva a qualidade própria, mas degenera noutro carácter. Mas, se alguma vez vier a encontrar uma constituição cuja excelência corresponda à sua, será notório que ele era na verdade divino, e o resto - caracteres e ocupações - humano. É óbvio que, de seguida, me vais perguntar qual é a melhor forma de constituição.

- Enganas-te; não ia perguntar-te isso, mas se é a constituição de que delineámos o plano ao fundar a nossa Cidade, ou uma outra.

- É essa mesma, em todos os aspectos, excepto num especial que já antes mencionámos, quando dissemos que deveria haver, residindo numa tal Cidade, uma autoridade que tivesse uma concepção da constituição idêntica à que tu, o legislador, possuías quando elaboraste as leis.

- Dissemo-lo com efeito.

- Mas não ficou esclarecido, de modo suficiente, por receio de que as vossas objecções provassem a extensão e dificuldade da demonstração, sem contar que o que falta expor, não é de modo algum fácil.

- Do que se trata?

- Do modo como a Cidade que se ocupa da filosofia pode escapar à destruição. Pois todos os grandes empreendimentos são precários e, como o adágio diz com verdade, o que é belo é difícil.

- Ainda assim, não deixes de completar a demonstração, esclarecendo este assunto.


Atenas vista da Acrópole (Templo de Hefesto em baixo).

- Se não o chegar a fazer, não será por falta de vontade - disse - mas por não o poder. Reconhecerás, por ti mesmo, o meu zelo. E, repara ainda, com quanto ardor e audácia me preparo para afirmar que a Cidade se deva ocupar do estudo da filosofia, exactamente ao contrário do que faz agora.

- Como assim?

- No presente - disse - os que encetam estes estudos são adolescentes, acabados de sair da infância, que no intervalo antes de chegarem à economia doméstica e aos negócios, se aproximam da parte mais difícil e logo dela se afastam - e são estes que são olhados como os melhores filósofos. Pela parte mais difícil entendo a dialéctica. Depois disto, eles julgam fazer muito se, quando convidados, condescendem em ouvir as discussões filosóficas dos outros. É que estão persuadidos que a filosofia não deve ser mais do que um passatempo. Com a aproximação da velhice e, com raras excepções, a sua luz extingue-se muito mais do que o Sol de Heraclito, na medida em que não se tornam a acender.

- E o que devem então fazer?

- Precisamente o contrário. Enquanto são adolescentes e crianças devem ocupar-se com uma educação filosófica apropriada à juventude; devem, sobretudo, cuidar muito bem dos seus corpos, no tempo em que crescem para a maturidade, assim garantindo o fundamento e o suporte para servir a vida intelectual. Mas com o avanço da idade, quando a alma começa a atingir a maturidade, devem intensificar os exercícios que lhes convêm; e, quando as forças corporais os abandonarem e tiverem passado a idade dos deveres políticos e militares, devem deixar-se, como os animais sagrados, pastar em liberdade, sem outra ocupação séria além da filosofia, excepto como passatempo, caso se deseje que vivam felizes e que, depois da morte, coroem a felicidade da vida que lhes coube, com um destino digno no além (489e - 498c).


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