sábado, 14 de maio de 2011

Da filosofia e da sofística (i)

Escrito por Platão







I. - De modo que agora ó Gláucon - disse [Sócrates] - a cabo de uma tortuosa, longa e fatigante discussão, pusemos a claro quem é filósofo e quem o não é.

- Talvez uma mais breve discussão não tivesse sido suficiente.

- Aparentemente não - repliquei -; em todo o caso, julgo ainda que a nossa demonstração teria sido mais clara se não tivéssemos outro assunto para nos pronunciarmos, e não nos faltassem examinar muitos outros, para ver em que é que uma vida justa difere de uma injusta.

- Que nos falta tratar depois disto?

- O que há-de ser, senão as suas consequências? Uma vez que os filósofos são aqueles que são capazes de apreender o eterno e imutável, e que aqueles que são incapazes disto e se perdem no que é múltiplo e mutável não são filósofos, qual das duas espécies deve ser chefe da Cidade?

- Que poderei dizer, para te dar uma boa resposta?

- Que aquele de entre os dois que nos parecer capaz de guardar as leis e costumes da Cidade, esse mesmo seja nomeado o seu guardião.

- Exacto - concordou.

- E pode haver dúvida - prossegui - se o guardião que fica de vigília do que quer que seja, deve ser cego ou de visão penetrante?

- Que dúvida poderia haver?

- Ora bem! Parece-te que há alguma diferença apreciável entre os cegos e aqueles que estão na realidade privados do conhecimento do verdadeiro ser das coisas, que não têm na alma nenhum modelo claro, nem são capazes de olhar, tal como pintores que olham para os seus modelos, de fixar os seus olhos na verdade absoluta, tomando-a sempre como ponto de referência e contemplando-a com a maior precisão possível, para só então promulgar leis sobre o belo, o justo, o bom, quando for caso disso, e preservar as que já existirem?

- Não, por Zeus, não há muita diferença!

- Serão essas almas cegas que, de preferência, nomearemos como nossos guardiões, ou aqueles que aprenderam a conhecer a realidade ideal das coisas, e que em nada fiquem a dever em experiência àqueles, nem lhes ficam atrás em nenhum outro aspecto da virtude?

- Seria, de facto, estranho escolher outros que não os filósofos, desde que não lhes ficassem a dever nada em tudo o mais [...]

- O que devemos então dizer não é como seria possível às mesmas pessoas ter ambos os atributos, a experiência e a especulação?

- Certamente.

- Logo, como afirmámos no início desta discussão, a primeira coisa a conhecer a fundo é a natureza deles. E penso que, se chegarmos a um perfeito acordo sobre ela, concordaremos também que a combinação das qualidades que procuramos pertencem às mesmas pessoas, e que não precisaremos de outros guardiões da Cidade, senão elas.

- Como assim?

II. - Concordemos, em primeiro lugar, quanto à natureza dos filósofos, em que estão sempre enamorados pelo tipo de saber que lhes possa revelar algo daquela essência que é eterna, inacessível às vicissitudes que produzem a geração e a corrupção.

- Concordemos.

- E além disso - prossegui - que amam a essência na sua íntegra e que não renunciam voluntariamente a nenhuma das suas partes, pequena ou grande, muito preciosa ou de pouco valor, como no exemplo de que há pouco falámos, sobre os ambiciosos e os enamorados.


Eros e Psique


- Tens razão.

- Considera, depois disto, se não é necessário que, além desta qualidade, haja uma outra na sua natureza, se quiserem ser tal como os descrevemos.

- Que qualidade?

- O espírito de autenticidade e a relutância em admitir voluntariamente a falsidade, seja como for, mas antes odiá-la e amar a verdade.

- É provável - disse ele.

- Não é apenas provável, meu caro amigo, mas absolutamente necessário que uma pessoa, que seja por natureza enamorada, estime tudo o que se aparentar ou relacionar com o objecto amado.

- Exacto.

- E poderá encontrar-se algo mais relacionado com a sabedoria do que a verdade?

- Impossível - respondeu.

- Pode então a mesma natureza ser em simultâneo amante da sabedoria e da falsidade?

- De modo algum.

- Por conseguinte, o verdadeiro amante do conhecimento deve, desde os seus primeiros anos, aspirar com todas as forças à verdade integral.

- Certamente.

- Mas estamos suficientemente conscientes, na verdade, que quando num homem os desejos se inclinam com violência para um só objecto, ficam enfraquecidos para tudo o resto. É como se fossem uma torrente desviada para um outro canal.

- Sem dúvida.

- Logo, aquele cujos desejos tiverem sido direccionados para o canal das ciências e actividades similares, presumo que não cuidará senão do prazer da alma em si, e será indiferente àqueles de que o corpo é instrumento, se não for um filósofo fingido, mas verdadeiro.

- É de uma necessidade absoluta.


Acrópole de Atenas

- Um tal homem será temperante e de modo algum ávido de riquezas, pois as razões pelas quais o dinheiro e os grandes gastos são avidamente procurados, outros as podem levar a sério, mas não ele.

- Assim é.

- E há ainda um outro aspecto que é preciso examinar, se quisermos distinguir a natureza filosófica da que o não é.

- Que aspecto?

- Que não esconda em si qualquer toque de baixeza; porquanto a mesquinhez de espírito é o que há de mais contrário a uma alma que deve procurar sempre abraçar a totalidade e universalidade de tudo o que é divino e humano.

- Nada de mais verdadeiro - concordou.

- Mas quando se for dotado de um espírito habituado a pensamentos nobres e se contemple a totalidade do tempo e do ser, supões que é capaz de olhar para a vida humana como coisa de grande importância?

- Impossível - respondeu.

- Um tal homem não acreditará que a morte é uma coisa terrível?

- Nada disso.

- Por conseguinte, uma natureza cobarde e grosseira não poderia ter parte, ao que te parece, na verdadeira filosofia.

- Penso que não.

- Ora, quem for de espírito ordenado, e não for amante do dinheiro, nem grosseiro, nem vaidoso, nem cobarde, será possível que venha a mostrar-se de trato difícil ou injusto?

- É impossível.

- Quando quiseres, por conseguinte, distinguir a alma filosófica da que o não é, observarás se, desde os seus primeiros anos, ela é justa e dócil, ou insociável ou selvagem.

- Seguramente.


Hermes e Atenas


- Nem descurarás decerto este outro ponto, segundo julgo.

- Qual?

- Se tem facilidade ou dificuldade a aprender. Ou supões que alguém poderia tomar com seriedade gosto por um trabalho que penosamente executa e em que pouco avança, apesar dos seus esforços?

- Não é possível.

- E se ele não pudesse reter nada do que aprendesse, estando mergulhado no esquecimento, acaso poderia a sua alma deixar de ser vazia de ciência?

- Como poderia?

- E assim, se trabalhar em vão, não te parece que acabará forçosamente por se detestar e desgostar-se do seu objecto de estudo?

- Como poderia ser de outro modo?

- Por conseguinte, jamais admitiremos uma alma desprovida de memória entre as que de verdade amam a sabedoria, mas desejá-la-emos necessariamente dotada de boa memória.

- Com certeza.

- Mas pode-se afirmar que a alma sem cultura e sem graça é naturalmente levada à falta de medida e de proporção?

- Sem dúvida.

- E a verdade é, quanto a ti, aparentada com a falta de medida e proporção, ou com o contrário?

- Com a proporção.

- É preciso então procurar uma atitude de espírito que acrescente às outras qualidades, a medida e a graça, e cuja disposição inata lhe facilite ser facilmente guiada para a forma de cada ser essencial.

- Sem dúvida.

- Diz-me: há alguma falha no argumento? Não provámos que todas as qualidades enumeradas são necessárias e compatíveis umas com as outras, numa alma que deve chegar à plena e perfeita apreensão do Ser?

- São até muito necessárias - retorquiu.

- Poderás então censurar, sob qualquer aspecto, uma ocupação que ninguém possa exercer de modo conveniente, a não ser que fosse por natureza dotado de boa memória, de facilidade de aprender, magnanimidade, graciosidade e amabilidade, amigo e aliado da verdade, da justiça, da coragem e da temperança?

- Nem o próprio Momo [personificação do espírito crítico, do sarcasmo] encontraria falta alguma que lhe censurar.

- Ora - prossegui - não seria a homens assim, aperfeiçoados pela educação e pela maturidade, e só a esses, que gostarias de confiar a Cidade?


Adimanto, intervindo, disse: - Ninguém, ó Sócrates, seria capaz de controverter os teus argumentos. Mas, de facto, a impressão que experimentam os que por vezes te ouvem argumentar é mais ou menos esta: pensam que, devido à sua inexperiência no jogo das perguntas e respostas, são a cada pergunta, desviados em pouco do bom caminho pela discussão e, quando estes pequenos desvios se acumulam, ao chegarem ao fim da argumentação, surge um erro enorme e contrário ao que disseram de início. E tal como no gamão, os jogadores inexperientes acabam por ficar cercados pelos jogadores hábeis e não conseguem mover as pedras, de igual modo os teus auditores acabam por ficar cercados e reduzidos ao silêncio nesta espécie de jogo, jogado não com pedras, mas com palavras. O certo é que a verdade nada ganha com esse método. Afirmo isto, tomando como referência o caso presente, pois neste caso, alguém poderá dizer que uma pessoa é incapaz de, com argumentos, contraditar-te em cada uma das tuas perguntas, mas que quando chega a factos, ele vê que quantos se dedicaram à filosofia e que, em vez de a cultivarem apenas na sua juventude para completar a sua educação, não a abandonaram, mas persistiram mais tempo nesse estudo, se tornam na maioria excêntricos, para não dizer perversos, e aqueles que parecem mais equilibrados entre eles não retiram deste estudo que te parece tão louvável, outro fruto, senão a incapacidade de servir a Cidade.

Tendo-o escutado, perguntei: - Pensas que quem assim fala, mente?

- Não sei -respondeu - mas ouviria com prazer o que pensas.

- Ouvirias que penso que dizem a verdade.

- Mas sobre que fundamento - replicou - se pode afirmar que as nossas cidades jamais estarão livres de sofrer males, até que os filósofos - que admitimos que lhes são inúteis - se tornem seus governantes?

- A pergunta que me fazes - retorqui - requer uma resposta em forma de metáfora.

- E tu, é claro, não estás habituado a falar por metáforas!

- Seja - disse - troças de mim, depois de me teres atirado para um raciocínio tão difícil de demonstrar! Apesar disso, escuta a minha metáfora, e verás ainda melhor como de bom grado a moldarei. O sofrimento que as cidades infligem aos mais sábios dos homens é tão cruel, que não há um outro ser tratado assim na natureza. Mas para dar uma imagem dele, e fazer a sua defesa, tenho de combinar elementos de diferentes proveniências, como o fazem os pintores, que representam nos seus quadros - misturando as espécies - animais metade bodes e metade veados e criaturas similares. Imagina que uma coisa desta espécie acontece em vários navios ou num só: um armador, superando em tamanho e força a todos os outros que se encontram na embarcação, mas que é um pouco surdo e de vista similarmente enfraquecida, e cujos conhecimentos náuticos estão a par da sua visão e audição. Imagina os marinheiros em luta uns contra os outros pelo comando do leme, cada um pretendendo ser seu direito tomá-lo, se bem que jamais tenham aprendido a arte do piloto, nem possam indicar com que mestre nem quando a estudaram. E o que é mais, afirmando que não é arte que se possa aprender, e estando prontos a desfazer quem ousar afirmar que se pode aprender; entretanto, estão sempre a assediar o patrão do navio, importunando-o e colando-se-lhe por tudo e por nada, de modo a que ele lhes confie o leme. E por vezes, se não o chegam a convencer, mas sim outros, matam-nos, ou deitam-nos borda fora, e depois de entravarem e atordoarem o respeitável patrão com a mandrágora, a embriaguez ou qualquer outro expediente, assumem o comando do navio, lançam mão da sua carga, bebendo e comendo regaladamente, e navegando como se espera que possa navegar tal gente. E como se não bastasse, cumulam de elogios e louvam e celebram como grandes marinheiros, hábeis pilotos e mestres na arte náutica, a quem tiver a habilidade de os ajudar a obter o comando, persuadindo ou forçando o patrão do navio, ao passo que censuram como inútil quem os não ajudar. E nem sequer percebem que o verdadeiro piloto deve dar a sua atenção ao tempo do ano, às estações, ao céu, aos astros, aos ventos e a tudo o que é próprio à sua arte, se quer ser de facto comandante do navio, a fim de o governar, com ou sem o consentimento dos outros, pois não julgam que seja possível aprender essa arte ou ciência, e ao mesmo tempo a ciência da navegação. Quando semelhantes desordens ocorrem nos navios, não te parece que o verdadeiro piloto será na verdade chamado de contemplador de estrelas, tagarela, inútil, pela equipagem das embarcações assim aparelhadas?


- Exactamente - confirmou Adimanto.

-Presumo que entendes o que digo, e que não seja necessário examinares em detalhe este quadro para veres que ele é a imagem das cidades nas suas relações com os verdadeiros filósofos; espero que compreendas o que quero dizer.

- Na perfeição - confirmou.

- Para começar, ensina esta parábola ao homem que se surpreende por os filósofos não serem honrados nas cidades, e tenta persuadi-lo de que seria bem mais surpreendente, se o fossem.

- Hei-de ensinar-lha.

E, além disso, diz-lhe o seguinte: estás certo ao afirmar que os melhores espíritos de entre os filósofos são inúteis para a multidão. Mas ordena-lhe que da sua inutilidade acuse não os melhores espíritos, mas os que não sabem fazer uso deles. Pois não é a ordem natural das coisas que seja o piloto a pedir aos marinheiros que sejam comandados por ele, nem que os sábios devam ir às portas dos ricos. O autor deste epigrama mentiu. A verdadeira natureza das coisas é que quem estiver doente, seja rico ou pobre, deve ir bater à porta do médico, e todo aquele que necessita de ser governado, à porta de quem sabe governar, e não ser o governante a implorar aos súbditos, que se deixem ser governados, quando na verdade necessitam dos seus serviços. Não te enganarás, ao comparar os actuais governantes políticos aos marinheiros de que acabámos de falar e àqueles que eles qualificam de inúteis e de pessoas que falam no ar, com os verdadeiros pilotos.

- É isso mesmo - anuiu.

- Por estes motivos e nestas condições, não podemos esperar que a mais nobre das ocupações, seja estimada por aqueles cujo modo de vida é precisamente o oposto dela. Mas a acusação, de longe mais importante e mais violenta que fazem à filosofia, vem-lhe por meio dos que afirmam dedicar-se a esse modo de vida, e acerca dos quais afirmaste que o detractor da filosofia proclama que a maior parte dos que a ela se aplicam são perversos, e que os mais sábios são uns inúteis, coisa que concordei contigo ser verdadeira. Não é assim?

-É.

- Acabámos então de explicar a razão da inutilidade dos bons filósofos?

- Acabámos (in A República, Guimarães Editores, 2005, 484a - 489e).


Continua


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