domingo, 10 de maio de 2026

A harmonia das esferas

Escrito por Aristóteles



«Considerando a causa final absoluta, diremos, pois, que ela reside em algo de eternamente imóvel que tudo move enquanto objecto último de amor, atraindo desde as formas sensíveis perecíveis às sensíveis não-perecíveis, bem como às não-sensíveis imperecíveis. Não é, contudo, esta causa apenas definível como motor imóvel, até porque já Aristóteles admitira a existência de quarenta e sete a cinquenta e cinco motores imóveis, com a capacidade de infundir o movimento perpétuo a cada uma das esferas que translucidamente conglobam o universo numa imensurável esfera. Desta feita, é já o Primeiro Motor Imóvel o que realmente pressupõe a fonte suprema da vida em movimento circular de atracção universal sobre todas as coisas, desde os fenómenos do mundo sublunar à substância imaterial do mundo inteligível».

Miguel Bruno Duarte


«A luz que é possível a cada universo emprestaria ao som a sua natureza e este, por sua vez, infundiria nessa luz a sua própria forma. No domínio físico comum, a despeito da matéria grosseira e pesada, o som pode modelar as formas e até destruí-las. É pois mais fácil ainda de acreditar que, em planos subtilíssimos que nos escapam, o som seja realmente criador de formas para nós invisíveis, mas verdadeiros modelos autênticos de uma realidade constituinte. O mais importante é extrairmos as necessárias consequências no domínio do humano pensar, tendo em conta o som e a luz, como origem primeira da vida a ser pensada no sentido constituinte de uma teoria formal da inteligibilidade.

Como diz S. Boaventura (Redução das Ciências à Teologia): “Também o espírito sensitivo possui a natureza da luz e, por isso, reside nos nervos cuja natureza é clara e lúcida; e nesses cinco sentidos se diversifica a luz do dito espírito segundo a maior ou menor pureza. De sorte que, sendo para que o homem pudesse perceber as suas formas corporais, foi dotado de cinco sentidos correspondentes àqueles”.

Fisicamente a luz é um fenómeno. Ontologicamente a luz é um acontecimento de inteligibilidade.»

Luís Furtado («Teoria da Luz e da Palavra»).




 

(...) a teoria de que o movimento dos astros produz uma harmonia, porquanto os sons que emitem, são concordantes, apesar do engenho e originalidade com que foi exposta não é, contudo, verdadeira. Alguns pensadores há que supõem que o movimento dos corpos de tais dimensões devem produzir um ruído, já que, na Terra, o movimento dos corpos, de longe inferiores no tamanho e na velocidade com que se movem, produz esse efeito. Além disso, dizem eles, quando o Sol e a Lua e todos os astros, tão grandes em número e dimensões, se deslocam com um movimento tão rápido, como é que não hão-de produzir um som imensamente grande? Partindo deste argumento e da hipótese de que as suas velocidades, medidas pelas suas distâncias, têm as mesmas relações que as dos acordes musicais, afirmam eles que o som emitido pelo movimento circular dos astros é harmónico. Contudo, uma vez que se afigura estranho que nós não ouçamos essa música, explicam eles tal facto, dizendo que o som está nos nossos ouvidos desde o preciso momento em que nascemos e que, assim, se não distingue do seu contrário, o silêncio, pois que o som e o silêncio se distinguem por mútuo contraste. Aos homens, pois, sucede exactamente o mesmo que aos ferreiros, aos quais, por estarem tão habituados ao barulho da oficina, este já lhes não causa diferença alguma.

In Aristóteles, de caelo B 9, 290 b 12 (Dk 58 B 35).





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