sábado, 4 de fevereiro de 2017

Da espionagem ou serviço de informações científicas da ONU (ii)

Escrito por Jacques Bergier




















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«A II Guerra Mundial, tentativa sangrenta de resolver o problema da Europa e do Mediterrâneo, terminou na condenação dos nacionalismos políticos, culturais e filosóficos. Mais uma vez observou Portugal a alta maré do internacionalismo, ou do universalismo, que persevera na ambição ideal de reger a História. A Organização das Nações Unidas mandava impor ao Mundo, por meios pacíficos e suasórios, uma cultura unificada, para o que foi em 1945 assinada em Londres a carta orgânica da UNESCO, e em 1946 distribuído o opúsculo de Julião Huxley sobre A UNESCO, Suas Finalidades e Sua Filosofia.

Em tempos tão adversos ao princípio das nacionalidades, proclamava quase toda a imprensa o próximo advento de um universalismo redentor configurado na gradual federação de Estados, unidos em torno de um governo comum. A Europa era convidada a federar as suas nações. Tentavam os publicistas demonstrar que tal política, sem fronteiras sócio-culturais, seria indispensável para a felicidade económica dos povos e para estabelecimento da paz mundial.

Protestando contra essas tendências ideológicas, explicaram os nossos escritores humanistas que o nacionalismo só poderia subordinar-se a um universalismo de ordem transumana, como é o da Igreja Católica, já que qualquer doutrina com origem determinada no mundo, isto é, em certo instante do tempo e em certo ponto do espaço, não ostenta validade tal que aconselhe alguém a propô-la ou a impô-la a todos os indivíduos e a todos os povos. Nenhuma nação simples, nem nenhuma nação composta, como a união dos organismos nacionais, pode arrogar-se o imperativo categórico na ordem do dever, ou elaborar um direito público internacional contra o qual protestem as consciências esclarecidas. Cumpre ao escol nacional ver e fazer ver como é que o imperialismo se disfarça ao propor por prestígios económicos e financeiros a tese de que é conveniente uniformizar e comunicar as técnicas instrumentais e os processos mecânicos, entre os quais a contagem automática das votações majoritárias que decidem a seu talante, sem que as minorias vencidas possam alegar restrições das suas liberdades e das suas independências.

Esta sofismação é de há muito conhecida pelos povos europeus que formaram a sua cultura filosófica ao abrigo da Escolástica, e que desinteressadamente meditaram sobre os resultados do exame feito ao problema dos universais. A eliminação de entidades intermediárias, transitórias e transitivas, cujo conceptualismo e cujo realismo ficam suspensos da crítica, permite simplificar todos os problemas jurídicos pela formação de dialéctica entre o indivíduo e a sociedade. Entre o indivíduo, ou um corpo humano, e a última ficção jurídica que será a Humanidade, a Sociedade, o Estado, com qualquer designação conferida pela última doutrina da moda, não se intercalam realidades objectivas ou categorias mentais que mereçam ser consideradas na formulação dos fins do direito, e assim um dado de concreção mental e material como a Pátria estará sempre excluído do enunciado internacional dos eternos princípios.

Pensadores habituados pelo ensino aristotélico ao exercício lógico das categorias e sequentes garantias objectivas nunca poderiam admitir que no mundo condicionado pelo espaço e pelo tempo deixem alguma vez de existir as entidades sociais que ainda denominamos nações. A pluralidade indefinida jamais será unificada pela força de um Império. Não está demonstrado que por unificar, ou unicar, os meios de comunicação a Humanidade anule a diversificação militante ou incessante».

Álvaro Ribeiro («Espelho do Pensamento»).


«[Com a destituição do pensamento] e em nome da língua e da cultura portuguesas, executam os Ministérios dos Negócios Estrangeiros, da Educação e da Cultura uma planificação em função de interesses políticos, de que são expressão máxima os programas e as bolsas de estudo dadas por institutos deles dependentes. Não esqueçamos que, em sintonia com a política oficial desses institutos - caso do Instituto Camões -, desempenham um papel de relevo as fundações instituídas a título particular, como a Gulbenkian, a Fundação Oriente, a Fundação Mário Soares, etc. Finalmente, dominando esta planificação a nível nacional, emergem as organizações internacionais com seus programas comunitários (Leonardo da Vinci, Sócrates, etc.), mediante os quais se pretende, académica e profissionalmente, dirigir a massa trabalhadora dos países europeus conforme consta dos numerosos guias de informação que, produzidos pela Comissão Europeia, circulam nas nossas universidades, bibliotecas e institutos públicos.






[...] [A planificação do ensino] começa por ser, antes de mais, um programa global delineado pelo poder político, para o qual concorrem os organismos administrativos encarregues do seu cumprimento ou fiscalização, tais como a Assembleia da República, o Governo e o Ministério da Educação. O programa destina-se, pois, a traçar as metas e o perfil do estudante saído do sistema educativo segundo os objectivos do ensino básico, secundário e universitário, bem como a exigir métodos de ensino com seus recursos didácticos e processos de avaliação.

O poder político, mobilizado pelas forças partidárias, presta-se assim a determinar a planificação a que cada escola está obrigada a executar; depois, ampliar-se-á aos grupos disciplinares e de "investigação" no ensino médio e universitário, para, finalmente, fazer valer as suas directrizes ideológicas nas planificações de ordem individual. Eis, por conseguinte, o que pode explicar a interdependência que, em termos políticos e administrativos, uma planificação desta magnitude implica, se do indivíduo passarmos ao grupo, deste transitarmos à comunidade escolar ou "científica", para então e, em último lugar, chegarmos às instâncias de decisão política. De resto, o ensino médio continua a ser o caso mais paradigmático da abusiva intervenção do Estado em todos os sectores e domínios da existência, posto que está em causa o despertar das almas moças para os princípios e valores da civilização cristã.

[...] Ministro da Educação no tempo de Marcello Caetano, Veiga Simão foi o agente encarregue do igualitarismo socialista no plano da organização do ensino. A ele se deve, sob o abstracto lema da "democratização do ensino", a subordinação do nosso sistema escolar às directrizes programáticas provindas de organizações internacionais, em especial da UNESCO e da OCDE. Foi, pois, com Veiga Simão que os portugueses, assistidos técnica e financeiramente pelo estrangeiro, passaram a estar dependentes de modelos de ensino que em nada reflectem o seu modo de estar e encarar o mundo.

Preconizando os modelos universitários da Alemanha, da América, da Inglaterra e dos países socialistas, começou Veiga Simão por apostar na reforma do ensino superior. Encarando-o como uma espécie de comunidade técnico-científica, V. Simão também viu na contratação de professores estrangeiros a única via para a modernização da sociedade portuguesa, e cujos resultados são, hoje, manifestamente evidentes, se tivermos em conta que:

1. A institucionalização pelo Estado da chamada "educação pré-escolar" é apenas o meio de que o socialismo se serve para, erigindo o trabalho a prioridade máxima da existência social, impedir que as mães, no seu insubstituível papel de "educadoras", possam cuidar de seus filhos;

2. O aumento da escolaridade obrigatória não é sinónimo de educação, dado que uma pessoa pode sair da escola muito bem instruída, mas, a todos os títulos, muito mal educada;

3. O crescente número de cursos de pós-graduação, destinados a uma massa informe de licenciados sem perspectivas de vida, contraria a livre iniciativa de quem já só espera arranjar um emprego no Estado absorvente e monopolizador. E assim por diante, se quiséssemos ir ao ponto de analisar, ao pormenor, os múltiplos malefícios que o "veiga-simonismo", na esteira da Universidade, trouxe ao povo português».

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa»).


«Qual o seu pensamento actual acerca da filosofia portuguesa? 

O problema da filosofia portuguesa preocupou-me e ocupou-me durante vinte anos, de 1940 a 1960. Creio que cumpri o meu dever. Sem renegar as teses então formuladas, porque elas são para mim as chaves interpretativas dos nossos acontecimentos políticos, – desde 1140, desde 1640, – limito-me hoje a observar o que da filosofia portuguesa vão pensando e dizendo as novas gerações.

Vem então de uma meditação histórica, ou de uma reflexão política, a problemática que tanto absorveu o seu pensamento durante esses vinte anos. 

Sinceramente o confesso, mas o momento de mais séria acuidade foi, para mim, a Segunda Guerra Mundial. Perante a posição nacional de neutralidade (que não está em questão), era de esperar que o bloco vitorioso, fosse ele qual fosse, viesse mais cedo ou mais tarde pôr em discussão o problema da legitimidade da nossa independência política. Assim aconteceu depois de 1960. As razões da independência política, ou seja, da autodeterminação de cada povo, só podem ser razões filosóficas, ou, por outras palavras, a projecção futurista ou futurante de autonomia cultural. As chamadas razões históricas e razões geográficas não são, efectivamente, razões. São apenas elementos utilizáveis para a constituição de um raciocínio completo ou silogismo.




É fácil de perceber onde Álvaro Ribeiro deseja chegar… E a pergunta nasce «per si»: 

Alude porventura às discussões na ONU? 


Sem dúvida. Eram de esperar por quem tivesse estado atento aos trabalhos da UNESCO. Sempre pensei que o ideal civilizador dos portugueses é imensamente superior, incomparavelmente superior, àquele que tem sido proclamado nas assembleias das Nações Unidas. Tal superioridade só pode ser conhecida até à evidência por quem estudar o assunto pelos métodos adequados à investigação filosófica. Nos termos vulgares da oratória parlamentar, de submissão a preconceitos, não é possível uma argumentação de valor transcendente, pelo que só resta à defesa o recurso de apelar reiteradamente para a energia moral.

As publicações da UNESCO afiguram-se-lhe de carácter predominantemente sociológico, e até positivista, não é verdade? 

A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos, em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar, ou a minorar, os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da Humanidade».

Álvaro Ribeiro («O ideal civilizador dos portugueses é imensamente superior - incomparavelmente superior - àquele que tem sido proclamado pela ONU»).


«Abater fronteiras! Riscá-las dos mapas! Apagá-las das almas...».

António Quadros («Franco-Atirador»).


«A perspectiva internacionalista é também plural, e corresponde a mais de uma opção. O que une todas é a convicção de que a actividade política internacional deve ser examinada em relação a uma condição humana universal, e não em relação com os limites acidentais que decorrem das fronteiras geográficas, da história, ou das constituições e regimes políticos. A concepção medieval de uma lei natural esteve associada a uma visão internacionalista da condição humana, assim como à jurisdição, cimeira às divisões políticas, da Igreja Católica. O conceito medieval da República Cristã correspondia a essa atitude, assim como o conceito de povo de Deus se traduz num internacionalismo que atravessa as fronteiras políticas.

Os Projectistas da Paz foram adeptos de uma perspectiva internacionalista, procurando a salvaguarda de um interesse geral e superior ao das unidades políticas, que era a paz dos povos. Um dos principais escritores, que referimos antes, foi Kant (1724-1804), que em 1795 apresentou um Projecto de Paz Perpétua no qual procurava estabelecer uma espécie de reino geral em que a soberania fosse a razão. A princípio entusiasmou-se com a Revolução Francesa, que imaginou como um passo a caminho da paz perpétua. Mas depois voltou à convicção de que uma monarquia moderada é a melhor forma de governo para seres imperfeitos. A sua filosofia moral fornece as bases do internacionalismo que advoga. O primeiro dos imperativos categóricos que formula é que devemos agir de modo a que a nossa acção possa corresponder a uma lei universal, tratando todos os homens como fins e não como instrumento, membros de um comum "reino de finalidades".

Uma lei é universal quando se dirige apenas à razão, não fazendo distinção entre seres racionais, mas apenas entre o bem e o mal. Tal lei não fere a liberdade dos que por ela são governados, porque apenas contraria os seus desejos condenáveis. O liberalismo é uma consequência da doutrina, sem necessidade de mencionar qualquer fundamento religioso destinado a não obstar à realização pessoal. No que se refere às relações internacionais, tinha como objectivo a abolição das jurisdições estaduais e a adopção de um corpo de leis aceites por todos, e de aplicação vigiada por um congresso das potências.

O marxismo [...] é também um internacionalismo de base e objectivos diferentes.


Alger Hiss. Ver aqui














Finalmente, a evolução do fenómeno da solidariedade e interdependência de todos os Estados e outros agentes da cena internacional conduziu a um internacionalismo que se tornou progressivamente importante depois da fundação da ONU. Trata-se de, por um lado, considerar a paz como um bem indivisível da Humanidade, que o Conselho de Segurança deveria preservar, mas, por outro lado, de definir um verdadeiro património comum da Humanidade, ao qual pertencem já o mar alto, a Antárctida, os corpos celestes, tudo a reclamar instituições com um poder funcional, que não é a soberania, mas limita a soberania: é o caso das organizações especializadas da ONU. Todas estas perspectivas condicionam, respectivamente, as escolas que as adoptam, não apenas naquilo que em cada uma se encontra sempre de apologético sobre as políticas recomendadas, mas também no levantamento dos dados considerados relevantes para a compreensão da conjuntura, e para a formulação das tendências, possibilidades e probabilidades da evolução.

[...] Os Estados recorrem à guerra para salvaguardar os seus interesses legítimos ou ilegítimos, para exaltar valores morais ou espirituais, para impor o triunfo de grupos étnicos que se consideram superiores, para modificar a ordem política e social internacional.

Talvez não seja possível apontar um Estado anterior à última grande guerra cujo território, primeiro dos interesses historicamente vitais, não tinha sido definido pela guerra. Mas o que tem mais interesse na política internacional actual é a utilização da guerra subversiva ou das guerrilhas como instrumento de uma disputa pelo poder mundial, disputa que é frequentemente ideológica.

O Presidente Kennedy disse o seguinte: "As nossas fronteiras hoje estão em todos os continentes. 'Onde está a liberdade, está a minha pátria', disse Benjamin Franklin. 'Onde não está a liberdade, está a minha' disse Tom Payne. Na segunda metade do século XX o espírito original americano, personalizado pelos nossos Founding Fathers, defronta a sua maior experiência. Porque o nosso futuro e o do resto da população do mundo estão inseparavelmente ligados, económica, militar e politicamente.

Procurando evitar um confronto directo, os grandes poderes apoiaram a insurreição em pontos críticos de fricção, não escondendo sempre esse apoio, nem mesmo os objectivos em vista. É, em certo, sentido, mais um aspecto da despersonalização dos métodos actuais. Luta-se em Angola, em Moçambique, no Iémen, no Ruanda, no Corno de África, na Somália, mas, ainda quando um dos grandes poderes está envolvido directamente na guerra, o opositor aparece só por agente interposto. São guerras por procuração. A iniciativa não está sempre nos grandes poderes, mas o conflito nunca deixa de interessar aos poderes que disputam a supremacia mundial ou regional».

Adriano Moreira («Teoria das Relações Internacionais»).


«A insistência em menosprezar o princípio fundamental da não intervenção nos assuntos internos dos Estados membros mereceu mais reparos e causa tais apreensões aos que ainda depositam alguma confiança no futuro da Organização que é de prever esta venha a alterar a sua conduta, no caso de desejar sobreviver.

O convite às autoridades portuguesas para cessarem imediatamente as medidas de repressão é uma atitude, digamos, teatral do Conselho de Segurança e que ele não tem a menor esperança de ver atendida, tão gravemente ofende os deveres de um Estado soberano. Desde os meados de Março não acharam nem o Conselho nem a Assembleia oportunidade para ordenar aos terroristas que cessassem os seus morticínios e depredações, e tantos dos seus membros o podiam ter feito com autoridade e eficácia. Mas quando intervém a autoridade cuja obrigação é garantir a vida, o trabalho e os bens de toda a população, essa obrigação ou primeiro dever do Estado não haverá de ser cumprido, porque é necessário que os terroristas continuem impunemente a sua missão de extermínio e de regresso à vida selvagem.

A consideração de que a situação em Angola é susceptível de se tornar uma ameaça para a paz e para a segurança internacionais, essa, sim, pode ter algum fundamento, mas só na medida em que alguns dos votantes se decidam a passar do auxílio político e financeiro que estão dando, para o auxílio directo com as suas próprias forças contra Portugal em Angola. Tudo começa a estar tão do avesso no mundo que os que agridem são beneméritos, os que se defendem são criminosos, e os Estados, cônscios dos seus deveres, que se limitam a assegurar a ordem nos seus territórios são incriminados pelos mesmos que estão na base da desordem que ali lavra. Não. Não levemos ao trágico estes excessos: a Assembleia das Nações Unidas funciona como multidão que é e portanto dentro daquelas leis psicológicas e daquele ambiente emocional a que estão sujeitas todas as multidões. Nestes termos é-me difícil prever se o seu comportamento se modificará para bem ou não agravará ainda para pior. Se porém virmos este sinal no céu de Nova Iorque, é meu convencimento que estão para breve catástrofes e o total descalabro da Instituição».

Oliveira Salazar («O Ultramar Português e a ONU»).




«Na manhã do dia 25 de Abril de 1974, quando as chaimites chegam ao Terreiro do Paço lideradas por Salgueiro Maia, deparam-se com navios de guerra no estuário do Tejo, sobre os quais se desconhecia a lealdade. Seriam fiéis ao regime marcelista? Ao movimento dos capitães? Ou a nenhum deles? Foi debaixo de tensão, depois de se aperceberem dos gigantes nas águas, que os "capitães de Abril" entraram pelo edifício pombalino para prender ministros fiéis ao regime - que conseguiram escapar por um esconderijo. Se os navios que estavam no Tejo (eram afinal contratorpedeiros e fragatas canadianas ao serviço da NATO) tivessem aberto fogo, tudo se poderia ter transformado numa carnificina e a revolução dos cravos teria sido, senão ineficaz, pelo menos mais sangrenta. Isto apesar de os capitães não estarem absolutamente desprotegidos, já que três batalhões de Vendas Novas ocuparam posições junto ao Cristo Rei, em Almada, com o objectivo de abater a tiro qualquer coluna que atravessasse a até aí designada Ponte Salazar ou qualquer navio que se revelasse hostil às forças revolucionárias. Mas o que tem, afinal, Bilderberg a ver com isto?

Três dias antes do 25 de Abril, já Bilderberg estava na posse de informações de que o movimento dos capitães ia tentar um golpe de Estado em Portugal. Decidiu nada fazer, embora tivesse poder para isso, via NATO. Esta informação é, inclusivamente, dada como válida pelo Centro de Documentação 25 de Abril, que integra este pormenor nos detalhes do dia da revolução.

Foi o jornalista Martinho Simões que, em 1978, no prefácio do livro A destruição da lealdade: um estudo da ameaça da propaganda de Anthony Burton, (Abril, 1978), abordou pela primeira vez o assunto. Escreveu Martinho Simões:

"Na reunião de 1974, realizada de 19 a 21 de Abril em Megève, participaram Nelson Rockefeller, governador do Estado de Nova Iorque; Frederick Det, secretário americano para o Comércio; general A. Goodpaster, comandante das Forças Aliadas na Europa; Denis Healey, ministro das Finanças inglês; Joseph Luns, secretário-geral da NATO; Richard Foren, presidente da General Electric para a Europa; Helmut Schmidt, na época ministro das Finanças alemão; Giovanni Agnelli, presidente da Fiat".

No fundo, o jornalista elenca algumas das pessoas mais relevantes à época, no mundo político e empresarial, que participaram no evento de 1974, onde não havia portugueses. Além dos referidos, ainda marcaram presença figuras como Gerhard Schröder, mais tarde chanceler alemão, ou o banqueiro e filho de Edmond Rothschild, Edmond Adolphe Rothschild.

Apesar de não haver qualquer presença lusa, alguns responsáveis norte-americanos (eram 22 neste encontro) e da NATO tinham várias informações que chegaram por via do embaixador norte-americano em Lisboa, Stuart Nash Scott. São raros os encontros de Bilderberg ao longo da sua história em que o secretário-geral da NATO não está presente. E 1974 não foi excepção. O holandês Joseph Luns - que havia assinado com o seu punho o Tratado de Roma em nome da Holanda, em 1957 - foi uma das figuras de maior destaque presentes na reunião. Enquanto diplomata, Luns estivera durante a II Guerra Mundial em... Portugal.

O jornalista Martinho Simões acredita que "a presença de Luns terá determinado o comportamento da NATO no desenrolar do golpe militar de Lisboa". E recorda como, três dias depois do encontro, a NATO foi conivente com o golpe:

"No dia 24 de Abril, diversas unidades da NATO chegaram ao porto de Lisboa. Elas deveriam tomar parte nas manobras aeronavais Dawn Patrol, programadas para o dia 26, no Mediterrâneo. Mas poucas horas antes de ser oficialmente anunciada a mudança do regime português, as manobras foram canceladas e os navios de guerra portugueses puderam regressar a Lisboa e anunciar a sua adesão ao MFA [Movimento das Forças Armadas]".

E continua:

"Não será demais pensar que a presença das unidades da NATO em Lisboa tinha como objectivo servir de elemento de dissuasão contra qualquer tentativa 'contrarrevolucionária' dos generais".







Joseph Luns

Blindados do Regimento de Cavalaria 7, fiéis ao governo de Marcello Caetano, impedem o avanço dos revoltosos liderados por Salgueiro Maia.

Fragata Gago Coutinho posicionada frente ao Cais das Colunas.


Contratorpedeiro Huron pertencente às forças da OTAN, posicionando-se entre a Gago Coutinho e o Cais das Colunas.

O Centro de Documentação 25 de Abril interpreta os acontecimentos dizendo que, no encontro de Bilderberg, realizado em Megève, França, "ter-se-á tomado conhecimento da iminência de alterações políticas em Portugal e decidido não contrariar a evolução dos acontecimentos, crendo que uma mudança política poderia conduzir ao liberalismo económico". O jornalista Martinho Simões conclui dizendo:

"Nas suas linhas gerais, portanto, o golpe de 25 de Abril é, por um lado, tecnicamente preparado por duas centenas de capitães; por outro lado, é aceite e facilitado pela conivência do capitalismo anónimo [ler: Bilderberg]".

O Clube viria, no entanto, a ficar desiludido com o rumo que os acontecimentos tomaram mais tarde:


"Em sua evolução posterior, foram os capitães 'vermelhos' e não os moderados que se apoderaram do poder, desse modo frustrando as expectativas do Clube de Bilderberg"».

Rui Pedro Antunes («Os Planos Bilderberg para Portugal»).


«O terceiro objectivo dos senhores do poder, a instauração de uma religião única para todo o planeta, suscita toda a minha atenção. Lembramo-nos da famosa declaração de Karl Marx, "A religião é o ópio do povo", convertida num dos lemas do comunismo. E o mesmo aconteceu por toda a América Latina durante o século XIX. No México, até o povo se levantou em armas na chamada guerra de los cristeros (1926-1929) contra as proibições religiosas do presidente Plutarco Elías Calles, tema acerca do qual foi feito recentemente um filme, Cristiada, cujo orçamento é o mais elevado do cinema mexicano. Em Espanha, durante a Guerra Civil, arderam igrejas e clérigos.

Depois de várias tentativas falhadas para eliminar a religião da face da terra, os senhores do mundo idealizaram outra estratégia derivada do silogismo: se não podemos destruir a fé das pessoas, criemos a nossa própria religião, uma religião desenhada e controlada por nós. É muito possível que a origem da ideia provenha da religião única que Hitler criou no seu Estado nazi.

Os senhores do poder lançaram-na a partir da ONU e baptizaram-na com o nome de Carta da Terra, em que a ecologia tem o primado sobre os seres humanos e se defende uma nova espiritualidade global fabricada nos laboratórios dos senhores do mundo. É a religião única do império Bilderberg.

Mais de 300 líderes religiosos e pseudorreligiosos foram seleccionados como assessores para a elaboração do documento. No entanto, alguns dos mais prestigiados ficaram de fora, como o Dalai Lama, cuja ausência foi justificada pela ONU com o argumento de não obstaculizar as relações com um dos membros com direito a veto, a China. A China invadiu o Tibete sem que a comunidade internacional lhe tenha imposto qualquer sanção. Não interessa contrariar um complexo socioeconómico tão potente como o dragão asiático.

Também não se convocaram os católicos. Segundo Salvador Arguedas, analista da Carta da Terra, tratou-se de uma manobra dos maçons "para acabar com o poder da Igreja em todas as áreas".

As tensões e conflitos existentes entre a maçonaria e a Igreja católica, com bulas papais incluídas, são mais do que conhecidas. Muitos dos membros de Bilderberg e da ONU são maçons. David Rockefeller tem a sua própria loja, a Rockefeller 666, e no último livro do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan (Interventions: A Life in War and Peace), aparece uma fotografia do seu pai com o traje maçónico. O bilderberg Valéry Giscard d'Estaing, ex-Presidente de França, é outro maçon proeminente.

O médico francês Maurice Caillet abandonou a maçonaria depois de 15 anos de observância e denunciou as suas práticas no livro Eu Fui Maçon. A respeito da relação entre a discreta entidade e a religião, nota: "Os maçons proclamam com firmeza uma tolerância especial para com todas as crenças e ideologias, num gosto muito marcado pelo sincretismo, ou seja, com uma coordenação pouco coerente das diferentes doutrinas espirituais: é a eterna gnosis". Isto é a Carta da Terra: um conjunto de doutrinas, mistura de gnosis e New Age, um produto próprio de maçons, saído directamente dos sofisticados laboratórios bilderbergs.


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Segundo Caillet, "a maçonaria propõe uma filosofia humanista, preocupada antes de tudo com o homem e consagrada à busca da verdade, ainda que afirmando que esta é inacessível. Esmaga todo o dogma e sustenta o relativismo, que coloca todas as religiões num mesmo plano, enquanto que desde 1723 se erige a si mesma num plano superior, como 'centro de união'. Daí se deduz um relativismo moral. A sua moral evolui em função do consenso das sociedades". De novo aparece a palavra consenso, um atributo essencial de Bilderberg e da maçonaria.

O ex-Presidente soviético e antigo chefe do KGB Mikhail Gorbatchov, membro da Comissão da Carta da Terra e presidente da Cruz Verde Internacional, foi o responsável máximo pela redacção e supervisão do texto final, aprovado em Março de 2000, no quartel-general da Unesco em Paris. Foi oficialmente divulgada no Palácio da Paz em Haia a 29 de Junho do mesmo ano, numa cerimónia presidida pela rainha Beatriz da Holanda, um dos pesos pesados de Bilderberg.

Na reunião do Conselho da Terra celebrada no Rio de Janeiro em Março de 1997, antes da Cimeira da Terra (Julho, Nova Iorque), Gorbatchov definiu a Carta como "o manifesto de nova ética para um novo mundo, um Decálogo da Nova Era". Segundo o antigo dirigente russo "há que ajudar a humanidade a mudar a visão antropológica do homem. É necessário fazer-se a transição da ideia do homem como rei da natureza para a convicção de que o homem faz parte dela. Necessitamos encontrar um novo paradigma que substitua os vagos conceitos antropológicos".

Segundo continuou Gorbatchov, "substituiremos os Dez Mandamentos pelos princípios contidos nesta Carta ou Constituição da Terra". O novo conceito do mundo, esta religião, ou melhor, pseudorreligião global, tomaria o lugar da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

Gorbatchov não se fica por aí. Expõe conceitos que serão compreendidos por quem já está familiarizado com os termos globalistas. Afirma de forma taxativa que "o Conselho de Segurança das Nações Unidas deve impulsionar a nova ordem mundial. As Nações Unidas têm as armas legais para o fazer. Deve construir-se um novo mundo com base num novo sistema de valores, liberais, sociais e democráticos. A ecologia é o centro deste sistema de valores plasmado na Carta da Terra e a globalização deve ser o conceito em que se baseia o êxito da Carta da Terra. Por isso, a minha fundação (Cruz Verde) tem como fim  criar e fomentar esta consciência global".

Hans Küng é um controverso sacerdote católico, muito crítico da igreja a que pertence, e que desde 1995 é presidente da Fundação por uma Ética Mundial. A Carta da Terra complementa a sua doutrina de religião ou étnica da nova ordem mundial com a Nova Ética Global que Küng apresentou há poucos anos no Fórum Económico de Davos, patrocinado pelo World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Vida Selvagem, do príncipe Filipe de Edimburgo, cujo primeiro presidente foi o seu primo, o príncipe Bernardo da Holanda!).

Em Davos, Küng falou na impossibilidade de construir a nova ordem mundial sem a nova ética planetária. Segundo Arguedas, "Hans Küng é a cabeça visível do processo de imposição, através das Nações Unidas, dessa ética cósmica, síntese superadora de todas as religiões do mundo, mistura de gnosis, bons sentimentos e outras características da vaga e alienante espiritualidade New Age.

Um colega americano enviou-me em Abril de 2013 uma notícia muito esclarecedora que, fora do contexto, mais parecia uma simples parvoíce do seu protagonista. Durante uma sessão de uma unidade do exército na reserva na Pensilvânia, acerca do extremismo e do terrorismo, o instrutor mencionava as religiões judaica, católica, evangélica e islâmica, juntamente com a Al Qaeda e o Hamas, como radicais e extremas. A questão, aparentemente banal, adquire um sentido pleno à luz do desejo de implantação de uma religião única, não sabemos se pela força ou pelo consenso, pelos senhores do mundo.




Sala de Meditação na ONU




O professor emérito de Teologia da Universidade de Lovaina (Bélgica), monsenhor Michel Shooyans, autor do livro La Face Cachée de L'ONU, e ex-representante do Vaticano nas Nações Unidas, afirmou que a questão ecológica desenvolvida na Carta da Terra é uma artimanha, uma estratégia para desviar a atenção de um assunto bastante grave: "Entramos numa nova revolução cultural e as verdades fundadoras da ONU referentes à centralidade do homem no mundo vão sendo a pouco e pouco desactivadas". A Carta defende a criação de "uma religião mundial única, o que implicará imediatamente a proibição de todas as outras religiões de fazer proselitismo". Neste contexto entende-se perfeitamente a versão que considera as citadas religiões como radicais, colocando-as ao mesmo nível da Al Qaeda e do Hamas que, até à data, são consideradas organizações terroristas pelos Estados Unidos, como publicamente manifestado.

Para a ONU apenas será considerado direito do homem o que os senhores do poder decidirem. Se assim acordarem, um determinado ser humano pode não ter direito a viver se interferir na vida de outras pessoas. O que pode levar à loucura de decretar que os velhos prejudicam a sociedade porque já não lhe são úteis, e devem ser eliminados. A directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, já disse que "o FMI pede para baixar as reformas pelo 'risco das pessoas viverem mais do que o esperado'".

Estamos a entrar numa das eras mais obscuras da História do homem na terra. Quando irão parar? Onde estão os seus limites?

O ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e as Nações Unidas foram galardoados com o prémio Nobel da Paz a 10 de Dezembro de 2001. Durante a cerimónia de entrega do prémio, o Comité Nobel destacou o trabalho de Annan à frente da entidade: "Foi fundamental a dar vida nova à Organização". Em relação ao galardão, o Comité desejou "proclamar que o único caminho negociável para a paz mundial e a cooperação é através das Nações Unidas". A instituição, recordemos mais uma vez, em que projectam constituir o governo mundial.

Nunca houve um império que não tenha tido a sua própria religião. E o império Bilderberg não ia ser excepção. É uma religião que faz o homem sentir-se perdido perante a imensidade de um planeta que o desenraíza, um planeta sem alma onde uma árvore é mais importante do que um ser humano».

Cristina Martín Jiménez («O Clube Secreto dos Poderosos. Os Planos Ocultos de Bilderberg»).


«A revista Forbes é perita em listas. Os mais ricos, os mais influentes, os mais poderosos. Nesta última categoria, como se a Guerra Fria não tivesse acabado, normalmente o topo tem sido disputado pelos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia. E mesmo em toda a lista dos mais poderosos do mundo, só por uma vez esteve um português: António Guterres, em 2009. O ex-primeiro-ministro foi considerado o 64.º homem mais poderoso do mundo, impulsionado pelo cargo que ocupa: Alto-Comissário para os Refugiados da ONU (ACNUR), ficando à frente de "figurões" da política internacional daquele ano, como o então presidente venezuelano Hugo Chávez. Ou seja, Guterres é, até à data, no entender da prestigiada Forbes, o português mais poderoso do mundo.

A caminhada para esse trono começou no sotão da sua casa, na mais pura das conspirações políticas, quando desafiou o poder de Soares no Partido Socialista. Mas esses não foram os únicos encontros à porta fechada. A presença, por duas vezes, no Clube de Bilderberg ocorreu antes de dois momentos marcantes da sua vida: um ano antes de ser líder do PS (e, anos mais tarde, primeiro-ministro) e um mês antes de chegar a Alto-Comissário da ONU.

António Guterres entrou no PS pouco depois do 25 de Abril de 1974, pela mão de António Reis, fundador do partido e mais tarde grão-mestre da maior obediência maçónica em Portugal (Grande Oriente Lusitano). O socialista nunca aderiu à maçonaria (embora tenha tido vários "irmãos" nos seus governos), nem ao OPUS DEI (embora seja um confesso católico) e no seu currículo internacional de reuniões discretas, secretas ou semisecretas constam apenas as participações em Bilderberg.

[...] Entre 1979 e 1981, a partir do sotão da casa de Guterres, em Algés, foi montada uma das maiores divisões do PS. O famoso "grupo do sotão" incluía, além de António Guterres, socialistas como António Arnaut (a maçonaria sempre por perto), Jorge Sampaio, Salgado Zenha ou Arons de Carvalho.

[...] Além de banqueiro, Artur Santos Silva é também o actual presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, dos actuais nove administradores, cinco já passaram por Bilderberg e dois deles foram mesmo sozinhos nos anos em que participaram.

O actual Conselho de Administração da Fundação é presidido por Artur Santos Silva e conta ainda com mais quatro que estiveram em Bilderberg: Eduardo Marçal Grilo (encontro de 1999), ex-ministro da Educação num governo PS; Emílio Rui Vilar, ex-ministro de Mário Soares no I Governo Constitucional e presidente da Gulbenkian entre 2002 e 2012, que foi convidado único de Balsemão em 1984. Teresa Gouveia, ministra nos governos de Cavaco Silva e Durão Barroso, que também foi convidada única do patrão da Impresa no ano 2000; e António Guterres, que apesar de ser só administrador não-executivo, engrossa a lista de ex-participantes de Bilderberg na Fundação».

Rui Pedro Antunes («Os Planos Bilderberg para Portugal»).





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«A ONU é herdeira de uma tradição de diplomacia multilateral que tem as suas raízes no séc. XIX com as conferências diplomáticas internacionais. Estas conferências tiveram uma dupla importância: são as precursoras das modernas organizações internacionais, enquanto fóruns multilaterais de discussão dos problemas internacionais, e criaram os primeiros mecanismos diplomáticos e jurisdicionais de resolução dos conflitos.

[...] Todos os Estados-membros se obrigam a cumprir de boa fé os compromissos da Carta. Trata-se de uma obrigação que corresponde ao princípio do Direito Internacional: pacta sunt servanda, isto é, que os compromissos assumidos devem ser cumpridos.

Os Estados têm também obrigações financeiras, devendo pagar à organização a contribuição orçamental que foi predeterminada. Poderá perder o voto na Assembleia Geral, se o total das suas contribuições atrasadas igualar ou exceder a soma das contribuições correspondentes aos dois anos anteriores.

A Carta diz que a organização não pode intervir em assuntos que são essencialmente da alçada nacional de cada país. Tal provisão reflecte a regra clássica da não-intervenção nos assuntos internos dos Estados. É um dos aspectos mais contestados e debatidos da Carta porque o seu sentido não é claro. Além disso, a própria organização contrariou, em algumas circunstâncias, este princípio. Já nos anos 20, o Tribunal Permanente de Justiça Internacional afirmou que a linha divisória entre jurisdição interna e internacional era mutável, dependendo da natureza das relações internacionais. A ONU tem vindo a estender a sua intervenção internacional, roçando assim a esfera dos Estados, ao envolver-se em questões de Direitos Humanos, desenvolvimento, regimes autoritários ou racistas.

[...] Efectivamente, "os limites à acção da ONU... são políticos" e dependem do ambiente internacional, bem como da interpretação do CS [Conselho de Segurança]. A Carta das Nações Unidas confere ao Conselho de Segurança poderes de "auto-interpretação". A intervenção nos assuntos internos, sob forma de intervenções humanitárias, é um conceito ainda mal definido que dá margem a conflitos de interpretação. As intervenções humanitárias talvez sejam o melhor exemplo da necessidade premente de definir novos modelos para enquadrar a ordem internacional do pós-Guerra Fria. O Relatório da Comissão de Alto Nível sobre as Ameaças, Desafios e Mudanças recomendava que a ONU fosse reformada a fim de facilitar as intervenções em Estados enfraquecidos. O caminho que o painel defendeu é muito mais intervencionista, distanciando-se da tradicional ênfase da ONU de não se intrometer em assuntos internos de um Estado-membro. Boutros-Ghali afirmou que "a velha doutrina da soberania exclusiva e absoluta já não colhe e, efectivamente, nunca foi tão absoluta como foi concebida enquanto teoria. Um grande desafio intelectual do nosso tempo é repensar a questão da soberania".

[...] O CES [O Conselho Económico e Social] pode solicitar relatórios regulares às organizações especializadas e coordenar as suas actividades por meio de consultas e recomendações às mesmas, ou dirigindo recomendações à Assembleia Geral e aos membros. Efectivamente, as Agências Especializadas devem apresentar relatórios anuais ao CES, mas este não controla os seus orçamentos ou secretariados. São elas: Organização Internacional do Trabalho (OIT); Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO); Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO); Organização Mundial da Saúde (OMS); Grupo do Banco Mundial - que inclui o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD); a Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), a Corporação Financeira Internacional (CFI); a Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos (AGMI) e o Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (CIADI).

São também Agências Especializadas da ONU, o Fundo Monetário Internacional (FMI); a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO); a União Postal Universal (UPU); a União Internacional de Telecomunicações (ITU); a Organização Meteorológica Mundial (OMM); a Organização Marítima Internacional (IMO); a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI); o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA); a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e a Organização Mundial do Turismo (OMT).

Teoricamente, o CES deve coordenar o trabalho destas agências, mas a realidade é que muitas destas agências estão fora do seu controle. Este é um dos aspectos em que a ONU presta mais facilmente o flanco às críticas. Por uma lógica burocrática, algumas são ciosas das suas actividades e boicotam a supervisão do CES, mesmo quando o que está em causa é realizar sinergias e rentabilizar as actividades de organizações que trabalham em áreas semelhantes.

[...] Por sua vez, o Conselho de Direitos Humanos (DH) veio substituir a muito criticada Comissão de Direitos Humanos. O relatório do painel de especialistas, Um mundo mais seguro: a nossa responsabilidade comum, fazia um diagnóstico das limitações da Comissão dos DH e fazia recomendações para a sua estruturação. Annan decidiu propor a formação de um novo orgão, o Conselho dos DH através de uma resolução da AG. A medida visava elevar o perfil político dos Direitos Humanos nas NU, reforçando os recursos institucionais para a prevenção e actuação em situações de graves violações dos Direitos Humanos e crises humanitárias. A criação do Conselho almejava ainda elevar a promoção e protecção dos Direitos Humanos à posição de eixo estruturante da actuação da ONU, somando-se aos outros dois eixos: promoção da paz e segurança e desenvolvimento. Para Kofi Annan, na estrutura institucional da ONU, deveria ficar consagrada a articulação paz-desenvolvimento-Direitos Humanos.

[...] O novo orgão foi criado com bases mais sólidas para evitar as críticas que mancharam a reputação da anterior Comissão dos Direitos Humanos.

[...] Os primeiros quarenta e sete membros foram eleitos a 9 de Maio de 2006. A distribuição dos assuntos é feita de acordo com uma representação geográfica equitativa (treze do Grupo dos Países Africanos; treze do Grupo dos Países Asiáticos; sete do Grupo dos Países do Leste Europeu; oito do Grupo dos Países da América Latina e das Caraíbas; e sete do Grupo dos Países da Europa Ocidental e Outros). Os membros são eleitos por um período de três anos. Não podem ser reeleitos após dois mandatos consecutivos.

A AG tem o direito de suspender os direitos e privilégios de qualquer membro do Conselho, desde que considere que, durante, o seu mandato, cometeu repetidamente violações flagrantes e sistemáticas dos Direitos Humanos. Este processo de suspensão exige uma maioria de dois terços dos votos na AG.

Infelizmente, a eleição dos membros do novo Conselho não conseguiu atenuar a polémica gerada pela velha Comissão de Direitos Humanos, criticada por aceitar países com um historial duvidoso na matéria. Na sequência da eleição por voto secreto dos cento e noventa e um membros da AG, foram eleitos para a nova instância países como a Tunísia, China, Arábia Saudita, Rússia e Cuba, alvos tradicionais de críticas das organizações de defesa dos Direitos Humanos.

[...] O orçamento regular das Nações Unidas é aprovado pela Assembleia Geral por um período de dois anos.

[...] Na realidade, as NU têm vários orçamentos. No total, as NU, bem como as suas agências e fundos gastam cerca de vinte mil milhões de dólares por ano - o que corresponde a três dólares por cada habitante da terra. Contudo, o orçamento regular para 2008-2009 é de 4,17 mil milhões de dólares. O orçamento regular constitui menos de 10% das despesas do sistema das NU. Os Estados mais desenvolvidos são os que mais têm feito pressão para que o orçamento não cresça: a chamada política de "no-growth".

Essa quantia serve para cobrir: as actividades principais; os gastos dos programas da ONU em áreas como assuntos políticos, justiça e direito internacional, cooperação internacional para o desenvolvimento, informação pública, Direitos Humanos e assuntos humanitários; pessoal e infra-estrutura básica da sede em NY e nas outras oito localidades do mundo nos EUA, Europa, Ásia, África e América Latina. O orçamento: cobre, entre outras, as conferências internacionais, actividades de informação pública, promoção dos Direitos Humanos e missões especiais a zonas de conflito.

O orçamento regular é o somatório das contribuições obrigatórias pagas pelos Estados. Tais contribuições são feitas de acordo com uma escala de quotas, determinada pela Assembleia Geral e revistas de três em três anos. Esse cálculo tem em linha de conta o rendimento nacional total em relação à dos outros Estados-membros, levando em consideração diversos factores, como, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) e o rendimento per capita de cada país; alterações económicas (como os conflitos) e a capacidade dos Estados em obter moeda estrangeira. Existe um plafond mínimo e máximo para as contribuições. No máximo, os Estados não poderão contribuir para mais de 22% do orçamento. Por sua vez, o plafond para os Estados mais pobres é de 0.0001% (actualmente são cinquenta e três).










Os países que mais pagam para as NU e a percentagem das suas contribuições são:


Estados Unidos - 22%
Japão - 16,624%
Alemanha - 8,577%
Reino Unido - 6,642%
França - 6,301%
Itália - 5,079%
Canadá - 2,977%;
Espanha - 2, 968%
China - 2,667%
México - 2,257%
Coreia do Sul - 1,796%
Holanda - 1,690%
Austrália - 1,592%
Brasil - 1,523%
Suíça - 1,197%


Em 2008, os três maiores contribuintes (EUA, Japão e Alemanha) eram responsáveis por 47,201% do orçamento regular. Os dez principais contribuintes, que incluem quatro dos cinco membros permanentes do CS, arcam com 76,092% do orçamento, de acordo com a escala de pagamentos adoptada pela AG para os anos 2007-2009. Em contrapartida, cento e oitenta e dois Estados contribuem com menos de 25%.

Os fundos e programas da ONU, como por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), possuem orçamentos próprios e grande parte dos seus recursos são provenientes de doações voluntárias dos governos e também de indivíduos, como é o caso da UNICEF. As Agências Especializadas também têm seus próprios orçamentos e podem receber contribuições voluntárias dos Estados-membros.

[...] O conceito de segurança colectiva era um conceito caro ao Presidente americano, Woodrow Wilson. A Sociedade das Nações constitui um fenómeno novo e sem precedentes na história porque foi projectada para criar uma ordem internacional mais pacífica e estruturalmente diferente. O projecto constituía uma ruptura face ao sistema anterior. A Sociedade foi a primeira experiência de uma organização política multilateral com a ambição de, nada mais, nada menos, ilegalizar a guerra.

A paternidade do projecto é do Presidente norte-americano, Woodrow Wilson, que ambicionava substituir o sistema europeu baseado na diplomacia secreta e na balança de poderes por um sistema transparente. O Pacto da Liga das Nações estabelecia um sistema ambicioso de segurança colectiva. Wilson propôs à Liga das Nações este conceito como uma alternativa ao tradicional equilíbrio da política de poder, que geralmente conduzia à guerra. O artigo 11.º resumia o espírito deste sistema ao dizer que "qualquer ameaça de guerra que afecte, directamente ou não, alguns dos Membros da Sociedade interessa a toda a Sociedade e que esta deve tomar as medidas próprias para salvaguardar eficazmente a paz das Nações". Este conceito acabou por ser replicado na ONU».

Maria do Céu Pinto («O Papel da ONU na Criação de uma Nova Ordem Mundial»).


«O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana. Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenómeno particular. A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. É verdade que há outros factores (tais como o vulcanismo, as variações da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (anidrido carbónico, metano, óxido de azoto e outros), emitidos sobretudo por causa da actividade humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares reflectidos pela Terra se dilua no espaço. Isto é particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fôsseis, que está no centro do sistema energético mundial. E incidiu também a prática crescente de mudar a utilização do solo, principalmente a desflorestação para fins agrícolas.

[...] Por sua vez, o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um ciclo vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes, e provocará a extinção de parte da biodiversidade do Planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande altitude ameaça com uma libertação, de alto risco, de gás metano, e a decomposição da matéria orgânica congelada poderia acentuar ainda mais a emissão de anidrido carbónico. Entretanto, a perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido carbónico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência actual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades está situada em áreas costeiras.

[...] As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente, os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afectados por fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre se conseguem adaptar; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão a acontecer agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.























François Hollande e Xi Jinping

















[...] Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos actuais de produção e consumo. Por isso, tornou-se urgente e imperioso o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbónico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, por exemplo, substituindo os combustíveis fôsseis e desenvolvendo fontes de energia renovável. No mundo, é exíguo o nível de acesso a energias limpas e renováveis. Mas ainda é necessário desenvolver adequadas tecnologias de acumulação. Entretanto, em alguns países, registaram-se avanços que começam a ser significativos, embora estejam longe de atingir uma proporção importante. Houve também alguns investimentos em modalidades de produção e transporte que consomem menos energia exigindo menor quantidade de matérias-primas, bem como em modalidades de construção ou restruturação de edifícios para se melhorar a sua eficiência energética. Mas estas práticas promissoras estão longe de se tornar omnipresentes.

[...]  Entretanto, não basta pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais "recursos" exploráveis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas. Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma actividade humana. Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem nos poderão comunicar a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer.

[...] Possivelmente perturba-nos saber da extinção de um mamífero ou de uma ave, pela sua maior visibilidade; mas, para o bom funcionamento dos ecossistemas, também são necessários os fungos, as algas, os vermes, os pequenos insectos, os répteis e a variedade inumerável de micro-organismos. Algumas espécies pouco numerosas, que habitualmente nos passam despercebidas, desempenham uma função censória fundamental para estabelecer o equilíbrio de um lugar. É verdade que o ser humano deve intervir quando um ecossistema cai em estado crítico, mas hoje o nível de intervenção humana numa realidade tão complexa como a natureza é tal, que os desastres constantes causados pelo ser humano provocam uma nova intervenção sua, de modo que a actividade humana se torna omnipresente, com todos os riscos que isto implica. Normalmente, cria-se um círculo vicioso, no qual a intervenção humana, para resolver uma dificuldade, muitas vezes ainda agrava mais a situação. Por exemplo, muitos pássaros e insectos, que desaparecem por causa dos agrotóxicos criados pela tecnologia, são úteis para a própria agricultura, e o seu desaparecimento deverá ser compensado por outra intervenção tecnológica que possivelmente trará novos efeitos nocivos. São louváveis e, às vezes, admiráveis os esforços dos cientistas e técnicos que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, apercebemo-nos de que esse nível de intervenção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do consumismo, faz com que esta Terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem limites. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza insuprível e irrecuperável por outra criada por nós.

[...] Gostaria de assinalar que muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do Planeta, milhares e milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não considerados meros danos colaterais. Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem frequentemente no último lugar. Isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localizados longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contacto directo com os seus problemas. Vivem e reflectem a partir da comodidade de um desenvolvimento e de uma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial. Esta falta de contacto físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a ignorar parte da realidade em análises tendenciosas. Isto, às vezes, coexiste com um discurso "verde". Mas, hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica se torna sempre uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.

[...] Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns limitam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de "saúde reprodutiva". Mas, "se é verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve reconhecer-se que o crescimento demográfico é plenamente compatível com um desenvolvimento integral e solidário" [PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ, Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n.º 483]. Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e selectivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Pretende-se assim legitimar um modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o Planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e "a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre" [FRANCISCO, Catequese (5 de Junho de 2013): Insegnamenti 1/1 (2013), p. 280; L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 9/VI/2013), p. 16]. Em todo o caso, é verdade que devemos prestar atenção ao desequilíbrio na distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível mundial, porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas pelas combinações de problemas ligados à poluição ambiental, ao transporte, ao tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade de vida.









[...] A desigualdade não afecta apenas os indivíduos, mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira "dívida ecológica", particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países.

[...] O meio ambiente é um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros. Por isso, os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que significado pode ter o mandamento "não matarás", quando "vinte por cento da população mundial consome recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver" [CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA NOVA ZELÂNDIA, Statement on Environmental Issues (1 de Setembro de 2006)].

[...] Desde meados do século passado, e superando muitas dificuldades, foi-se consolidando a tendência de conceber o Planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa comum. Um mundo interdependente não significa unicamente compreender que as consequências danosas dos estilos de vida, produção e consumo afectam a todos, mas principalmente procurar que as soluções sejam propostas a partir de uma perspectiva global e não apenas para defesa dos interesses de alguns países. A interdependência obriga-nos a pensar num único mundo, num projecto comum. Mas a mesma inteligência que foi utilizada para um enorme desenvolvimento tecnológico não consegue encontrar formas eficazes de gestão internacional para resolver as graves dificuldades ambientais e sociais. Para enfrentar os problemas de fundo, que não se podem resolver com acções de países isolados, torna-se indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras, fomentar uma maior eficiência energética, promover uma gestão mais adequada dos recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso à água potável.

[...] Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis - altamente poluentes, sobretudo o carvão, mas também o petróleo e, em menor medida, o gás - deve ser, progressivamente e sem demora, substituída. Enquanto aguardamos por um amplo desenvolvimento das energias renováveis, que já deveria ter começado, é legítimo optar pelo mal menor, ou recorrer a soluções transitórias. Todavia, na comunidade internacional, não se consegue suficiente acordo sobre a responsabilidade de quem deve suportar os maiores custos da transição energética. Nas últimas décadas, as questões ambientais deram origem a um amplo debate público, que fez crescer na sociedade civil espaços de notável compromisso e generosa dedicação. A política e a indústria reagem com lentidão, longe de estar à altura dos desafios mundiais. Neste sentido, pode dizer-se que, enquanto a humanidade do período pós-industrial talvez fique na memória como uma das mais irresponsáveis da história, espera-se que a humanidade dos inícios do século XXI possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades.

[...] O movimento ecológico mundial já percorreu um longo caminho, enriquecido pelo esforço de muitas organizações da sociedade civil. Não seria possível mencioná-las todas aqui, nem recordar a história das suas contribuições. Mas graças a tanta dedicação, as questões ambientais têm estado cada vez mais presentes na agenda pública e tornaram-se um convite permanente a pensar a longo prazo. Apesar disso, as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes.

[...] De entre elas há que recordar a Cimeira da Terra, realizada em 1992 no Rio de Janeiro. Lá se proclamou que "os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável" [Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro (14 de Junho de 1992), princípio 1]. Retomando alguns conteúdos da Declaração de Estocolmo (1972), sancionou, entre outras coisas, a cooperação internacional no cuidado do ecossistema de toda a Terra, a obrigação de que quem contaminar deve assumir economicamente os custos derivados, o dever de avaliar o impacto ambiental de toda e qualquer obra ou projecto. Propôs o objectivo de estabilizar as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera para inverter a tendência do aquecimento global. Também elaborou uma agenda com um programa de acção e uma convenção sobre biodiversidade, declarou princípios em matéria florestal. Embora tal cimeira marcasse um passo em frente e fosse verdadeiramente profética para a sua época, os acordos tiveram um baixo nível de implementação, porque não se estabeleceram adequados mecanismos de controlo, revisão periódica e sanção das violações. Os princípios enunciados continuam a requerer caminhos eficazes e ágeis de realização prática.









[...] Como experiências positivas, podem mencionar-se, por exemplo, a Convenção de Basileia sobre os resíduos perigosos, com um sistema de notificação, níveis estipulados e controlos, e também a Convenção vinculante sobre o comércio internacional das espécies da fauna e da flora selvagens ameaçadas de extinção, que prevê missões de verificação do seu efectivo cumprimento. Graças à Convenção de Viena para a protecção da camada do ozono e a respectiva implementação através do Protocolo de Montreal e as suas emendas, o problema da diminuição da referida camada parece ter entrado numa fase de solução.

[...] No cuidado da biodiversidade e no contraste à desertificação, os avanços foram muito menos significativos. Relativamente às mudanças climáticas, os progressos são, infelizmente, muito escassos. A redução de gases com efeito de estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo dos países mais poderosos e mais poluentes. A Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20 (Rio de Janeiro, 2012), emitiu uma Declaração Final extensa, mas ineficaz. As negociações internacionais não podem avançar significativamente por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global. Aqueles que hão-de sofrer as consequências, que tentamos dissimular, recordarão esta falta de consciência e de responsabilidade. Durante o período de elaboração desta encíclica, o debate adquiriu particular intensidade. Nós, crentes, não podemos deixar de rezar a Deus pela evolução positiva nos debates actuais, para que as gerações futuras não sofram as consequências de demoras imprudentes.

[...] Algumas das estratégias para a baixa emissão de gases poluentes apostam na internacionalização dos custos ambientais, com o perigo de impor aos países de menores recursos pesados compromissos de redução de emissões, comparáveis aos dos países mais industrializados. A imposição destas medidas penaliza os países mais necessitados de desenvolvimento. Assim, acrescenta-se uma nova injustiça sob a capa do cuidado do meio ambiente. Como sempre, a corda quebra pelo ponto mais fraco. Uma vez que os efeitos das mudanças climáticas se farão sentir durante muito tempo, mesmo que agora sejam tomadas medidas rigorosas, alguns países com escassos recursos precisarão de ajuda para se adaptar a efeitos que já se estão a produzir e afectam as suas economias. É verdade que há responsabilidades comuns, mas diferenciadas, pelo simples motivo - como disseram os bispos da Bolívia - de que "os países que foram beneficiados por um alto grau de industrialização, à custa de uma enorme emissão de gases com efeito de estufa, têm maior responsabilidade em contribuir para a solução dos problemas que causaram" [CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA BOLÍVIA, Carta pastoral El universo, don de Dios para la vida (2012), n.º 86].

[...] A estratégia de compra-venda de "créditos de emissão" pode levar a uma nova forma de especulação que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores.

[...] Para os países pobres, as prioridades devem ser a erradicação da miséria e o desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o nível escandaloso de consumo de alguns sectores privilegiados da sua população e contrastar melhor a corrupção. Sem dúvida, devem também desenvolver formas menos poluentes de produção de energia, mas para isso precisam de contar com a ajuda dos países que cresceram muito à custa da actual poluição do Planeta. O aproveitamento directo da energia solar, tão abundante, exige que se estabeleçam mecanismos e subsídios tais que os países em vias de desenvolvimento possam ter acesso à transferência de tecnologias, assistência técnica e recursos financeiros, mas sempre prestando atenção à condições concretas, pois "nem sempre se avalia adequadamente a compatibilidade dos sistemas com o contexto para o qual são projectados" [PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ, Documento Energia, Giustizia e Pace (Cidade do Vaticano 2013), n.º 56]. Os custos seriam baixos se comparados com os riscos das mudanças climáticas. Em todo o caso, trata-se primariamente de uma decisão ética, fundada na solidariedade de todos os povos.

[...] Urgem acordos internacionais que se cumpram, dada a escassa capacidade das instâncias locais para intervirem de maneira eficaz. As relações entre os Estados devem salvaguardar a soberania de cada um, mas também estabelecer caminhos consensuais para evitar catástrofes locais que acabariam por danificar a todos. São necessários padrões reguladores globais que imponham obrigações e impeçam acções inaceitáveis, como o facto de países poderosos descarregarem, sobre outros países, resíduos e indústrias altamente poluentes.

[...] Mencionemos também o sistema de governança dos oceanos. Com efeito, embora tenha havido várias convenções internacionais e regionais, a fragmentação e a falta de severos mecanismos de regulamentação, controlo e sanção acabam por minar todos os esforços. O problema crescente dos resíduos marinhos e da protecção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais continua a representar um desafio especial. Em definitivo, precisamos de um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais.

Papa Francisco e Leonardo DiCaprio




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[...] A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência do aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos de uma reacção global mais responsável, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema de governança próprio de épocas passadas, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto, torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar. Como afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida até agora pela doutrina social da Igreja, "para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeira autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Papa [São] João XXIII" [Carta Encíclica Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), n.º 67: ASS, 101 (2009), p. 700].

[...] em alguns casos o desenvolvimento sustentável implicará novas modalidades para crescer, noutros casos - face ao crescimento ganancioso e irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas - devemos pensar também em abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que seja tarde. Sabemos que é insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo em algumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes. Bento XVI dizia que "é preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização" [Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, n.º 9: AAS, 102, (2010), p. 46].

[...] A educação para a responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias... Tudo isto faz parte de uma criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano. Voltar - com base em motivações profundas - a utilizar algo em vez de o desperdiçar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade».

Segunda Carta Encíclica do Papa Francisco («Laudato Si'», 2015).


«É evidente que nenhuma soberania pode ou deve assumir o poder de impedir qualquer homem ou mulher de exercer em liberdade o direito de ir pelo mundo em busca de realização pessoal e futuro aceitável. Mas também nenhum governo pode secundarizar o dever de fortalecer a relação entre os cidadãos e a terra onde nasceram, sobretudo criando a confiança, o primeiro alicerce da decisão de ficar. Esta necessidade não se afigura fácil de enfrentar, em vista do teor da governança europeia, do repetido anúncio de crise insuperável e dos sintomas de vocação para o diretório [sic]. Mas é um desafio que exige resposta.

[...] O sentido da responsabilidade não se confunde, mas é dificilmente separável, da culpa, quando o poder de condicionar o futuro das comunidades é assumido. Na crise em movimento não estabilizado em que vivemos, a hesitação entre impor uma governação autoritária, que foi no passado uma opção frequente, uma intervenção reguladora em nome de princípios éticos, e uma adoção [sic] da liberdade de mercado, parece tudo orientar-se, no que respeita à terapia europeia, para o último paradigma. Mas a escolha do caminho único é questionável, tendo em vista o desalinhamento entre o sentimento e a vontade da sacrificada sociedade civil, a autoridade invocada por governantes muitas vezes nunca eleitos no regime democrático que servem, e o condicionamento internacional em que os europeus se encontram. Tem acontecido uma forte discordância com os programas anunciados e que orientam as eleições dos países atingidos pela fronteira da pobreza, lidando em regra com a vaga de imprevistos que acompanha sempre as responsabilidades governamentais.

Para não lembrar autores mais radicais, que esperam conseguir com a diminuição de salários, subsídios, e pensões, as perdas que o sistema financeiro provocou e sofreu com as práticas imaginativas que outros, em regra desconhecidos, praticaram, recorde-se um divulgado trecho de F. A. Hayek, Prémio Nobel da Economia, por vezes apresentado, além de filósofo, como um profeta da evolução. É de resto um dos mestres venerado e citado pela The Heritage Foundation, que se intitula doutrinadora do Leadership For America. O principal dos seus temas talvez tenha sido "compreender a mente humana, os mercados que esta criou, e a maneira como os mercados fizeram dos homens e da sociedade aquilo que são". É seguramente uma adesão geral à importância determinante do mercado, mas tem de sublinhar-se que no seu The Constitution of Liberty, Hayek insiste em que não pode separar-se a liberdade da responsabilidade. Enquanto populariza o mercado livre e condena o totalitarismo socialista, tem humildemente presente que o saber é sempre limitado, e quando isto é esquecido, o desastre não anda longe, o que se destina a advertir as tentativas de orientar a economia sem a responsabilidade correspondente.

Nesta situação de crise mundial, o ex-presidente da The Heritage Foundation, Edwin J. Feulner, ao estarmos longe do Estado social de que necessitamos, chama especialmente a atenção para este trecho de The Constitution of Liberty: "Faz parte da natureza comum dos homens (e talvez ainda mais das mulheres), e uma das principais condições da sua felicidade, que façam do bem-estar dos seus o seu principal objetivo [sic]... Por opinião comum a nossa principal preocupação a este respeito serve, evidentemente, o bem-estar da nossa família. Mas nós também mostramos o nosso apreço e aprovação dos outros fazendo deles nossos amigos, e nossos os seus objetivos [sic]. Escolher os nossos parceiros e geralmente aqueles cujas necessidades consideramos preocupações nossas é uma parte essencial da liberdade e da conceção [sic] moral de uma sociedade livre". A serenidade com que anda atacado o Estado social, sobretudo quando a política deriva de uma adesão ao credo do mercado, talvez não tenha sempre em conta o sentido de responsabilidade que não deixa de ser lembrado por tão convicto doutrinador, nem sempre recordado quando se defende a suficiência de uma ética empresarial que acompanhe e oriente o empreendorismo económico e financeiro.





Acompanhamos, por doutrina, os que defendem a principiologia do Estado social, e temos de respeitar os que doutrinam e praticam, mesmo no exercício do poder, a lógica do mercado. Com a limitação de concederem à sociedade civil a exigência da responsabilidade objetiva [sic] pelos conceitos e decisões que vêm integrados no consequencialismo das opções. O conflito crescente entre a sociedade civil, o poder legitimamente eleito e a fria conjuntura internacional não tem sido suficientemente acompanhada pela responsabilidade assumida do consequencialismo. Um facto que não apoia a tranquilidade social.

[...] Agora, os campos abandonados, as aldeias sem crianças, a emigração para as cidades de onde começam a procurar um destino estrangeiro com futuro, deixam a terra deserta, em parte por diretivas [sic] europeias. Por outro lado, o mar, de onde praticamente desapareceu a frota, ao mesmo tempo que emigrava para Bruxelas a competência para gerir os recursos vivos do mar, faz inevitavelmente ir desaparecendo o saber de também ali procurar o sustento das gentes que noutros tempos ficavam, enquanto outros partiam para as aventuras dos descobrimentos dos novos mundos. O conceito antigo, que ensinava a necessidade de ter e exercer uma reserva estratégica alimentar, e que mandava construir os silos, dos quais Bragança tenta guardar o seu, com outro desafio mas para salvaguardar a marca da História, precisa de ser revisitado nesta situação em que a dependência externa também é pesadamente alimentar.

[...] Provocou muitos comentários, e evidente alvoroço, a afirmação do Papa Francisco de que esta economia mata, referindo-se com evidência e clareza à metodologia que tem por horizonte e conceito estratégico o orçamento, por legitimação da fadiga tributária dos povos o Fiscal Compact da enigmática senhora Merkel, que usa com perícia o poder das palavras e dos silêncios. Baseado na tormenta financeira global que o aflige, o Papa, porque ela está a adoecer severamente os povos de que se considera pastor, ele que veio do fim do mundo para ver de perto a transformação do Mediterrâneo num cemitério e assistir às inquietantes modalidades da luta muçulmana, que pode somar à crise a perturbação alargada da paz.

Com as referidas críticas e reservas, o Papa não alterou a doutrina do Concílio Vaticano II, nem a conclusão que Paulo VI levou à ONU, quando ali proclamou que o desenvolvimento é o novo nome da paz. O que mudou foi a circunstância mundial, incluindo a quietude do Conselho Económico e Social da ONU, o facto de os planos antes ali aprovados não terem impedido que mais de metade dos Estados que a integram não tenham sequer capacidade para responder aos desafios da natureza em cólera, tufões, inundações, guerra dos povos, fome, pestes, e assim por diante. Tudo isto apoiado na vasta ignorância dos reais poderes supranacionais em exercício, abusando da ignorância dos valores que devem ser componentes, orientadores, e limites das liberdades que incluem a livre iniciativa económica, em relação à qual o insuspeito John Locke (1632-1704) distinguiu entre liberdade e licença, o que significa que a primeira não pode ser separada da justiça. Para traduzir a questão com simplicidade, basta recordar as palavras do companheiro de Mandela, o Bispo Tutu, ao procurar exprimir as aspirações dos pobres e oprimidos do sul do Mediterrâneo, especialmente do seu próprio país: "Para eles, isso significa que a liberdade se traduz em estarem bem abastecidos de água potável e em disporem de eletricidade [sic] com o simples apertar de um interruptor; em poder viver num lar digno e trabalhar num bom emprego; em poder enviar os seus filhos à escola e em desfrutar de uma saúde acessível. O que quero dizer é: de que servirá ter efeito esta transição (fim do apartheid) se não aumenta e melhora a qualidade de vida destes povos?" Nessa data, os relatórios da ONU, então ativa [sic], ainda consideravam a pobreza uma situação confinada ao sul dos ocidentais. O Bispo de Roma verifica que a situação dos povos que se mantiveram mais ou menos ligados ao seu ministério não lhe permite esquecer a que enfrentou na maior parte da sua vida de sacerdote. Nem pode também deixar de recordar-lhe o Concílio, as esperanças ali semeadas, a convicção de Paulo VI, e as esperanças, depois perdidas, que foram semeadas. De modo que o Papa Francisco não esqueceu, antes relembrou a doutrina conciliar que afirmou o privilégio dos pobres. Disso voltam a lembrar-se, com ele, o que ainda existe na Europa de democracias cristãs, os sociais democratas que retomam os seus princípios, e o socialismo democrático que conserva as suas referências. Defendeu a livre iniciativa respeitadora da justiça, e não a orientada pela ganância, usando o saber e a técnica sem substituir os valores das coisas pelo preço das coisas.

Os partidos são organizados para, sem omitirem o despotismo democrático que Toqueville em seu tempo condenou, proporem ao eleitorado um programa e obterem o poder de o praticar, uma coincidência frequentemente abandonada, como se a legitimidade de exercício não dependesse de uma relação respeitada entre ambas as finalidades. Já foi lembrado que o New Deal de Roosevelt foi atacado por inconstitucional. Ora, a evolução ocidental consagrou largamente o Estado social, mas parece que a pregação em curso está a lembrar que a crítica tende para a atitude daquele tempo.

[...] Foi com este título [Arquivo Íntimo] que apareceu, em tradução portuguesa, o último livro de Nelson Mandela, no original chamado Conversations With Myself. Pela maior parte sendo um diário de prisioneiro, não são considerações sobre o infortúnio em que esteve longos anos, sem perder a esperança, que o ocuparam, mas, pelo contrário, é uma longa narrativa sobre o aprofundamento da sua avaliação, enquanto ser humano, dos factores que conduzem à convicção e realidade do sucesso individual. Descuidado de interesses materiais, e até de poder político, afirma que a luta pela "honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros - qualidades ao alcance de todas as almas - constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós". Mereceu as palavras rigorosas que lhe dedicou Barack Obama no prefácio, este o político que advertiu a plural variedade ética e cultural dos EUA de que todos são americanos, e que seguramente recebeu alguma inspiração de Mandela que, na prisão de Robben Island, com o número 466/64, tentava fazer compreender ao povo "arco-íris" da África do Sul que todos eram cidadãos do mesmo país, sem diferenciações étnicas e culturais, sem esquecer as diversidades que enriqueciam o todo, mas sem registar as memórias do passado doloroso, salvo para não repetir ou manter as mesmas violações e agressões aos direitos humanos, que ensombravam a narrativa da sua própria vida. Uma narrativa vincada, ao longo do cativeiro, pela evolução do guerrilheiro que, no isolamento imposto por uma lei injusta, concluía que "a cela é o lugar ideal para nos conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos", sem negar que a situação real pode justificar o recurso à violência, mas sem perder de vista que o objetivo [sic] final deverá ser, sem exceções [sic], criar o ambiente necessário às soluções pacíficas. Quando, finalmente libertado, lhe foi oferecido o poder, não quis dar assentimento ao convite, preferindo servir sem qualquer cargo no governo, admirador confesso dos homens e mulheres admiráveis pelos esforços e sacrifícios a favor da comunidade sem qualquer função de relevo no governo ou na própria sociedade civil. Convidado, porém, a seguir a decisão coletiva [sic] da sua organização, como sempre recomendara para todos, não se afastou um passo das suas convicções, quer aproximando as comunidades plurais do seu povo, quer peregrinando pelas terras dos homens mais poderosos do mundo que teve de ir reaprendendo, uma trajetória [sic] que foi enaltecida por um dos mais justos prémios Nobel da Paz até hoje conferidos. O passivo, composto de conflitos trágicos, que recebia como governante, privado de acompanhar o mundo com a sua própria visão livre durante tantos anos, nunca o impediu de aconselhar os desavindos com estas palavras de validade intemporal: "São poucas as pessoas envolvidas em processos de negociação que pareçam ter aprendido a arte do compromisso. A inflexibilidade de alguns intervenientes dificultaria inevitavelmente a negociação de compromissos que permitam que se chegue a um acordo". Referia-se a um dos sangrentos conflitos que inquietaram a África e o mundo, durante o processo de paz do Burundi, em 16 de Janeiro de 2000.








N. Mandela e Yasser Arafat

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N. Mandela e Bill Clinton

N. Mandela abraça Fidel Castro. Ver aqui



Na situação atual [sic] do mundo, e de cada um dos Estados, incluindo os europeus, a braços com uma crise global sem equivalentes fáceis de encontrar no passado, este comentário do prisioneiro 466/64 merece atenção dos desavindos sobre erros, soluções e futuros, sem esquecer responsabilidades. Tendo presente a humildade do autor quando previu que "nunca foi santo, nem mesmo na aceção [sic] terrena de um santo como um pecador que não cessa de se esforçar". Esta humildade não impede que "nunca cansado de se esforçar", seja mundialmente a referência viva do ideal da paz para os nossos dias, em sociedades plurais a exigir um processo de desenvolvimento sustentado».

Adriano Moreira («Futuro com memória. Lições da vida e da História»).


«Did billionaire speculator George Soros, President Barack Obama, Secretary of State Hillary Clinton, Vice President Joe Biden, and Obama/Clinton adviser John Podesta conspire to overthrown the conservative Pope Benedict XVI and replace him with a radical, Pope Francis? Did they use America’s intelligence agencies, and our nation’s diplomatic machinery, political muscle, and financial power to coerce and blackmail “regime change” in the Roman Catholic Church?

Far from being some wild conspiracy theory, there is sound prima facie evidence to indicate that this is a serious effort to expose a political scandal of the highest order, involving flagrant, criminal abuse of power at the top levels of the U.S. government. A group of respected Catholic lay leaders have sent a letter to President Donald Trump urging him to launch an official investigation into the activities of the above mentioned individuals (and others) who appear to have been involved in this alleged Vatican coup. They cite eight specific questions they seek to have answered concerning suspect events that led to the resignation of Pope Benedict, the first such papal abdication in 700 years.

“Specifically, we have reason to believe that a Vatican ‘regime change’ was engineered by the Obama administration,” say the petitioners, in their January 20 letter to President Trump. The five signatories to the letter, first published in the Catholic newspaper/weblog, The Remnant, are: Lieutenant Colonel David L. Sonnier, US Army (Retired); Michael J. Matt, editor of The Remnant: Christopher A. Ferrara, author, attorney, and president of the American Catholic Lawyers Association, Inc.; Chris Jackson, Catholics4Trump.com; and, Elizabeth Yore, Esq., Founder of YoreChildren

“We were alarmed to discover,” their letter notes, “that, during the third year of the first term of the Obama administration your previous opponent, Secretary of State Hillary Clinton, and other government officials with whom she associated proposed a Catholic ‘revolution’ in which the final demise of what was left of the Catholic Church in America would be realized.” The letter includes footnote links that take the reader to documents and news stories underscoring their charges and pointed questions. It first directs attention to the Soros-Clinton-Podesta e-mails disclosed last year by WikiLeaks, in which Podesta and other “progressives” discussed ending the “middle ages dictatorship” in the Catholic Church. Regarding the e-mails in question, The New American reported last October: 

Podesta, a longtime Clinton adviser/confidante and hand-picked top activist for left-wing funder George Soros, revealed in a 2011 e-mail that he and other activists were working to effect a “Catholic Spring” revolution within the Catholic Church, an obvious reference to the disastrous “Arab Spring” coups organized that same year by the Obama-Clinton-Soros team that destabilized the Middle East and brought radical Islamist regimes and terrorist groups to power in the region. The Podesta e-mail is a response to another Soros-funded radical — Sandy Newman, founder of the “progressive” Voices for Progress. Newman had written to Podesta seeking advice on the best way to “plant the seeds of the revolution” in the Catholic Church, which he described as a “middle ages [sic] dictatorship.” The issue that appeared to be the cause of Newman’s e-mail was opposition by U.S. Catholic Bishops to the federally mandated contraceptive coverage in ObamaCare.

In their letter to President Trump, the concerned Catholics write: “Approximately a year after this e-mail discussion, which was never intended to be made public, we find that Pope Benedict XVI abdicated under highly unusual circumstances and was replaced by a pope whose apparent mission is to provide a spiritual component to the radical ideological agenda of the international left. The Pontificate of Pope Francis has subsequently called into question its own legitimacy on a multitude of occasions.”







“We remain puzzled by the behavior of this ideologically charged Pope, whose mission seems to be one of advancing secular agendas of the left rather than guiding the Catholic Church in Her sacred mission,” they say, expressing the thoughts, undoubtedly, of innumerable Catholics worldwide. “It is simply not the proper role of a Pope to be involved in politics to the point that he is considered to be the leader of the international left.”

The Catholic quintet began their missive to President Trump with the famous quote attributed to French historian Alexis de Tocqueville: “America is great because she is good. If America ceases to be good, America will cease to be great.”

“While we share your stated goal for America,” they write, “we believe that the path to ‘greatness’ is for America to be ‘good’ again, to paraphrase de Tocqueville. We understand that good character cannot be forced on people, but the opportunity to live our lives as good Catholics has been made increasingly difficult by what appears to be a collusion between a hostile United States government and a pope who seems to hold as much ill will towards followers of perennial Catholic teachings as he seems to hold toward yourself.”

They continue:

With all of this in mind, and wishing the best for our country as well as for Catholics worldwide, we believe it to be the responsibility of loyal and informed United States Catholics to petition you to authorize an investigation into the following questions:

- To what end was the National Security Agency monitoring the conclave that elected Pope Francis?

- What other covert operations were carried out by US government operatives concerning the resignation of Pope Benedict or the conclave that elected Pope Francis?

- Did US government operatives have contact with the “Cardinal Danneels Mafia”?

- International monetary transactions with the Vatican were suspended during the last few days prior to the resignation of Pope Benedict. Were any U.S. Government agencies involved in this?

- Why were international monetary transactions resumed on February 12, 2013, the day after Benedict XVI announced his resignation? Was this pure coincidence?

- What actions, if any, were actually taken by John Podesta, Hillary Clinton, and others tied to the Obama administration who were involved in the discussion proposing the fomenting of a “Catholic Spring”?

- What was the purpose and nature of the secret meeting between Vice President Joseph Biden and Pope Benedict XVI at the Vatican on or about June 3, 2011?

- What roles were played by George Soros and other international financiers who may be currently residing in United States territory?

It is likely that very few Americans, including American Catholics, are aware of these matters, in the slightest degree. Although the WikiLeaks, DCLeaks, and Snowden revelations have made most of this planet’s inhabitants aware that the NSA routinely (and illegally) has scooped up billions of phone calls, e-mails, and text messages, very little media coverage has focused on the revelations concerning the NSA spying on Pope Benedict and the cardinals of the conclave that elected Pope Francis in 2013...»

William F. Jasper («Catholics Ask Trump to Probe Soros-Obama-Clinton Conspiracy at Vatican», in The New American, 28 January 2017).


«A Sua Santidade
O Papa Francisco
Secretaria de Estado
Palazzo Apostólico Vaticano
00120 Città del Vaticano
ROMA - Itália

Lisboa, 2 de fevereiro [sic] de 2015







Vossa Santidade:

Quando da celebração do Centenário do Centro Académico da Democracia Cristã, de Coimbra, no ano passado, pediram-me para ali fazer uma conferência relacionada com a situação atual [sic], depois de tantas décadas, passando em revista factos mais relevantes desse longo período. Mais uma vez me feriu a atenção que estavam a manifestar-se sinais claros da previsão de Malraux sobre o século XXI, "que será religioso ou não será". E por isso, naquela palestra, sugeri que seria necessário desenvolver uma iniciativa que julgo devida ao grande Secretário Geral da ONU, que foi Dag Hammarskjöld, ao criar uma sala singela para meditação de todas as religiões. Também foi importante ter reparado, há anos, que o principal fator [sic] de gravidade do terrorismo, tornado evidente no ataque às Torres Gémeas de Nova York, que a Al-Qaeda tinha incluído valores religiosos no seu conceito estratégico. O estado do mundo neste 2015, com um aviso alarmante no massacre de Paris, voltou a impor a evidência de que existem nesta data guerras "nos quatro cantos do mundo", que volta de novo, e com nova face, a evidenciar-se a velha linha do Cabo ao Cairo, que a área ocidental está desorientada com a multiplicação de conflitos que não cabem nos conceitos da estratégia clássicos, falando-se em guerras alheias aos Estados, com um cortejo aterrador de crimes contra a Humanidade, mortandade de crianças, destruição de estruturas seculares, ou ainda as situações que não são de guerra nem de paz. As últimas intervenções de Vossa Santidade, quer pela palavra, quer pela presença, levam-me ao atrevimento de lhe enviar, e repetir, a sugestão que fiz na reunião de Coimbra: na ONU, em perda de autoridade, deveria ser criado, ao lado dos orgãos institucionais da Carta, um Conselho das Religiões, a estruturar segundo a experiência da ONU e a que tem sido ganha, sobretudo desde as reuniões de Assis, com as sucessivas iniciativas de encontros, conclusões, e ação [sic], das Igrejas a bem da paz. Se a Igreja Católica tomasse a iniciativa, com respeito institucional, enriqueceria utilmente a contribuição que lhe pertence na doutrinação da paz, designadamente tendo enriquecido, com mestres, o património imaterial da humanidade, tão descuidado e violado neste século sem bússola.

Respeitosamente, o fiel

(Adriano Moreira)
Presidente do Instituto de Altos Estudos da ACL

P. S: Junto, pedindo desculpa, um Currículo apenas para ser absolvido do atrevimento».

Adriano Moreira (in «Futuro com memória. Lições da vida e da História»).


«Amid growing outrage on both sides of the aisle surrounding the United Nations, legislation to get the U.S. government out of the UN and evict the scandal-plagued global body from the United States has been re-introduced in the new Congress. If approved, H.R.193, better known as the “American Sovereignty Restoration Act,” would end U.S. participation in and funding of the widely ridiculed “dictators club” while protecting American sovereignty under the Constitution. Support for the effort is spreading like wildfire.

As in past years, the measure to defend the rights and self-government of the American people from escalating UN attacks will undoubtedly face intense opposition from entrenched globalists and the “swamp” establishment. However, analysts and lawmakers believe the bill stands its best ever chance of becoming law this session — especially under the anti-globalist, anti-establishment Trump administration and a Congress that remains incensed at a recent anti-Israel UN Security Council resolution targeting Jews in East Jerusalem and other areas.

On the campaign trail, Trump, whose campaign was equated with ISIS by a top UN bureaucrat, lambasted the UN, saying it was “not a friend of freedom” or the United States. He also vowed to “cancel” key UN agreements in office, including the illegitimate “climate” regime concocted in Paris in 2015. “When do you see the United Nations solving problems? They don't. They cause problems,” President-elect Trump declared following the controversial UN vote condemning Israeli settlements. “So, if it lives up to the potential, it's a great thing, and if it doesn't, it's a waste of time and money.”

Globalists appear to be taking Trump's rhetoric very seriously. “Global Governance” director Stewart Patrick with the establishment Council on Foreign Relations (CFR), for example, warned recently that the UN was set to get “hammered” in the years ahead by the hostile administration and GOP-controlled Congress. The CFR's Patrick, who responded to the systematic rape of children by UN “peace” troops by demanding more power for the UN, called for the UN to try to dupe Trump into believing that he could use the dictators club to “get things done.”

H.R.193 was re-introduced in the 115th Congress on January 3, the first day of the new Congress, by Representative Mike Rogers (R-Ala.) and a coalition of liberty-minded lawmakers. While the full text of the legislation is not yet available online, sources on Capitol Hill confirmed that the bill was the same as H.R. 1205 of the 114th Congress, also known as the American Sovereignty Restoration Act. The new bill is currently going under the header, “To end membership of the United States in the United Nations.”

If approved, the legislation would repeal the UN Participation Act of 1945, which authorized U.S. involvement, and shutter the U.S. government’s mission to the outfit. It would also “terminate all membership by the United States in the United Nations, and in any organ, specialized agency, commission, or other formally affiliated body of the United Nations.” That specifically includes UNESCO, which President Ronald Reagan withdrew from, along with the World Health Organization, the UN Environment Program (UNEP), the UN's dictator-controlled “Human Rights Council,” and more. It would end all U.S. involvement in all UN conventions and agreements, too.

The proposed law, introduced in numerous Congresses in recent decades, would also end all funding to the UN and all of its agencies — with the estimated savings to taxpayers reaching as high as $10 billion per year, and potentially even more. The legislation prohibits all U.S. military involvement in UN “peacekeeping” schemes, too, creating a ban on U.S. troops serving under UN command.

Finally, following generations of espionage and subversion aimed at the United States conducted by hostile foreign regimes under the guise of UN “diplomacy,” the bill would evict the UN and its spy- and dictator-infested headquarters from U.S. soil. It would also ban any use of American government facilities by the global outfit, while stripping UN bureaucrats and dignitaries of the diplomatic immunity that has become synonymous among critics with the total impunity and lawlessness that pervades the organization.

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In a statement announcing the bill in the last Congress, chief sponsor Representative Rogers explained the reasons why he and many of his constituents in East Alabama wanted to end U.S. government participation in the UN immediately. “The U.N. continues to prove it’s an inefficient bureaucracy and a complete waste of American tax dollars,” the congressman said, echoing widespread concerns about the international outfit expressed across America and worldwide.

Beyond just being a waste, it is also a threat to U.S. interests, sovereignty, allies, and liberties, the Alabama Republican warned. “Why should the American taxpayer bankroll an international organization that works against America’s interests around the world?” he asked. “The time is now to restore and protect American sovereignty and get out of the United Nations.”

[...] UN estimates suggest that American taxpayers pay as much as $10 billion per year to support the UN system and all of its tentacles, including the scandal-plagued “peacekeeping” forces that have become infamous around the world for raping and sexually exploiting children. That means the United States, which is constantly being demonized and attacked for its freedoms by the dictators club, pays more than some 185 other nations — combined. In exchange, the United States is constantly attacked by the UN for its constitutional protections.

Since the American Sovereignty Restoration Act was introduced in the 114th Congress, more than a few political heavyweights have echoed calls for a full U.S. withdrawal. Among them is former Alaska governor and GOP vice presidential candidate Sarah Palin, who has become increasingly vocal since Brexit in calling for the United States to sever the UN “shackles” binding America. “I called for our next president, Donald Trump, to call for the unshackling of the political bands tying us to the UN,” Palin said in a recent radio interview. “It’s our money funding the lion’s share of the globalist circus. It’s We the People needing to rise up and make this a part of the revolution that we have just so benefited from.”

Senator Rand Paul (R-Ky.), meanwhile, has also expressed a desire to dismantle the UN during a campaign stop while a leading contender for the 2016 GOP presidential nomination. “I dislike paying for something that two-bit Third World countries with no freedom attack us and complain about the United States,” explained the popular pro-liberty senator, the son of liberty icon and former Congressman Ron Paul (R-Texas) who led the charge for an Amexit in Congress during his long career as an undefeated constitutionalist lawmaker. “There’s a lot of reasons why I don’t like the UN, and I think I’d be happy to dissolve it.”

In addition to the effort to withdraw from the UN, U.S. lawmakers are also preparing an effort to defund the controversial global institution. “I believe Congress should end U.S. taxpayer funding for the United Nations unless and until the UN reverses this anti-Israel resolution, and I believe there will be considerable support in Congress, I hope in both parties, to do exactly that,” said Senator Ted Cruz (R-Texas), adding that the push would come “soon, very soon.” Even establishment lawmakers are joining the defunding bandwagon as demands for a U.S. withdrawal become mainstream.

Defunding the UN may be a good interim step on the road to full withdrawal, helping to neutralize the dictators club and the havoc it can wreak in the coming months. However, cutting funds for the UN is no substitute for a complete Amexit from the increasingly totalitarian global outfit. For liberty and self-government to survive over the long haul, the UN and its globalist agenda must be stopped. Thankfully, Americans now have the best opportunity in generations to “Get the U.S. out of the UN” and the UN out of the United States. It will take hard work and effort. But setting the globalist establishment back by decades while preserving American freedom and independence is well worth the price».

Alex Newman («Bill to Get U.S. Out of UN Introduced in New Congress», in The New American, 6 January 2017).



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George Soros

«Over the past several years, American cities have been plunged into racial and civil turmoil at a level we have not experienced since the 1960s and 1970s. The anti-police riots in Ferguson, Baltimore, Milwaukee, and elsewhere have morphed into anti-Trump riots across the country, with many of the same organizations and individuals serving as instigators: Black Lives Matter, MoveOn.org, International Action Center, ANSWER Coalition, and other far-left, fake “grassroots” groups. They reliably perform on cue because they are lavishly funded by the Soros Open Society Foundations (OSF), the other big tax-exempt foundations (Rockefeller, Ford, Carnegie, et al.), and activist “pass through” organizations, such as the Tides Foundation, that bundle and launder hundreds of millions of dollars in “dark money” to the street revolutionaries.

Black Lives Matter (BLM), which has become one of the most efficient riot-making operations, has been especially blessed with largess from the billionaire elites. As The New American noted in a 2014 article (“Rioting for a Reason”), BLM was founded by Patrisse Cullors, Alicia Garza, and Opal Tometi, three black lesbian Marxists “who idolize communist terrorist revolutionaries Assata Shakur and Angela Davis, as well as the Black Panther Party and the Black Liberation Movement.” Naturally, for Soros, that qualifies BLM for oodles of cash. An investigation of Soros/OSF financials by the Washington Times in 2015 found that Soros had showered BLM and its related network of activist organizations with more than $33 million. Not bad, but that was only seed money. The Ford Foundation, which has been funding revolution for decades, announced a few months ago it intends to raise $100 million in pooled donor funds for a newly formed Black-Led Movement Fund, of which the BLM (and its rioters) will be major beneficiaries.

[...] The anti-Trump demonstrations and riots — both before and after the election — follow a pattern that we have seen over and over again, from the protests of Occupy Wall Street to Black Lives Matter to Dream Act/Open Borders. Not only are the tactics the same, but many of the same groups and individuals keep reappearing in all of these seemingly spontaneous outbreaks of organized chaos.

Were the “Not My President” rioters that illegally blocked streets and freeways, set fires, threw Molotov cocktails, injured police officers, destroyed property, and defaced public buildings with graffiti day after day following the November 8 election merely Soros rent-a-mobs? There is good reason to believe so.

Not only were well-known Soros-funded organizations such as Black Lives Matter and MoveOn.org prominently involved, but Soros-funded groups such as Washington Community Action Network (Washington CAN) ran advertisements on Craigslist and in newspapers for “full-time organizers” to “Fight the Trump Agenda!” at $15/hour, plus paid vacation and benefits.

Many of the anti-Trump rioters traveled across state lines, which means they not only violated state laws against rioting and inciting to riot, but also federal law against the same crimes. Specifically, the rioters could be (and should be) charged under Title 18 U.S. Code § 2101, which provides that “whoever travels in interstate or foreign commerce … to incite a riot; or to organize, promote, encourage, participate in, or carry on a riot; or … to aid or abet any person in inciting or participating in or carrying on a riot or committing any act of violence in furtherance of a riot … shall be fined under this title, or imprisoned not more than five years, or both.”

As to be expected, Soros PR minions deny that their boss has anything to do with the mayhem caused by those he funds. “George Soros is not funding these (anti Trump) protests,” Soros spokesperson Michael Vachon said in an interview with Value Walk. Of course, Soros also denied funding the Occupy Wall Street (OWS) movement. But financial records showed that he had provided millions of dollars to the Tides Foundation, which then passed through funding to the OWS activists.

This is why official congressional and prosecutorial investigations are necessary. Soros and the other funders of the riots, subversion, and anarchy will continue to deny the obvious, as they have been doing for decades. The undercover videos of James O’Keefe’s Veritas Project have exposed top Democratic Party operatives boasting of their illegal activities, such as voter fraud, busing in demonstrators, fomenting riots, initiating fights, illegal funding, etc. This is happening on a massive scale and can only be stopped by utilizing the same legal bulwarks that are used against organized crime. The financial records of the funders and organ­izations involved must be subpoenaed, and individuals placed under oath, where they will face the full penalty of perjury. As the saying goes, “follow the money,” and prosecute those who are financing the ongoing demolition of America.

Investigation and prosecution of the rioters — and especially those who fund and direct them — is important not only for redress of the crimes already committed and social harm already done, but also to deter plans for similar future havoc.

[...] In a 2005 interview, National Public Radio’s Steve Inskeep noted that Soros has “been described as the only private citizen with his own foreign policy.” Inskeep remarked to Soros: “Uzbekistan, the Open Society Institute was actually receiving grants from the US State Department and spending millions of dollars of US government money on various programs.” That was under President George W. Bush; it was not an isolated incident, and got much worse under President Obama and Secretary of State Hillary Clinton. It’s easy to be a “philanthropist” when you’re spending other people’s money — in this case (and others), American taxpayers’ money.










































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Soros has similarly hijacked U.S. government policy (not by force, but by collusion) in Ukraine, Egypt, Albania, the European Union, and elsewhere — invariably with disastrous results. He has also been exposed as one of the major forces behind the calamitous “refugee crisis” that is swamping Europe with a tsunami of Muslim migrants — and that is threatening to do the same here, thanks to Soros-Obama-Clinton-Kerry collusion. A May 2016 internal report of the International Migration Institute (IMI), an official project of Soros’ Open Society Foundations, boasted of providing the funding for the “Sutherland Report,” the blueprint for Europe’s migration catastrophe authored by Goldman Sachs billionaire Sir Peter Sutherland, now the UN secretary-general’s special representative on international migration. The same report by top IMI staffers Anna Crowley and Kate Rosin, entitled “Migration Governance and Enforcement Portfolio Review,” calls for “accepting the current crisis as the new normal.” Soros also provides funding for the Columbia Global Policy Initiative (CGPI) at Columbia University, which hosts the secretariat for Peter Sutherland’s UN migration office».

William F. Jasper («George Soros: The "God" Who Should Be Jailed», in The New American, 24 January 2017).


«A nossa sociedade desconfia daqueles que se dizem virtuosos, e com razão. Muitas pessoas ricas que constituem fundações têm, para isso, segundas motivações. Quero acreditar que sou diferente. Poder fazer aquilo que está certo é um privilégio raro e exercer esse privilégio é muito compensador. Mas, às pessoas que questionam as minhas motivações, digo-lhes sempre que têm o direito de o fazer. Quando afirmo ser desinteressado, o ónus da prova é meu.

Enquanto estadista sem Estado, enfrento muitos obstáculos. Em primeiro lugar, não sou verdadeiramente desinteressado. Devo confessar que nutro o desejo de causar impacto e dá-me gozo estar envolvido nos acontecimentos históricos. Em segundo, não tenho um saber perfeito. Posso muito bem enganar-me. Fiz a minha fortuna nos mercados financeiros compreendendo-os e corrigindo os meus erros. Na política internacional, os erros têm consequências mais duradouras. Em terceiro lugar, reconheço que ninguém me elegeu ou nomeou como guardião do interesse público; assumi esse papel sozinho. As pessoas têm razão em desconfiar de alguém que pode levar a cabo uma política, mas que não tem de prestar contas ao público, No entanto, penso que os interesses comuns da humanidade têm grande necessidade de ser protegidos e é preferível fazê-lo de forma imperfeita do que nem sequer tentar. Um dos meus heróis, Sergei Kovalyov, disse-me certa vez: "Durante toda a vida, lutei por causas perdidas". Ele era um antigo dissidente soviético que, depois, veio a ser o porta-voz da Duma russa e desempenhou um papel importante na resolução da primeira guerra na Chechénia. Tento seguir-lhe as pisadas. Nos mercados financeiros, assumo posições com o objectivo de ganhar. Na esfera social, assumo posições porque acredito nelas, quer tenha ou não sucesso. Esta é a diferença entre os mercados financeiros, que não são geridos por considerações morais, e a esfera social, onde a moralidade devia ter um papel a desempenhar.

[...] Desenvolvi uma filosofia que desempenhou um papel central na minha vida. Orientou-me para ganhar dinheiro e para gastá-lo, embora não tenha a ver com dinheiro. Sei quão importante é esta filosofia para mim pessoalmente, mas estou ainda por saber se ela pode ter um significado similar para os outros.

[...] Traduzindo a minha filosofia numa agenda política, posso definir o meu objectivo como uma sociedade aberta global. Persigo-o em dois níveis. Um diz respeito à ordem mundial, o outro à ordem que predomina em cada um dos países.

Acho que a ordem mundial é frustrante como agenda prática. Implica grandes ideias e muitas palavras, mas não têm grande impacto. As minhas fundações estão habituadas a resolver problemas, e é por isso que penso que os grandes discursos são debilitantes. Há muito mais a fazer para promover sociedades abertas nos vários países. As condições nem sempre são favoráveis, mas, de vez em quando, abrem-se algumas janelas de oportunidade e, quando isso acontece, gosto de entrar em acção.

Tenho de explicar o que quero dizer com sociedade aberta global. Sublinho que não quero dizer um governo global. Os governos, devido à sua própria natureza, interferem com a liberdade individual. Quando há muitos países por onde escolher, podemos emigrar; mas um governo global seria opressivo quase por definição. O que eu quero dizer é a regência do direito internacional. A ordem mundial vigente não é satisfatória. Os neoconservadores (ou neocons, como agora são chamados) têm razão neste ponto: as relações internacionais são regidas pela força e não pela lei. Isto tem de mudar: o direito internacional tem de ser imposto. Isto requer instituições internacionais mais fortes do que aquelas que temos hoje. Obviamente, precisamos do Tribunal Criminal Internacional (TCI), mas precisamos também de outras instituições menos óbvias. A Organização Mundial do Comércio (OMC) é um bom exemplo, pois tem um mecanismo eficiente de aplicação. A OMC é muito criticada por ser injusta para com os países em desenvolvimento e isto tem de ser resolvido pela alteração das regras; mas a estrutura em si é exemplar.

Uma sociedade aberta global tem de reconhecer que todas as regras são imperfeitas e passíveis de ser melhoradas. Necessitamos também de regras para alterar as regras, mas estas não têm necessariamente de ser postas num código, pois isso podia levar a uma interminável discussão sobre o sentido das palavras. Já temos um exemplo disso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Deixemos que o uso determine as regras - há muito a dizer pela lei comum nas relações internacionais.






Descrevi a estrutura geral de uma sociedade aberta global. Agora tem de ser preenchida com conteúdos. Aqui, recuso propor uma prescrição válida para sempre, pois cada sociedade e cada geração tem de definir para si mesma o significado de sociedade aberta. A forma presente da globalização é assimétrica. Os mercados, sobretudo os mercados financeiros, tornaram-se globais, mas as instituições necessárias para que uma sociedade se desenvolva ou sobreviva não passaram pelo mesmo processo. Os acordos políticos baseiam-se na soberania dos Estados; não são suficientes para cuidarem dos interesses colectivos da humanidade, como a paz, a segurança, o ambiente, a justiça social e até a estabilidade dos mercados financeiros.

A soberania é um conceito anacrónico; foi herdado de um tempo que os reis dominavam os seus súbditos. Na Revolução Francesa, o rei foi decapitado e o povo apoderou-se da soberania do Estado. Ainda que fosse utópico substituir a soberania do povo por outra coisa, o princípio, em si mesmo, é desajustado ao cada vez mais interdependente mundo de hoje. Há muitos problemas que transcendem as fronteiras nacionais. Por exemplo, enfrentamos uma crise energética global. E, dentro das fronteiras nacionais, os governantes abusam frequentemente do seu poder. Quando o abuso chega a um ponto em que o povo não tem outro recurso, a comunidade internacional tem o dever de intervir. Este é um caso para a aplicação daquilo a que Karl Popper chamou engenharia social gradativa, e estou disposto a empenhar-me nela pessoalmente e por meio das minhas fundações.

[...] O principal obstáculo a uma ordem mundial estável e justa são os Estados Unidos. Trata-se de uma afirmação muito dura - e, para mim, dolorosa -, mas infelizmente, estou convencido de que é verdadeira. Os Estados Unidos continuam a definir a agenda mundial, apesar da sua parte de influência desde o 11 de Setembro, e a administração Bush está a definir a agenda errada. A agenda Bush é nacionalista: enfatiza o uso da força e ignora os problemas globais, cujo solução requer a cooperação internacional. O resto do mundo dança ao som da música tocada pelos Estados Unidos e se isto continuar durante muito tempo corremos o risco de destruir a nossa civilização. Mudar a atitude e as políticas dos Estados Unidos continua a ser a minha grande prioridade.

[...] O objectivo principal tem de ser resgatar o Partido Republicano dos conservadores e dos extremistas religiosos que agora controlam. A democracia americana assenta em dois partidos que competem pelo centro e o sistema alterou-se quando os extremistas capturaram o Partido Republicano. Para se restabelecer o equilíbrio, os extremistas têm de ser derrotados. Uma retumbante vitória democrata em 2006 poderia conseguir isso.

Não gosto de me envolver em política partidária, pois o Partido Democrata não apoia as políticas que eu defendo; de facto, se o partido as apoiasse, não ganharia eleições. Prefiro estar acima da política. No entanto, sinto-me obrigado a apoiar o Partido Democrata até que o Partido Republicano seja resgatado dos extremistas. Gosto também de apoiar grupos de reflexão e organizações civis capazes de criarem um contrapeso ao movimento conservador, mas não quero que se tornem numa imagem reflectida dos conservadores. Se o movimento conservador representa uma ameaça para a sociedade aberta, um movimento progressista que utilizasse os mesmos métodos mais não faria do que reforçar a ameaça. Mas o movimento conservador mostrou-se muito eficiente. Como pode um contrapeso ser igualmente eficiente e, ainda assim, manter os princípios da sociedade aberta? Esta é uma questão desconcertante.

[...] O nosso entendimento da realidade é inerentemente imperfeito e todas as criações humanas são defeituosas de uma forma ou de outra. As sociedades abertas reconhecem a nossa falibilidade, as sociedades fechadas negam-na. Os Estados Unidos são uma sociedade aberta, mas as pessoas não são muito versadas em filosofia e não compreendem totalmente os princípios da sociedade aberta. É por isso que são enganadas.

[...] Dediquei-me ao estudo das condições longe do equilíbrio tanto da teoria como na prática. Estive exposto a elas ainda em tenra idade, quando a Alemanha nazi ocupou a Hungria em 1944, e eu teria sido exterminado por ser judeu se o meu pai não tivesse conseguido que eu assumisse uma identidade falsa. O que podia estar mais fora do normal? Depois, conheci o regime soviético, com todos os seus trejeitos e excessos, antes de abandonar a Hungria e tornar-me estudante na London School of Economics. Aqui, fui inspirado pela filosofia de Karl Popper, que me ajudou a formar a minha própria filosofia. Quando me tornei gestor de hedge funds, especializei-me em situações longe do equilíbrio nos mercados financeiros e fiz a minha fortuna compreendo-as melhor do que a maioria dos outros participantes do mercado. Enquanto filantropo, envolvi-me no colapso do império soviético - um processo longe do equilíbrio par excellence.






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[...] O meu pensamento desenvolveu-se a partir de muitas influências e experiências. A influência mais importante, para além da dos meus pais, veio de Karl Popper, que foi meu tutor durante o último ano que passei na London School of Economics. Como vivi a ocupação nazi e soviética na minha Hungria natal, o livro de Popper A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos [The Open Society and Its Enemies] teve sobre mim um efeito de revelação e levou-me a explorar a filosofia do seu autor. Popper afirmava que as ideologias nazi e comunista têm algo em comum - ambas alegam estar na posse da verdade definitiva. Como a verdade definitiva está fora do alcance humano, ambas as ideologias tinham de estar baseadas numa interpretação tendenciosa e distorcida da realidade; por isso, só podiam ser impostas à sociedade através de métodos repressivos. Popper justapunha um princípio diferente de organização social, baseado no reconhecimento de que as pretensões à verdade definitiva não podem ser validadas. A este princípio chamou "sociedade aberta" e considerava-o preferível a uma concepção definitiva. Popper nunca definiu exactamente o que significa sociedade aberta; face à nossa compreensão imperfeita, não gostava de se perder em definições. De qualquer modo, uma sociedade aberta tem de ser constantemente redefinida pelas pessoas que nela vivem, senão pode tornar-se numa concepção definitiva.

É evidente que o conceito de sociedade aberta está intimamente associado ao conceito de democracia, mas trata-se de um conceito epistemológico e não político.

[...] A democracia americana é anterior ao conceito de sociedade aberta. A Constituição é um produto da Era da Razão, a sociedade aberta pertence à Era da Falibilidade. Esta diferença teve um resultado curioso: a América é uma sociedade aberta que não compreende totalmente o conceito de sociedade aberta; se a América compreendesse o conceito, George W. Bush nunca poderia ter tido o tipo de popularidade que alcançou.

[...] O facto de a sociedade aberta ser um conceito epistemológico é fonte tanto de forças como de fragilidades. A sua grande força é ligar a sociedade aberta aos conceitos de falibilidade e reflexividade para produzir uma visão do mundo coerente sem se cair na armadilha de uma ideologia dogmática. A sua grande fragilidade é ignorar as relações de poder que desempenham um papel fundamental na formação dos acontecimentos.

Estabeleci uma rede de fundações para promover os princípios da sociedade aberta, mas a nossa acção debate-se frequentemente com os ditames da realpolitik. Cheguei à conclusão de que os princípios da sociedade aberta, por si mesmos, não servem de orientação para a acção política. Nas decisões políticas, há várias considerações que têm de ser levadas em conta; no entanto, os princípios da sociedade aberta devem ter mais importância do que aquela que tradicionalmente recebem.

Karl Popper era, fundamentalmente, um filósofo da ciência. Absorvi as suas ideias sobre o método científico de forma tão ávida como reagi à sua ideia da sociedade aberta, mas submeti os seus argumentos à análise crítica e afastei-me dele num ponto muito importante. Popper proclamava aquilo a que chamava "doutrina da unidade do método científico", ou seja, os mesmo métodos e critérios aplicam-se tanto ao estudo das questões sociais como ao estudo dos fenómenos naturais. Isto não podia ser verdade. Os participantes nas questões sociais agem numa base de compreensão imperfeita. A sua falibilidade introduz um elemento de incerteza nas questões sociais que não afecta o estudo dos fenómenos naturais. Esta diferença tem de ser reconhecida.

[...] O termo "sociedade aberta" foi pela primeira vez usado por Henri Bergson, o filósofo francês, no seu livro As Duas Fontes da Moral e da Religião, originalmente publicado em 1932. Bergson afirmava que a moral e a religião podem basear-se na identidade tribal ou em considerações da condição humana universal. O Antigo Testamento é um exemplo do primeiro caso e o Novo Testamento do segundo. A moralidade tribal dá origem a uma sociedade fechada, que confere direitos e obrigações aos membros da tribo e discrimina os que não pertencem à tribo; a moralidade universal gera uma sociedade aberta, que reconhece certos valores humanos fundamentais independentemente das filiações tribais, étnicas e religiosas. Popper levou mais longe a questão: afirmou que as ideologias universais, como o comunismo, podem também representar uma ameaça para a sociedade aberta, se alegarem representar a verdade incontestável e se discriminarem aqueles que não concordam com essa alegação. Baseava a questão da sociedade aberta na nossa compreensão inerentemente imperfeita, ou falibilidade.






















[...] O aparecimento de uma atitude diferente daquela que deu origem ao Plano Marshall coincidiu com a eleição de Ronald Reagan. Chamei-lhe "fundamentalismo do mercado" - uma crença de que o interesse comum é mais bem servido por pessoas que perseguem os seus próprios interesses. Segundo esta perspectiva, a responsabilidade única de que falo não tem qualquer sentido: os fortes não têm de cuidar dos fracos. Esta crença baseia-se numa interpretação errónea do mecanismo do mercado. Os mercados devem tender para um equilíbrio que assegure a distribuição óptima dos recursos. Mas não é assim que os mercados, sobretudo os mercados financeiros, funcionam. Não tendem para um equilíbrio e não são concebidos para assegurar a justiça social. Os mercados livres são muito eficientes na distribuição de recursos entre necessidades privadas em competição, ou, desde a difusão do consumismo, desejos privados. Mas existem necessidades colectivas, como a manutenção da paz e da ordem, a protecção do ambiente e a preservação do próprio mecanismo do mercado, que não são supridas pelas forças do mercado. As necessidades colectivas podem tornar-se forças do mercado, criando os incentivos e os castigos correctos, mas isto requer acção política. De facto, traduzir necessidades colectivas em forças de mercado é, em muitos casos, a melhor forma de as suprir, mas ignorá-las a todas tem algumas consequências desastrosas. Ignorar as necessidades colectivas não só favorece os ricos à custa dos pobres - um resultado apreciado pelos fundamentalistas do mercado -, como também deixa de lado algumas questões, como o aquecimento global - o que também não pode ser bom para os ricos.

A ascensão da globalização, que atribuo à influência de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e de Margaret Tatcher, no Reino Unido, no início dos anos 80, foi um projecto do fundamentalismo do mercado. Facilitar o movimento internacional de capitais fez com que os países tivessem mais dificuldade em tributar ou regular o capital. Como o capital é um factor essencial da produção, os governos têm de dar mais atenção às exigências do capital internacional do que aos seus próprios cidadãos.

A forma actual da globalização resultou numa ordem mundial assimétrica: o desenvolvimento das instituições internacionais não acompanhou o crescimento dos mercados financeiros globais. Os movimentos de capitais privados ultrapassam em muito os recursos do Fundo Monetário Internacional e do banco Mundial. Os países em desenvolvimento competem para atrair capital, mas as poupanças mundiais estão a ser canalizadas para financiarem o grande consumo nos Estados Unidos.

[...] Não basta restabelecer o status quo anterior ao 11 de Setembro; é necessário repensar mais profundamente o papel da América no mundo. Só depois do 11 de Setembro é que os Estados Unidos entraram num território longe do equilíbrio; mas as sementes desse desvio foram plantadas muito antes, quando o fundamentalismo do mercado surgiu como ideologia dominante e a liderança americana deu à globalização a forma que esta adquiriu. Este processo remonta à presidência de Ronald Reagan. A ordem mundial necessita de uma grande revisão. Há muito mais em jogo do que recuperar a posição privilegiada que os Estados Unidos ocupavam. Não quero parecer bombástico, mas acredito sinceramente que a nossa civilização está em perigo.

Nenhuma revisão é possível sem a liderança ou, pelo menos, a participação dos Estados Unidos. É por isso que temos de repensar profundamente o nosso papel no mundo.

[...] Não defendo uma nova ordem mundial radical, mas apenas uma mudança de atitude; de uma simples atitude de busca de interesse próprio nacional para uma demonstração de algum interesse pelos interesses comuns da humanidade. Mesmo esta ideia pode parecer utópica.

[...] A inexistência da União Europeia como potência militar contribui para a confusão da ordem mundial actual. Essa entidade já nebulosa, o Ocidente, tornou-se ainda mais nebulosa. Na ausência de uma comunidade internacional coesa, não há autoridade legítima para exercer a responsabilidade de proteger. Como resultado, os tiranos reinam com impunidade noutras partes do mundo e as vítimas dos regimes repressivos e dos Estados falhados continuam desprotegidas.

Eis uma ideia que pode fazer avançar a União Europeia: a ideia de uma sociedade aberta global que necessita da União Europeia como seu protótipo. A União Europeia tem uma missão: a proliferação da paz, da liberdade e da democracia. Com uma agenda não muito diferente da de Bush, mas felizmente com melhores bases, a União Europeia tem tido mais sucesso no cumprimento da sua missão do que a maioria das pessoas pensa. A perspectiva da adesão tem sido a ferramenta mais poderosa para transformar os países candidatos em sociedades abertas. Deste modo, para cumprir a sua missão, a União Europeia deve, em princípio, continuar aberta a novos membros.














'Imigrantes' sírios e afegãos na Croácia











Será esta ideia suficientemente forte para servir de força unificadora e propulsora da União Europeia? Na minha opinião, não há dúvida de que é suficientemente forte. Ainda que eu não seja cidadão europeu, considero-me um patriota europeu e tenho uma rede de fundações, dentro e fora da União Europeia, que vê a adesão à União Europeia como o objectivo principal.

[...] A União Europeia deve ser uma potência ou uma associação de potências? Como é que a União Europeia deve lidar com a globalização? A União Europeia deve estar aberta a outros membros? Deve estar aberta à imigração?

Não sendo cidadão europeu, não me cabe a mim resolver estas questões. Mas, enquanto crente na sociedade aberta, vejo muito claramente a direcção que a Europa tem de seguir: deve ser o protótipo de uma sociedade aberta global. Isto significa reconhecer que fazemos parte de uma sociedade global e que os nossos interesses comuns devem unir-nos. Significa também reconhecer que a globalização, tal como é hoje praticada, é uma versão tendenciosa e distorcida de uma sociedade aberta global. Necessitamos de instituições globais para enfrentarem os mercados globais. Temos de resistir à penetração dos valores do mercado nas áreas de actividade a que não pertencem. Ao mesmo tempo, é preciso excluir os governos de um papel directo na gestão da economia. O papel dos governos e das instituições internacionais consiste em estabelecer regras, e o papel dos agentes económicos é competirem dentro dessas regras. As regras devem servir o interesse comum; os competidores devem perseguir os seus próprios interesses; mas não podem perverter as regras para se ajustarem aos seus próprios interesses. É evidente que se trata de um objectivo impossível, similar ao ideal marxista de toda a gente contribuir em função da sua capacidade e receber de acordo com as suas necessidades. A aproximação ao ideal depende dos nossos valores e atitudes».

George Soros («A Era da Falibilidade»).


«With his lucrative climate-change agenda and predictions under water, former vice president Al Gore is pulling out all the stops to salvage his reputation and earning potential. The latest example is a spun claim that one of his (many) incorrect predictions has actually come to pass.

In his global-warming propaganda film An Inconvenient Truth, Gore spoke of how ice melt-off could lead to the flooding of low-lying areas, including Manhattan. In fact, nine years ago he warned of a high probability that the “entire North Polar ice cap” may well be gone in five years. Instead, reports are that Arctic ice is the thickest it has been in 75 years. And Manhattan? Well, it’s still dry and as all wet with liberalism as ever».

Selwyn Duke («Al Gore's Latest Climate-change Lie», in The New American, 24 January 2017).


«A ameaça ambiental estratégica mais conhecida e que é de longe a mais grave é a crise climática. Para mim, esta questão encontra-se numa categoria especial por causa daquilo que creio estar em jogo. Estou extremamente preocupado porque a grande maioria dos cientistas mais respeitados do mundo no domínio ambiental soaram clara e urgentemente o alarme. A comunidade internacional - incluindo os Estados Unidos - deu início, há vários anos, a um esforço em grande escala com vista a obter a melhor avaliação científica possível, e a mais precisa, de um conjunto cada vez maior de indícios que apontam para a seguinte conclusão: o ambiente da Terra está a sofrer danos graves e potencialmente irreparáveis, devido a níveis sem precedentes de poluição na atmosfera.

Basicamente, os cientistas estão a dizer às pessoas de todas as nações que o aquecimento global causado por actividades humanas se tornou uma grave ameaça ao nosso futuro comum e que é necessário encarar a questão. Estou também preocupado com o facto da Administração Bush-Cheney, aparentemente, não interpretar estes avisos da comunidade científica da mesma maneira que muitos de nós.

Apesar das provas claras que existem por toda a parte, há muitas pessoas que continuam a não acreditar que o aquecimento global seja sequer um problema. E não admira, porque essas pessoas estão a ser alvo de uma campanha de desinformação em grande escala e muito bem organizada, promovida pela Administração com fundos concedidos generosamente pelos poluidores que estão determinados a impedir todas as medidas destinadas a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, responsáveis pelo aquecimento global - por recearem que os seus lucros sejam afectados se tiverem de deixar de lançar tantos poluentes para a atmosfera.

[...] O problema é que o nosso mundo se encontra actualmente em estado de alerta máximo, uma situação que exige uma liderança moral e política ousada por parte dos Estados Unidos da América.


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Dado que a população humana quadruplicou no último século (tendo aumentado de 1,6 milhões de pessoas em 1900 para 6,6 mil milhões actualmente), e dado que as novas tecnologias multiplicaram vários milhares de vezes o impacto de cada pessoa no ambiente do planeta, a relação fundamental entre a espécie humana e o planeta Terra modificou-se radicalmente. A nossa "pegada" mede-se agora não só pelo impacto de todo o CO2 que libertamos diariamente para a atmosfera, mas também pela indiferença com que destruímos todos os dias, por segundo, uma área florestal equivalente a um campo de futebol. Mede-se também pela destruição dos recursos pesqueiros e pela ameaça iminente de extinção de praticamente todas as espécies importantes dos oceanos - o que acontecerá dentro de menos de cinquenta anos, se mantivermos os actuais níveis de exploração.

[...] Os nossos filhos têm o direito de exigir de nós padrões mais elevados quando aquilo que está em jogo é o seu futuro - e, aliás, o futuro de toda a civilização humana. Merecem melhor do que assistir à censura da melhor informação científica sobre a verdade da nossa situação e à perseguição de cientistas que estão a tentar advertir-nos sobre uma catástrofe iminente. Merecem melhor do que ver os políticos de braços cruzados, sem fazerem nada para superar o maior desafio que a humanidade jamais teve de enfrentar - apesar dos perigos que já estão a abater-se sobre nós.

[...] Muitos cientistas estão agora a advertir-nos para o facto de nos estarmos a aproximar de vários "pontos críticos", que, dentro de apenas dez anos, poderão fazer-nos chegar a uma situação em que se tornará impossível evitar danos irreversíveis à habitabilidade do planeta pela raça humana. Relativamente a este mesmo aspecto, e segundo um outro grupo de cientistas, estão a registar-se aumentos surpreendentemente rápidos das emissões de carbono e metano provenientes da tundra congelada da Sibéria, que começa agora a derreter devido aos aumentos da temperatura mundial de origem antropogénica.

Também em 2006, uma outra equipa de cientistas publicou um artigo em que afirmava que, nos doze meses anteriores, se haviam registado trinta e dois sismos nos glaciares da Gronelândia, que atingiram intensidades da ordem de 4,6 a 5,1 na escala de Richter - um indício preocupante de que poderá estar a dar-se uma desestabilização em grande escala na segunda maior camada de gelo do planeta, susceptível de fazer subir o nível do mar mais de seis metros no mundo inteiro, no caso de essa camada de gelo se partir e deslizar para o mar.

Cada dia que passa traz-nos mais provas de que estamos perante uma situação de emergência planetária - uma crise climática que exige acções imediatas com vista a reduzir as emissões de dióxido de carbono no mundo inteiro, a fim de fazer baixar o termóstato da Terra e evitarmos uma catástrofe. No artigo de fundo do seu número especial sobre o aquecimento global, publicado em Setembro de 2006, a revista Scientific American apresentava uma conclusão muito simples: "O debate sobre o aquecimento global terminou".

Apesar da grande dimensão da Terra, a parte mais vulnerável do ambiente global é a atmosfera - que é extraordinariamente delgada, como uma camada de verniz num globo, nas palavras do já falecido Carl Sagan.

Não existe já nenhuma razão credível para duvidar que a temperatura da atmosfera do planeta está a aumentar devido ao aquecimento global. O aquecimento global é real. Já está a acontecer, e as consequências que se prevêem são inaceitáveis.

[...] No meio desse círculo está o Presidente George W. Bush.

Os cientistas estão a advertir-nos de outra catástrofe iminente. Fomos avisados de um ataque iminente da Al-Qaeda; não reagimos. Fomos avisados de que os diques de Nova Orleães rebentariam; não reagimos. Agora, a comunidade científica está a avisar-nos da pior catástrofe da história da civilização humana.

Dois mil cientistas de cem países que estão envolvidos no trabalho de colaboração científica mais sofisticado e mais bem organizado da história da humanidade há muito que chegaram a um consenso: iremos enfrentar uma sucessão de catástrofes terríveis se não nos prepararmos e se não procurarmos resolver as causas subjacentes ao aquecimento global. Em Fevereiro de 2007, esse grupo de cientistas - o IPCC - reforçou esse consenso dizendo que há uma probabilidade de 90% de os seres humanos serem responsáveis pelo aquecimento global.

É importante aprendermos as lições e compreendermos o que acontece quando se ignoram provas científicas e avisos fidedignos - a fim de levarmos os nossos dirigentes a não ignorarem os cientistas, deixando-nos desprotegidos perante as ameaças que enfrentamos neste momento».

Al Gore («O Ataque à Razão», 2007).





Ver aqui









«Outro problema cuja solução requer a cooperação internacional é o aquecimento global. Trata-se de uma causa à qual só recentemente me converti. Pensava que já estava demasiado ocupado e que, por isso, devia deixar os problemas ambientais para os outros. Mas o problema do aquecimento global tornou-se de tal modo visível que já não podia ignorá-lo. Fiquei impressionado com a apresentação convincente do ex-vice-presidente Al Gore. Falei disso com alguns cientistas, que me confirmaram que a opinião científica é unânime relativamente aos perigos; só divergem quanto à velocidade do processo. Há muitos efeitos que só se manifestam mais tarde; de facto, mesmo que hoje se acabasse com todas as emissões de carbono, o aquecimento dos oceanos continuaria a ocorrer durante algum tempo. As temperaturas médias são agora mais elevadas do que em qualquer outra época da história da humanidade; portanto, este aquecimento representa uma ameaça real para a sobrevivência da civilização humana. A situação não é desesperante porque temos uma capacidade de adaptação maior do que pensamos, mas o perigo é real e não há tempo a perder».

George Soros («A Era da Falibilidade»).


«...The latest push for a UN tax agency follows similar demands made in 2015 at the “UN Financing for Development Conference” in Addis Ababa, Ethiopia. Representatives of dictators and governments did approve a motion to have a “UN Committee of Experts on International Tax Matters” meet twice a year. Also unveiled at the summit by governments and globalists were “two parallel tax initiatives,” dubbed Tax Inspectors Without Borders (TIWB) and the Addis Ababa Tax Initiative. Both have major implications. At that summit, the support for the UN tax agency by globalist billionaires such as Bill Gates and George Soros was plain, too. The European Union also played a key role in pushing the schemes forward, as did multiple European politicians. But by having the G77 lead the push for the scheme under the guise of “inequality,” it may sound less absurd to humanity than when establishment globalists and billionaires make the same demands.

More recently, UN “human rights expert” Alfred de Zayas, a far-left Cuban-born “international lawyer,” demanded late last year the creation of “an international Tax Body to fight tax evasion and corruption, phase-out tax havens, stop competition among tax jurisdictions and abolish secrecy.” The agency he proposed creating would also be in charge of terrorizing countries that did not submit to the UN's agenda to destroy privacy, long considered a fundamental human right but increasingly being demonized openly by the UN and its member regimes. Zayas also dishonestly equated tax evasion, which is a crime, with tax avoidance, which is legal, desirable, and performed by virtually every taxpayer on the planet to avoid paying more than is required by law.

To justify its fresh bid for a UN tax agency, the G77 grouping claims that its largely autocratic members regimes may be losing as much as $200 billion in tax revenue due to the lack of a UN agency to enforce emerging international tax policies. According to estimates by Big Government-loving globalist institutions such as the IMF, high-tax Third World regimes would be able to collect a lot more in taxes if people and companies did not have the option of doing business in lower-tax jurisdictions such as the United States, Switzerland, Luxembourg, and other more economically free nations. And so, last year, the OECD and its allies formally launched a scheme targeting “Base Erosion and Profit Shifting,” or BEPS, aimed at extracting even more wealth from businesses, consumers, workers, and investors to fund Big Government.

Speaking the day before the Ecuadorean regime took over the leadership of the alliance from Thailand's government, the socialist Latin American regime's Foreign Affairs Minister Guillaume Long said attacking governments that adopt tax policies the G77 dislikes — demonized by the bureaucrat as “tax havens” — would be a “priority” of the alliance during the Ecuadoran government's term at the helm. “The tax haven issue will have a very prominent position in our presidency of the G77,” he said during a January 12 talk in Washington, D.C. “Tax havens,” in globalist and socialist language, are essentially low-tax jurisdictions that confiscate less wealth from the productive sector than globalists and socialists think is appropriate.

The G77 group under Ecuadorean leadership also plans to pursue the creation of a UN taxation agency with a mandate to pursue nebulous notions of “tax justice,” Long added. He said the UN tax agency should be composed of and run by member governments and dictators, rather than “a body of experts,” because “it’s the states which have the real mandate to regulate this.” In addition to the UN outfit bullying and terrorizing jurisdictions that seize less wealth from people than the socialist regime he represents would like, it should also “fight against the kinds of race to the bottom that you can have even between neighbors.” In other words, like the UN, the OECD, the IMF, and other institutions, the G77 and the autocratic regime in Ecuador want to end tax competition between jurisdictions — perhaps the most important check on the boundless ambitions of tax-hungry politicians and bureaucrats.






As The New American predicted amid the globalist-manufactured “scandal” known as the “Panama Papers,” the phony outrage surrounding those leaks was exploited by the G77 and other pro-UN tax disciples to build support for their agenda. Ironically, the only real scandals involved Third World politicians and communist bigwigs in the G77 stealing money from their victims. But citing the Panama Papers and “security concerns,” Ecuador's Long said there was a “growing consensus” even among Western governments on the establishment of a new world tax regime that would finish destroying financial privacy while fleecing taxpayers worldwide.

However, despite the G77's enthusiasm for a UN tax agency, the reality is that the new U.S. Congress and the new Trump administration are almost certain to kill the scheme, pro-UN tax agency operatives explained in media reports. A senior official with a George Soros-funded outfit known as FACT Coalition, acknowledging the political reality in the United States, suggested re-framing the debate away from a UN tax agency. Instead, he said, globalists should focus on building an “international tax forum” or “upgrading” of the UN's existing tax committee, he said. In other words, Americans and their elected representatives have caught on to the dangerous scam, so less threatening terminology is needed to dupe them into playing along.

The end goal of the G77 plus China and its largely autocratic membership is hardly a mystery — and it will not stop with a UN tax agency or the ability to dictate tax policy to more liberty-minded sovereign nations. Indeed, as the G77 regimes declared openly in their 2014 “New World Order to Live Well” declaration in Bolivia, the agenda is nothing less than turning the UN into a global socialist regime controlled by themselves — and then using it to fleece Western taxpayers to prop up their own brutal, corrupt, and oftentimes totally illegitimate governments.

“We fully respect the principles and purposes of the Charter of the United Nations and international law,” the regimes said in the final agreement, calling for the “strengthening” of the UN for a wide variety of purposes. “We recognize that the United Nations needs to improve its capabilities and capacities to fully implement its mandates.” The so-called “Santa Cruz” declaration also called for censoring the media, planetary wealth redistribution, an international “climate” regime to control the world economy, and more. “We stress the importance of the central role of the United Nations in global economic governance,” the dictators and governments added. The UN chief was there to encourage the dictators in their quest for a UN-run New World Order.

Even in recent weeks, the brutal regime enslaving mainland China, the key player in the G77 alliance, has been openly working to dominate and empower the entire UN apparatus as it pushes for the creation of what it, too, openly calls the “New World Order.” Already, the Communist Chinese dictatorship has its agents running multiple strategic UN agencies, some of which are working to transfer sensitive technology to dangerous regimes, censor the Internet, undermine Western economies, and more. And just last week, following his bizarre keynote speech promoting globalism at the establishment's World Economic Forum in Davos, Chinese dictator Xi Jinping “urged the UN to play a central role in global governance,” according to Xinhua, Beijing's espionage and propaganda service.

The G77 demands are also in line with those of Socialist International, a dangerous and powerful global alliance of socialist and communist political parties — some of which have a history of mass murder and savage oppression. The SI, which was led for five years by new UN Secretary-General Antonio Guterres, has openly called for world government in the past. It regularly demands global socialism and the fleecing of poor and middle class taxpayers in the Western world to prop up the failed socialist and statist regimes of the world. And it has no aversion to letting genocidal regimes host its congresses, as it proved in 2012.

As The New American documented extensively, the Obama administration and globalist Democrats in Congress played a key role in laying the groundwork for the emerging New World Tax regime. Chief among the weapons was a little-noticed statute to illegally spy on Americans known as the Foreign Account Tax Compliance Act, or FATCA, which has devastated millions of low-and middle-class Americans living abroad. Globalists promptly seized on FATCA to push what became known among critics as GATCA — a global version of the privacy-shredding tax regime. Republicans promised to repeal the scheme in their platform, but so far it remains on the books.

As the world's dictators and the UN seek to empower themselves to fleece Western taxpayers and businesses, the Trump administration is reportedly working to drastically curtail the UN, its funding, and its powers. However, the globalists, socialists, statists, and totalitarians of the world have no intention of giving up after having come so far. And so, Americans concerned about liberty, privacy, self-government, and prosperity must urgently get to work. Freedom is literally on the line».

Alex Newman («Dictator Alliance Demands UN Tax Agency for "New World Order"», in The New American, 26 January 2017).






«Não vou entrar no jogo que os políticos jogam há várias décadas - muita conversa e pouca acção, enquanto os interesses e os grupos de pressão comandam as nossas leis. Estou a abalar o establishment de ambos os lados da barricada política porque ninguém me pode comprar. Quero que a América renasça, quero torná-la grande e próspera outra vez e garantir que somos respeitados pelos nossos aliados e temidos pelos nossos adversários.

É tempo de acção. Os Americanos estão fartos da política do costume. Neste livro, traço a minha visão para tornar a América grande outra vez, explicando como recuperar a nossa economia em queda; como reformar o sistema de saúde para que se torne mais eficiente e sustentável; como reestruturar o nosso exército para ganharmos as guerras - em vez de assistirmos ao avanço dos nossos inimigos - e mantermos as promessas que fizemos aos nossos heróis veteranos; como assegurar que o nosso sistema de educação oferece as ferramentas necessárias a quem procura trabalho; e como aumentar imediatamente o número de postos de trabalho.

Este livro resume o meu plano para Tornar a América Grande outra Vez. Não vai ser difícil. Só precisamos de alguém com a coragem de dizer as coisas como elas são. Não encontramos alguém assim em Washington».

Donald J. Trump («GRANDE OUTRA VEZ. Como devolver a grandeza à América»).


«Establishment globalists were right to be concerned about the fate of their schemes. After a fast-paced first week of putting “America First” by targeting pseudo-“free trade” regimes and rogue regulatory agencies, President Donald Trump is reportedly preparing to take on the United Nations. Its swarms of agencies, programs, bureaucracies, conventions, and associated schemes are also in the crosshairs. According to a January 25 report in the anti-Trump New York Times, which claimed to have seen a set of draft orders being prepared by the administration, Trump plans to drastically reduce the U.S. government's role at the UN and other international organizations. He is also planning a review of sovereignty-stealing UN treaties, with a view toward restoring self-government in various policy areas and saving U.S. taxpayers billions of dollars. Globalists everywhere are in a panic.

Under one of the two draft orders, headlined “Auditing and Reducing U.S. Funding of International Organization,” the U.S. government would cut funding to any UN agency or international organization that meets any specific criteria. One of those criteria, the Times reported, was granting full membership to the Palestinian Authority (PA) or the Palestine Liberation Organization (PLO). Deceitfully, the Times did not mention until close to the bottom of its report is the fact that two 1990s-era federal laws already require the U.S. government to halt all funding to any UN entity that admits the PA or PLO as a member state. That is why the UN's extremist “education” agency UNESCO has been defunded, despite Obama's best efforts. Then-President Bill Clinton signed one of those measures into law, with the other being signed by George H.W. Bush.

Also subject to being defunded under Trump's draft executive order, according to the Times, is any UN or international outfit that “is controlled or substantially influenced by any state that sponsors terrorism.” That would likely include the UN's widely ridiculed “Human Rights Council.” The extremist body, run by an Islamic dictatorship's prince who equated Trump with ISIS and claims “international law” requires “robust gun control” in America, is literally dominated by a majority of unfree regimes — including some of the most savage and murderous dictatorships on the planet that have sponsored terrorism for decades. UN entities controlled or substantially influenced by regimes that persecute marginalized groups or systematically violate human rights would also be defunded.

While specific states were not mentioned in the Times report about Trump's orders, the brutal Communist Chinese dictatorship would appear to be a prime target. Among other crimes, it ruthlessly persecutes Christians, Muslims, Falun Gong practitioners, and other religious minorities — with some even having their body organs harvested and offered to Communist Party bigwigs or wealthy foreigners. In Tibet, Beijing is perpetrating what is widely referred to around the world as the “cultural genocide” of the ancient nation, essentially seeking to wipe it off the face of the Earth forever. And yet, despite its well-documented barbarism, which includes killing more people than any government in human history, the regime's agents currently lead at least a half-dozen UN agencies.

Other requirements under the draft order include instituting cuts of “at least 40 percent” in all remaining U.S. taxpayer funding to international organizations. The Times claimed it was not clear whether the order was intended to cut 40 percent or more of the American funding for each UN agency, or whether the cuts were aimed at the entire federal funding budget feeding the array of largely hostile international bureaucracies. Also set to be reviewed, according to the orders, is any funding that could be diverted to the International Criminal Court (ICC), a kangaroo court that claims to have jurisdiction over every person on Earth, including Americans and journalists, despite the fact that the U.S. Senate never ratified the agreement creating it.

The first order would also establish a committee to recommend where to make cuts to U.S. funding for UN agencies and other globalist outfits. That body would be tasked with, among other specific responsibilities, investigating U.S. funding for a number of UN agencies and bureaucracies. Among them is the International Criminal Court, which in recent months threatened that it was considering hauling U.S. troops in. The ICC tried to jail a journalist, too. Also set to be scrutinized are the UN's scandal-plagued “peacekeeping” missions, which have been notable primarily for the wide-scale rape of children, the slaughter of civilians, the persecution of those who blow the whistle, and other crimes. Finally, the UN Population Fund, which has been implicated in aiding the Communist Chinese regime in its forced abortions and its savage population-control regime, is also set to be examined.









The second draft executive action purportedly seen by the Times is the “Moratorium on New Multilateral Treaties.” According to the report, the order would demand a review of all current and pending multilateral treaties involving more than one foreign government. The review would be followed by recommendations on which negotiations, conventions, or treaties the U.S. government should ditch. That order specifically mentions the “Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination Against Women,” which has been weaponized by governments worldwide to assault freedom and family. It also mentions the UN “Convention on the Rights of the Child,” a totalitarian scheme that Scottish lawmakers cited to justify the assignment of a named bureaucrat to oversee the upbringing and indocrination of each and every child. The U.S. Senate has refused to ratify either scheme.

The second order on multilateral treaties exempts any treaty “directly related to national security, extradition or international trade.” The Times absurdly — pathetically, almost — tried to claim that might exempt the UN's pseudo-treaty on alleged man-made global warming known as the “Paris Agreement” because it touches on “trade.” In the real world, Trump has already promised to “cancel” that illegal UN scheme, which was never ratified by the Senate anyway. And immediately upon taking office, the White House website vowed to dismantle Obama's illegal “Climate Action Plan,” which was the centerpiece of Obama's illegal “commitments” under the UN climate regime. Plus, without the trillions in loot from U.S. and Western taxpayers promised to the UN “Green Climate Fund,” virtually every Third World regime on Earth has already promised to walk away.

[...] American taxpayers pay between $8 billion and $10 billion each year to the UN, more than 185 other member states combined. And in return, the American people, their liberties, their Constitution, and their national independence are subject to constant and vicious attack from the dictators club and its leading officials. Activists are hopeful that, under President Trump, that will begin to wind down. Congress is also working to defund the UN. But as long as the "dictators club" is left alive to limp along with U.S. membership, it will inevitably come back to wage war on freedom and self-government eventually.

Of course, Trump's expected actions represent an excellent place to start — especially after eight years of Obama, who in his last speech to the dictator-dominated UN General Assembly openly called for America to “accept constraints,” “giving up some freedom of action” (also known as self-government), and “binding ourselves to international rules.” However, a much better and more permanent solution would be to get the U.S. out of the UN completely. Legislation to do that, the American Sovereignty Restoration Act (H.R. 193), is currently sitting in the House Foreign Affairs Committee. And with enough public pressure, 2017 can be the year that America finally breaks free of the dictators club».

Alex Newman («Next on Trump's List: Rein in the UN Dictators Club», in The New American, 26 January 2017).




Da espionagem ou serviço de informações científicas da ONU

O serviço de informações científicas da ONU disporá, portanto, de três fontes de informação que corresponderão, grosso modo, às três etapas da sua constituição.

Primeiro que tudo, os instrumentos de detecção cujas informações darão a conhecer, ao serviço, explosões atómicas subterrâneas efectuadas com violação das convenções, consumos anormais de energia, fontes inexplicadas de radiação, impurezas inexplicáveis do ar, actividades não autorizadas nos oceanos, no espaço, na Lua. Esta espionagem científica, realizada por robots, poderá detectar um grande número de empreendimentos suspeitos. Já em 1970 os instrumentos de que dispomos se revelavam de uma sensibilidade extraordinária. Existem detectores que, na noite lunar, registariam, a partir da Terra, o lume de um fósforo que crepitasse numa cratera do nosso satélite natural. Existem dispositivos para analisar o ar capazes de descobrirem algumas moléculas de um vírus por litro de ar. Apesar de todas as precauções que são tomadas, é impossível dissimular a mais pequena explosão subterrânea aos detectores modernos. E os exemplos podem multiplicar-se. Digamos simplesmente que, dispondo de redes, evidentemente muito custosas, o espaço interior e exterior do planeta passaria a estar vigiado com uma precisão total. Como o afirmou um perito americano: «é possível tornar os oceanos totalmente transparentes». Mesmo no interior da Terra, nas cavernas mais profundas, detectores especiais mostrar-se-iam capazes de revelar toda e qualquer actividade insólita.

Não estou a fazer ficção científica ao referir esta última actividade escondida. Existe um documento oficial americano, não secreto e datado de 1964, que mostra que já se pesquisa os abismos subterrâneos. Os seus autores: G. A. Kiersch e W. D. Gunther. O seu título: A preliminary Geologic Assessment of Selected Sites in the United States that may be suitable for deep underground Command and Control Centers, Bedford, Massachusetts: MITRE Corporation, 1964 - MITRE SR-110 Contract AF 19 628 2390 Project 6121 - Unclassified. O que significa: Avaliação geológica preliminar de alguns locais escolhidos nos Estados Unidos, que poderiam convir ao estabelecimento de centros subterrâneos profundos de comando e de controle.





Os inspectores da ONU constituirão a segunda fonte de informações de que o serviço disporá. Talvez que, na sua era, sejam cinquenta mil ou cem mil a percorrer o mundo inteiro... Esses inspectores fornecerão, na maioria dos casos, relatórios do tipo R. A. S. - Rien à signaler (Nada a assinalar) -, já que o seu papel consistirá, sobretudo, em verificar se não se encontram cinco silos de lançamento de mísseis num local onde a convenção apenas prevê quatro. Pensa-se geralmente que, antes do fim do século, conversações do género das do grupo SALT actual terão conseguido «congelar» os armamentos ao seu nível de 1980. Os Soviéticos e os Americanos estão inteiramente de acordo neste ponto. Pressionados por eles, os países do Pacto de Varsóvia e os da NATO seguirão o movimento. E pode-se esperar, com um certo optimismo, que a China também consinta num tal «congelamento», após a sua entrada na ONU. Em tais condições, o papel dos inspectores consistirá em verificar se o fabrico de armamentos se mantém àquele nível, isto é, se se limita a substituir (na presença dos inspectores da ONU) o material defeituoso ou a aperfeiçoar o que já existe, e se, por um lado, quantitativamente, não é aumentado o número de mísseis ou de submarinos atómicos, e se, por outro lado, qualitativamente, não são introduzidas novas armas de destruição maciça. A inspecção da ONU terá igualmente de fazer respeitar os tratados sobre a neutralização do espaço cósmico e dos oceanos.

Algumas precisões a este respeito parecem-me úteis: um grande número de países assinou, a pedido das Nações Unidas, um tratado sobre a neutralização do espaço cósmico. Mas o que se deve entender exactamente por espaço cósmico?

O artigo 4 do tratado diz textualmente: «Os Estados partes no tratado comprometem-se a não colocar em órbita em redor da Terra qualquer objecto portador de armas nucleares ou de qualquer outro tipo de armas de destruição maciça, a não instalar armas desse tipo em corpos celestes, a não colocar essas armas, de qualquer outra forma que seja, no espaço extra-atmosférico».

Este texto não menciona em absoluto as bombas que descrevam apenas uma fracção de órbita. Ora, tal bomba, que é conhecida pela designação F.O.B.S. (abreviatura do termo inglês Fractional Orbit Bombardment System), descrevendo metade de uma órbita, pode alcançar os Estados Unidos pelo Sul, ou a Rússia pelo Leste, evitando, assim, os dispositivos de radar e impedindo todas as contra-medidas. Bombas F.O.B.S. foram lançadas pelos Russos em Julho de 1970, lançamento que parece ter sido precedido por experiências preliminares bastante numerosas. Esta situação não parece encorajante para o respeito futuro do tratado; esperemos que um texto mais completo e mais preciso que o de 1967 veja a luz do dia num futuro próximo.

No que se refere ao tratado de neutralização dos oceanos, ainda está por assinar. Americanos e Russos fizeram numerosas propostas sobre o assunto, mas, por enquanto, ainda não passaram do estado de propostas. Deseja-se que, depois da assinatura de um tratado de neutralização dos oceanos, sejam postos à disposição da ONU oceanos e fundos marinhos, que lhe assegurarão, para os anos 1980-1990, segundo um estudo de Nigel Calder, um rendimento de vários biliões de dólares por ano. Pressupondo a ratificação destes dois tratados, impõe-se um controle. O grupo Pugwash estudou, o mais pormenorizadamente possível, as possibilidades técnicas de vigilância, pela ONU ou por um organismo internacional, do espaço e dos oceanos. Bastará pôr em prática tais estudos.

Enfim, denúncias e relatórios de agentes constituirão a terceira fonte de informações. É evidente que nem todos os antagonismos terão desaparecido e que numerosos Estados terão o prazer de acusar, perante a ONU, um Estado vizinho ou rival de violar diversos tratados. Observam-se já indícios deste género de política nova no Médio Oriente, onde cada um dos adversários acusa o outro de ter cometido uma nova violação das convenções de armistício, pelo menos uma vez por dia. Um deles não parece estar totalmente fora da razão, já que as violações cometidas pelo Egipto são reconhecidas por todo o mundo. Nem todas essas denúncias serão fundamentadas, mas todas elas deverão ser examinadas, do mesmo modo que no decurso de um inquérito policial a polícia é obrigada a ler todas as cartas anónimas.

Os relatórios de agentes apresentarão, em princípio, mais garantias de seriedade do que as denúncias. É provável que um agente da ONU que seja preso sofra as mesmas penas por espionagem que um agente ao serviço de um país qualquer. Tais penas poderão revelar-se particularmente graves nos Estados que não fazem parte da ONU, seja porque nunca foram admitidos, seja porque se retiraram da organização. Escusado será dizer que tais Estados serão muito particularmente suspeitos e vigiados. Levadas ao excessivo pormenor, as predições do futuro caem sempre no ridículo. Não me aventurarei, por isso, a predizer que, em 2005, determinado país que actualmente não faz parte da ONU constituirá o seu mais fiel pilar, e que outro determinado país, que dela faz parte neste momento, ter-se-á retirado com perdas e fracassos.

O birmanês U Thant

Recordarei muito simplesmente que, em 1970, o secretário-geral da ONU era um birmanês, o que teria parecido uma rematada loucura a um político do século XIX. Os agentes do serviço secreto da ONU depararão, portanto, com os mesmos problemas, correrão os mesmos riscos que os agentes secretos da nossa época. Mas terão, apesar de tudo, a satisfação, primeiro, de servir a causa da paz e, em seguida, de verificarem que a quantidade de violações dos diversos tratados diminui progressivamente. Poderão esperar que, alguns anos mais tarde, no decurso do século XXI, essas violações estejam reduzidas a um número limitado de casos, e que este número se manterá estacionário à medida que os anos forem passando. Por outro lado, é possível que, em vários países, as autoridades da polícia e da contra-espionagem emprestem o seu auxílio ao serviço de informações da ONU, menos por uma questão de ética do que para protegerem o seu regime contra um golpe de Estado científico. Convirá referir o propósito que, numa das suas hipóteses sobre o futuro, o célebre perito Herman Kahn admite como possível a utilização, em guerras civis, de stocks de bombas atómicas tácticas (quando toda a gente as possuir).

O cenário de Herman Kahn é mais ou menos este:

Um pequeno país, politicamente instável, aperfeiçoa o fabrico de bombas atómicas por um processo simplificado. Um grupo político ou militar decide tomar o poder. Declara, então, através da Imprensa e dos meios de informação maciça, que o país se encontra ameaçado por um grande agressor estrangeiro. Os promotores do putsch decidem, por isso, contra-atacar, apoderando-se do stock de bombas atómicas destinado à defesa do país. Evidentemente que não se produz qualquer agressão externa, mas os revolucionários que dispõem do stock de bombas atómicas ameaçam bombardear as suas próprias cidades se a sua ditadura for ameaçada, e garantem, deste modo, a estabilidade de um regime totalitário que poderá, assim, vir a desempenhar uma guerra atómica contra os seus vizinhos. Para aqueles que incluam este cenário no número das elucubrações da ficção científica, recordaremos que, na altura do putsch dos generais, em Argel, no ano de 1961, os ditos generais poderiam muito bem ter-se apoderado das bombas atómicas que estavam a ser experimentadas em Reggane. Estou em posição de poder afirmar que essas bombas estavam operacionais. Recordemos, também, que o sueco Sigvard Eklund, director da Agência Internacional de Energia Atómica, declarou oficialmente que, em 1980, vários países, não dotados ainda de armas atómicas mas que estão em vias de construir reactores nucleares, produzirão plutónio suficiente para fabricar cem bombas atómicas por semana!

Em 1970, a agência atómica nuclear inspeccionava já os reactores nucleares de vinte e nove países, a seu próprio pedido, a fim de garantir que não fabricavam bombas com o material fornecido pela agência. São assim periodicamente inspeccionados setenta reactores nucleares. Existe mesmo um tratado que estipula que a América Latina constitui uma zona em que não serão fabricadas nem armazenadas bombas nucleares. A agência internacional procede a controles periódicos para garantir que o tratado é respeitado. Vê-se, por este exemplo, que a organização da ONU cuja criação temos em vista não é, de forma alguma, uma utopia, e poderá perfeitamente ver a luz do dia, incorporando na sua estrutura serviços de inspecção que já existem.

Agentes da ONU serão certamente encarregados, logo que o serviço entrar em funcionamento, de procurar instalações clandestinas de separação dos isótopos de urânio. Infelizmente, dado o progresso constante que se tem registado neste domínio, pode-se hoje encarar como muito provável a hipótese das imensas fábricas já caducas do tipo Pierrelatte virem a ser substituídas, antes do fim do século, por instalações de separação que ocuparão um pequeno espaço, subterrâneo ou submarino se necessário. O papel dos agentes será detectar este género de instalação, o que os obrigará, muito provavelmente, a deslocarem-se aos próprios locais em que se encontra a instalação. Do mesmo modo caberá a esses agentes referenciar instalações biológicas, fábricas de gases e, de uma maneira geral, todas as armas novas secretamente construídas pelos diferentes Estados.

Pode-se perguntar se, na época que estamos a encarar, será assinado um tratado que proíba o desenvolvimento das novas armas de destruição maciça. Mesmo se um tal tratado vier a existir, é pouco provável que seja respeitado. Se um grupo político, militar ou industrial suficientemente importante julgar possível dominar uma região do globo através de uma guerra relâmpago, utilizando as armas novas, fá-lo-á decerto. Impor-se-á uma vigilância constante, para atenuar esse risco. Tal vigilância custará, evidentemente, não apenas dinheiro mas também vidas... Apesar disso, será talvez um preço bastante módico a pagar por um sistema capaz de evitar uma conflagração generalizada.

Como já o afirmei, deverão ser empregues técnicas psicológicas aperfeiçoadas para criar uma mitologia dos serviços secretos e suscitar a seu respeito um clima favorável na opinião mundial, mesmo correndo o risco de levantar, com essa publicidade, uma ponta do segredo que envolve essas organizações. Talvez até um best-seller do primeiro decénio do século XXI venha a ter por título: Eu fui espião da ONU.

UN spy drones


Na mesma ordem de ideias, será bom notar que os Soviéticos, depois de terem rodeado os seus serviços de informação de um fantástico muro de protecção, acabaram por emitir selos com a efígie de Richard Sorge, por mandar escrever artigos de vulgarização e por pôr o coronel Abel a rodar vários filmes. Terão eles sentido a necessidade de criar um mito positivo em torno dos seus serviços de informações? A verdade é que eles o fizeram, e que a ONU se verá provavelmente obrigada a seguir a corrente. Nem a melhor das reputações conseguirá impedir que os agentes da ONU sejam detidos, encarcerados e até mesmo assassinados. Seja ela efectuada por conta da ONU ou por conta de um Estado, a espionagem científica nada tem que a faça parecer uma brincadeira. É possível, a partir de agora, imaginar, com uma certa precisão, quais as missões de que os agentes da ONU poderão ser encarregados.

Estas missões serão, evidentemente, facilitadas pela implantação da ONU no mundo inteiro e por numerosas cumplicidades na maioria dos países. Em contrapartida, serão dificultadas pelas precauções extremamente severas tomadas pelos seus adversários. De cada vez que a ONU tenha eliminado um grupo de fautores de guerra, assinalando-os ao seu próprio Governo e à opinião pública mundial, os grupos seguintes aproveitar-se-ão do exemplo para redobrarem as precauções. Cada vez mais a preparação dos golpes de Estado militares e a preparação das guerras relâmpago terá por autores elementos severamente enclausurados e beneficiando de uma camuflagem levada à perfeição!

Em que género de lutas secretas se verão envolvidos os serviços científicos da ONU? Vamos responder à pergunta relatando um caso imaginário.

Não é nosso propósito construir uma ficção científica ou uma antecipação; as técnicas que vamos considerar são, portanto, as dos nossos dias e não técnicas futuras do ano 2005. O país em questão situa-se algures na Europa, sem qualquer precisão mais.

Dossier bomba de Argão

Peça n.º 1 - Relatório do agente n.º...

Em conformidade com as instruções recebidas, continuo a vigiar os cálculos efectuados pelo Centro dos... Alguns destes cálculos, cujo duplicado envio junto, em fita perfurada, parecem-me inquietantes. Tenho a impressão de que se trata de uma bomba de hidrogénio, muito fácil de realizar, e que é inflamada por um laser. Solicito um exame desses cálculos pelos vossos serviços competentes.

Peça n.º 2 - Relatório do serviço de Física aplicada

Os cálculos que nos foram submetidos dizem respeito a um novo processo de utilização de uma bomba de argão que serve para inflamar uma bomba H. O princípio data de 1969: um cartucho de explosivos clássicos comprime na sua onda de choque gás de argão contido num tubo. A luminosidade deste gás está convertida num feixe concentrado por um laser químico. Este, é fisicamente composto de uma serpentina cheia de corante e enrolada em volta do tubo que contém o argão. O clarão luminoso do laser provoca a explosão de deutério de lítio. A potência da bomba só é limitada pela quantidade de deutério de lítio utilizada. Uma nova concepção da geometria deste dispositivo, muito engenhosa, permite a realização, com meios industriais muito reduzidos, de bombas de hidrogénio de grande potência.

Peça n.º 3 - Da Central ao agente n.º...

Descobrir a origem da encomenda de cálculos ao Centro. Quem pagou? Quem recebeu os cálculos?

Peça n.º 4 - Do agente n.º... à Central

Os cálculos foram encomendados por uma sociedade privada que produz tubos de televisão. A sua fábrica está situada em X... Oficialmente, fabrica um tubo de televisão com memória especial, utilizado no radar.

Peça n.º 5 - Da Central ao Serviço Acção

Organizar uma missão para apurar a natureza dos trabalhos efectuados na fábrica cujas coordenadas vos fornecemos.

Peça n.º 6 - Do Serviço Acção à Central

O nosso agente que procurava infiltrar-se na fábrica em questão morreu esmagado por um motorista inábil que se pôs em fuga. Admitimos a hipótese de assassínio. Tencionamos efectuar um assalto à fábrica, executado por uma equipa especializada.

Peça n.º 7 - Relatório do Serviço Acção

Efectuámos a operação anunciada utilizando um gás paralisante. Junto enviamos fotografias tiradas numa oficina subterrânea da fábrica que não figurava na planta. As fotografias mostram engenhos que parecem corresponder a bombas de hidrogénio, com inflamação por um laser de argão. A nossa equipa conseguiu tornar a atravessar a fronteira sem baixas.

Bomba de Hidrogénio










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Peça n.º 8 - Artigo de jornal

O secretário-geral das Nações Unidas denuncia uma gravíssima conspiração. Bombas de hidrogénio «de bolso», com a potência de uma mega-tonelada, eram fabricadas clandestinamente numa fábrica cuja localização ele revela. O secretário-geral enviou ao Conselho de Segurança, assim como ao Governo interessado, fotografias de um stock dessas bombas. Esperam-se graves acontecimentos.

Peça n.º 9 - Artigo de jornal (dois dias mais tarde)

Foram efectuadas numerosas prisões, tanto na capital como em diversos distritos de X...

Tais prisões revelam, para já, a existência de uma poderosa rede de conspiradores decididos a tomar o poder, primeiro bombardeando as bases militares, depois anunciando que esses bombardeamentos provinham do estrangeiro. Deveria então ser desencadeada uma ofensiva contra três países vizinhos, com o objectivo de retomar províncias consideradas perdidas.

Um novo Governo de salvação pública foi constituído. Este Governo convida a ONU a inspeccionar todo o país para verificar que já não existem mais nenhuns stocks de bombas H. As bombas apreendidas serão destruídas na presença de inspectores das Nações Unidas, em conformidade com o tratado que foi assinado.

Interrogado pelo nosso correspondente, assim como pela Imprensa mundial, o secretário-geral das Nações Unidas declarou: «Foi afastado um grave perigo, mas outros continuam a existir. A perpétua vigilância é o preço da liberdade».

Vários incidentes deste género se hão-de produzir ano após ano. Na maioria dos casos, serão levados ao conhecimento da opinião mundial. Noutros casos, o secretário das Nações Unidas advertirá secretamente um determinado Governo, que, por seu turno, tomará disposições igualmente secretas. Noutros casos ainda, o secretário-geral da ONU avisará certos Governos que, ameaçando com os seus mísseis o país suspeito, obrigá-lo-ão, dessa forma, a destruir os seus fabricos de guerra. Também há-de suceder, evidentemente, que a vigilância do serviço secreto da ONU venha a ser iludida e que um grave incidente, que conduza à conquista de determinado país por um país vizinho, venha a demonstrar uma vez mais, à ONU e ao mundo, que toda a atenção é pouca.

Porque, cada vez mais, o diminuto estorvo que representam as armas atómicas miniaturizadas, a possibilidade de as utilizar sem o recurso a mísseis e aviões, por exemplo depositando-as na arrecadação de uma gare, a extrema facilidade com que se pode produzir armas químicas ou biológicas, irão tentar os ambiciosos e os futuros ditadores. Só se pode esperar que o número de tais incidentes diminua constantemente. É em função dos resultados obtidos que o secretário-geral das Nações Unidas poderá julgar da eficácia do seu serviço.

Será de recear que o serviço científico das Nações Unidas se transforme numa super-polícia mundial, ao serviço de uma ONU ditatorial? Desconfia-se muitas vezes de um eventual abuso do poder por parte dos sábios internacionais. Mas já se disse, por outro lado, que a tecnocracia internacional constitui, seguramente, a melhor possibilidade de paz mundial. Pessoalmente, sou dessa opinião. Penso que uma organização essencialmente técnica não procurará tomar o poder, da mesma forma que o Exército americano, hoje, não o procura.

Este Exército constitui, evidentemente, uma importante força política. Mas está muito longe de controlar os Estados Unidos no seu todo e o comando supremo repousa nas mãos de um homem político eleito, que é o presidente dos Estados Unidos. Conheço perfeitamente todas as críticas que se podem formular contra o sistema democrático de eleição, a principal das quais consiste em recordar que também Hitler chegou ao poder por via de uma eleição democrática. Mas, enquanto não se arranja nada de melhor, já é desejável um mundo futuro em que as nações sensivelmente com as mesmas fronteiras e os mesmos regimes de hoje, tenham deixado de recorrer à guerra. E nesse mundo, bem preciso será que uma polícia vigie as nações, tal como os polícias actuais vigiam os indivíduos e os grupos criminosos. Penso ter precisado bem que esse serviço de vigilância e de informação, que estou quase certo que verá a luz do dia, não deterá qualquer poder de intervenção directa e se limitará a dirigir relatórios ao secretário-geral das Nações Unidas - tendo este o encargo de agir em conformidade pela via diplomática normal ou por qualquer outro meio secreto.

Penso que será útil acrescentar que em nenhum caso eu admito a possibilidade do serviço secreto das Nações Unidas ter o direito de sabotagem. Mesmo se tiver a certeza absoluta de que em determinado local se está a preparar uma arma nova e terrível, nunca o próprio serviço secreto deverá proceder à sabotagem da instalação em questão. Fazê-lo seria um acto de guerra da ONU contra um país, acto de guerra que poderia provocar terríveis consequências, até mesmo o próprio fim desta organização.

No quadro destas limitações, o serviço secreto científico da ONU permitirá seguramente a sobrevivência da Humanidade, mesmo numa época em que todo o mundo terá a possibilidade de construir bombas H em pequenas fábricas.

O leitor céptico dir-me-á: «Acredita, portanto, nessa utopia de uma Terra cujos habitantes viverão todos em paz, e acredita que isso se poderá verificar antes que passem cinquenta anos?». E eu respondo. «Não exactamente». Espero simplesmente um mundo em que todos os países manterão entre si as relações que, por exemplo, existem actualmente entre os Estados Unidos e o Canadá.

É preciso ter visitado estes dois países para verificar a hostilidade que existe entre os Americanos e os Canadianos, ao nível individual, e entre os dois Governos, no plano político e económico. O Governo canadiano toma constantemente medidas para reduzir os investimentos americanos, para diminuir a influência americana, para impedir a difusão dos costumes americanos. Em contrapartida, os americanos influentes não se privam de criticar o Canadá. As grandes cidades americanas encontram-se ao alcance dos mísseis canadianos armados com bombas termonucleares. As divisões blindadas americanas poderiam invadir o Canadá em poucas horas. E, no entanto, um conflito armado entre os dois países parece absolutamente inconcebível. Porquê?

Porque nestas duas nações existem pessoas razoáveis, suficientemente razoáveis para que todos os problemas que possam ser levantados ou por uns ou por outros sejam resolvidos pela via das negociações. Estados Unidos e Canadá detestam-se cordialmente, mas vivem e viverão em paz. Encaro a possibilidade de um mundo em que todos os países terão entre si relações semelhantes. Será pedir demasiado? (in ob. cit., pp. 241-255).


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