quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Pol Pot: arquitecto do genocídio

Escrito por Miranda Twiss






Crianças famintas na China de Mao




«A fome, como se sabe, desumaniza. Faz que as pessoas se fechem sobre si mesmas, esquecendo qualquer consideração estranha à sua própria sobrevivência. Como explicar de outra forma o recurso ocasional ao canibalismo? Foi, em todo o caso, menos extenso do que na China do Grande Salto, e parece ter-se limitado ao consumo de cadáveres. Pin Yathay refere dois exemplos concretos: uma ex-professora que devorou parcialmente a irmã, e, numa enfermaria de hospital, a partilha do cadáver de um jovem. Em ambos os casos, a sanção para os "ogres" (espírito particularmente demoníaco na tradição khmer) é a morte, por espancamento perante a aldeia (e a neta, no caso da professora. O canibalismo vingativo também existia, como na China: Ly Yeng evoca o caso de um soldado khmer vermelho desertor forçado, antes de ser executado, a comer as suas próprias orelhas. O consumo de fígado humano é o mais referido, apesar de não se tratar de uma especificidade dos Khmers Vermelhos: os soldados republicanos impunham-no por vezes aos seus inimigos, entre 1970 e 1975; encontramos costumes semelhantes por todo o lado no Sueste Asiático. Haing Ngor relata a extirpação, numa prisão, do feto, do fígado e dos seios de uma mulher grávida assassinada; o feto é deitado fora (outros encontram-se já a secar, dependurados no beiral do telhado do cárcere), o resto é levado, com este comentário: "Esta noite temos fartura de carne!" Kên Khun recorda um chefe de cooperativa a preparar um remédio para os olhos a partir de vesículas biliares humanas (e distribuindo-o liberalmente pelos seus subordinados!) enquanto exaltava as qualidades gustativas do fígado humano. Não existirá neste recurso à antropofagia um caso limite de um fenómeno muito mais geral: o enfraquecimento dos valores, das referências morais e culturais, e antes de mais nada da compaixão, virtude tão fundamental no budismo? Paradoxo do regime dos Khmers Vermelhos: afirmou querer implementar uma sociedade de igualdade, de justiça, de fraternidade, de abnegação, e, tal como os outros poderes comunistas, provocou um desencadeamento espantoso de egoísmo, de cada um por si, de desigualdade no poder, de arbitrariedade. Para sobreviver, era necessário sobretudo e antes de mais saber mentir, enganar, roubar e permanecer insensível.

O exemplo, se assim se pode dizer, vinha de cima. Pol Pot, desaparecido na clandestinidade desde 1963, nada fez para retomar o contacto com a família, mesmo depois de 17 de Abril de 1975. Os seus dois irmãos e a cunhada foram, portanto, deportados com os outros, e um deles pereceu rapidamente; os dois sobreviventes, compreendendo tardiamente, através de um retrato oficial, a verdadeira identidade do ditador, acharam por bem (sem dúvida com razão) nunca dar a conhecer o seu parentesco com ele. O regime fez tudo para afrouxar ou quebrar os laços familiares, tendo percebido claramente que os mesmos constituíam uma forte resistência espontânea perante o projecto totalitário de uma dependência exclusiva de cada indivíduo face à Angkar. A unidade de trabalho dispunha frequentemente das suas próprias "instalações" (muitas vezes simples esteiras, ou camas de rede), mesmo a pouca distância da aldeia. Era muito difícil obter autorização para abandoná-las: os maridos ficavam longe das esposas semanas a fio, ou mais; os filhos eram afastados dos pais; os adolescentes podiam passar seis meses sem autorização para ver a família, sem notícias, para por vezes descobrirem, quando regressavam, que tinham morrido todos. Também aqui, o modelo vinha de cima: os casais dirigentes viviam frequentemente separados. Não era bem visto uma mãe dedicar-se demasiado ao filho, mesmo pequeno.

O poder dos maridos sobre as esposas, dos pais sobre os filhos foi abolido: podia-se ser executado por ter esbofeteado a esposa, ser denunciado pelos filhos por lhes ter batido, ou forçado à autocrítica por uma injúria ou uma discussão. Num contexto muito pouco humanista, devemos ver nestes aspectos a vontade do poder de arrogar-se o monopólio da violência legítima, de dissipar todas as relações de autoridade que lhe escapassem. Os sentimentos familiares eram encarados com o maior desprezo: as pessoas podiam estar separadas umas das outras, muitas vezes definitivamente, por não terem conseguido embarcar no mesmo camião, ou porque duas carroças que seguiam, em fila, tinham ordens para não tomarem a mesma estrada de deportação. Aos quadros pouco importava que velhos ou crianças se encontrassem doravante isolados: "Não se preocupem. A Angkar cuidará deles. Não confiam na Angkar?", era a resposta-tipo aos que suplicavam que os juntassem aos familiares.
























Com a substituição da cremação pelo enterramento dos cadáveres (salvo excepções, para as quais era preciso suplicar, e ter um responsável com alguns sentimentos humanos), verificou-se mais um atentado à solidariedade familiar: para um Khmer, abandonar um parente próximo ao frio, na lama, sem ritos funerários (nada está previsto em semelhante caso), é faltar-lhe ao respeito mais elementar, é comprometer a sua reencarnação, eventualmente obrigá-lo à existência como fantasma. Dispor de um pouco das suas cinzas era, em compensação, particularmente valorizado, neste período, de frequentes deslocações. Tratava-se de facto de uma das pedras angulares do ataque sistemático, contra a rica cultura tradicional do Camboja, fosse búdica ou pré-búdica (as cerimónias "primitivas" dos Khmers Loeu não foram mais preservadas do que os ritos provenientes do Império Angkoriano), popular (cantigas de amor, gracejos) ou erudita (danças da morte, pinturas de templo, esculturas...). O Plano de 1976, imitando inegavelmente a Revolução Cultural chinesa, não reconhecia outras formas de expressão artística além dos cânticos e poemas revolucionários.

Mas a redução do estatuto dos mortos é a outra vertente da negação da humanidade dos vivos. "Não sou um ser humano, sou um animal", conclui na sua confissão o antigo dirigente e ministro Hu Nim. O homem vale só o mesmo que o animal? Podia-se perder a vida por um boi se ter tresmalhado, e ser torturado até à morte por ter batido num. Houve homens amarrados a charruas e fustigados sem piedade por não se terem mostrado à altura da vaca que ajudavam. A vida humana tem um preço tão baixo... "Tu tens tendências individualistas. [...] Deves [...] libertar-te dos teus sentimentos", retorquia um soldado khmer vermelho a Pin Yathay, que pretendia manter junto de si o filho ferido. Querendo ir vê-lo, morto, alguns dias mais tarde, Pin Yathay teve de provar que, doente, "não desperdiça as [suas] forças em detrimento de Angkar" a fim de, dificilmente, conseguir a autorização para ver o corpo do filho. Não lhe é dado o direito de ir visitar a mulher ao hospital, mais tarde, sob o pretexto de que "a Angkar ocupa-se dela". Tendo ido ajudar uma vizinha gravemente doente e os seus dois filhos, ouviu este reparo de um Khmer Vermelho: "Não é seu dever ajudá-lo, pelo contrário, isso prova que você ainda tem piedade, sentimentos de amizade. É preciso renunciar a esses sentimentos e extirpar do seu espírito as propensões individualistas. Volte imediatamente ao seu lugar".

Esta negação sistemática do humano tem, do ponto de vista dos senhores do país, o seu reverso: o desaparecimento nas vítimas de qualquer escrúpulo em mentir, em mandriar quando os guardas e os espiões estão de costas voltadas, e, principalmente, em roubar. É uma questão de vida ou de morte, tendo em conta as rações fornecidas pela Angkar: toda a gente rouba, das crianças aos velhos - o que pode simplesmente significar, pertencendo tudo ao Estado, a apanha de alguns frutos. Infernal armadilha de uma sociedade que apenas deixa às pessoas a escolha entre morrer, roubar e enganar: esta deseducação, particularmente nos jovens, permitiu manter-se até hoje um cinismo e um egoísmo que comprometem as possibilidades de desenvolvimento do Camboja.

[...] "Basta um milhão de bons revolucionários para o país que estamos a construir. Não precisamos do resto. Preferimos abater dez amigos a conservar vivo um inimigo": tal era o discurso dos Khmers Vermelhos nas reuniões de cooperativa. E puseram em prática esta lógica genocida. A morte violenta era quotidiana sob Pol Pot; morria-se mais frequentemente de assassínio do que de doença ou de velhice. O castigo, em toda a parte chamado "supremo", era banalizado pela sua frequência, e pela futilidade das razões que levavam à sua aplicação. Estranha inversão: era nos casos considerados mais graves que uma pessoa ia para a prisão (onde, é certo, a morte era apenas adiada), para ser obrigada a confessar conspirações e cúmplices. Embora a realidade do sistema repressivo fosse cuidadosamente dissimulada - mistério que o tornava ainda mais terrível - alguns deportados perceberam as suas grandes linhas: "Talvez houvesse dois sistemas paralelos de repressão. Um sistema de cárcere, parte integrante de uma burocracia que se alimentava de si mesma a fim de justificar a sua existência, e um outro sistema, mais informal, que dava aos chefes de cooperativa o direito de fazerem justiça. No fim, o resultado para os prisioneiros era o mesmo". Henri Locard confirma esta hipótese. Conviria acrescentar um terceiro modo de matar, que tende a prevalecer no último ano do regime: a "depuração militar" - fazendo lembrar um pouco as "colunas infernais" da guerra de Vendeia, em 1793-1795 -, em que as tropas ligadas ao Centro chacinam localmente, e em massa, equipas de quadros locais caídos em desgraça, aldeias suspeitas, populações inteiras como na zona Leste. O que nunca há é acta de acusação precisa, nem possibilidade de defesa ou de comunicação da sorte das vítimas aos familiares ou colegas de trabalho: "A Angkar mata, mas nunca explica", tal era um dos novos ditados da população.


Khmers Vermelhos





Torna-se difícil definir com exactidão os delitos punidos com a morte. Não porque faltem, mas, pelo contrário, porque é quase impossível citar uma falta que não possa implicar a execução capital: para o quadro khmer vermelho, é cómodo, e recomendável como prova da inteligência política, ter uma visão o mais paranóica possível do mínimo desvio. Limitar-nos-emos, portanto, a uma recapitulação dos principais motivos conducentes à morte, começando pelos mais frequentes. O "roubo" de alimentos vem certamente à cabeça. Tendo em conta a importância do arroz na alimentação, e o controlo dele efectuado pelo regime, a sentença de morte foi maciçamente aplicada no caso de respiga selvagem, de pilhagem nos celeiros ou na cozinha; os ladrões eram frequentemente executados de imediato a golpes de cabo de enxada, directamente no campo - e lá abandonados, para servirem de exemplo. No caso de roubo de frutas ou legumes, havia maiores possibilidades de escapar com um simples espancamento. No entanto, algumas bananas colhidas por uma mulher faminta que amamentava o seu bebé conduziram-na à morte. Adolescentes ladrões de pomares eram "julgados" pelos seus camaradas (que não tinham possibilidade de recusa), condenados e executados no mesmo instante com uma bala na cabeça: "Estávamos trémulos. Disseram-nos que era uma lição para nós". O abate clandestino de gado era menos frequente: a criação e os animais domésticos desapareceram rapidamente, ou eram muito bem guardados; a promiscuidade tornava muito difícil o desvio de gado. No entanto, uma família inteira podia ser assassinada por ter partilhado um bezerro.

As visitas clandestinas à família, consideradas equivalentes a deserções, embora de curta duração, eram também muito perigosas. Todavia, parece que só se arriscava a vida em caso de reincidência - na condição de não ter cometido o gravíssimo erro de faltar ao trabalho. Gostar demasiadamente dos seus era mal encarado; discutir com eles, ou com quem quer que fosse, podia também custar a vida (neste caso, também geralmente, nunca da primeira vez). Num clima de um puritanismo extremo - era recomendado que um homem se mantivesse a pelo menos três metros da sua interlocutora, se não fosse uma parente próxima - as relações sexuais fora do casamento eram sistematicamente punidas com a morte: infelicidade para os jovens amantes, infelicidade também para os quadros libidinosos, muitos dos quais "caíram" por isso. O consumo de bebidas alcoólicas (geralmente sumo de palma fermentado) era um outro crime capital; mas isto era válido sobretudo para os quadros e para os Antigos, pois os Novos arriscavam já suficientemente a vida procurando alimentar-se. No tocante às práticas religiosas, muito mal vistas, não conduziam forçosamente a uma condenação desde que fossem discretas e puramente individuais (o que é possível no budismo e muito difícil no islamismo); pelo contrário, as cerimónias de transes podiam ser punidas com a morte. Claro que qualquer insubmissão era fatal. Os raros que se arriscaram, sobretudo nos primeiros tempos, a aproveitar a suposta liberdade de crítica que lhes era concedida nas reuniões para recordar a insuficiência dos alimentos ou das roupas "desapareceram" muito rapidamente, do mesmo modo que esses professores deportados, organizadores, em Novembro de 1975, de uma manifestação de protesto contra as rações de fome, embora a manifestação em si não tivesse sido reprimida. Os conceitos "derrotistas", desejar o desaparecimento do regime (ou a vitória do Vietname, coisa que um bom número de cambojanos pensava em 1978), e até reconhecer que se tem fome: tudo isso expõe as pessoas ao pior. Os chhlop eram encarregados de registar, e por vezes provocar, essas palavras incriminatórias.

Não cumprir a tarefa atribuída, qualquer que fosse a razão, era também das faltas mais arriscadas. Toda a gente estava sujeita a erros ou acidentes menores, sempre potencialmente fatais, mas foi igualmente em nome desta obrigação de resultados que grande número de deficientes, de inválidos e de doentes mentais foram assassinados: incapazes, sabotadores objectivos, eram ainda mais inúteis do que a massa dos Novos. Bem entendido, os feridos e amputados de guerra do exército republicano estavam todos condenados a desaparecer. Particularmente vulneráveis eram os que se encontravam incapacitados de compreender ou aplicar instruções e proibições: um louco que levava um pouco de mandioca, ou que exprimia o seu desagrado em termos incoerentes, era geralmente liquidado. Os comunistas khmers aplicavam uma eugenia de facto.

O nível global de violência no Kampuchea Democrático era terrível. Mas, para a maioria dos Cambojanos, o que aterroriza é o mistério que envolve os incessantes desaparecimentos, e não tanto o espectáculo da morte. Esta era quase sempre discreta, oculta. Haverá quem associe esta discrição no assassínio à invariável delicadeza dos militantes e quadros do PCK: "As suas palavras eram cordiais, muito doces, até nos piores momentos. Chegavam ao assassínio sem perderem a cortesia. Administravam a morte com palavras afáveis. [...] Eram capazes de fazer quaisquer promessas que quiséssemos ouvir para anestesiar a nossa desconfiança. Eu sabia que as suas doces palavras acompanhavam ou precediam os crimes. Os Khmers Vermelhos eram delicados em quaisquer circunstâncias, mesmo antes de nos abaterem como gado". Uma primeira explicação é táctica: como sugere Yathay, manter a surpresa, evitar a recusa ou a revolta. Uma segunda é cultural: o domínio de si próprio é altamente valorizado no budismo; aquele que cede à emoção perde a face. Uma terceira é política: tratava-se, tal como nos bons tempos do comunismo chinês (antes da Revolução Cultural), de procurar a implacável racionalidade da acção do Partido - que nada deve a paixões momentâneas ou a impulsos individuais - e a sua total capacidade para provar que eram amplamente coordenadas a partir do Centro: a violência primitiva e espontânea, como por exemplo a dos movimentos populares, não hesita em exibir-se. No final de uma tarde, ou numa noite, soldados vêm buscar as pessoas para "interrogatório", para "estudarem", ou para a velha "faxina à lenha". Muitas vezes, amarram-lhes os cotovelos atrás das costas, e pronto. Por vezes, mais tarde, alguém encontra na floresta um cadáver não enterrado - talvez para inspirar ainda mais medo -, mas nem sempre identificável. Sabe-se hoje que há numerosas valas comuns - mais de um milhar em cada uma das províncias completamente investigadas, e existem vinte, ao todo - espalhadas pelos campos cambojanos. Por vezes era concretizada a sinistra ameaça, constantemente repetida pelos Khmers Vermelhos, de ir servir de "fertilizante aos nossos arrozais". Matava-se constantemente homens e mulheres para fazer adubo. Enterravam-se os cadáveres em valas comuns que eram omnipresentes nos campos de cultivo, sobretudo nos de mandioca. Muitas vezes, ao arrancar os tubérculos de mandioca, desenterrava-se um crânio humano através de cujas órbitas saíam as raízes da planta comestível". Os senhores do país parecem por vezes ter acreditado que não há nada melhor do que os cadáveres humanos para a agricultura; embora também seja lícito ver aqui, em paralelo com o canibalismo (dos quadros), o ponto culminante da negação da humanidade dos "inimigos de classe".






A selvajaria do sistema reaparece no momento supremo, o da execução. Para poupar as balas, mas também sem dúvida para satisfazer o frequente sadismo dos executores, o fuzilamento não é o mais corrente: 29% das vítimas, segundo o estudo de Sliwinski. Em compensação, contar-se-iam 53% de crânios esmagados (com barras de ferro, com cabos de enxada), 6% de enforcados e asfixiados (com saco de plástico), 5% de decapitados e de espancados até à morte. Confirmação do conjunto dos testemunhos: somente 2% de assassínios teriam ocorrido em público. Entre estes, um número significativo de execuções "exemplares" de quadros caídos em desgraça, utilizando métodos particularmente bárbaros, em que o fogo (purificador?) parece desempenhar um papel relevante: enterramento até ao peito numa vala cheia de brasas; cremação das cabeças com petróleo.

[...] O que mais nos comovia era a sorte de vinte crianças, sobretudo filhos de pessoas deportadas depois de 17 de Abril de 1975. Estas crianças roubaram porque tinham muita fome. Estavam presas não para serem punidas, mas para serem mortas de uma forma particularmente selvagem:

- os guardas de prisão batiam-lhes ou davam-lhes pontapés até à morte;

- faziam delas brinquedos vivos; amarravam-nas pelos pés, suspendiam-nas das traves do tecto, balouçavam-nas e depois tentavam estabilizá-las aos pontapés;

- perto da prisão havia um pântano; os carrascos atiravam para lá os pequenos prisioneiros, empurravam-nos para o fundo com os pés, e quando os desgraçados eram atacados por convulsões, deixavam a cabeça emergir, para recomeçarem de imediato a mergulhá-los à força na água.

Nós, os outros prisioneiros e eu próprio, chorávamos em segredo a sorte destas pobres crianças que tinham abandonado este mundo de um modo tão atroz. Havia oito carrascos guardas de prisão. Bun, o chefe, e Lân (só retenho na memória estes dois nomes) eram os mais selvagens, mas todos participaram nesta tarefa ignóbil, todos rivalizaram em crueldade para fazer sofrer os seus compatriotas».

Jean-Louis Margolin (in «O Livro Negro do Comunismo»).


«"No Kampuchea Democrático, sob o regime glorioso da Angkar, devemos pensar no futuro. O passado está enterrado, os 'novos' devem esquecer o conhaque, as roupas caras e os cortes de cabelo à moda. [...] Não temos necessidade da tecnologia dos capitalistas, de modo nenhum! No novo sistema, não há necessidade de enviar as crianças à escola. A nossa escola é o campo. A terra é o nosso papel, a charrua a nossa caneta; escreveremos a trabalhar! Os certificados e os exames são inúteis; saibam trabalhar e saibam abrir os canais: eis os vossos novos diplomas! E quanto aos médicos, tão-pouco precisamos deles! Se alguém necessitar que lhe retirem os intestinos, eu próprio me encarregarei disso!".

Fez o gesto de esventrar alguém com uma faca, para o caso de algum de nós não ter percebido a alusão.

"Como vêem, é fácil, não é necessário ir à escola para isso! Também não necessitamos de profissões capitalistas como os engenheiros e os professores! Não precisamos de mestres-escolas para nos dizer o que é preciso fazer; eles são todos corruptos. Necessitamos simplesmente de pessoas que queiram trabalhar nos campos! No entanto, camaradas... há pessoas que recusam o trabalho e o sacrifício... Há agitadores que não possuem a boa mentalidade revolucionária... Esses, camaradas, são os nossos inimigos. E alguns deles encontram-se aqui mesmo, esta noite!"

A assistência foi invadida por um sentimento de mal-estar que se traduziu em diversos movimentos. O khmer vermelho prosseguia, olhando para cada rosto à sua frente.

"Estas pessoas não largam a velha maneira de pensar capitalista! Podemos reconhecê-las: vejo entre nós quem ainda usa óculos! E usam óculos porquê? Será que não podem ver-me se eu lhes der uma bofetada?"




Avançou bruscamente para nós, de mão erguida:

"Ah! Eles fogem com a cabeça, portanto podem ver-me, portanto não têm necessidade de óculos! Usam óculos para seguir a moda capitalista, julgando que isso os torna belos! Nós não temos necessidade disso: aqueles que desejam ser belos são preguiçosos e exploradores que sugam a energia do povo!"

Sucederam-se discursos e danças durante horas. Finalmente, todos os quadros se alinharam gritando a uma só voz: "O-SANGUE-VINGA-O-SANGUE!" Ao pronunciar a palavra "sangue", batiam no peito com o punho; ao gritar "vinga", saudavam de braço estendido e punho cerrado. "O-SANGUE-VINGA-O-SANGUE! O-SANGUE-VINGA-O SANGUE!"

Com expressões tensas, cheias de uma determinação selvagem, gritavam os slogans ao ritmo das pancadas no peito, terminando esta assustadora demonstração com um vibrante: "Longa vida à revolução cambojana!"».

Discurso de um quadro khmer vermelho de Tonle Bati, no Verão de 1975 (in Haing Ngor, «A Cambodian Odyssey» ).


«A experiência khmer vermelha, excepcionalmente mortífera, suscita, como a Shoah, a tentação de se insistir na sua unicidade. Os outros regimes comunistas e os respectivos defensores, na sua grande maioria, acertaram o passo: a tirania polpotista seria ou um desvio ultra-esquerdista, ou, melhor, um "fascismo vermelho", simplesmente disfarçado de comunismo. E no entanto, com distanciamento, é claro que o PCK no poder pertencia indiscutivelmente à "grande família"; as particularidades do caso cambojano são importantes, mas a Albânia também não foi a Polónia... Tudo somado, o comunismo cambojano está mais próximo do chinês do que este do soviético.

Salientaram-se as várias influências possíveis sobre os Khmers Vermelhos. A análise da "pista francesa" impõe-se: quase todos os dirigentes khmers vermelhos estudaram em França, e a maioria aí aderiu ao PCF, inclusive o futuro Pol Pot. Um certo número das suas referências históricas provêm desta formação: Suong Sikoeun, adjunto de Ieng Sary, garante: "Fui muito influenciado pela Revolução Francesa, e particularmente por Robespierre. Daí, foi um passo para me tornar comunista. Robespierre é o meu herói. Robespierre e Pol Pot: os dois homens têm as mesmas qualidades de determinação e de integridade". Além deste exemplo de intransigência, é todavia difícil de encontrar algo de significativo, na prática ou no discurso do PCK, que tenha a sua origem claramente em França, ou no comunismo francês. Os dirigentes khmers vermelhos eram muito mais práticos do que teóricos: são as experiências de "socialismo real" que os apaixonam verdadeiramente.

Esta paixão teve momentaneamente por objecto o Vietname do Norte. Foi este, muito mais do que o PCF, o padrinho do comunismo cambojano, e depois participou intimamente nas suas orientações até cerca de 1973. O PCK é à partida apenas uma das secções do Partido Comunista Indochinês (PCI), onde a hegemonia vietnamita é total, e que foi desmembrado em três ramos nacionais (sem no entanto desaparecer) simplesmente pela vontade dos camaradas de Ho Chi Minh, em 1951. Até ao princípio da guerra, o PCK parece não beneficiar de qualquer autonomia em relação ao PCV, seja nos planos programático, estratégico (o legalismo ou as acções armadas dos comunistas cambojanos são, antes de mais, meios para pressionar Sihanuk no quadro da guerra do Vietname), seja no plano táctico (armamento, enquadramento, logística). Mesmo após o golpe de Estado, são vietnamitas que enquadram a administração revolucionária das "zonas libertadas" e os novos recrutas cambojanos. O fosso só começa a cavar-se após os acordos de Paris de Janeiro de 1973: a estratégia de Hanói empurrava o PCK para a mesa das negociações, mas isso teria dado o papel principal a Sihanuk e arriscava-se a revelar a fraqueza organizacional dos Khmers Vermelhos. Por isso, pela primeira vez, recusaram-se a ser manipulados: doravante, possuíam os meios para fazê-lo.






Guerrilheiro vietcong




Guerrilheira vietcong

Túneis usados por vietcongs

Soldados vietnamitas e prisioneiros vietcongs
















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[...] A marca pessoal de um Estaline ou de um Mao foi tão considerável que a sua morte imprimiu rapidamente modificações fundamentais, particularmente no que respeita à repressão. Será legítimo falar-se de polpotismo? O ex-Saloth Sar atravessa de uma ponta à outra a história do comunismo cambojano: é difícil imaginar o que este teria sido sem ele. Descobrem-se na sua personalidade alguns traços que vão no sentido das derivas mais sangrentas. Para começar, que fazer com esse passado longínquo, tão pouco de acordo com a lenda revolucionária e que ele tudo fez para negar? Ter uma irmã e uma prima dançarinas e concubinas do rei Manivong, um irmão funcionário do Palácio até 1975, e ter ele próprio passado uma boa parte da sua infância no coração de uma monarquia arcaica: não haverá em tudo isto razões para que pretenda "desculpar-se" destruindo mais e mais o velho mundo? Pol Pot parece ter mergulhado sempre mais na negação da realidade, talvez por não assumir a sua própria história. Homem do aparelho, desde cedo ambicioso, mais à vontade numa pequena reunião do que perante uma multidão, viveu desde 1963 completamente afastado do resto do universo: acampamentos na selva, residências secretas (ainda hoje ignoradas) numa Phnom Penh deserta. Parece ter cultivado deste modo uma profunda paranóia: apesar de ser todo-poderoso, aqueles que iam ouvi-lo eram revistados; mudava frequentemente de residência, suspeitava de que os seus cozinheiros queriam envenená-lo, e mandou executar electricistas "culpados" de cortes de correntes.

Como interpretar de outra maneira, senão pelas suas obsessões, este alucinante diálogo com um jornalista da televisão sueca, em Agosto de 1978:

" - Vossa Excelência quer dizer-nos qual é a realização mais importante do Kampuchea Democrático após três anos e meio?

- A realização mais importante [...] é o facto de ter derrotado todas as conspirações e actos de ingerência, de sabotagem, de tentativa de golpe de Estado, e os actos de agressão por parte de inimigos de toda a espécie".

Involuntariamente, que confissão de fracasso para o regime!

O professor sensível e tímido, amante da poesia francesa e amado pelos seus alunos, o divulgador cativante e caloroso da fé revolucionária que todos descrevem, dos anos cinquenta aos anos oitenta, era um ser de duas caras: no poder, mandou prender alguns dos seus mais velhos companheiros de revolução, que se julgavam seus amigos pessoais, não respondeu às suas cartas suplicantes, autorizou a sua tortura "forte" e mandou-os executar; diz-se que talvez tenha participado no suplício. O seu "arrependimento" após a derrota, num seminário para quadros, em 1981, é um modelo de hipocrisia.

"Ele disse saber que numerosos habitantes do país o odiavam e o consideravam responsável pelas matanças. Disse saber que muitas pessoas tinham morrido. Ao dizer isto, quase desmaiou e desfez-se em lágrimas. Disse que devia assumir a responsabilidade porque a linha era demasiado à esquerda, e que ele não acompanhara de perto o que se passava. Referiu que era uma situação semelhante à do dono de uma casa que ignorava o que faziam os filhos, e que dera demasiada confiança às pessoas. [...] Diziam-lhe coisas que não eram verdadeiras, que tudo ia bem, mas que esta ou aquela pessoa era um traidor. Afinal de contas, os verdadeiros traidores eram eles. O principal problema eram os quadros formados pelos Vietnamitas".

Devemos então acreditar nesse outro velho companheiro de Pol Pot, o seu ex-cunhado Ieng Sary, que o acusa de megalomania: "Pol Pot considera-se um génio incomparável nos domínios militar e económico, em higiene, em composição de canções, em música e em dança, em arte culinária, em moda (sic), em tudo, inclusive na arte de mentir. Pol Pot considera-se acima de todas as criaturas do planeta. É um deus na terra?" Temos aqui algo muito próximo de certos retratos de Estaline. Coincidência?».

Jean-Louis Margolin (in «O Livro Negro do Comunismo»).




























Pol Pot: arquitecto do genocídio

Em 1998, o mundo assistiu incrédulo à transmissão das imagens de um velho que morrera na selva da Tailândia. Tinha um rosto grande e rechonchudo, com olhos brilhantes, de avô, e grossos lábios que se abriam num imenso sorriso. Parecia um pouco cómico, uma impressão que não era desmentida pelo seu nome, Pol Pot. No entanto, não havia nada de cómico em relação a este homem - fora um dirigente sem qualquer misericórdia pelo seu povo. Desde 1979, governara o Cambodja, sendo responsável pela morte de quase três milhões de pessoas, um terço da população cambojana. Por um período de quatro anos torturara e matara à fome os cambojanos, sendo homens, mulheres, crianças e bebés frequentemente espancados com martelos e enterrados vivos.

Nasceu Saloth Sar, em 1925, o mais novo de sete filhos, e foi criado numa rica quinta a norte de Phnom Penh, num Camboja governado pelos franceses. O jovem nunca trabalhou num campo de arroz, nem sabia muito acerca da vida na aldeia, pois com a idade de seis anos foi enviado para a cidade para ser educado para monge. Passou seis anos num templo budista e dois anos como monge. Mas o rapazinho da aldeia sentia-se um intruso na cidade moderna e agitada. Pol Pot não compreendia a natureza multicultural das cidades cambojanas ou, se compreendia, esta não lhe agradava. Dizia que se sentia como um «monge negro das montanhas».

Em 1949 foi para Paris estudar radioelectricidade, com uma bolsa. Aqui conheceu a primeira mulher, Khieu Ponnary, oito anos mais velha do que ele e a primeira mulher cambojana a obter um baccalaureate. Aí, o seu racismo inato encontrou expressão no comunismo radical. Durante os anos em que estudou em Paris, o Partido Comunista era provavelmente o de linha mais dura e mais estalinista da Europa Ocidental. Absorveu também a filosofia de outro estudante cambojano de esquerda, Khieu Samphan, que acreditava que para conseguir realizar uma verdadeira revolução rural, o Camboja tinha de regressar a uma economia camponesa - sem cidades, sem indústria, sem moeda e sem instrução.

Após concluir a universidade em Paris, Pol Pot regressou ao Camboja, cheio de ideias revolucionárias e alistou-se no clandestino Partido Comunista que se opunha ao monarca apoiado pelos franceses, o rei Sihanouk, e ao presidente Lon Nol. Dois anos mais tarde foi promovido a secretário-geral do partido e para não ser capturado pelas forças governamentais fugiu para as montanhas, com os seus quadros fortemente armados, pregando a sua doutrina revolucionária às tribos das montanhas enquanto empreendia uma viciosa guerra de guerrilha. Já nessa altura Pol Pot tinha em vista o poder total e pensa-se que em 1962 ordenou a execução do seu antecessor na liderança do Partido Comunista. Desde o início dos anos 70 do século XX que Pol Pot e o seu grupo, conhecidos como Khmers Vermelhos, empreenderam uma intensa campanha contra o governo de Lon Nol e, em 1972, o conflito transformara-se numa verdadeira guerra civil. A sua implacável marcha para o poder foi impulsionada quando a guerra do Vietname se estendeu ao Camboja. Os intensos bombardeamentos americanos que atingiram o povo cambojano entre 1969 e 1973 forneceram a Pol Pot um poderoso objecto de ódio e, indubitavelmente, ofereceram à revolução milhares de combatentes e simpatizantes. Em 1970, o Partido tinha 4000 membros; em 1975, já eram 14 000. Entre 1970 e 1975, os americanos forneceram 1,18 biliões de dólares em material militar e mais 503 milhões de auxílio à República Khmer de Lon Nol. Então, repentinamente, a América retirou o auxílio ao Camboja, o que lançou o país num período de instabilidade económica e militar. Pol Pot aproveitou-se da fraqueza do governo e, na Primavera de 1975, os Khmers Vermelhos encontravam-se na periferia de Phnom Penh.

A 17 de Abril, logo a seguir ao Ano Novo cambojano, os Khmers Vermelhos entraram na capital, vencedores de uma guerra de cinco anos contra um governo apoiado pelos americanos. Quando foi anunciado que Pol Pot, trabalhador de uma plantação de borracha era o novo primeiro-ministro, ninguém tinha ouvido falar dele. Só em 1978, quando a sua fotografia começou a aparecer nas messes, os seus irmãos souberam que o chefe do governo era ele.

Após 24 anos de existência, o Partido Comunista do Camboja, então rebaptizado Kampuchea, obtivera uma vitória retumbante. Como força política, tinha sido praticamente desconhecido até há cinco anos atrás, altura em que o príncipe Sihanouk, rei do Camboja, fora deposto. Neste momento, o regime de Pol Pot estava em posição de concretizar e desenvolver uma revolução radical, pura e total, mais completa do que qualquer revolução da História. O mundo exterior reagiu com surpresa quando os revolucionários esvaziaram as cidades, destruíram os bens de consumo ocidentais, aboliram o dinheiro e as bolsas estrangeiras. Estabeleceram o controlo estatal sobre todos os negócios, nacionais e estrangeiros, e começaram a liquidar a elite ocidentalizada.

O banco central foi demolido com explosivos e as notas de banco flutuavam ao vento pelas ruas desertas da capital. A catedral católica de Phnom Penh foi desmantelada pedra a pedra, até que não restasse qualquer vestígio do mais proeminente edifício ocidental do país.

Entusiasmado com a vitória e imbuído de um sentido de rectidão, Pol Pot começou a concretizar os seus planos de restruturar a sociedade cambojana. O plano era eliminar tudo o que vinha do passado e começar de novo, até ao ponto de declarar que não se estava em 1975 mas sim no ano zero. Era o princípio de quatro anos de miséria para o povo cambojano, pois Pol Pot começou a destruir e a desmantelar a sociedade do país, reduzindo-o a um estado de barbárie. A revolução khmer alterou radical e imediatamente os mais básicos aspectos da vida cambojana, como a língua, a religião e os hábitos de trabalho. Horas depois da sua entrada em Phnom Penh, as novas autoridades ordenaram a evacuação da cidade. Inicialmente, justificaram esta atitude dizendo que era para que todos tivessem comida, pois no campo havia mais alimentos e para confirmar a vitória sobre o conceito de propriedade privada, banida pelo novo regime. Na verdade, a razão era que o novo governo não conseguia controlar as cidades, pois a maioria dos seus apoiantes eram camponeses analfabetos, sendo as cidades consideradas centros de domínio estrangeiro.

Quer se tratasse de médicos, advogados, professores, mecânicos ou varredores de ruas, foram todos obrigados a trabalhar no campo, plantando arroz e construindo diques para a revolução. Dois milhões de habitantes de Phnom Penh foram evacuados em 72 horas; os soldados marchavam de porta em porta e, literalmente, varriam as pessoas para as ruas na ponta das armas. Quem resistisse, era imediatamente abatido. A marcha forçada de aproximadamente três milhões de pessoas para fora da capital e de centenas de milhares de outros das cidades mais pequenas do Camboja, resultou na morte de cerca de 4000 pessoas, devido ao calor, à falta de comida e, não menos importante, a total ausência de assistência médica. «A partir do meio-dia, multiplicaram-se as multidões nas ruas, conforme as tropas comunistas arrancavam aos seus lares família após família... Havia uma grande aglomeração de pessoas de todas as idades e condições, novos, velhos e doentes... praticamente todos viram corpos a inchar e a apodrecer rapidamente ao sol. Então, deixou de haver água em toda a cidade. Não havia depósitos de água potável nem de comida, nem tinha sido preparado qualquer abrigo para os milhões de desalojados. Uma forte disenteria enfraqueceu ainda mais as pessoas já debilitadas pela fome e pela fadiga, havia corpos de crianças a cada 200 metros».

Através da evacuação forçada das cidades, os Khmers Vermelhos retiraram à população qualquer possível conexão material com a velha ordem. As casas, o dinheiro, as contas bancárias e os bens de consumo foram deixados para trás. Os potenciais adversários foram desorganizados e afastados dos lugares que lhes poderiam servir como centros de resistência, deixando Pol Pot governar sem oposição. Os padrões familiares, sociais, religiosos e económicos foram totalmente dizimados, pois os evacuados tiveram de empreender uma luta pela sobrevivência.







Para fortalecer as suas políticas, Pol Pot declarou que, daí em diante, a religião budista, o dinheiro e os bens pessoais, seriam banidos. Voltava-se ao mais básico modo de vida. Acreditando que as pessoas das cidades estavam contaminadas pela vida passada, Pol Pot reescreveria a sua história. No estado camponês ideal, seriam purificados através do trabalho árduo e da brutalidade. Monges idosos que durante décadas não tinham realizado qualquer trabalho manual, foram obrigados a tarefas particularmente exigentes, como cavar horas seguidas. Toda a gente, incluindo mulheres grávidas, tinha de permanecer com água até ao pescoço, nas estações frias e chuvosas, trabalhando na construção de canais, com as pernas e os pés inchados e a sangrar. Se parassem de trabalhar por estarem doentes, não recebiam qualquer alimento. O lema dos Khmers Vermelhos desse tempo era: «Manter-te não traz benefícios e destruir-te não traz prejuízo». Todos trabalhavam da mesma maneira. Se não o fizessem, eram abatidos. O medo, as ameaças e a morte eram uma constante.

Pol Pot acreditava que para o seu ideal de pureza funcionar, o individualismo tinha de ser exterminado. Apenas destruindo todas as raízes, todos os vestígios de pensamento individual, poderia emergir um povo totalmente dedicado ao regime colectivista. Com isto em mente, a população foi dividida em três categorias, dependendo da sua classe e passado político. Os penh sith tinham todos os direitos; os triem eram candidatos a ter todos os direitos e os bannheu não tinham direitos alguns. Os penh sith recebiam rações de comida completas e tinham autorização para participar nas organizações, incluindo no exército e no partido. Quase todos se juntaram a Pol Pot logo de início e provinham dos segmentos mais pobres e com menos instrução da população rural. Os triem estavam em segundo lugar na fila para as rações de arroz e podiam deter gabinetes políticos de pouca importância. Muitos vinham da população rural, mas com o tempo muitos dos pobres que tinham sido expulsos das cidades foram promovidos a este estatuto. A categoria mais baixa, os bannheu, não tinha direitos, nem mesmo à alimentação. A maioria dos alvos a abater encontrava-se nesta categoria. Os que não eram imediatamente executados recebiam uma dieta mínima e esperava-se que trabalhassem até à exaustão.

Com o advento da nova moralidade revolucionária, os maridos eram separados das mulheres por longos períodos, a autorização para casar tinha de ser concedida pela Angkar (A Organização) dentro de normas muito restritivas e o sexo fora do casamento estava sujeito a penas extremas, muitas vezes, a própria pena de morte. Não era permitido beber nem jogar e, em 1976, Khieu Samphan, um funcionário da Angkar, declarou que «no nosso país não existem ladrões, bêbados, vadios nem prostitutas». A Angkar funcionava como pai e mãe de todas as crianças cambojanas. Os adolescentes eram retirados às famílias e sujeitos a uma formação ideológica rigorosa. Pol Pot pensava que, treinando os jovens recrutas em jogos cruéis, estes acabariam por se transformar em soldados ansiosos por matar e incentivava-os a tirar prazer dos tormentos infligidos a animais e a fazerem as suas vítimas sofrer o mais possível.

As crianças já quase não viviam com os pais. Os de idade inferior a 6 anos eram entregues a «avós» que cultivavam o seu espírito revolucionário contando-lhes histórias heróicas. Entre os 6 e os 12 anos, viviam em divisões separadas e eram incentivados a espiar e relatar quaisquer infracções às regras cometidas pelos seus pais. Aos 12, eram alistados nos «exércitos móveis» e raramente voltavam a ver os pais. Nas mãos de Pol Pot aprendiam unicamente a disciplina - cumprir ordens e não procurar razões.

Pol Pot era gora o líder do ironicamente denominado Kampuchea Democrático e não permitia qualquer oposição aos seus planos de reestruturar a sociedade. A Sangha, o mosteiro budista, única instituição que permanecia e que poderia ter desafiado Pol Pot, pois representava o Camboja tradicional, estava mal preparada para resistir ao totalitarismo dos Khmers Vermelhos, e acabou por se desmantelar. Antes da subida ao poder de Pol Pot, o Camboja era considerado o maior país budista do Sudeste Asiático. Fora das cidades havia mais de 2500 templos e a maioria dos homens, a determinada altura da vida, tornavam-se monges. Contudo, logo a seguir à vitória, os Khmers Vermelhos apressaram-se a expurgar da vida quotidiana todos os vestígios do budismo, pois os seus ensinamentos e práticas contradiziam aspectos vitais da doutrina revolucionária. Executaram os monges mais proeminentes, destituíram os outros, proibiram a acumulação de dádivas e destruíram muitos templos.




Monges budistas no Cambodja


«Um Khmer Vermelho empurrava os oficiais para a frente e apunhalava-os no peito e nas costas. Enquanto os homens estavam a morrer, as angustiadas e horrorizadas mulheres e os filhos eram reunidos junto dos corpos. As mulheres, forçadas a ajoelhar-se, eram apunhaladas e os filhos eram apunhalados onde estivessem. Os muito pequenos, demasiado novos para compreenderem o que se estava a passar, eram apanhados pelos executores e despedaçados membro a membro».

O rei Sihanouk foi desacreditado e colocado em prisão domiciliária. Pol Pot estava a embarcar numa política de purga permanente que teria como resultado a criação de uma sociedade sem passado e sem alternativas.

De acordo com testemunhas oculares, a maior parte das chacinas eram praticadas por fanáticos adolescentes que tinham sofrido fortes lavagens cerebrais, ostentando lenços vermelhos, que gritavam e disparavam para o ar enquanto iam escolhendo a próxima vítima. Os jovens assassinos eram analfabetos e ignorantes, o que os tornava ainda mais violentos e imprevisíveis. A matança era indiscriminada; os Khmers Vermelhos não precisavam de razões. Sempre que as tropas de Pol Pot eram confrontadas com a falta de compreensão ou com a resistência passiva, optavam por exterminar, em vez de perderem tempo e terem trabalho a reeducar.

As escolas e bibliotecas foram fechadas pouco depois de os Khmers Vermelhos terem ascendido ao poder e não havia jornais. O facto de uma pessoa usar óculos era suficiente para ser identificada como membro da intelligentsia e, portanto, como inimigo da revolução. Todos comiam em comunidade e apenas era permitido possuir individualmente dois objectos básicos: uma colher e uma tigela. Quando os sapatos normais já não podiam ser usados, o calçado consistia em sandálias Ho Chi Min, improvisadas a partir de pedaços de pneus de borracha, e era autorizado usar apenas uma peça de roupa. Todos os fornecimentos médicos estrangeiros terminaram em 1975 e o novo governo promoveu o uso de medicamentos compostos a partir de ervas locais. A medicina era exercida por pessoal sem formação. Mesmo quando as doenças assolaram o país, durante quase todo o ano de 1975 e 1976, Pol Pot permaneceu inflexível. Recordava repetidamente as pessoas da importância da autoconfiança. Se a bala não os apanhasse, a fome apanhá-los-ia.

A base da alimentação no Sudeste Asiático é o arroz. Uma pessoa consome em média o equivalente a sete latas de arroz por dia. As pessoas que trabalham nos campos de arroz cerca de 15 horas por dia, tinham de subsistir com uma lata e meia. Pol Pot esperava que a produção de arroz triplicasse nos primeiros três anos do seu governo, acreditando que havia suficiente entusiasmo e heroísmo. Mas as colheitas desastrosas em resultado do aumento da população no campo e o facto de as pessoas da cidade não saberem trabalhar no cultivo dos campos, tiveram como resultado a fome. Contudo, os Khmers Vermelhos recusaram-se a dar o braço a torcer e exageravam constantemente ao relatar aquilo que era conseguido. A vida não se limitava a valer pouco - não valia rigorosamente nada. O Camboja tornou-se uma macabra rede de campos de morte. Até hoje não se conhece o número exacto de valas comuns para onde foram atirados os corpos.

Pol Pot impôs também um rígido plano de organização que estabelecia quando se devia plantar, mondar e colher, apesar de as condições do país variarem de região para região. Na sociedade sem propriedade, não havia incentivos; as pessoas trabalhavam para não serem mortas e mesmo depois de morto, o corpo podia ser usado como fertilizante. Havia uma frase eufemística para as execuções: ser transformado num coco. A vida tornou-se num processo contínuo de trabalho nos campos de arroz durante uma parte do ano e nos sistemas de irrigação durante o tempo restante, sem qualquer folga pelo meio. Se um trabalhador cometesse um erro ou criticasse um projecto, era executado. Os infractores mais sérios eram, como alguns dos corpos canibalizados encontrados, enterrados até à cabeça na terra e deixados morrer. Então, cortavam-lhes as cabeças e espetavam-nas em estacas, como aviso para os outros.








Após dois anos de governo de Pol Pot, centenas de milhares de cambojanos apodreciam em valas comuns. Execuções sumárias, morte à fome ou excesso de trabalho tinham cobrado o seu preço, quer entre os camponeses quer entre os citadinos. O arquitecto de tamanha miséria controlava todos os aspectos da vida da população, mas nunca admitiu a responsabilidade pelos seus sofrimentos, ou que alguém morrera sem ser por boas razões. O terror era o instrumento principal da ditadura de Pol Pot, que procurava liquidar o mais rapidamente possível todos os oficiais e homens comuns alistados no exército de Lon Nol, os burocratas do anterior regime, os proprietários de terra, os comerciantes, os operários qualificados, os profissionais educados no Ocidente e os monges budistas.

O aspecto verdadeiramente extraordinário da revolução de Pol Pot foi a rigidez com que aplicaram na prática princípios políticos abstractos, sem qualquer preocupação pelos terríveis custos que isso teria para o Camboja, em termos de isolamento diplomático, devastação económica e sofrimento humano. Outros revolucionários discutiram o assunto longamente, mas foram sempre obrigados à moderação pelas responsabilidades do poder. O alcance e o literalismo com que Pol Pot perseguiu os seus objectivos de total soberania e de autoconfiança, tornaram-no um caso único. Os líderes dos Khmers Vermelhos viviam no seu próprio mundo de sonhos, no qual o elemento humano era quase totalmente esquecido. Aquilo que eles viam como uma organização económica racional talvez fizesse sentido no isolamento da floresta, mas enquanto política operativa era cruel e irrealista.

Com o país fechado ao estrangeiro, o mundo ignorava ditosamente o que se estava a passar - ou simulava ignorar, por razões de conveniência política. Os refugiados que conseguiam chegar aos países vizinhos contavam histórias de horrores inacreditáveis. Não tendo quaisquer relações diplomáticas, nem possibilidades de viajar e sem um serviço de correios, a nação do Kampuchea era um campo militar impenetrável, perpetrando o genocídio do seu próprio povo. Quando as Nações Unidas convocaram um debate, os ministros de Pol Pot responderam lamentando não dispor de ninguém com tempo suficiente para estar presente.

No entanto, dois jornalistas (Elisabeth Becker foi um deles) conseguiram entrar no Camboja em 1978. Acompanhados por Malcolm Caldwell, um académico inglês, encontraram-se com Pol Pot que começou por lhes dar uma prelecção acerca das maravilhas das suas experiências no Kampuchea. Nessa noite, o encontro com Pol Pot transformar-se-ia num pesadelo inesquecível. Ouvindo tiros no quarto de Malcolm Caldwel, Elisabeth subiu as escadas e deparou com o seu corpo repleto de buracos de balas. Ainda hoje não compreende por que razão ele foi morto e ela não.

Enquanto os filmes de propaganda projectavam um país no auge do bem-estar, Pol Pot tinha exterminado a maioria dos seus inimigos e dizimado o velho sistema. Dirigiu então a sua atenção aos inimigos dentro do próprio governo. Quando assumiu o governo, em 1975, havia 22 membros do comité central do Partido Comunista. No fim do seu reinado - três anos, oito meses e 20 dias mais tarde - 18 deles tinham sido executados. Os assassínios perpetrados pelo governo dos Khmers Vermelhos eram, na verdade, tão sistemáticos, que se tornou necessária uma imensa burocracia para eliminar os suspeitos, reais ou imaginários opositores da transformação da sociedade do Kampuchea. O centro nevrálgico da organização de purgas era o Santebal, ou departamento especial.






Localização do Cambodja


Numa antiga escola de Phnom Penh, Pol Pot instalou a famosa prisão de Tuol Sleng, ou S-21, que funcionava como centro de extermínio no eixo de um sistema nacional de detenção, interrogatório, tortura e execução. Inicialmente destinada aos interrogatórios dos contra-revolucionários, mais de 20 000 pessoas foram aí torturadas e executadas sob acusações forjadas de espionagem para a KGB ou para a CIA, ou simplesmente porque conheciam alguém que tinha sido preso anteriormente. Homens, mulheres e crianças eram presos e quase todos torturados até confessarem qualquer coisa que lhes dissessem para confessar. Das 4000 pessoas que entraram na S-21, apenas 7 sobreviveram e 1 foi libertada - os restantes foram enterrados no campo de morte da prisão, Cheung Ek, onde foram até agora contados 8000 crânios.

Todos os que eram levados para a S-21 foram fotografados e os seus crimes eram meticulosamente registados. Os Khmers Vermelhos desenvolveram os seus próprios códigos de registo criminal e do destino dos prisioneiros. A prisão comportava cerca de 1500 prisioneiros. A ideologia subjacente ao local era a de que o partido nunca se enganava. Se as pessoas eram presas, eram culpadas - a palavra cambojana para prisioneiro não significa detido mas sim culpado.

Um pequeno bloco de notas rectangular encontrado numa casa perto de Tuol Sleng continha 500 páginas escritas, descrevendo as «experiências humanas» em 17 prisioneiros. Deuch, o director da S-21, registou os efeitos de retalhar o estômago de uma rapariga, depois colocada dentro de água para ver quanto tempo flutuaria. Foram registados idênticos pormenores para «quatro jovens golpeados na garganta». Um dos problemas que repetidamente emerge dos ficheiros encontrados é o de que a tortura se tornava demasiado indiscriminada e os prisioneiros morriam antes de se poder recolher a informação, o que representava uma «perda de conhecimento». Com os opositores de classe e políticos fora do caminho, Pol Pot, motivado pelo racismo que era parte integrante da sua agenda, voltou as suas atenções para as minorias étnicas do Camboja. Pol Pot acreditava que só existia uma raça pura: os Khmers, originários do Baixo Camboja. Os chineses eram provavelmente a mais numerosa minoria étnica do Camboja e metade deles pereceram sob o regime de Pol Pot. Os Chams e os muçulmanos era um alvo imediato e intensamente massacrado. Mas a perseguição mais cruel foi a movida aos vietnamitas do Kampuchea. Os Khmers Vermelhos tinham vindo a eliminar os vietnamitas desde 1970, mas agora, falar ou parecer vietnamita tornara-se um crime punido com a morte. Os homens do Kampuchea casados com vietnamitas receberam instruções para matar as mulheres, sob pena de serem eles mesmos executados. Mais de 20 000 pessoas de origem vietnamita perderam a vida. O próprio secretário de Pol Pot para a zona norte, Kang Chap, foi instruído para matar a mulher, que era meia-vietnamita. Fez o que lhe fora ordenado.

Os Khmers Vermelhos glorificaram publicamente a violência revolucionária e o sangue derramado, celebrando-os nos documentos oficiais. O sangue derramado pela revolução tornou-se um símbolo de santidade. Praticamente todas as palavras do hino nacional o mencionavam. Era como se os revolucionários estivessem a aproveitar o lado mais negro e violento do carácter nacional para dar legitimidade aos seus actos deploráveis.

Em finais de 1978, com as execuções e a fome no auge e com o regime de Pol Pot aparentemente invencível, o governo iniciou um processo de autodestruição. Obtendo informação apenas das suas forças de segurança, o partido caiu nas garras da contra-espionagem, consumindo-se como consumira o povo do Camboja. Não havia quaisquer instituições nacionais que pudessem fiscalizar a autoridade do partido. A oposição tinha sido completamente dizimada. Agora, o ódio psicótico e eterno de Pol Pot aos vietnamitas seria a causa da sua destruição.


Museu do Genocídio Tuol Sleng em Phnom Penh, capital do Camboja. Tuol Sleng significa, em khmer, "Montanha das Árvores Venenosas".


Centro de Interrogatório, onde actualmente funciona o Museu do Genocídio Tuol Sleng.








Depois de uma série de confrontações violentas nas fronteiras com o Vietname, 150 000 soldados vietnamitas atravessaram as fronteiras do Kampuchea e, a 6 de Janeiro, estavam às portas de Phnom Penh. As contínuas purgas levadas a cabo por Pol Pot tinham quebrado os laços de comando entre os oficiais e os subalternos e destruído a moral tanto do exército como do partido. Os acusados de traidores que na verdade não o eram, não sabiam o que fazer, se morrer em nome do partido, se fugir. Mas o povo cambojano sabia o que fazer - deram as boas-vindas aos vietnamitas, de braços abertos e com gritos de alegria. Ironicamente, três vietnamitas cambojanos que tinham escapado às purgas, Heng Samrin, Chea Sim e Ros Samay, seriam em breve chefes do governo que substituía Pol Pot.

Pol Pot e os seus homens fortes fugiram para o norte do Camboja e para a Tailândia e o odiado director da S-21, Deuch, evadiu-se uma hora antes da captura planeada. Os Khmers Vermelhos foram expulsos da capital pela invasão vietnamita 44 meses após a conquista de Phnom Penh. O período intermédio, testemunhara a maior perda de vidas numa única nação no século XX. Em busca do «comunismo puro», os Khmers Vermelhos reduziram uma economia dizimada pela guerra mas tradicionalmente com boa capacidade de recuperação, a uma economia quase sem qualquer perspectiva de regeneração. As normas de vida draconiana de Pol Pot transformaram a nação num imenso gulag.

Pol Pot fugiu com os seus auxiliares num Mercedes branco e depois de helicóptero, enquanto milhares de outros quadros dos Khmers Vermelhos abandonavam também um Camboja devastado. Continuou a lutar a partir da sua base nas montanhas, rodeado dos seus fiéis seguidores, e formou a Frente Khmer de Libertação dos Povos, divulgando um manifesto hipócrita que prometia liberdade religiosa e política. Passariam 20 anos antes de Pol Pot voltar a ser visto, mas dessa vez seria em tribunal.

Os Khmers Vermelhos acabaram por se voltar contra o seu líder. Prenderam-no, não por crimes de genocídio ou crimes contra a humanidade, mas por ser um inimigo político. Numa entrevista conduzida por Nate Thayer pouco antes da sua morte, Pol Pot recusou-se a dizer se estava arrependido de ter causado a morte a tantos inocentes, afirmando que os erros cometidos pelo regime tinham sido principalmente na implementação de políticas. Duas semanas mais tarde, em Abril de 1998, Pol Pot morreu de causas naturais.

Os seus camaradas de genocídio ainda não tinham sido levados a julgamento 12 anos após a sua morte. Grandes valas comuns tinham sido descobertas por todo o território do Camboja, principalmente em áreas isoladas. Os crânios foram recolhidos e empilhados num recinto cercado, para que todos se recordassem da maldade de Pol Pot. A recolha de provas continua, conduzida por um tribunal apoiado pelas Nações Unidas, mas os progressos têm sido poucos em virtude de os operacionais dos Khmers Vermelhos ocuparem postos no novo governo cambojano. Quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ieng Sari, admitiu, finalmente, as mortes de três milhões de pessoas durante o regime dos Khmeres Vermelhos, afirmou que Pol Pot tinha sido incompreendido e que os massacres tinham sido «um engano» (in Os Grandes Monstros da História, Editorial Estampa, 2002, pp. 249-264).


Cercas de arame farpado colocadas por oficiais do Khmer Rouge em 1975, ainda permanecentes no local.




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