domingo, 19 de janeiro de 2014

Arte de espectador

Escrito por Orlando Vitorino




Monte Olimpo


«Os homens não suportam a tragédia. O que o teatro representa é o que os homens fazem para fugir à representação que torna manifesta e real a tragédia que no humano pavor e no humano medo está suspensa.

O teatro nasceu da tragédia, é certo. Mas os homens sempre souberam que não têm forças para enfrentar os conflitos irredutíveis, as contradições insolúveis e os combates sem fim. Por isso a tragédia ficou limitada aos deuses. Aos deuses, quer dizer: àqueles em quem a consciência que sabe se não distingue da vontade que age, em quem pensar e ser são o mesmo. Os deuses podem suportar a tragédia porque no puro espírito não há tempo e tudo é simultaneamente origem e termo, princípio e fim. Ora os homens não são eternos, e, o espírito de que vivem, vivem-no no tempo que passa.


Os homens deixaram-na, pois, aos deuses, e a tragédia passou a ser a forma da religião ou do espírito religioso. Para eles ficou apenas aquilo que pode considerar-se, não já uma concepção da tragédia, mas se tanto um sentido ou um sentimento trágico multiplicado em tantas referências quantos os domínios onde o tempo decorre sem fim: a história, a natureza, a vida, por exemplo. Mas logo aí a tragédia assomou inteira. Os dominios onde o tempo decorre sem fim são os domínios da olímpica, da perfeita indiferença. Neles se erguem e arruinam, se fazem e desfazem, se compõem e dissolvem, segundo um processo interminável, as formas e imagens a que os homens dão realidade.


Assim, aos homens ficou, por fim, apenas o teatro, com tudo o que fazem, inventam, fingem, escondem, falseiam, mentem para escapar à tragédia sobre eles sempre suspensa até na quotidiana rotina do ir vivendo e que, por sua natureza, não podem suportar. Aos homens ficou o teatro, sobretudo, para guardar aquele secreto refúgio que, no profundo íntimo da consciência e da subjectividade, eles sabem único, singular, irredutível».


Orlando Vitorino («Discurso sobre o que o teatro é»).




Orlando Vitorino



Arte de espectador

Arte de espectador é uma arte não sabemos se tão difícil, se mais difícil do que a arte de ser actor ou dramaturgo.

A história do teatro é composta de períodos de decadência entre os quais se intercalam breves momentos sublimes e exemplares. Segundo a arte da dissimulação – que é social e não teatral – dá-se à decadência constante do teatro o nome de crise. No século de Aristófanes e Eurípides, Aristóteles deixou-nos notícia da crise do teatro. Diremos, então, que nem sequer há, entre os períodos da decadência, aqueles breves, sublimes e exemplares momentos. O que há, aquilo de que todo o teatro vive, será a referência a um modelo sublime mas inatingível. É a distância intransponível do modelo que constitui a decadência do teatro. E acontece que em sua natureza ou essência ou fonte inesgotável, o teatro tem a representação dessa distância na separação entre a máscara e o rosto, entre o actor e o agente, entre os homens e os deuses.

De uma outra decadência, vazia e sem sentido, falam todavia os políticos opiniosos, os jornalistas e escritores de má morte. Põem a decadência no que separa o ontem e o hoje. Ora entre o ontem e o hoje, não há, no teatro, decadência nenhuma. O que há e sempre houve, mas nunca com tanto poder e aleivosia como hoje, é gente opiniosa, mandante e de má morte que não sabe ver o teatro. E em nossos dias, aqui, em Lisboa, haverá gente que não seja opiniosa, mandante e de má morte e que se põe a falar de teatro?



Arthur Miller, Marilyn Monroe (ver aqui) e Sir Lawrence Olivier em Londres.


O teatro só é daqui. Não nos venham com a balela dos que viram teatro em Londres e Paris e, aí, sim! Aí, eles sentavam-se diante dos gestos de Sir Lawrence Olivier mais provincianos do que os alentejanos sentados diante dos gestos da Florbela ou mais cosmopolitas do que um secretário de embaixada sentado diante de coisa nenhuma como se estivesse sentado diante do mundo. Ora o espectador tem de se sentar na sua cadeira como um rei se senta no trono. Foi Goethe quem o disse, e é mesmo assim.

O teatro também não é, como os opiniosos pensam que se deve pensar, uma arte para o povo, uma arte para toda a gente. Muito ao invés, é uma arte para reis, uma arte para minorias extremamente aristocratizadas. É muito mais árduo chegar a ser espectador de teatro, chegar a adquirir a aristocracia e a realeza do teatro, do que chegar a ser o actor que vem ao palco fazer as piruetas que nada significam. Foi Shakespeare quem o disse e nós sabemos que é mesmo assim.

Fora do Parque Mayer, não há em Portugal espectadores de teatro. Onde não há espectadores, não há, necessariamente, actores. E sem actores não há teatro porque o teatro – como disse o Ernesto Palma – é o que o actor faz.

O que para aí há é gente que vai a umas tantas salas com palcos levada pela idiota convicção de que ver teatro é um acto de cultura e que um acto de cultura é um dever de todo o bom progressista. Há, depois, é uns tantos mandantes ou mandarins de outras tantas instituições de políticas e outras, que não vão ao teatro mas dão subsídios, bolsas e escolas sem nada dentro aos actores das piruetas de que nada fica, e têm agora o nome de «expressões corporais», para eles fazerem teatro para as maiorias.

Não se trata de uma catástrofe nem sequer de uma eficaz barbárie, porque o teatro, como dizia José Marinho, sabe defender-se bem (in Ensaio, revista de cultura e opinião, n.º 1, Dezembro de 1980).


Parque Mayer


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