sábado, 19 de outubro de 2013

Portugal e o Hemisfério Ocidental (iv)

Escrito por Franco Nogueira






«... logo após a invasão japonesa, e depois de acrescentado o protesto, Salazar procura negociar com Tóquio a retirada das forças nipónicas. Argumenta o gabinete japonês, porém, que não pode satisfazer Lisboa enquanto no interior das montanhas timorenses vaguearem grupos armados de holandeses e australianos. E então Salazar dá ordem à expedição militar portuguesa para se dirigir a Colombo, no Ceilão, e aí aguardar ulteriores directivas, e destas resulta a ida posterior para Mormugão.

Na mesma altura, a 4 de Março de 1942, Salazar recebe Campbell. Este torna ao problema político-militar da evacuação do governo português em caso de emergência. Mas de algum modo a evolução da guerra - envolvimento alemão na campanha da Rússia, extensão do conflito ao Extremo Oriente, entrada dos Estados Unidos - parecia dar menor acuidade à hipótese. Por outro lado, com o apoio americano intensifica-se o bloqueio inglês, e Portugal sente-se mais afectado; e por sua parte a Inglaterra encara com irritação crescente os fornecimentos de volfrâmio à Alemanha, que há por exagerados. Aumentam os embaraços portugueses no abastecimento de alguns géneros e matérias-primas, e para tentar uma solução é enviado a Londres Tomaz Fernandes, consultor económico dos Estrangeiros; mas não se mostram compreensivas as autoridades britânicas. E então, ao serem debatidos estes assuntos, põe-se áspera a entrevista entre Salazar e Campbell. Depois, Salazar alude a um aspecto do plano de evacuação: o das destruições a fazer no continente, no caso de invasão por forças hostis. Ora a polícia portuguesa, diz Salazar a Campbell, descobrira uma organização secreta, dirigida e financiada por ingleses, que se propunha também fazer aquelas destruições, mas em bases mais extensas do que as do plano oficial. "Era inútil sublinhar que o governo português não estava disposto a trabalhar em tais termos; era preciso que o governo inglês acabasse por escolher entre o governo português e a actividade secreta conduzida por ingleses conchavados com alguns portugueses". E acentua o chefe do governo: "no caso de o governo inglês preferir a actividade dos seus organismos secretos, o governo português recusa-se a mais negociações do género com o governo britânico; e este apenas contará com as suas forças ocultas, é evidente, só enquanto a polícia não conseguir desmanchar as suas maquinações". Campbell reconhece a existência da organização secreta; mas afirma que já dissera para Londres dever a mesma ser desmantelada. Salazar não comenta....

(...) Salazar concede uma entrevista ao Temps, de Paris, que destaca algumas afirmações: "não vemos na solidariedade russo-anglo-americana, tal como é hoje afirmada, um elemento muito tranquilizador para os povos que deverão adaptar-se à nova ordem europeia"; e "estamos decididos a nunca admitir que a autoridade do Estado ignore os direitos da consciência ou que o Estado absorva toda a vida da Nação".

(...) Entretanto, Roosevelt e Churchill reúnem-se em Casablanca, e aí discutem o uso dos Açores; e no seu regresso a Washington o presidente americano passa pelo Brasil, encontra-se com Getúlio Vargas, e sugere a este a ocupação do arquipélago por tropas brasileiras. Conhecedor do facto, o Foreign Office reage; lembra as garantias dadas, por ocasião do desembarque na África do Norte, de que seriam respeitados o território português metropolitano e ultramarino; e recorda que na altura Roosevelt e Churchill haviam felicitado Salazar por manter a neutralidade da Península.

FDR e Winston Churchill em Casablanca (14 a 24 de Janeiro de 1943).

(...) Em carta de fins de Maio, dirigida ao Foreign Office, Campbell transmite um relatório do seu adido de imprensa Marcus Cheke, em que este escreve: "Os políticos portugueses, cuja preocupação absorvente é o ódio aos seus rivais (cada facção persegue baixamente a outra sempre que pode), têm o hábito inveterado de fortalecerem a sua posição ligando-se à direita ou à esquerda em outros países". E mais adiante: "para a mentalidade inglesa, é inconcebível que os resultados de uma eleição geral (na Inglaterra) devam depender de acontecimentos em Paris, Nova York ou Pequim. Mas os portugueses consideram tais ligações como coisa natural"».

Franco Nogueira («Salazar», III, «As grandes crises», 1936-1945).


«...Clausewitz falara de "alguma coisa de vaporoso e de fluído [que] não se deve concentrar em parte alguma de um corpo sólido", embora sendo capaz de atingir as bases do exército inimigo "qual combustão lenta e gradual" [De la guerre, Ed. de Minuit, 1955, II Parte, cap. 26, pp. 552]. De igual modo, o coronel Lawrence, campeão da guerra do deserto e grande amigo de Churchill, tinha preconizado que se recorresse a uma força inapreensível, invulnerável, sem frente nem retaguarda, capaz de se espalhar por toda a parte, à maneira de um gás.

(...) Qualificada como "quarta arma", ao lado do exército, da marinha e da aviação, por Hugh Dalton, ministro encarregado de coordenar esta luta heterodoxa, a "guerra da sombra" encontrou um campo de eleição no decorrer da II Guerra Mundial. Dois factores para isso contribuíram largamente: por um lado, a natureza ideológica e política do conflito; por outro, as novas possibilidades técnicas oferecidas pela rádio e pela aviação, o que permite atravessar impunemente o espaço dominado pelo inimigo, e estabelecer ligações regulares entre agentes internos e aliados externos.

Ao mesmo tempo, o combate assume uma tonalidade cada vez mais multiforme, alternada ou em simultâneo militar, política, ideológica ou social, tanto mais que, no campo da resistência interna, depressa se passa da luta contra o ocupante à vontade de transformar, depois da guerra, as estruturas da sociedade e do Estado. Isto não vai deixar de levantar problemas espinhosos ao primeiro-ministro, iniciador e campeão desta subversão armada, mas ao mesmo tempo de espírito profundamente conservador. É assim que a pequena guerra se articula com a grande guerra, no coração da geoestratégia mundial».

François Bédarida («Winston Churchill»).


«A grande crise  da Europa é não saber conservar a paz dentro de si mesma. Tem ainda o primado da ciência, da literatura, das artes, possui os segredos da técnica; sabe organizar o trabalho, mas não sabe ter paz. A origem do seu mal não reside propriamente na densidade da população, no esgotamento do solo ou do subsolo, na estreiteza das terras ocupadas, mas numa doença do espírito. E, como a antiga Roma, em certo momento da sua decadência, parece já "não suportar nem os males nem os remédios".

Gladiadores na antiga Roma

A força essencial à vida das sociedades não é a última ratio, é a primeira; dela deriva a moral, o direito, a organização social; e nestes termos já não assegura a paz, gera a guerra. Ou a fazer a guerra ou a armar-se para ela, a Europa, apesar de intenso trabalho e duras restrições, empobrece enormemente: divisa-se a crescente proletarização das nações europeias e diante da hipertrofia do Estado que, a título da defesa colectiva, concentra em si toda a riqueza e poder, os homens limitam-se a esperar, em troca de trabalho servil, o suficiente para as necessidades fundamentais da vida. Mas neste extremo tem desaparecido aquela parcela de liberdade e dignidade humana que nós teimamos em crer essenciais à vida civilizada.

O definhamento da economia como a diminuição moral do europeu põem sem sério risco a resistência da Europa perante eventualidades que podem não ser meras criações do espírito, pois é frágil e precária a força dos Estados - pese o facto embora às imaginações exaltadas que deliram ante as vitórias e as conquistas. A força dos Estados depende da sorte vária das batalhas; para além disso o que vale e conta é a organização da vida e a força moral dos povos, se pelos mesmos princípios de morte não tiverem sido ainda destruídos.

Para haver paz não é suficiente a arrumação étnica das populações, nem os acordos económicos, nem a segurança natural das fronteiras. Tampouco a alcançam as combinações diplomáticas que não se baseiam na coexistência de interesses reais, nem as criações artificiosas da política, nem a teimosia de sustentar contra a pressão da vida o que nem a história nem a geografia se encarregaram de consagrar e manter. A paz é sobretudo uma criação do espírito, fruto da força que se limita, isto é, da consciência que sabe distinguir e respeitar a linha de separação do direito próprio e alheio e até sacrificar o seu interesse a interesse maior que lhe é estranho.

Claustro do Mosteiro da Batalha

Crise europeia, crise do espírito; crise do espírito, crise de civilização. No seio da Europa gerou-se uma civilização especificamente sua, que é a civilização latina e cristã. À sombra desta se formaram espiritualmente todas as nações da Europa e da América e do seu influxo muitas outras beneficiaram em diversas partes do mundo. Se nessa herança moral, que é a nossa, há princípios eternos de verdade e de vida social, reputamos do nosso dever gritar a fidelidade a esses princípios: tanto mais quanto mais esquecidos e violados; tanto mais justificadamente quanto anda alarmado o mundo e perplexa a consciência dos povos que se interrogam ansiosos sobre se haverá ainda, no meio desta derrocada, lugar à verdade, à honra, à justiça, à legitimidade do direito, ao bem comum dos homens e das nações. Nem nós podemos crer - e bastas vezes o temos afirmado - que uma nação como a Rússia, que exactamente renegou desses princípios seja quem vem - piedoso cireneu - ajudar a restabelecê-los na Europa ocidental...».

Oliveira Salazar («A Europa em Guerra. Repercussão nos Problemas Nacionais», in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943. Na Assembleia Nacional, em 9 de Outubro de 1939, durante a sessão em que a Câmara se congratulou pelo êxito da viagem do Chefe do Estado às terras portuguesas de África).




Portugal e o Hemisfério Ocidental

Demora-se Salazar na Beira menos do que o seu habitual, e na segunda quinzena de Setembro está de regresso a Lisboa. Há agora uma pausa nas conversações com a Inglaterra. Para mais, antes de responder aos comentários de Monteiro e à diligência britânica, Salazar pondera de novo a situação com Santos Costa e Teixeira Sampaio. E tem de acolher em Lisboa visitantes que de propósito aqui se deslocam para o ouvir. Recebe antes, porém, o embaixador de Espanha, em 18 daquele mês. Nicolau Franco garante a Salazar não haver qualquer modificação na política externa espanhola: nenhuma pressão fora exercida pelas potências do Eixo no sentido da entrada da Espanha na guerra, do ataque a Gibraltar ou da passagem por território espanhol de forças para o Norte de África. Salazar pergunta: «tem o generalíssimo esperanças de manter a Espanha até ao fim alheia ao conflito?». Franco responde afirmativamente. Por seu lado, Salazar faz uma síntese da situação portuguesa, e nega os rumores em curso quanto às ilhas portuguesas; mas não esconde ao embaixador que a sua preocupação se centra agora sobre Gibraltar cuja «inutilização obrigaria os ingleses a servirem-se de outra ou outras, e essa ou essas talvez não pudessem deixar de ser portuguesas». Paralelamente, Pedro Theotónio acha Serrano Suñer desorientado, e julga que a sua influência junto do General Franco está ultrapassada. Depois Salazar recebe Lord Barnby, «a quem pude dar meia hora», e que é um entusiasta de Portugal, e vivo defensor em Inglaterra da política de Lisboa. E vem Myron Taylor, alto representante pessoal de Roosevelt na Santa Sé. Taylor mantém reserva sobre as suas diligências junto de Pio XII; não sente dúvidas da vitória final da Inglaterra; faz numerosas perguntas sobre a campanha russa; prevê a organização futura dos Estados Unidos da Europa; e afirma a Salazar que este, graças ao seu prestígio no mundo, poderia desempenhar o papel de relevo na feitura da paz.

Papa Pio XII

E agradece a Salazar a oferta da edição inglesa dos seus discursos, que aquele mandara entregar no hotel de Taylor. E acompanhado de Campbell vem Lord Halifax, desajeitado e negligente, patrício e lúcido. Enquanto secretário de Estado, Halifax trocara com Salazar numerosas mensagens, e ficara com alto respeito pelo chefe do governo português: mas os dois homens não se haviam encontrado. Halifax abre-se sobre os Estados Unidos: não receia o imperialismo americano, nem a intervenção deste nos negócios europeus, que serão guiados pela mão da Inglaterra; e afirma a sua fé no puro desinteresse americano, no seu idealismo, no seu fundo cristão. Salazar escuta, e depois comenta: «não contrariei abertamente as suas opiniões, mas informei-o lealmente, quando solicitado, do que sabemos em matéria de facto». Hallifax oferece os seus bons ofícios em Washington, para pretensões de Portugal junto do governo americano.

Depois de reflectir, Salazar responde aos argumentos e às sugestões de Armindo Monteiro. Em 30 de Setembro de 1941, envia a este um despacho extenso, e firme. Parte de um princípio: o problema político máximo é o da retirada do Governo para os Açores e perda da neutralidade portuguesa. Mas antes deste ocupa-se Salazar de um outro: as destruições que a Inglaterra deseja ver realizadas em Portugal no caso de invasão por forças alemãs ou espanholas. Há «que moderar e reduzir até ao razoável a tendência inglesa para a destruição em massa de tudo o que possa ser utilizado pelo inimigo». Não podendo no momento lançar-se na ofensiva, a Grã-Bretanha tem por táctica levantar «obstáculos à vida e força da Alemanha»: «tudo o que leve as populações a viver mal, a sentir-se mal, a odiar os causadores das suas desgraças - e a Inglaterra parte do princípio de que a responsabilidade de tudo será no espírito das vítimas atribuído à Alemanha - é útil à vitória inglesa». Ora «nós não podemos aderir a este modo de ver, e temos por assente que só deverá ser destruído o que tenha influência directa na condução da guerra, por parte do inimigo, contra nós próprios ou os nossos aliados». E isso porque o ocupante improvisa em poucas horas as soluções que lhe bastam, mas «as ruínas ficam para ser reparadas, se o forem, pelos naturais. (Ainda temos pontes destruídas quando das invasões francesas)».


Oliveira Salazar

Neste ponto, Salazar informa Monteiro de que agentes ingleses, actuando clandestinamente, procuram com elementos portugueses e estrangeiros duvidosos montar em Portugal um serviço de destruição; os oficiais ingleses Beevor e Everett, adidos à Embaixada, são os organizadores e dirigentes; mas a polícia tem conhecimento de rede, e até está a fingir colaborar para assim dominar uma estrutura que, se deixada livre, poderia constituir perigo para a segurança do país. Salazar entra no problema central. Quanto ao último memorial inglês, de 6 de Setembro, «confesso que me impressionou muito mal, pela sua falta de rectidão e de sinceridade». Salazar não tem conhecimento dos despachos de Campbell em que este informa o Foreign Office de que administrou uma primeira dose, cabendo a Londres administrar uma segunda dose, ficando para a embaixada em Lisboa a terceira dose, e assim por diante até se atingirem os objectivos. Ignora esta técnica de Campbell, decerto. Não obstante, diz a Monteiro: «parece-me ser justo ao afirmar que o intuito do governo inglês é fazer escorregar Portugal por um plano inclinado, da neutralidade para a guerra, sem de tal assumir a responsabilidade, antes pretendendo se entenda que o País o faz por sua iniciativa e quase exclusivo interesse, e mesmo que para isso não haja razões visíveis da parte dos seus futuros inimigos». E com vigor sem peias afirma: «Seja qual for a evolução dos acontecimentos e a orientação que estes imponham ao nosso país, temos de destruir esta posição, não deixando dela uma pedra. Esquecendo por sistema os factos e a sua verdadeira sucessão, o governo ou as autoridades britânicas invertem posições fundamentais, de modo que os próprios serviços que nos pediram e lhes prestámos são a maior razão de outros sacrifícios que pretendem impor-nos. Nós não aceitamos a questão em tais bases». Salazar recapitula os passos maiores das conversas luso-britânicas, e sintetiza o estado actual: «o governo britânico, porque parece não bastar aos seus interesses o governo (português) abandonar o continente quando atacado, procura (memorando de 5 de Setembro) identificar ameaça com ataque, recusa-se a admitir a possibilidade e probabilidade da coexistência da beligerância espanhola e da neutralidade portuguesa para manter a sua posição de que o governo (português) deve abandonar o continente logo que a Espanha saia da mão da não-beligerância; e, não sendo isso bastante, faz coincidir esse acto et pour cause com a perda da neutralidade portuguesa». Ora o problema é apenas este: «No caso de Portugal ser atacado pela Alemanha, pela Espanha ou por forças de ambas estas nações, como entende o governo de Sua Majestade fazer funcionar os tratados de aliança?». Porque, com efeito, «não se trata de saber se Portugal deve ou não entrar nesta guerra ou se o fará por acto seu, mas de definir a atitude a tomar e actos consequentes na hipótese de um ataque inimigo». Sob o aspecto político-jurídico, a Nação Portuguesa e em seu nome o governo entendem que é do seu direito e do seu dever reagir contra todo o acto que atente contra a integridade territorial ou soberania efectiva, ou ofenda a dignidade nacional; esta posição não depende da atitude da Inglaterra; e implica a não submissão do governo a invasor ou ocupante, pelo que os actuais detentores do poder deixarão de ser governo no momento em que se lhes sobreponha uma autoridade de facto inimiga. Sob o aspecto de política externa, Portugal, aliado da Inglaterra, não se considera por esse facto aliado de qualquer outra potência com que a Grã-Bretanha esteja aliada ou associada, nem se lhe estendem automaticamente os compromissos que a sua aliada haja tomado com terceiras potências. Sob o aspecto do provável encadeamento dos factos, qualquer ataque ao continente português produzir-se-á em função da hostilidade contra a Inglaterra e não contra Portugal, ainda que aquele seja conduzido isoladamente pela Espanha, pois que esta, nas circunstâncias actuais, actuará de concerto com inimigos da Grã-Bretanha e não de Portugal. Finalmente, sob o aspecto moral e de política interna, a nação não compreenderá que a perda de neutralidade seja acto espontâneo do governo, ou constitua objectivo de política nacional, muito embora perante a agressão da Alemanha ou da Espanha seja de contar com a unidade nacional suficiente no País para se fazer face à situação.

Londres

A tudo contrapõe o gabinete de Londres, observa Salazar, outra construção: atacado Gibraltar pela Espanha, Portugal considera-se a si próprio ameaçado e transfere os orgãos de soberania para os Açores; essa transferência pratica-se sob a protecção da esquadra britânica; por este facto Portugal perde a sua neutralidade; e porque a perdeu coloca as bases portuguesas ao dispor da esquadra britânica. «Assim, o ataque da Espanha a Gibraltar traduziria jurídica e praticamente o fim da neutralidade portuguesa; Portugal entraria na guerra por acto seu; e a esquadra britânica estaria em bases portuguesas para defender Portugal em nome da aliança». Mas «nós não aceitamos o problema posto nestas bases»; e «não aceitamos sobretudo a imensa tragédia da guerra no nosso território e para o nosso povo, tendo a Inglaterra o ar de quem presta com desinteresse o seu auxílio num passo difícil que deliberadamente nos aprestámos a dar». Pode a Grã-Bretanha praticar um acto de força, como sugere e receia Monteiro? Pode: «facilmente se absolvem ou esquecem os pecados das grandes potências»: mas «este não o cometeria a Inglaterra sem abalo violento na consciência do Mundo»:  e a «minha conclusão é que a Inglaterra deve querer fugir ao acto de força e ver-se-á obrigada a negociar» e a «pôr claramente a questão da nossa entrada na guerra a seu pedido, para seu interesse, por força das suas necessidades». Na verdade, os factos são: a aliança é defensiva e nesta guerra a Grã-Bretanha é juridicamente a agressora; a Portugal é reconhecido o direito de ajuizar do casus foederis; não estão em jogo interesses portugueses mas apenas britânicos. E Salazar é então brutal na sua crueza, inabalável na sua resolução: «Devemos deixar ao governo inglês defender ele os seus interesses, não permitindo os confunda com os nossos, senão na parte em que podem ser solidários. É preciso ser firme, intransigente, nesta parte; a História seria severa em julgar-nos se o não fôssemos». E lança uma frase que é um doesto a Monteiro: «as expressões mais ou menos veladas ou fortes dos memorandos não me comovem pessoalmente e, sobretudo, não são suficientes para levar o governo a sacrificar o país». Conclui com um apelo a Monteiro, e também com uma ordem que é sarcasmo: «V. Exª conhece tão profundamente a questão e os interesses do País que, à parte nos naturais escolhos das negociações, não terá dificuldade em considerar-se fiel intérprete do pensamento do governo».

Salazar sente que Ronald Campbell, com o apoio do Foreign Office, pretende tolhê-lo na tenaz de um enredo em que fique manietado: e então rompe, rasga, corta cerce e a direito, sem se entibiar nem tergiversar. Afrontara a Rússia durante o conflito de Espanha. Partidário da aliança inglesa, afronta agora o Império Britânico quando este menoscaba a sua inteligência e a sua vontade, e quando além disso se propõe pisar interesses portugueses. Sem prejuízo de uma impávida serenidade exterior, há um agastamento íntimo, uma cólera fria, um ranger de nervos abafado. Esta atitude de espírito é agravada pela actuação dos ingleses no interior de Portugal: enquanto a embaixada trabalha com o governo, os agentes da Intelligence Service trabalham com «as oposições, que, no pensar inglês, são governos de amanhã». Trata-se de comportamento habitual das grandes potências, aliás, e «não vejo que esta regra sofra excepção no nosso caso». Para Salazar, os ingleses «continuam a ter na cabeça tantas ideias de liberalismo, com que pretendem beneficiar a Europa», e «muito dificilmente distinguem as amizades britânicas ou anglófilas da especulação política de alguns maus elementos portugueses que, embora nos últimos tempos com mais prudência, continuam a acarinhar». Tudo isto não «os acredita nem como psicólogos nem como atentos observadores» e «ocasiões tem havido em que estes homens da liberdade se têm revelado mais intolerantes que os representantes do Reich». Mas no momento os agentes britânicos procedem com algum exagero. Mesmo Armindo Monteiro comentava: «quere-me parecer que querem intimidar-nos ou realmente esta gente convenceu-se de que o governo actual está moribundo, sendo inconveniente comprometerem-se com ele»: e «chego a pensar se haveria vantagem em pequena retaliação contra esta atitude».




Naquele estado de ânimo, Salazar recebe Sir Ronald Campbell em 4 de Outubro. Campbell é distinto, profissional de alta estirpe, de apuro cortês até ao meticuloso; mas a sua  mentalidade imperial, vitoriana, parece sucumbir ao peso de Palmerston e Disrael. Salazar trata agora o enviado britânico com ironia, e mal oculto desdém. Campbel mostra-se optimista com a situação militar. Salazar sorri, e observa: «não estranho o estado de espírito inglês, desde que verifico ser este orientado no sentido de contar como vitórias suas algumas vitórias que, no seu entender, o inimigo almejara e não conseguira». Tenta Campbell discutir o problema magno pendente entre os dois governos, e puxa de meia dúzia de folhas de papel. Salazar atalha: Londres teria de compreender «ser absolutamente impossível fazer negociações nas duas capitais ao mesmo tempo». Campbell «recolheu as suas notas». Então o embaixador queixa-se da polícia portuguesa, que acusa de estar infiltrada pelos alemães, e apresenta alguns casos de embaraços suscitados por aquela. «Pacientemente expliquei ao embaixador que ia resolver as dificuldades». Campbell insiste. Salazar ri-se, e diz ao enviado inglês que já conhecera vários embaixadores da Inglaterra e que a todos é sempre preciso explicar tudo desde o princípio: como a Grã-Bretanha «é democrática e liberal e parlamentarista e o regime português é antidemocrático, antiliberal e antiparlamentar», a embaixada pensa que os amigos da Inglaterra e os defensores da aliança são os inimigos do governo, «os aspirantes às mudanças que lhes dessem situações políticas». Campbell protesta a maior consideração da Inglaterra pelo governo português e o seu chefe. Reage Salazar: «dei-lhe a entender, meio por palavras, meio por gestos, que depois de tantos anos de governo e de trabalho recto, tudo isso me era já perfeitamente indiferente».

Por fim, Campbell suscita a questão das exportações do volfrâmio para a Alemanha. Salazar critica asperamente a atitude da Grã-Bretanha. Muitas minas de volfrâmio são propriedade da Inglaterra; mas esta não as explora, para assim as manter em reserva, com prejuízo da economia do país onde se encontram, enquanto adquire volfrâmio na Turquia ou na Birmânia; e a Alemanha, sem interesse nas minas, apresenta-se a pagar bons preços e a valorizar uma riqueza portuguesa. Campbell muda de assunto. Portugal queria comprar e embandeirar com a bandeira portuguesa um barco italiano surto em Lourenço Marques: mas como podia o governo britânico concordar, quando o governo português não autoriza que a Grã-Bretanha compre alguns pequenos barcos portugueses? Então Salazar responde com outra pergunta: foi autorizada a venda de barcos de pesca à Inglaterra e a construção de outros em estaleiros portugueses, e depois disto a Grã-Bretanha não autoriza a compra de um barco italiano em Portugal: perante esta recusa, com esquecimento do passado, como pretende Londres que se concedam mais autorizações? Salazar comenta: «tenho verificado haver um funcionário da Embaixada que prepara os papéis ao embaixador e lhe faz apresentar com um grande ar de argumentação fulminante razões que são geralmente idiotas». Campbell diz para Londres que Salazar está «lúgubre» e «deprimido».




Sem dúvida: Salazar convenceu-se de que o gabinete de Londres se lançara numa tentativa de ludíbrio pessoal: e endurece a sua posição. Deseja ouvir Monteiro: «gostava que meditasse no assunto, e, quando pudesse, me escrevesse sobre ele». Assume no entanto responsabilidade suprema: «a mim nada me custa mudar de orientação, e esquecer-me também das pretensões inglesas até que a satisfação dos nossos legítimos pedidos seja encarada a sério por esse governo ou os seus burocratas», e entretanto «vamos fazer alguma coisa que possa levá-los a queixar-se», e isso porque tem notado que «os ingleses tratam em geral melhor e cuidam mais dos interesses dos países que os tratam mal». Monteiro, por seu lado, aproveita as oportunidades para repisar a atitude portuguesa: e num almoço na embaixada de Espanha a que assistem Churchill e Eden, conta a estes, perante os demais convidados estupefactos, como a prematura fuga de D. João VI e da família real para o Brasil, realizada a conselho inglês, causara tão má impressão que os portugueses ainda não haviam perdoado à memória do príncipe tão precipitado abandono.

De par com as conversas de Londres, continuam as negociações com Tóquio para o acordo aéreo Japão-Timor português. É assinado em 13 de Outubro o documento. Suscita-se um clamor de protesto em Londres, em Washington, na Austrália: Lisboa cedera a pressões nipónicas. Tóquio ameaçara ocupar Macau. Desmente o governo português todas as interpretações nesse sentido, salienta que o acordo é idêntico ao que fora concluído com a Austrália sem objecção de alguém; e dez dias mais tarde, a 23, os Estrangeiros publicam uma nota oficiosa a esclarecer o assunto. Neste meio tempo, um novo governo japonês assume o poder em Tóquio. E o representante português no Japão, Esteves Fernandes, informa Salazar de que esse novo governo deve arrastar o país à guerra e que a «situação deve ser muito perigosa em breve» (ibidem, pp. 345-353).




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