quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Portugal e o Hemisfério Ocidental (iii)

Escrito por Franco Nogueira





«A charrua penetra o solo mais que o ferro da espada; o suor fertiliza a terra mais que o sangue das veias; o espírito afeiçoa e transforma os homens e a natureza mais profundamente que a força material dos dominadores. As fundas pegadas e traços que ficaram de nós na terra e nas almas, por muita parte onde não é hoje nosso o domínio político, e têm maravilhado os observadores desde as costas de Marrocos à Etiópia e do Mar Vermelho aos Estreitos e ao Mar da China, vêm exactamente de que a nossa obra não é a do caminheiro que olha e passa, do explorador que busca à pressa as riquezas fáceis e levantou a tenda e seguiu, mas a do que, levando em seu coração a imagem da Pátria, se ocupa amorosamente em gravá-la fundo onde adrega de levar a vida, ao mesmo tempo que lhe desabrocha da alma o sentido da missão civilizadora. Não é a terra que se explora: é Portugal que revive».

Oliveira Salazar («A Europa em Guerra. Repercussão nos Problemas Nacionais», in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943).


«No dia 23 de Dezembro [de 1941] [Salazar] recebe o ministro alemão: este felicita-o pela condução do caso de Timor e dá-lhe novas seguranças sobre a soberania portuguesa. No dia de Natal telegrafa a Monteiro para repisar as suas suspeitas quanto à campanha nos Estados Unidos e para lhe dizer que em Washington tem mostrado e aconselhado tranquilidade. E no final daquele ano Salazar sente-se céptico, desiludido. Desabafa com Monteiro: "os factos da vida ensinaram-me a descrer dos ricos, dos poderosos e dos grandes". Não descrê, todavia, do país e do imperativo de o transformar. Todos os portugueses, comenta Salazar, foram educados na tese de que a independência e integridade de Portugal são dádiva gratuita da Inglaterra, porque o país não teria condições de vida livre. "Ainda que esta doutrina fosse tese histórica inegável, deveríamos considerá-la politicamente errada. A verdade política deve reivindicar para a Nação a base suficiente de independência efectiva". Mais: "sei que a doutrina que defendo não conquistou ainda toda a massa de Portugal. Parte importante confunde ainda consciência nacional e interesse nacional com servilismo pró-britânico"».

Franco Nogueira («Salazar», III).




Portugal e o Hemisfério Ocidental

Na sua política da Península, Salazar tem constantemente de fazer e refazer tudo. Não julga que Portugal haja de sair da sua neutralidade; e apenas quando esta estiver irremediavelmente perdida será de considerar a hipótese de abandonar o território continental. Mas a Espanha acaba de pôr em causa as coordenadas desta política. Para colaborar com a Alemanha na luta anticomunista, Franco envia forças espanholas - a Divisão Azul - para a frente de batalha russa. Depois, pronuncia um violento discurso contra a Inglaterra e os Estados Unidos. Salazar fica atónito, e pergunta a Pedro Theotónio: «Mas porquê e para  quê uma agressão contra a Inglaterra e os Estados Unidos?». Salazar supõe que o generalíssimo prepara uma mudança de política externa para breve, e decerto a ruptura com Londres, antes de mais, como acto preparatório do ataque a Gibraltar. Por outro lado, o Japão continua para o sul um avanço que vai além da China, e ocupa bases aeronavais na Indochina, com a anuência da França; e em Madrid julga-se que dentro de pouco a América estará em guerra. Tem repercussões em Londres e Washington o ataque de Franco; e Salazar procura recompor as malhas esgaçadas, paciente e tenazmente. Tem uma nova conversa com Sir Ronald Campbell. Este pergunta «se considerava possível continuar Portugal na sua actual posição de neutro e em paz no caso de a Espanha entrar na guerra ao lado da Alemanha, atacando Gibraltar». Teoricamente, responde Salazar, era viável; mas reconhecia que praticamente a situação se tornaria excepcionalmente difícil. Campbell, sem comentar estas afirmações, e«certamente indo atrás da ideia fundamental que tinha no cérebro durante esta conversa», declarou então «não saber se, no caso de a Espanha atacar e tornar inutilizável Gibraltar, era ainda de interesse para a Inglaterra a neutralidade portuguesa». Aqui Salazar guarda reserva mental: ilude a pergunta implícita no comentário de Campbell para evitar dizer a este que «isso não era bastante», só por si, para tirar Portugal da sua neutralidade. Prefere perguntar se, «não podendo utilizar Gibraltar, a Inglaterra não tinha bases em África devidamente apetrechadas». E o embaixador «citou Freetown, pondo muito em relevo que essa base se encontrava muito para o sul». Mas como narra Campbell, para o Foreign Office, esta mesma entrevista? Começa por dizer: «tive uma oportunidade de quebrar o gelo».

Estreito de Gibraltar

Depois: «Perguntei ao Dr. Salazar se pensava possível que a Alemanha agisse em Espanha mas não atacasse Portugal». Salazar, segundo Campbell, respondeu que o «considerava possível, uma vez que a vantagem estratégica de ocupar Portugal poderia não compensar a vantagem de ter ainda uma saída para o mundo não-europeu, especialmente a América do Sul; mas seria uma situação dificílima». E Campbell continua: essa situação seria difícil «especialmente se nós tivéssemos de abandonar Gibraltar como base naval. Aqui fiz uma pausa para deixar esta ideia penetrar. O Dr. Salazar ficou silencioso por algum tempo, e depois perguntou se a perda de Gibraltar nos prejudicaria seriamente. Respondi (com o ar de fazer uma afirmação solene e grave) que certamente assim era, dado que com excepção de Freetown (já muito ao sul) nós não teríamos qualquer base entre Plymouth e Capetown. O Dr. Salazar ficou profundamente absorto até que mudei de assunto, por pensar que isto era bastante como primeira dose». Campbell sugere então que Eden «administraria» uma terceira em Lisboa. Mas as palavras que Campbell julga terem impressionado Salazar, deixam este insensível. Nesta mesma altura, o novo representante de Portugal em Berlim, Conde de Tovar (5), informa que os alemães se lhe confessam altamente preocupados com os Açores, receando sobretudo as pressões de Roosevelt junto de Vargas para levar este a ocupar o arquipélago: e afirmam por outro lado sentir profunda impressão e admiração pela política portuguesa neste ponto, e pela viagem de Carmona, e pela aproximação de Portugal com o Brasil e América Latina em geral. Em Espanha, jornais e círculos políticos também se mostram alarmados. Mas efectivamente, alguns dias mais tarde, Eden convoca Monteiro, e é mais claro do que Campbell fora com Salazar. Diz o secretário de Estado que não consegue compreender «como Portugal poderia continuar uma política de independência logo que a Espanha fosse invadida ou entrasse na guerra ao lado da Alemanha». E pede que Monteiro pondere a Salazar o seguinte: «desde que os alemães estejam senhores da Espanha, os portugueses ficarão impossibilitados de resistir ou de mudar a sede do governo». E acentua o mesmo aspecto já sublinhado por Campbell: sem Gibraltar, a Grã-Bretanha ficará desprovida de bases entre Plymouth e a África Ocidental. E Eden introduz em toda a trama da conversa uma consideração nova: se e quando a esquadra britânica abandonar Gibraltar, terá então muito maior dificuldade em proporcionar e proteger a retirada do governo português para os Açores. Insiste, por isso, em que aquela deslocação se deve fazer logo que se verifique ameaça e não apenas quando se produza invasão. Monteiro pondera que as dificuldades emanam dos escrúpulos de Salazar: não aceita uma partida prematura: e sente-se obrigado, sobretudo em face do perigo, a dar exemplo de dever bem cumprido. Mas Monteiro recomenda para Lisboa que se busque uma «fórmula de transacção». Fora «administrado» a segunda dose pelo secretário de Estado. E como relata Eden esta conversa a Campbell? Praticamente, da mesma forma por que o faz Monteiro, que de resto tomou notas durante a entrevista. Apenas vinca um ponto não salientado pelo embaixador português: «a manutenção da neutralidade portuguesa, após a entrada de Espanha na guerra, passaria a ser desvantajosa para a Inglaterra». E ao relato feito por Monteiro cinge-se Salazar a responder que vai ponderar o assunto, e a indicar que Campbell solicitara nova audiência.

Roosevelt e Churchill durante a conferência secreta de 9 a 12 de Agosto de 1941 no Atlântico Norte, que resultou na Carta do Atlântico.

Entretanto, Roosevelt e Churchill haviam-se encontrado algures no mar alto, em pleno Atlântico, e acordavam numa declaração de oito pontos que consubstanciavam os objectivos da guerra e os princípios a que deveria obedecer a paz: é a Carta do Atlântico (6). No seu regresso a Londres, Churchill informa o gabinete de que Roosevelt está «ansioso por ocupar os Açores» e que esperava um convite de Salazar nesse sentido. Churchill ponderava que tal convite lhe parecia improvável, salvo no caso de agressão alemã contra a Península. Deste modo, Churchill pensava que a Inglaterra teria de ocupar as ilhas, independentemente de se ver privada de Gibraltar sem uma base alternativa. Roosevelt afirmara que teria forças americanas prontas para a ocupação em meados de Setembro. Nessa reunião do gabinete, Eden intervém para dizer que Roosevelt lera na carta de Salazar o que esta não continha. Churchill replica que o presidente decidira dar-lhe a interpretação que mais convinha. Mas o gabinete conclui com mais prudência: convida apenas Eden a ponderar as palavras do primeiro-ministro.

Pouco após, em fins de Agosto, a 28, Salazar concede nova audiência a Campbell, em S. Bento, que se prolonga das onze da manhã às duas da tarde. Desta vez o enviado britânico ataca de frente: se a Espanha entrar na guerra, só ou aliada da Alemanha, Londres entende que não é possível manter-se a neutralidade portuguesa. Salazar fica tranquilo, calmo. Põe três hipóteses: resistência armada da Espanha à pressão alemã; ataque da Espanha a Gibraltar com ou sem assistência de técnicos alemães; aliança com a Alemanha e operações em conjunto. Qual a hipótese mais provável? Há que pôr de parte a primeira: a Divisão Azul, o discurso de Franco, o pacto anticomunista, impossibilitam a Espanha de opor qualquer resistência à Alemanha. Há que excluir a última hipótese: a generalidade dos espanhóis não apoiará uma aliança hispano-alemã para fazer a guerra. Fica a segunda hipótese: a opinião pública espanhola estará com o governo que empreenda a conquista de Gibraltar. Mas esta hipótese suscita considerações: ainda que a Espanha tomasse Gibraltar, o destino final do território será o que for determinado pelo resultado da guerra; mais importante do que apoderar-se a Espanha de Gibraltar é para a Alemanha inutilizar e fechar o estreito; e isto pode a Espanha fazê-lo com os seus próprios meios, sem aliança formal com a Alemanha. «A conclusão é, pois, de que a Espanha agirá sozinha». Salazar reconhece, todavia, que a terceira hipótese também não é impossível. «Mas o ataque a Gibraltar nada tem que ver com o ataque ou a ocupação do nosso país», diz Salazar a Campbell. Neste ponto, toda uma rede de raciocínios é possível: a Alemanha não reconhecerá à Espanha absoluta liberdade de acção na Península, nem a Itália tão-pouco, porque nem uma nem outra desejam uma grande potência na entrada do Mediterrâneo; a quem possuir as costas espanholas pouco benefício suplementar decorrerá da posse das costas portuguesas; decerto a Alemanha, com Portugal ocupado, poderia então falar em nome de toda a Europa continental; mas então perderia a única ligação que lhe resta com o mundo extra-europeu e magoaria as repúblicas latino-americanas; Portugal e Espanha são as únicas portas possíveis sobre o mundo; é muito grave quebrar todas as amarras; e de tudo será de concluir que a Alemanha se absterá de uma agressão contra Portugal. Campbell escuta com atenção, mas torna ao princípio: com tropas alemãs em Espanha, e à mercê de um golpe fulminante, seria impossível a saída do governo português.


Marechal Pétain

Pétain e Hitler

Salazar então acentua: «O governo não pode praticar um acto tão grave» sem «que o acompanhe a compreensão do povo» quanto à «necessidade daquele sacrifício para se alcançar um fim superior»; e «ninguém compreenderia um acto de tal transcendência só porque os espanhóis atacaram Gibraltar ou têm forças nas fronteiras com o confessado propósito de evitar um ataque do lado de Portugal». Deste modo, «é preciso que o país não tenha a impressão de uma fuga injustificada, mas de uma retirada in extremis»; «é preciso, enfim, que o governo não perca o seu prestígio transferindo a sua sede para os Açores». Campbell comenta que lhe parece estar a ouvir o que nas vésperas da capitulação da França lhe dizia o marechal Pétain. Serenamente, Salazar explica ao embaixador que não há paralelo entre as duas situações: no caso português, «não se discute se se devem aceitar as imposições alemãs, ou não, e se o governo se deve sujeitar ao mando de governo estrangeiro, ou não»; apenas se discute «o momento em que as conveniências militares» e políticas «lhe aconselham ou impõem transferir-se para onde possa usar da sua liberdade de acção». Campbell concorda. E então, com aparente descaso deixa cair a pergunta que no fundo era a sua obsessão: quando Gibraltar não fosse já utilizável, e se o governo português houvesse sido transferido para os Açores, seriam nestes dadas facilidades à esquadra britânica? Dando às suas palavras extrema simplicidade, Salazar responde: «não vejo que a isso se oponham quaisquer dificuldades». Campbell tenta resumir toda a conversa numa só frase, de «cujo conteúdo não sou capaz de me recordar», mas que era inexacta, e por isso Salazar sublinha: «Isso é o que V. Ex.ª diz» (7).

Desta conversa, Salazar dá conta minuciosa a Monteiro. Ao fazê-lo, formula considerações suplementares. Salazar notou claramente os degraus que Ronald Campbell procura transpor; e não julga que haja dado margem para desconfiança, e a alegação desta pelos ingleses, como pretende Monteiro, é somente um expediente para ocultar o verdadeiro objectivo, que consiste na utilização dos Açores pela esquadra britânica. Salazar, contudo, pisa e repisa os argumentos e as posições fundamentais. E vai mais longe: «a minha confiança numa vitória rotunda da Inglaterra é fraca, se é que existe, através da visão desapaixonada dos acontecimentos e do interesse português». Ao ler isto, Monteiro não se contém, comenta: «Diante desta ordem de ideias, as actuais negociações são uma contradição. Vai-se então o Dr. Salazar ligar ao vencido? Valha-nos Deus! Parece loucura». Depois de insistir no seu apego à neutralidade, que está para além das estipulações dos tratados, e de invocar a consciência do país, que «põe acima de tudo a honra nacional», Salazar remata com uma declaração gelada: «Não se devem deixar dúvidas no espírito do Secretário de Estado de que, se Portugal estiver neutral, as forças dos Açores ou de Cabo Verde ripostarão ao ataque da esquadra britânica até ao limite das suas possibilidades. Não julgo que dignamente possamos fazer outra coisa». Monteiro, estonteado, sente-se aturdido: «Este homem vive na Lua! O que temos é de evitar que aconteçam coisas que nos levassem à situação de ter de fazer fogo durante dez minutos contra a esquadra britânica!».

Base das Lajes (Açores).

São cruzados em Lisboa os fogos: pressões inglesas, e indirectamente americanas, são alternadas com pressões alemãs e japonesas. Na imprensa alemã, ou de países subordinados ao Eixo, é elogiada a política ao mesmo tempo escrupulosa e enérgica do governo de Lisboa; mas são permanentes os artigos ou notícias sobre as intenções agressivas, ou até os preparativos de agressão, por parte britânica e norte-americana. Por seu lado, Tóquio não desiste das suas pretensões quanto a Timor português; e agora está empenhado num acordo aéreo Japão-Timor. E também não desiste a Austrália, apoiada por Londres. Lisboa conduz então duas negociações paralelas. Chega-se primeiro a acordo com a Austrália. São mais especiosos os japoneses e mais lentas as negociações. Entretanto, no país, sucumbindo sempre à acção de forças estrangeiras, agitam-se de novo alguns círculos. Partidários da Alemanha, por verem na vitória desta a sobrevivência do regime, fundamentam na defesa contra o domínio da Europa pela Rússia o desejo do triunfo germânico. Entre os oposicionistas do governo, criticam-se as medidas tomadas, protesta-se contra o envio de contingentes militares para defender os Açores, Cabo Verde e a África, advoga-se cruamente uma intervenção inglesa: nesta orientação unem-se matizes políticos divergentes, desde os antigos liberais e democráticos até aos monárquicos e alguns católicos; e pedem num manifesto o auxílio da Grã-Bretanha para formar um governo. Não se apura, todavia, qualquer receptividade de Londres para a atitude exposta no documento. E Caeiro da Mata, que em Vichy substituíra Ochôa (8), informava que se tinha por assente a entrada dos Estados Unidos no conflito, planeando para atacar a Alemanha um desembarque nas costa de Portugal.

De harmonia com o convite feito na reunião do gabinete inglês de novo o Foreign Office pondera as relações com Portugal, em particular quanto aos Açores. Antes de mais não julga o Foreign Office possível qualquer atitude de má-fé: seria fatal quando se trata com Salazar: e tornaria mais difícil obter facilidades no arquipélago. Por outro lado, se Salazar se tem mostrado partidário da aliança luso-britânica, e desta faz a base da sua política, não se sente no entanto obrigado para os Estados Unidos, de que desconfia e por que não tem a menor simpatia. Comenta depois o Foreign Office: «Se é ou não desejável que os americanos estejam nos Açores, é assunto da mais alta política. A óbvia obsessão com que o Estado-Maior americano pretende aquelas ilhas é menos uma expressão do desejo americano de ajudar o esforço de guerra aliado do que uma expressão do expansionismo imperial americano. É isto que precisamente o Dr. Salazar receia, e deve ser tido em consideração». Conclui o Foreign Office que um arranjo anglo-português sobre os Açores é coisa natural, no quadro da Aliança; mas os americanos devem ser mantidos afastados, tanto quanto possível, no interesse britânico e no interesse português; e as conversações com Portugal devem prosseguir, por isso, antes de qualquer atitude violenta e antes que se «intrometa a complicação americana nas nossas negociações directas com os portugueses». Eden concorda com este parecer do seu departamento, e envia a Churchill uma minuta em que defende uma política de negociações com Portugal, ao mesmo tempo que mantém à distância os americanos, sem prejuízo de estes serem informados do progresso das conversas. Para travar Roosevelt, Churchill expede um telegrama ao presidente sublinhando que apenas em face de provocação alemã ou espanhola seriam os Açores tomados pela força. Nesta base continua Campbell as suas entrevistas com Salazar.


Sobre as conversações de Estado-Maior, era português o último documento, e fora entregue em 10 de Julho. E agora, a 6 de Setembro e conforme na véspera Campbell anunciara a Salazar, o Foreign Office entrega a Monteiro a resposta britânica. Esta aplaude a decisão portuguesa de transferir para os Açores, nas condições previstas, a sede do governo; e para definição dessas condições o gabinete inglês deseja prosseguir a troca de pontos de vista. Mas então, e pela primeira vez por escrito, Londres afirma claramente uma posição contrária à de Lisboa: o gabinete inglês, com efeito, exprime as mais graves dúvidas quanto a retardar a deslocação para os Açores até que o continente seja atacado pela Alemanha, com ou sem a colaboração de outra potência; e sente ser-lhe impossível concordar na viabilidade de Portugal se manter neutro no caso de entrar na guerra a Espanha, ainda que esta não ataque Portugal desde logo. Em qualquer caso, e nesta última hipótese, o governo de Sua Majestade declara que a manutenção da neutralidade portuguesa em tais circunstâncias seria desvantajosa para a Inglaterra e contrária aos interesses da aliança anglo-portuguesa. E Monteiro, depois de remeter para Lisboa este memorial britânico, expõe a Salazar o seu ponto de vista pessoal. Partilha da tese britânica: a entrada da Espanha na guerra, só ou com a Alemanha, deve corresponder ao abandono imediato da neutralidade portuguesa. Porquê? Se a Espanha ataca Gibraltar em nome da unidade, não se satisfará sem Portugal. «O pretexto político está criado desde há muito e inscrito nas bandeiras da Falange: a unificação da Península». E «a reintegração da Península na sua unidade coonestará a beligerância espanhola e fornecerá ao público explicação suficiente desta». Por isso, «confesso a V. Exª que não consigo separar, nas condições presentes, um ataque a Gibraltar de um ataque a Portugal». Monteiro continua: «no estado actual das coisas não acho razoável supor - e por isso tenho de o dizer a V. Exª - que os ingleses cruzem os braços diante de uma recusa nossa, afastando resignadamente a sua poderosa esquadra para o meio da costa de África». Assim, «se nessa altura não nos tivermos decidido por posição que convenha à defesa dos nossos interesses, ficaremos à mercê do primeiro acaso. Se a Inglaterra se apresentar para ocupar uma base nos Açores, resistir-lhe-emos - diz V. Exª no final do seu ofício, com evidente razão de princípio - e automaticamente tombaremos para o lado da Alemanha; se esta der uns tiros na fronteira, cairemos para o lado da Inglaterra. Pode V. Exª ligar o seu grande nome a esta política?». Ora, «nós dependemos do mar e de quem domina o mar». «Tudo isto», diz Monteiro, «é horrível; mas é dentro do horrível que V. Ex.ª tem de agir». E termina: «V. Ex.ª perdoará a vivacidade de certas passagens, levando-a à conta apenas do meu muito desejo de lhe ser útil neste ponto e de, tanto quanto em minhas forças cabe, o ajudar a abrir caminho para o País nas graves circunstâncias que atravessamos». Deste modo, estão agora nitidamente vincadas as duas posições: Monteiro, em absoluto confiado na vitória da Inglaterra, julga que apenas ao lado desta poderá Portugal garantir o seu futuro, e para tanto deseja que o país abandone a sua neutralidade, ainda que não haja ataque directo a Portugal, e que este entre na guerra; Salazar, para além de dúvidas quanto a um triunfo inglês absoluto, quer manter a neutralidade portuguesa, e para o efeito agarra-se a critérios jurídicos (cumprimento do tratado luso-espanhol por parte de Madrid), ou morais (respeito pela soberania das nações), ou políticos (influência que exerce sobre Franco para travar este de uma precipitação), e confia além disso na sua destreza pessoal.

Na mesma altura, o conde de Tovar avista-se com Hitler no seu quartel-general. É extremamente claro o chanceler, e afável, e ao enviado português acentua as «crescentes ambições dos Estados Unidos e as suas possíveis consequências para os Açores», e declara «idióticos» os rumores de uma ocupação alemã das ilhas. Tovar afirma estar o arquipélago já bem defendido; e o chefe nazi mostra-se informado e aplaude a atitude do governo de Lisboa; e isso porque a «certeza de que não é possível adquirir um território sem tiros e sangue tem sempre por efeito moderar o apetite dos ambiciosos». E depois Hitler fala longamente da campanha da Rússia. Pronuncia-se em nome da Europa: graças à Alemanha fora frustrado o objectivo soviético de impor pelas armas a bolchevização do continente. E dadas as perdas russas, em homens e material, a grande dificuldade e o grande inimigo que os exércitos germânicos hoje enfrentam é a enormidade do território. Mas sobre a conversa com Hitler elabora Tovar os seus comentários, e transmite as conclusões a que chega. Sublinha que, ao invés do que muitos esperavam, não se verificou a desmoralização do povo russo, que tem mostrado um patriotismo fervoroso; e depois do derrotismo inicial que esbarrandou muitos exércitos soviéticos, as forças armadas foram invalidadas em três aspectos fundamentais: prolongamento da campanha no tempo, obrigando o Estado-Maior alemão a anular ou a adiar operações; desgaste de material superior ao de todas as campanhas anteriores; e perdas humanas excessivas que, se não enfraquecem o potencial militar germânico, têm no entanto um efeito depressivo no moral do povo alemão. Julga Tovar, no entanto, que a Rússia «poderá resistir, mas não poderá investir» contra a Alemanha; e que esta conseguirá estabilizar a frente de batalha. Então entrar-se-á noutra fase da guerra. Qual? Tovar vê duas hipóteses: ataque a oeste, com a invasão da Inglaterra; operações para o sul, e conquista da bacia do Mediterrâneo com auxílio da Itália e da Espanha. «Inclino-me a crer», informa Tovar, «que terminada a campanha da Rússia o Estado-Maior alemão prefira mais uma vez a operação subsidiária ao duelo decisivo e tente expulsar os ingleses do Mediterrâneo de preferência a atacá-los nas suas próprias ilhas». E não prevê o desmoronamento moral do povo alemão, nem um ataque directo dos Estados Unidos à Alemanha; mas considera possível aqueles ficarem em luta aberta com esta (embora sem declaração de guerra), com a América do Sul ao lado de Washington, a bandeira americana a flutuar nalguns pontos do Atlântico e das costas ocidentais da África, e a Inglaterra já subalternizada aos Estados Unidos.

14 de Abril de 1941: Oliveira Salazar envia um batalhão para os Açores.

Quando são recebidos em Lisboa os despachos de Monteiro e Tovar, o chefe do governo está no Vimieiro, na primeira quinzena de Setembro, e aqueles são-lhe remetidos para a aldeia (ibidem, pp. 334-345).


Notas: 

(5) Durará pouco tempo a missão de Nobre Guedes em Berlim, pois em pouco foi patente a sua total falta de vocação para as funções. O Conde de Tovar exercia o cargo de Director-Geral dos Negócios Estrangeiros do MNE, de que seria mais tarde, depois da guerra, Secretário-Geral.

(6) Por muito conhecidos, não se reproduzem aqui os oito pontos. Sendo um resumo dos quatorze pontos de Wilson, da guerra de 1914-18, consagravam a livre vontade dos povos, a livre escolha de governo por cada um, igualdade no comércio mundial e no acesso às matérias-primas, colaboração económica internacional, segurança colectiva, liberdade dos mares, desarmamento, não engrandecimento territorial.

(7) No seu relato para Londres, Campbell também não refere a frase que utilizou.

(8) Ochôa morrera em virtude de ataque cardíaco. A escolha de Caeiro, alta figura da vida portuguesa, obedeceu da parte de Salazar ao desejo de prestigiar a França, e o marechal Pétain, indicando à Alemanha que continuava a considerar aquela uma potência.

Continua

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