domingo, 13 de outubro de 2013

Portugal e o Hemisfério Ocidental (ii)

Escrito por Franco Nogueira










«Paralelamente às informações e à espionagem, Churchill sempre gostou da acção subterrânea, dos agentes secretos e da sabotagem em território inimigo. É nesta perspectiva que, no contexto dramático da Inglaterra sozinha e ameaçada de invasão, ele cria, em Julho de 1940, um organismo de tipo inédito, que virá a ter um destino ilustre: o Special Operations Executive, ou SOE, que proliferará em toda a Europa, e até mesmo na Ásia. O nome foi criado por Neville Chamberlain, sendo esse um dos seus últimos actos públicos.

(...) Sempre imaginativo, Churchill, tendo muito viva a memória dos insurrectos de Vendeia, dos carbonari e dos Klephtes, fixa-se em outro objectivo: a sublevação armada e a subversão.


(...) Não foi, portanto, fruto de um acaso o facto de, em Julho de 1940, quando Churchill ordena a criação das forças especiais do SOE, ele utilizar a imagem do vento que propaga o incêndio: "Agora", desafia ele, "incendiai a Europa!"».


François Bédarida («Winston Churchill»).


«A cooperação entre os serviços secretos ingleses e a propaganda bolchevista em Portugal tem sido muito activa. Descobriu-se agora que as sedes locais das companhias petrolíferas inglesa e norte-americana Shell e Vacuum Oil se tinham transformado em centros de propaganda subversiva contra o regime português...

A intervenção da polícia motivou a prisão de numerosos portugueses que estavam sendo subvencionados pelos industriais petroleiros anglo-saxões. Produziu especial atenção a prisão do barão de Vila Alva, pertencente à velha aristocracia portuguesa».


«Prisões em Portugal de auxiliares dos anglo-vermelhos», in Corriere della Sera (8 de Março de 1942).


«Após o fim da "Shell", a secção V do SIS-MI6, a cargo da qual estava a contra-espionagem inglesa, reforçou o sistema de detecção de agentes secretos alemães e criou uma rede de espiões duplos. Um dos mais célebres foi o juguslavo Dusko Popov, na realidade um espião britânico que, entre 1940 e 1944, foi operacional do "double cross system" (XX Commitee, organismo do MI5, especializado em agentes duplos). Popov terá, nomeadamente, transmitido aos ingleses informações sobre o ataque japonês a Pearl Harbor e o projectado rapto do duque de Windsor, em Portugal pela Gestapo.

(...) O historiador norte-americano Douglas Wheeler descreveu Portugal durante a guerra como "spyland" (país de espiões).


(...) No Estoril, os alemães escolheram o Hotel Atlântico, o Grande Hotel do Monte Estoril, onde esteve alojado em 1941 o espião juguslavo Bocko Christitch, e o Hotel do Parque, enquanto o grande Hotel da Itália, no Monte Estoril, e o Hotel Palácio eram os preferidos dos Aliados. Neste último, estiveram alojados, além do já referido Dusko Popov, o agente duplo Juan Pujol ("Garbo") e Nubar Gulbenkian, filho de Calouste, também frequentador do Aviz, que trabalhou para os serviços secretos britânicos, MI6, em ligação com Donald Darling ("Didi").




Passaram ainda pelos hotéis da Costa do Sol, "Kim" Philby, do desk ibérico do MI6, e Ian Lancaster Fleming (em Maio de 1941), criador da figura de James Bond, que trabalhou ele próprio para o Naval Intelligence Department, bem como o escritor Graham Greene, que também colaborou com os serviços secretos britânicos (SOE). Outros agentes secretos dos dois campos beligerantes também se cruzaram nos lobbies dos hotéis Inglaterra, Paris e Miramar. Em Cascais, viveu ainda, entre outros, o conde Iwan Schouwaloff, um russo branco naturalizado holandês que acabou por ser denunciado como espião nazi por Dusko Popov ("Triciclo")».

«Lisboa, Capital Europeia da Espionagem», in Os Anos de Salazar, Centro Editor PDA, 2008, pp. 31-32 e 34.


«SMERSH é a conjugação de duas palavras russas: "Smyert Shpionam", que significa, de uma forma abrupta, "Morte aos Espiões".

A sua missão consiste na eliminação de todas as formas de traição e dissidência no âmbito das várias ramificações do Serviço Secreto Soviético e da Polícia Secreta em casa e no estrangeiro. É, aos olhos do cidadão comum, a mais poderosa e temida organização na URSS por jamais ter falhado uma vingança.


Consta que a SMERSH foi responsável pelo assassinato de Trostky no México (22 de Agosto de 1940) e talvez tenha obtido o seu nome depois do falhanço de outros agentes ou organizações russas.


A própria organização foi completamente depurada depois da guerra e pensa-se que é actualmente constituída por escassas centenas de operativos altamente especializados; dividem-se em cinco secções:


Departamento I: responsável pela contra-informação no seio das organizações soviéticas em casa e no 
estrangeiro.

Departamento II: Operações, execuções incluídas.


Departamento III: Administração e Finanças.


Departamento IV: Investigações e trabalho legal. Serviço de pessoal.


Departamento V: Prossecuções: a secção responsável pela condenação de todas as vítimas.








(...) É de crer que os agentes duplos britânicos que se seguem foram vítimas da SMERSH: Donovan, Harthrop-Vane, Elisabeth Dumont, Ventnor, Mace, Savarin (...). Conclusão: devem ser tomadas todas as medidas com vista a desenvolver o nosso conhecimento acerca desta poderosíssima organização e destruir os seus operativos».

Ian FlemingCasino Royale»).


«Ainda ninguém se abalançou a descrever as acções e ambientes das diversas organizações de espionagem instaladas no nosso país durante a Guerra de Espanha e o segundo conflito mundial. Lisboa e Estoril foram os maiores centros de guerra secreta do Ocidente desde 1936 a 1946. Setúbal e Caldas da Rainha tiveram "sucursais" fomentadoras de redes de informações. Milhares de informadores viviam à margem de actividades insuspeitadas pelas populações.


Houve em Portugal grandes organizações de espionagem. Eram centenas os espiões e os informadores de tais redes. Alguns chefes pertenciam às respectivas representações diplomáticas e tinham sido amigos bastante íntimos, passando a degladiarem-se com ódio. O que vem nas fitas existia, embora com poucos tiros. Numa récita no São Carlos, o Protocolo "esquecera-se" da guerra e havia distribuído um mesmo camarote aos adidos culturais das nações beligerantes! Saíram os Aliados, ficaram os do Eixo. Todos eles eram, pelo menos, informadores.

Estive várias vezes, pelos cargos que ocupava no Conselho da Expansão Cultural, na Mocidade Portuguesa e nos Caminhos-de-Ferro, a par de algo do que se passava nesses bas-fonds. No Palácio Hotel e no Hotel das Termas do Estoril, estavam hospedados ou reuniam-se nos bares os espiões bem pagos... Os fugitivos chegavam às centenas em cada semana, muitos dos quais eram desprovidos de dinheiro e de roupa. Vilar Formoso era um Purgatório do Céu e também de infernos vários. Famílias inteiras clamavam tragédias que já não emocionavam os guarda-fiscais e os ferroviários da estação, uns e outros com as suas privacidades sacudidas. Não havia horários fixos; as circulações eram todas extraordinárias; o pessoal andava estafado. Houve que improvisar em Vilar Formoso novas linhas de resguardo, barracões para dormitórios e refeitórios. Outros barracões para pessoal de reforço (de comboios, da Guarda Fiscal, da PIDE, da Polícia da Guarda, dos organismos assistenciais...). Nessa balbúrdia toda distinguia-se uma delegação de assistência aos refugiados judeus, serviço organizado por uma comissão portuguesa presidida pelo Prof. Moses Amzalack, que firmara com o próprio Presidente do Conselho um acordo que foi escrupulosamente cumprido.

A linha de caminho-de-ferro da Beira Alta foi a "Estrada do Céu" para milhares de entes que, desolados, haviam atravessado uma Espanha desolada... O papel humanitário de algumas casas transitárias foi notável.

O Doutor Salazar, preocupado pela questão dos Açores, pela questão da exportação do volfrâmio, pela questão dos abastecimentos, ainda encontrou tempo para acompanhar a recepção dos fugitivos, lamentando que os abastecimentos não permitissem receber melhor tanto desgraçado! Dava indicações sobre velhos e velhas que iam chegar. Os caminhos-de-ferro da Beira Alta estabeleceram uma agência em Salamanca, que dava esperanças aos fugitivos de irem em breve respirar um ambiente de paz. Cada um tinha uma tragédia a contar... Vivia-se com os nervos esticados! Salazar estava cheio de descrições sobre as guerras: a da Espanha, a da Polónia, a da Finlândia e, de seguida, a guerra relâmpago; "da drôle de guerre", Narvique, a queda da França, Vichy. Tudo em ruínas! Desabafou um dia com Carvalhais: "E ainda há quem nos queira atirar para a beligerância!"





O embarque do Corpo Expedicionário inglês em Dunquerque foi inexplicável. Por que razões Hitler não quis aniquilar esses Ingleses encostados ao mar? Encostados a um mar infestado de submarinos alemães! Trinta quilómetros de praias cheias de homens que esperavam um barco salvador, só uns 320 000 homens conseguiram chegar a Inglaterra! Salazar preocupou-se muito com essa heróica tragédia! A França do Norte marchava desvairada pelas estradas em direcção ao Sul... tal qual o Exército francês. Evacuava-se, fugia-se... Horrores!

Nos fins de 1940 Salazar verifica que a Inglaterra começa a ser um campo de ruínas, entre as quais teima em viver um povo admirável e de tão valoroso que não foge. Tudo isto nos era dito, aqui em Lisboa, pelos Alemães da Embaixada e dos tais serviços de informação que acrescentavam que os Ingleses ajoelhariam em breve.

Os ingleses daqui actuavam em surdina. Os Alemães exultavam. O Blitz marcou o ponto mais alto do heroísmo britânico! Salazar exprimiu esta ideia a Carvalhais: um povo heróico!

Depois foi a época em que Italianos e Alemães eram senhores do Mediterrâneo, embora os Ingleses tivessem bases em Malta e no Chipre. Começámos a receber Franceses e Italianos fugitivos, com muitas crianças. Salazar lembrou que as crianças deviam ser acarinhadas.

Carvalhais desejava que lhe déssemos números referentes ao movimento da estação de Vilar Formoso. Disse-me que Salazar desejaria saber se havia refugiados com fome ou com frio, pois as informações chegavam-lhe dispersas. O número de instalados era muito menor do que o número dos que haviam atravessado as fronteiras (85 por cento na de Vilar Formoso). Foi Carvalhais que primeiro se referiu à bondade de Salazar, que não pode ser avaliada por quem não viveu os diversos períodos da Segunda Grande Guerra.

Pois me perguntam qual foi o aspecto humano que mais me impressionou em Salazar? Pois, desde os anos 39 a 44, eu posso responder: a sua bondade!»

Francisco de Paula Leite Pinto (in «Salazar visto pelos seus próximos»).


Uma das razões para a restrição de vistos a refugiados, alguns dos quais exigiam a consulta prévia a Lisboa, resultara «dos protestos espanhóis e ingleses, estes apavorados com a perspectiva da entrada de espiões, sabotadores, etc., em período de guerra total (a chamada 5.ª coluna), e o perigo de irritar Hitler» (in Carlos Fernandes, O Cônsul Aristides Sousa Mendes. A Verdade e a Mentira, edição de autor, 1.ª edição, 2013, p. 60). Mas Avraham Milgram, que acusa Portugal – «o país da Inquisição» – de não aproveitar o seu potencial estratégico face à Alemanha para salvar judeus, não se coíbe de atacar o governo de Salazar , o MNE, o Ministério do interior e a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) por serem «inflexíveis, legalistas e revelarem por vezes preconceitos anti-semitas» (cf. Avraham Milgram, Portugal, Salazar e os Judeus, Gradiva, 2010, pp. 16-17). Estamos assim perante a falsificação da verdade histórica, até passível de ser desmentida por historiadores estrangeiros como o alemão Patrick von zur, ao demonstrar que a política de Portugal face aos judeus não teve, por certo, motivações anti-semitas.




Demais, o significativo trecho que se segue confirma a ampla ausência de anti-semitismo no alegado «país da Inquisição»:

«O fracasso comercial da propaganda anti-semita em Portugal mostra-nos até que ponto o ódio a Israel era irrelevante como manobra política naquele país. A não-aceitação do anti-semitismo dos escritos de Sardinha, de Saa e dos editores dos Protocolos dos Sábios de Sião, em 1923, causa surpresa, em particular porque nos anos de 1920, e mais ainda nos anos de 1930, os judeus eram vítimas de hostilidade e xenofobia na maior parte dos países da Europa. Naquela época ouvia-se no mundo gritos nacionalistas, xenófobos e anti-semitas bastante estridentes. Na Europa Oriental e Central o elemento anti-semita tinha muito relevo na política, na cultura e na sociedade. O anti-semitismo cumpria uma função central nos discursos públicos, nas campanhas eleitorais e, em particular, na mobilização das multidões sob as bandeiras dos movimentos, partidos e associações anti-semitas, nacionalistas, antiliberais e antidemocráticas. No prefácio ao seu livro sobre o anti-semitismo, Adolfo Benarus afirma que não foram os acontecimentos anti-semitas no seu país que o levaram a tratar do anti-semitismo, mas a injustiça e as catástrofes de que os judeus eram vítimas em países estrangeiros. O ódio a Israel diz, era um fenómeno antigo que não desaparecera nem com as conversões forçadas dos judeus ao cristianismo nem com a sua assimilação, como acontecia na Alemanha. Explica que os resultados da emancipação em muitos países não garantiam o fim do anti-semitismo, e a Alemanha era um exemplo disso. Ao referir-se a Portugal, Benarus transmitiu aparentemente não apenas a sua opinião, mas a da maioria dos judeus do país, que tinham consciência de que a igualdade na lei obtida e garantida pelas constituições de 1911 e 1933 os defenderia: “Hoje a igualdade é absoluta, ou antes, os judeus dentro da sociedade portuguesa são muitas vezes objecto de atenções e até de carinho. É o resultado de uma concepção mais larga da Justiça e da Tolerância, que, partindo de governos, parece ter atingido todas as classes sociais”. Segundo ele, não havia anti-semitismo em Portugal devido às características superiores do homem português que não conhece o ódio aos estrangeiros. Pelo contrário, o homem simples revela interesse pelos estrangeiros, respeita-os e acolhe-os no seu seio. Paralelamente à confiança no homem simples, Benarus admirava Salazar e o seu regime por ter conseguido matar o anti-semitismo à nascença . Mais do que a ausência de anti-semitismo, estas palavras exprimem uma identidade da elite judaico-portuguesa com o seu país e dirigentes» (in Avraham Milgram, op. cit., pp. 66-67).

Quer dizer: por mais evidências que se apresentem de que os Portugueses em geral não são anti-semitas, mesmo quando tais evidências são manifestamente reconhecidas por certos e determinados judeus, tudo isso, supostamente, não passa de um oportunismo da elite judaico-portuguesa identificada com Portugal e a sua classe dirigente. Nestes termos, estamos, pois, perante um nacionalismo judaico que é, por natureza, o mais exclusivista de todos os nacionalismos à face da terra. No fundo, trata-se de um povo que se diz eleito por Deus e que exige que todos os outros povos se sacrifiquem e até morram por ele se necessário for.


Miguel Bruno Duarte





Portugal e o Hemisfério Ocidental


Perante o discurso de Roosevelt e a reacção portuguesa, a Inglaterra não fica silenciosa e tíbia como Salazar julga. Com efeito, no mesmo dia em que recebe Monteiro, Eden telegrafa a Halifax pedindo-lhe que «avise» o governo americano de que não deve intrometer-se numa questão em que serão obtidos melhores resultados se for deixada apenas ao gabinete de Londres. Mas Churchill está por seu lado a discutir o assunto directamente, numa base pessoal, com Roosevelt, e pretende a cooperação deste para a tomada das ilhas atlânticas. O Foreign Office, no entanto, intervém e diz a Churchill que «é muito mais provável conseguir do Dr. Salazar o que pretendemos se mantivermos os Estados Unidos afastados das negociações». Na conversa com Halifax, Roosevelt diz estar pronto a deixar os ingleses conduzir as conversas; mas acrescenta que «está a aprontar a expedição aos Açores e Cabo Verde» e que, uma vez concluídas pelos ingleses as negociações, os «americanos tomariam mais tarde a posição daqueles». De Lisboa, Campbell informa que o discurso de Roosevelt causara no país apreensão e ressentimento generalizados, e mesmo indignação, salvo talvez nos círculos oposicionistas por motivos políticos; e o «Dr. Salazar, tendo dado a sua palavra, honra-la-á, como espera que a Inglaterra honre a sua»; e «para ele constitui um choque ver o chefe de uma nação, com a qual Portugal não tem laços políticos especiais, falar como se a soberania portuguesa não fosse embaraço ao que os Estados Unidos possam considerar exigências estratégicas do hemisfério ocidental»; e «além disso o Dr. Salazar não confia nos Estados Unidos». E sentindo a irritação do chefe do governo português, Eden multiplica em Washington as suas intervenções para travar os americanos, e promover em Londres um encontro entre Monteiro e Winant, embaixador dos Estados Unidos, e personalidade escutada por Roosevelt.






Verdadeiramente, no entanto, Salazar apenas dá o incidente como encerrado quando, com data de 8 de Julho, recebe uma longa carta pessoal de Roosevelt. É então claro o presidente americano, e quase solene na sua garantia: «na opinião do governo dos Estados Unidos, o exercício permanente e sem limitação dos poderes soberanos do Governo de Portugal sobre o território de Portugal, os Açores e todas as colónias portugueses representa uma segurança completa para o Hemisfério Ocidental no que respeita àquelas áreas. Em consequência, constitui firme desejo dos Estados Unidos que não seja violado o domínio soberano de Portugal sobre aqueles territórios». Rumores em sentido contrário provêm de fontes inimigas, com o objectivo de perturbar as relações tradicionais entre os dois países; regozija-se o governo americano com as medidas de defesa tomadas por Portugal, de modo a inutilizar qualquer ataque da Alemanha; o governo americano está pronto a auxiliar a defesa da soberania portuguesa nos Açores e outras possessões portuguesas, mas apenas se o governo português assim o desejar; e nesse caso o governo do Brasil estaria também disposto a cooperar. Roosevelt espera assim haver desanuviado qualquer mal-entendido entre ele e Salazar; e conclui por recordar que, como secretário de Estado assistente da Marinha, visitara em 1914-1918 os portos dos Açores quando o governo português de então havia permitido aos aliados o uso da Horta. Finalmente, Roosevelt afirma que qualquer colaboração entre os dois países deverá ser baseada no respeito mútuo dos direitos soberanos de cada um e com a salvaguarda dos melhores interesses do povo português. Mas esta carta apenas em 21 de Julho é entregue a Salazar, pelo ministro dos Estados Unidos em Lisboa. E oito dias depois responde o chefe do governo português: agradece, regista as garantias de Roosevelt, explica as dúvidas suscitadas, reitera a disposição de fazer respeitar a soberania e a neutralidade portuguesas, e reafirmando a posição especial de Inglaterra não exclui o apoio do Brasil nem a cooperação dos Estados Unidos, se na guerra em curso a situação neutral portuguesa, por violação da sua soberania, viesse a ser alterada. «Tudo são razões de peso para que do nosso lado se vigie com cuidadosa atenção o que interessa à limpidez e consistência das nossas relações. Confio em que do lado de V. Ex.ª encontrarei a mesma compreensão e simpatia». Está nesta fase encerrado o incidente. Para que não fiquem dúvidas, no entanto, sobre as intenções do lado português, o chefe do governo sugere a Carmona uma visita oficial aos Açores. Acede o presidente, sem embargo da fragilidade dos seus setenta e dois anos. E os governadores civis dos três distritos autónomos deslocam-se a Lisboa para convidar o chefe do Estado a efectuar aquela viagem de soberania e unidade política. Mas quando Monteiro lembra a vantagem de conseguir que uma unidade da esquadra americana seja deslocada para os Açores durante a estadia de Carmona, para saudar este, Salazar rejeita a ideia.

Na mesma altura, Salazar faz entregar ao gabinete britânico um outro documento que implica uma atitude fundamental. Monteiro apresenta a Eden um memorial em que, depois de responsabilizar a Inglaterra pelo não rearmamento de Portugal e em vista do non-possumus confessado pelo gabinete britânico quanto à defea do continente português, o governo de Lisboa comunica a Londres haver tomado a grave decisão de, no caso de ataque contra o continente, se deslocar para os Açores e estabelecer no Arquipélago, sob a protecção de forças nacionais, os orgãos de soberania e de administração. Estando nesta hipótese perdida a neutralidade portuguesa, Lisboa conta então com o poder naval britânico para manter a liberdade de comunicações, ao mesmo tempo que solicita algum material antiaéreo para completar a defesa dos Açores, e tornar estes invulneráveis a qualquer agressão. Sir Ronald Campbell acredita nesta decisão de Salazar, e assim o comenta para Londres: «mais uma vez sublinho a minha convicção de que o Dr. Salazar será leal para connosco desde que lhe mostremos a nossa confiança»; mas há que tomar a sério a sua afirmação de que defenderá as ilhas contra quaisquer ataques, e por isso convirá não esquecer que «as forças britânicas não serão bem-vindas nos Açores antes que os portugueses façam um apelo» em nome da aliança.






No dia 4 de Agosto o gabinete britânico discute a atitude de Salazar. Considera esta satisfatória. Mas num ponto há divergência: Salazar abandonará o continente no caso de ataque pela Alemanha, com forças germânicas apenas ou em conjunto com forças de outro país, naturalmente a Espanha, o que supõe a ideia de que Portugal pode continuar neutral ainda que a Espanha entre na guerra contra a Grã-Bretanha ao lado da Alemanha, desde que as forças espanholas e alemãs respeitem Portugal; o gabinete de Londres, pelo contrário, deseja que Salazar siga para os Açores, logo que Portugal «esteja ameaçado», e isso porque, entrada a Espanha na guerra e na suposição de ataque a Gibraltar, a neutralidade portuguesa deixa de interessar à Inglaterra e o uso dos arquipélagos atlânticos torna-se indispensável para substituir Gibraltar. Sir Ronald é encarregado de persuadir Salazar a aceitar este segundo ponto de vista. Desde logo o embaixador afirma ser de excluir qualquer ameaça, que levaria Salazar a rever a sua decisão, ou tentar resolver uma questão de princípio sob o disfarce de conversações militares; e para Campbell o melhor método consiste em nunca pôr em dúvida a aliança e «criar para Salazar uma obrigação que o vá conduzindo pelo caminho desejado». E Eden comenta sobre este despacho como quem pensa alto: «sempre acreditei que seria extremamente difícil pedir ao governo português que abandonasse Lisboa muito cedo».

Entretanto, o presidente Carmona partira para os Açores, a bordo do Carvalho Araújo, escoltado pelos contratorpedeiros Dão e Lima. Acompanham-no Pais de Sousa e Ortins de Bettencourt. Salazar assinala que por todas as ilhas é o chefe do estado recebido «com grande entusiasmo e as mais inequívocas provas de portuguesismo», tendo a imprensa dos grandes países seguido a viagem com o maior interesse, «com excepção talvez da dos Estados Unidos, que parece não dispuseram de informações». E nas capitais dos distritos autónomos Carmona proclama: «Aqui é Portugal!».

Naquele Verão de 1941, dura há dois anos a guerra. Desde a França e das Ilhas Britânicas até às planícies eslavas e aos confins da Manchúria, passando pelo Mediterrâneo e Norte de África, e através dos sete mares, são já legião os mortos, os estropiados, os prisioneiros, os mutilados, os perdidos, os fugitivos, os deportados, e cidades estão em ruínas, culturas foram devastadas, populações têm fome. Acampada, a Europa vive de angústia entre os escombros. Quantos podem, fogem, Fogem ao fuzilamento, aos campos de concentração, ao frio, à doença, ao trabalho forçado, às perseguições políticas, à guerra. Abandonam empregos e bens, família, pátria, vidas inteiras, e na fuga buscam salvação onde ainda haja paz. Desiludidos de uma Europa velha e ensanguentada, frustrados, desfeitos, muitos sem Pátria ou escorraçados da sua Pátria, procuram um novo mundo, e este imaginam-no nos Estados Unidos. Pelos caminhos mais árduos, vendendo desde a consciência às jóias, sofismando leis, iludindo autoridades, forjando documentos, transpondo fronteiras furtivas, vêm para os portos do Atlântico no sonho de atravessar o oceano.


Oliveira Salazar e Óscar Carmona


Lisboa está uma cidade diferente. Poupada às destruições da guerra, sente-lhe os efeitos humanos. Pela afluência de muitas e desvairadas gentes, dir-se-ia que reproduz o quadro da sua crónica antiga. Das sete partidas europeias, abatem-se sobre Lisboa destroços humanos em que todos estão agora nivelados, e que a cidade acolhe de boa vontade (3). Aristocratas, polacos, checos sem nação, alemães perseguidos, franceses fugidos à ocupação germânica, escandinavos e austríacos escorraçados, belgas e holandeses, judeus da Europa Central, outros de pátria incerta, intelectuais e soldados mutilados, cientistas eminentes e professores jubilados, funcionários demitidos e negociantes arruinados, todos convergem para Lisboa, à espera de transporte para o novo mundo. São às dezenas de milhar, às centenas de milhar. Enchem hotéis, quartos particulares, consoante os haveres que puderam carrear; muitos, apenas com as roupas do seu corpo, estendem a mão à caridade pública; e a polícia tem de organizar centros residenciais nos arredores da cidade. Pelas ruas, nos restaurantes, nas lojas, ouvem-se todas as línguas da Europa; e pelos seus costumes, pelos seus trajes, pela sua mentalidade, sobressaem no ambiente, e até o influenciam. Criam a figura do refugiado. Entre estes perpassam figuras de relevo mundial: velhos políticos como Alexandre Kerensky, ou chefes de Estado depostos como Carol da Roménia, ou juristas eminentes como Kelsen, ou escritores de fama como André Maurois, e mil outros, como Calouste Gulbenkian, o multimilionário dos petróleos, que na busca de calma se fixa em Lisboa. De par com os refugiados, instala-se a espionagem internacional. Ponto neutral de encontro, posição geográfica aberta a todos os beligerantes e porta para todos os ingleses, italianos, alemães e americanos, e todos procuram seguir as actividades dos demais, além de tentarem infiltrar círculos portugueses, e influenciá-los. E intensifica-se em Portugal a propaganda das facções em luta. São subsidiados jornais com dinheiro estrangeiro, publicadas revistas para defender um bloco de beligerantes contra o outro, editados livros de defesa deste e de ataque àquele; e através da radiofonia, em emissões em língua portuguesa, os postos de Berlim, de Roma ou de Londres conduzem entre si uma guerra sem mercê para cativar os ouvintes portugueses. E refugiados e agentes de espionagem consideram que em Lisboa regressam à vida: enquanto a Europa está mergulhada na escuridão, no racionamento de géneros, na existência subordinada aos ataques aéreos e às operações de guerra, Lisboa e Portugal dão uma sensação de abundância, de normalidade, de vida sem faltas nem cuidados: constituem mundo à parte.

Estrada Marginal Lisboa-Cascais nos anos 40 do passado século


E com efeito, embora se aperceba de dificuldades remotas, e tenha apreensões quanto ao futuro, a massa do país não sente na sua carne a guerra e suas agruras. Mantém-se o ritmo de abastecimento, não obstante algumas dificuldades de transportes e os embargos do bloqueio britânico; como resultado de medidas drásticas do governo, os preços apresentam-se estáveis; e a prioridade dada pelos beligerantes às produções de guerra levou-os a aumentarem as importações de Portugal, e alguns sectores industriais portugueses fazem lucros substanciais. Lisboa reflecte esta situação. Estão bem fornecidos os estabelecimentos; não há racionamento severo de géneros, salvo de gasolina; a cidade está iluminada como de hábito; funcionam os centros de diversão e casas de espectáculo; a vida nocturna não sofre quebra. De vez em quando, um sinal de guerra repercute-se na consciência dos portugueses: navios mercantes portugueses - o Exportador I, o Ganda, o Corte Real, o Cassequel - são afundados no alto mar por submarinos não identificados. Não obsta, contudo, a que Lisboa vá rir com Estêvão Amarante n'O Zé dos Anzóis, ou aplaudir João Villaret n'O Jogo da Laranjinha, ou delirar com Hermínia Silva da Boa vai ela, enquanto Almada Negreiros expõe Trinta Anos de Desenho, António Boto publica As Canções e Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro representam A Castro, de António Ferreira, nas escadarias da abadia de Alcobaça. E Alfredo Pimenta, por entre a política, a história e a polémica, faz poesia e recomenda num soneto que Salazar, mestre de fazer naus, restaure o trono português:



Entregaram-lhe a Nau desmantelada,
E à custa de trabalhos colossais,
Ele tem-na já quase restaurada,
E capaz de afrontar os temporais.

O que lhe falta é pouco, quase nada...
Mas é a melhor das peças capitais,
P'ra que a Nau possa arcar, assegurada,
Com os mais temerosos vendavais.

Mestre de fazer Naus, toma cautela!
E se, como acredito, queres vê-la
As ondas do mar alto dominar,

Não entregues seu leme a Arrais a prazo,
Nem confies a Nau a Arrais de acaso,
Que arrais de acaso, os não tolera o Mar! (4)






(Ibidem, pp. 327-334).


Notas:

(3) Por intermédio da Cruz Vermelha, vieram para Portugal cerca de seis a oito mil crianças austríacas. Em Portugal permaneceram toda a guerra, foram educadas, aprenderam a falar português como língua própria, e fundaram mais tarde em Viena um clube em que apenas se falava português.

(4) Não posso precisar a data da composição do soneto. Este aparece, porém, em Últimos ecos de um violino partido, que é publicado neste ano de 1941.

Continua


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