terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Leonardo e a política (ii)

Escrito por Orlando Vitorino 





«... O José Hermano Saraiva também foi Ministro da Educação, quando era homem de confiança de Marcello Caetano, e ainda se não popularizara como historiador da RTP. Logo se me dirige na minha qualidade de candidato presidencial, assumindo ele a de um especialista "blasé" na política e na história da política, de mãos habituadas a fazer e desfazer revoluções, ministros, reis e presidentes da República, coisas que lhe são tão familiares e sem surpresa que deixa adivinhar enfadarem-no. Com a boca traçada em arco como a das personagens trágicas, numa voz metálica que a televisão popularizou, logo me atira, de dedo apontado e a cabeça reclinada para trás, tentando olhar-me de cima: "V. propõe a extinção da Universidade. Como se a Universidade não estivesse há muito extinta... É só fechar-lhe a porta e dar a volta à chave. Lá dentro, não há nada!"

(...) Ontem apareci na televisão, fugazmente (o sistema não autoriza mais). Mas tanto bastou para que hoje, ao parar o carro num semáforo, um homem, no carro ao lado, me apontasse à mulher, ambos depois me sorrindo e dirigindo sinais de aplauso e votos pela vitória.

Senti-me incomodado e puz-me a pensar em aristocracias.

Nos meios aristocráticos britânicos - dizem-me - é shocking ter o nome nos jornais, ser pessoa conhecida da plebe.

Sinto-me possuído por uma inexprimível sensação de vergonha quando, ao sair de manhã, deparo com os rostos dos quatro candidatos do sistema, fotografados em contorsões suplicantes de simpatia e expostos, aos olhares de toda a gente, nas paredes de todas as ruas, em milhões de cópias que constituem apenas a primeira vaga de cartazes eleitorais.

Não há meios de me lembrar qual o livro em que li que, até cerca de 1930, os políticos eram olhados com desprezo entre os norte-americanos. Viam neles funcionários mais ou menos parasitários que, sem nada produzir, eram pagos pelos contribuintes. As famílias encaminhavam para a política os filhos menos dotados e menos capazes de enfrentar os riscos da vida criadora, independente e livre, tal como, entre nós, os encaminhavam para os Seminários dos quais muitos saem para se dedicarem à política. Dizem-me que nos Parlamentos que temos, sempre existe uma boa percentagem destes défroqués, todos eles, naturalmente, agnósticos, votando leis anti-clericais.

A caturrarmos sobre as candidaturas de ambos à Presidência da República, António Champalimaud corta a pausa de um silêncio com esta pergunta enjoada: "... Temos mesmo de ir viver cinco anos naquele casarão ali para Belém?..."




Teófilo Carvalho dos Santos conta-me que, um dia, quando era Presidente da Assembleia da República e aparecia muito na televisão, fora de "metro" à Baixa. Sentou-se ao lado de um "popular" que estava lendo o jornal, e teve de observar que os passageiros o iam reconhecendo, olhando, sorrindo, alguns cumprimentando. Sentia-se embaraçado. Sem levantar os olhos do jornal, numa meia voz de censura, o "popular" rosna-lhe ao ouvido: "O Senhor não tem automóvel?". O "popular" era um aristocrata que não suportava o plebeísmo de o Senhor Presidente andar de "metro".

Esta foi um grande pintor quem, há tempos, ma contou. Tem ele um irmão que era, não sei se ainda é, Embaixador em qualquer parte e possui, em Lisboa, um nobre Palácio de família. Pouco depois do 25 de Abril, viu-se obrigado a oferecer nesse Palácio um banquete em que participavam alguns chefes socialistas, fresquinhos no poder. Um deles não se cansava de admirar as salas, a decoração, os sinais dos tempos e, apontando ora um móvel ora outro, perguntava: "É autêntico? Onde comprou?". Ao fim de responder três ou quatro vezes à pergunta que o socialista ia repetindo, o anfitrião não aguentou mais e disse ao homenzinho: "Tenho de o informar, meu caro Senhor, de que nós, desde o Século XVIII, só vendemos"».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).



Leonardo e a política

7. Mas nada de confundir as «massas» com o povo. Nada de confundir com o povo as multidões ignaras, as maiorias esmagadoras. Nada de incluir o povo numa «aritmética social» como a da luta de classes e a do resultado das eleições. E Leonardo desfia um corolário de atributos que nenhum político eleiçoeiro, nenhum «amigo de gente», nenhuma aritmética social» será capaz de entender.

- «o povo é o que há de criador e misterioso na vida social».

 - «o povo é o dono do tempo».

- «o povo é o tempo, a imortalidade, a possibilidade de contrariar as perdas».

- o povo é «a matriz social».

- «é a terra boa, fecunda e generosa».

-«as élites, que do povo se isolam, irão para o seu impossível, como a espuma da onda que tentasse o impossível de solidificar acima do vasto corpo do oceano».


- o povo «é ilimitado como a criança. Se me preparo para vos ouvir, posso calcular melhor ou pior o que ireis dizer; se uma criança me interroga, mal pressinto a palavra de mistério que irá pronunciar».

- «o político carece de saber que só vale pelo quanto seja representativo do seu povo, pela parcela de patriotismo eterno que lhe mora dentro do peito».

8. Da liberdade tem o pensamento de Leonardo uma metafísica e uma política, ou uma expressão para a política. Na metafísica, «a procura da verdade - que virá a substituir por «o encontro com a verdade» - é o alimento espiritual da liberdade». Na política, Leonardo traduz liberdade por ser livre, e, então, «a liberdade não é a permissão de fazer nem a possibilidade de fazer ou deixar de fazer um acto. Sou livre se, escrevendo, me furto à crença comum e alguma novidade introduzo na vida. Sou livre se, actuando, as minhas acções são de molde a aumentarem a minha vida interior e o acordo com as outras vontades conscientes».

O republicanismo será, decerto, «um regime de liberdade» e é preciso que o seja. Não nos iludamos, porém. Muito raros são os que podem ser livres. E se o republicanismo é o regime da liberdade, «a filosofia é o orgão da liberdade». Aqui reside a prioridade absoluta da educação, aqui «o problema da educação nacional», aqui o princípio de um programa ou sistema de educação».

9. Dissemos que Leonardo pouco fala da democracia, que prefere falar de republicanismo. A democracia contém um elemento que lhe terá sido antipático: a cracia, o poder dominador do demos, o povo entendido como poderoso e dominador, o povo tratado em «aritmética social» como sendo a maioria, a maioria esmagadora. O republicanismo é-lhe mais simpático: não pretende dominar ninguém, não esmaga nenhuma minoria, é, antes, uma auscultação atenta e permanente da res publica, da vox populi que não está longe da voz de Deus. Por isso Leonardo se indigna e revolta quando, nos ambientes políticos que frequenta, nos Partidos e no Parlamento, vê aliarem ao republicanismo o ateísmo. E exclama: «Se para ser republicano é preciso não acreditar em Deus, então não sou republicano».

Por pouco que tenha falado de democracia, dedica-lhe, no entanto, um capítulo de O Problema da Educação Nacional. Intitula-se o capítulo «O Espírito cultural moderno e a democracia». O «espírito cultural moderno» é o espírito da ciência moderna tal como Kant o pensou ou, para sermos mais concretos, é o mesmo kantismo. Seria, - aqui, demasiado longo, expormos a dedução de Leonardo. A recente edição das «obras de Leonardo Coimbra» possibilita o acesso imediato à leitura dessa dedução. Basta-nos dizer:

O princípio da democracia não é, como em geral se entende, a liberdade, mas sim a justiça. Vejamos como: a democracia é um acordo (Leonardo não diz «um contrato social») e o acordo só pode resultar, não da vontade como também em geral se entende, mas da Razão (é Leonardo quem sublinha a maiúscula) pois é a Razão que determina «a verdadeira situação social de cada um» e, marcada essa situação, a justiça a todos obriga ao acordo.




A relação entre a democracia, deste modo entendida, e a ciência moderna, sintetiza-a Leonardo a seguir: «o método científico é o do livre acordo de cada um e de todos»; projectado na acção política «é o livre acordo das vontades em normas de uma Razão que na vida social se chama Justiça».

10. Em certo momento do discurso parlamentar A Questão Universitária, Leonardo é levado a definir a sua posição, a sua «atitude» perante o socialismo: «Já que, Senhor Presidente, as minhas palavras vieram para a síntese socialista, permita V. Ex.ª que rapidamente defina atitude». Tal definição tem precedentes no pensamento do filósofo. A sua concepção de uma «razão cósmica» e, sobretudo, de uma «consciência cósmica», implicava a afirmação de uma solidariedade universal, não apenas das almas, mas de todos os seres e formas do universo, isto é, da infinita pluralidade orientada para o Uno. Projectada na política, tal concepção daria lugar à afirmação de uma solidariedade com aparência semelhante à preconizada pelo socialismo. Mais ainda: quando, numa das suas exaltações do cristianismo, vê nele a religião cósmica, Leonardo atribui à encarnação cristã a realização efectiva de uma solidariedade que exprime em termos de produção e distribuição igualitária de riqueza, tal como os socialistas. Seria, então, Leonardo um socialista? É o que vamos ver na «atitude» que pede licença ao Presidente do Parlamento para definir. A definição é esta:

A opressão económica torna precária e ilusória a liberdade política. Impõe-se, pois, que a liberdade económica não é a igualdade na produção, distribuição e consumo da riqueza. É, sim, o máximo acordo na produção, distribuição e consumo. Ora esse máximo acordo só se pode alcançar pela liberdade política: o republicanismo é, pois, condição do socialismo ou daquilo que o socialismo pretende alcançar.

Mas acontece que o máximo acordo pode não ser o socialismo. «Não quero dizer - esclarece Leonardo - que só a síntese socialista venha a existir». O socialismo é uma entre as muitas doutrinas existentes e não tem o exclusivo desse desejável, conquistável «máximo acordo», dessa liberdade económica, Leonardo antes espera que ela venha, esteja já vindo, de uma «silenciosa elaboração» da qual «saia a melhor síntese social capaz de abraçar, sem estrangulamento, os múltiplos pluralismos de hoje». «Sem estrangulamento», repare o leitor.

Parece, pois, que Leonardo não define a sua «atitude» como sendo socialista. E poucas dúvidas nos restarão quando considerarmos as suas frequentes acusações ao sindicalismo, ao «separatismo sindicalista que cindiu as pátrias em tantos agrupamentos de egoísmos» ou as condições que põe ao socialismo para «renovar a sua ideologia», afastando-se do marxismo, «que deixa o homem na altura dos celenterados», e libertando-se das doutrinas evolucionistas», que lhe andam ligadas»: As dúvidas desaparecem de todo quando Leonardo nos apresenta o problema essencial: «o problema consiste na descoberta de uma aceitável síntese do nobre individualismo e da solidariedade, síntese em que a força da intimidade dos sentimentos de família as não superficialize na vastidão da fraternidade humana»; ou quando dá a razão do capitalismo: «não será então possível um embelezamento gradual e permanente do trabalho de modo a dar ao inventor, legítima origem do capital, a emoção artística da comunicação e generosa dádiva?».

11. Foi Leonardo Coimbra contemporâneo da instalação do comunismo na Rússia e sua ampliação a Partidos Políticos de todos os países. Ao contrário da maior parte dos intelectuais da sua e seguinte geração, imediatamente viu hoje a grande ameaça ou doença, mal ou erro do nosso tempo. Minucioso conhecedor dos filósofos clássicos, Leonardo sabia que o comunismo é a mais antiga e inalterada das doutrinas e não ignorava que Aristóteles dissera «despertar ele (ou a abolição da propriedade, o que é o mesmo) grande entusiasmo entre as camadas mais baixas da população». O comunismo ao encontrar, porém, uma versão «moderna», já não ficava limitado às «camadas mais baixas» e era, antes, um «fenómeno burguês» que acabava por deitar mão aos poderes de um Estado e, a partir daí, instalar-se, como Partido Político, nos regimes democráticos. Como foi possível? Leonardo procura, prioritariamente, compreender. Trata-se de um fenómeno - não social ou económico como em geral se julga - mas mental e filosófico. Consiste, primeiro, no empolamento do humanismo e, depois, na sua degradação, de humanismo idealista e cristão, a humanismo antropolátrico e, por fim, exaustivo. A descrição deste processo preenche toda a primeira parte do livro A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre que é, seguramente, a mais segura refutação do comunismo. Nada mais diremos aqui deste livro admirável a não ser recomendar a sua compreensão facilmente acessível a todos aqueles que não devam a sua formação intelectual à organização marxista que domina hoje o ensino em Portugal.

12. Há tempos, num jornal do Porto, publicou Santana Dionísio um artigo, escrito na bela linguagem do maior prosador português vivo, em que narrava a vinda de Leonardo a Lisboa em 1935 (quando proferiu a conferência que desenvolveu no livro A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre) e a visita que ele e António Alvim lhe fizeram no hotel onde estava hospedado. Acontecia que nenhum dos discípulos de Leonardo quis assistir à conferência porque, movidos por um anti-salazarismo que deduziam do mesmo ensino que o Mestre lhes havia dado, viam nela uma condenável concessão, ao ditador, do filósofo da liberdade, e o comunismo não se lhes afigurava um mal que valesse tal concessão. Santana e António Alvim decidiram-se, no entanto, a fazer-lhe, horas antes da conferência, aquela visita a que deram o carácter de uma manifestação de cortesia e amizade. Leonardo não lhes falou nem na conferência nem em política e despediu-se deles com um sorriso amigo mas triste. Cinquenta anos volvidos, Santana Dionísio recorda o lamentável episódio e, envergonhado, descreveu-o como quem faz uma confissão pública. O que o levou a fazê-lo foi ter sofrido, em Portugal, a experiência do comunismo em acção e assim verificar que o comunismo é, na verdade, um mal que vale a concessão que Leonardo fizera a uma ditadura. Simplesmente, Leonardo não precisava de o experimentar para o saber.




Conta-se também que, no dia seguinte ao da conferência, se deu um encontro entre Salazar e Leonardo promovido por António Ferro que a ele assistiu acompanhado do jornalista Armando Boaventura. Pouco se sabe do encontro, que foi demorado e em breve se tornou agressivo. O pouco que se sabe é que o filósofo da liberdade não poupou o ditador racionalista e que este, no final da conversa, à maneira de despedida, lhe perguntou escarninho: «Por que é que o Sr. Dr. não escreve romances?» (in ob. cit., pp. 238-243).

Nenhum comentário:

Postar um comentário