domingo, 10 de junho de 2012

Homens e mulheres (iv)

Escrito por Álvaro Ribeiro




Dante e Beatriz nas margens do Letes, do pintor venezuelano Cristóbal Rojas





«Curiosa é a transferência de géneros, ou sexos, da biologia para a cosmologia, e a tão difícil problema dedicou Grimm, que além de filólogo era etnólogo e mitólogo, um estudo de merecida celebridade. O problema continua, porém, insoluto, pois não sabemos qual a razão de atribuir género gramatical a entes sem características anímicas, a entes que nem sequer por alegoria podem merecer atributos de masculinidade ou de feminilidade. Se soubermos ler, com a devida atenção, os poemas célebres de Dante, Camões e Goethe, conseguiremos talvez discernir as razões pelas quais são femininas quase todas as palavras abstractas que designam ideias, ou actividades mentais, como a filosofia».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«Uma lógica que fosse a repetição da gramática, como erradamente a supõem alguns em Álvaro Ribeiro dizendo que ele não fez mais do que pensar uma filosofia da linguagem, é logo superada pela proposição de que os tropos é que realizam a relação da língua com o pensamento. Assim explica que entre a língua e o pensamento não há uma relação unívoca mas de convergência e de divergência. Esta afirmação implica que há pensamento sem palavras, como se verifica entre os amantes. Também aqui o pensamento aparece como mediação. O amor entre o homem e a mulher não é só o amor entre dois corpos distintos, mas entre duas imaginações que podem atingir o êxtase.

O homem foi criado por Deus, mas a criação não cessou com a queda do homem na história, depois do pecado original. A razão imagina pelo estudo científico do homem actual a antropologia revelada pelo texto sagrado, mas porque seria impiedade alterar uma letra deste texto tem de considerar pseudo-científicas as conclusões do evolucionismo darwinista.

(...) O pecado original é um pecado de imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contras as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.

Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção.

(...) Como o conhecimento não é (...) a relação de sujeito-predicado e não é também a relação sujeito-objecto da filosofia alemã, a descida da alma à sensação seria irreconhecível se, através dela, sensação, não fossem possíveis melhores relações. Referimo-nos, evidentemente, ao amor, porque a mulher é que é para o homem o verdadeiro mundo sensível. O conhecimento não é a relação sujeito-objecto mas sim uma relação de espíritos. Desta relação os amantes só tomam conhecimento pela imaginação e pela palavra. Daqui a suprema importância do ensino da arte de imaginar durante a puerícia e a adolescência. "O grau espiritual atingido ou grau de razão escreve o filósofo que é apenas o resultado, variável com os temperamentos e os caracteres, do exercício da imaginação"».

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro», in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa).



José Ortega y Gasset


«Pero hay otra razón más rigorosa y delicada para separar amor y deseo. Desear algo es, en definitiva, tendencia a la posesión de ese algo; donde posesíon significa, de uma u otra manera, que el objeto entre en nuestra órbita y venga como a formar parte de nosotros. Por esta razón, el deseo muere automáticamente cuando se logra; fenece al satisfacerse. El amor, en cambio, es un eterno insatisfecho.

(...)  En el modo de comenzar se parece, ciertamente, el amor al deseo, porque su objeto - cosa o persona - lo excita. El alma se siente irritada, delicadamente herida en un punto por una estimulación que del objeto llega hasta ella. Tal estímulo tiene, pues, una dirección centrípeta: del objeto viene a nosotros. Pero el acto amoroso no comienza sino después de esa excitación; mejor, incitación. Por el poro que ha abierto la flecha incitante del objeto brota el amor y se dirige activamente a éste: camina en sentido inverso a la incitación y a todo deseo. Va del amante a lo amado - de mí al otro - en dirección centrífuga. Este carácter de hallarse psíquicamente en movimiento, en ruta hacia un objeto; el estar de continuo marchando intimamente de nuestro ser al del prójimo, es esencial al amor y al odio. (...). No se trata, sin embargo, de que nos movamos físicamente hacia lo amado, que procuremos la aproximación y convivencia externa. Todos estos actos exteriores nacen, ciertamente, del amor como efectos de él, pero no nos interessan para su definición, y debemos eliminarlos por completo del ensayo que ahora hacemos. Todas mis palabras han de referirse al acto amoroso en su intimidad psíquica como processo en el alma.

No se puede ir al Dios que se ama con las piernas del corpo, y, no obstante, amarle es estar yendo hacia El. En el amar abandonamos la quietud y asiento dentro de nosotros, y emigramos virtualmente hacia el objeto. Y ese constante estar emigrando es estar amando».

José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).



É de observar, porém, que o prolongamento da escolaridade na vida da mulher não vai sem o correlativo afastamento da família, das ocupações domésticas, do cuidado com o vestuário, do asseio no corpo. As raparigas vão perdendo nessas escolas o viço juvenil e a beleza natural, adquirindo precocemente rugas na testa, semi-cerrando os olhos no jeito da miopia, usando óculos que lhes dão um ar feio, tristonho e doentio. Mal vai a mulher quando passa a baixar os olhos, como quem procura um valor perdido, e a olhar para o chão. Ao conversarem com os rapazes, em vez de se exprimirem numa linguagem hiperbólica, tão característica do sexo feminino, passam a falar com ironia, em sinal evidente de doblez de personalidade. Os rapazes conversam com elas, mas procuram outras quando se propõem casar. Nenhum estudante prudente incorrerá no erro de namorar uma colega de curso, quer dizer, uma futura competidora na mesma profissão. Ele prevê que, tarde ou cedo, a mulher instruída será capaz de o criticar e de o humilhar, estabelecendo comparações com outros oficiais do mesmo ofício. A semelhança de estudos e de preocupações profissionais é contrária àquela complementaridade espiritual e anímica que convém para a boa harmonia conjugal. Quando os cônjuges exercem a mesma profissão superior, o marido surpreende-se a observar que a sua mulher, sujeita como ele à escolaridade oficial, não teve tempo de ser suficientemente instruída nos assuntos referentes à habitação, ao mobiliário, ao vestuário e à alimentação. Lembrar-se-á de sua mãe, ou de suas irmãs, lamentará que o seu lar tenha de ser confiado a outra pessoa de família, dotada de maior vocação feminina, ou entregue a serventes mercenárias, que anulam as tradições.





Nem todas as raparigas se submetem à escolaridade preparatória para os estudos superiores. As que desistem, desviam a sua actividade para o trabalho nos escritórios do comércio e da indústria. Está o erro na lei que considera o curso geral dos liceus um curso de cultura geral e também um curso de habilitação profissional, visto que exige a respectiva certidão a quem pretenda ingressar nos primeiros quadros da burocracia. Está o erro na lei que não considera diferenças de idade nem diferenças de sexo nas condições de acesso aos empregos particulares e públicos. Admitida nos ambientes de trabalho, a mulher deixa de dedicar as manhãs à vida doméstica, e até de aperfeiçoar os cuidados com a sua própria pessoa. Integrada nos ambientes de trabalho, a mulher perde a paciência de esperar até aos vinte e cinco anos a vocação, ou chamada, para o matrimónio. Atraída pelos enganos do ambiente social, a mulher deixa de cumprir a sua missão natural.

Transferidas, assim, das suas residências particulares para os lugares de maior ou menor acesso ao público, as mulheres vão involuntariamente aprendendo a falar como os homens, numa pobre estilização sem beleza. Talvez falem com rigor, com exactidão, com propriedade, como nunca falariam no recato doméstico ou nas reuniões mundanas, mas usam por isso mesmo de certos modos de dizer, ásperos e deselegantes, que os homens não gostam de ouvir. Com a garganta rouca e a voz seca, as mulheres já não sabem o que dizem. Não sabem, não saboreiam a terna e líquida linguagem da sua espontânea invenção. Em vez de causar encanto, a palavra feminina passa a causar atrito.

Vemos as mulheres envelhecendo nas repartições públicas, conversando umas com as outras acerca de descontos, faltas e licenças, ou comentando as diferenças e excepções que perturbam a rotina burocrática; depois, à mígua de assuntos mais emocionantes, apreciam as intrigas que constam acerca dos seus colegas e dos seus superiores. A inveja está sempre à espreita, e para que ela não fale, acabam-se os abusos, cortam-se as diferenças, restabelece-se a igualdade.

Vêmo-las também nos postigos vidrados ou nos balcões de madeira, inspeccionando com azedume e minudência os papéis que lhe são apresentados pelos simples particular que requer um favor, pelo cidadão contribuinte que pretende exercer um legítimo direito, e até por quem deseja receber o devido pagamento de um trabalho já realizado. Elas não perdoam ao pobre desconhecido a ignorância de um artigo da lei, o erro de um algarismo ou de uma letra, a alteração de uma palavra do formulário, o atraso de uma hora no prazo. Recusam-se a receber os papéis, e alegam que cumprem ordens dos seus superiores, aos quais devem obediência. Não querem, não podem ou não sabem ser tolerantes para com quem anda a perder o seu dinheiro, o seu tempo e a sua paciência na via triste de repartição em repartição. A verdade é que em consequência de vários desenganos, as mulheres empregadas perdem a natural compaixão para com os que sofrem, e não se mostram condescendentes para com os erros alheios. Vendo sofrer os outros, por causas de que não são responsáveis, tiram como que uma inconsciente ou secreta vingança da severa disciplina a que estão submetidas.




Muitas vezes a funcionária sabe, porque a sua consciência lhe diz, que nem sempre o que é legal é por isso mesmo justo; mas tal ciência não a inibe de aplicar mecanicamente a lei, o decreto ou o regulamento. É que o mínimo afastamento da interpretação literal e da aplicação mecânica de qualquer lei pode ser interpretado como um abuso de poder, e, consequentemente, provocar represálias da parte dos superiores hierárquicos. Dá quase sempre mau resultado consultar os superiores quanto aos casos indefinidos, e mais ainda informar por escrito dos inconvenientes sociais que pode ter a prática rigorosa de um preceito legal, mas injusto. Aliás, a contribuição dos funcionários inferiores para o aperfeiçoamento do serviço público é quase sempre desdenhada, repelida ou anulada; não consta como elemento de promoção na carreira profissional; não é apreciada pelo seu valor moral. Tal indiferença dos superiores para com o zelo dos inferiores exerce um amargo desgaste sobre as possibilidades criadoras do trabalhador de qualquer ordem, seja homem ou mulher.

A deformação profissional, obrigando a ver na lei, no decreto ou no regulamento uma espécie de máquina intelectual cujos rodísios são os artigos, as alíneas e os números, espelha-se numa mentalidade de necessitarismo intelectual que actua inflexivelmente. As mulheres respeitam a ordem escrita, e trabalham com rigoroso jeito de dedicação aos seus superiores. Falta-lhes, por isso, o engenho capaz de lutar contra a rotina, de contornar os obstáculos burocráticos, de facilitar o serviço público. Os homens, pelo contrário, mostram-se muito mais compreensivos das dificuldades dos seus semelhantes, e quando querem usam da imaginação para resolver com rapidez os mais difíceis problemas administrativos.

Também no domínio do trabalho fabril o preceito moderno dos direitos iguais para homens e mulheres tem sido aplicado precipitada e levianamente, sem consideração das diferenças psicológicas entre os dois sexos. Foram esquecidas as verdades que eram conhecidas na Antiguidade e na Idade Média, mas que pareciam inadequadas ao ambiente onde existem máquinas, - máquinas metálicas ou máquinas mentais, - como nas oficinas, nos escritórios e nas repartições públicas.

Estudos recentes de sociologia do trabalho mostram que homens e mulheres cooperam de diversos modos no mesmo ambiente, conforme as mútuas disposições de simpatia ou antipatia. Entre os homens é relativamente fácil que sujeitem as suas amizades ou inimizades a uma disciplina comum. Nos ambientes mistos, em que trabalham pessoas dos dois sexos, já não é assim. As probabilidades do rendimento do trabalho variam conforme as tarefas são distribuídas a pessoas de um ou outro sexo, e diminuem por influência de factores de perturbação que só a pouco e pouco vão sendo determinadas pelos sociologistas (15).

A ascensão da mulher às profissões superiores que exigem preparação universitária deixa prever, e enunciar, o problema sociológico do destino moral das futuras gerações. A influência social da mulher será cada vez maior; mas há que distinguir entre a mulher cultivada segundo os padrões da mentalidade masculina, e a mulher cultivada segundo as tradições, de harmonia com os fenómenos naturais. Nos estritos limites da disciplina que cultiva, a mulher pensará segundo a ciência, e portanto será firme, não se sujeitará às oscilações da opinião. Nos outros domínios da influência social, a mulher seguirá predominantemente uma opinião conservadora. Compete-lhe mantes as instituições estabelecidas e respeitar os legítimos representantes. A mulher tende a ver em cada militar um herói, em cada professor um sábio, em cada sacerdote um santo; mas porque não meditou profundamente no que é a heroicidade, a sabedoria e a santidade, dificilmente admitirá que haja excepções à regra. Só por um motivo sentimental, por ódio ou por amor, se desviará da linha da apologia, quebrará a sua docilidade; mas, ainda assim, a admissão forçada de um caso excepcional não altera a aceitação benévola da sociedade que lhe convém conservar.


Conforme observam vários sociólogos, a mulher mostra-se pressurosa a resolver casos pessoais, numa solicitude admirável em comparação com o egoísmo masculino, socorrendo os degenerados, os desgraçados e os infelizes.

Herbert Spencer, ao tratar magistralmente da psicologia comparativa dos dois sexos humanos, observa «a aptidão da inteligência feminina para considerar o que está próximo e o que é concreto, de preferência ao que é abstracto e está distante. Na mulher, a faculdade representativa é pronta e nítida para o pessoal, para o especial e para o imediato, mas apreende com dificuldade o geral e o impessoal. A representação nítida das consequências directas e simples exclui quase sempre do seu espírito a das consequências complexas e indirectas». Depois de apresentar exemplos extraídos da vida doméstica prossegue: «Esta  diferença na maneira de apreciar as consequências influi nos seus juízos acerca das questões sociais; é por esta razão que as mulheres cometem, mais vezes do que nós, o erro de pensar no bem público imediato, que procuram realizar, sem pensar nos males públicos mais afastados» (16). Quer dizer, ainda quando se dediquem a trabalhar em instituições de assistência, prestando auxílio imediato a uma pessoa ou a uma família, não perguntam a si mesmas porque é que tais casos se repetem incessantemente, e agravam a estabilidade no erro que caracteriza as sociedades conservadoras. Incapaz de perscrutar até ao pecado original a causa secreta, mas operante, da infelicidade humana, porque na sua alma ignora os malefícios do instinto de nutrição e do instinto de agressão, a mulher será sempre incapaz de compreender o que é nos povos o verdadeiro anseio de Justiça (in ob. cit., pp. 138-144).


Notas: 

(15) Jorge Simmel, Cultura Feminina y otros ensayos, Traducción directa del alemán, Quinta Edición, Buenos Aires, 1943. É o volume número 38 da Colección Austral.

(16) Herbert Spencer, Introduction à la Science Sociale, Deuxième Édition, Paris, 1875, Cap. XV, pp. 410-411.


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