quinta-feira, 14 de junho de 2012

A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade - Por António Quadros

Escrito por Orlando Vitorino







«O. V. começa por fazer a descrição crítica do nosso actual ensino (...) subordinado a uma visão colectivista, marxista e reducionista (...) e que fomenta uma igualização ou uniformização pelo inferior destinada a forjar inferiores ou escravos (...) Depois da crítica, O.V. propõe, não só a extinção da Universidade, o reconhecimento de todas as formas de ensino livre e o abandono do predomínio do Estado na organização do ensino, mas também o primado da filosofia no ensino, entendendo-se que todo o ensino depende, não de uma filosofia, mas da filosofia (...) Seguindo a ideia, já defendida por Leonardo Coimbra e Delfim Santos, de que as reformas não conseguirão nada, o autor faz a proposta de um ensino completamente diferente...».

António Quadros (in «Tempo», 18/1/85).


«Temos apresentado e repetido - em folhetos, em artigos, em conferências e em livros - todos os argumentos que concluem pela necessidade de extinguir a Universidade. No entanto, desde o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra até ao caloiro da Faculdade de Direito e seus aflitos pais, todos nos pedem explicação dessa proposta. Estou cansado de a repetir para, em todos os casos, acabar por obter a concordância de quem a pede. A extinção tem inúmeras razões, desde o estabelecimento da autonomia do ensino superior, autonomia sobretudo científica, até ao facto de a Universidade, estatizada há dois séculos e marxizada há uns quarenta anos, condicionar e determinar toda a organização do ensino, que é, como se sabe, caótica e insusceptível de reforma. É preciso extingui-la para, em vez dela, criarmos escolas privadas de ensino superior.

Como lhe observássemos que já existem entre nós escolas privadas de ensino superior - a Universidade Livre e a Universidade Católica - Orlando Vitorino esclarece:

Essas Universidades só administrativamente são privadas. O seu ensino, a sua didáctica, os seus métodos, os seus cursos, até os seus professores são os mesmos da Universidade do Estado que lhes serve de modelo, modelo imposto como condição para que os respectivos cursos sejam reconhecidos pelo Ministério da Educação, todo ele infiltrado de comunistas nos lugares-chave».

Orlando Vitorino (in «A Capital», 4/11/85).




A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade – Por António Quadros

Este livro de António Quadros vem alinhar na vasta bibliografia que, sobre o problema do ensino, nos nossos dias se alarga, através das gerações contemporâneas, desde António Sérgio e desde Marcello Caetano e Delfim Santos, até Lobo Vilela e Magalhães Godinho, e até Álvaro Ribeiro e Afonso Botelho.

A determinação do problema como sendo uma crise da Universidade e que é, portanto, solúvel mediante uma reforma da instituição, encontra-se em António Sérgio, Marcelo Caetano e Delfim Santos.




A determinação do problema da Universidade como sendo um obstáculo ao desenvolvimento da cultura e que, embora solúvel, faz depender a solução de uma reforma da mentalidade e não apenas da instituição, encontra-se em Álvaro Ribeiro e Afonso Botelho, sobretudo no livro do primeiro: O Problema da Filosofia Portuguesa.

No seu recente livro, António Quadros parece inclinar-se para repor o problema como uma crise institucional e não como um obstáculo cultural. Para isso adopta, por um lado, a relação do ensino com a expressão geracional, relação esta de que se ocupa a parte mais valiosa do livro de Afonso Botelho: O Drama do Universitário – mas substitui o tradicionalismo católico deste escritor pela temática do existencialismo de que ele se afirma, entre nós, o mais operoso representante.

Por outro lado, considerando estabelecidos já os factores da reforma da mentalidade, António Quadros transfere para a cultura, portanto na forma de resultados definitivos, aquilo que, na obra de Álvaro Ribeiro, é processo de revelação pela filosofia. Admite, por conseguinte, o primado que a mentalidade, isto é, os valores espirituais dominantes, e a vivência existencial, ou seja a necessidade de afirmação cultural do Homem, ocupa na solução do problema do ensino.

Mas espera que, por meio de uma reforma das instituições, as Faculdades universitárias sejam susceptíveis de se adequar simultaneamente às exigências espirituais que o ensino supõe nos alunos e às fontes de cultura que os alunos supõem no ensino. António Quadros coloca-se assim dentro de um problema que sempre preocupa os escritores com maior responsabilidade pela cultura, e fá-lo de modo pessoal e original, que procura seja também optimista e construtivo.

Bem compreendemos como é difícil, a quem trate este problema, passar da crítica do ensino, nos justos termos em que ela é feita, à consequente viabilidade de uma solução dentro das instituições tradicionais. Não o conseguiu nenhum dos autores citados, nem, que saibamos, isso foi alcançado na vasta bibliografia portuguesa sobre o problema do ensino. Por civilizado respeito pelas instituições? Por atavismo e formação? Por prestígio social dos títulos universitários? Pela impossibilidade de substituir ao ensino institucional um ensino verdadeiro?

Seja por que for, o certo é que nisso está uma infindável origem de contradições que nelas logo absorvem ou fazem frustrar as sempre necessariamente parciais soluções apresentadas em obras individuais, em planos ou relatórios, em esperanças postas numa reforma ou numa infindável sucessão de reformas das sempre idênticas instituições. Tudo delas se discutindo e criticando e condenando, só a elas se não discute e critica nem condena. Porque tudo que se discute, é por partes que se condena e reforma.

Reformou-se o ensino do latim, por motivos que estão nos argumentos largamente expostos por António Sérgio. Mas se analisarmos tais argumentos, verificamos que eles são igualmente válidos com as inevitáveis variantes, para a quase generalidade das disciplinas liceais. Por que se critica e condena então apenas o ensino do latim? Para não perdermos a esperança nas instituições!

Não vemos na secular história das instituições de ensino exemplos bastantes para podermos falar na possibilidade de uma fecunda relação universitária de mestre-discípulo. Mas fomos discípulos de Leonardo Coimbra. E embora saibamos que só ocasionalmente Leonardo Coimbra foi professor universitário, embora não tenhamos sido seus alunos na Universidade – como José Marinho, como o Padre Dias de Magalhães – ao seu magistério atribuímos um exemplo fecundo do ensino universitário. Para quê? Para não perdermos a esperança nas instituições e assim sermos o reverso do poeta que «onde punha a esperança as rosas murchavam logo».


António Quadros


Bem vemos, pois, como é difícil tratar este problema do ensino. Mas se somos escritores e se somos senhores da nossa responsabilidade poderemos deixar de o tratar? E, ao tratá-lo, poderemos levar às evidentes consequências a crítica, que é o ponto de partida? Ou será, noutro extremo, o problema insolúvel? E se o é, podemos aceitá-lo como tal ou iludimo-nos em sucessivas, frustradas soluções? E todos nós, desde António Sérgio, que ainda terá vivido a grande esperança na reforma constitucional da República, desde Marcello Caetano e Delfim Santos, que viveram a confiança num poder quase criador do Estado, desde Magalhães Godinho, que tudo transfere para uma alteração mais estadual do que real, até Álvaro Ribeiro, que não desespera onde as rosas murcharam, e quando olha Saturno já vê nascer Apolo; até Afonso Botelho e António Quadros, últimos companheiros no mesmo drama, que já é mais vivo nos que se lhes vêm seguindo – todos nós havemos de sofrer ou de sorrir, com paciência ou com ironia, a esta velha história de que o «rei vai nu».

Todos nós o vemos nu, mas creio bem que temos já os ouvidos fechados à voz do primeiro homem de coragem que há-de conseguir gritar-nos isso que todos nós estamos vendo (in Diário Popular, ano XV, n.º 5047, Lisboa, 24 de Agosto, 1956, pp. 17 e 19).


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