sexta-feira, 1 de junho de 2012

Homens e mulheres (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro







O que é verdadeiramente a Escola Formal


Em texto capaz de fazer as delícias da mais sôfrega militância feminista, um tal de Artur Manso, professor universitário tardo de entendimento, acusa Álvaro Ribeiro de machista, quando não mesmo de perfilhar um ponto de vista egoísta perante as notórias diferenças corporais, anímicas e espirituais entre o homem e a mulher (in «Nova Águia», n.º 8). Por outras palavras, o que o dito bedel pretende insinuar é que Álvaro Ribeiro era, nesta matéria, um pensador retrógrado e reaccionário, já que manifestava «o sentimento de um homem, ainda educado sobre o predomínio varonil, a falar dos instintos humanos que não conhece directamente, pois a maternidade é algo que a sua natureza nunca poderá experimentar». Deveremos, pois, presumir que esta criatura bem-pensante conheça directamente os tais instintos a ponto de tecer considerações menos abonatórias sobre a varonilidade.

Ora, uma coisa é certa: o dito-cujo, além de revelar um naco de «prosa» académica parasitária, canhestra e própria de um analfabeto funcional, jamais conseguirá expor e abordar um pensamento cuja expressão actual e varonil é precisamente uma virtude e não um defeito. De resto, o bedel vem mostrar uma vez mais como a Universidade só consegue produzir uma classe bem-falante, ostensivamente estúpida e inepta para interpretar o espírito de uma obra como a de Álvaro Ribeiro. Por conseguinte, não há nada como ler directamente o pensador portuense para descobrirmos a oarística, ou, mais particularmente, o diálogo amoroso entre o homem e a mulher.


Presentemente, o establishment universitário é apenas um peso morto a tentar valer-se do pensamento extra-universitário. Tantos métodos e técnicas nominalmente científicas para nada e que só servem para deformar, ao fim e ao cabo, o pensamento dos autores mais significativos da cultura portuguesa. Quem disto sabia era Orlando Vitorino, cuja ironia varonil perpassa na seguinte passagem somente acessível a leitores e leitoras despidos de ideias políticas avançadas:

«Ao atravessarmos a Serra d’Ossa, lugar dos primeiros eremitas cristãos, descemos ao Vale do Infante, antiquíssimo convento rodeado de pomares, para almoçarmos com o Mário Rui que, depois de ter feito as guerras de África e “casado” com a filha de um soba, ter sido príncipe de uma ilha de negros, ter vivido com os árabes do Saara durante uns anos, agora se dedica particularmente à agricultura e ao estudo da filosofia portuguesa. Mostra-me dois grossos cadernos manuscritos de Álvaro Ribeiro. Espantoso e exemplar documento de trabalho intelectual: os cadernos são todos preenchidos com listas de palavras classificadas segundo nexos mentais. De vez em quando, para abonação, aparece um aforismo do próprio Álvaro. Este, por exemplo: “A mulher tem o cérebro no sexo, o homem tem o sexo no cérebro”.

Serra d'Ossa





Imediatamente me lembro de que José Marinho costumava recomendar, na primavera, aos jovens que estavam na idade dos grandes cios e da iniciação filosófica: “Tens de pôr os testículos na cabeça, meu rapaz!» (in «O processo das Presidenciais 86»).

Miguel Bruno Duarte





HOMENS E MULHERES



«En pocas cosas aparece tan de manifiesto la estupidez habitual de las gentes. Como si el amor no fuera, a la postre, um tema teórico del mismo linaje que los demás, y, por tanto, hermético para quien no se acerque a él con agudos instrumentos intelectuales!».

José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).



Quanto mais estudarmos a mulher, tanto mais nos convenceremos que o destino natural do sexo feminino é a maternidade. A observação anatómica do sistema ósseo, do sistema muscular e do sistema nervoso dizem-nos pouco em relação ao muito que nos é ensinado pela fisiologia. A mulher difere do homem quanto ao sistema respiratório e ao sistema sanguíneo, quanto às glândulas de secreção interna, quanto aos orgãos sexuais, primários ou secundários. A fisiologia da mulher tem, por conseguinte, uma patologia diferente da do homem, isto é, um modo diferente de reacção à dor, e portanto, um diverso condicionamento das emoções, dos sentimentos e das paixões. Como é sabido, o sexo feminino difere principalmente do sexo masculino no período que vai da puberdade à menopausa, visto que quando perde a possibilidade de ser  mãe, a mulher a pouco e pouco se afasta do seu destino natural (1).

Logo ao sair da infância, quando começa a falar, a menina parece proceder como se tivesse consciência da sua missão social, como se pressentisse já na puerícia aquela vocação que só na puberdade lhe será revelada. O seu equilíbrio natural, que se manifesta em movimentos rítmicos e em expressões de simetria; o seu carinho pelas plantas, pelos animais e pelas pessoas, numa atenção cuidadosa a tudo quanto seja de ternura; o seu pudor que se completa pela modéstia, pela humildade e até pela intenção de servir; conformam-se e configuram-se no tipo superior daquele ser amável que é para nós a mulher.



Comporta-se a menina em conformidade com o desejo de ser mãe muito antes de ter sido instruída sobre as noções elementares da função genesíaca. Ela prossegue na sua tendência para o lugar natural. Ela pensa na maternidade, muito antes de pensar no amor. A rapariga fica desagradavelmente surpreendida na primeira vez que é informada de que a reprodução humana se realiza por processo comum ao das espécies animais; depois conforma-se com os ensinamentos da biologia. Nova perturbação lhe é oferecida quando os educadores demasiado puritanos ou preocupados com a castidade, ensinam a falsidade corrente de que o pecado de Adão e Eva foi o pecado da carne. Esta interpretação maliciosa, mais própria de escritores libertinos, não tem garantia alguma nos textos do Génesis (2). Há que procurar outra interpretação para o pecado da alma, visto que Deus não condenou o amor. A donzela continua a pensar na redenção pelo matrimónio. Da sociologia recebe a advertência de que a maternidade só é honrosa, e honrada, quando resultante do casamento, segundo a ética da monogamia, visto que a moral reprova, condena e persegue as mães solteiras. Tudo isto induz a adolescente a pensar na escolha daquele que há-de ser legítimo pai dos seus filhos. Na inteligência feminina, de arquétipo natural, a maternidade é o fim, de que a relação conjugal é apenas o meio (3).

A mulher inteligente usará do direito obtido ao longo dos séculos, de recusar qualquer pretendente, apoiando-se na doutrina de livre vontade, cuja fórmula permanece na liturgia cristã. Mais difícil lhe foi obter o direito de livre escolha, a iniciativa de sedução, porque a tanto obstaram as tradições sociais e os preconceitos de família. Há na alma feminina a justa aspiração de escolher o homem que lhe parece superior, e essa constante feição do seu romantismo vai variando apenas com os tipos sociais. A mulher despreza o homem medíocre, o homem que não se distingue, o homem incapaz de heroísmo. Dir-se-ia que anseia pelo super-homem. É imensa a literatura que narra os episódios dramáticos da luta por este modo de liberdade, e também imensa a literatura demonstrativa de que nem sempre a mulher ficou vencida. A imaginação feminina, de atracção e repulsão, de motivos e quietivos, é como que a magia da carne. Mais natural do que o homem, a mulher situa o seu afecto na carne da sua carne, dá prioridade afectiva às relações de consaguinidade, ignorando talvez as relações espirituais com o amor.

Quando a adolescente diz que ama o pretendente, o namorado ou o noivo, representa-se mentalmente a imagem do homem escolhido, evoca essa figura entre sentimentos de afecto, pelo que podemos julgar que ela não está a mentir. Usa e abusa do verbo amar e do verbo amor porque foi ensinada a expressar-se como um homem. É vítima sentimental dos equívocos de uma linguagem comum. Não mente à pessoa a quem fala, autosugestiona-se, e por consequência mente a si própria. «Falando muito de amor acaba por ficar amorosa. Tal lhe acontece com muita facilidade» (4).



O verbo aimer, com sua gradação semântica, mostra-nos como do simples gosto é possível chegar à complexa paixão. Não negamos que a adolescente seja capaz de ternura, de dedicação, de fidelidade ao homem eleito, nem pomos em dúvida a sinceridade dos seus afectos; discutimos, sim, se a tais qualidades, ou a tais virtudes, corresponde realmente o conceito de amor.

Atendendo ao mundo exterior, onde se realiza o casamento, ela desatende à sua vida interior, de que está inconsciente. O que no íntimo a mulher deseja é obedecer às leis da Natureza, é cumprir a missão conservadora da espécie humana, inspirada por uma teleologia superior que lhe ensina a utilizar a inteligência, a subordinar os meios aos fins (5).

É certo que, na mesma ordem de ideias, a mulher deseja a estabilidade doméstica, pelo menos durante a gravidez, e não é sem razão que pensa na casa antes de pensar no casamento. O vínculo jurídico interessa muito mais ao homem do que à mulher, e com efeito a legislação da família está em todos os países nitidamente subordinada a conceitos masculinos. Que a mulher concorde total ou parcialmente com essa legislação, porque recebeu determinado ensino moral, político ou religioso, não é argumento que invalide a nossa doutrina.

Há que ver as leis, redigidas por homens, e que ler as sentenças, exaradas por homens, para analisar o pensamento dos legisladores e juízes que obrigam o sexo masculino a cumprir os deveres constitutivos e defensivos da família. A severidade das sanções aplicáveis ao homem que enganar a mulher com promessas de casamento atinge às vezes o grau de uma crueldade por demais eloquente. Embora a opinião pública esteja esclarecida por noções actualizadas do que significam a virgindade, a puberdade e a nubilidade para a mulher do nosso tempo, domina ainda em certos ambientes sociais o preconceito ridículo de considerar ingénua, ainda nos joelhos da mãe, a rapariga que já passou pela escola. O velho Código Penal legitima a injustiça de atribuir ao sexo masculino maior responsabilidade dos crimes que lesam a família, e portanto maior culpabilidade, quando é evidente que não pode ser alegada mútua ignorância num acto comum. Se as leis da família tivessem sido redigidas por mulheres, mas por mulheres de alma feminina, já a compreensão de que a culpa é bilateral, quando culpa existe, suavizaria as sanções morais. Tal não aconteceu, porém; e em consequência assistimos ao absurdo de ser entre nós muito mais defendida a mulher virgem do que protegida a mulher grávida. É de notar ainda que, nos mesmos ambientes mal doutrinados, se acentua a tendência para agravar a legislação determinativa de direitos e deveres, o que infringe um princípio elementar da ética, segundo o qual o cônjuge não deve formular contra o outro qualquer acusação que suba ao tribunal. Esta inviabilidade jurídica dos aspectos do divórcio tem fundamento na moral cristã, quando estiver vigente o preceito do infinito perdão das ofensas; confirma-se ela também com a doutrina segundo a qual os conflitos conjugais devem ser entre si resolvidos pelos dois ministros do sacramento, e em último recurso pelo sacerdote.



Grace Kelly




A autenticidade do casamento está em residirem os cônjuges na mesma casa, ou seja, na coabitação. Assim pensa com naturalidade a mulher. O pensamento masculino é capaz de se afastar desse ponto concreto, e de regressar ao dado abstracto ou extracto do registo civil. O jurista não pensa na carne nem na alma, mas só no espírito de uma instituição, e utopicamente constrói uma doutrina da família sobre as relações legais de parentesco, com seus direitos e obrigações. A concretização opera-se nos bens materiais, económicos e financeiros. Ensinadas, no nosso tempo, a pensarem de modo masculino, e aconselhadas até pelos serviços públicos, muitas mulheres sabem já conciliar uma separação de facto com um vínculo fictício, quando requerem ao tribunal a protecção da lei.

O divórcio é, de facto, o contrário da coabitação; de direito é a sentença que legaliza o facto. Para o divórcio tende quanto vá agravando a separação entre os cônjuges. A ficção jurídica não é suficiente para defender a família e garantir a tradição. Quando a mulher trabalha fora do lar, deixa de haver lar.

Não está nas actuais condições económicas, mas na infiltração de sofismas na ordem moral, a motivação do processo dissolvente do lar. Divulgou-se a tese de que a mulher já não se sente dignificada quando recebe o seu sustento em troca de um trabalho familiar, julga mais honroso receber o dinheiro de uma entidade patronal, ou de um patrão, do que da sua própria família. Ora o dinheiro é a figuração mais nítida do útil, do utilizável e portanto de um poder que desloca, altera e adultera os valores. A exortação a que seja independente do pai, do irmão e até do marido, estimula a vontade da mulher que se propõe sair de casa para trabalhar por conta alheia. É verdade que o trabalho familiar não tem sido reconhecido por lei, nem gratificado pela moral. O homem abusou da dedicação da mulher, mas tal injustiça é hoje evidente. Nestes motivos de ordem ética e de ordem psicológica, que não devemos nem podemos confundir com qualquer necessitarismo sociológico, baseado em descrições de circunstâncias contingentes, é que está a causa do movimento chamado de emancipação da mulher.

A mulher, dotada de superiores recursos de adaptação, encontrará emprego em mais baixo ou mais alto grau da escala social. Começará por trabalhar nos mais rudes serviços de limpeza das habitações, se não tiver quaisquer graus escolares, mas preferirá utilizar as suas aptidões nas indústrias da alimentação, do vestuário e do mobiliário. Na medida em que tiver habilitações escolares equivalentes às dos homens, irá competir com eles nos escritórios, nas repartições públicas, nas profissões liberais. Seja dito que, em igualdade de condições e de circunstâncias, a mulher fará trabalho superior ao do homem, mas para se colocar nessa igualdade de circunstâncias, terá a mulher de desistir de algumas das suas características e resignar-se a perder a sua vocação.

A argentina Mia Maestro


O trabalho muscular, que em qualquer profissão é exigido à mulher, não lhe aumenta a beleza. Com efeito, pelo exercício os músculos vão-se desenvolvendo e tomando o lugar das camadas gordurosas. Os músculos fusiformes que ladeiam o cúbito e o rádio são denunciados pela aparência dos respectivos tendões, tornando mais escuro o antebraço, menos roliço e mais polifacetado, mais feio o pulso. Nos cotovelos, que as mangas curtas deixam ver, a pele endurece, torna-se tão áspera que parece suja. A mão nervosa obriga a emagrecer os dedos. As ancas vão alargando, em progressiva adaptação às cadeiras, e a cinta vai tomando a medida dos ombros. Os músculos extensores da tíbia e do perónio deixam aparecer saliências, e já não há tornozelo delicado que os sapatos realcem. Um corpo que trabalha é marcado pela fadiga. A pele deixa de ser aveludada; torna-se sedosa e depois rugosa. O sulco naso-labial regista o sofrimento, quando a testa começa a estar vincada de rugas, e os olhos mortiços pedem o auxílio dos óculos. A mulher perde a natural magia e, consequentemente, o poder da sedução.

A mulher não suportará sem perigos para a saúde, e para o equilíbrio moral, o voto de virgindade perpétuo, mas em compensação suportará longamente o celibato, a desistência de coabitação com o homem, afirmando com orgulho que se basta a si própria. Em muitos casos declarará que não tem pena de não se ter casado, mas chegará quase sempre a confessar o desgosto de não poder ter sido mãe. Se a transferência do instinto maternal realiza por vezes admiráveis obras de misericórdia que constituem uma coroa de glória para a mulher, certo é também que a involuntária esterilidade se exprime na maior parte das vezes por um ressentimento contra as causas de frustração e exprime-se em formas larvadas de instinto combativo.

É a maternidade, e não o casamento o que verdadeiramente interessa à mulher. Ao homem cumpre fixar a mulher no casamento, porque só desse modo assegura a estabilidade moral. Curioso é, porém, observar que o homem assista indiferente à nova justificação que a mulher alega para não se casar. Há falta de sinceridade, para não dizer hipocrisia, nesta situação em que se colocou o sexo masculino. Ao consentir para as mulheres dos outros o que não deseja para a sua mulher, quer dizer, para a mulher que ama, para aquela a quem dá o melhor do que possui, a quem liberta de cuidados, encargos ou obrigações, segundo as leis constantes do coração humano e praxes dificilmente alteráveis, o apologeta do trabalho feminino exprime em crueldade o seu requintado egoísmo. Se o doutrinador atribuísse o mesmo sentimento a cada um dos seus semelhantes, lhe concedesse o mesmo direito, e pretendesse organizar a sociedade em consequência dessa doutrina, rapidamente desapareceriam das fábricas, dos escritórios e das repartições todas as mulheres casadas (in Escola Formal, Guimarães Editores, pp. 117-124).


Notas:

(1) Jules Michelet, L'Amour, Paris, 1859.

(2) Mgr. Bernard Bartmann, Tomo I, p. 321, Mulhouse, 1951.

(3) Maurício Maeterlinck, A Inteligência das Flores, Tradução de Cândido de Figueiredo, Lisboa, 1918.

(4) «À force de parler d'amour, on devient amoreux. Il n'y a rien de si aisé. C'est la passion la plus naturelle à l´homme». Discours sur les passions de l'amour, atribuído a Pascal (1623-1662).

(5) Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor, Capítulo XLIV, Apêndice ao Livro IV da obra intitulada O Mundo como Vontade e Representação.








Continua


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