terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Verdade do Amor (ii)

Escrito por Vladimiro Soloviev



«Os teus olhos!

Sabes lá o que são os teus olhos!

Se soubesses, andavas na vida sem nunca cerrares as pálpebras para que ninguém fosse ao frio e infeliz.

(...) Os teus olhos: janelas onde se debruça Deus a espreitar os caminhos e a encher de madressilvas a pobreza dos que passam.

Não faças caso, meu Amor, não faças caso de mim, não te quero para o meu egoísmo: olha o mundo e seus caminhos amargosos, e os pobres serão ricos e o cardo ressequido será açucena e cotovia, fonte a murmurar ternuras e Aurora a doirar os montes».


Leonardo Coimbra («Adoração»).


«(...) el amor es um hecho poco frecuente y un sentimiento que sólo ciertas almas pueden llegar a sentir; en rigor, un talento específico que algunos seres poseen, el cual se da de ordinario unido a otros talentos, pero puede ocurrir aislado y sin ellos.

(...) Hay que ser vitalmente curioso de humanidad, y de ésta en la forma más concreta: la persona como totalidad viviente, como módulo individual de existencia. Sin esta curiosidad, passarán ante nosotros las criaturas más egregias y no nos percataremos. La lámpara siempre encedida de las vírgenes evangélicas es el símbolo de esta virtud que constituye como el umbral del amor».


José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).


«Nos animais, a vida do género tem primado absoluto sobre a vida do indivíduo: é por isso que a manifestação mais intensa da vida individual se realiza para mero benefício do desenvolvimento da espécie.

(…) Graças ao poder ilimitado de extensão e de continuidade, da sua constância no estado sucessivo, o homem, sem perder a sua identidade, pode apreender e realizar a plenitude ilimitada da existência, e, por esta razão, consideramos inúteis e impossíveis todos os seres que pretendessem vir substituí-lo. Nos limites da sua realidade corpórea, o homem não representa mais do que uma parte da natureza, mas ultrapassa fatal e constantemente estes limites; nas suas produções espirituais – religião, ciência, moralidade e arte –, mostra-se ser o centro da consciência geral da natureza, a alma do mundo, o estado de potência que se actualiza no todo; se assim é, só o próprio e verdadeiro absoluto, no seu acto perfeito ou na sua perfeita existência – referimo-nos a Deus –, lhe pode ser superior».


Vladimiro Soloviev





IMANÊNCIA E TRANSCENDÊNCIA DA VERDADE

O privilégio de que o homem goza, em relação aos outros entes naturais – a faculdade de conhecer e de realizar a verdade –, compete não só à raça, mas também ao indivíduo. Todos os homens são capazes de conhecer e realizar a verdade, cada qual pode vir a ser um vivo reflexo do conjunto integral absoluto, universal. O resto da natureza também possui a verdade (ou a imagem de Deus), mas imanente na generalidade objectiva, porque permanece ignorada dos entes particulares. É esta verdade que os forma, que actua dentro deles, através deles, como uma força fatal, como a lei da sua existência, lei que eles desconhecem, lei a que se submetem involuntariamente. Eles não podem, no seu sentimento e na sua consciência interna, erguer-se para além da existência limitada; encontram-se num estado particular de isolamento em relação a tudo, e, por conseguinte, fora da verdade. Eis por que a verdade, ou o que é geral, não pode nesses seres triunfar senão pela substituição sucessiva das gerações, pelo desaparecimento de cada vida individual, que não é portadora de verdade. Dá-se o contrário com a personalidade humana. Esta compreende dentro de si a verdade e não pode ser suprimida por ela; afirma-se, conserva-se e aperfeiçoa-se exactamente quando triunfa a verdade.

Ora, para que o ser individual encontre a sua justificação e a sua confirmação na verdade – na unidade de tudo –, tem que existir no seio da verdade, enquanto que original e imediatamente, o homem individual, como o animal, não se encontra no seio da verdade. O homem começa por se encontrar a si próprio, tal como uma partícula isolada do conjunto integral universal, como se ele conseguisse tornar-se um todo em si próprio ao isolar-se de tudo, colocando-se, portanto, fora da verdade. O egoísmo, princípio real, fundamental, da vida individual, penetra-a, dirige-a inteiramente, e determina tudo concretamente. É por esta razão que a consciência teórica da verdade não pode esmagá-lo, nem suprimi-lo. Enquanto a viva força do egoísmo não encontrar no homem outra força viva, oposta à primeira, a consciência da verdade não constituirá mais do que uma iluminação exterior, reflexo de uma luz estrangeira. Se o homem só compreendesse a verdade pela cultura, o vínculo entre a sua individualidade e a verdade não seria interior e indissolúvel; e se o seu próprio ser ficasse, como o animal, fora da verdade, seria como este, condenado à ruína, não se conservando mais do que como uma ideia no pensamento do Espírito Absoluto.




A verdade que, como uma força viva, se apodera do ser interior da pessoa, e depois a liberta da falsa afirmação de si própria, tem o nome de amor. O amor, entendido como efectiva abolição do egoísmo, constitui a verdadeira justificação da individualidade, a sua salvação real. O amor é mais amplo do que a consciência racional, mas, sem a razão, não poderia actuar como força interna salutar, que dignifica a individualidade sem a aniquilar. Só graças à consciência racional (ou, o que é a mesma coisa, graças à consciência da verdade) é que o homem pode separar do seu egoísmo a sua própria personalidade, quer dizer, a sua verdadeira individualidade. Por esta razão, ao sacrificar este egoísmo, ao dar-se por entrega ao amor, é que o homem adquire não só uma força viva mas também uma força vivificante; longe de perder o seu ser individual, encontra-o e torna-o eterno.

No mundo dos animais, que não são dotados de consciência racional, a verdade que se realiza no amor não encontra ponto de apoio interno para a sua acção; não pode agir directamente sobre os animais senão como força exterior e fatal, força que se apodera deles como de instrumentos cegos para fins cósmicos que lhes permanecem estranhos; o amor surge então como uma vitória unilateral do que é geral e genérico sobre o individual, tanto mais que nesses entes, o individual coincide com o egoísmo pelo carácter imediato da existência particular, tanto mais que, pela mesma razão, desaparecem ambos ao mesmo tempo.


EGOÍSMO E ALTRUÍSMO

De um modo geral, poderemos dizer que o intento do amor humano é a justificação e a salvação da individualidade pelo sacrifício do egoísmo. A partir desta base ser-nos-á possível resolver o problema a que nos cingimos: explicar a verdade do amor sexual. Há razão para que as relações dos sexos humanos possam em muitos casos merecer o nome de amor, e também não é sem razão que, na opinião geral, elas representem e simbolizem o amor por excelência, que sejam propostas como tipo e ideal de todas as outras espécies de amor (ver Cântico dos Cânticos e o Apocalipse).




A falsidade e o mal do egoísmo não consistem de modo algum no facto de uma pessoa atribuir a si própria uma importância absoluta e uma dignidade infinita; ao proceder assim procede ela com razão, porque cada ser humano, sendo um centro independente de forças vivas, capaz de realizar uma perfeição infinita, como ser que pode conter a verdade absoluta na sua consciência e na sua vida, possui por esta qualidade uma importância e uma dignidade absolutas, apresenta algo de absolutamente insubstituível, cujo valor nem sequer pode ser apreciado. Tal é a palavra do Evangelho: «Que daria um homem em troca da sua alma?» (Mateus, XVI, 26). Não reconhecer esta importância absoluta da pessoa humana, não a reconhecer em si próprio, equivale para o homem à renúncia de toda a dignidade; é este o erro primordial, o erro pelo qual entra na alma a descrença. Será sempre um pusilânime aquele que nem sequer tiver força de acreditar em si próprio: como poderá acreditar em mais alguém?

A mentira fundamental e o mal do egoísmo não consistem naquela consciência e nesta apreciação absolutas de si próprio; consistem na injusta recusa de cada homem reconhecer aos outros a mesma importância absoluta; lá porque se julga no centro da vida social, com toda a razão, o homem egoísta contacta e contrata com os outros apenas em superfície, porque lhes atribui um valor periférico e relativo.

A razão proclama igualdade completa de todos os direitos humanos, e quem não perde a razão assume consciência da verdade deste princípio; mas no íntimo da sua vida, no seu sentimento interior e no seu procedimento moral, o egoísta afirma uma diferença imensa, a total incomensurabilidade, entre ele e o próximo; tudo para si, nada para os outros.

Ao insistir nesta absolutidade sem reciprocidade, o homem torna impossível a realização do que afirma. O trânsito da potência ao acto depende exactamente de atribuir aos outros a importância que se atribui a si próprio. Deus é tudo, quer dizer, num só acto absoluto possui todo o conteúdo positivo da potência, toda a plenitude da existência. O ente humano, em geral, é cada homem individual, em particular, estando qualificado como uma certa pessoa e não como outra qualquer, pode vir a ser tudo; mas para isso terá de abater na sua consciência e na sua vida os limites que o isolam de outrem. Ao dilatar-se terá que interessar os outros; com todos terá de realizar a sua significação absoluta, a qual consiste em tornar-se uma parte individual e insubstituível do conjunto, um órgão vivo, independente e original de uma vida absoluta.

A verdadeira individualidade é uma certa e determinada imagem de uma unidade geral, um certo modo de recepção e de assimilação do todo. Quando se afirma liberto de todas as coisas, quando diz que se basta a si próprio, o homem renega o princípio da sua própria existência, esvazia de conteúdo a sua verdadeira vida, e transforma a sua individualidade numa forma vã. Assim é que o egoísmo, longe de significar a consciência e a afirmação da individualidade, representa a abnegação e a anulação do verdadeiro ser humano.


As condições metafísicas e físicas, históricas e sociais da existência humana operam sobre o nosso egoísmo, que enfraquecem, opondo-lhe várias e fortes barreiras, ou mostrando-lhe a fealdade dos seus efeitos nocivos. Mas todo este sistema complicado de barreiras e correcções desejado pela Providência, realizado pela natureza e pela história, não fere o egoísmo no seu cerne. O egoísmo permanece sempre ao abrigo das convenções sociais e da moral humana para voltar a manifestar-se claramente, quando a ocasião lhe for propícia. Há só no mundo uma força capaz de extirpar o egoísmo da alma humana, de o secar nas suas raízes, e de o queimar completamente: essa força é o amor, mas principalmente o amor sexual.

A mentira e o mal do egoísmo consistem no reconhecimento da importância absoluta do eu, seguido de um exclusivismo tal que negue e contradiga a mesma importância nos outros; a razão não cessa de mostrar a inanidade, a iniquidade e a injustiça dessa atitude; mas só o amor é capaz de a corrigir e de a abolir, porque contra a nossa vontade nos obriga a reconhecer a importância absoluta que outra pessoa deve ter para nós, não já como tese racional a admitir abstractamente pela consciência, mas como sentimento íntimo e motivo propulsor da nossa vida. Ao reconhecer pelo amor a verdade de outra pessoa, não já abstractamente mas concretamente, essencialmente, ao transferir o centro da vida para além dos limites da individualidade empírica, manifestamos e realizamos a nossa própria verdade, a nossa significação absoluta, que consiste precisamente na aptidão para ultrapassar os limites da existência fenomenal, na capacidade de viver não só em si e para si, mas também em outra e para outra pessoa.

O amor é a manifestação desta aptidão. Nem todos os amores a manifestam no mesmo grau, e raros amores conseguem destruir o egoísmo até à raiz. O egoísmo é uma força, não só uma força real mas também fundamental com raízes no centro mais íntimo da nossa existência com ramificações que abraçam e envolvem toda a nossa realidade, enfim, uma força que actua sem cessar sobre todos os pormenores e todas as particularidades da vida humana. Só outra força a pode anular, só outra força que também se apodere de todo o nosso ser e que o penetre até ao cerne, só o amor pode vencer o egoísmo. Ora para redimir ou libertar a nossa individualidade das cadeias do egoísmo, o amor tem de lhe ser comparativo ou proporcional, tem de encarnar num ser tão real, concreto e objectivo como nós próprios, e ao mesmo tempo, de se distinguir de nós como outra realidade, em suma, possuindo completamente o mesmo conteúdo essencial que nós possuímos, possuí-lo de outra forma, de outra maneira ou de outro modo. Cada manifestação do nosso ser, cada acto vital estará em relação com outra manifestação semelhante, o que não quer dizer idêntica; haverá então permuta constante, conformação completa e constante do próprio ser no ser alheio, acção recíproca e comunhão perfeita. Só assim poderá ser extirpado o egoísmo, e depois extinto, não somente em princípio doutrinário mas em toda a realidade concreta. Esta união ou, por assim dizer, esta combinação química de dois seres homogéneos e equivalentes, mas formalmente diferentes em todos os seus caracteres, é que torna possível, tanto na ordem da natureza como na ordem do espírito, a criação de um novo homem, a realização efectiva da verdadeira individualidade humana. Uma união como essa, ou, pelo menos, a sua mais próxima semelhança, é a que observamos no amor sexual. Eis porque lhe atribuímos uma significação e uma importância exclusiva, pois nela vemos o fundamento necessário e insubstituível do aperfeiçoamento ulterior, a sua condição indispensável e constante. Ao realizar esta condição é que o homem pode realmente viver na verdade.


O AMOR E OS SEUS FICTÍCIOS SUBSTITUTOS



Um falso espiritualismo e um impotente moralismo desejariam substituir o amor sexual por outras espécies de amor. Sem desconhecer a maior importância e a alta dignidade de superior vida amativa, que não discutimos no âmbito deste nosso escrito, confessamos parecer-nos que só o amor sexual poderá dar plena satisfação às duas exigências fundamentais que tornam possível a supressão definitiva do egoísmo na comunhão plena da vida com outra pessoa.

Em todas as outras espécies de amor faltam a homogeneidade, a igualdade e a reciprocidade entre o amante e o amado, como faltam também as diferenças multiformes dos traços característicos que mutuamente se completam.

É assim que, no amor místico, o objecto do amor reduz-se finalmente a uma indiferença absoluta que absorve a individualidade humana; neste amor, o egoísmo parece insuficientemente anulado, tanto quanto o parece num sono profundo; é efectivamente com o sono que nos Upanishedas e no Vedanta se compara a união da alma individual com o espírito universal, quando os textos não se referem claramente a uma identificação. Entre o ser humano e o Abismo místico, apesar da heterogeneidade completa e da incomensurabilidade de dimensões, não são possíveis nem a compatibilidade de existências nem a comunhão de vivências: permanece muito mais o objecto do amor do que o sujeito, porque o amante ao perder a sua personalidade, também desaparece, cai num sono profundo sem imagens.

Logo que desperta, desvanece-se o objecto do seu amor; então, em vez da indiferença absoluta, começa a multiplicidade da vida real a projectar-se num fundo de egoísmo pessoal, de egoísmo com laivos de orgulho espiritual. A história relata casos de místicos, e até de completas escolas místicas, em que o objecto de amor já não era visto como indiferença absoluta, mas segundo formas diferenciadas e concretas, que tornavam possível a existência de relações humanas. Observação curiosa é a de que tais relações tendiam para apresentar caracteres evidentes de amor sexual.

O amor paternal, e mais ainda o amor maternal, assemelham-se ao amor sexual, tanto pela intensidade do sentimento como pelo carácter concreto do objecto; mas, por outros motivos, não podem oferecer ao ente humano um valor tão alto como o do amor conjugal. O amor dos pais está condicionado pela repartição entre os filhos e pela lei das sucessivas gerações, o que também é dominante na vida animal, mas que não tem – ou, pelo menos, não deve ter –, tal importância na vida humana. Nos animais, a geração seguinte suprime directa e rapidamente os seus predecessores, cuja existência considera absurda aos olhos dos sucessores. A mulher realiza por vezes o amor maternal em grau tão elevado de sacrifício pessoal que não logra semelhante entre as aves e os mamíferos superiores, o que significa certamente um estádio necessário na ordem das coisas. Seja como for, o que é certo é que no amor maternal não pode haver completa reciprocidade, nem comunhão de vida pela simples razão de pertencerem a gerações diferentes aquela que ama e aqueles que são amados. A vida tem preparada, para estes casos, novos interesses e tarefas independentes; projecta-se no futuro; por isso eles não podem ver nos representantes do passado mais do que sombras movediças e estranhas. Temos de nos convencer de que os filhos não vivem para a realização da felicidade dos pais. A mãe, ao dedicar-se de alma inteira aos filhos, sacrifica o seu egoísmo, mas também perde ao mesmo tempo a sua individualidade. Não assim quanto aos filhos, porque ainda quando correspondem amorosamente ao amor maternal, conservam o seu egoísmo que vão a pouco e pouco reforçando. Além disso, o amor maternal, a dizer a verdade, não reconhece a importância absoluta do ente amado, nem lhe respeita a personalidade. A mãe preza acima de tudo o seu filho, porque é seu, porque lhe é próprio e propriedade – tal como acontece em todas as espécies animais. Nisto vemos a prova de que, para admitir, reconhecer e respeitar o valor absoluto da pessoa humana, é indispensável que esta apareça revestida de exteriores condições fisiológicas.




Respeitamos o amor místico e o amor por consaguinidade, que não podem ter a pretensão de substituir o amor sexual, mas ainda menos do que eles podem ter tal propósito os outros sentimentos simpáticos de que vamos falar.

Falta à amizade entre pessoas do mesmo sexo a distinção formal das qualidades que se completam mutuamente. Quando a amizade se torna por demais intensa e expressiva, logo se transforma num sucedâneo de amor sexual, e tende para vícios contrários à natureza.

Quanto ao patriotismo e ao humanitarismo, que são muito mais ideologias do que sentimentos, não lhes negamos a existência de factores da vida afectiva, mas afirmamos que não podem extirpar de modo concreto e completo o egoísmo do ente humano, porque a tal não é propícia a incomensurabilidade entre o amante e o amado. Por muito que pareçam personificadas a Pátria e a Humanidade, certo é que elas não podem constituir um objecto capaz de ser concretamente cingido pelos braços humanos. Se é certo que um homem pode morrer para se sacrificar pela Pátria ou pela Humanidade, e se também lhe pode dedicar a vida inteira, o que já é mais difícil, não é verdade que tal amor tenha por consequência a procriação de um novo ente humano, nem a sublimação do egoísmo para manifestar e realizar a liberdade da pessoa humana. O velho eu, permanece no centro da alma, não morre para deixar nascer o novo homem, porque o patriotismo e o humanitarismo são repelidos para a periferia da consciência, como ideias, ideais ou ideologias, simbolizadas pelas palavras Pátria ou Humanidade.

Crítica análoga se poderia fazer às expressões erróneas do amor da ciência, da arte e de outras entidades paralelas.

O verdadeiro amor é o amor sexual, e caracteriza-se pela superioridade em relação aos sentimentos do mesmo género, e por contraste com as falsas e fictícias expressões do amor… (in ob. cit., pp. 54-65).

sábado, 26 de novembro de 2011

A Verdade do Amor (i)

Escrito por Vladimiro Soloviev



Vladimiro Soloviev

Apresentação de Álvaro Ribeiro

«(...) A liberdade humana, quer dizer, a liberdade do indivíduo, mas também a da família, a do trabalho, a da corporação, consideradas em totalidade religiosa, convergem para um destino, uma tendência ou um fim que se realiza pelo Amor. A ideia do amor, segundo Vladimiro Soloviev, é daquelas a que o homem nunca poderia chegar só pelos recursos da sua inteligência finita, quer dizer, é uma ideia que nem todos os homens ainda entendem, um mistério que nos foi sugerido pela revelação. Efectivamente, observamos que, submetida à lei dos três estados, a ideia do amor desaparece do pensamento humano, visto que a respectiva palavra não tem correspondente noção no quadro positivo da classificação das ciências. Será de mínima importância a objecção de que a ideia do amor ressurge na síntese subjectiva e na religião da humanidade, antecedendo até a ordem e o progresso, porque as últimas expressões do pensamento de Augusto Comte não foram duradouros factores do positivismo dominante na propaganda republicana.

Excluir um problema do domínio do pensamento, e da filosofia, não é o mesmo que eliminá-lo por destituído de significação, segundo o dogmatismo lógico dos novos positivistas; excluir um problema do domínio do pensamento é transferi-lo para o domínio do sentimento, e da literatura, segundo o criticismo dos novos existencialistas. O amor é um problema perene que pressupõe uma verdade; enquanto tal problema não for resolvido pela filosofia, há-de sempre preocupar a literatura.


Meditemos francamente na leviandade com que os literatos escrevem a respeito do amor alheio, convencidos de que observam, conjecturam ou imaginam o verdadeiro aspecto da realidade. É o amor um tema obrigatório das poesias, dos diários e dos romances, ou um ingrediente indispensável das peças de teatro, dos filmes e de outros espectáculos. Há que descobrir o significado oculto desta ocupação e desta preocupação, para que não pareça ridícula, fútil e absurda a insistência dos literatos numa temática que se repete através dos séculos, com agrado, sucesso e êxito entre os mesmos leitores. Reduzida às suas linhas essenciais, a narrativa do amor cai num esquema tão simples ou simplista que enfada até a leitora menos exigente. Com efeito, realizada a apresentação dos amantes, é logo de prever o curso normal dos diálogos e a sucessão habitual dos acontecimentos. Certo é que o engenho do escritor tem de estar aplicado aos elementos estranhos à narrativa amorosa que densificam, complicam e valorizam a contextura da obra de arte; mas os sérios problemas que atormentam a humanidade só logram ser enunciados na literatura quando aliados à constante temática erótica. Dir-se-ia até que a verdade da literatura está na verdade do amor.


Este problema não tem solução positiva. O homem de letras que, em horas de estudo mais amplo, analisou as teses de Balzac, Michelet ou Stendhal sobre a psicologia do amor e a sociologia do casamento, está apto a concluir que é indispensável ascender ao estado metafísico, ou até ao estado teológico, para descobrir enfim uma solução verosímil do problema que tanto preocupa leitores como escritores. Sabemos que o método filosófico é exactamente o contrário da lei dos três estados de Augusto Comte, porque historiar é muito diferente de filosofar. Adversário dos positivistas, Vladimiro Soloviev situou o problema do amor no estado metafísico, conforme o Simpósio de Platão, mas viu depois que ele corresponde a um mistério de teologia, conforme a Bíblia inspirada por Deus.



A crença é livre, e ainda mais livre a fé. Quem escolhe uma crença, que aos outros parece irracional, ridícula ou imoral, adopta-a e assimila-a porque nela vê um princípio explicativo do que parece inexplicável nos quadros agnósticos da positividade. Vladimiro Soloviev, na genealogia de muitos pensadores que alguns eruditos chamam precursores, admitiu a tese de que o amor humano, erótico e sexual, está dramaticamente prefigurado e explicado nos primeiros capítulos do Génesis. Efectivamente, a imortalidade de Adão, a proveniência carnal de Eva, o pecado original, etc., continuam a ser altas verdades que a Igreja Católica defende dos detractores da Bíblia e de quantos pretendem que as doutrinas tradicionais sejam filtradas pela razão positivista, limitada e abstracta, enfim, pela razão separada da fé. É indispensável, porém, acrescentar que só o amor paradigmático de Adão e Eva, teologicamente vivo no nosso culto, na nossa cultura e na nossa civilização, poderá explicar que as variações da narrativa amorosa constituam primordial temática das obras literárias. Em todos nós existe a vida inconsciente desse mistério, que desejaríamos esclarecer na leitura infatigável dos livros sagrados e profanos.

A doutrinação catequística e apologética raras vezes concorre com a divulgação literária para actualizar a teologia do matrimónio. Tal desencontro nos parece mortífero para a ordem religiosa. Aos adolescentes, àqueles que sofrem durante o prazo que vai da puberdade à nubilidade, não lhes é ministrada oportunamente a doutrina que robustece a fé. Correm licenciosamente falsidades, erros e absurdos acerca do preceito monogâmico e da constituição da família, ocorrem porque aos adolescentes são por acaso ensinados os motivos fisiológicos e sociológicos de um movimento cujo motor só é explicável pela teologia.

Ensinar, como por vezes se diz, que o fim principal do matrimónio é a procriação e a educação dos filhos corresponde a rebaixar ao nível de uma biologia naturalista a doutrina de um sacramento que é superiormente, um processo de redenção. Esquecem alguns teólogos que o pecado original foi praticado por Eva e por Adão, em condições incomparáveis com a presente configuração naturalista do homem e da mulher. Só a impiedade dos artistas plásticos se permite dar uma figuração histórica ao homem pré-histórico. Esquecem, consequentemente, os maus teólogos que o matrimónio é um sacramento de redenção, o qual abra via a um certo número de graças que os cônjuges transmitem uns aos outros. Esquecem também a razão do divórcio, palavra que significa divisão ou separação, cuja desgraça precede o pecado de adultério.

Ao confundir um sacramento com um acto jurídico, ao confundir a mediação das graças com os fios de parentesco pelos quais de direito transitam os bens materiais que asseguram a economia familiar, fica vulnerada a doutrina religiosa no seu cerne sobrenatural. Depois, facilmente se expande e divulga a peregrina tese de que a maternidade, o casamento e a família resultam de um contrato, necessariamente alterável ou rescindível, e ninguém se ofende com a injúria que na palavra contrato se esconde quando aplicável às relações do homem com a mulher.

Contra tais absurdos, erros e falsidades escreveu Vladimiro Soloviev os cinco artigos que, transformados em capítulos, constituíram livrinho sobre A VERDADE DO AMOR. A refutação, para ficar completa, exigiria o esclarecimento de outras teses que conformam a antropologia do nosso tempo. Este opúsculo, contém, todavia, os elementos suficientes para despertar os homens de boa vontade, para os convidar a nova interpretação da teologia do matrimónio, para os obrigar a rever a legislação civil.


Artur Schopenhauer


Soloviev discute a situação da espécie humana na escala zoológica, demonstra a relativa infecundidade dos animais superiores, e anula a tese de Schopenhauer sobre a astúcia do génio da espécie. O erro materialista consiste em pretender subsumir o amor no instinto de produção. A atracção sexual – de um sexo pelo outro – há-de ser digna de mais alto grau de inteligibilidade. Demonstra depois Soloviev que o amor humano se caracteriza pela eleição de uma pessoa de outro sexo, por uma fidelidade de pensamento, de sentimento e de comportamento que chega a parecer obsessiva e até patológica, enfim por uma série de atributos reconhecidos pelos literatos mas por vezes negados pelos cientistas. Nos lúcidos comentários aos estudos de Kraft Ebbing e Binet sobre as aberrações do instinto sexual, que contrariam e desmentem a astúcia do génio da espécie, o arguto filósofo eslavo de certo modo antecede a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria do século XX. A medicina psicossomática veio comprovar que a fenomenologia do amor, mais afectiva do que instintiva, apela por uma ontologia do amor, e quem diz ontologia está prestes a dizer teologia.

O amor humano caracteriza-se pela predilecção e pela fidelidade, e ainda quando tais características não se apresentem com inteira pureza ou não se realizem na totalidade – conforme se pode alegar com a variedade das observações empíricas e com as variantes das narrativas literárias –, certo é que há no amor uma inegável tendência para a monogamia virtual. Soloviev nos seus termos diz que a verdade do amor está na realização da individualidade infinita, da imortalidade da carne redimida, da primitiva santidade de Adão à imagem e semelhança de Deus.

Não discutiremos a teologia do matrimónio, nem a liturgia do matrimónio, que estariam em coerência com a doutrina de Soloviev. Elas adoptam por outro ponto de partida um texto do Novo Testamento para glosar o paralelismo simbólico da relação de Deus com o Universo, de Cristo com a Igreja, e do Homem com a Mulher. Estas três relações correlacionam-se numa só analogia cuja encarnação doutrinal floresceu ao calor da Igreja Ortodoxa; mas é ainda difícil determinar em que medida será lícito expandi-la nos quadros mais lógicos da Igreja Católica.

Insistiremos, porém, no caso paradoxal de os juristas positivistas sofrerem de nostalgia da teologia, mediante sintomas que a análise das imagens revela aos estudiosos do inconsciente e do ininteligente. Lembremo-nos de que o ateísmo de Napoleão I ou dos redactores do Code Civil projectou sobre a legislação da família uma doutrina sombria do egoísmo, utilitarismo e materialismo. A separação entre o Estado e a Igreja, por delimitação de funções praticamente incompatíveis, surgiu assim em corolário lógico daquela doutrina social.


Napoleão

Certo é, porém, que o Estado não pode esquecer a teologia do matrimónio, nem a liturgia do matrimónio, por mais que simule ignorá-las ou substituí-las. A própria legislação da família torna-se ilógica ou absurda, se não tiver fundamento ou se não obtiver complemento na verdade da doutrina religiosa. A literatura romântica dá-nos a prova desta nostalgia do sobrenatural, mostra-nos as vicissitudes da luta contra uma legislação civil sem justiça teológica, e constrói assim uma espécie de apologética e de apostolado que as autoridades eclesiásticas bem poderiam rectificar para utilizar.

É evidente que a predilecção explicativa da fidelidade dos amantes e, consequentemente, da virtual monogamia que o sacramento do matrimónio transforma na realidade da vida conjugal, significam os laços mais fortes e duradouros que podem existir durante a vida terrestre. Com razão animada se diz que a família é a célula social. Quaisquer outras relações mundanas, vinculadas ou não por documento escrito, com ou sem valor jurídico, se nos afiguram contingentes, convertíveis e efémeras, porque dependem mais de cálculos egoístas do que de abnegações amorosas. Sabem os juízes qual é a duração das relações humanas nos quadros fictícios da sociologia abstracta.

A relação semântica entre o matrimónio e a maternidade demonstra como o sacramento cristão exalta a dignidade da mulher. Não corresponde, porém, a prática jurídica à excelência da teoria religiosa. Observando que a mulher grávida está muitas vezes sujeita a trabalhos forçados, obrigada a sair de casa para adoecer enquanto ganha dinheiro, perguntamo-nos em que medida o casamento vale de protecção à maternidade e de constituição da família.

Definido o casamento pelos predicados de um contrato de valores económicos, representados pela casa, e pelos respectivos encargos, logo se nos definem as sanções legais. De harmonia com a doutrina do Código Civil, o Estado assegura o cumprimento dos deveres económicos entre pessoas legalmente unidas por determinados vínculos de consanguinidade e afinidade. Depois, a casa deixa de ser a fundamentação do casamento, a convivência diária deixa de ter valor moral. Marido e mulher, pais e filhos, podem residir em afastadas terras, sem que deixem de subsistir as respectivas obrigações financeiras. Os descontentes recorrem aos tribunais, e o juiz fixa o quantitativo em dinheiro, a pensão que assinala e lembra um parentesco esquecido. Ignorados herdeiros surgem a requerer uma parte do que lhes é devido por lei, cientes de que ninguém lhes exigirá prova de terem prestado amor ou caridade à pessoa que morreu em riqueza. Tal é o que observa quem souber libertar-se do prestígio das palavras. Existem sanções económicas, porque à nossa sensibilidade moral repugna aplicar, como outrora, penas corporais na resolução de problemas que pertencem à ordem da alma e do espírito. A pena de prisão, que é um castigo corporal, tende a ser aplicável apenas ao que fugiu de cumprir a sentença judicial; não pode, por si própria, ter efeito de educação ou regeneração do delinquente; muito menos restabelece entre pessoas de família, ou entre os cônjuges, a autêntica vida de amor.




A legislação napoleónica, ou positivista, não descreve, não define, não classifica os ritos familiares. Destituídos, assim, de garantia legal, tais ritos são reprimidos, proibidos ou dificultados em consequência das transformações do direito público. A sociologia da agricultura, baseada na propriedade territorial e no tempo heterogéneo, foi substituída pela sociologia da incultura, baseada no tempo homogéneo e na propriedade financeira. Os deveres mais imperiosos da indústria, que funciona em regime de laboração contínua, obstam a que o homem, a mulher e a criança cumpram os ritos familiares. Já não há, a bem dizer, leis que defendam a liberdade da família!...

Alegar-se-á, sem dúvida, que a legislação civil também formula exigências de ordem ética, as quais efectivamente podem ser lidas nos respectivos textos jurídicos. Tal alegação é positiva, mas o positivismo não é suficiente. Se estudarmos os justos motivos de tais obrigações morais, haveremos de encontrar razões que só a nostalgia da metafísica e da teologia podem sinceramente explicar. O paradoxo positivista está em exigir uma moral pública que não é doutrinada na escola pública! O Estado abstém-se normalmente de ministrar ensino demorado e profundo sobre as relações humanas que constituem a célula da vida social, exactamente porque os professores receiam a intervenção intelectual num domínio que efectivamente é mais da competência dos sacerdotes.

Não estranhemos, pois, que faltando a palavra autorizada daqueles que de viva voz deveriam exercer a superior função educativa, recorram ao livro, ao teatro e ao cinema todos quantos se preocupam com o problema humano, o segredo natural e o mistério divino que designamos pela palavra amor. Tremenda é a responsabilidade dos que pretendem distrair para instruir. Se a maioria dos plumitivos nem sequer suspeita que uma fenomenologia pressupõe ou exige uma ontologia; se alguns escritores assumem já a consciência das relações da literatura com a filosofia, do sentimento com o pensamento, e admitem a gradação dos valores éticos, estéticos e científicos; os artistas superiores sabem que o amor é para os amantes a mútua realização do que está preceituado no Génesis. Este livrinho de Vladimiro Soloviev é, sem receio de comparação com os livros místicos, destinados a outro fim, um precioso breviário de quem quiser reintegrar o amor humano nas verdadeiras leis de Deus» (in A Verdade do Amor, Guimarães Editores, 1985).



CRÍTICA AO NATURALISMO

A opinião corrente diz que a relação sexual, ou inter-sexual, tem por fim a conservação da espécie, e quer dizer que o amor não é mais do que um meio para um fim. Considero esta opinião inteiramente falsa, não só por motivos ideológicos, mas também e, principalmente, por causa dos factos observáveis na Natureza. Que a multiplicação dos seres vivos não necessite do intermediário que seria a atracção erótica é uma verdade que transparece do facto de tal multiplicação se produzir até sem os factores dos sexos. Numerosos organismos do reino vegetal como do reino animal há que se reproduzem sem sexualidade, por divisão, por germinação, por inoculação. É certo que nesses dois reinos orgânicos as formas superiores se multiplicam por factores sexuais, mas é também certo que os organismos que se multiplicam deste modo, tanto os vegetais como os animais, podem ainda reproduzir-se de modo não sexual (inoculação das plantas, partenogénese dos insectos superiores). Se admitirmos como regra geral que os organismos superiores se multiplicam por meio de uma copulação superior, teremos de concluir que este factor sexual está relacionado, não com a reprodução em geral, que também se pode verificar ser o processo sexual, mas com a multiplicação dos organismos superiores. Por conseguinte, o significado da diferenciação sexual (do eros, e do amor) não se encontra na ideia da espécie, da sua conservação e da sua reprodução, mas deverá ser procurado somente na ideia do organismo superior.


Notável confirmação do que acabamos de descrever vamos descobri-la no seguinte facto impressionante. Dentro dos limites dos animais que só se multiplicam por factores sexuais, na secção dos vertebrados, quanto mais ascendermos na escala zoológica tanto mais veremos decrescer o expoente de reprodução, na medida em que vai aumentando a força de atracção inter-sexual. Na classe inferior desta secção, entre os peixes, a multiplicação dá um produto enorme: os embriões, produzidos anualmente por cada fêmea, contam-se por milhões: ora prestemos atenção a estes embriões fecundados pelo macho fora do corpo da fêmea, modo que não admite a hipótese de uma inclinação sexual muito intensa. De todos os animais vertebrados é esta classe de animais de sangue frio aquela que incontestavelmente mais se reproduz e a que menos manifesta o que se pareça com a paixão do amor.

No grau imediato, entre os anfíbios e os répteis, a multiplicação é já muito menos do que nos peixes, se bem que relativamente a algumas espécies esta classe haja sido, e não sem razões, comparada pela Bíblia aos entes que pululam (shérerschirroun); ora, com um produto menor, nesta multiplicação já encontramos factores sexuais mais próximos. Nas aves o produto da multiplicação ainda é menor, não só em comparação com os peixes, mas até em comparação com as rãs, por exemplo; e todos sabemos que a inclinação sexual e a atracção individual entre o macho e a fêmea alcançam, nas aves, um grau incomparável aos das duas classes inferiores. Nos mamíferos que são vivíparos a multiplicação é ainda menos frequente do que nas aves, mas a inclinação sexual é muito mais intensa, embora nem sempre tão constante.

No ser humano, considerado para este estudo na escala zoológica, a fecundidade é muito menos do que a de qualquer outra espécie componente do reino animal, mas o amor sexual atinge muito maior intensidade e muito maior importância porque alia ao máximo grau de constância a permanência das relações, comparável com a das aves, e a intensidade das paixões, comparada com a dos mamíferos.

Vemos assim que o amor sexual e a reprodução da espécie não estão na razão directa, mas, pelo contrário, na razão inversa: quanto mais forte for um dos elementos, mais fraco há-de ser o outro. Do ponto de vista que escolhemos, verificamos que o reino animal se desenvolve, quase sem excepção, pela ordem seguinte: nas suas formas inferiores, enorme força de multiplicação, e, ao mesmo tempo, ausência total de algo que de longe se pareça com o amor sexual, quando não ausência de divisão em sexos; depois, nos organismos mais perfeitos, aparecimento de uma diferenciação sexual e de uma certa inclinação sexual correlativa, extremamente débil a princípio, para gradualmente aumentar depois; nos graus ulteriores do desenvolvimento orgânico, crescimento das características sexuais exactamente na medida em que diminui a intensidade do poder de multiplicação (quer dizer, em proporção directa da perfeição do organismo e em proporção inversa do poder de multiplicação), até que, por fim, no cimo da escala zoológica, no ente humano, se torne possível um amor tão intenso que possa até excluir completamente a reprodução. Considerando assim, na série animal, duas tendências para termos contrários, a multiplicação sem amor sexual e o amor sexual sem multiplicação, não podemos ver nestes dois elementos qualquer laço de causalidade; cada qual tem o seu significado próprio, e não podemos dizer que um esteja para o outro como o meio para o fim.




Chegaremos à mesma conclusão quando considerarmos o amor sexual exclusivamente no mundo hominal; veremos como ele se manifesta por um carácter muito mais individualista do que no mundo animal; neste estádio superior, é precisamente uma só pessoa do outro sexo quem merece, aos olhos do amante, a dedicação absoluta; tal pessoa é incomparável e insubstituível; tal pessoa não é já o meio, mas o fim, do amor (in ob. cit., pp. 31-34).

Continua

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Adoração

Escrito por Leonardo Coimbra






Brevíssima explicação de António Telmo

«(...) [Álvaro Ribeiro] Viu no poema Adoração de Leonardo Coimbra o Cântico dos Cânticos em língua portuguesa e exaltou-o.

O texto da Adoração é a verdade do amor em Leonardo Coimbra, não importando, pois, as investigações biográficas e bibliográficas para saber se houve ou não uma aluna sua que o trouxe apaixonado, se foi neste ou naquele período da vida do homem, se foi no Liceu ou na Universidade. O livro foi editado em 1921 pela Renascença Portuguesa, mas terá sido escrito por volta de 1914. Em 1921, como no fim da vida, era a mesma verdade do amor.


É este livro o menos considerado pelos admiradores do filósofo. Basta dizer que Sant'Anna Dionísio, essa nobre e inteligente alma de pensador, não o incluiu nos dois volumes das Obras editadas pela Lello. Álvaro Ribeiro parece ter sido, de facto, o único discípulo a prestar louvor escrito aos Cantares, nos quais vê o Cântico dos Cânticos em língua portuguesa. Contribuiu para a menorização do livro a reacção dos moralistas de esquerda e de direita, sempre apostados em dar como uma virtude a inveja que sofrem com a felicidade de outrem no amor. Homem Cristo invectivou Leonardo Coimbra no Parlamento por ter escrito e publicado um livro que desonra a família pelo louvor do adultério.


A comparação por Álvaro Ribeiro com o poema de Salomão não incide apenas no plano da literatura. Sabemos como este discípulo de Leonardo fez da reflexão e da doutrinação sobre o amor entre o homem e a mulher o tema dominante do seu pensamento. O amor é um sacramento, isto é, um mistério, não no sentido vago desta palavra, mas na sua acepção etimológica, que a torna significativa de uma relação singular e concreta com a verdade divina. O sacramento reconhece ou sagra o que já é misterioso no plano natural; revela ou faz ver em sua relação com o sobrenatural aquilo que à almas de superfície parece apenas animal. Daqui a sempre possível verdade do amor nas relações dadas socialmente por ilícitas, como se julgam serem aquelas que põem em perigo o composto familiar. Se o sacramento do matrimónio fosse apenas a legalização das relações sexuais, não faria mais do que justificar a prostituição. Seria então um factor de normalização e de banalização do que aos amantes sempre aparece como excepcional e compreende-se assim quanto é certa e certeira a observação de Orlando Vitorino de que "só no adultério há verdadeiro amor".


(...) O sentimento do excepcional, que os amantes experimentam numa relação afinal comum a todos os homens e a todas as mulheres é que é o sinal, quando não está presente, de que a união é vivida como um acto animal. Donde emerge e porque emerge tal sentimento?


Ao homem de coração e de inteligência, de que fala Leonardo Coimbra, essa sensação íntima de excepção ou de singularidade acompanha-o em todos os actos da sua vida, mas o amor não deixa indiferentes, isto é, torna diferentes todos os mortais, é mesmo a única relação, com a música, capaz de acordar nos brutos o sentimento do infinito. É uma ressonância efémera, porque logo reaparecem os interesses egoístas e inferiorizantes. Amar é também uma arte e daí o valor supremo dos livros de Álvaro Ribeiro que lhe subordina todo o ensino. Educação sexual deveria significar educação de um sexo para o outro sexo pelo estudo das disciplinas que formem no rapaz, por um lado, e na rapariga, por outro lado, distintas mas superiores consciências da enteléquia masculina e da enteléquia feminina. Tal é o sentido de livros como Escola Formal, o Liceu Aristotélico e os Estudos Gerais. A tendência actual é a de propor uma disciplina de Educação Sexual integrada no corpo neutro das restantes disciplinas com o objectivo de tornar vulgar, isto é, uma coisa como as outras, a experiência singular e misteriosa do amor. Dado como inevitável o movimento do homem e da mulher para a liberdade, os pedagogos levantam as proibições morais que, durante muitos séculos, utilizaram contra o amor, mas, ao fazerem a exaltação da uniformidade dos sexos, continuam a impedir o Milagre do Encontro» (in António Telmo, A Verdade do Amor, seguido de Adoração, Cânticos de Amor de Leonardo Coimbra, Zéfiro, 2008, pp. 78-80).



A Floresta dos teus cabelos



Deixa tombar os teus cabelos, amor do meu desvairo!

Revoltos, negros, torcidos como serpentes, trouxe-os Dante da sua viagem ao Inferno.

Solta os teus cabelos, oh meu Amor violento! que eles são a floresta negra dos incêndios, saques e pilhagens.

Cavalos loucos de violência e medo, salteadores com os despojos de cidades mouras: oh minha encantada moira, acorda, solta os teus cabelos de Noite e com eles açoita barbaramente o meu negro corpo de bárbaro!

Vamos incendiar o mundo, oh meu amor moreno!

Quero que o planeta sinta derreterem-se-lhe os ossos ao fogo violento dessa paixão.

Lembras-te, minha Eva de ébano, meu brilhante preto, da primeira noite em que nos encontrámos na terra, tombados, expulsos daquele longínquo céu?

Foram os teus cabelos que nos vestiram e taparam, aos nossos olhos quase ceguinhos, a saudade do Céu que se afastava.

Enlaçados descíamos o negro poço do esquecimento, tombando para a Terra, e o Céu já mal deixava ouvir suas harmonias, de nós fugindo como relâmpagos.

E ficamos sozinhos, embrulhados no manto dos teus cabelos.

Solta esses cabelos: que o vento de loucura que varre o mundo tos leve em suas asas velozes e sejam algas imensas nas ondas da ventaneira!

Vamos sobre as cidades espalhar a loucura da nossa paixão.

A nossa carne grita o ódio que nos separou e quer destruir-se numa fúria impossível. Somos dois e cada um de nós quer perder-se ou perder o outro na chama da sua paixão luxuriosa.

É como o Mar em fúria destruindo os rochedos, engolindo as terras, as naus e as gentes.

O nosso desejo é feito dum ódio misterioso: hei-de queimar-te, dissolver-te em mim, oh meu amor moreno, de cabelos selvagens flutuando ao vento da loucura!

És a bandeira inimiga, trapejante e heróica, desafiando a cobardia do amor masculino; hei-de vencer-te, ter-te como escrava no harém da minha maldade.

Aí hás-de agonizar, morrer, perdendo essa lembrança que é réstia de luz a brilhar na escuridão dos teus cabelos, se o vento os leva para a esteira dos teus olhos…

Ah! não! Meu Amor bondoso, perdoa.




Morena de terra é a tua carne, negros de Noite são os teus cabelos; mas os teus olhos, os teus olhos são sorvedouros de alma por onde tombam todas as maldades e, nas folhas mortas que os encontram, canta logo a nova primavera.

Perdoa, meu Amor; que os teus cabelos fizeram uma tempestade tamanha que em seus ninhos e covis acordaram as aves de rapina, as feras cobiçosas e fez-se um coro de uivos na Noite.

Aperta os teus cabelos, meu Amor sereno, deixa-me saber ser bom e sonhar.

Aquela Noite, a primeira noite do nosso esquecimento vamos a lembrar, oh meu amor piedoso?

Colhíamos açucenas nos jardins da alma e, de repente, fomos envolvidos duma nuvem densa, duma fantástica e tormentosa nuvem, tomou-nos um rodopio e enlaçados ficamos sempre a prender-nos, mas com ódio e violência.

Hoje, se soltas os teus cabelos negros relembro o turbilhão daquela Noite e, se os tomas e apertas, relembro, mais e mais, as açucenas do jardim das almas…

Como eram, meu amor, aquelas açucenas?

Deixa-me ver-te os olhos; eles são as crateras da alma, no fundo, muito no fundo, brilham serenos os astros daquele Jardim.

Estende agora os teus cabelos negros: olha como flutuam leves e sedosos e são carícias alongadas, que os vão enlaçar nas árvores onde a seiva acorda e canta uma remota lembrança como a nossa…

Os teus cabelos são agora cometas do Infinito lembrando as alegrias da Origem.

Oh minha Eva sem pecado! És a árvore da vida, a fonte da minha ternura, e os teus negros cabelos soltos são raios de Sol perdidos na Noite.




Os teus cabelos são a impossibilidade da tua nudez; se deixas tombar os vestidos logo eles caem a vestir-te das tintas misteriosas da Noite: são uma criação do teu pudor, os guardas invencíveis do teu Jardim, as delicadezas brandas que envolvem o suave mistério das almas.

Os teus cabelos são a cercadura do teu recato, o amaciamento que te cerca e vai no ar a distância a levar o teu vegetal aroma de acácia.

Já foste acácia e no Jardim secreto, onde vivias, eu fui o pobre jardineiro que te colhia as flores.

Tombavam-te do corpo como asas de insecto afogando-me em deliquescente perfume.

Hoje os teus cabelos são lembrança vegetal e angélica e, se os soltas, o vento que os toma é a própria saudade do Jardim das almas.

Vamos, meu Amor saudoso; que os teus cabelos flutuem ao sopro do Mistério, e, Eva sem pecado, leva-me contigo para a saudade do Céu.

Que Deus te cubra de bênçãos como de flores de acácia cobre a minha pobre alma a piedade do teu amor!

Deixa-me deitar a mão aos teus cabelos soltos, e, no carro de Osíris, atravessemos o firmamento.

Canta, meu Amor piedoso: Como o Céu se aproxima, como renasce a lembrança e vamos sendo aleluias de luz pelas Alturas!

Que a mão de Deus segure os teus cabelos e piedosamente nos leve para o seu Amor! (in ob. cit., pp. 93-97).

domingo, 20 de novembro de 2011

O Banquete (ii)

Escrito por Soren Kierkegaard





«…a terra molhada, fertilíssima, o barro de Adão, a substância elementar de que todo este mundo, grande como é, nós próprios e inclusive a nossa poderosa pedra se compõem, brotam então à luz do dia…».

Heinrich Kunrath


«…esta matéria-prima encontra-se numa montanha, montanha que contém em si uma multitude de coisas não-criadas. Nesta montanha habitam todas as classes do conhecimento com que é possível deparar neste mundo. Não há conhecimento, entendimento, sonho, pensamento, saber, opinião, reflexo, inteligência, filosofia, geometria, modo de governo, poder, valentia, gentileza, satisfação, paciência, educação, formosura, inventiva, boa-fé, dom de comando, precisão, vigilância, domínio, império, dignidade, conselho ou negócio que nela não se achem contidos. Nem tão-pouco há ódio, malquerença, engano, infidelidade, delito, tirania, opressão, corrupção, ignorância, estupidez, baixeza, despotismo ou excesso, nem canto, música, flauta, lira, boda, diversão, arma, guerra, sangue ou morte que nela igualmente não se contenham…».


Abu-l-Qâsim al-Irâqî


«…Porém, ai daquele que, como Jasão, triunfe graças à ajuda de Medeia e que, deixando-se seduzir pela sua perigosa conquista, acabe por se entregar à Natureza, essa grande feiticeira, em vez de permanecer fiel à sua noiva, a sabedoria!... Ao invés, ditoso aquele que, prometido que está à sabedoria, consegue seduzir sem perigo a terrível feiticeira Natureza, isto a fim de descobrir os segredos que ela, em tal caso, não poderá continuar a ocultar-lhe, e regressar depois a casa dono do velo de ouro e fiel à sua pura prometida…».


«Purisima Revelatio»


«…em certas ocasiões, Aristóteles parece referir-se à matéria como o pura e simplesmente indeterminado. Mas o próprio conceito de indeterminação carece de sentido a não ser que se refira a algo determinado ou a uma possibilidade de determinação. Embora se defina a matéria como possibilidade, dever-se-á admitir que é uma possibilidade para algo. Daí a distinção aristotélica entre a matéria – que é um não ser por acidente – e a privação, que é um não ser em si mesmo».


José Ferrater Mora.


«O mundo é feito da mesma matéria de que se fazem os sonhos».


William Shakespeare





«V.I.T.R.I.O.L.: Visita interiore terrae; rectificando invenies occultum lapidem ("Visita ao interior da terra; rectificando virás a encontrar a pedra oculta"».

Basílio Valentino


«Só aos teólogos - e Kierkegaard foi, a seu modo, um teólogo -, é lícito o celibato».


Álvaro Ribeiro




Deixemos o mito. A ideia do homem responde à sua realidade. Podemos imaginar um só homem, e por essa imagem, representarmo-nos a humanidade. A ideia de mulher é, pelo contrário, uma noção geral que na realidade não coincide com nenhuma espécie, com nenhum indivíduo. A mulher nem sequer é um ente da mesma condição que o homem; será talvez uma parte deste, mas é mais perfeita do que ele. Admitamos que os deuses hajam extraído uma parte do homem, enquanto ele dormia um sono profundo; ou admitamos ainda que o dividiram, e que a mulher seja a sua metade; num caso como noutro, foi sempre o homem quem ficou dividido. A mulher não está, portanto, em relação de igualdade com o homem perfeito; a relação de igualdade só aparece depois da divisão. A mulher é um engano, mas só para o homem tal como se encontra nesta segunda fase; a mulher é um engano só para o homem que se deixa enganar. A mulher é o finito; mas no primeiro momento da sua existência, é o finito elevado à potência de um infinito enganador, - a infinita ilusão humana e divina. Nesta ilusão não há mentira; mas se o homem der um passo em falso, fica imediatamente enleado. Ela é o finito, portanto o multiplicável, portanto um ente colectivo: não há mulher, há mulheres. Mas isto é o que só o erótico parece capaz de compreender; por isso é ele capaz de amar muitas mulheres sem se deixar iludir; por isso ele não vai além da volúpia com que os deuses astuciosos o queriam enganar. A ideia de mulher não se encerra, pois, numa fórmula qualquer; é um infinito de coisas finitas. Quem quiser pensar essa ideia, fazê-la passar por todas as categorias lógicas, ver-se-á na situação de quem mergulha os seus olhares profundos num oceano de fantasmagorias em perpétua formação, ou na situação de quem se perde a contemplar as ondas sobre a espuma das quais aparecem as sereias para se rirem constantemente do ingénuo. A ideia da mulher, para o pensador, não é mais do que uma oficina com a categoria do possível, e para o erótico, a categoria é uma fonte inesgotável de fantasia.


«Vou agora dizer-vos como é que os deuses fizeram a mulher: um ser fluído, subtil, etéreo como as exalações de uma noite de Verão, mas que se reveste de formas tão consistentes e palpáveis como a de um fruto amadurecido; leve como a andorinha, consegue transportar o peso do imenso desejo do mundo; na sua levitação vence a gravidade, porque todo o segredo das forças que a animam se encontra no centro invisível da relação negativa, que ela tem consigo própria; altiva na sua estatura de desenho firme, consegue dar nas vistas pela natural ondulação da beleza; perfeita, pela frescura, parece todavia que acabou de sair da génese do mundo; de uma pureza celestial como a neve recentemente caída, e ao mesmo tempo calma e calmante, na coloração suave da epiderme; alegre como a palavra graciosa que faz esquecer os cuidados, consolativa como a plena realização do desejo que ela tão bem apazigua como excita. O homem, ao vê-la pela primeira vez, deve ter sido tomado por inexcedível espanto: - espanto de ver a sua própria imagem, ou uma imagem semelhante, ou uma imagem que lhe era familiar; espanto por ver a sua própria imagem reflectida no espelho da perfeição; espanto de ver o que nunca havia esperado de ver, aquilo de que talvez tivesse tido já um vago pressentimento; espanto de ver um elemento indispensável na sua vida, mas que lhe era, porém, dado como um enigma para a sua vida. É precisamente esta contradição no espanto que vai despertar no homem o impulso erótico. O espanto incita o homem a aproximar-se cada vez mais, a querer ver cada vez melhor, a olhar, a admirar, a contemplar; não lhe é dado, porém, familiarizar-se completamente com esta visão, não lhe é dado deixar de desejá-la, nunca poderá conseguir aproximar-se dela quanto quer.

«Quando os deuses conseguiram imaginar a essência desta forma, recearam não poder dar-lhe a existência. Depois de o conseguirem, por fim, recearam muito mais a própria mulher. Ela estava de tal maneira formosa, que não se atreveram a elogiá-la, com receio de que a inconfidência pusesse em perigo o plano da astúcia. Resolveram então coroar a obra. Concluíram a formosura, mas deixaram a mulher na ignorância da sua inocência, para que ela não soubesse a que fim a destinavam; para maior precaução, envolveram a figura atraente da mulher no mistério impenetrável do pudor. Ficava assim apta para o combate, ficava assim assegurada a vitória. A mulher era por natureza atraente; mais atraente se tornou com ser esquiva, evasiva, fugidia, porque todos os obstáculos servem para excitar o frenesi do homem. Os deuses rejubilavam, estavam radiantes de alegria. Não há no mundo isca tão atraente como a mulher, nenhuma isca tem maior poder do que a inocência, nenhuma tentação é mais fascinante do que o pudor, nenhum engodo iguala o da mulher. Virgem, a mulher tudo ignora; no entanto, já no seu pudor oculta um pressentimento da sua natureza; ela adivinha que está separada do homem, separada pelo pudor, que é uma barreira mais poderosa do que a espada que foi posta entre Aladino e Gulnar. O erótico, porém, procede como Pyrane nas Metarmofoses de Ovídio: admira e contempla o mistério do pudor e pouco a pouco vai vendo confusamente que para além da vedação, se configura na distância toda a volúpia do prazer.






«Tal é a tentação que a mulher representa. Os homens, não sabendo o que de melhor poderiam sacrificar aos deuses, oferendaram-lhes o mais delicioso de todos os manjares; assim a mulher é fruto proibido para que se olha com avidez; os deuses ainda não descobriram termo de comparação com a delícia da mulher. Vemo-la perto de nós, muito próxima, na nossa presença; e no entanto, como está distante, infinitamente distante, separada de nós pelo pudor. É como se estivesse dentro de um esconderijo, que nós ignoramos, até que ela nos diga por onde é a entrada. Como é que tal acontece? Nem ela sabe como se denuncia; a vida encarrega-se de quebrar o segredo. Tal como a criança que joga às escondidas e, sem dizer palavra, espreita com a cabeça fora do esconderijo, a imprudência da mulher é inexplicável, porque inconsciente; a mulher é sempre enigmática, tanto quando baixa pudicamente os olhos como quando dardeja um olhar especial que não pode ser explicado por pensamentos e, muito menos, por palavras. E, no entanto, se há «olhares que são como punhaladas», como poderemos explicá-los, se a linguagem deles nos é incompreensível? A mulher apresenta-se-nos quase sempre tranquila como a paz das horas da tarde, quando já nenhuma folha treme, tranquila como a consciência, ingénua, ignorante e inocente; respira tranquilamente sem que separe no ritmo da inspiração e da expiração; o sangue circula com toda a regularidade, sem que pelas pulsações se conheça o alvoroço do coração; e no entanto o homem erótico, se souber auscultar como lhe convém, há-de perceber os ruídos ditirâmbicos do desejo, como acompanhamento inconsciente do pensamento da mulher. Despreocupada como o vento que passa, serena como a profundidade do mar, não deixa a mulher de ser removida por desejo languescente, de um desejo inexplicado.

«Meus amigos: tenho a alma deliquescente, de maneira que não articulo a expressão. Sei, porém, que também a minha vida corresponde a uma ideia, se bem que vós a não compreendeis. Sim, também eu revelei o segredo da vida; também eu estou a servir, algo que é divino, e certamente, o meu culto não é vão. Já que a mulher é um engano dos deuses, pode com verdade dizer-se que a existência dela consiste em querer ser seduzida; e como ela não é uma ideia ou uma essência, há só uma conclusão a tirar, que é a seguinte: o homem erótico quer amar o maior número possível.

«Só o erótico quer amar o maior número possível, gozar o engano sem ser enganado. Só a mulher conhece verdadeiramente a felicidade que consiste em se deixar seduzir. O que digo e sei, aprendi-o com a mulher, se bem que não tenha agora tempo para maiores explicações; digo e sei porque me mantenho ao serviço da ideia por um rompimento tão decisivo como a morte; porque noivo e renúncia estão na mesma relação que masculino e feminino. Só a mulher é que o sabe, e sabe-o na sua relação com o sedutor. Nenhum homem casado é sequer capaz de conceber tudo isto. A mulher nunca chega a confessar esta verdade ao marido. Casada aceita resignada o novo destino, adivinha que tal é a ordem natural das coisas, admite que não pode ser seduzida mais do que uma vez. No íntimo, apesar de quanto se diga, nunca a mulher volta o seu ódio contra o sedutor. É preciso ver que ele tenha efectivamente realizado acto de sedução, o que implica exprimir a respectiva ideia. A falsa promessa de casamento, e outras mentiras tais, constituem esperteza e expedientes indignos da vida humana, e nada têm que ver com o problema da sedução. Sendo assim, não há grande infelicidade para a mulher no facto de ser seduzida; pelo contrário, a felicidade dela está em ter essa sorte. Uma donzela, seduzida por arte superior, pode vir a ser uma esposa modelar. Se eu não tivesse aptidões necessárias para ser um sedutor, se bem que reconheça as minhas deficiências quando me considero como tal, e se quisesse casar-me, escolheria sem dúvida uma rapariga já seduzida, para não ter o trabalho de começar a seduzir a minha mulher. É que o casamento também exprime uma ideia, e essa ideia tem um significado completamente diferente em relação ao absoluto que a minha ideia exprime. O casamento nunca deveria ser considerado como um ponto de partida, nunca deveria ser confundido com o princípio de uma história de sedução. Enfim, de uma coisa estou certo: é de que para cada mulher há um sedutor possível, mas feliz será aquela que o encontrar.




«O casamento significa, pelo contrário, a vitória dos deuses sobre os homens. A mulher que foi uma vez seduzida vai continuar a sua vida ao lado de um marido; por vezes ela olha para trás, com o coração pleno de desejo; mas resigna-se com a sua sorte, até chegar o termo dos seus dias. Morre, sem que a sua morte se compare com a do homem; desvanece-se e dissolve-se no elemento inefável de que os deuses a formaram; desaparece como um sonho, como imagem efémera, como imagem de tempos passados. Que mais é a mulher do que um sonho, sonho que não deixa de ser a mais alta realidade? É assim que o homem erótico compreende a mulher, é assim que ele a conduz, é assim que ele se deixa conduzir por ela ao momento da sedução, momento que já está fora do tempo, que pertence já à pátria da ilusão, que é a pátria da mulher. Junto ao marido, a mulher vive no tempo, pertence ao tempo, e o marido também.

«Natureza maravilhosa!... Se não te admirasse de há muito, a mulher ensinar-me-ia a admirar-te, porque a mulher é venustidade do mundo! Tu, Natureza, fizeste da mulher um ser esplêndido, mas a tua maior glória está em nunca teres dado ao mundo duas mulheres iguais! No homem, o essencial é essencial, e, portanto, sempre o mesmo; na mulher o essencial é o acidental e, por conseguinte, a inesgotável diversidade. O reinado da mulher dura pouco, mas pouco dura também a dor que cai no esquecimento. Creio que nunca cheguei a observar a dor quando outra vez o mesmo voltava a ser-me oferecido. Há também a fealdade que pode surgir mais tarde; também a vi, também sei que ela existe; mas não é pelo aspecto da fealdade que a mulher é vista pelo sedutor» (in ob. cit., pp. 136-143).


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Banquete (i)

Escrito por Soren Kierkegaard





Apresentação de Álvaro Ribeiro

«(...) Soren Kierkeggard é um escritor que faz pensar. Fazer pensar, é, aliás, o intento primacial do escritor e o sinal verídico do seu êxito. Se por vezes alguns leitores, e algumas leitoras, dizem procurar livros amenos que libertem de preocupações intelectuais, manifestando assim preferência pelas obras erroneamente designadas de artifício ou de ficção, tais leitoras e tais leitores desse modo confessam que o seu pensamento tende mais para a passividade do sonho, do devaneio, da fantasia do que para a actividade intelectiva, mas esquecem que imaginar também é pensar. A prova de que o leitor de boa ou má literatura requer obras que o façam pensar, imaginando ou concebendo, está exactamente na facilidade com que se aborrece não só dos livros já lidos mas também de encontrar semelhanças e repetições nas obras de fabulação.

(…) Ocorre imediatamente a quem pense a já muitas vezes repetida comparação entre a conversa com os livros e a conversa com as pessoas amigas e amadas, comparação que leva à adunação: – no íntimo só queremos conversar com quem, ou com o que, essencialmente nos fale de amor. Ora é a pensar no amor que nos convida esta obra do filósofo dinamarquês.

(…) A série de vivências, experiências e vicissitudes por que passa o homem que ama, ou que não ama, altera, contradiz e desmente a doutrina adoptada na adolescência ou na mocidade. Esta instabilidade mental será tanto maior quanto mais o homem viver em curiosidade pela literatura e pelos seus sucedâneos, mais ou menos espectaculares. Cada um de nós está assim a ser permanentemente convidado a repensar o problema do amor, que não é um problema dos livros, próprio só de interessados ou especialistas em restritos domínios da cultura, porque é um problema humano, no significado universal da palavra, porque é, enfim, um problema filosófico.

Há até pensadores para os quais o problema do amor, no estrito sentido das reacções do homem com a mulher, será aquele pelo qual se determina a autenticidade dos sistemas filosóficos e o valor das obras de filosofia. Quem pertencer a esta escola, corrente, ou tendência terá de se dedicar a estudos dificílimos para conseguir chegar ao âmago dos sistemas de filosofia. Raros são os escritores que assim pensam, muitos não atribuem alta dignidade a este problema de antropologia, e quase todos o abstraem das suas obras especulativas.

Eliminar o problema do amor, não o mencionar em livros que parecem de estrutura didáctica e de finalidade educativa, parece-nos omissão contraproducente no plano da cultura superior e na fase actual da civilização. A falta de meditação corajosa sobre um problema a que ninguém se pode recusar terá por consequência a admissão de noções erróneas que se difundem por simplismo ilusório ou por auto-sofismação. Os preconceitos, ou falsos conceitos, e os prejuízos, ou falsos juízos, que estruturam a opinião das pessoas consideradas bem pensantes, se fossem submetidos a um momento de elucidação, mereceriam a imediata repulsa do pensador envergonhado. É indispensável um esforço intelectual da categoria do heroísmo para manter sempre presente a mais elevada doutrina do amor.

Temos de tolerar – na rotina da vida quotidiana, em que maior é o número das horas de desatenção à mais alta verdade – a doutrina fácil, medíocre e baixa que, por correr entre o vulgo, não suscita controvérsia nem discussão. A doutrina entre nós vigente é a doutrina naturalista, segundo a qual as relações do homem com a mulher, que englobamos no termo de amor, se explicam pelo instinto de reprodução nas espécies biológicas. Doutrina naturalista, dizemos, aceitável para os que não lobrigam a distinção entre a Natureza decaída e a Natureza redimida. Apresenta-se a ideia de instinto com palavras de condescendência e indulgência, apresenta-se a ideia de reprodução como um bem para a família e para outras colectividades mais amplas, completando-se a biologia com a demografia. A extrair desta doutrina, a que falta a ideia de génese, todas as consequências lícitas, chegaríamos a admitir o que se encontra descrito em certas utopias imaginadas e raciocinadas, mas que repugna à consciência e ao inconsciente da maioria das pessoas cultas. Escusamos de transformar a alusão compreensível em descrições de realista crueza.

Alarmam-se os moralistas que, por engenho, inventam o manto propício para cobrir os aspectos desgostantes das relações animais, e, sem que analisem os motivos profundos dos ritos etnográficos, parecem querer fundamentar e legitimar a moral em fixos e infixos preconceitos sociais. Assim se estabelece na consciência do moralista a duplicidade – aliás tão frequente –, de consentir que os instintos se satisfaçam a ocultas e de respeitar as conveniências morais. Nada impede, porém, o homem de confessar a amigos e a conhecidos o que deveria ficar para sempre em segredo, e na inconfidência desmentir a professada moral.


José Ortega y Gasset

Fazendo passar o problema do amor por estas duas instâncias, a Ciência e a Moral, dão-se por contentes muitas pessoas que deveriam pensar em termos de maior elevação. Infelizmente, porém, nos nossos ambientes de mediana cultura é mais conhecida a Metafísica do Amor de Schopenhauer do que A Verdade do Amor de Soloviev, mais estimado o De l’Amour de Stendhal do que os Estúdios sobre el Amor de Ortega y Gasset, apenas porque domina ainda entre nós o preconceito calvinista de que o pessimismo moral coincide com a máxima lucidez intelectual.

Há certamente, algumas almas superiores às quais repugna esta doutrina medíocre e que pressentem, se é que não sentem, a luz difusa de remota verdade. É-lhes difícil conceber e exprimir a doutrina por que anseiam, doutrina a opor à banalidade. No entanto, fácil lhes seria ver que a doutrina vulgar, de deficiente ciência e de deficiente moral, tem sido sempre desmentida pela arte, pela filosofia e pela religião, nas quais o amor humano, além de ser apresentado em radiação de beleza, assume uma significação real e transcendente.

(…) É evidente que, na obra de Kierkegaard, se aprofundam os conceitos de sedução e monogamia, entre os quais parece situada a ética das relações do homem para com a mulher. A sedução é segredo, a monogamia é instituição ética. A sedução não é actividade, nem é exclusivamente masculina. A mulher sabe que permanecendo imóvel, silenciosa e vestida pode seduzir tanto ou mais do que desnudando-se, tagarelando ou dançando. Sedução é atracção, e nesta palavra se diz um conceito que a ciência não esclarece. O problema da sedução obsediava Kierkegaard, e dentro do problema da sedução o donjuanismo. Todos conhecem a lenda de D. Juan que aliás tem dado motivo a várias obras literárias e que atingiu a mais subtil expressão artística na ópera musical de Mozart. Poucas pessoas, porém, encontraram por aprofundamento a causa ou a motivação fundamental do movimento que impele D. Juan Tenório pela série infinita das seduções. Ora este problema não pode deixar de ser enunciado e resolvido por quem se considere uma pessoa culta. Claro está que o momento moral da sedução é o do abandono, ou desamparo, da mulher pelo homem; até esse momento não há que formular juízos morais, tudo é lícito, porque decorre sem drama no plano estético, no plano da promessa ainda não renegada. A vileza moral do homem, quando existe, revela-se no momento da inconfidência e da ingratidão.

(…) Já a designação de matrimónio nos rememora a doutrina (tão dignamente preservada pela Igreja Católica, conforme foi expresso pela Comissão Bíblica em 30 de Junho de 1909), da formatio primae mulieris ex primo homine, doutrina que contém a chave do segredo da atracção e da sedução, o qual não pode ser explicado pelo naturalismo. Matrimónio é preferível a casamento. Aliás, na língua portuguesa, casamento significa muito mais a mudança de residência, a junção de pessoas e bens, porque "quem casa quer casa". O casamento exprime maliciosamente, para muita gente, mais uma situação de facto do que uma situação de direito. Se o casamento fosse apenas um rito, como vulgarmente julga quem inclina a religião para o plano da moral, justificar-se-ia plenamente a degenerescência do registo cultural em profano registo civil. Mas se o matrimónio é, mais do que um rito, um sacramento, temos de admitir que ele é de graça que opera no mundo sobrenatural. A vida conjugal pode, pois, aparecer como condição indispensável para que o homem e a mulher cooperem na redenção, segundo o que foi prescrito por leis divinas. Todo o mistério do amor está acima das teorias biológicas e sociológicas com que os educadores mal informados nutrem o lúcido pessimismo dos adolescentes.


Tem o matrimónio fins sobrenaturais, mas se os não tivesse, conforme pensam os descrentes, estaria ainda assim ordenado para auxiliar a evolução da humanidade, isto é, para ir transformando os homens inferiores em homens superiores. Se este fim, que é o fim da família, nem sempre é atingido realmente, outro problema, o da frustração do casamento, tem de ser resolvido à parte. Tal era o que preocupava as gerações retratadas numa literatura que vai a pouco a pouco perdendo a sua melhor significação.

Referimo-nos à literatura romântica, não só porque ela se demorava a descrever em verso e em prosa os impedimentos à união dos amantes, mas ainda porque atribuía ao drama antropológico uma significação que encontrava equivalência na cosmologia e na teologia. O romantismo não é já entendido, e o desentendimento resulta de ter sido esquecida a razão da sociedade tradicional. Esta sabia perfeitamente que a vida conjugal é difícil, porque exige a união nos três planos do composto humano: no espírito, na alma e no corpo. A comunidade de afectos e de sentimentos para que o conjunto não se dissolva por influências previsíveis e imprevisíveis. A fidelidade conjugal, contrariada por mil oportunidades e por mil circunstâncias, só pode ser garantida por uma fé religiosa. Esta verdade, expressa em outros termos, demonstra que o divórcio é o fim natural do casamento.

A decadência da literatura romântica corresponde ao desinteresse pelo problema do amor, o que é evidente na literatura actual em que o problema da morte lenta ou violenta, do assassínio individual ou colectivo, aparece como principal ingrediente da fabulação. O que se observa no livro é ainda mais evidente no espectáculo teatral e no cinematográfico. Assim chegamos, sem obrigação de passar por difíceis nomenclaturas técnicas, aos assuntos que constituem a temática específica da filosofia existencial, filosofia de crise para os homens e os povos que deixaram de ver no amor infinito o primeiro atributo de Deus.

Eis as razões que nos levaram a considerar O Banquete, e, também, os outros livros que compõem a série intitulada Estádios na via da vida, como a melhor introdução ao estudo da obra de Soren Kierkegaard e da reacção que o existencialismo exerceu, exerce e exercerá no desenvolvimento da filosofia portuguesa» (in apresentação da tradução portuguesa de O Banquete, de Soren Kierkegaard, Guimarães Editores, 1953).

Álvaro Ribeiro


Discurso de Johannes o Sedutor




«(...) Meus caros amigos: Para falar dignamente da divindade, é preciso estar entusiasmado, inspirado pelo sopro ou espírito divino, e dele receber o que se vai comunicar. Análogo acontece quando se fala da mulher. A mulher não é mera ideia que surgisse do cérebro do homem, sonho em pleno dia, fantasia intelectual, tema para discussão pro et contra. Não; o que se sabe a respeito da mulher foi a mulher que o ensinou; por isso quem mais sabe da mulher é quem teve mais amantes que o instruíssem. À primeira vez é-se um aprendiz; à segunda, já se está mais seguro da sua pessoa, como quem, nas discussões dos doutores, aproveita as amabilidades do primeiro adversário para as voltar contra o seguinte. Apesar destas concessões, nada fica perdido. Porque, se o beijo é um jogo e o abraço uma façanha que acabam como tudo tem de acabar, na escola das mulheres nunca se chega a dar todo o programa, nem a doutrina se resume numa proposição matemática, sempre idêntica, através das variações literárias dos métodos de demonstração. É que tais métodos são bons para as matemáticas e para os fantasmas, não para o amor e para a mulher. A verdade é que o sexo fraco, longe de ser inferior, é pelo contrário, o mais perfeito. Darei todavia ao meu discurso a forma de um mito, e, defendendo o partido da mulher que ofendeste de tão injusto modo, dar-me-ei por feliz se as minhas palavras representarem o pensamento das vossas almas quando chegardes a ver a aparição da volúpia, que fugirá de vós, tal como os frutos se afastam de Tântalo, porque ofendeste a mulher. É que não há outro modo de ofender a mulher, senão o vosso, se bem que ela esteja acima de todas as injúrias, se bem que o castigo vingue quem teve audácia tão impiedosa. Não quero melindrar ninguém. Mas as vossas ideias são meras invenções, calúnias próprias de homens casados, não as minhas, porque eu honro a mulher muito mais do que um marido seria capaz de a venerar.

«No princípio havia só um sexo; dizem os gregos que era o sexo masculino. Dotado de faculdades magníficas, era uma criatura admirável em que se reviam os deuses; os dons eram tão grandes que aconteceu aos deuses o mesmo que por vezes acontece aos poetas que gastaram todas as forças na criação de uma obra: tiveram inveja do homem. O pior é que tiveram receio dele; temeram que ele não estivesse disposto a aceitar de bom grado o jugo divino; tiveram medo, embora sem razão para isso, que o homem chegasse a abalar o céu. Haviam feito surgir uma força nova que lhes parecia estar a ser indomável. A inquietação e a perplexidade dominavam então no concílio dos deuses. Mostraram-se primeiro de uma generosidade pródiga ao criarem o homem; mas agora tinham de recorrer aos meios mais violentos para legítima defesa. Os deuses pensavam que o seu poderio estava em perigo, e que não podiam voltar atrás, como um poeta que renegue a sua obra. O homem já não podia ser dominado pela força, porque se o pudesse ser, os deuses teriam resolvido facilmente o problema; e era isso precisamente o que lhes causava desespero. Era preciso cativá-lo pela fraqueza, por um poder mais fraco e mais forte do que ele, capaz de o subjugar. Que poder espantoso e que poder contraditório não havia de ser! A necessidade também ensina os deuses a transcenderem os limites do engenho. Pensaram, meditaram, encontraram. A nova potência foi a mulher, maravilha da criação, que aos próprios olhos dos deuses era superior ao homem; e os deuses, ingénuos e contentes, mutuamente se felicitaram pela nova invenção. Que mais poderei eu dizer em louvor da mulher? A mulher foi tida por fazer o que parecia impossível aos deuses; além disso, a verdade é que desempenhou admiravelmente o seu papel; que maravilha não deve ser a mulher para conseguir os seus fins! Tal foi a astúcia dos deuses. A encantadora foi formada e dotada de uma natureza enganadora; mal encantou o homem, logo se transformou, enleando-o entre todas as dificuldades do mundo finito; era isso mesmo o que os deuses queriam. Que seria possível imaginar de mais fino, de mais atraente, de mais arrebatante, do que este subterfúgio dos deuses que querem salvaguardar um império, do que este processo para seduzir o homem? Tal é a realidade; a mulher é a sedução mais poderosa do céu e da terra. Comparado com ela, o homem é um ente muito imperfeito.


«A astúcia dos deuses veio a dar resultado. Nem sempre, porém, com êxito igual. Em todos os tempos surgiram homens que estiveram atentos à fraude. Uns ficaram isolados; outros observavam a graciosidade da mulher, e, mais do que os primeiros, viram de perto a armadilha. A estes chamo eu eróticos, e conto-me no número deles; os homens chamam-lhes sedutores, e as mulheres não lhes dão classificação especial, porque, para elas, representam o inefável. Os eróticos são os homens felizes. Vivem com maior magnificência do que os deuses, porque se alimentam de um manjar muito mais delicioso do que a ambrósia, e bebem um licor mais inebriante do que o néctar; nutrem-se do que é divino, porque vão comendo o astucioso pensamento dos deuses que os queriam seduzir; gozam o delicioso sabor da isca, e entre prazeres inigualáveis vão levando uma vida de felicidade, sem que passem além da isca, sem que nunca mordam o anzol. Os outros homens correm para o engodo, e devoram tudo, à maneira do aldeão que come salada de pepinos, e ficam presos pela boca. Só o erótico é dotado de delicadeza para fruir o gosto da isca e atribuir-lhe um valor infinito. A mulher distingue-o e estima-o; entre ambos se forma um entendimento secreto. Mas o erótico sabe que lhe cumpre guardar o segredo, se não quiser sofrer, mais cedo ou mais tarde, a vingança terrível dos deuses.

«Que nada se pode imaginar de mais maravilhoso, de mais encantador, de mais sedutor do que a mulher, os deuses o afirmaram e da afirmação nos deram garantia. O próprio embaraço que os obrigou a dobrar de engenho é mais uma prova de que eles jogaram tudo quanto removeram o céu e a terra para formar a mulher (O Banquete, Guimarães Editores, pp. 133-136).

Continua