quinta-feira, 8 de julho de 2010

As 24 teses tomistas




S. Tomás vencendo


1. A potência e o acto dividem o ser de tal maneira, que tudo o que existe ou é acto puro, ou resulta necessariamente dum composto de potência e acto, como seus princípios primários e intrínsecos.

1. Potentia te actus ita dividunt ens, ut quidquid est, vel sit actus purus, vel ex potentia et acta tamquam primis atque intrinsecis principiis necessario coalescat.

2. O acto, que é a perfeição, só a potência a limita, a qual é capacidade de perfeição. Donde se conclui que, na medida em que o acto é puro, é único e ilimitado; logo, onde é finito e múltiplo, constitui com a potência uma composição real.

2. Actus, utpote perfectio, non limitatur nisi per potentiam, quae est capacitas perfectionis. Proinde, in quo ordine actus purus, in eodem nonnisi ilimitatus et existit ubi vero est finitus ac multiplex, in veram incidit cum potentia compositionem

3. Pelo que só Deus subsiste na forma absoluta do ser e só ele é perfeitamente simples; tudo o que, fora dele, participa do ser, tem uma natureza que restringe o ser, e é formado de essência e de existência, como de princípios realmente distintos.

3. Quapropter in absoluta ipsius esse ratione unus subsistit Deus, unus est simplicissimus; cetera cuncta, quae ipsum esse participant, naturam habent qua esse coarctatur, ac, tanquam distinctis realiter principiis, essentia et esse constant.

4. O ser que tira o seu nome do ser não se aplica a Deus e às criaturas num sentido unívoco, nem, mesmo, num sentido puramente equívoco, mas segundo uma analogia, quer de atribuição, quer de proporcionalidade.

4. Ens, quod denominatur ab esse, non univoce de Deo ac de creaturis dicitur: nec tamen prorsus aequivoce., sed analogice, analogia tum attributionis tum proportionalitatis.

5. Além disso, há nas criaturas uma composição real do sujeito subsistente com as formas secundariamente acrescentadas, ou acidentes - composição que seria inconcebível, se o ser não fosse realmente recebido numa essência distinta.

5. Est praeterea in omnia creatura realis compositio subiecti subsistentis cum formis secundario additis sive accidentibus: ea vero, nisi esse realiter in essentia distincta reciperetur, intelligi non posset.





6. Além dos acidentes absolutos, há um relativo ou ad aliquid. Ainda que este não signifique, segundo a sua razão própria, alguma coisa inerente a um sujeito, ele tem frequentemente, a causa nas coisas, e possui, ainda, uma entidade real distinta do sujeito.

6. Praeter absoluta accidentia est etiam relativum sive ad aliquid. Quamvis enim ad aliquid non significet secundum propriam rationem aliquid alicui ihaerens, saepe tamen causam in rebus habet, et ideo realem entitatem distinctam a subjecto.

7. A criatura espiritual é absolutamente simples na sua essência; todavia há nela uma dupla composição; uma, de essência e de existência; outra, de substância e de acidentes.

7. Creatura spiritualis est in sua essentia omnino simplex. Sed remanet in ea compositio duplex: essentiae cum esse et substantiae cum accidentibus.

8. A criatura corporal é, na sua essência mesma, composta de potência e de acto, os quais, em relação à essência, se chamam matéria e forma.

8. Creatura vero corporalis est quod ipsam essentiam composita potentia et actu; quae potentia et actus ordinis essentiae, materiae et formae nominibus designantur.

9. Destes dois elementos, nenhum tem por si mesmo, existência; nenhum por si mesmo se produz ou corrompe; e tem lugar num predicamento, a não ser redutivamente, como princípio substancial.

9. Earum partium neutra per se esse habet; nec per se producitur vel corrumpitur, nec ponitur in praedicamento nisi reductive ut principium substantiale.

10. Ainda que a extensão em partes integrais seja uma consequência da natureza corporal, para um corpo, o ser substância e ser quantum não é a mesma coisa; a substância é, por natureza, indivisível, não à maneira do ponto, mas à maneira do que é fora da ordem da dimensão; a quantidade, que dá extensão à substância, essa difere dela realmente, e constitui um verdadeiro acidente.

10. Etsi corpoream naturam extensio in partes integrales consequitur, non tamen idem est corpori esse substantiam et esse quantum. Substantia quippe ratione sui indivisibilis est, non quidem ad modum puncti, sed ad modum eius quod est extra ordinem dimensionis. Quantitas vero, quae extensionem substantiae tribuit, a substantia realiter differt et est veri nominis accidens.

11. A matéria, determinada pela quantidade, é o princípio da individuação, isto é, da distinção numérica, que não pode existir nos puros espíritos, e que é a que existe entre dois indivíduos numa mesma natureza específica.

11. Quantitate signata materia principium est individuationis, id est, numericae distinctionis, quae in puris spiritibus esse non potest, unius individui ab alio in eadem natura specifica.


12. É também pelo efeito desta mesma quantidade que um corpo é circunscrito num lugar, e que ele não pode ser, desta maneira, senão num só lugar, trate-se de que potência se tratar.

12. Eadem efficitur quantitate ut corpus circumscriptive sit in loco, et in uno tantum loco de quacumque potentia per hunc modum esse possit.

13. Há duas categorias de corpos: os vivos e os não vivos. Para que, nos vivos, haja no mesmo sujeito uma parte movente e outra movida por si, a forma substancial, chamada alma, exige uma disposição orgânica, ou partes heterogéneas.

13. Corpora dividuntur bifariam: quaedam enim sunt viventia, quaedam expertia vitae. In viventibus, ut in eodem subiecto pars movens et pars mota per se habeantur, forma substantialis, animae nomine designata, requerit organicam dispositionem, seu partes heterogeneas.

14. As almas das ordens vegetativa e sensitiva não subsistem de forma alguma, por si mesmas, nem são geradas por si mesmas: elas são apenas o princípio por que o vivente é e vive, e como a sua dependência da matéria é total, com a corrupção do composto, corrompem-se por acidente.

14. Vegetalis et sensilis ordinis animae nequaquam per se subsistunt, nec per se producuntur, sed sunt tantummodo ut principium quo vivens est et vivit et, cum a mateira se totis dependeant, corrupto compositio, eo ipso per accidens corrumpuntur.

15. Pelo contrário, a alma humana subsiste por si mesma: podendo ser recebida num sujeito suficientemente preparado, é criada por Deus; e, por natureza, é incorruptível e imortal.

15. Contra, per se subsistit anima humana, quae, cum subiecto suficienter disposito potest infundi, a Deo creatur, et sua natura incorruptibilis est atque immortalis.

16. Esta mesma alma racional une-se ao corpo de tal modo, que é a sua única forma substancial, e que o homem por ela é que é homem, e animal, e vivente, e corpo, e substância, e ser; logo ela dá ao homem todo o grau essencial de perfeição; e ainda comunica ao corpo o acto de ser pelo qual é ela mesma.

16. Eadem anima rationalis ita unitur corpori, ut sit eiusdem forma substantialis unica, et per ipsam habet homo ut sit homo et animal et vivens et corpus et substantia et ens. Tribuit igitur anima homini omnem gradum perfectionis essentialem; insuper communicat corpori actum essendi, quo ipsa est.




17. Duas ordens de faculdades derivam naturalmente da alma humana: orgânicas e inorgânicas: as primeiras, a que pertencem os sentidos, têm como sujeito o composto; as segundas, só a alma. A inteligência é, pois, uma faculdade intrinsecamente independente de um orgão.

17. Duplicis ordinis facultates, organicae et organicae, ex anima humana per naturalem resultantiam emanant: priores, ad quas sensus pertinet, in compositio subiectantur, posteriores in anima sola. Est igitur intellectus facultas ab organo intrinsece independens.

18. A intelectualidade decorre necessariamente da imaterialidade, a ponto de a escala da intelectualidade estar na razão do afastamento da matéria. O objecto adequado da inteligência é comummente o próprio ser: o objecto próprio da inteligência humana, no seu estado presente de união, contem-se nas essências abstractas das condições materiais.

18. Immaterialitatem necessario sequitur intellectualitas, et ita quidem ut secundum gradus elongationis a materia, sint quoque gradus intellectualitatis. Adaequatum intellectionis objectum est communiter ipsum ens; proprium vero intellectus humani in praesenti statu unionis, quidditatibus abstractis a conditionibus continetur.

19. O conhecimento recebemo-lo, pois, das coisas sensíveis. Mas como o sensível não é inteligível em acto, tem que se admitir, na alma, além do intelecto formalmente inteligente, uma virtude activa que abstraia as espécies inteligíveis das representações sensíveis.

19. Cognitionem ergo accipimus a rebus sensibilibus. Cum autem sensibile non sit inteligibile in actu, praeter intellectum formaliter intelligentem, admittenda est in anima virtus activa, quae species intelligibiles a phantasmatibus abstrahat.

20. Por estas espécies, nós conhecemos directamente o universal; o singular atingimo-lo pelos sentidos, e também intelectualmente, por um retorno à representação sensível: às coisas espirituais, chegamos por analogia.

20. Per has species directe universalia cognoscimus; singularia sensu attingimus, tum etiam intellectu per conversionem ad phantasmata; ad cognitionem vero spiritualium per analogiam ascendimus.

21. A vontade não precede a inteligência: segue-a. Ela tende necessariamente ao objecto que se lhe apresenta como o bem capaz de satisfazer a sua tendência sob todos os pontos de vista; mas escolhe, livremente, entre os bens que se prestam a apreciações diversas. A escolha segue, pois, o último juízo prático, mas que seja o último, depende da vontade.

21. Intellectum sequitur, non praecedit voluntas, quae necessario appetit id quod sibi praesentatur tamquam bonum ex omni parte explens appetitum, sed inter plura bona, quae judicio appetenda proponuntur, libere eligit. Sequitur proinde electio iudicium practicum ultimum; at quod sit ultimum, voluntas efficit.




22. Não conhecemos Deus, por intuição imediata; não o demonstramos a priori mas a posteriori, isto é, pelas criaturas, por argumento conduzido do efeito para a causa, a saber, das coisas que se movem, e não podem ser a causa adequada do seu movimento, para um primeiro motor imóvel; concluindo da dependência das coisas deste mundo duma ordem hierarquizada da causas, para uma primeira causa não causada; das coisas corruptíveis, que podem igualmente ser ou não ser, para um ser absolutamente necessário; das coisas que segundo as perfeições diminuídas do ser, da vida e da inteligência, mais ou menos são, vivem, entendem, para um ser soberanamente inteligente, soberanamente vivente, soberanamente existente; finalmente, da ordem do universo, para uma inteligência separada que ordenou as coisas, as dispõe e as dirige a um fim.

22. Deum esse neque immediata intuitione percipimus neque a priori demonstramus, sed utique a posteriori, hoc est, per ea quae facta sunt, ducto argumento ab effectibus ad causam; videlicet, a rebus quae moventur et sui motus principium adaequatum esse non possunt, ad primum motorem immobilem; a processu rerum mundanarum e causis inter se subordinatis, ad primam causam incausatam; a corruptibilibus quae aequaliter se habent ad esse et non esse, ad ens absolute necessarium; ab iis quae secundum minoratas perfectiones essendi, vivendi, intelligendi, plus et minus sunt, vivunt, intelligunt, ad eum qui est maxime intelligens, maxime vivens, maxime ens; denique ab ordine universi ad intellectum separatum que res ordinavit, disposuit, et dirigit ad finem.

23. A constituição metafísica de Deus define-se bem, se dissermos que a sua existência é idêntica à sua essência actuada, isto é, existente; por outras palavras, que ele é a existência subsistente, e que é por isso que é infinito em perfeição.

23. Divina Essentia, per hoc quod exercitae actualitati ipsius esse identificatur, seu per hoc quod est ipsum. esse subsistens, in sua veluti metaphysica ratione bene nobis constituta proponitur, et per hoc idem rationaem nobis exhibet suae infinitatis in perfectione.

24. Deus distingue-se, pois, de todas as coisas finitas, pela pureza mesmo do seu ser. Donde se infere, em primeiro lugar, que o mundo só pela criação pode proceder de Deus; depois, que a virtude criadora que o ser atinge tanto como ser, não é comunicável, nem mesmo milagrosamente, a uma criatura finita, qualquer que ela seja; finalmente, que nenhum agente criado pode ter acção sobre o ser, produzindo-lhe qualquer efeito, se não receber um movimento da causa primária.

24. Ipsa igitur puritati sui esse a finitis omnibus rebus secernitur Deus. Inde infertur primo, mundum nonnisi per creationem a Deo procedere potuisse; deinde virtutem creativam, qua per se primo attingitur ens inquantum ens, nec miraculose ulli finitae naturae esse communicabilem; nullum denique creatum agens in esse cuiuscumque effectus influere, nisi motione accepta a prima Causa (in A Filosofia Tomista em Portugal, Lello & Irmão, 1978, pp. 245-251).





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