segunda-feira, 6 de março de 2017

Tibete: o Tecto do mundo (i)

Escrito por Frédéric Lenoir




«O nascimento histórico de Budha, como os apóstolos da doutrina esotérica o descrevem, não está revestido das pitorescas maravilhas que lhe emprestam as imaginações populares, nem o seu progresso no caminho para adepto foi marcado pelas lutas sobrenaturais que contam as lendas simbólicas. Por outro lado a encarnação que, na aparência, foi o nascimento de Budha, não é, com certeza, considerada pela ciência do ocultismo como outro nascimento qualquer, nem o desenvolvimento espiritual que Budha atravessou durante a vida terrestre é uma mera evolução intelectual, como a história de qualquer outro filósofo. O erro da maior parte dos escritores europeus, quando tratam de um problema desta ordem, está em considerarem as lendas exotéricas como a narração de um milagre a que nada há que opor, ou como um mito puro e fantástica decoração a uma vida notável.

[...] As ciências ocultas não conhecem outro processo de gerar o corpo físico de uma criança humana senão o indicado pelas leis físicas, mas conhecem muito bem os limites dentro dos quais "a única vida progressiva" ou a mónada espiritual, ou fio contínuo de uma série de encarnações, pode escolher certos corpos infantis para a sua habitação. Pela operação do Karma, nos casos ordinários da humanidade, esta selecção é feita inconscientemente pelo Ego espiritual antecedente saindo do Devachan, mas está nas suas mãos escolher a sua encarnação, nos casos em que a vida entrou à força no sexto princípio, quando o homem chegou ao grau de adepto e tem o poder de guiar conscientemente o seu Ego espiritual, depois deste deixar o corpo onde atingiu esse grau temporária ou permanentemente. [...] As reencarnações do Dalai e Teshu Lamas no Thibet, de que os viajantes se riem por falta de conhecimentos que os habilitem a separar os factos da fantasia, são um seguro facto científico; nesses casos os adeptos dizem antecipadamente quando e em que corpo, como e quando nasceram, quando de novo se reencarnam e poucas vezes se enganam e dizemos poucas vezes porque há alguns acidentes de natureza física contra os quais não se podem precaver.

[...] O nascimento de Budha é um mistério como este e [...] será fácil recordar a história popular da sua origem miraculosa e seguir as referências simbólicas nos factos das fábulas mesmo as mais grotescas. Por exemplo, não há nada que pareça menos como um facto científico do que a história de Budha ter entrado pela anca de sua mãe, na forma de um pequeno elefante branco. O elefante branco, que é considerado como um animal raro e lindo dentro do seu género, é simplesmente o suporte simbólico de um adepto. E o mesmo acontece com as lendas que referem que o corpo da criança, antes mesmo de nascer, fora escolhido como habitação de um grande espírito, já dotado com superlativa sabedoria e bondade».

A. P. Sinnett («Budhismo Esotérico»).


«A vida de Gautama Buda, fundador da religião de expansão mundial denominada budismo, começa como um verdadeiro conto de fadas; cerca do ano 560 antes de Cristo, Maya, a linda esposa do príncipe Suddhodana da tribo dos Sakyas, que reinava na região do vale do Ganges situada no sopé dos Himalaias, deu à luz um filho. Puseram-lhe o nome de Siddharta Gautama, o que significava textualmente "aquele que alcançou a meta da perfeição". O jovem príncipe parecia honrar esse nome: era rico, amado, inteligente, feliz.

Aos dezasseis anos apaixonou-se pela princesa Rahunada. Desposou-a um ano mais tarde e ela deu-lhe um filho que denominaram Rahula. A sabedoria do príncipe Siddharta ia aumentando. Nada lhe faltava em bens terrenos, amava a princesa como no primeiro dia e o seu casamento era feliz.

Aqui termina, porém, o conto de fadas e começa a realidade. Aos 29 anos, Siddharta sofre uma intensa crise espiritual a qual irá dar origem à sua transformação interior. Saindo do palácio em passeio depara sucessivamente com um ancião, um doente, um defunto e um asceta. Estes encontros fazem-no meditar sobre o sentido da vida.

Enfastiado com a existência que até aí levava, sentindo repugnância por essa maneira de viver ociosa e inútil, abandona secretamente o palácio deixando para trás a mulher e o filho, corta a barba e o cabelo e, envergando a túnica amarela dos penitentes, inicia uma vida errante. Dois eremitas, de nome Atara Kalama e Odraka Ramaputra, tornam-se os seus mestres, e a sua vida o modelo que pretende seguir. Como eles, deseja encontrar uma resposta para o sentido da existência humana através da meditação, do jejum e da penitência.









Ta Mo (Bodhidharma). Ver aqui














De acordo com a tradição budista, ao fim de sete anos e de sete dias acontece algo de maravilhoso. Ao atravessar a região de Uruvela, próximo da Patna, Siddharta decide descansar debaixo de uma figueira. Antes de se deitar dá sete vezes a volta ao tronco da árvore jurando em voz alta: "Que a minha pele se enrugue, as minhas mãos se atrofiem e os meus membros se desfaçam - enquanto não atingir a verdade plena não abandonarei este local!" Após o que cai em êxtase.

Ao voltar a si dera-se a metamorfose. A figueira transformou-se numa árvore boa e o príncipe Siddharta no Buda, o "Sapiente", o "Iluminado". Deste acontecimento nasceu a doutrina denominada budismo.

A partir de então Buda nunca mais deixou a túnica de monge peregrino. Enquanto percorria a região da Índia denominada Magadha ia-se reunindo à sua volta um número cada vez mais elevado de discípulos que o ouviam pregar e falar com o povo. Ao mesmo tempo fundava numerosas ordens religiosas cujos adeptos viviam de acordo com normas de pobreza e castidade por ele proclamadas. Diz-se que morreu com 80 anos, num bosque perto da cidade de Kasinagara, após 40 anos de peregrinações. O seu cadáver foi queimado e as cinzas espalhadas. Por esse motivo é possível encontrar na Índia inúmeros lugares sagrados. Na sua origem, os ensinamentos de Buda não podem considerar-se propriamente uma religião, mas sim uma filosofia, isto é, o propósito de adquirir sabedoria e de alcançar a verdade. Os seus continuadores é que transformaram o budismo numa religião.

Esta doutrina opõe-se ao bramanismo hindú. Não reconhece Deus ou a alma, a vida eterna ou o renascimento, para ela não há castas nem diferenças sociais. É a procura da libertação que conduz à paz de espírito.

Os ensinamentos de Buda, (a "Roda da Sabedoria") resumem-se numa máxima: "Trazemos em nós próprios a chave da nossa bem-aventurança". Este princípio foi transmitido por Buda no famoso "Sermão de Benares" poucos dias após a revelação. Compõe-no "quatro verdades sagradas":

1. O sofrimento: toda a vida é sofrimento;

2. A origem do sofrimento é devido à sede, ao desejo de prazer. Esta sede provoca a transmigração da alma do ser humano;

3. A supressão do sofrimento: o sofrimento é eliminado através da supressão da sede de prazer e através do domínio do desejo;

4. A via para a supressão do sofrimento: é conseguido por "oito caminhos diferentes": o da verdadeira crença, da verdadeira decisão, da verdadeira palavra, do acto, da vida e do zelo verdadeiro e dos verdadeiros pensamentos e meditações. O objectivo último e o mais importante destas verdades sagradas do budismo e de todas as aspirações espirituais é "encontrar o fim e a paz eterna", o nirvana, o apagar de tudo. Todavia Buda não chegou a declarar se o nirvana era ainda a existência ou então o aniquilamento absoluto. Mas era, sem dúvida, a libertação do renascimento (doutrina defendida pelo bramanismo) e da transfiguração das almas. Era, por conseguinte, a extinção de todo o sofrimento. Para se atingir o nirvana teria de percorrer-se o caminho da "integridade, da meditação e da sabedoria".

Buda criou ordens monásticas (a que os leigos também tinham acesso) pois só um monge podia alcançar o objectivo proposto - o nirvana. A sua doutrina não incluía ritos porque não se venerava nenhum Deus. Apenas se realizavam reuniões em que era debatida a conduta de cada um.


O budismo estabeleceu cinco leis ou dogmas: não matar, não roubar, não cometer adultério, não mentir e não beber álcool. Os textos das escrituras sagradas compõem-se de três "cestos" (piteka):

1. "o vinaya" - o cesto das regras, o texto da disciplina monacal;

2. "o sutta" -  o cesto dos sermões e das prédicas de Buda;

3. "o abhidarma" - o cesto dos dogmas e da filosofia.

Ao longo dos séculos o budismo sofreu numerosas transformações. Distinguem-se fundamentalmente duas vias: "o pequeno veículo" (hinãyãna) e "o grande veículo" (mahãyãna). O seu nome deriva de uma imagem figurada, a de que o mundo se assemelha a uma casa a arder. Quem se importar apenas com a sua salvação limitar-se-á a um "pequeno veículo" capaz de ser puxado por um veado ou por uma cabra. Aquele que, pelo contrário, quiser salvar outros precisará de um "grande veículo" que será puxado por um boi.

Os adeptos de uma e de outra via opuseram-se outrora vigorosamente. Acabou por se impor a escola de "grande veículo" (o mahãyãna) que transformou o budismo numa religião com implantação mundial. Tem como lema: "Tudo é vão". O "mahãyãna" considera-se um aperfeiçoamento do "pequeno veículo" que aplica a prática da misericórdia. É possível encontrar aqui um paralelo com as linhas que orientaram o cristianismo, pois segundo ele, o amor e a compaixão minoram o padecimento dos outros. Cada pessoa pode obter, através do seu próprio sofrimento, a libertação do seu semelhante. Surgiu, assim, a substituir a libertação do próprio Buda, a religião da libertação - o budismo.

Esta doutrina extinguiu-se na Índia a partir do século XIII. Não lhe foi possível opor-se ao sistema de castas e ao dogma da transmigração das almas proposto pelo bramanismo, tornando-se uma religião seguida apenas no Extremo Oriente. Com cerca de 300 milhões de adeptos, os budistas constituem a terceira maior comunidade religiosa do mundo depois dos cristãos (cerca de 200 cultos diferentes e aproximadamente 1,1 biliões de crentes). É impossível indicar o número exacto de adeptos de Buda, pois existe uma variedade considerável de formas de culto e de seitas, o que permite que, no Extremo Oriente, possa ser-se simultaneamente budista e confucionista ou budista e xintoísta.

90% dos budistas vivem na Ásia. O budismo do "hinãyãna" é praticado sobretudo na Tailândia, Birmânia, Cambodja e Ceilão. O "mahãyãna" continua a ser seguido na China e no Japão, no Nepal e na Coreia e, sob a forma particular de lamaísmo, em certos estados do Himalaia.

O budismo alcançou o Japão através da China e da Coreia, adaptando-se aí às circunstâncias do país. As suas escolas propagam hoje em dia a doutrina do "Zeu" que ensina a renúncia espiritual, e a do "Shin" cujo objectivo é a libertação através da confiança no perdão. As meditações dos monges japoneses baseiam-se nas regras estabelecidas pelo budismo ateísta. Os adeptos de Zeu só raramente se referem a Buda. Segundo o mestre-Zen Huan Po: "Os ensinamentos de Buda apenas têm como objectivo permitir ultrapassar o espaço preenchido pelo pensamento; tendo emudecido o jogo das ideias, emudece também a doutrina de Buda".

O budismo nunca desempenhou um papel verdadeiramente importante na Europa, embora nos anos 20 se tenham formado comunidades budistas que construíram os seus templos em algumas grandes capitais. Não se pode negar, no entanto, a influência exercida pela maneira de pensar oriental sobre a literatura e a filosofia».

«Buda. A doutrina da renúncia conquistou a Ásia» (in «Homens que transformaram o mundo», Coordenação de Roland Göök, Círculo de Leitores, 1978).


Maya's dream of the Birth of Gautama Siddharta



«Toda a doutrina budista remete para um personagem histórico que viveu provavelmente por volta do séc. VI antes da nossa era numa pequena comunidade do actual Norte da Índia. A historiografia oficial de Buda, seguramente tardia e adornada, remete para elementos da realidade que corroboram dados arqueológicos. O jovem príncipe Siddhârta Gautama, do clã dos Sakyas (o que explica o seu outro nome de Sakyamuni: o sábio de Sakya), foge do palácio do seu pai depois de ter contemplado um idoso, um doente, um cortejo fúnebre e um homem que meditava tranquilamente. Compreendendo que a vida não é senão uma sucessão de sofrimentos, procura em vão no ascetismo a solução para os seus tormentos: como atingir a libertação definitiva da ignorância fundamental da natureza última do espírito que é a fonte de todos os nossos males? Renunciando às práticas extremas dos ascetas, mergulha numa longa meditação silenciosa e acaba por atingir a Percepção: um estado súbito de compreensão de todas as coisas e de libertação interior. Esta experiência simultaneamente fundadora e extrema valer-lhe-á a alcunha de Buda: o Perceptivo. Desde então, passa os quarenta anos que ainda tem para viver a ensinar a Via que ele descobriu (Dharma) e a organizar a comunidade dos seus discípulos (Sangha).

Os seus ensinamentos baseiam-se nas chamadas Quatro Nobres Verdades. Verdade e universalidade do sofrimento, verdade sobre a origem do sofrimento (a sede, o desejo), verdade sobre a supressão do sofrimento (extinção da sede) e verdade do caminho, o nobre óctuplo caminho, que conduz à libertação definitiva: o nirvana (o além/a extinção de qualquer causa de sofrimento). Sistema filosófico coerente baseado na experiência interior e na razão, o budismo é também uma religião na medida em que adopta as crenças fundamentais da cultura espiritual indiana (o samsara, o karma, o renascimento) e forjará, ao longo da sua história, inúmeros rituais. Propõe ao Homem uma via espiritual baseada na experiência da meditação, que se presume fornecer um verdadeiro conhecimento de si e do funcionamento do espírito, susceptível de libertar o ser humano da ilusão do eu, fonte de todas as dependências que conduzem ao sofrimento. Em termos ocidentais modernos, dir-se-ia que o budismo visa fornecer a cada indivíduo uma felicidade estável e definitiva ajudando-o a corrigir os seus principais condicionamentos e defeitos que dificultam a liberdade interior, a começar pela ignorância, e optimizar as suas qualidades, a começar pela intenção justa.

[...] Após a morte de Buda, os seus discípulos vão transmitir os seus ensinamentos e desenvolver a comunidade. Nascido ao norte da Índia, o budismo vai rapidamente estender-se para sul até à ilha de Ceilão e a leste para países que correspondem à Tailândia, ao Vietname, ao Laos, ao Cambodja ou à Birmânia actuais. Este budismo antigo, o chamado Theravada, destaca sobretudo a libertação individual. O seu ideal é o de Ahrat, o sábio que atinge a iluminação depois de Buda e chega ao nirvana, saindo assim definitivamente do círculo infernal dos renascimentos (samsara). Mas, ao estender-se alguns séculos mais tarde para o norte do continente asiático (Nepal, China, Mongólia, Japão, Coreia, Tibete), o budismo conhecerá uma evolução significativa e desenvolverá a noção de compaixão para com qualquer ser vivo. Esta compaixão torna-se o cerne da sua mensagem e incita os meditadores a recuarem ao momento da libertação definitiva para renascerem, a fim de ajudarem os seres ignorantes e sofredores. O ideal é o do bodhisattva, um ser perceptivo que recusa aceder ao nirvana para bem de todos. Os partidários deste pensamento qualificaram-se a si próprios como adeptos do Grande Veículo (Mahayana) e qualificaram o budismo antigo de Pequeno Veículo (Hinayana). Esta terminologia impôs-se, embora se revista de um carácter bastante pejorativo para os adeptos do budismo antigo.

O budismo tibetano inscreve-se na tradição do Grande Veículo. É pela primeira vez introduzido no Tibete no reino de Songtsen Gampo, no momento em que o país realiza a sua unidade política e cultural. Como vimos, é por intermédio de duas esposas do grande monarca que a mensagem de Buda chega timidamente ao País das Neves. A primeira é chinesa e chama-se Wengchen. A segunda é nepalesa e chama-se Bhrikuti. Ambas chegaram ao Tibete acompanhadas por monges e objectos sagrados. Sem renegar a religião Bon dos seus antepassados, o rei mandou construir vários templos budistas, entre os quais o famoso Jokhang que ainda subsiste em Lassa. A nova religião teve dificuldades em estabelecer raízes, e só no reino do rei Trisong Detsen, cerca de um século mais tarde, é que o budismo conheceu um primeiro e verdadeiro desenvolvimento. São traduzidos vários textos a partir do sânscrito, uma das duas línguas indianas antigas na qual estão transcritos os ensinamentos de Buda e da tradição. Mas especialmente, o rei convidou vários mestre espirituais de grande renome entre os quais Padmasambhava. Este não só era um budista erudito, como também um grande yogi tântrico. O tantrismo é uma corrente que atravessa quer o hinduísmo quer o budismo. Valoriza as práticas do ioga e insiste na iniciação de mestre (guru) a discípulo através do ensinamento de doutrinas secretas registadas nos textos designados "Tantras" (daqui o nome de tantrismo). Pode-se afirmar, grosso modo, que se trata do ramo esotérico e iniciático da espiritualidade indiana. O tantrismo pode igualmente preconizar para os discípulos mais avançados a prática da sexualidade no trabalho espiritual, o que deu lugar no Ocidente a toda a espécie de interpretações erótico-místicas fantasiosas. Os estágios de tantras que se multiplicam há cerca de vinte anos e que permitem a ocidentais viver uma abordagem descomplexada da sua sexualidade, não têm absolutamente nada a ver com o tantrismo budista!».

Frédéric Lenoir («TIBETE - O momento da verdade»).



Shakti

Tantra Kundalini










TIBETE: o Tecto do mundo

PORQUE É QUE A OPINIÃO PÚBLICA OCIDENTAL É TÃO SENSÍVEL À CAUSA DO TIBETE?

Existe um fosso entre a falta de apoio que o Tibete tem junto das instâncias internacionais e o formidável capital de simpatia de que goza junto das opiniões públicas, nomeadamente ocidentais. Este é, de resto, o seu único trunfo para tentar sobreviver. Tal admiração levanta a seguinte questão: porque é que este povo tão pequeno e tão longínquo suscita uma tal corrente de simpatia através do planeta, ao ponto de mobilizar as opiniões públicas contra a inércia dos seus próprios governos? Os dirigentes chineses colocam a si próprios diariamente esta questão! Zhang Qingli, o actual chefe do partido comunista no Tibete que ordenou a repressão das manifestações perguntava-se assim, em 2006, numa entrevista concedida ao Spiegel: "Nunca compreendi por que razão uma pessoa como o dalai-lama foi agraciada com o Nobel da Paz. Não consigo compreender porque é que tantos países se interessam por ele".

Debrucei-me longamente sobre as razões do interesse dos Ocidentais pelo Tibete e pelo budismo tibetano. Sintetizarei brevemente aqui as minhas pesquisas sobre esta questão publicadas pela editora Fayard em duas obras: La Recontre du bouddhisme et de l'Occident (1999) e L'Epopée des Tibétains, entre mythe et réalité (obra escrita a par com Laurent Deshayes, 2002), citando por vezes algumas passagens dessas obras. Este interesse não nasceu ontem e baseia-se em três elementos distintos, que podem evidentemente sobrepor-se consoante os públicos: o mito do Tibete, a personalidade e o discurso do dalai-lama, o interesse pelo budismo tibetano. [...] Analisemos agora os dois primeiros.


Nascimento do mito do Tibete

Tecto do mundo, terra longínqua e quase inacessível, povo virado para si com estranhos costumes: o Tibete possui os ingredientes para dar que pensar e fazer nascer toda a espécie de sonhos. Desde a Idade Média, cristaliza para os viajantes europeus este sonho de um mundo extraordinário: o missionário procura ali um reino cristão escondido, o comerciante parte em busca de ouro e de pedras preciosas, o místico de uma sabedoria perdida. Deste modo, o mito Ocidental de um Tibete mágico e misterioso, que se viria a desenvolver a partir do séc. XIX, mergulha as suas raízes nos primeiros relatos dos viajantes medievais.

Após uma viagem de cerca de um ano, seguindo a rota das caravanas em direcção ao longínquo Oriente, o franciscano Guillaume de Rubrouck consegue chegar ao Tibete em 1254. Ele conta que o país tem tal quantidade de ouro que basta esgravatar a terra para retirar o que se quiser. Meio século mais tarde, o viajante veneziano Marco Pólo fica impressionado com as práticas mágicas e ocultas dos Tibetanos que encontra presumivelmente na corte do imperador Khubilai: "Eles têm os melhores encantadores e astrólogos de todas as províncias, pois fazem tais encantamentos e tais maravilhas por artes diabólicas que é uma maravilha vê-lo e ouvi-lo".

O fascínio pela religião tibetana e pelo fervor dos seus monges remonta também a essa época longínqua. Guillaume de Rubrouck, que é o primeiro a descrevê-los, fica impressionado pela sua semelhança com os monges cristãos: "Parece-me ver religiosos do nosso país. Têm a cabeça rapada e a barba feita. Usam mitras de cartão na cabeça. Guardam castidade e reúnem-se em grupos de cem ou duzentos num mesmo convento". Um outro franciscano, Jean de Monte Corvino, escreve ao papa Clemente V, em 1306, o seguinte sobre os lamas tibetanos: "Estes religiosos são bastante mais austeros e têm uma observância muito mais estrita do que os religiosos latinos".

A separação do Império mongol, que tornaria a estrada do Tibete inacessível aos viajantes europeus durante vários séculos, tem como efeito aumentar a lenda deste longínquo Éden. São os missionários católicos que, no séc. XVII, conseguem penetrar de novo no País das Neves no termo de viagens épicas. O austríaco Johannes Grueber é sem dúvida o primeiro ocidental a chegar a Lassa e a falar do dalai-lama e da veneração de que ele é alvo. O que espanta de novo estes missionários é a inquietante semelhança entre a religião tibetana, a que eles chamam "lamaísmo", e a religião católica. A tal ponto que o dalai-lama é qualificado de "papa da Ásia" e o lamaísmo de "Igreja amarela". A Europa interroga-se sobre as razões desta semelhança perturbadora, e a hipótese mais difundida é a de que o Tibete seria um antigo reino cristão desconhecido cuja religião teria degenerado ao longo do tempo. De tal forma, que o papa Clemente XII faz chegar ao 7.º dalai-lama, em 1738, uma carta que o incita a juntar-se ao grémio da igreja cristã: "Temos a esperança fundada de que, pela misericórdia do Deus infinito, chegareis a ver claramente que só a prática da doutrina do Evangelho, de que a vossa religião se aproxima muito, pode conduzir à felicidade de uma vida eterna".




No séc. XIX, a entrada no Tibete está totalmente vedada aos Ocidentais, quer pelo facto de os Tibetanos desconfiarem de qualquer influência estrangeira, quer devido aos seus vizinhos russos, chineses e britânicos que têm ambições face ao Tecto do mundo e fecham as suas fronteiras aos viajantes, o que ainda reforça mais o seu desejo de ali se deslocarem e suscita toda a espécie de fantasias. Há dezenas de expedições que não têm sucesso ou terminam de forma trágica e os poucos europeus que conseguem chegar ao Tecto do mundo à custa de incríveis subterfúgios e sofrimentos, publicam narrativas que têm um enorme sucesso nas livrarias, como a do padre Huc, Souvenirs d'un voyage dans la Tartarie, le Thibet et la Chine (1850), imediatamente traduzido em doze línguas. Apesar da crítica que faz à religião tibetana "idolátrica", o missionário não consegue esconder a emoção e a admiração perante o fervor religioso do povo tibetano. Mas, durante a segunda metade do séc. XIX, mais nenhum estrangeiro conseguiria pôr os pés em Lassa, que é qualificada como "cidade interdita". É durante estas décadas que se desenvolve o grande mito esotérico do Tibete como "última terra sagrada da humanidade".


O Oriente dos Românticos

Para compreender a emergência deste novo mito, é necessário inserirmo-nos no contexto do Ocidente da época. Desde o séc. XVII, a razão crítica, a ciência, a técnica, nunca deixaram de progredir. Muitas das visões herdadas da Antiguidade e da Idade Média são consideradas obsoletas. A religião cristã é violentamente atingida e há muitos espíritos cultos que se afastam dela por os seus principais dogmas surgirem como fábulas perante os critérios da ciência triunfante. Paralelamente a esta ascensão de ciência, o mundo tecniciza-se e transforma-se a uma velocidade surpreendente. Estas mudanças suscitam fortes resistências. Ora, estas resistências não vêm apenas das instituições religiosas ou dos movimentos políticos reaccionários, mas também de círculos de intelectuais europeus que denunciam uma visão demasiado materialista do mundo.

O romantismo alemão surge assim no início do séc. XIX como uma revolta contra "o racionalismo sufocante" e uma aspiração a um reencantamento do mundo pela poesia, pelo mito, pela arte, pela simbologia. Os românticos viram-se para o Oriente como o lugar da verdade primordial da humanidade, ainda não contaminado pelo espírito ocidental reeducador. Perante um Ocidente submetido ao maquinismo e a um materialismo destruidor, eles exaltam um Oriente místico e idealizado: "É no Oriente que nós devemos procurar o romantismo supremo" afirma em 1800 Friedrich von Schlegel. Ao racionalismo das Luzes, Goethe, Herder, Novalis e muitos outros, contrapõem a imaginação e a poesia da Índia. Em poucas décadas as descobertas linguísticas, arqueológicas, históricas e geográficas fazem o toque de finados do Oriente ideal dos românticos. A segunda metade do séc. XIX é, portanto, marcada por uma implacável desmistificação do sonho oriental promovido pela colonização, que permite aos Europeus desbravar, conhecer e dominar todas as terras, povos e culturas do mundo.


O Tibete esotérico

Ora, o Tibete constitui uma formidável ilhota de resistência a este duplo empreendimento de desmistificação e de dominação. Como não se consegue penetrar no seu território, continua a fazer sonhar. É esta a razão pela qual o Tibete se tornou verdadeiramente "a terra eleita" destes novos românticos de finais do séc. XIX que são as sociedades secretas e os círculos esotéricos. Em reacção, mais uma vez, à progressão constante da ciência e do materialismo, assiste-se, de facto, desde meados do séc. XIX, a um retorno muito poderoso do pensamento religioso e mágico. A par das várias "manifestações" religiosas no seio das Igrejas cristãs (mórmons, adventistas, testemunhas de Jeová, evangélicos nos Estados Unidos, inúmeras fundações de ordens religiosas e aparecimentos da Virgem na Europa católica), vêem-se nascer muitos movimentos de religiosidade paralela (que qualificaremos aqui de "esotérica") os quais pretendem reconciliar a ciência e a espiritualidade não dando razão ao dogmatismo das Igrejas cristãs nem ao racionalismo cientista.

O desenvolvimento fulgurante do espiritismo - uma teoria fundada na crença da reencarnação e uma prática que permite entrar em contacto com os espíritos dos mortos - é disso um bom exemplo. Na Europa e nos Estados Unidos há inúmeros intelectuais e artistas como Victor Hugo, Alexandre Dumas ou Artur Conan Doyle, que dele se tornam fervorosos adeptos. Uma das mais importantes sociedades esotéricas é fundada em Nova Iorque em 1875 pelo coronel Olcott e uma médium russa, Helena Blavatsky: a Sociedade Teosófica. O seu objectivo é ultrapassar todas as religiões históricas para revelar a "religião primordial" da humanidade, de onde decorrem todas as grandes correntes filosóficas e espirituais do mundo. É desta "religião-sabedoria" primordial, transmitida de forma secreta de iniciado a iniciado, que a Sociedade Teosófica pretende ser o derradeiro depositário. De que maneira? Pela voz de grandes iniciados, "os Mestres" que ensinam directamente Helena Blavatsky de forma telepática. Onde vivem estes mestres de sabedoria? No Tibete, evidentemente!


Alexandre Dumas




Sir Arthur Conan Doyle






Harry Houdini



Helena Blavatsky











Esta localização é sintomática de um deslocamento do centro de gravidade espiritual do mundo para um Oriente sempre mais longínquo. Para os movimentos esotéricos anteriores, este centro deslocara-se progressivamente do Egipto para a Pérsia, depois para a Índia, à medida que progredia a colonização e com ela a desmistificação das culturas orientais. Resta o Tibete, única terra desconhecida e não maculada pelo materialismo ocidental. São portanto os "Irmãos do Tibete" quem presumivelmente inspira a doutrina secreta dos teósofos. Enquanto que Helena Blavatsky critica os clérigos superiores de todas as religiões, idealiza totalmente os lamas tibetanos - e faz deles os depositários da sabedoria primordial da humanidade.

Antes de ser conhecida no mundo inteiro pelas suas narrativas de viagem ao Tibete, Alexandra David-Néel, que vimos ter sido certamente a primeira mulher europeia a entrar em Lassa em 1924, foi uma adepta da Sociedade teosófica. Depressa rompeu com a Sociedade, mas mais tarde tentou expressar a razão pela qual o Tibete se tornara "a terra eleita" das sociedades esotéricas de finais do séc. XIX: "Como explicar este poder magnético do Tibete? Não há dúvida nenhuma de que a reputação de taumaturgos de que gozam os lamas eremitas é a sua principal causa. Mas resta saber porque é que o Tibete foi especialmente reconhecido como a terra eleita das ciências ocultas e dos fenómenos supranormais. [...] Os homens forçados a abandonar quimeras caras, incompatíveis com o meio prosaico em que se movem, apressaram-se a transportá-las para regiões ideais mais harmonizadas com elas. Como último recurso, edificaram-se jardins nas nuvens e paraísos para além das estrelas. Mas devem ter tido bastante mais pressa de encontrar a oportunidade para as guardar mais perto de si: aqui em baixo, entre os humanos. O Tibete oferece essa oportunidade. Apresenta todas as características das terras maravilhosas descritas nos contos. Não penso exagerar ao afirmar que as suas paisagens ultrapassam, sob todos os pontos de vista, essas manifestações no espírito dos arquitectos fantasistas construtores de mundos para deuses ou para demónios". Embora não o assuma, a célebre exploradora francesa também contribuiu através das suas obras, que descrevem com fascínio toda a espécie de prodígios de que são capazes os lamas tibetanos, para difundir o mito do Tibete mágico.


A Vida dos Mestres e Jesus no Tibete

Um outro adepto da Sociedade Teosófica viria a desempenhar um papel determinante na difusão deste mito: Baird Spalding. Publicada em 1921, nos Estados Unidos, A Vida dos Mestres obtém um sucesso fulgurante, nunca desmentido desde então. O autor narra uma pretensa expedição científica que se teria desenrolado em 1894 no Tibete. Os membros da expedição ter-se-iam encontrado em Lassa com os "grandes lamas" depositários de misteriosas tabuinhas revelando as origens da humanidade. A narrativa delirante de Spalding (no final, os membros da expedição encontram Osíris, Buda, Jesus e a Virgem Maria) faz referência à iniciação que Jesus terá recebido na Índia. Este tema é directamente inspirado numa obra publicada justamente em 1894 e que também conheceu um enorme êxito: A Vida desconhecida de Jesus Cristo.

O seu autor, um russo chamado Nicolas Notovitch, conta uma viagem que terá efectuado sete anos antes à Índia, em 1887. "Durante a minha estada na Índia, conta ele, tive ocasião de conviver por várias vezes com os budistas, e os relatos que eles me fizeram do Tibete tiveram o condão de excitar de tal forma a minha curiosidade, que resolvi fazer uma viagem a esse país ainda pouco conhecido". A caminho do Tibete, o viajante chega às portas de Ladakh, e conhece um lama tibetano que lhe fala de um certo "profeta Issa" considerado pelos monges tibetanos como o "dalai-lama dos cristãos" e que outrora teria sido torturado e assassinado. Perturbado com a semelhança entre o destino deste misterioso profeta e o de Jesus Cristo, Notovitch interroga o seu interlocutor sobre as suas fontes. O lama explica-lhe que a vida de Santo Issa foi registada por escrito na Índia em língua pali logo após estes trágicos acontecimentos, depois destes preciosos manuscritos terem sido transportados para Lassa e traduzidos para tibetano. Notovitch pergunta-lhe então por que razão nunca ouvira falar daquela história. "O nome de Issa é muito respeitado entre os budistas, responde-me ele, mas só é conhecido pelos lamas supremos que leram os manuscritos relativos à sua vida". Desde então o russo só tem uma obsessão: ir à cidade santa do budismo tibetano para aí consultar os misteriosos manuscritos. Mas a alguns quilómetros de Leh, a capital de Ladakh, parte a perna e é recolhido pelos monges do grande mosteiro de Hémis que o tratam durante dois meses. Qual não é então a sua divina surpresa, conversando com o superior do mosteiro, ao descobrir que este possui uma cópia de "A vida do Santo Issa, o melhor dos filhos dos Homens". No seu livro publicado sete anos depois destes acontecimentos, Notovitch apresenta o texto integral deste documento que lhe terá sido traduzido naquele sítio por um intérprete. Ao todo, contam-se catorze pequenos capítulos divididos em 244 versículos. Nicolas Notovitch afirma ter descoberto nada mais nada menos do que o quinto Evangelho, aquele que coloca todos os outros em causa e revela a origem budista dos ensinamentos de Cristo! Apoiado nesta fabulosa descoberta, ele explica que foi até à Europa para falar dela a diversas autoridades religiosas ortodoxas e católicas, mas que todas o tentaram dissuadir de publicar este texto considerado demasiado "revolucionário". Um cardeal romano ter-lhe-á mesmo proposto uma quantia de dinheiro em troca do seu silêncio!

A publicação da obra suscita evidentemente um imenso interesse, não apenas num vasto público sensível às teses esotéricas e ao mito do Tibete, ou simplesmente ávido de revelações sensacionais sobre a origem do cristianismo, mas também num grande número de universitários especialistas em budismo. Infelizmente para Notovitch, são eles que vão, em menos de um ano, destruir a credibilidade da sua história e demonstrar a gravidade da fraude.

Mosteiro de Hémis. Ver aqui





As asserções do autor não convencem nomeadamente o Pr. Archibald Douglas, um célebre orientalista inglês que vivia na Índia. Um ano depois da publicação do livro, ele desloca-se ao mosteiro de Hémis para elaborar um inquérito preciso sobre a questão. O resultado extremamente pormenorizado deste inquérito é devastador para Notovitch: ele não só passou apenas alguns dias em Hémis sem nunca ter ali recebido qualquer tratamento a uma perna partida, como, sobretudo, o superior responsável pelo mosteiro há mais de quinze anos afirma que nunca ouviu falar deste famoso Issa nem de qualquer documento tibetano contando a sua vida. Num texto assinado pelo seu punho e autenticado com o seu selo, respondendo às questões do Pr. Douglas, refuta todas as alegações de Notovitch, assegurando que estas são "mentiras, mentiras, nada mais do que mentiras".

Esta tentativa de mistificação continua a ser, todavia, perfeitamente sintomática do que representa o Tibete para muitos ocidentais em finais do século XIX. A viagem ao Tibete é considerada como uma peregrinação às fontes secretas da religião. O que se vai procurar no País das Neves não é a proeza desportiva (ascensão aos cumes), como no Nepal, mas um conhecimento secreto, uma revelação de ordem mística. A viagem ao Tibete é uma busca da sabedoria original da humanidade. Notovitch não afirma explicitamente que Jesus passou pelo Tibete (de resto ele sabe muito bem que na sua época o Tibete ainda não fora assimilado ao budismo), mas que é no Tibete, e em particular nos arquivos de Potala em Lassa, que estão hoje conservados os documentos secretos que provam a sua iniciação no budismo. Isso não impediria alguns plagiários de dar mais um passo e afirmar que Jesus viveu no Tibete.


Do Terceiro Olho a Tintim no Tibete

Entre os anos 1920 e os anos 1940, o Tibete desvenda-se progressivamente. Não é só através das narrativas de ocidentais como Alexandra David-Néel, que conseguiram passar mais tempo no Tibete, mas também pelas traduções de grandes textos tibetanos que obtêm um grande sucesso no Ocidente: A Vida de Milarepa ou o Bardo Thodol, o famoso livro tibetano dos mortos, atribuído a Padmasamhava e traduzido pela primeira vez em inglês em 1927 pelo lama Kazi Dawa-Samdup e o Dr. Evans-Wentz. Este texto com uma centena de páginas, de difícil acesso a um não-iniciado no budismo tibetano, obtém contudo um enorme sucesso mundial, que só tem paralelo no Ocidente, para um texto religioso que não é judaico-cristão, no Corão, no Bhagavad-Gîta e no Yi-King.

A par da publicação destas obras e com a divulgação, mais discreta, de muitos livros universitários sobre a cultura e a religião tibetana, assiste-se entre os anos 1920 e os anos 1950 a um florescimento de ficções inspiradas nas concepções teosóficas de um Tibete mágico e secreto. Retomando e sintetizando de forma notável todos os temas desta abundante literatura tibetano-esotérica, um pequeno livro publicado em Londres em 1956 torna-se, em menos de dois anos, um best-seller mundial. A acção de O Terceiro Olho passa-se no Tibete e revela um bom conhecimento do budismo e da cultura tibetana. O livro apresenta-se como as recordações de um lama tibetano exilado em Inglaterra após a invasão chinesa de 1950. Este conta, num estilo limpo e preciso, a sua infância nos anos 1930 em Lassa e a sua entrada para o mosteiro aos sete anos de idade depois de os astrólogos lhe terem previsto uma vida movimentada e um longo exílio no estrangeiro. Tornado monge, o jovem Lobsang segue uma formação em medicina e é iniciado em diversas práticas ocultas tais como a "viagem astral" que permite ao "duplo" deixar o corpo e passear por onde lhe apetece no Universo, e a leitura da "aura" que permite ao jovem monge, graças à abertura de "O terceiro olho", conhecer os pensamentos reais dos seus interlocutores. Bem escrito, preenchido com pormenores geográficos verídicos, o livro pode iludir mesmo um público bem informado. Obtém um enorme sucesso: com vendas de trezentos mil exemplares em Inglaterra em dezoito meses, é imediatamente traduzido numa dúzia de línguas e tem em toda a parte um acolhimento entusiástico por parte do público (pouco mais de cem mil exemplares em França no primeiro ano). Atingindo vários milhões de vendas na Europa e nos Estados Unidos ao longo dos anos, o Terceiro Olho torna-se na nova cartilha dos teosóficos.

Perante um tal sucesso, coloca-se a apaixonada interrogação sobre a identidade de Lobsang Rampa, que ninguém conhece para além do seu editor. A Scotland Yard visita o pretenso autor tibetano em Janeiro de 1957 e descobre um cidadão britânico chamado Cyril Hoskin, de físico perfeitamente europeu e evidentemente incapaz de fornecer o mais remoto passaporte tibetano ou autorização de permanência. Para fugir à curiosidade dos jornalistas, o homem emigra imediatamente para a Irlanda e depois para o Canadá, onde continuaria a publicar várias obras que continuam a veicular no espírito do público o mito dos lamas tibetanos (que são os últimos Atlantas) capazes de todos os prodígios. Quando os primeiros lamas exilados chegam ao Ocidente nos anos 1960, são acolhidos de braços abertos pelos inúmeros leitores de O Terceiro Olho ávidos de iniciações secretas e que lhes perguntam como praticar a levitação, ler a aura ou efectuar a famosa "viagem astral". Lobsang Rampa fizera uma extraordinária (falsa) publicidade ao budismo tibetano. O que pensam sobre isso os próprios lamas?








Aos vinte anos, em 1982, subi pela primeira vez ao Tibete e aproveitei a ocasião para visitar os refugiados tibetanos em Dharamsala. Por um curioso concurso de circunstâncias, tive a sorte de encontrar na sua ermida Ling Rinpoche, discípulo do 13.º dalai-lama e um dos dois preceptores do actual 14.º dalai-lama (deste feita verdadeiro!), um imponente ancião que vivia numa solidão quase absoluta e a quem por essa altura não restavam senão alguns meses de vida. Mais do que ninguém, este homem era a memória do Tibete tradicional. O seu olhar grave e profundo ficará para sempre gravado na minha memória. Eu acabara de ler o Terceiro Olho e nada sabia sobre a mistificação do autor. Entre as duas questões sérias, perguntei-lhe se Lobsang Rampa existira de facto e se a sua incrível narrativa era autêntica. Ele respondeu-me que era uma fábula, que o autor era inglês e não tibetano, e que nunca pusera os pés em Lassa. O velho monge lamentou que viessem tantos leitores de O Terceiro Olho procurar junto dos lamas no exílio iniciações secretas para obterem poderes extraordinários que reforçassem o ego... em vez de se iniciarem nas práticas de base do budismo que contribuíam para enfraquecer o ego. Fiquei a saber que os Tibetanos são na verdade um povo sonhador, imaginativo e por vezes crédulo, mas que também têm uma grande preocupação quanto à verdade dos factos.

O actual dalai-lama partilha este sentimento, tendo feito ao jornalista Arnaud Desjardins (que mo reportou de viva voz), que viera filmar em 1964-1965 os lamas no exílio na Índia, esta dupla recomendação dirigida aos Ocidentais: "Qualquer que seja o vosso amor pelos Tibetanos e pelos lamas, nunca digam mal dos Chineses. De igual forma, sempre que tiverem oportunidade, indiquem que O Terceiro Olho de Lobsang Rampa não é um documento, mas uma outra ficção de um autor ocidental".

Publicado cerca de três anos depois da saída de O Terceiro Olho, Tintim no Tibete contém inúmeras alusões à narrativa de Rampa: um monge com visões ao levitar, crianças a brincar com papagaios de papel no pátio do mosteiro ou ainda o nome de "Lobsang" dado por Hergé ao jovem monge que descobre Milu quando este foi procurar socorro no mosteiro! Embora a obra-prima de Hergé sirva de caixa de ressonância a certos temas caros aos teosóficos e aos seus concorrentes, enraíza-se de uma outra forma na poesia e no poder do imaginário ligado ao Tibete. A amizade é o fio condutor desta história. Não é só a amizade de Tintim por Chang. A força do álbum reside nesta simpatia que Hergé consegue fazer-nos sentir por este "abominável homem das neves" que no fim nos apercebemos não só ter salvo a vida de Chang, como também ter ficado profundamente ligado a ele. O tema da amizade remete aqui muito claramente para o da alteridade e da compaixão: é preciso ultrapassar o medo da diferença do outro para descobrir as forças do amor e da bondade que residem nele, por mais assustador, destabilizador, estranho que nos possa parecer à primeira vista. O exotismo de Tintim no Tibete não é tanto, por isso, um exotismo do duplo ou do espelho, típico das indagações medievais, mas um exotismo da alteridade, da procura e do encontro com o outro.


O Reino Secreto de Shambala

Qualquer religião precisa de um centro. Tendo rejeitado os "espaços sagrados" tradicionais judaico-cristãos (Jerusalém, Roma), as sociedades esotéricas tentam reencontrar um novo centro místico englobando todas as religiões e todas as sabedorias da humanidade. Poderiam elas encontrar melhor refúgio mítico para os seus famosos "mestres" do que esse Tibete secreto, inacessível e cume do mundo? Haveria melhores peritos em ciências ocultas do que esses lamas pretensamente capazes das maiores proezas psíquicas? "Existem, por todo o mundo, ocultistas de diversos graus de progressão, e até confrarias ocultas que têm muitos pontos em comum com a confraria principal fundada no Tibete", escreve o teósofo Alfred Sinnet no seu Budismo esotérico. "Mas todas as nossas investigações sobre este assunto me convenceram de que a confraria tibetana é de longe a mais avançada, e que é considerada como tal por todas as outras".

O empreendimento esotérico visa, assim, instituir o Tibete como "espaço sagrado", considerando-o como o "eixo do mundo", o relicário secreto da sabedoria universal da humanidade. Este eixo passa por Lassa, a cidade do "deus vivo" como é costume então chamar ao dalai-lama no Ocidente, e no coração da cidade santa encontra-se Potala, o palácio do dalai-lama, que se torna o ponto axial supremo. Mas partir dos anos 1920 e com a multiplicação das narrativas de viajantes ocidentais que conseguiram penetrar no Tibete e sobretudo em Lassa, o mito do "Tibete inviolável" e de Lassa "a cidade interdita" enfraquece.

Como cada vez é mais difícil imaginar o palácio de Potala ocupado por magos egípcios ou pelos sobreviventes da Atlântida, ou a biblioteca do dalai-lama a abarrotar de documentos fabulosos relatando a origem da humanidade ou a verdadeira vida de Jesus, acaba-se por imaginar um Tibete mais misterioso e mais secreto ainda. Um Tibete definitivamente inviolável e inacessível. Um Tibete muito simplesmente invisível. Ou pelo menos um Tibete visível e acessível apenas aos iniciados. Assim, os exploradores, os geógrafos e os sábios da terra bem podem trilhar todos os caminhos do Tecto do mundo e esquadrinhar todos os mosteiros, que nunca entrarão em contacto com esse Tibete secreto e escondido que recusa entregar-se à simples curiosidade humana, revelando-se apenas aos eleitos.

Palácio de Potala


Mandala Tibetano

Como sempre, este novo Tibete mítico é concebido como um fabuloso reino. Mas este reino já não está escondido num longínquo vale ou num universo subterrâneo. Está lá, nalgum lugar, no coração do norte do país. Sabe-se qual é a sua localização aproximada nos altos vales do norte do país. E só aí podem aceder aqueles cujo karma é puro. Antes de se tornar no núcleo duro de uma nova mitologia ocidental a partir dos anos 1930, este Éden secreto é um mito interno ao próprio budismo tibetano: Um dos mitos mais poderosos e mais persistentes para os habitantes do País das Neves. Isto porque, são muitos os tibetanos convencidos da sua veracidade há cerca de mil anos: nalguma parte do Tibete encontra-se o reino invisível de Shambala.

O fabuloso reino de Shambala é mencionado no Kâlachakra, um dos principais tantras do budismo tibetano. Através de um esforço de purificação, presume-se que o meditante atinja o reino de Shambala, um mundo de pura felicidade, uma espécie de paraíso terrestre inacessível ao profano. Tchiloupa, um mestre budista indiano que viveu em finais do séc. X, está na origem da difusão do Kâlachakra na Índia e depois no Tibete, em 1040. De acordo com a tradição tibetana posterior - abandona-se aqui a História para se entrar no domínio da crença -, Tchiloupa seria de facto apenas um dos elos de uma longa corrente de transmissão que remonta ao próprio Buda.

Assim que foi descoberta no Ocidente, a lenda do reino de Shambala é, evidentemente, apropriada pelas correntes esotéricas. Inspira também romancistas e cineastas num sentido mais profano. James Hilton, que publica Os Horizontes Perdidos em 1933, é sem dúvida o mais genial adaptador ao espírito ocidental moderno do mito de Shambala. Já não se requer aqui uma iniciação tântrica complicada para aceder ao reino secreto. Um simples acidente de avião por cima dos Himalaias basta para transportar quatro britânicos ao coração deste paraíso inacessível a abarrotar de ouro e onde todos estão felizes. Recolhidos pelos monges do maior mosteiro, de seu nome Shangri-La, passam longos meses a reaprender os verdadeiros valores da vida. Adaptado ao cinema por Frank Capra em 1937, o romance de Hilton torna-se um best-seller mundial e banaliza, sob o nome de "Shangri-La", o mito de Shambala para dezenas de milhões de ocidentais. Isto é ainda de tal forma verdadeiro nos nossos dias que o governo chinês, que acabou por compreender todo o interesse que poderia retirar do mito do Tibete, anunciou em Janeiro de 2002 que a região de Zhongdian, no nordeste de Yunnan, se passaria a chamar Shangri-La. A decisão foi tomada oficialmente pelo governo chinês com base numa proposta das autoridades da província de Yunnan, que procuravam há muitos anos um lugar que se assemelhasse ao que fora descrito por Hilton para atrair os turistas. Tudo confere: os cumes nevados e o mosteiro tibetano que pende sobre um vale verdejante.

O reino invisível de Shambala corresponde, em sentido próprio, à definição da utopia. Forjada a partir do grego "sem lugar", a utopia evoca um país imaginário (que não existe em parte alguma) ou um governo ideal de um povo feliz. Da "República" de Platão à "Utopia" de Thomas More que inventou a palavra, a descrição de tais países é um género filosófico autónomo. É interessante para o nosso argumento constatar que esta utopia começa a espalhar-se no Ocidente em meados do séc. XX, quando o Tibete é cada vez mais conhecido e no momento em que é invadido por uma potência materialista. Embora a face visível do Tibete esteja para sempre desfigurada, a sua face escondida permanece resplandecente e continua a corresponder a todas as nossas expectativas no reino invisível de Shambala, último refúgio do imaginário.


A sabedoria do dalai-lama

Há outro factor determinante na simpatia dos Ocidentais pelo Tibete: a personalidade e o discurso do dalai-lama. 1989 é uma data chave. Em Março, os tumultos de Lassa são reprimidos com derramamento de sangue e a lei marcial é imposta no Tibete. Em Junho, o regime chinês envia os tanques para a praça Tianan men para esmagar a revolução pacífica dos estudantes. Em Novembro, o muro de Berlim é deitado abaixo, sinal do fim do Império soviético e da ideologia comunista na Europa de Leste. Em Dezembro, o dalai-lama recebe o prémio Nobel da Paz. Os dois primeiros acontecimentos revelaram ao mundo a brutalidade do regime chinês e colocaram a causa tibetana em destaque na cena internacional. A queda do muro de Berlim marca o fim das grandes ideologias políticas do séc. XX. O Nobel atribuído ao dalai-lama faz dele o arauto mundial do seu povo mártir, mas promove também a vulgarização do seu discurso ético e humanista que vem oportunamente colmatar o vazio decorrente do fim das ideologias.

Praça Tiananmen. Ver aqui e aqui

Fortemente mediatizado desde há cerca de vinte anos, o dalai-lama tornou-se numa espécie de autoridade moral planetária. Uma sondagem recente mostra que na Alemanha ele chega a ser bastante mais popular do que o papa... alemão. Tal popularidade explica-se quer pela personalidade excepcional do personagem, quer pelo seu discurso. Tenzin Gyatso é um monge que inicia cada um dos seus dias com quatro longas horas de meditação. Que outro líder político faz o mesmo? Esta prática assídua da meditação confere-lhe uma serenidade, um domínio de si, uma espécie de aura que não passam desapercebidos aos seus interlocutores nem aos milhões de telespectadores que o vêem. Além disso, tem bastante sentido de humor e as suas afirmações são sempre marcadas por uma grande humildade: "Não sei", diz ele frequentemente, em vez de adoptar a postura do mestre espiritual que tem resposta para tudo.

Tive oportunidade de me encontrar uma dezena de vezes com o líder tibetano na Índia e em França: para o meu trabalho de tese, para a redacção de um livro sobre a história do Tibete, para entrevistas na rádio e na televisão ou ainda no âmbito da organização de encontros inter-religiosos em Lurdes ou na Sabóia. Houve três coisas que me tocaram particularmente. Primeiro, a presença deste homem (percebi porque é que os Tibetanos lhe chamam Kundun, "A Presença"). Assim que se coloca à nossa frente, somos tomados pela sua força tranquila e resplandecente que o nervosismo dos que o rodeiam e dos seus anfitriões não consegue enfraquecer. Depois, a sua simplicidade. Não representa nenhum papel, é ele-próprio: directo, espontâneo, fatigado, animado, triste ou irritado. Nunca faz "pose" e não se preocupa visivelmente com a sua imagem, ao contrário de todos os outros grandes homens políticos ou religiosos que tive ocasião de encontrar, à excepção do papa João Paulo II. Por fim, a sua compaixão. Emana dele uma profunda benevolência. Os seus olhos negros olham-nos com uma mistura de perspicácia e de pudor, de sagacidade e de discrição. Interessa-se pelo mais insignificante dos seus interlocutores, quer seja um grande deste mundo, quer um anónimo.


O apóstolo de uma ética planetária

O dalai-lama depressa compreendeu que a inclinação dos Ocidentais pelo budismo tibetano assentava num certo número de ambiguidades. A analogia entre o budismo e a modernidade de uma "salvação" ou de uma "felicidade" que elimina qualquer sofrimento e obtidos apenas pelos esforços do homem, é sem dúvida uma das chaves do sucesso do budismo no Ocidente. Mas que não consegue disfarçar a diferença fundamental de perspectivas entre os ensinamentos de Buda e o imperativo da modernidade psicológica. Por um lado, a felicidade obtém-se à custa de uma longa vigília e ascese interior num total desprendimento que implica a extinção de qualquer desejo, até mesmo do desejo de renascer. Por outro, é procurada como realização plena das potencialidades individuais e como satisfação dos desejos do indivíduo, até à fantasia da imortalidade que obceca o ocidente moderno. Por um lado a felicidade obtém-se pelo desprendimento de si. Por outro, pela realização de si.

A menos que consagre uma grande parte do tempo à meditação, dificilmente se percebe como é que o budismo poderá ser adoptado na íntegra por um ocidental imbuído do culto moderno do indivíduo. Luc Ferry destacou muito bem esta contradição no seu livro L'Homme-Dieu ou le sens de la vie: "Gostaríamos de amar e de não sofrer, agarrar aquilo que de melhor o nosso universo individualista oferece aos nossos olhos e corrigi-lo com algumas doses de budismo: tal não é possível e, para quem não é monge, para quem, portanto, não o leva a sério, poderá o budismo alguma vez ser mais do que dietética espiritual?" Provavelmente não. Não "profetizara" Nietzsche o surgimento de uma espécie de "China europeia com uma plácida crença budista-cristã e, na prática, um saber-viver epicurista?"

A partir do início dos anos 1990, o dalai-lama tomou, portanto, a medida de limitar as "conversões" ao budismo no Ocidente e sempre que lhe é dada oportunidade explica que na maior parte das vezes é "negativo" mudar de religião, dissuadindo os Ocidentais de se "tornarem budistas". Em contrapartida, não se declara hostil à adopção de certas técnicas meditativas ou de certos aspectos filosóficos que podem ajudar os indivíduos a "viver melhor". Através de várias obras e entrevistas, o líder tibetano desenvolve também um discurso muito acessível em torno dos valores da tolerância religiosa, da interdependência, da compaixão e do respeito pela vida. É, pois, sobretudo através da dimensão ética, que parece bem ajustada aos grandes desafios com que a humanidade é hoje confrontada, nomeadamente os perigos do fanatismo religioso e as ameaças ecológicas, que a mensagem do dalai-lama tem um grande eco. Como já mencionei mais atrás, esta ética humanista que convoca a responsabilidade pessoal e universal desenvolve-se no preciso momento em que se desmoronam as últimas grandes utopias políticas. É num campo de ruínas ideológicas que o discurso do dalai-lama, que apela à "revolução interior", se desenvolve no Ocidente, sendo por muitos considerada como uma nova sabedoria laica de valores universais.




Tenzin Gyatso

Esta sabedoria toca milhões de ocidentais que afirmam sentir-se "próximos do budismo" cuja "modernidade" é permanentemente sublinhada. Por outro lado, o drama do Tibete reforça no espírito de muitos esta idealização de um Tibete tradicional "totalmente puro e pacífico" que luta apenas com as armas do espírito e da fé contra o poder totalitário chinês. A figura emblemática do dalai-lama encarna, assim, por si só, este duplo imaginário ocidental: é visto como moderno, não dogmático, próximo da ciência ocidental, tolerante, professando a compaixão e a responsabilidade. Ao mesmo tempo, encarna pelo seu combate pacifista a tradição milenária do Tibete ameaçado de desaparecimento, mas também esse Tibete mágico, que crê nos sinais do céu e nos oráculos, que vê grandes mestres reencarnar em crianças e lamas com poderes misteriosos. Assim, a simpatia pelo Tibete e pelo budismo tibetano sentida por um largo público, joga-se entre uma percepção moderna, por um lado, e a atracção por um pensamento mágico, e o recurso a uma tradição antiga algo mitificada, por outro.

Apesar destes mal-entendidos e destas ambiguidades, estou todavia convencido de que a causa do Tibete é uma verdadeira causa e que o budismo tibetano pode sem dúvida trazer alguma coisa à sociedade ocidental. Não apenas pelos valores universais preconizados pelo dalai-lama, mas também pela atenção que ele dá ao espírito humano e à dimensão interior do homem. Não é por acaso que tantos cientistas e psicólogos se interessam por estes ensinamentos e, sobretudo, pelas práticas dos lamas. Francesco Varela, um dos maiores especialistas do cérebro humano já falecido e autor de vários livros em conjunto com o dalai-lama, explica o seguinte: "Os Ocidentais chegaram muito longe no estudo da causalidade dos fenómenos naturais, mas os mestres espirituais do budismo são bastante mais fortes do que nós no conhecimento dos fenómenos do espírito". Mesmo para além das experiências laboratoriais e dos eventuais progressos do conhecimento experimental, ninguém duvida que os diferentes métodos de conhecimento de si próprio e de trabalho sobre o espírito e sobre as emoções propostos pelos Tibetanos podem ajudar ocidentais stressados, na maior parte das vezes incapazes de gerir as suas emoções e em busca de paz interior. Quando o dalai-lama apela a uma "revolução interior", aponta justamente para as lacunas de um mundo ocidental que conheceu desenvolvimentos decisivos nos domínios da ciência, da justiça social, da defesa dos direitos do homem ou da democracia, mas que não oferece respostas ou, sobretudo, ferramentas concretas que permitam aos indivíduos sentir-se profundamente em paz consigo mesmos e com os outros. É esta sem dúvida a razão mais profunda que explica o sucesso crescente do budismo tibetano no Ocidente e que constitui o terceiro factor de explicação da simpatia dos Ocidentais pelo Tibete (in «TIBETE - O momento da verdade», Edição Caleidoscópio, 2008, pp. 149-169).


Continua


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