quinta-feira, 26 de maio de 2016

Português sem Portugal (iii)

Escrito por Artur Agostinho




Guimarães, 1940: Henrique Galvão ao lado do Presidente da República, Óscar Carmona, e do Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, nas comemorações dos 800 anos da Independência de Portugal.


Duarte Pacheco


«(...) em 1935 surge a primeira divergência com o chefe do Governo. Henrique Galvão, estrela ascendente do regime, é convidado pelo ministro das Colónias, Armindo Monteiro, para dirigir a Agência Geral das Colónias. No mês seguinte, também o ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, o escolhe para director da Emissora Nacional. A acumulação dos dois empregos desagrada ao Presidente do Conselho, que passa recado ao ministro das Colónias, e este exige que o capitão escolha um. Galvão opta pelo cargo colonial, mas o impasse há-de manter-se ao longo de quatro meses, enquanto os dois ministros se digladiam, e durante os quais não recebe qualquer salário: nem como capitão, nem como deputado, nem como alto funcionário colonial, nem como director da Emissora. Disso mesmo se queixa numa carta de 13 páginas que envia a Salazar a 23 de Dezembro de 1935 (sem qualquer referência ao Natal), na qual mostra a sua amargura por não estar a trabalhar em assuntos coloniais, para o que se tinha preparado nas décadas anteriores, mas sim "em assuntos musicais e radiofónicos". Apesar do tom polido, a mensagem deixa transparecer as suas expectativas:

"Não está V. Ex.ª perante um ambicioso vulgar. Não peço nem me deslumbram lugares altaneiros de grandes proventos. Desejo apenas trabalhar onde melhor posso produzir e conforme o que provei saber fazer, longe destas impressões: que só serei aproveitado para missões temporárias e que estarei condenado a recomeçar eternamente um esforço de demonstração que já dura há dez anos".

O capitão enumera todos os serviços prestados ao regime e chega a lamentar-se: "Nunca tive a fortuna de trabalhar na dependência de V. Ex.ª." Ambiciona que Salazar o escolha para ministro do Ultramar, ou, pelo menos, para governador de Angola. Mas com esta carta vence a resistência do Presidente do Conselho e consegue acumular a liderança da Emissora Nacional com as funções de inspector superior da Administração Colonial, um cargo ligeiramente inferior ao primeiro convite que lhe tinha sido formulado.

Quando entra na rádio estatal percebe que a maior parte do orçamento é desperdiçada no pagamento de sete orquestras privativas, criadas desde o período experimental da Emissora, em 1933. E esta despesa ruinosa e pouco racional obriga-o a despedir maestros e músicos, uma decisão que lhe valerá a acusação de "vulgaridade popular".

Em 1935, ano da inauguração oficial da rádio pública, há em Portugal apenas um aparelho para cada 150 habitantes e a Emissora anuncia a distribuição em larga escala de rádios a preços modestos para as classes mais pobres, suscitando o receio dos importadores, perante esta concorrência do Estado. Galvão chega a usar o boletim da Emissora para acalmar os comerciantes: "O que sucede com os automóveis sucederá com os aparelhos. E assim como o gosto do automobilismo faz aumentar dia a dia o número de compradores apesar de o mercado parecer cada vez mais saturado, também esta forma de propaganda da radiotelefonia contribuirá para mais uma volumosa aquisição de aparelhos, apesar da quantidade que hoje se lança no mercado. Os rádios, postos à venda por 300 escudos, têm no canto superior esquerdo o símbolo da Emissora, com as quinas nacionais e um verso dos Lusíadas: "Cantando espalharei por toda a parte".




















O estilo da emissão pretende-se formal e rígido, não são toleradas descontracções, mesmo quando se transmitem fados do restaurante "A Severa", uma inovação introduzida para aligeirar a programação. Galvão repreende até um jovem que mais tarde se tornará uma instituição da rádio portuguesa: "Recomenda-se ao locutor Fernando Pessa [sic] que deve evitar certas familiaridades que usa ao microfone. Por exemplo: no Retiro da Severa despede-se: 'Até já' ou 'Até logo'. Evite-se essa forma de locução".

Salazar é informado de muitos dos conteúdos da emissão com antecedência. Galvão controla o tom político da informação, ocultando tudo o que seja desfavorável ao regime, presta contas directamente ao ditador sobre as notícias que lhe desagradam e submete as palestras à sua apreciação antes de irem para o ar - acontece até, por exemplo, com uma intervenção de Humberto Delgado, que nesta altura é ainda um fiel salazarista. E em 1939, perante a agitação que antecede a Segunda Guerra Mundial, combina com o Presidente do Conselho qual deve ser a postura da emissora perante os países europeus mais importantes.

Entretanto, o seu cargo no Ministério das Colónias permite-lhe voltar a África e viajar com frequência pelo Ultramar, onde uma das suas maiores paixões é participar em caçadas: matará mais de cem elefantes e 300 leões de que se arrependerá nos últimos anos de vida. Em 1937, conclui um percurso de 25 mil quilómetros em Angola, de carro, a cavalo e também a pé, por terras desconhecidas, nunca antes exploradas por portugueses. No fim de uma dessas expedições, descreve ao Presidente do Conselho uma história incrível sobre um leão que aterroriza uma aldeia:

"Encontrei indígenas, em povoados sucessivos, que nunca tinham visto brancos - e os poucos que já tinham tratado com eles agradeciam-me o sal que lhes dava dizendo "thank you". (...) o chefe de posto de Mucusso (este posto é uma palhota pior que a de muitos pretos) teve que fugir (...) pois a cabana em que vivia era todas as noites atacada pelo leão - e ele só tinha para se defender uma velha espingarda de modelo histórico que não funciona. Não o encontrei, pensei tratar-se de uma fantasia... mas também o meu acampamento foi atacado pelo leão. Soube depois que todas as noites há um ou dois pretos devorados - e isto já é tido como uma espécie de tributo pago à fera. Espantoso! Inacreditável! (...) Os indígenas do Mucusso que ainda estão presos ao nosso território vão dormir de noite para o território inglês para evitar o leão! (...) A situação é tão miserável que o facto da minha simples passagem é tido por todos como a própria salvação".


A carta termina com um post-scriptum bajulador: "Tenho igualmente o prazer de informar V. Ex.ª que a Emissora Nacional, ouvida normalmente em toda a colónia, é aqui o melhor agente político do Estado Novo".








A cumplicidade estás prestes a ser posta à prova - e não resistirá».

Pedro Jorge Castro («O Inimigo N.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP»).


«Estava para regressar de Washington onde, durante quatro anos, fora mantido afastado do serviço em Portugal, como delegado do país junto da OTAN o General Humberto Delgado. Este, era então, num quadro de generais portugueses já perfeitamente adestrados e domesticados por Salazar para a subserviência e para as grandes covardias antimilitares, uma personalidade quase absurda pela excepção que constituía entre os seus pares - um general de alta competência técnica e grande independência moral, intocado pelo medo, de quem se podia perguntar: como é possível que um homem assim vertebrado tivesse conseguido alcançar o posto de general? E só se encontrava uma explicação: o general fizera a parte mais arriscada da sua carreira militar, absorvido pelos trabalhos técnicos da profissão, em climas apolíticos no país e, frequentemente, em comissões diplomáticas ou militares no estrangeiro. As circunstâncias não lhe haviam dado a oportunidade de se encontrar com as piores faces do regímen. O seu espírito de independência era assaz conhecido mas Salazar, que só se desfaz dos homens como ele, depois de se convencer de que são insubornáveis, esperava ainda suborná-lo e assim evitar a perda, em favor da oposição, do único oficial do activo e altamente graduado com grande prestígio moral.

Foi o meu caso, possivelmente, que trouxe o general, então ainda coronel mas já com provas prestadas para o generalato, à margem de observação em profundidade das verdadeiras faces do regímen. Éramos amigos de longa data, que os diferentes modos de vida haviam separado e só muito raras vezes se encontravam. A minha prisão trouxe-o espontaneamente ao meu encontro e a minha luta anterior havia atraído a sua consciência. Visitou-me na prisão - acto que, então, nenhum oficial do activo ousaria cometer pelos riscos de carreira que implicava - oferecendo-me sem reservas, praticamente, toda a sua solidariedade, inclusive sob a forma de meu defensor no tribunal militar. Se eu houvesse aceitado, com a sua amizade assim reencontrada em novos caminhos, também a sua intervenção no meu caso em manifestação que o governo consideraria de solidariedade e, portanto de rebeldia, a carreira do coronel Humberto Delgado terminaria ali. Só pude, de alguma maneira, elevar-me um pouco à altura da sua generosidade de amigo e camarada e tornar-me digno do seu gesto recusando terminantemente a oferta. Demais, verificada a disposição moral em que Humberto Delgado já se encontrava perante o regímen e, especialmente, perante o seu chefe, autor e responsável, estava indicado que se fizesse todo o possível para não impedir o acesso ao generalato de um homem como ele, diferente de todos os generais do activo escolhidos e preparados por Salazar. Ao mesmo tempo que eu, recusando a manifestação pública da solidariedade de Delgado comigo, o isentava do sacrifício da carreira, Salazar, sempre convencido de que não estavam perdidas as esperanças de o subornar como subornara tantos outros, mandava nomeá-lo representante de Portugal na OTAN - o que significava, até as atitudes de Delgado se esclarecerem perfeitamente, uma espécie de exílio, aparentemente doirado, em Washington. Este afastamento de Portugal e dos meios políticos portugueses, os contactos que iria estabelecer com personalidades eminentes de nações livres, num país de instituições democráticas, sem prejuízo dos contactos que, por via postal, naturalmente secreta, manteria comigo e com os acontecimentos que o meu caso suscitou - decidiria a possibilidade do general (...) Humberto Delgado ser, quatro anos mais tarde, o candidato da oposição à Presidência da República.

O General Humberto Delgado regressava a Portugal, terminada a sua comissão em Washington, ainda sob uma tentativa de suborno. Ao mesmo tempo que era nomeado para o cargo de Director Geral da Aeronáutica Civil, que o manteria afastado dos comandos militares que poriam tropas à sua disposição, era publicamente, louvado pelo Ministro da Defesa, com termos de excepcional apreço, pelos serviços prestados em Washington, que o exaltavam, no mais capcioso estilo salazariano, como grande figura militar. Entretanto, eu conseguia entrar em contacto com ele. Insensível às tentativas de suborno, no termo de uma evolução que o colocava em completa oposição ao regímen e decidido a romper com as próprias aparências que ao regímen o ligavam, não me foi difícil decidi-lo a aceitar a candidatura pela oposição democrática à Presidência da República».

Henrique Galvão («Minha Cruzada Pró-Portugal: Santa Maria»).






«Começo por esclarecer que fui amigo pessoal de H. Delgado, relacionamento que relato no meu livro Recordando.

Ora bem, estando eu colocado em Nova Iorque, como cônsul e observador nas Nações Unidas, creio que ainda em 1952, aparece-me Humberto Delgado no meu gabinete. Tinha sido colocado como adido militar em Washington e creio que logo, ou depois, nosso representante no SHAPE.

Mantivemo-nos em contacto estreito até à minha saída para ir para o Paquistão, vindo ele a Nova Iorque com certa frequência para almoçar comigo e aliviar os fígados, dizendo mal de Santos Costa - na Embaixada em Washington não era admirado, tendo-o o embaixador Esteves Fernandes posto fora, obrigando-o a arrendar escritório fora do edifício da Embaixada -. Portanto, era comigo que desabafava.

Tendo eu deixado Nova Iorque no Verão de 1954, Humberto Delgado lá continuou, salvo erro, até 1957, sempre grande admirador de Salazar. Só em 1958 virou a casaca, politicamente.

(...) Delgado começa a sua ascensão profissional e política assim: é nomeado director-geral, interino, da Aeronáutica Civil - é nesta altura que eu o conheço, na Av. Rovisco Pais, em Lisboa, onde eu vivia, em casa do meu colega de curso, Hugo Castelo Branco, cujos pais viviam em Paris, e Delgado trazia uma carta deles para o Hugo, que, não estando naqueles momentos, fui eu quem atendeu Delgado, tendo ficado algum tempo à espera do Hugo e em conversa comigo, começando aqui a nossa amizade -. Ele era então ultra-salazarista. Eu não.

Depois, Delgado vai sendo promovido, e, nos fins dos anos 40, vai para Montreal, no Canadá, como nosso representante na ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil). Eu tinha então, no MNE, o Pelouro da Aviação Civil (nessa altura, Portugal estava no pelotão da frente em aviação civil), e dou boa atenção às comunicações de Delgado, de que sempre enviava uma cópia a Salazar, escrevendo regularmente umas linhas à mão, usando tinta violeta (cópia que, obviamente, Salazar nem via). É então que eu vou a casa dele, na rua Filipe Folque, creio que duas vezes, convivendo com a mulher e os filhos.

Portanto, Humberto Delgado, em 1952, é colocado como adido militar na Embaixada em Washington.

Em 1957, regressa a Lisboa, e, a 22 de Setembro, é nomeado Director-Geral da Aeronáutica Civil, depois de ser louvado e condecorado, continuando salazarista como dantes.


O capitão Humberto Delgado numa manifestação dos falangistas espanhóis em Lisboa (1938).








Pouco tempo depois, pede o Governo de Angola, que lhe é recusado. Pede então a administração dos Caminhos de Ferro, ou a do Banco Nacional Ultramarino, o que também lhe é negado.

Em 1958, mostra revolta, e, nesse mesmo ano, é convidado pela oposição para seu candidato a Presidente da República, o que aceita, com natural surpresa dos seus amigos políticos anteriores, separando-se completamente do salazarismo, passando a apregoar-se democrata.

Depois, durante a campanha eleitoral, demonstra um ódio pessoal a Salazar fora do vulgar, evidenciando que o seu ultra-salazarismo era apenas de interesse. Afinal, habituara-se a ser protegido, e não admitiu deixar de o ser.

Deve notar-se que, tendo feito o curso do estado-maior em 1951, em 1952 é colocado em Washington. Em 26 de Fevereiro de 1953, é feito brigadeiro, e, logo em 3 de Setembro desse ano, general, continuando em Washington, a acumular com a representação de Portugal no SHAPE.

Resumindo, no Verão de 1954, eu saio de Nova Iorque e vou para o Paquistão como Chargé d'Affaires a.i..

Delgado
fica onde estava, sempre ultra-salazarista.


(...) Só em 1957 é que Delgado regressa a Lisboa, ao fim de 5 anos nos USA, sendo louvado e condecorado, e, em Outubro, nomeado Director-Geral da Aeronáutica Civil, continuando mais salazarista do que Salazar, mas passa a ter ambições na alta política, e quer ser Governador-Geral de Angola, não lhe sendo feita a vontade.

Quer então ser administrador da C.P., ou administrador do Banco N. Ultramarino.

Não sei porquê, não lhe dão nada.

Presenteado com aquelas negativas, Delgado revolta-se, e, em Fevereiro de 1958, aceita ser candidato da oposição a Presidente da República, para o que fora convidado em Janeiro.

Quem diria que, chegado ao Brasil em 1961, Delgado haveria de proclamar o seu visceral anticolonialismo, aliado ao antisalazarismo!».

Embaixador Carlos Fernandes («O cônsul Aristides Sousa Mendes. A Verdade e a Mentira»).


«(...) Na sua declaração de princípios, o DRIL define-se como uma organização democrata, de luta antifascista, que defende o recurso à violência para derrubar os tiranos da Península Ibérica. Depois de consumar o afastamento dos ditadores, este directório planeia estabelecer um regime democrático numa confederação de repúblicas ibéricas, onde é fundamental promover uma reforma agrária, nacionalizar as grandes indústrias e criar um Instituto de Reforma Urbana, para garantir o direito à habitação.




O movimento define também um regulamento que prevê a existência de um conselho disciplinar para investigar a conduta política e moral dos militantes. São consideradas causas de expulsão a divulgação de segredos da organização, a frequência "sem moderação" de zonas de prostituição, de jogo ou de tráfico ilegal e a maledicência e os comentários depreciativos sobre outros membros. Mas, tendo em conta as guerras que se seguem na cúpula do DRIL, é impossível qualquer aplicação rígida deste regulamento, sob pena de todos os membros serem expulsos.

José Velo Mosquera adoptará como nome de código Carlos Junqueira de Ambia (Junqueira de Ambia é uma localidade galega), mas toda a gente o conhece como Pepe Velo. Aliás, muitos portugueses nunca leram o seu nome e chamam-lhe, simplesmente, "Belo". É ele o director geral do DRIL, mas fica assente que Henrique Galvão será o máximo responsável por todas as acções relacionadas com o território português.

Em Janeiro de 1960, o mês em que nasce o Directório Revolucionário, um agente da PIDE de Beja elabora uma informação para os seus superiores: "Consta que o ex-capitão Henrique Carlos Malta Galvão, ausente do país, tem um plano revolucionário de grande envergadura para derrubar o governo português". Parece um alarmismo exagerado, mas peca afinal por defeito.

Os primeiros actos de grande impacto do DRIL atingem Madrid no dia 18 de Fevereiro de 1960, uma quinta-feira em que o ministro dos Negócios Estrangeiros português se encontra na capital espanhola com o generalíssimo Francisco Franco, para assinar um acordo comercial. Logo de manhã rebentam bombas na sede do Ayuntamiento (o edifício das autoridades locais); ao início da tarde, uma nova explosão agita uma zona perto da sede da Falange espanhola, o partido que apoia a ditadura franquista, provocando a morte ao próprio bombista, José Jurado, de 27 anos; e ainda são encontrados explosivos prontos a deflagrar na empresa de aviação ibérica e numa estátua junto ao Museu do Prado.

Dois suspeitos são detidos e julgados em dez dias: um é condenado a 30 anos de prisão, o outro à pena de morte - a 8 de Março amarram-no a uma cadeira e estrangulam-no com um garrote vil, um tipo de execução muito usado no franquismo.

Entre a documentação apreendida aos bombistas, encontra-se um impresso sinistro, que devem preencher com uma espécie de relatório do atentado, com a indicação do alvo, das consequências, da data e, no fim, o lema, de inspiração cubana: "Liberdade e Justiça ou Morte".

O DRIL reivindica os atentados no dia seguinte, num comunicado enviado para o jornal francês Le Monde. E uma semana depois, Pepe Velo encarrega Henrique Galvão de dar uma entrevista à imprensa venezuelana, para justificar o uso de explosivos na luta política. O Portugal Livre, o jornal feito pelos oposicionistas concentrados em São Paulo, exulta na capa: "Portugueses levantai-vos! O Directório Revolucionário iniciou a luta final". O jornal considera uma honra que tenha sido um português a fazer as primeiras declarações formais sobre os planos do DRIL: "As forças luso-espanholas são uma realidade e a hora do juízo final para os ditadores ibéricos não tardará".

Mais de dois decénios antes do assalto ao Santa Maria, o capitão Galvão observa a maquete de um navio, numa visita à Alemanha, no final dos anos 30.

Galvão anuncia que haverá atentados "com a mesma violência, nas principais cidades de Portugal", através de uma operação de comandos, com ordens para não fazer vítimas e para proteger os interesses estrangeiros. E acrescenta uma promessa sobre o destino do seu inimigo: "Salazar será derrubado em futuro próximo e a queda de um dos tiranos arrastará o outro para o inferno, onde já deviam estar há muito tempo".

A cúpula do DRIL continua a reunir-se em Caracas, em cafés discretos ou nos apartamentos dos líderes, e prepara de facto atentados bombistas em Portugal e outras acções de grande impacto. Numa reunião em sua casa, Galvão desvenda um plano para raptar Salazar em Lisboa, com a colaboração de dois voluntários espanhóis identificados como "os assassinos de D. Inês de Castro", possivelmente um nome de código irónico para designar o Presidente do Conselho. Mas independentemente do tipo de ataques, faltam voluntários portugueses para os concretizar. Galvão sente-se embaraçado e desabafa, por carta, com outro opositor do regime exilado no Brasil:

"Estou envergonhado: boa matéria-prima nos espanhóis, e fácil. Dificuldades enormes para preparar os portugueses e iniciar operações, aliás completamente estudadas, em Portugal. A ponto de parecer indispensável que tenha de ir eu pessoalmente, com os meus 64 anos, operar também num dos comandos... para exemplo. Sinto-me envergonhado".

Num comício do DRIL no Palácio dos Desportos, em Caracas, a 9 de Abril de 1960, Galvão tenta recrutar portugueses e venezuelanos para estas operações. No mesmo palco, Velo Mosquera admite: "A luta já começou no campo da violência, porque a isso nos forçam as circunstâncias. (...) A sua finalidade é salvar os povos ibéricos da ruína total para que os arrasta o providencialismo ridículo de dois ditadores cruéis".

(...) Numa manhã em que folheia o Diário de Caracas, Henrique Galvão tropeça na curta notícia de que está para breve nova chegada do paquete Santa Maria ao porto de La Guaira, perto da capital venezuelana. É assim que se lembra de sequestrar o paquete português de luxo para começar, nessa parte flutuante do território nacional, a revolução contra Salazar.

Amadurece o plano e duas ou três semanas mais tarde partilha-o com José Velo Mosquera - que lhe diz que tem uma ideia parecida, embora mais exigente em termos de meios. Independentemente da forma, o objectivo é o mesmo: uma acção surpreendente, que atraia a atenção da comunicação social a nível mundial, que deixe Salazar e Franco na defensiva, e que permita pôr fim às ditaduras ibéricas.

O plano inicial de Galvão, tal como o expõe numa carta a Humberto Delgado em Abril de 1960, é constituir um grupo de cem portugueses e espanhóis para se infiltrarem entre os passageiros e tomarem posse de um navio de cruzeiro em alto mar. A expectativa é a de que um quinto dos homens da tripulação e o próprio comandante adiram ao grupo, que desviará o curso da embarcação para Fernando Pó - uma ilha espanhola na costa ocidental africana, que será depois conquistada com uma operação de comandos. Segue-se um ataque a São Tomé e Angola e o pedido de asilo político no Gana, onde será criado o Exército de Libertação contra Salazar - e só no fim desta fase é que Humberto Delgado se deve juntar aos rebeldes, para se evitar o risco simultâneo de Galvão e do general, os dois líderes da oposição não comunista.






Intensificam-se as reuniões entre portugueses e espanhóis. Do lado português participam Henrique Galvão, Camilo Mortágua e o engenheiro Costa Mota, um antigo membro da Junta Patriótica Portuguesa. Pelos espanhóis, além de Velo Mosquera e de Jorge Sotomayor, assiste Rafael Maria Rojo, também conhecido por Romara Rojo, um anestesista de quarenta anos, recém-chegado de uma misteriosa estadia na Rússia, um tipo "entroncado", tosco no falar e no andar".

Uma das primeiras discussões incide no nome que devem dar ao ataque, o que revela a extrema importância atribuída por estes revolucionários à imagem: o galego Pepe Velo quer chamar-lhe "Operação Compostela", mas Galvão propõe "Dulcineia", pretendendo simbolizar a batalha de um grupo de D. Quixotes pela sua dama: a liberdade. Os espanhóis cedem.

Segue-se a definição do alvo. Ainda se fala na hipótese de sequestrar três aviões da transportadora espanhola Ibéria e desviá-los para Cuba, mas a ideia é afastada devido ao esforço financeiro que exigiria. Discute-se a hipótese de se atacar um navio de guerra, mas rapidamente se conclui que é um absurdo por não se conseguir prever a chegada de uma unidade naval militar, pela extrema dificuldade da operação de combate contra militares, e por Salazar e Franco presumivelmente terem menos hesitações para mandar afundar um navio sem civis.

Dos navios de passageiros que atracam na Venezuela, a maioria é espanhola. Camilo Mortágua chega a embarcar num deles até Porto Rico, para elaborar planos detalhados sobre armas a bordo e estratégias possíveis de assalto, mas quando volta para entregar o seu relatório dizem-lhe: "Não vale a pena, já está escolhido, é o Santa Maria".

Apesar de Galvão ter de lidar com dois dirigentes espanhóis no DRIL, com esta decisão sobre a nacionalidade do navio, consegue apontar a acção mais contra Salazar do que contra Franco. O capitão põe tudo em risco mas aposta num argumento engenhoso: informa a cúpula do Directório de que os comandos portugueses se recusam a assaltar um barco espanhol porque em Espanha há pena de morte: "Os seus rapazes são uns cobardes e você é um farsante", grita-lhe Velo, indignado. Mas, com a mediação de Sotomayor, no dia seguinte o director do DRIL acede a que o alvo do ataque seja português.

Dos navios que fazem escala na Venezuela, nenhum outro é tão luxuoso, moderno e rápido como o Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. A maioria dos clientes são emigrantes portugueses e espanhóis, confinados aos espaços da terceira classe. Na primeira e na segunda viajam sobretudo turistas americanos e holandeses, que se deslumbram com os camarotes sumptuosos, os bailes de gala ao som de uma orquestra de sete músicos, um jardim de Inverno no bar e duas piscinas de água salgada.

Construído na Bélgica em 1953, mede 185 metros de comprimento, tem 18 baleeiras (os pequenos botes salva-vidas), atinge 21 nós (aproximadamente 40 km/hora) em velocidade cruzeiro e está avaliado em 265 mil contos [88,8 milhões de euros a preços de 2010]. Tem capacidade para transportar 1078 passageiros, dos quais 156 em cabines de primeira classe e luxo, 226 em segunda classe e os restantes 696 em turística. E faz por ano dez carreiras regulares, com partidas de Lisboa e escalas em Vigo, Funchal, Tenerife, La Guaira, Curaçao, Porto Rico e Port Everglades (na Florida, junto a Miami).


Outro ponto de controvérsia na cúpula do DRIL é o momento do assalto. Os espanhóis acham que o melhor é atacar depois da escala em Miami, porque assim se conseguiria esconder o sequestro do mundo durante os sete dias seguintes, até se perceber que o Santa Maria não chegara a Tenerife, como suposto. E nessa altura os rebeldes já só necessitariam de mais quatro dias para chegar à ilha de Fernando Pó, no Golfo da Guiné. Mas Galvão invoca as revistas rigorosas a que as autoridades americanas submetem os navios em Miami, para controlar o tráfico de droga, e alerta para as grandes probabilidades de serem encontradas as armas do grupo. Com alguma renitência, os espanhóis aceitam que o assalto se realize logo depois da escala em Curaçao, onde o Santa Maria é reabastecido de água e combustível.

Pepe Velo estuda o sequestro do ponto de vista legal, para evitar acusações de pirataria, uma vez que o grupo defende uma causa política. Apesar de ser ele o director-geral do DRIL, como o alvo é um navio português, o assalto será concretizado em nome de Humberto Delgado - e o Movimento Nacional Independente, presidido pelo general, passa a integrar uma Junta Nacional Independente de Libertação (JNIL), agora criada. Jorge Sotomayor assume o comando do lado espanhol e a coordenação da parte naval, começando a estudar as rotas de fuga; ao mesmo nível hierárquico está Henrique Galvão, como comandante geral da facção portuguesa do DRIL e porta-voz do grupo. Todas as decisões devem ser tomadas por unanimidade entre os três líderes.

Depois de controlado o barco, o plano é simular uma avaria que atrase a chegada a Miami, onde é esperado três dias depois, para ganhar tempo que permita aproximar o transatlântico de Fernando Pó. Fugido à guerra civil espanhola, Velo vivera nessa ilha 30 anos antes. Por isso, basta-lhe enviar um membro do DRIL ao território para reactivar os contactos com os galegos ali residentes e actualizar toda a informação necessária para planear o golpe. Sabem que os escassos militares passam a maior parte do tempo bêbados, à volta do casino; conhecem a localização do quartel e do cais onde atraca o único navio-canhão que protege a ilha, normalmente guardado por uma sentinela distraído; dispõem de mapas e fotografias; e descobrem até quantas gruas e tractores são usados na exploração florestal, para o caso de virem a necessitar desses veículos nas suas manobras militares.

A ideia é assumir o controlo da ilha, cortar as comunicações com o exterior e preparar um contra-ataque surpresa a Luanda, usando as lanchas de desembarque do Santa Maria, com a ajuda dos elementos da tripulação que adiram ao grupo e de forças rebeldes no território, e beneficiando da cobertura de disparos feitos a partir do navio-canhão espanhol contra o porto da capital angolana. Os comandos tomarão controlo sobre o aeroporto e sobre a rádio, que usarão para apelar à insubmissão. A partir daqui será constituído um governo e prosseguirá a guerra contra Salazar.

Na divisão de tarefas para os preparativos, é o grupo de revolucionários portugueses que fica encarregue de estudar o navio. O capitão faz-se passar por um avô que pretende levar os netos num cruzeiro e pede à agência todos os mapas da viagem e as brochuras do Santa Maria, que contêm a planta do paquete e dão pistas sobre a tripulação e os abastecimentos. A agência de viagens Hulton, no centro da capital venezuelana, expõe numa montra fotografias ampliadas e um modelo do Santa Maria em miniatura, mas suficientemente grande para permitir tirar dúvidas sobre os recantos do navio - Galvão estuda-o durante a noite, quando não está ninguém, ou, de dia, escondido atrás de um chapéu e de um par de grossos óculos escuros, para não ser reconhecido.


Nas vezes seguintes em que o Santa Maria atraca no porto venezuelano de La Guaira, há homens do DRIL que se infiltram a bordo, disfarçados de estivadores, para investigarem o número de armas a bordo, as quantidades de combustível e de géneros alimentares, os obstáculos no acesso de passageiros à ponte de comando, a eventual presença de agentes da PIDE e tentarem ficar com uma ideia sobre a opinião política da tripulação, para prever quantos poderão aderir.

Em Junho de 1960, o próprio Galvão arranja um passe de visitante e sobe ao navio, disfarçado de turista, de camisa às flores e alpercatas. Demora-se duas horas, a analisar todos os recantos, vê o comandante reunido na sua cabine e chega mesmo a tocar no leme. Sai do Santa Maria convencido de que será facílimo capturá-lo: dos oito conveses, só precisa de se preocupar em tomar o controlo dos dois superiores, onde se encontram os camarotes dos oficiais e a casa do leme. O acesso a estas duas áreas sensíveis só é possível por dois lanços de escadas, pelo que basta colocar aí dois homens armados durante o assalto, para impedir qualquer contra-ataque.

Mas ainda há que recrutar cerca de cem comandos. Do lado português, a tarefa é entregue a Camilo Mortágua, que está habituado a viajar pelo país nos seus trabalhos como locutor de rádio. Percorre os cafés e pontos de encontro dos portugueses à procura de homens recomendados por outros adversários de Salazar, conversa com eles, tenta perceber se são de confiança, discretos, corajosos. Os escolhidos são desafiados, em segredo, a formar uma guerrilha para combater Salazar.

O número de comandos considerados necessários vai baixando à medida que passa o tempo - por um lado não há assim tantos voluntários de confiança, por outro não haveria forma de sustentar tanta gente. No Rio de Janeiro, Humberto Delgado arranja 23 homens, mas o sucessivo adiamento da operação por falta de dinheiro acaba por levar a maioria a desistir.

Um lado surpreendente desta operação revolucionária é a sua dimensão burocrática. Apesar de a correspondência ser violada com frequência e de a PIDE não ter pudor nem limites legais nos métodos de recolha de informações, os passos mais importantes não se dão sem um papel a autorizar.

Já tinha sido assim em 6 de Fevereiro - Galvão, que era secretário-geral do Movimento Nacional Independente, liderado por Delgado, recebeu uma credencial do general, para formalizar que era o seu representante directo em Caracas e que ficava a partir daquele dia mandatado para conduzir "acções de comando activo de eventuais operações de libertação". Em Setembro de 1960, o general envia ao capitão uma nova credencial, mais ampla, através da qual delega o poder de estabelecer a Junta Nacional Independente de Libertação (JNIL), que conduzirá operações de libertação de Portugal logo que Galvão "pise território pátrio, ou equiparável, incluindo navio ou aeronave". Uma semana depois, em resposta, o capitão envia de Caracas para São Paulo uma declaração formal - onde coloca a sua impressão digital - segundo a qual vai "chefiar a luta de libertação nacional conhecida por Dulcineia" e reconhece o general "como o único legítimo e efectivo chefe da Oposição Democrática Portuguesa, pois foi como tal escolhido pelo povo português".

Esta arriscada troca de documentos não corre só ao nível da cúpula. Galvão envia também por correio para os jornalistas portugueses Miguel Urbano Rodrigues e Victor Cunha Rego, ambos exilados em São Paulo, um documento que estes têm de devolver assinado, pelo qual se comprometem a participar em qualquer operação contra o fascismo português organizada pelo DRIL.




Miguel Urbano Rodrigues foi uma das primeiras pessoas que o capitão conheceu no exílio, em Maio de 1959, pois estava à sua espera no aeroporto do Rio de Janeiro, onde fez escala entre Lisboa e Buenos Aires. Reencontraram-se seis meses depois, novamente num aeroporto brasileiro, onde Galvão parou a meio da viagem entre Buenos Aires e Caracas. O jornalista tirou uma fotografia com o capitão e enviou-a ao irmão, o escritor Urbano Tavares Rodrigues, cheio de entusiasmo: "Tenho fundadas esperanças de que vamos pôr a oposição a singrar novamente».

Miguel Urbano Rodrigues tinha trabalhado em Lisboa no Diário de Notícias e chefiara a redacção do Diário Ilustrado, um projecto inovador lançado em 1957, que fizera uma cobertura arrojada da visita da Rainha Isabel II a Portugal.

(...) Miguel Urbano Rodrigues deixaria o Diário Ilustrado em ruptura com a administração por causa de problemas relacionados com a censura. Exilado no Brasil, por intermédio do intelectual português Jaime Cortesão, dirigente do Comité Central do Movimento Antifascista dos Portugueses do Brasil, conheceu Júlio de Mesquita Filho, o director do jornal O Estado de São Paulo. Foi então convidado para trabalhar numa das mais influentes publicações brasileiras, e convenceu o director a contratar dois dos seus antigos colegas do Diário Ilustrado, precisamente Victor Cunha Rego e também João Alves das Neves.

No fim de 1959, Miguel Urbano Rodrigues lançou o Portugal Livre, um jornal para agitar a luta contra Salazar, e intensificar a correspondência com Henrique Galvão, que via como um político talentoso e criativo (mais bem preparado do que Humberto Delgado), e que lhe enviava com regularidade artigos da Venezuela.

Depois de formalizar pelo correio a adesão ao DRIL, no fim de Setembro de 1960, Miguel Urbano Rodrigues recebe de Galvão uma ordem escrita que parece saída de um filme de espionagem: tem de se apresentar até 14 de Outubro em Curaçau, nas Antilhas holandesas; quando chegar deve telefonar para um hotel de Caracas, entre as 08h00 e as 12h00 ou entre as 14h00 e as 18h00, para receber instruções; tem de adiantar o dinheiro das despesas, mas Galvão garante-lhe que será feita uma transferência bancária em nome da mulher.

O jornalista pede uma licença para se ausentar da Folha de S. Paulo e compra o bilhete, mas na véspera da partida o voo é cancelado pela KLM. É já depois deste dia que recebe um telefonema do capitão a anunciar o adiamento da Operação Dulcineia. E não chega a receber qualquer verba relativa ao bilhete. Miguel Urbano Rodrigues indigna-se: "Sem o cancelamento do voo, eu estaria em Curaçau para nada, agindo como um aventureiro". Ainda sem saber em que consiste a operação, o jornalista envia a Henrique Galvão uma carta onde se distancia da aliança com os espanhóis no DRIL e se manifesta contra eventuais golpes em ilhas africanas: "Creio que isso seria um grave erro que poderia prejudicar grandes coisas que estão perfeitamente ao nosso alcance. E a sua pessoa é indispensável para elas. Já pensou o que representaria para nós a sua morte numa aventura não decisiva?"


Fidel Castro e Che Guevara


(...) Entre Setembro e Outubro de 1960, a procura de apoios para a Operação Dulcineia leva o capitão a escrever à família sobre uma viagem a Cuba, onde vive Manuel Rojas, nome espanhol de Abderramán Muley More, um espanhol de origem árabe, radicado em Havana, que chega a ser o coordenador-geral do DRIL. Mesmo antes de Galvão chegar à América do Sul, já tinha havido contacto entre os oposicionistas portugueses e altas patentes da revolução cubana liderada por Fidel Castro. Fernando Queiroga, opositor do regime exilado no Brasil, nomeado por Humberto Delgado como uma espécie de embaixador do Movimento Nacional Independente, deslocou-se a Havana para se encontrar com Ernesto Che Guevara e Raul Castro. O objectivo era convencer o regime cubano a financiar a revolução contra Salazar e o plano imediato passava pela compra de bilhetes de avião para 65 homens que sairiam do Brasil rumo a Portugal ou Espanha, onde entrariam disfarçados como turistas, para depois dirigirem as operações de libertação. O regime de Salazar tinha acabado de conceder asilo ao general Fulgêncio Batista - o ditador deposto por Fidel - que se refugiou na ilha da Madeira, mas mesmo assim Fernando Queiroga não terá conseguido o financiamento necessário.

Anticomunista militante, Galvão não fica rendido aos efeitos da revolução implementada por Fidel Castro e Che Guevara no ano anterior, como descreve numa carta à prima, Ana Mira Mendes, para justificar a demora na correspondência:

"Tive de fazer uma grande volta por este mar, em que as ilhas são tantas como os cabelos que tens na cabeça, e não me convinha que se soubesse as voltas que dava. (...) Não há dúvida que é gente de fibra - mas, afinal, é outra ditadura, não tão comunista como dizem mas o bastante para não me agradar. De momento só me interessa por algumas facilidades que me dá"».


(...) O Santa Maria sai de Curaçau rumo à Florida pelas 19h00, com 356 tripulantes e 612 passageiros: 239 espanhóis, 189 portugueses, 87 venezuelanos, 44 holandeses, 42 americanos, 7 cubanos, 2 brasileiros, 1 italiano e 1 panamiano. Henrique Galvão está estendido num beliche a ler o livro de Álvaro Lins, mas ao longo da noite interrompe a leitura para várias trocas de recados com Jorge Sotomayor, alojado na segunda classe, no camarote 113. É Camilo Mortágua que leva sucessivamente as mensagens de um para o outro sem se chegar a qualquer consenso sobre o desenho do ataque.

Muitos dos comandos continuam sem se conhecer. Entre os espanhóis, Mazo apresenta Rico a alguns portugueses: "Estás a ver aquele de bigode e o que está ao lado com um casaco de couro? São nossos". O plano do ataque é comunicado em sussurros, dentro dos camarotes, a seis revoltosos de cada vez, com um folheto do navio desdobrado no chão, onde se assinalam as posições de cada um. Depois, para fazer tempo, a maioria dos rebeldes concentra-se em duas ou três mesas do bar da terceira classe, a jogar dominó ou a fazer conversa, acendendo cigarros uns atrás dos outros. Um dos espanhóis lê um livro com um título de mau prenúncio: O barco da morte.

(...) Pelas 23h00, Camilo Mortágua, número dois de Galvão do lado português, e Joaquim Paiva, o ex-maquinista naval que usa a alcunha de "John", trancam-se no camarote 358 para preparar as 14 armas de que os 25 rebeldes dispõem para executar o assalto: uma metralhadora Thompson, uma pistola automática, quatro espingardas, oito revólveres e meia dúzia de granadas.


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Camilo Mortágua e Palma Inácio



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Chegada de Mário Soares a Santa Apolónia após o 25 de Abril de 1974, acompanhado do assaltante de bancos e sequestrador de aviões, Hermínio da Palma Inácio.












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(...) À hora marcada, nem Galvão, nem Sotomayor dão a ordem de ataque. Irritados, alguns dos rebeldes ameaçam dispersar, o que leva os comandantes a preparar-se para iniciar a acção. Os assaltantes enfiam as braçadeiras verdes e vermelhas no braço esquerdo, ajustam as boinas pretas à cabeça e empunham as armas. Galvão consulta o relógio e diz: "Vamos!"

Em grupos de quatro, saltam as cancelas e sobem as escadas. Galvão lidera a equipa que vai neutralizar, no segundo convés, quaisquer tentativas de reacção que surjam dos camarotes do comandante e outros oficiais do navio. Depois das quezílias por causa da táctica, cada um dirige afinal o seu ataque como julga mais apropriado. A ponte de comando, no convés superior, é abordada pelos dois lados, conforme defendia Sotomayor. É ele que lidera o grupo de bombordo, composto por Losada, Mazo e o filho de Velo, que entra pela porta do lado esquerdo. No grupo de estibordo, do lado oposto, Romara comanda Rico, Illanes e Perez.

Belmiro Marques, um marinheiro alentejano de 37 anos que se encontra de serviço na casa do leme, vê entrar meia dúzia de homens que lhe perguntaram pelo oficial de serviço, mas presume que são passageiros normais e nem repara em quaisquer armas porque a casa do leme está às escuras durante a noite, para assegurar a visibilidade da proa.

Aparece então o terceiro piloto, Nascimento Costa, 25 anos. Um dos assaltantes pergunta-lhe se é ele o oficial de serviço. Nascimento Costa responde que sim mas percebe que estão armados e começa a recuar. Para intimidar o piloto ou por nervosismo, um dos quatro homens que atacam por estibordo dispara. Como a visibilidade é reduzida, do outro lado da ponte de comando Sotomayor não percebe a origem do tiro, teme que tenha vindo do tripulante, e dispara também.

Um desses tiros atinge o piloto. Ferido com gravidade, Nascimento Costa tenta arrastar-se para se refugiar na casa de navegação, mesmo ao lado, mas é travado pelo grupo de Sotomayor. O espanhol aponta-lhe a pistola, o piloto agarra-se ao seu braço para se defender e resistir, e é atingido por novos disparos. Deitado no chão, esvai-se em sangue e grita de dor.

A agitação aumenta entre os assaltantes. José Ramos não chega a entrar na ponte de comando - está a aproximar-se quando ouve os tiros e um dos espanhóis o avisa: "Não entres! Vai lá abaixo e avisa que aconteceu um problema sério". Desce as escadas e faz mais de cem metros a correr até chegar a Galvão. "O que é que aconteceu?", pergunta o capitão. "Houve um tiroteio lá em cima, não sei o que se passou, mas há feridos", responde ofegante. Galvão abandona a sua posição e acelera o passo até ao local dos disparos.




João Lopes de Sousa, de 21 anos, ajudante de piloto, está a preparar o boletim meteorológico na casa de navegação quando ouve os tiros na divisão ao lado. Corre para a sala da telegrafia em busca de socorro e grita pelo seu colega: "Garcia!" Mas assim que abre a porta vê-o sentado no chão, de mãos no ar, encostado à parede, rodeado por três homens armados. Um deles dispara e acerta-lhe no braço esquerdo, mas o tripulante consegue fechar a porta e fugir pelo corredor. É perseguido por dois rebeldes que o mandam parar e o atingem com mais dois tiros nas costas. Ainda desce a escada que vai ter a uma das portas do camarote do comandante, mas faltam-lhe as forças, perde os sentidos e desmaia no chão.

O comandante do Santa Maria, Simões Maia, percebe que tem o camarote na mira dos homens armados e não arrisca recolher o corpo ensanguentado do ajudante de piloto. Telefona para os oficiais de serviço na casa das máquinas e manda-os parar o navio; depois liga para a sala da tripulação mas ninguém atende.

O telegrafista Carlos Garcia, 36 anos, já tinha sido obrigado a afastar-se dos aparelhos. Pergunta aos rebeldes quem são e estes respondem-lhe que pertencem ao Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, comandado pelo capitão Henrique Galvão. E quando quer saber quantos são, um rebelde intimida-o com um número redondo: cem. Instantes depois, Galvão e Sotomayor entram nesta cabine e proíbem-no de enviar qualquer mensagem de alerta.

Após ver os assaltantes entrar na casa do leme, o marinheiro Belmiro conseguira descer as escadas até ao camarote do comandante. Depois de o avisar, segue, espavorido, a bater às portas dos camarotes dos colegas e a gritar-lhes para se levantarem porque andam aos tiros na ponte e já fizeram feridos. Um grupo de tripulantes encontra-se na popa quando se depara com o marinheiro sobressaltado. Quando ouvem "cinco ou seis", ficam bloqueados pelo medo e muito poucos sobem as escadas para enfrentar os agressores.

Os poucos corajosos são rapidamente subjugados pelos rebeldes e obrigados a deitarem-se com as mãos na nuca. Um deles é violentamente agarrado pelos cabelos por Sotomayor. Outro que, no chão, se estica para espreitar o que se passa é agredido com duas coronhadas na cabeça e no sobrolho e fica a sangrar.

Um marinheiro pensa que a gritaria a bordo é para cortar as cordas, como é habitual quando há vendaval, e sobe as escadas armado com uma navalha, mas quando chega ao último degrau, um dos assaltantes ordena-lhe: "Aterra-te, aterra-te!" O marinheiro obedece, entra de gatas na casa do leme e cinco homens armados obrigam-no a ficar deitado, de cabeça para baixo. Ainda assim, consegue ver o piloto Nascimento Costa no chão, a perder sangue e a implorar: "Ao menos acabem de me matar".

O cenário depois do ataque é tão impressionante que um dos comandos espanhóis, assustado, corre para o camarote e prepara-se para lançar a pistola ao mar, sendo travado por Sotomayor.


O pirata Henrique Galvão


Instantes depois, os tripulantes deitados no chão vêem entrar na casa do leme um homem fardado, de pistola em punho, que lhes anuncia o início de uma revolução em Portugal e em Espanha: "Estejam descansados e não se preocupem que ninguém lhes faz mal, eu sou o capitão Galvão".

Os gritos, tiros e correrias acordam o médico Cícero Campos Leite. Levanta-se da cama, desce a persiana, abre a janela e põe a cabeça de fora. Dá literalmente de caras com três homens armados. Recolhe-se ao interior e encosta-se ao guarda-fato, mas os canos de duas pistolas entram pela janela. Os rebeldes informam-no de que são enviados de Humberto Delgado comandados por Henrique Galvão e mandam-no sair por aquela mesma janela para não perderem o contacto visual. O médico simula que vai obedecer, mas dá um salto até à porta, para a trancar, e com a outra mão apaga a luz. Só que os rebeldes disparam e acertam-lhe nas costas. Depois obrigam-no a caminhar até à ponte de comando e mandam-no deitar-se junto aos outros tripulantes, mas, vendo o sangue que corre pelo chão, o médico consegue convencer Sotomayor a dar assistência aos feridos. Telefona então para o hospital de bordo e pede ao enfermeiro que venha buscá-los: Nascimento Costa é transportado numa maca e o ajudante de piloto, Lopes Sousa, é levado em braços por alguns marinheiros.

A seguir, Cícero Campos Leite telefona para o comandante Simões Maia, descreve-lhe o cenário sangrento na ponte de comando e passa o telefone a Galvão. "O que é que se está a passar", pergunta o comandante. "Não se está a passar nada, além do facto de eu ter acabado de tomar o seu navio. É totalmente impossível qualquer resistência e convido-o a render-se".

Simões Maia fica atónito e balbucia respostas nervosas como "Sabe o que está a fazer?" ou "Não pode fazer isso!" Pede-lhe que desça ao seu camarote desarmado, mas Galvão deixa claro quem manda: "Não está em situação de poder impor ou propor condições. É a mim que cabe impor condições".

Com uma pistola numa mão e uma pasta de documentos na outra, Henrique Galvão desce as escadas para o camarote do comandante. O homem na casa dos 60 anos, cabelos grisalhos, encontra-se de pijama, acompanhado por três dezenas de oficiais que entretanto chamara ao seu camarote e que estão igualmente de pijama ou roupão. O adversário de Salazar pousa a arma na secretária e, ladeado por Sotomayor e Velo, comunica: "Meus senhores, o Santa Maria foi capturado por um comando do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação". Explica a ligação do grupo ao general Humberto Delgado e o objectivo de derrubar as ditaduras de Portugal e Espanha, diz-lhes que está um movimento revolucionário a eclodir nos dois países e promete desembarcar os passageiros num porto neutro dentro de dois dias, após o que seguirá para outro destino, onde conta chegar dez dias depois. O comandante diz-lhe que não há água nem alimentos para tanto tempo, pois contava abastecer-se na América. Galvão manda imediatamente racionar a comida a bordo.

Levanta-se a questão de saber onde estão as armas da tripulação e quando o comandante garante que não há quaisquer pistolas a bordo, é interrompido por um comissário, que confessa ter no seu camarote um revólver de calibre 6, 35 mm, sem munições. Simões Maia fica admirado com a revelação, o jovem comissário pede desculpa por não ter avisado e a arma é entregue aos assaltantes - é mais uma para dominar o navio.



Pressionado por Velo para acelerar a conversa, Galvão explica por fim as três alternativas que deixa aos tripulantes. Ou aderem à revolução e se juntam aos rebeldes; ou são considerados prisioneiros de guerra submetidos a um tratamento humanitário; ou podem continuar em funções, desde que empenhem a palavra de honra em como cumprirão as ordens dos rebeldes.

Os oficiais estão atemorizados, há um que chora, a situação é constrangedora. "O que o senhor comandante decidir terá o nosso apoio", afirma o chefe da casa das máquinas. Depois de uma rápida troca de impressões, envergonhados e resignados, convencem-se de que nada podem fazer face aos rebeldes - por ser a solução mais cómoda e a única que permite tentar sabotar os rebeldes caso surja a oportunidade e a coragem para tanto. Sotomayor avisa-os, no entanto, de que qualquer tentativa de rebelião ou sabotagem será julgada por um tribunal revolucionário a bordo e os culpados serão condenados a um fuzilamento imediato. É então preparado o texto de uma "norma de compromisso" para os oficiais assinarem, e onde prometem obedecer a um orgão do Movimento Nacional Independente, de Humberto Delgado, criado para gerir a revolução a bordo...

(...) Dos quatro feridos, o mais grave é claramente o do piloto Nascimento Costa, atingido por três balas, que provocaram ferimentos no cotovelo, na região do ventre (de raspão) e uma hemorragia interna, com perfuração do pulmão direito. Uma das enfermeiras que lhe presta primeiros socorros rasga-lhe a camisa azul ensanguentada e manda atirá-la ao mar sem imaginar que virá a fazer falta para as perícias da Polícia. O estado do piloto é tão grave que às quatro da manhã o capelão de bordo é acordado para lhe celebrar a extrema-unção.

Dez dias antes, quando o Santa Maria cruzava o Atlântico a caminho da Venezuela, Nascimento Costa soubera através de um telegrama que acabara de ser pai de uma menina. Hesitara em embarcar por ter a mulher prestes a dar à luz, mas decidira cumprir a viagem porque tinha acabado de ficar encarregado de elaborar o jornal de bordo, o que lhe permitia receber mais mil escudos por mês. Antes de embarcar, participara na escolha dos nomes - João, se fosse menino, Cristina, para menina - e deixara um recado ao sogro: no caso de surgir algum problema durante o parto, que escolhessem salvar a mãe. Estava casado há menos de um ano e meio.

Na escala das Canárias, telefonara para casa e dissera que só lhe apetecia voltar para trás. Depois de saber por telegrama que a bebé tinha nascido bem, festejara com os outros tripulantes e mandara entregar à mulher, em Lisboa, um ramo de flores.

A sua morte é declarada às 07h20. O corpo é embalsamado e guardado numa arca frigorífica no porão. Instantes depois do falecimento, um dos rebeldes pergunta pelo estado dos feridos. Quando lhe dizem que o piloto morreu, lança as mãos à cabeça».

Pedro Jorge Castro («O Inimigo N.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP»).



João Nascimento Costa



«De súbito, o povo português é fustigado por um sobressalto que o deixa entorpecido de pasmo, e de preocupações também. De 22 para 23 de Janeiro de 1961, o país é informado, pelas agências noticiosas, de que o paquete Santa Maria, que navega em águas da América do Sul, fora tomado de assalto por um grupo armado, sob a chefia de Henrique Galvão, que se havia infiltrado no último porto de escala. Depois, quase minuto a minuto, afluem pormenores, por vezes contraditórios, sempre confusos, em qualquer caso sensacionais. Assenhoreiam-se do episódio a grande imprensa e as poderosas estações de rádio do mundo; pelo seu inusitado e pela sua audácia, o acto assume uma dimensão internacional; e de chofre tudo se reveste de um cariz político. Decorrem as horas, conhecem-se mais factos: os indivíduos que se apoderaram do paquete, no total de três dezenas, haviam embarcado nos portos de Curaçau e La Guaira, como passageiros, com documentos falsos, e detentores de armamento clandestino; no assalto aos centros vitais do navio, pela madrugada de 22 de Janeiro, o oficial de quarto, terceiro-piloto Nascimento e Costa, fora assassinado, e feridos outros oficiais; o navio é desviado da sua rota e cruza agora mares da América Central; e Henrique Galvão fizera radiodifundir uma mensagem em que ameaça afundar o Santa Maria se se tentar interceptá-lo. Pelo país, tanto na classe política como entre a população anónima, erram as perguntas: que se propõe Henrique Galvão? quem o apoia? é acto isolado? que se vai seguir? como vai actuar o governo de Lisboa? que atitude vão assumir os governos estrangeiros? Multiplicam-se os boatos: teriam sido assaltados outros paquetes portugueses, em particular o Vera Cruz; Galvão prepara um desembarque nas costas do Algarve, simultaneamente com o deflagrar de uma insurreição em Portugal; dirige-se o Santa Maria para os Açores, onde se iniciará a revolta contra o governo central, ou para Cabo Verde, ou para as costas da África Ocidental, a buscar apoio de países africanos hostis a Portugal; Galvão está louco; Galvão não está louco, e é o chefe reconhecido, com Humberto Delgado, das forças anti-salazaristas. De permeio, na Baixa do Cassange, no Nordeste de Angola, dão-se alguns tumultos, há desafios às autoridades, produzem-se ataques a brancos e a postos administrativos por parte de populares negros, e são invadidas algumas propriedades, mas com a intervenção firme das forças da ordem é restabelecida a calma.

Ao cair da noite de 22 de Janeiro, quando se torna mais claro o sentido e o conteúdo das notícias chegadas, é Pedro Theotónio Pereira, ministro da Presidência, o primeiro membro do governo a tomar o assunto em mãos. Depois de se inteirar dos pormenores possíveis, resolve prevenir Salazar. Nesta altura é já o princípio da noite, e Oliveira Salazar, ainda convalescente e confessando-se muito enfraquecido, está conversando com Luís Supico Pinto. Praticam os dois homens da situação interna, e Salazar troca impressões sobre o momento político e uma eventual remodelação do gabinete, que tem em mente. Por ambos são atirados nomes para um novo governo, apenas como sugestões a provocar outras sugestões. E vem a fio de conversa os casos de Delgado e Galvão. Diz Salazar: "estou admirado com a inacção dos dois, sobretudo de Galvão. No caso deles, já teria tentado um golpe, qualquer coisa, não sei. Por exemplo, um ataque a Cabinda, ou a uma ilha indefesa de Cabo Verde, e aí, estabelecer, pelo menos durante algumas horas, uma autoridade, uma espécie de governo. Seria um belo escândalo mundial! Por que estão quietos?" Informado de que Salazar se encontra com Luís Supico, Pedro Theotónio resolve dirigir-se-lhe directamente. Toca o telefone no gabinete da residência oficial, Salazar interrompe a conversa, atende pessoalmente a chamada; mas a rogo de Theotónio logo a passa a Supico Pinto. Este escuta quanto lhe diz o ministro da Presidência, que findo o recado logo desliga. Supico vê-se constrangido a ser o anunciador de más novas. Salazar ouve sem interromper. Depois diz: "Bem me parecia: Galvão é homem empreendedor, qualquer coisa haveria de fazer. Sempre me pareceu tolice deixar sair Galvão, sempre me pareceu que nem os argentinos cumpririam a promessa, nem ele ficaria quieto. Mas houve aí uns medos, mil pressões...". De chofre, no entanto, Salazar corta o seu comentário, suspende-se, encara Luís Supico: "Desculpe, não foi para tratar disto que aqui veio, nem era este o tema que nos ocupava. Ora o Luís Supico dizia que...". Supico Pinto retoma o fio da conversação, demora-se ainda três quartos de hora: sobre o episódio do Santa Maria não há uma palavra mais.








Vive o país apaixonadamente o caso do Santa Maria. Procura o governo português actuar. Dirige-se aos gabinetes norte-americano e britânico, e solicita-lhes que, utilizando as forças navais de que dispõem na zona, procurem apresar o paquete. Efectivamente, o governo de Washington manda seguir em busca do Santa Maria os contratorpedeiros Wilson e Donato, e o Almirantado inglês informa que, com o mesmo objectivo, saíra da base de Santa Lúcia a fragata Rothesay. A esse tempo, Galvão difunde, pela rádio de bordo, um comunicado: o assalto ao Santa Maria faz parte da luta contra o governo de Oliveira Salazar: o grupo que domina o paquete considera-se uma força de ocupação: e todos estão a actuar em nome de uma Junta Internacional de liberais sob a presidência de Humberto Delgado. No Brasil, o ministro da Marinha, Matoso Maia, declara que o Santa Maria será apresado se entrar em águas territoriais brasileiras, e no Itamaraty esclarece-se que aos seus ocupantes não poderá ser reconhecido o direito de asilo porque foram cometidos crimes de direito comum, como assassinato, roubo, pirataria, outros ainda. Continua cruzando as águas das Caraíbas o navio, e toca por espaço breve em Santa Lúcia para desembarcar feridos e doentes. Estes fazem declarações logo divulgadas pelo mundo: seriam afinal em número de setenta os assaltantes: e entre eles há muitos especialistas em acções revolucionárias e de sabotagem. Em Lisboa, uma nota do Secretariado Nacional de Informação dá conta dos factos; o ministério da Marinha define o direito e a jurisprudência das potências marítimas na matéria; e estas são unânimes em classificar de pirataria um acto semelhante ao praticado no Santa Maria, podendo e devendo qualquer potência capturar o barco e punir os autores do crime. Mas então, ao conhecerem o comunicado emitido por Henrique Galvão, os governos que contam mudam subitamente de atitude. Recolhe a Santa Lúcia a fragata britânica, por repentina falta de combustível; regressam às suas bases os contratorpedeiros norte-americanos; e é abandonada a perseguição ao paquete português. Na Câmara dos Comuns é atacado o gabinete inglês, mas este procura escudar no plano jurídico a sua nova posição: segundo a Conferência de Genebra de 1958, pirataria supõe um acto ilegal de violência e depredação, cometido por tripulantes ou passageiros de um navio particular e para fins particulares: e este não parecia ser o caso uma vez que Galvão possuía o estatuto de refugiado político outorgado pela Argentina e pela Venezuela e afirmara agir somente com objectivos políticos. Em Washington, o presidente Kennedy, numa conferência de imprensa, admite que poderá ser havido por pirataria o acto praticado, e lamenta que o navio pertença a um país amigo; mas considera que se impõe agir com prudência para salvar as vidas, designadamente de americanos, dos que se encontram a bordo. Depois, o governo de Lisboa solicita também a assistência da França e da Holanda, que possuem unidades navais na área das Caraíbas; mas, entre palavras de boa-vontade e compreensão, é sobretudo passiva a atitude de Paris e da Haia. Em qualquer caso, e ao mais alto nível, está recebendo atenções do mundo o episódio do Santa Maria.

Com a passagem do tempo, e pela sua própria lógica, enovela-se a situação. Agitam-se as companhias armadoras portuguesas, em especial a Companhia Colonial de Navegação, que é proprietária do barco; e enviam mensagens de protesto aos governos das potências marítimas, condenando a sua inacção. Depois, manifestam-se os sindicatos dos trabalhadores do mar, que reclamam junto de Kennedy por este cuidar somente dos passageiros americanos e aparentemente ignorar os trezentos tripulantes. Preocupam-se as companhias de seguros, e perante os novos riscos da navegação marítima mercante, os organismos internacionais do seguro marítimo ponderam a necessidade de rever os prémios e as apólices em vigor. E muitos ministérios da Marinha do mundo, de repente, iniciam o estudo das novas normas de segurança para navios no alto mar. Em muitas partes - nas Canárias, na Venezuela, em Portugal, no Brasil, na Florida, na Califórnia - manifestam-se as famílias de passageiros enclausurados no Santa Maria; em nome de todo o episcopado português e em seu próprio, o cardeal Cerejeira telegrafa a Kennedy e lança um apelo veemente à justiça, à humanidade, aos sentimentos nobres do povo americano, e solicita que sejam autorizados a desembarcar os passageiros e os tripulantes que escolham a liberdade, sublinhando que os tripulantes são todos portugueses e "nossos filhos espirituais"; protestam também as famílias dos tripulantes; e Caeiro da Mata escreve uma carta pessoal ao antigo secretário de Estado Dean Acheson. Na Assembleia Nacional há uma atmosfera de indignação. Luís Esteves Fernandes, embaixador de Portugal em Washington, avista-se com o novo secretário de Estado Dean Rusk; mas este, se é amável e compreensivo, é também ambíguo e evasivo. No meio tempo, continua a navegar o Santa Maria. É localizado e sobrevoado por aviões das forças aéreas americana e britânica, e verificam que o paquete ostenta agora o nome de Santa Liberdade. Dos aviões, em nome do almirante americano Robert Dennison, é expedida a Galvão uma mensagem: sugere que autorize a transferência de passageiros e tripulantes, que o desejem, para outro navio, ou que para o efeito o Santa Maria escale Porto Rico. Recusa Galvão. No Brasil, os partidários deste declaram saber que o governo do presidente Quadros reconheceria um Governo português no exílio; e na Venezuela funda-se uma comissão para a liberdade de Portugal.








Decorrem os dias, e a 27 de Janeiro, que é uma sexta-feira, torna-se óbvio um ponto: o Santa Maria deve ter quase exaustos os seus abastecimentos, em combustível e víveres. Galvão terá de tomar uma decisão naquele fim-de-semana. Alguns medos internacionais aventam uma hipótese: o navio dirige-se a Cuba para aí os assaltantes serem abastecidos, e treinados na técnica do terrorismo revolucionário. Novamente observado por aviões norte-americanos, o paquete navega em círculos, lentamente, nas águas das Caraíbas. Correm agora notícias de que o Santa Maria não iria a Cuba; mas Fidel de Castro e alguns militares dos seus preparam-se para o apoiar, enviando para o navio alguns generais especializados. Nova mensagem radiodifundida por Galvão declara que dirigirá o navio para Angola; e efectivamente muda de rumo. Se mantiver este, e à velocidade de quinze nós, poderá estar à vista das costas de África no domingo à noite, ou segunda-feira de manhã. Manda o governo espanhol aparelhar o cruzador Canárias, que segue para o mar com destino desconhecido; o governo português faz sair a fragata Pêro Escobar. Em 28 de Janeiro, o paquete é assinalado a cerca de mil e setecentas milhas de Dacar; e Galvão envia uma mensagem a Kasavubu, presidente da República do Congo, solicitando asilo político e auxílio militar. De Dacar, é expedido a Humberto Delgado um telegrama prometendo um corpo de 5000 voluntários para libertar a Guiné e Cabo Verde, e que seriam transportados em pesqueiros soviéticos. Continua a navegar para leste o paquete, inflectindo para o sul, em direcção a Angola, e ao cair de 28 está a cerca de 750 milhas de Belém e a cerca de 600 do Recife. Naquele dia, desembarcam em Angola, idos da Europa e da América, centenas de jornalistas, cineastas e locutores de rádio; mas, segundo alguns declaram, "afinal não sabem bem ao que vêm". Algumas estações de rádio, de países africanos, dão notícias confusas de Angola, descrevendo acontecimentos e desordens que se não verificaram. Ainda naquele dia 28, os oposicionistas portugueses entregam um documento político na Presidência da República; e três comissionados - Mário de Azevedo Gomes, Eduardo de Figueiredo e Acácio de Gouveia - pedem uma audiência ao chefe de Estado. No dia seguinte, a 29, Negrão de Lima procura Marcelo Mathias, e define a posição do governo brasileiro. Diz o embaixador: se o Santa Maria arribar a porto brasileiro, ou ingressar em águas territoriais brasileiras, estará sujeito a apreensão para restituição aos seus legítimos proprietários; nada será feito contra o navio enquanto no alto mar; e pelo que respeita aos insurrectos, serão internados, visto que o Brasil não pode aceitar a configuração do crime de pirataria. Ainda que atenuada, trata-se de posição não amistosa para o governo de Lisboa. Ao outro dia, a imprensa mundial dá notícia de que o paquete havia feito nova mudança de rumo: aproa decididamente ao Recife: mas então fecha as máquinas e parece pairar a uma centena de milhas daquele porto brasileiro. Do Santa Maria, acerca-se um navio de guerra norte-americano; depois o navio português recomeça a navegar; e quando se encontra a quarenta milhas daquele porto brasileiro, sobe a bordo o almirante Allen Smith, da Marinha de Guerra dos Estados Unidos, e durante três horas conferencia com Henrique Galvão. Há surpresa em muitos círculos políticos do mundo; e em Portugal, nos meios afectos ao governo e numa larga faixa da opinião pública causa indignação o reconhecimento de um acto de pirataria por um alto e qualificado representante americano. Parece agora claro, no entanto, que o Santa Maria se dirige ao Brasil. De emergência, e para apreciar a situação, reúne-se o governo brasileiro; e Manuel Rocheta, embaixador português no Rio, encontra no Itamaraty e nos meios ligados a Quadros fortes reticências quanto ao destino do paquete. No Recife, um juiz brasileiro marca uma posição independente, e de harmonia com o que considera a sua lei ordena o apresamento do barco, se este tocar em porto do Brasil. Em Lisboa, na mesma altura, Pedro Theotónio faz declarações à imprensa: pede a restituição do navio ao seu comando legítimo, solicita que a este seja permitido cumprir as ordens dos armadores e que o barco possa completar a sua viagem; e afirma que Portugal repudia o carácter político do episódio, e considera apenas em causa a liberdade das pessoas e a segurança dos mares. Por seu lado, com aparato, chega Humberto Delgado ao Recife, afirmando que vem conferenciar com Galvão, que actuara por instruções suas; mas Galvão recusa a chefia do antigo general e rejeita um entendimento com aquele. De Lisboa, como representante da companhia armadora, parte João do Amaral, e no Recife instala-se num modesto hotel perto do ancoradouro. Na mesma altura, e em grande confidência, segue o engenheiro Jorge Jardim, acompanhado de elementos da Brigada Naval da Legião Portuguesa, trajando civilmente: consigo transportam alguns caixotes com armamento ligeiro, consignados à embaixada por conterem documentos: E Jardim e os seus homens alojam-se no mesmo hotel com João do Amaral. Em 30, Galvão dá por concluída a aventura, e resolve entregar-se, e ao navio, às autoridades brasileiras; na noite daquele dia organiza um jantar de despedida, servido com as melhores iguarias de bordo, e que finda com uma festa de despedida, enquanto a orquestra do navio executa peças de música que fecham com o Fado de Vila Franca; e a ementa-programa diz que o Santa Maria está "em viagem para a Liberdade". Depois, seguido à distância por um rebocador que transporta um poder de jornalistas de muitas nacionalidades, o Santa Maria aproxima-se lentamente do Recife; apenas em 1 de Fevereiro de 1961 está nas águas territoriais brasileiras, a três milhas daquela cidade. No dia seguinte, o paquete entra no Recife. Actuam as autoridades: fuzileiros navais ocupam desde logo o navio. Delgado entra a bordo, avista-se com Galvão. De lado nenhum, aparece Álvaro Lins, o homem que em Lisboa dera asilo diplomático a Delgado, e iniciara todo o processo; Lins entra também a bordo, a conferenciar com os seus "amigos", e para recordação apodera-se, na sala do navio, da miniatura de uma caravela. Galvão é notificado, pelo poder judicial brasileiro, de que o Santa Maria tem de ser entregue aos seus proprietários. Desembarcam então os passageiros. Saem depois Delgado e Lins. E surge Galvão, envergando um uniforme de sua lavra e fantasia, com dragonas e cordões dourados, e ostentando cinco estrelas. E saem os tripulantes, que fazem declarações: Galvão e os seus companheiros haviam procurado aliciá-los, mas nenhum aderira; entre os membros do grupo assaltante travavam-se discussões violentas, mesmo desordem; a conversa de há pouco entre Galvão e Delgado fora tensa, e os dois homens estavam claramente desavindos; e a bordo eram já muitas as faltas, desde a água à alimentação. É o último a abandonar o paquete o seu comandante Mário Simões Maia. Em Lisboa, dentro de uma rotina que nada parecia afectar, é designado um novo subsecretário do Fomento Ultramarino, Amaro da Costa. No Recife, durante o dia 3 de Fevereiro cumprem-se formalidades legais, e ao dia seguinte o Santa Maria é confiado ao Adido Naval português, que por seu turno o entrega a João do Amaral como representante dos armadores. E Jorge Jardim e os seus homens ocupam o navio, e guarnecem os seus centros vitais.


Humberto Delgado e Henrique Galvão no Santa Maria.


Em terra brasileira, Galvão é assediado por jornalistas. Afirma-se chefe do DRIL, e nessa qualidade agiu. Sente-se figura mundial, faz declarações: "Não se trata apenas de nos desenvencilharmos de Salazar, mas igualmente de efectuar uma revolução autêntica na sociedade portuguesa, e abrir as portas ao progresso e à independência dos territórios ultramarinos. Estas as palavras que lhes quero dizer na altura em que finda a primeira acção militar das forças sob o meu comando". Mas ao jornal francês Aurore amplia Galvão as suas afirmações. Deseja uma revolução não só em Portugal como na Espanha; já dispõe de meios, mas estes são necessariamente secretos; é indispensável recorrer ao terrorismo para impressionar a opinião pública, mas há que poupar inocentes; as bombas que em 1 de Janeiro de 1960 rebentaram em Madrid foram colocadas por sua ordem; e o mesmo dirá das que deflagraram em Barcelona, Bilbau, Toledo, São Sebastião. O piloto Nascimento e Costa? Sim, teve de ser morto; mas "defendeu-se como era seu dever". E o futuro? Não sabe, talvez na África, talvez na Ásia, talvez na América. Aceita o apoio dos comunistas? Não é anticomunista. E gosta de música? Sim, "da grande música, da verdadeira". Depois Galvão entrega-se ao almirante brasileiro Fernando Dias; mas solicita asilo político para si e seus acompanhantes; e é deferido o pedido. E o presidente Quadros faz publicar uma nota sibilina sobre o fecho do episódio: não se refere a Portugal, nem ao governo português, nem à nacionalidade portuguesa do paquete: congratula-se por haver sido poupada uma "unidade da marinha mercante internacional".

No dia 4 de Fevereiro de 1961 é remetida à imprensa de Portugal uma extensa nota oficiosa da Presidência do Conselho. Descritos os factos, e as providências tomadas para interceptar o Santa Maria se se internasse no Atlântico com rumo leste, e mencionados os pedidos feitos à Inglaterra e aos Estados Unidos, a nota acentua os pontos de ordem geral. Diz: "Durante todo este episódio entendeu o Governo que, sem esquecer a salvaguarda de vidas e bens, não era lícito menosprezar o problema geral, que interessa a todos os países marítimos, da segurança da navegação mercante no alto mar contra actos de pirataria. E para isso se chamou repetidamente a atenção das potências. Não foi o Governo português movido, no entanto, pelas considerações de origem política que alguns invocaram e quiseram ver por detrás dos acontecimentos; e esses aspectos julgou-os o Governo sempre como secundários, excepto na medida em que se verificou o apoio e o conluio com as forças empenhadas em destruir o Ocidente. De harmonia com aqueles sentimentos, o Governo português não se empenha na entrega dos responsáveis pelos crimes de roubo, assassínio, ofensas corporais, falsificação de passaportes, transporte clandestino de armamento, privação de liberdade de centenas de pessoas, e confia inteiramente ao critério da comunidade internacional, e em particular dos países que possam estar em condições de efectivar responsabilidades, a apreciação dos actos praticados de harmonia com as respectivas legislações". Depois, a nota agradece, quase com ênfase, o auxílio dos Estados Unidos, e de outras nações amigas, a "a atitude extremamente amigável e de perfeita correcção do Governo e das Autoridades brasileiras". E conclui a nota: "O Governo presta de novo homenagem àqueles que a bordo do Santa Maria se sacrificaram no cumprimento do dever e congratula-se com os armadores pelo exemplo magnífico de fidelidade da tripulação ao seu navio e à Companhia armadora. E, lamentando o atentado cometido contra o prestígio e o interesse nacional, regozija-se com a demonstração de solidariedade firme e calorosa que recebeu não só das províncias ultramarinas como de todas as comunidades de portugueses pelo mundo".

Concluída a aventura do Santa Maria, feitas no paquete as reparações indispensáveis, ruma o navio para Lisboa, com o comandante Simões Maia e a sua tripulação, e os homens de Jorge Jardim.

O funeral de João Nascimento Costa, um dos pilotos do Santa Maria.

É amargo o sulco aberto pela aventura do Santa Maria. Na massa do povo, é geral a reprovação: a ansiedade quanto à vida dos tripulantes e passageiros, o assassinato do oficial piloto, a ofensa aos direitos individuais, levam ao repúdio do gesto de Henrique Galvão. É diversa a atitude dos círculos políticos. Para os que apoiam o regime, o episódio é desnorteador: consideram que o governo sofreu um desaire, que o prestígio pessoal do seu chefe está maculado; e, desconhecendo as malhas que envolvem Galvão mas presumindo-o comparsa de um plano de grande amplitude, receiam o futuro. Na roda da oposição, pelo contrário, há júbilo: formalmente, é decerto condenado o acto, pela sua violência e por atentatório da liberdade, da propriedade e da segurança no mar: mas no foro interno é bem-vindo o episódio pelo abalo causado. Não ignora a oposição as implicações da atitude das grandes potências. Na sua reacção inicial, o governo de Washington considerou como de pirataria o acto de Galvão; mas Kennedy e o seu grupo de jovens conselheiros, que com ele entrou na Casa Branca e no Departamento de Estado, logo se avisaram do aproveitamento político que, contra o governo de Lisboa, poderia ser feito do incidente; este foi então considerado como parte da luta entre o regime no poder em Portugal e a oposição democrática; e os navios de guerra norte-americanos, destinados a apresar o Santa Maria, foram recolhidos às suas bases enquanto um almirante dos Estados Unidos conferenciava com Henrique Galvão, emprestando-lhe categoria política. Desta posição norte-americana tirou o governo de Londres as suas conclusões, e pela de Washington pautou a conduta própria. De igual modo, procedeu o novo governo brasileiro do presidente Quadros: este, na sua demagogia e nos seus pronunciamentos délficos, não esconde a sua hostilidade ao Governo português e sobretudo à política africana de Portugal. Destes factos tem evidentemente consciência a oposição portuguesa; e a atitude das potências, conjugada com os debates na ONU e os factores de âmbito mundial, aparece-lhe como luz verde para maior ousadia no plano interno.

Mas as repercussões do caso Santa Maria vão muito além das fronteiras portuguesas. Torna-se tema de debate entre governo e oposição em outros países. Na Câmara dos Comuns, e na imprensa inglesa, há choques entre o gabinete conservador e a oposição trabalhista, pretendendo esta que houvesse sido dado efectivo apoio a Galvão. Idêntica divisão se nota nos círculos políticos norte-americanos. Do New York Times emana mesmo uma palavra de cautela: ou há compreensão para com Lisboa, "ou veremos Portugal abandonar a NATO - levando consigo os Açores". Jules Romains, no Aurore, sublinha os perigos do episódio e as suas implicações para o futuro; e salienta a deselegância dos Ocidentais, que não parecem ter consciência de quanto é indispensável a solidariedade na defesa do que é vital. No Brasil, Lisboa tem a hostilidade de grandes jornais como o Estado de São Paulo, ou a neutralidade de outros como O Globo, ou o apoio da cadeia dos Diários Associados: e a condenação ou apoio, a propósito do Santa Maria, coincidem com as linhas de apoio ou oposição a Jânio Quadros. É unânime a imprensa espanhola em verberar o acto de Galvão. E a Izvestia, de Moscovo, critica o Ocidente por ser solidário com o governo de Lisboa, e protesta contra o qualificativo de pirata aplicado a Henrique Galvão».

Franco Nogueira («Salazar» V, A Resistência - 1958-1964).


«Quando o Santa Maria atraca em Lisboa, a 14 de Fevereiro, é recebido de forma apoteótica por cerca de 100 mil pessoas no cais de Alcântara. Salazar sobe a bordo e a sua amiga Cecília Supico Pinto, presidente do Movimento Nacional Feminino, convence-o a dirigir-se à multidão. "Temos o Santa Maria connosco! Obrigado, Portugueses", improvisa o Presidente do Conselho, no discurso mais curto da sua carreira. No dia seguinte, realiza-se o funeral de Nascimento Costa, com missa na Basílica da Estrela, onde o Presidente da República, Américo Tomás, o condecora a título póstumo, colocando sobre o caixão o colar da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito.








Em conversa com o embaixador americano em Lisboa, o ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, faz o seu balanço do assalto: "A melhor coisa que podia ter acontecido a Salazar foi a morte do terceiro-piloto do navio, que permitiu ao primeiro-ministro transformar um incidente muito embaraçoso, que pôs Portugal a ridículo, numa grande manifestação de solidariedade. Foi mais um exemplo da proverbial sorte de Salazar". O ministro conspirava já com o diplomata dos Estados Unidos em Lisboa para afastar o ditador, o que resultará numa tentativa de golpe de Estado em Abril de 1961, que Salazar consegue fazer fracassar, depois de avisado pelo Presidente da República, Américo Tomás. O Chefe do Governo demite Botelho Moniz e assume ele próprio a pasta da Defesa, numa das alturas mais críticas para o regime, com o país envolvido numa guerra em África.

Dois meses antes, uma rebelião em Luanda marcara o início da luta pela autodeterminação de Angola. Três grupos armados atacaram um quartel da PSP e as prisões militares e civis, as forças portuguesas reagiram e do confronto resultou a morte de vários agentes. Nos funerais do dia seguinte foram baleadas pessoas que assistiam às cerimónias. Ao todo, nos dois dias, houve 24 mortes - as primeiras de 14 anos de Guerra Colonial [do Ultramar].

(...) Em Abril, chega a Lisboa num navio argentino o fotógrafo brasileiro Sérgio Batista, com 16 detonadores e seis quilos de explosivos disfarçados em embalagens de goiabada na bagagem. Mas é apanhado no cais, provavelmente denunciado por um dos informadores que a PIDE já conseguira infiltrar no círculo próximo de Humberto Delgado. Interrogado por Rosa Casaco, confessa ter sido enviado pelo general e por Galvão para concretizar atentados em vias férreas, em pontes e nas embaixadas do Brasil e dos Estados Unidos da América, em Lisboa. Porém, a sua missão incluiria um objectivo ainda mais específico: fazer explodir Salazar. O bombista é condenado a cinco anos de prisão, mas depois de cumprir metade da pena é autorizado a viajar para o Brasil. Um mês depois de Batista ser apanhado, a PIDE recebe novas informações de que o grupo do DRIL planeia um atentado para matar o Presidente do Conselho, e aponta-se como possível executante o nome de Rafael Romara Rojo, o ajudante do comandante Sotomayor durante o assalto ao Santa Maria.

Sotomayor inicia entretanto negociações com representantes de uma potência comunista (provavelmente a União Soviética) para comprar dois contra-torpedeiros, com os quais tenciona afundar o Vera Cruz, quando este paquete transportar 1500 militares e equipamento para a guerra em Angola. O comandante espanhol do DRIL fica dispensado de pagar os 362 mil dólares que os navios custam, desde que se comprometa por escrito com a garantia de que Portugal sai da NATO assim que a oposição liderada por Henrique Galvão assumir o poder. Só que Sotomayor não consegue convencer o capitão, que se mantém intransigentemente anticomunista e recusa o negócio, invocando só poder romper com a Aliança Atlântica depois de consultar os eleitores portugueses e caso estes concordem. Esta resistência desagrada aos comandantes espanhóis do DRIL e a ruptura, que já estivera por várias vezes iminente durante o assalto, torna-se inevitável.

Galvão deixa assim de se relacionar com a maioria dos participantes da Operação Dulcineia. O dinheiro do DRIL para sustentar o campo de treino de guerrilheiros esgota-se rapidamente e ao fim de três meses todos abandonam a quinta de Campinas - com um escândalo: 15 membros do Directório Revolucionário Ibérico acusam publicamente Humberto Delgado e Henrique Galvão de desvio de fundos e de abandonarem a organização. É até o consulado de Portugal em São Paulo que arranja forma de estimular a publicação de entrevistas com estes revoltosos nos jornais, para desacreditar a imagem dos dois adversários do regime. Pouco depois o capitão Fernando Queiroga, um oposicionista que se havia desentendido no Brasil com Galvão e Delgado, dá uma conferência de imprensa, onde se anuncia como novo director do DRIL e decreta a expulsão de Humberto Delgado, Henrique Galvão, Pepe e Jorge Sotomayor.




Algumas das munições encontradas a bordo do Santa Maria.



Em Portugal, as investigações sobre o desvio do transatlântico avançam e o primeiro relatório da Polícia Judiciária é assinado pelo próprio director menos de dois meses depois dos factos. Com base nos interrogatórios aos tripulantes que estavam de serviço na ponte de comando à hora do ataque (o ajudante Lopes de Sousa e os marinheiros Belmiro e Leiria), a investigação conclui que os três tiros que atingiram o piloto Nascimento Costa "foram disparados, segundo se apurou com toda a probabilidade, pelo menor espanhol Victor José Velo Perez, filho do assaltante José Velo Mosquera". Não que os testemunhos dos tripulantes sejam sobre este assunto claros ou coincidentes (e quase todos referem a escuridão no local), mas vários tripulantes e passageiros mencionam os lamentos manifestados por Pepe Velo quando lhe falavam do tripulante morto: "Ai, os nervos do meu filho!..." Soma-se a convicção das autoridades espanholas, que apontam para o mesmo suspeito, e das venezuelanas, que nem sequer permitem o regresso de Victor Velo ao país.

O homem indiciado pela Polícia Judiciária, e único assaltante ainda vivo dos oito que subiram à ponte, garante que não fez qualquer disparo. Cinquenta anos depois, desvenda que um dos quatro rebeldes que atacaram a ponte por estibordo, Francisco Rico, disparou um primeiro tiro de intimidação para o tecto e que, do outro lado da ponte (onde além de si próprio estavam Sotomayor, Losada e Mazo), pensando que o disparo vinha de Nascimento Costa, Jorge Sotomayor abriu fogo com a sua pistola automática, de onde foram disparados 9 tiros, três do quais atingiram o piloto. A versão do comandante espanhol, escrita em livro 11 anos após o assalto, não é clara, nem denota qualquer assunção de responsabilidades pela tragédia, mas confirma que premiu o gatilho: "ouve-se um disparo, a bala passa a silvar por cima da minha cabeça (...); disparo sobre a sombra que, diante de mim, se confunde com a escuridão do lugar; estoiram outros disparos, as balas ricocheteiam tabiques, o eco aumenta". O nome de Sotomayor nem sequer era indicado nas conclusões da PJ como suspeito da autoria dos disparos.

A investigação da Polícia Judiciária indica ainda que terá sido "John" Paiva a alvejar o ajudante Lopes de Sousa e o médico Cícero Campos Leite, e que este também terá sido vítima de disparos "talvez" da autoria de Frias de Oliveira. No total foram encontrados na ponte de comando vestígios de 13 balas. Victor Velo tem a certeza de que foi Sotomayor a atingir Lopes de Sousa e de que Frias de Oliveira alvejou o médico Cícero Campos Leite. O assunto foi analisado entre os revoltosos nos instantes que se seguiram ao assalto e Sotomayor chegou a ser recriminado pelos companheiros em surdina, por não ter evitado os disparos: "Como militar devia ter tido mais sangue frio, em vez de ter tremido".

O processo contra os assaltantes dá entrada no Tribunal a 25 de Março de 1961. A sentença acaba por ignorar as conclusões do relatório da Judiciária acerca dos autores dos disparos, não se pronunciando sequer sobre esse aspecto. A maioria dos rebeldes é condenada, à revelia, por homicídio consumado, homicídio frustrado, ofensas corporais, cárcere privado e ameaças. O português mais novo, José Cunha Ramos, é absolvido porque o tribunal fica (erradamente) convencido de que apenas subiu a bordo no Recife, com Victor Cunha Rego e Miguel Urbano Rodrigues. Dos cinco tripulantes que se aliaram aos rebeldes, quatro são absolvidos e Joaquim Gonçalves, o electricista, é condenado a 18 anos de prisão.


O General Coca-Cola e o pirata Henrique Galvão


Os espanhóis Romara Rojo, Francisco Rico Leal e Luis Fernández Ackermann (o filho de Sotomayor) receberam penas de 18 anos de cadeia; Victor Velo e Júlio Rodrigues são condenados a 15 (por ainda não terem completado 21 anos de idade); todos os outros, excepto os líderes, apanham 17 anos. Humberto Delgado, Velo Mosquera e Jorge Sotomayor têm penas de 19 anos de prisão e para Henrique Galvão vai a mais pesada: 22 anos. Quando a notícia lhe chega ao Brasil, reage com ironia: "Seria o cúmulo se depois de tanto trabalho que dei a Salazar viesse a ser absolvido".

Ao enviar ao ministro dos Estrangeiros cópia da decisão do juiz, Salazar lamenta um detalhe: "A sentença é corajosa, mas tem a meu ver um defeito - é afirmar concretamente que o acto não foi de pirataria, o que vem dar razão à Inglaterra e aos Estados Unidos que assim entenderam também".

(...) Entretanto, o relato de Galvão sobre o assalto é publicado em inglês no livro My Crusade for Portugal, escolhido pela revista The New York Times Book Review como uma das melhores 25 obras de 1961. Terá recebido 30 mil dólares do contrato com a editora.

(...) Ausências flagrantes na dedicatória são a sua mulher, que continua em Lisboa, Pepe Velo, com quem já se incompatibilizara, e Humberto Delgado.

O fim da amizade com o general precipitara-se em Maio, numa reunião de elementos da oposição em São Paulo. O capitão defendeu que devia ser ele a assumir a vertente militar das operações de combate a Salazar, ficando Delgado incumbido de liderar a parte política: "Tu és o presidente eleito, representante legal do povo. Não podes ser ao mesmo tempo o comandante supremo e o chefe das tropas. Eu sou o chefe das tropas". Furioso, Humberto Delgado deu um murro na mesa e gritou: "Como?! Que ousadia é essa de um capitão para com um general, chefe da oposição? O senhor lembre-se que não passou de capitão e, como tal, eu nunca poderei ser seu subordinado".

O feitio "militar" de Humberto Delgado e o seu descontrolo verbal desagradavam já desde antes do assalto a muitos dos portugueses que rodeavam Galvão. Mas apesar deste choque de egos, dias depois o capitão procura-o para uma conversa a sós: quer revelar-lhe os seus planos para o próximo ataque a Salazar.

O golpe tem tudo para voltar a concentrar a atenção da opinião pública mundial contra o ditador português. É uma espécie de reedição da Operação Dulcineia, mas mais curta - embora não menos arriscada. A ideia é tomar o comando, em pleno voo, de um avião da TAP para sobrevoar Lisboa e lançar sobre a capital portuguesa milhares de panfletos antifascistas.

Galvão e a sua amante, a argentina Rosa Soskin, em Dakar, depois do sequestro do avião da TAP. Ele tratava-a por «Rochy», ela chamava-lhe «capitán».


Humberto Delgado acha a ideia péssima e "teatral". Prefere concentrar todas as forças numa sublevação militar no terreno, a partir de um quartel, em vez de investir num novo golpe com impacto apenas ao nível da opinião pública.

Os dois homens deixam de se falar, mas o capitão continua a preparar o seu plano e há rumores que angaria fundos através de uma original venda de "títulos revolucionários" aos portugueses abastados no Brasil, com preços a partir de 30 mil cruzeiros. Ao fim de 42 dias sem contactos, é ele que escreve uma carta ao general, onde fala do assalto ao Santa Maria como um novo marco na oposição ao regime, a partir do qual se abrem mais possibilidades de luta. Delgado, que discordara da forma como a Operação Dulcineia fora conduzida (sobretudo da decisão de desembarcar um ferido, que inviabilizara a chegada à ilha de Fernando Pó), mantém a recusa de entregar ao capitão o comando das operações revolucionárias e extingue o cargo de secretário-geral do Movimento Nacional Independente, até aí ocupado por Galvão.

No próprio dia, novamente por escrito, o capitão desvaloriza a importância do Movimento de Delgado e diz que ele é que já não quer exercer mais qualquer cargo na organização, "salvo no caso de renúncia do seu chefe" - ou seja, Galvão admite ficar se Delgado sair, o que o general considera uma afronta ao seu estatuto de líder da oposição a Salazar. Nesta última mensagem, Galvão despede-se de forma provocatória. Às expressões "Pró-pátria, pró-liberdade", habitualmente usadas por Humberto Delgado, o capitão acrescenta: "E também pró um pouco de objectividade e bom senso".

(...) Numa conferência em São Paulo, em Junho de 1962, o capitão defende que há três formas de derrubar o governo português: uma sublevação popular; uma invasão de forças formadas no estrangeiro; ou a morte de Salazar, através da violência. Nesta fase a relação com os outros adversários do regime que estão no Brasil torna-se cada vez menos próxima. Mas ainda são feitas várias tentativas para uma reconciliação com Humberto Delgado, que também regressa ao Brasil depois do assalto ao quartel de Beja, em 1962. Realiza-se uma reunião no templo maçónico do Rio de Janeiro, onde se sugere a constituição de uma comissão de conciliação para voltar a juntar o capitão (que não é maçon) e o general (que é grão-mestre do Grande Oriente Português no exílio).

Mas a reaproximação é impossível. Humberto Delgado chega a promover um abaixo assinado entre os oposicionistas portugueses para pedir a expulsão do seu ex-amigo do Brasil. Nas cartas para os mais próximos, o general passa a referir-se ao capitão como "fiteiro", "traidor" e "gangster". E publica uma carta nos jornais onde, a pretexto de denunciar a falta de seriedade de Galvão, o acusa de ter roubado umas portas do Convento de Mafra para fazer um móvel em madeira de pau-santo, quando era um jovem militar. É um boato que persegue o capitão desde o início do Estado Novo. Galvão não perdoa e interpõe um processo contra o general, mas o caso não chega a julgamento e acaba por ser arquivado pela justiça brasileira. Não espanta por isso a forma como o capitão se refere ao seu rival da oposição, numa carta a Maria de Lurdes, em Dezembro de 1963.

"O Delgado saiu para sempre do Brasil. Ainda bem. Foi ter com os comunistas e portou-se por cá como um macaco num armário de louça. Esse está liquidado de vez e receio bem que venha a acabar muito mal. Deixa atrás de si o espectáculo de um estado patológico de indignidade política e moral que só se explica com casos de loucura

R. I. P:"












Álvaro Cunhal e Humberto Delgado




Catorze meses depois, quando os corpos de Humberto Delgado e da amante Arajyr Campos são encontrados em Badajoz, Henrique Galvão limita-se a fazer uma dedução dos factos para publicar n'O Estado de São Paulo uma violenta acusação: "Foram os homens do Partido Comunista Português, companheiros ou ex-companheiros do general Humberto Delgado, quem planeou e fez executar o assassínio. (...) Para bons comunistas, o facto de o fazerem desaparecer seria, como para qualquer totalitário, a menor das coisas".

Exacerbando o seu anti-comunismo, pondera a hipótese de ter sido a PIDE - como realmente sucedeu, através de uma brigada chefiada por Rosa Casaco - mas descarta-a, por lhe parecer "imensamente estúpido". À mulher, fala de uma dimensão mais pessoal: "Estávamos mal, irremediavelmente mal, mas isso nada tem a ver com o crime que foi odioso. Os seus erros de louco pagou-os muito caros".

(...) "Quando a ditadura é um facto, a revolução é um direito". A frase, dita por Henrique Galvão em 1948, está gravada no jazigo cedido pela Câmara de Lisboa, à entrada do Cemitério dos Prazeres, onde o corpo do capitão foi sepultado em Novembro de 1991. A urna foi transportada pelos operacionais envolvidos nos seus golpes mais ousados: Camilo Mortágua, Palma Inácio, Amândio Silva e Manuel Serra. Um mausoléu com a asa de um avião representa simbolicamente a Operação Vagô - o sequestro do Super-Constellation Mouzinho de Albuquerque à saída de Casablanca. A 200 metros, na mesma rua do cemitério, encontra-se o túmulo de Nascimento Costa, o terceiro piloto do Santa Maria, baleado mortalmente durante o assalto ao paquete e elogiado por Henrique Galvão por ter tido a coragem de fazer frente aos revoltosos.

Na madrugada de 25 de Junho de 1970, a notícia do falecimento chegou à redacção d'O Estado de São Paulo através do jornalista "Toninho Boa Morte", alcunha de António Carvalho Mendes, responsável pela secção de necrologia. O obituário publicado no jornal onde o capitão trabalhava foi escrito por João Alves da Costa, o jornalista português que mais acompanhara Galvão nos últimos anos n'O Estado de São Paulo.

Já tinha sido ele a falar com o dono do jornal, Júlio Mesquita Filho, em Outubro de 1966, quando se apercebeu que algo não estava bem com o oposicionista português: insistia numa conversa sem nexo sobre um desembarque em Portugal para iniciar a revolução contra Salazar. Nessa altura, acompanhou-o num táxi até ao médico. Depois de observado, foi-lhe diagnosticada atero-esclerose cerebral e o capitão ficou internado, a expensas d'O Estado de São Paulo, na Clínica da Bela Vista.

Durante o internamento, em algumas conversas com Alves das Neves dizia que estava preso numa ilha de Cabo Verde ou da Guiné. Outras vezes sentia-se perseguido por comunistas, o que o levava até a desconfiar dos médicos e enfermeiros. E escreveu uma série de cartas a personalidades já falecidas, como o Papa Pio XII, o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o ex-ditador russo Josef Stalin. Salazar também teve direito a uma última carta, repleta de insultos, que nunca chegou a ser enviada. As mensagens foram retidas por João Alves das Neves, que guardou também as memórias que o capitão começou a escrever, não indo além de duas dezenas de páginas sobre a infância.



Winston Churchill


Quando os donos do jornal perceberam que a doença do capitão não teria cura, mandaram o correspondente em Lisboa perguntar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, liderado por Franco Nogueira, se Portugal admitia, como gesto humanitário, que Henrique Galvão regressasse sem ser preso, para morrer no seu país. O regime ofereceu-se para pagar as despesas da clínica - o que o jornal recusou - mas não autorizou o regresso do capitão.

Numa viagem a São Paulo, em 1970, Mário Soares visitou-o na clínica. Deitado na cama, sem reconhecer o ilustre advogado da oposição, o capitão pediu-lhe um cigarro, acendeu-o e perguntou por que é que estava preso. Soares respondeu-lhe que estava a fazer um tratamento e que talvez conseguisse regressar a Portugal, aproveitando o facto de Salazar já estar (politicamente) morto. Galvão deu um salto na cama e gritou: "O Salazar não morreu porque quem o vai matar sou eu"».

Pedro Jorge Castro («O Inimigo N.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP»).


«25 de Setembro de 1975

Desde que saí, pela última vez, de Lisboa - primeiro em Paris e agora no Rio - tenho acompanhado, dia-a-dia, os acontecimentos em Portugal. E o mesmo fazem todos (ou quase todos) os portugueses. Especialmente aqueles que mais recentemente abandonaram o País.

De há muito que vejo Portugal ocupar as primeiras páginas da grande imprensa mundial. As ocorrências que se vão sucedendo em ritmo impressionantemente preocupante, são relatadas em todos os seus pormenores e largamente comentadas. Principalmente, aqui no Brasil.

Além dos jornais, também a Rádio e a Televisão falam constantemente de Portugal. Sobretudo, o que importa salientar é o facto da totalidade (ou quase) dos orgãos de comunicação serem unânimes nas suas opiniões e conclusões. Todos eles, de uma maneira geral, apontam para a inevitabilidade do caos económico, político e social para que se caminha, a passos largos, no meu País. E em todos eles transparece a preocupação da possibilidade de uma guerra civil.













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Sobretudo, desde que se operou um autêntico levantamento do povo, com origem nas regiões do Norte, indesmentivelmente marcado pela rejeição à linha política, teimosa e persistentemente imposta pelos governantes e pelo Movimento das Forças Armadas, a ideia de uma luta fratricida vem ganhando maior expressão. Há muito quem defenda o ponto de vista de que já não é possível uma rectificação pacífica das posições assumidas.

Um recuo acentuado que pudesse conduzir Portugal a uma via verdadeiramente democrática, capaz de dar ao País uma expressão europeia e ocidental não parece, realmente, possível com os homens que actualmente ainda detêm o Poder. Mesmo que alguns deles se esforcem por convencer o Povo que estão dispostos a fazê-lo. Mas o Povo aprendeu muito nos escassos quinze meses que vão decorridos depois da "revolução" e já não acredita nas boas intenções de alguns que só lhes vieram falar em moderação quando verificaram que... o chão lhes fugia debaixo dos pés.

Fazendo, calma e serenamente, uma análise retrospectiva dos acontecimentos recordando as atitudes e as posições assumidas por alguns desses moderados, facilmente se chegará à conclusão de que aquilo que, fundamentalmente, se pretende é neutralizar ou pelo menos, atrasar, a onda de revolta de um Povo, traído nas suas esperanças de um Portugal mais justo e mais próspero.

Os homens, por mais simples ou menos cultos que sejam, também são capazes de pensar. Sobretudo, se diante dos seus olhos forem projectadas certas imagens que nenhum político, por mais hábil que seja, consegue distorcer. As imagens, reflectindo as verdadeiras intenções daqueles que assaltaram o Poder, acabaram por aparecer, nítidas e indisfarçáveis, aos olhos de toda a gente. A princípio, ainda foi possível dar-lhes um tom sugestivo e atraente que acabou por ceder o lugar a outros mais carregados, em transição para o negro que caracterizará um futuro não muito distante.

Naturalmente, o Povo começa a estabelecer paralelos, a fazer comparações e, ainda que continuando a reconhecer a necessidade de uma mudança ou (pelo menos) de algumas alterações de fundo, conclui que afinal, "aquela" revolução não foi feita por ele e para ele. E não foi, realmente. Toda a gente honesta e bem intencionada o percebeu já.

Agora, e enquanto o País se vai degradando cada vez mais, assiste-se à luta desesperada de alguns pela manutenção de um Poder ilusório que ainda detêm. E isto, para que não tenham de prestar contas pelo que fizeram ao País e ao seu Povo. De alguns outros, obcecados e, portanto, fiéis à doutrina que abraçaram. De outros ainda que receosos de sofrerem as consequências de uma deserção que poderá sair-lhes cara, tentam desesperadamente agarrar-se aos restos de um navio naufragado. Há finalmente os que, na perspectiva de serem arrastados para o abismo por eles próprios aberto, estendem a mão trémula aos que transformaram de amigos em inimigos, confessando hipocritamente os seus pecados e prometendo corrigir seus erros e defeitos a troco de uma ajudazinha. Mas poucos acreditam já na sua sinceridade, receando que, uma vez agarrados à mão salvadora, eles puxem o seu salvador para o mesmo abismo que os espera. Foi, aliás, o que muitos fizeram quando se imaginaram "senhores do mundo", renegando e atraiçoando aqueles que em horas difíceis os haviam ajudado, mesmo sabendo quem eram, como pensavam e a meta que queriam atingir.






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Essa corajosa jornalista chamada Maria Armanda Falcão mas que a generalidade do público apenas conhece como "Vera Lagoa", já desmascarou alguns dos "revolucionários" surgidos logo que a Revolução triunfou. Segundo li numa das suas acutilantes crónicas, outros serão desmascarados em livro que ela está a preparar mas que duvido seja possível publicar em Portugal. Pelo menos por enquanto. Por isso, não quero deter-me especialmente sobre esse numeroso "batalhão de oportunistas" deixando a sua autópsia entregue aos cuidados de Vera Lagoa. Mas nem por isso - e a propósito de casos ocorridos comigo no período amargo que tive de suportar depois do 25 de Abril de 1974 - deixarei de referir acontecimentos e alguns nomes que justificam citação especial. Preferia não ter de recordá-los, tais as náuseas que me provocam, mas parece-me importante fazê-lo para que alguns incautos e bem intencionados não possam vir a ter, ainda, surpresas desagradáveis.

Vale mais prevenir do que remediar».

Artur Agostinho («Até na prisão fui roubado»).





PORTUGUÊS SEM PORTUGAL


(...) A PROPÓSITO DO SANTA MARIA 

Um dos acontecimentos que mais influência teve na campanha difamatória contra mim, foi o célebre «caso Santa Maria».

Afinal de contas, a minha participação na «história» que tanto deu que falar no mundo inteiro, limitou-se ao cumprimento de mais uma das minhas tarefas como repórter da Emissora Nacional. Tarefa para que fui escalado e que me dispus a cumprir do ponto de vista profissional. Do mesmo modo que o faria se se tratasse de um simples jogo de futebol, de uma jornada de Jogos Olímpicos, de um cortejo folclórico, de uma viagem presidencial ou da visita da Rainha Isabel.

O assalto ao Santa Maria já ocorrera há alguns dias quando recebi ordem para seguir para o Recife. Deram-me uma máquina de gravar, um cartão de crédito para utilizar os serviços de «telex», dinheiro para chamadas telefónicas e as ajudas de custo da lei. Deram-me também um bilhete de avião e lá fui. Viajaram comigo alguns colegas da Imprensa e da TV, com incumbência semelhante: fazer a «cobertura» do acontecimento. Tudo indicava que Henrique Galvão e os seus homens se dirigiam para o Recife e, por isso, foi esse o nosso destino.

Não vou referir, com todos os pormenores, o que foi a odisseia dos jornalistas portugueses, escalados para essa reportagem. O trabalho não podia ser programado. Ninguém sabia o que iria acontecer. Como os acontecimentos iriam evoluir. As dificuldades de trabalho eram enormes e de Lisboa pediam-nos notícias a toda a hora. Isoladamente, não podíamos corresponder às constantes solicitações que nos eram feitas. Resolvemos, por isso trabalhar em equipa - sem espírito de concorrência -, permutando notícias e informações.

Para além de todas as dificuldades inerentes ao próprio serviço, havia muitas outras criadas por alguns «magios» especialmente interessados em boicotar o nosso trabalho. Contarei um simples episódio, bastante esclarecedor do «clima amistoso» em que tivemos de actuar.


Ver aqui. Ver igualmente como o cinema pode ser, em Portugal, exclusivamente feito para idiotas.


Estava, nessa altura, no Brasil, um jornalista chamado Miguel Urbano Rodrigues, agora em Portugal. Era primo de um dos meus companheiros de reportagem - Urbano Carrasco - que tinha viajado até ao Recife em serviço do seu jornal. Logo no dia seguinte ao da nossa chegada, Urbano Carrasco - «enviado especial» do Diário Popular - disse-nos que iria procurar o seu primo. A sua intenção era dizer-lhe apenas que sabia perfeitamente que o ponto de vista expresso pelos jornais portugueses, relativamente ao «caso Santa Maria», era, naturalmente, bem diverso do ponto de vista de Miguel Rodrigues. Que, de qualquer maneira, esperaria que esse facto não afectasse a boa camaradagem que desejávamos manter em relação aos colegas de profissão que estivessem em serviço no Recife. Como era o caso do próprio Miguel Rodrigues.

Urbano Carrasco regressou satisfeito do seu encontro com o «bom primo». Disse-nos que ele compreendera perfeitamente a situação e que prometera respeitar os princípios tradicionais da ética profissional.

No dia seguinte, porém, o jornal em que trabalhava o simpático primo do Urbano trazia uma desenvolvida notícia sobre a nossa presença no Brasil. Nele se publicavam os nossos nomes, com a sensacional «revelação» que se tratava de um grupo de falsos jornalistas, pois todos eram, no fim de contas, agentes da PIDE. A «honesta» informação acrescentava o nome do hotel em que nos encontrávamos hospedados e o número do quarto de cada um de nós.

Confesso que a notícia me impressionou profundamente. Nunca pensei que fosse possível tamanha deslealdade e tão grande descaramento. O facto é que a miserável mentira surtiu os seus efeitos e nós passámos a ser olhados naquele hotel como «animais raros», e extremamente perigosos.

Simultaneamente, era lançada em Portugal uma campanha clandestina e altamente difamatória contra os jornalistas que estavam no Brasil efectuando a reportagem do «caso Santa Maria». Eu era especialmente visado, dada a repercussão que as reportagens da Emissora Nacional estavam a ter. É a altura de afirmar que - como sempre fazia - me limitei a relatar os acontecimentos com verdade e sem o recurso a expressões ofensivas para com os homens que haviam tomado o navio. É possível que nos noticiários e comentários em que as minhas reportagens se integravam, esse processo tenha sido utilizado, mas isso era assunto que não me dizia respeito. Recordo-me bem que me limitei sempre a classificar o grupo de Henrique Galvão como «os assaltantes do Santa Maria». E creio que não mentia ao afirmá-lo».

Não ignoro, entretanto, que as minhas reportagens no Recife vieram mais tarde - muitos anos depois - a servir de pretexto para «explicar» muitos dos ataques de que fui alvo. Logo a seguir ao 25 de Abril não faltaram os «bons amigos» que se apressaram a recordá-las, com todo o cortejo de fantasias que ajudassem a catalogar-me como melhor lhes convinha. E até mesmo depois de preso, em Caxias, não faltou quem quisesse aproveitar a circunstância para à custa de tais «invenções» e falsidades lançar mais achas na fogueira preparada para o meu auto-de-fé.

Recordo, a propósito, certo domingo em Caxias em que fui chamado ao gabinete do Comando. Estava, então, incomunicável e confesso que fiquei um tanto surpreendido com a convocação.

Quando ali cheguei, verifiquei a presença do oficial de serviço, de uma mulher relativamente jovem, que eu nunca vira na vida e cujo nome ignoro, pois não me foi apresentada, além de mais dois homens. Quando entrei, um deles perguntou-me se não me lembrava dele. Disse que não, embora a sua cara não me fosse de todo estranha. Identificou-se como tenente Reis e recordei-me, então, de ter sido apresentado um dia nos estúdios da RTP. Mais concretamente, no gabinete do João Soares Louro.



Ouvindo o ciclista Alves Barbosa, antes da partida para mais uma etapa da Volta a Portugal.



Isso ocorrera nos primeiros dias após o 25 de Abril, ainda eu continuava a fazer o programa sobre apostas mútuas desportivas. Já havia há minha volta um «cerco», dia-a-dia mais apertado, e eu, sempre que ia ao Lumiar, sentia-me como um homem perdido na selva e desarmado, prestes a ser atacado por um animal feroz. Rosnavam-se pelos cantos aquelas «histórias» já velhas e relhas acerca de pretensas ligações com a PIDE e eu sentia, perfeitamente, que acabaria por não escapar à fúria insaciável do saneamento. Que acabou por consumar-se, como já contei no meu primeiro livro.

O assunto foi abordado na presença do tenente Reis que, na altura, exercia determinadas funções na RTP. Mais uma vez, no decorrer da conversa, a que assistiu também o meu querido amigo Augusto Cabrita, assegurei serem totalmente destituídos de fundamento todos esses boatos.

E ali estava de novo o tenente Reis, que me disse estar de visita a Caxias e ter-se lembrado de pedir ao seu camarada para falar comigo. Confesso que, ainda hoje, não percebi muito bem qual era a verdadeira intenção do tenente Reis, mas acabei por me convencer que tudo aquilo não foi mais do que um interrogatório, mascarado de conversa informal. Talvez para ver se eu fornecia algumas pistas capazes de proporcionarem a possibilidade de uma acusação qualquer que pudesse justificar a minha... injustificada detenção. A tal senhora relativamente jovem e o outro homem, deviam funcionar apenas como eventuais testemunhas para a hipótese de qualquer deslize da minha parte. Embora, a certa altura da conversa, ela tenha também resolvido «dar o seu palpite». A propósito do tenente Reis ter referido, com certa insistência, algumas reportagens «comprometedoras» em que eu participara (e lá veio outra vez o Santa Maria à baila), lembrei-lhe que também a maioria dos militares do 25 de Abril tinham tomado parte na chamada «guerra colonial» e, nem por isso, estavam na minha situação. Foi quando a senhora não resistiu à tentação de «entrar no diálogo» para afirmar com ar triunfalista: «... mas houve alguns que desertaram!». Para não complicar as coisas e até porque me faltava a paciência para discutir, limitei-me a comentar: «nem todos».

Tive vontade de lhe perguntar se o então comandante do COPCON tinha desertado, se era esse o caso do então Presidente da República e de muitos outros que personificavam o Poder. Mas achei preferível calar-me. Ela tinha todo o aspecto de uma daquelas «fanáticas politiqueiras» com quem não vale a pena argumentar. Ou que, conhecendo a mentira em que vivem, pretendem impô-la aos outros como se se tratasse da mais pura das verdades.

O tenente Reis - esse, por muita cordialidade que quisesse aparentar - não conseguia disfarçar o prazer sádico que aquela conversa lhe proporcionava. Refastelado num maple, desbobinava as suas teorias sobre a possibilidade de ser uma vítima de caluniadores ou estar a representar apenas o papel de «inocente» e, ser afinal, tudo aquilo que se dizia de mim e, talvez, ainda muito mais...

Recordo-me que, a certa altura, lhe perguntei objectivamente: «Quer dizer que você não acreditou no que lhe disse há meses na Televisão, como não acredita no que estou a dizer-lhe agora...».

O tenente Reis sorriu melifluamente e respondeu: «Daqui a algum tempo já lhe posso dizer se acredito ou não... Por enquanto, ainda é cedo».


Entre os jornalistas Domingos Lança Moreira (à sua esquerda) e Amadeu José de Freitas (à sua direita) na hora do embarque para Barcelona, onde iriam realizar a cobertura de um campeonato mundial de hóquei em patins.


Apeteceu-me voltar-lhe as costas e sair, mas lembrei-me de que eu era simplesmente um prisioneiro que fora chamado àquele gabinete. Só poderia retirar-me quando me mandassem outra vez para a cela n.º 28. E tive de continuar a suportar aqueles olhares inquiridores e - sobretudo - acusadores dos inesperados visitantes daquele Domingo.

O tenente Reis ainda me disse que ouvira falar muito numa atitude altamente condenável que eu tivera quando do falhado «golpe» de Beja. Segundo ele, eu teria pedido ao microfone da Emissora Nacional, a pena de morte para o capitão Varela Gomes.

Era mais uma «história» a acrescentar a tantas outras postas a circular. Que nem merecia ser discutida ali, naquela ocasião. Com aqueles estranhos e inesperados visitantes.

(Mais tarde, já na cela, lembrei-me de que no dia do «golpe» de Beja ia eu a caminho do Algarve para aproveitar uns dias de férias que ainda não tinha gozado nesse ano. Fui, até, interceptado no percurso, duas ou três vezes por brigadas da GNR que me revistaram o porta-bagagens do automóvel).

Satisfeita a sua sádica curiosidade, o tenente Reis, que devia ter ido a Caxias com uma missão definida, resolveu dar por finda aquela «amável» visita com uma despedida muito «simpática» e original: «Bem... gostei muito deste bocadinho!».

O oficial de dia compreendeu que o «serviço» do seu colega estava concluído e chamou o fuzileiro, que me conduziu de novo à minha cela do segundo piso.

A referência que fiz, no capítulo anterior, a Miguel Urbano Rodrigues, surgiu apenas na sequência normal da narração do episódio do Recife. Entretanto, a propósito - e para ajudar o leitor a conhecer melhor essa estranha e sinistra figura - permito-me reproduzir uma página do livro «O drama de Portugal», de Fernando Queiroga, o homem que esteve na origem do falhado «Movimento da Mealhada», em 1956, e que só tive oportunidade de ler agora, no Brasil.

Fernando Queiroga, que classifica Miguel Urbano Rodrigues como um «mistificador ao serviço do PC», transcreve no seu livro (página 39), uma carta que recebeu em Genebra, assinada pelo mesmo Miguel Urbano Rodrigues, e que faz anteceder das seguintes palavras:

«É tocador exímio da "ária da unidade", no jornal "Portugal Democrático", que se publica na cidade de São Paulo, o autor de uma carta que recebi em Genebra, em resposta ao apelo que eu fizera aos amigos e correligionários daquela capital. Aspirem os leitores o perfume espiritual de alguns dos seus parágrafos, curvem-se perante tanta pureza de sentimentos, apreciem a bondade do seu coração, reparem como são isentos de pensamentos reservados:

"Não sou, ao contrário do que V. parece supor, insensível aos seus sofrimentos, e nunca deixei de acreditar na sua entrega total à causa da Libertação de Portugal, muito embora discorde de muitas atitudes suas, mormente dos ataques ao Delgado, indivíduo a quem, de resto nada me liga e que considero pernicioso à nossa Causa.

Os assaltantes do Santa Maria foram recebidos pelas autoridades brasileiras à chegada ao Recife.

Acontece apenas que não posso fazer por V. nada, a não ser dar publicidade ao seu drama dentro da linha do Estado de São Paulo e das limitações do Portugal Livre. Como V. sabe, cortei há mais de um ano, com toda a canalha do Portugal Democrático, jornal agora controlado completamente pelo Partido e onde fazem figura de parvos o Pimentel, o João A. das Neves e o Baleizão. Não falo a essa gente ou, melhor dizendo, não mantenho contacto de qualquer espécie com eles. Ora quem tem dinheiro é esse grupo, principalmente o Partido e o gagá do Pimentel. Dali, entretanto, V. nada levará. Eles detestam-no. O Ciríaco, aliás, poderá dizer-lhe a que baixezas essa gente tem descido. Permito-me também discordar do que V. diz do Galvão. Ele terá defeitos, como todos nós, mas é a única pessoa que na América está a fazer alguma coisa em profundidade e que tem qualidades de homem de acção que eu tanto admiro em V. Não sei se há qualquer mal-entendido entre V. e ele, mas penso que, se assim acontece, V. deveria escrever-lhe e desfazê-lo. Com a cobertura do Galvão poderíamos aqui ajudá-lo eficazmente.

"Antes de terminar, um pequeno esclarecimento: ao contrário do que se depreende de uma carta sua que li há tempos, nem todos os elementos do grupo que se lhe ofereceram, uma tarde, em casa do Pimentel, para lutar por Portugal, voltaram atrás. Pelo que me diz respeito, meu caro Queiroga, continuo tão disposto como nessa tarde a participar em qualquer acção bem organizada e comandada contra Portugal. E não perdi ainda as esperanças. Eu sou dos que acreditam no Galvão, da mesma forma como nunca deixei de crer na coragem e na generosidade de V. para realizar essa aspiração.

"Um abraço amigo e comovido do Miguel Urbano Rodrigues"».

Fernando Queiroga comenta:

«Foi com uma dor profunda, com incontida indignação, que li essa carta. Tivera eu a fraqueza de acreditar que nem todos seriam miseráveis».

E acrescenta:

«É de admitir que o leitor menos avisado não se aperceba sem se quedar em reflexão por alguns instantes, da desalmada patifaria que a carta traduz».

A transcrição deste passo do livro do antigo capitão Queiroga, não significa que pretendamos identificar-nos com os pontos de vista expressos pelo autor de «O drama de Portugal». Apenas entendemos que a carta do jornalista em questão (verdadeira, sem dúvida), serve para realçar alguns contornos da personalidade do «simpático» primo do Urbano Carrasco - denunciante baixo, em estatura moral e física) e despudoradamente mentiroso. Não admira, entretanto, que um indivíduo capaz de escrever a carta que acabaram de ler seja capaz de «inventar» agentes da PIDE disfarçados de jornalistas e com passaportes falsos!

O interessante da carta - quanto a mim - é aquele «pedacinho de ouro» em que Miguel Urbano Rodrigues diz: «cortei há mais de um ano com toda a canalha do "Portugal Democrático", jornal agora controlado completamente pelo Partido...». E também é «amoroso» o seu desabafo «não falo a essa gente ou, melhor dizendo, não mantenho contacto de qualquer espécie com eles».



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Se pensarmos para quem trabalha agora o inquietante jornalista, podemos chegar a deliciosas conclusões...



ANGOLA - 61
Corria o ano de 1961.

Estava em Montreux, fazendo a cobertura radiofónica do Torneio de Hóquei em Patins que, todos os anos pela Páscoa, se realizava naquela cidade.

Uma noite, antes de iniciar o meu trabalho de reportagem e após ter sido estabelecido o contacto telefónico com a Central Técnica da Emissora Nacional, para os ensaios preliminares dos circuitos, apareceu-me do outro lado do fio a voz de um colega locutor.

Não me recordo quem ele era mas lembro-me, perfeitamente, da razão do contacto. E a razão era a situação de guerra que deflagrara naquele antigo território português.

«Artur, a questão é a seguinte: dada a situação criada em Angola, todos nós - locutores da Emissora Nacional - nos oferecemos voluntariamente à Direcção para nos deslocarmos como correspondentes de guerra. Como é o único que está ausente neste momento, não queríamos deixar de te perguntar se alinhas connosco...».

Isto foi, mais ou menos, o que me disse o meu colega.

Respondi-lhe «que sim, que naturalmente era solidário com todos eles e que, portanto, podiam contar também comigo».

Ele ainda me esclareceu que iriam dois «enviados especiais» de cada vez, por períodos de cerca de dois meses. Desse modo, todos cumpririam essa tarefa.

Quando, terminado o Torneio de Hóquei em Patins, regressei a Lisboa, tive curiosidade em saber quem já tinha partido.

«Que não... que ainda não tinha ido ninguém e que o primeiro seria... eu!».



Na companhia do internacional português de hóquei em patins, Vaz Guedes, por ocasião de um dos tradicionais Torneios da Páscoa em Montreux, na Suíça.


Confesso que, para mim, era igual ser o primeiro, o segundo ou o terceiro. Mas achei uma certa graça à «gentileza» dos «voluntários» que tinham tido a ideia, reservando-me a primazia.

Profissionalmente, era uma nova e aliciante experiência que interessava a qualquer repórter. E, afinal, ser o primeiro a partir para essa nova experiência - ainda do ponto de vista profissional -, não deixava de ter o seu interesse especial.

Entretanto, a totalidade dos voluntários já não era... total. Exceptuando o caso das locutoras que, naturalmente, desde logo, estavam fora de questão, havia apenas um locutor que, pela sua idade e pouca saúde, não foi considerado no grupo dos «correspondentes de guerra». Refiro-me a João da Câmara que, entretanto (diga-se por dever de justiça) muitas vezes insistiu em ser também escalado para esse serviço.

Mas, passado o momento emocional do oferecimento global, logo apareceram alguns «corajosos» repórteres que invocaram úlceras, problemas cardíacos e até casos familiares, impeditivos de tão dura e arriscada tarefa...

Para encurtar razões, direi que a primeira equipa de reportagem a seguir para Angola foi constituída por mim, pelo Vasco Félix e pelo técnico José de Sá.

Depois, é curioso registar -, esteve lá também o famigerado antifascista, anticolonialista, antitudo, que dá pelo nome de Fernando Correia. Devo dizer que ninguém o obrigou a ir. Ele foi, realmente, um dos voluntários que bem poderia ter também alegado a ulcerazinha da praxe. Como essa alegação funcionou em relação a outros, o sinistro «revolucionário de ocasião» bem poderia ter evitado a sua ida a Angola, onde tanto enalteceu «os feitos gloriosos das tropas opressoras». O que prova que o rapazinho, na altura, ainda não tinha pensado em passar à clandestinidade para lutar com toda a força das suas entranhas contra o Governo fascista que teimava em manter sob o seu domínio, «as pobres e humilhadas populações africanas».

Pois ele lá foi e lá esteve, não me constando que tenha aproveitado o ensejo para oferecer os seus prestimosos serviços ao seu tão querido amigo MPLA. Até porque era bem mais agradável andar a encharcar-se proletariamente em whisky pelas boites de Luanda, do que metido na selva a lutar contra os tenebrosos colonialistas...




























Mas adiante.

Se falei em Angola foi para referir um episódio muito curioso e esclarecedor de que fui testemunha e em parte intérprete.

Algum tempo depois de ter chegado a Luanda e de ter feito uma reportagem para a RTP e uma outra, em pequena acção militar baptizada com o nome de «Operação Lifune», encontrei-me com o general Mário Silva, na altura ministro do Exército, e que havia chegado, entretanto, à capital angolana na companhia do general Câmara Pina.

Eu já tinha tomado contacto com alguns centros operacionais e havia notado existir um certo desfasamento entre as forças que actuavam em zonas de combate e as forças aquarteladas em Luanda. Em especial, havia verificado que alguns serviços do Quartel-General mantinham um esquema altamente burocrático, com absoluto desprezo pelas necessidades prementes com que se debatiam as colunas que, seguindo percursos diferentes, tinham como objectivo Nambuangongo - centro vital dos chamados «Movimentos de Libertação».

Se não estou em erro e a memória me não atraiçoa, havia uma coluna a partir de Quicabo (aquela que eu acompanhara na «Operação Lifune»), uma outra que seguia pela estrada de Ambrizete e uma terceira, comandada pelo coronel Maçanita, e que foi a primeira a entrar em Nambuangongo.

Acontecia que, por vezes, alguns elementos dessas colunas tinham que regressar a Luanda para resolverem problemas técnicos graves, resultantes dos ataques do inimigo. E, enquanto o grosso da coluna ficava aguentando estoicamente novos ataques, um pequeno grupo (às vezes apenas de dois ou três homens) vinham ao Quartel-General na tentativa de solucionar o problema surgido. A verdade é que nem sempre essa «operação» se fazia tão rapidamente como seria desejável. Ou por exigências de requisições com duplicados ou triplicados ou, ainda, porque no Quartel-General continuava a respeitar-se, como nos tempos de paz, o tradicional... fim-de-semana!

E, então, se o estafeta que vinha lá de longe em missão de emergência, tivesse a pouca sorte de chegar a Luanda a uma sexta-feira, depois das seis da tarde, tinha que esperar simplesmente pela manhã de... segunda-feira!

Verifiquei, pessoalmente, dois ou três casos deste género e por isso quando o general Mário Silva me perguntou um dia «quais eram as minhas impressões?», respondi-lhe com outra pergunta:

«O senhor Ministro deseja que eu diga mesmo o que penso? E não vai reagir mal à minha sinceridade?».

O general era um homem muito comunicativo e até folgazão. Insistiu para que lhe dissesse sinceramente o que eu pensava.

Em 1961, como correspondente de guerra em Angola, com o técnico Fernando Sá, acompanhando uma acção militar perto da Fazenda de São Brás (a poucos quilómetros do Songo).


Disse-lhe então:

«Senhor Ministro, isto é uma guerra com... fim-de-semana».

Pareceu surpreendido com a definição mas, quando lhe expliquei a razão das minhas palavras, entendeu perfeitamente a gravidade do problema.

Não sei o que se passou mas verifiquei, alguns dias depois, que... acabara o «fim-de-semana» no Quartel-General.

Aliás, o general Mário Silva foi, na altura, o grande motivador do avanço das três colunas, cujo objectivo era Nambuangongo.

Não só esteve nas zonas de combate como, frequentemente, sobrevoava as colunas, lançando-lhes mensagens de incitamento que produziram os seus efeitos.

Cabe aqui referir que, a certa altura, se gerou uma espécie de competição entre os Comandos das Colunas - cada um deles tentando ser o... «herói» de Nambuangongo.

Foi o tenente-coronel Maçanita quem venceu «a grande corrida», mas a sua vitória foi praticamente conseguida ao... sprint.

Fiz a reportagem da entrada das forças de Maçanita na cidade, para o que utilizei um pequeno avião Dornier e os seus serviços de rádio.

Consegui estabelecer contacto, via-rádio, com o comandante da força, e consegui pôr o nosso diálogo no ar, através da Emissora de Luanda e de outras emissoras de Angola.

Foi um dos trabalhos mais aliciantes da minha carreira de repórter e que teve uma grande repercussão em Angola inteira.

No dia seguinte Lisboa transmitia essa mesma reportagem, em gravação, e eu senti-me feliz por ter resultado em cheio o esquema que imaginei em colaboração com o jovem oficial da Força Aérea que pilotava o Dornier.

Poucos dias depois, o general Venâncio Deslandes preparou uma outra operação militar, tendente a cortar a retirada dos antigos ocupantes de Nambuangongo, desalojados pela coluna do tenente-coronel Maçanita.

Também participei como repórter mas, desta vez, as coisas, para mim, não correram da melhor maneira.

Na primeira parte da «operação», tudo se passou com a maior normalidade.

Viajei, de avião, com uma força de pára-quedistas que seria lançada em Quipedro, para onde se dirigiam os fugitivos de Nambuangongo. Ali lhes ofereciam uma inesperada «recepção».

Registando declarações dos elementos de uma coluna do Corpo de Voluntários numa zona entre Carmona e Negage.



Imbondeiros


Mussulo Bay (Angola).


Idealizei uma nova reportagem para o que pedi que, depois do lançamento dos pára-quedistas, me deixassem em Negage. Dali procuraria obter transporte para Quipedro, onde completaria o meu trabalho junto dos homens descidos em pára-quedas.

Gravei alguns apontamentos do lançamento e depois, em Negage, consegui um Dornier, que desceria numa pista improvisada em Quipedro. Tudo perfeito - em teoria. Viajou comigo, além do piloto, um cabo dos Serviços Cinematográficos do Exército com a sua máquina de filmar e duas ou três caixas de cervejas que se destinavam aos «páras», cuja descida tinha sido coroada de êxito.

Mais uma vez, tudo decorreu normalmente, menos a aterragem na tal pista, que era demasiadamente curta e um autêntico terreno lavrado.

Além disso havia muitas árvores em volta.

O piloto fez várias tentativas para descer mas a «coisa» estava complicada. E, numa dessas tentativas, vendo que a pista não chegava, o piloto decidiu «borregar» uma vez mais. O pequeno avião subiu quase na vertical mas, quando chegou lá no alto, tocou num imbombeiro gigantesco e veio por ali abaixo completamente desgovernado.

Recordo-me de ter ouvido esta frase do piloto, ao lado de quem viajava:

«Já está!...».

E estava mesmo. Em brevíssimos segundos (que me pareceram séculos) o avião estava lá em baixo. Deu três cambalhotas sobre si mesmo, não se incendiou por milagre e ficou pronto a passar à categoria de... sucata.

O cabo cinegrafista tinha adormecido e... adormecido ficou no meio de um monte de garrafas partidas.

Eu levava a máquina de gravar entre os joelhos. Quando as cambalhotas acabaram - não sei que por artes mágicas - continuava com o aparelho ao meu colo. A camisa e as calças apresentavam alguns rasgões, mas depressa verifiquei que não tinha mais que duas arranhaduras sem importância. E o mesmo aconteceu com o oficial-piloto. O cabo estava também em boas condições físicas. Acordara sobressaltado e só perguntou: «Aconteceu alguma coisa?».

Os pára-quedistas, que tinham instalado o seu aquartelamento junto à tal pista improvisada ajudaram-nos a sair do avião. O piloto foi verificar o seu rádio, mas concluiu rapidamente que ele ficara inoperável. Os pequenos emissores dos pára-quedistas não tinham potência para serem ouvidos em Negage.

Estávamos ali, portanto, sem hipótese de pedir ajuda fosse a quem fosse.

Só havia a solução de nos integrarmos no grupo dos pára-quedistas, até que surgisse a oportunidade de podermos regressar à base.




Foi, para mim, uma curiosa experiência da campanha. Estávamos, apenas, a dois ou três quilómetros de Quipedro, que fora incendiada e abandonada precipitadamente pelos seus ocupantes. Mas a região estava enxameada de guerrilheiros. Todas as cautelas eram poucas.

Entretanto, sabia-se que uma coluna - a que vinha de Ambrizete - se aproximava. Esperava-se que ela chegasse a todo o momento e ao terceiro dia ela deu, realmente, sinal de si. Com fogo de artilharia dirigido para... a nossa posição. (!)

A coluna não sabia da nossa presença e a situação não era agradável. Houve que recorrer ao lançamento de very-lights e chamadas constantes pela rádio para que eles não insistissem no fogo de cobertura. Felizmente, os nossos sinais foram entendidos e as mensagens ouvidas.

Poucas horas depois, as tropas da coluna Ambrizete confraternizavam com os pára-quedistas.

Entretanto - soube-o depois -, eu, o cabo cinegrafista e o piloto do avião acidentado, fôramos dados como desaparecidos ou mortos. Mas, nesse mesmo dia, surgiu um avião sobrevoando o local. Andava à procura do aparelho que não regressara à base e, logo que nos localizou, preparou-se para descer.

A manobra foi muito difícil, pois a pista era exígua e o piso péssimo, mas, após várias tentativas goradas, o piloto conseguiu os seus intentos.

Era o filho do general Humberto Delgado - o homem que nos transportou no avião até Negage.

Logo de seguida, foi o regresso a Luanda noutro avião. No aeroporto da capital angolana tomei um táxi para o Hotel Continental onde eu, o Vasco Félix e o José Sá, tínhamos a nossa base de operações, em dois quartos que também funcionavam como estúdio de montagens radiofónicas.

Só quando cheguei ao quarto e olhei para o espelho verifiquei o estado em que me encontrava. Camisa e calças sujas de terra encarnada que, por acaso, até ajudavam a disfarçar os rasgões. Os olhos, inflamados pela poeira, que também me cobria o rosto e os braços - queimados pelo sol.

Antes de despir aqueles trapos imundos, toquei a campainha para pedir que me trouxessem um drink, pois necessitava, também, de me lavar por... dentro.

Apareceu uma empregada, que olhou para mim com uma expressão própria de quem estava a ver um... fantasma!

Tomou nota do meu pedido e saiu precipitadamente.

Mais tarde, dir-me-ia que se tinha assustado muito porque lhe haviam dito que eu morrera num desastre de avião...


A CIDADE MAIS... «LIMPA» DO MUNDO

Lisboa tinha fama de ser uma das cidades mais limpas do mundo.






E essa fama era inteiramente justificada.

Viajei muito e posso confirmar que, de facto, a capital portuguesa mantinha uma fisionomia atraente que encantava os turistas que, antes do 25 de Abril de 1974, afluíam em número considerável àquele «jardim à beira-mar plantado».

Depois - subitamente -, tudo se modificou. As paredes dos edifícios, e até os monumentos, passaram a ser autênticos painéis de propaganda política em que os cartazes impressos se misturavam com palavras de ordem e slogans, que brigadas de militantes dos vários Partidos e organizações políticas «aplicavam», de preferência, durante a noite.

A «moda» alastrou rapidamente a todo o País e nem o asfalto das estradas e as placas de sinalização escaparam à «fúria publicitária» dos «funcionários políticos», que passaram a constituir uma das profissões mais representativas do pós-25 de Abril.

Foi tão grande a actividade dessas «brigadas» que o material indispensável à inscrição de frases e slogans chegou a esgotar-se no mercado.

O curioso é que se, até à Revolução, o Povo era «alienado» pelas mensagens publicitárias de carácter comercial que tanto afligiam inimigos da chamada sociedade de consumo (muitos dos quais viviam dela), daí em diante passou a ser «agredido» com violência ainda maior por outro tipo de mensagens.

Um sujeito saía de casa e, se não tinha ideias políticas definidas (como era o caso da maioria), acabava por chegar ao emprego com uma confusão dos diabos na cabeça. Numa esquina, a social-democracia dizia-lhe coisas lindas. Mais adiante, uma frase dos socialistas provocava-lhe impressão extremamente favorável. Logo a seguir, os populares democratas davam a ideia de que com eles é que seria bom. Mas, logo noutra parede, os comunistas ofereciam as perspectivas mais aliciantes.

Tudo isto, acrescido ao que se lia nos jornais, ouvia pela Rádio e via na Televisão, «embaralhava» o pobre português que, até aí, só fora «massacrado» acerca de marcas de automóveis, margarinas, detergentes, empresas imobiliárias, Bancos, lâminas de barbear, águas de colónia e outros supérfluos do género.

A certa altura, porém, começaram a aparecer slogans de outro tipo. Palavras de ordem de estilo completamente diverso. «Mensagens» com um certo impacto espirituoso.

Foi uma fase «divertida» da propaganda política que teve, pelo menos, o condão de diluir a «confusão» lançada pelos «criativos» mais clássicos de certos Partidos.

Tive ocasião, antes e depois das minhas «férias» em Caxias, de anotar algumas das deliciosas frases que começaram a surgir nos poucos espaços livres de Lisboa e arredores.



A maioria dessas frases tinham a nítida intenção de ridicularizar as «mensagens», profundamente sérias, de certas organizações políticas.

Vou referir, neste capítulo, algumas das legendas que mais me ajudaram a esquecer (ainda que momentaneamente) os problemas que tanto me preocupavam.

Falava-se muito, nessa altura, em «independência», «libertações» e «nacionalizações» e essa motivação tornou-se tão corriqueira que os fazedores de legendas humorísticas começaram a apresentar as suas... «ideias», como, por exemplo, «Independência imediata para o Castelo de Almourol», «Independência total do Algarve e Berlengas», «Nacionalização da Rua Ivens», «Nacionalizemos o bolo inglês e a bola de berlim», «Os galos pedem a nacionalização dos ovos», etc.

Como o «Povo» era, na altura, palavra muito explorada para conquistar o dito, não tardaram a surgir frases como estas: «Abaixo a cultura! O Povo é que sabe!», «Só o Povo está com o Povo», «A chuva é do Povo, abram os guardas-chuvas».

A propósito de um slogan muito divulgado («A terra a quem a trabalha»), apareceram frases como estas: «Mortos fora das covas! A terra para quem a trabalha», «Abaixo os cemitérios! A terra a quem a trabalha!».

Em relação aos ataques ao Partido Comunista, seleccionámos também alguns slogans: «O Cunhal não come feijões com medo da... reacção», «Basta de Barreirinhas, vamos ao salto em altura», «Os índios também eram vermelhos e lixaram-se».

Mas surgiram muitas mais «legendas» - muitos slogans - que eram verdadeiros monumentos de espírito crítico e mordaz. Não resistimos à tentação de reproduzir mais alguns, de entre as centenas que apareciam a cada passo, e quase sempre como comentário a outras frases partidárias e que, colocadas logo a seguir, nos muros ou nos monumentos, procuravam (com êxito) ridicularizá-las.

Aqui vai uma pequena lista das mais incisivas e espirituosas:


«Não à reacção. Sim ao motor a hélice!»
«Liberdade para as sardinhas enlatadas».
«Acabemos com o racismo. Pintemos os pretos de branco».
«Vota em mim, que eu voto em ti!»
«Ruim por ruim, vota em mim!»
«Se o Estado vai ser patrão, quem nos defende dele?»
«A dentadura do proletariado sofre de cárie burguesa».
«O socialismo está em construção. Visite o andar-modelo».
«Costa Gomes foi atraiçoado. Levou duas cunhaladas pelas costas, ficou com soares frios e delira carneiros».
«Para uma amizade Portugal-China comprem sabão amarelo».


Glosando um slide que aparecia com frequência na Televisão sempre que havia qualquer avaria técnica: («Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos»), não tardou a aparecer esta frase nas paredes. «Pedimos desculpa por esta Democracia. A Ditadura segue dentro de momentos».



Também a propósito do slogan utilizado por um Partido político («Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões»), o comentário surgiu, poucos dias depois: «Hoje somos muitos. Amanhã seremos milhões. A culpa é vossa, tomem a pílula».

E vamos ficar por aqui, até porque grande parte dos slogans espirituoso-revolucionários que apareciam nas paredes são impróprios para reprodução...


UMA CARTA E UMA ATITUDE

Naquela trágica «era gonçalvista» - uma das maiores catástrofes que desabou sobre Portugal e o seu Povo - as Leis eram «letra-morta». Cidadão que se visse envolvido em qualquer problema, na generalidade criado pela fúria desenfreada de oportunistas sem escrúpulos, não tinha outro remédio que não fosse o de ficar à mercê da sua própria sorte.

Recorrer aos tribunais era rematada loucura porque, na verdade, eles não funcionavam. Havia, sim, aquilo a que chamavam as... «leis revolucionárias» e que não eram mais do que decisões arbitrárias de quem detinha o Poder e, até, de quem o não detinha mas gravitava na órbita dos que se haviam apoderado do País, a todos os níveis.

Recorrer a um advogado tornou-se quase impraticável, pois, salvo honrosíssimas excepções, a maioria deles só se ocupavam de assuntos em que as tais «leis revolucionárias» pudessem adaptar-se aos interesses dos seus clientes e aos deles próprios.

Lembro-me que, em tempos não muito distantes, era relativamente fácil encontrar advogados dispostos a defenderem os homens acusados de serem adversários do regime salazarista. E, embora com todas as dificuldades que se conhecem, não creio que tenham sido impedidos de o fazerem. Mesmo alguns advogados, não vinculados politicamente àquilo que se designava na generalidade por «oposição», não hesitaram em defender alguns réus de marcada e reconhecida linha política contrária à que então vigorava.

Do mesmo modo, alguns advogados conhecidos como adversários do antigo regime, não se escusaram a tomar a seu cargo causas de pessoas que se situavam em campos ideológicos bem diferentes.

Poderia citar numerosos exemplos do que afirmo, mas creio não valer a pena por ser sobejamente conhecido esse «fenómeno».

Por mim, acho - sempre achei - isso naturalíssimo, do ponto de vista profissional. Porque o facto de um advogado aceitar defender um assassino não significa que ele seja defensor do crime. É, afinal, o caso do médico que, pelo facto de ser social-democrata, não recusa a salvar a vida de um doente que é comunista.

São coisas que não podem - que não devem - ser confundidas mas, infelizmente, o são, ou, pelo menos, o foram naquela lamentável fase da vida portuguesa.

Posso referir um caso, passado comigo, que serve para ilustrar o que afirmo. E vale a pena contá-lo desde o princípio para que o leitor, em consciência, tire as conclusões mais apropriadas e mais correctas.

Um dia, na minha Empresa, tive um problema com um cliente que tinha uma dívida avultada por trabalhos realizados para uma campanha publicitária. Um dos meus colaboradores mais próximos, sabendo que eu tinha intenção de recorrer aos serviços de um advogado, sugeriu-me um que ele conhecia bem e cuja competência era garantia de que o caso seria tratado da melhor maneira.


1951. Estúdios da BBC de Londres. Por altura do Festival Britânico, entrevistando os futebolistas internacionais Francisco Ferreira e Félix Antunes, a propósito dos jogos de Portugal com a Inglaterra e o País de Gales.


Aceitei a sugestão e, depois de lhe apresentar o problema, confiei-lhe a causa. A sua actuação foi satisfatória. Paguei-lhe os honorários pedidos e disse-lhe que o procuraria sempre que necessário. Agradeceu e concordou.

Dois ou três anos depois, tive um problema de outra ordem. Um caso desagradável ocorrido em Setúbal, numa Pousada dirigida por uma senhora de feitio pouco sociável, que degenerou num processo em que fui réu. Devo esclarecer que se tratava de um problema de «lana caprina», de um lamentável mal-entendido que a tal senhora considerou (ou quis considerar) injurioso para ela. Mas adiante...

Procurei o mesmo advogado, contei-lhe o caso e ele aceitou defender-me em tribunal. A sua actuação voltou a ser satisfatória e, antes mesmo da decisão do juiz, chegou-se a um entendimento entre as duas partes.

Voltei a pagar os honorários pedidos, como fizera da primeira vez e renovei a minha intenção de continuar a confiar-lhe os serviços de que tivesse necessidade, tanto na Empresa como pessoalmente.

Aconteceu, até, que o advogado em questão, me escreveu uma carta muito amável, que considerei altamente elogiosa para mim e que guardo no meu arquivo pessoal.

Quando, em 28 de Setembro de 1974, fui preso e «alojado» em Caxias, consegui - passado algum tempo - fazer chegar a minha mulher instruções no sentido de que ela procurasse o mesmo advogado, solicitando-lhe que se ocupasse do meu caso, até porque estava detido sem culpa formada.

Minha mulher assim fez mas, surpreendentemente, ele que tão satisfeito ficara com o seu cliente e tão amável fora na tal carta, recusou a fazê-lo. E mais surpreendente foi a argumentação de que se serviu para justificar a sua atitude. Declarou que «não poderia ocupar-se do meu caso por me conhecer apenas superficialmente; que falara comigo apenas uma ou duas vezes e, por isso, seria melhor recorrer aos serviços de qualquer outro advogado».

Confesso que, ao ter conhecimento da sua atitude, fiquei surpreendido. Porque, na altura, ainda não me tinha apercebido de certas coisas que, mais tarde, comecei a entender perfeitamente.

Ainda que o caso não mereça quaisquer comentários especiais, não posso deixar de perguntar por que razão aquele advogado não se recusara anteriormente a defender-me em Setúbal. Ou será que, nessa altura, me conhecia melhor do que depois, quando fui preso, em Setembro de 1974?

É verdade. Falta dizer o nome desse paladino da Justiça e da Verdade. Chama-se Jorge Sampaio e tinha (não sei se ainda tem) o seu escritório na rua Duque de Palmela, n.º 27, 5.º- direito.

E para que não se pense que a carta de que falei é apenas produto da minha imaginação, a seguir a reproduzo, com assinatura e tudo.







Ver aqui



A CRÓNICA DESAPARECIDA

Quando principiei a colaborar nas colunas de O País, enviava as minhas crónicas pelo correio.

Depressa compreendi que a via não era a mais conveniente pois, com estranha frequência, algumas das minhas cartas começaram a... perder-se pelo caminho. Sobretudo, quando o tema abordado nas crónicas não era agradável para certo Partido político ou para determinadas pessoas a ele ligadas.

Passei, então, a utilizar - sempre que possível - o processo de «entrega a domicílio», servindo-me da gentileza de amigos que viajavam, com frequência, para Lisboa.

Às vezes o sistema era fácil, mas também acontecia passarem-se semanas sem que me fosse possível conseguir portador de confiança.

Quando assim acontecia, não me restava outra alternativa que não fosse a remessa postal.

Mas passei a tomar a precaução de ficar sempre com uma cópia dos meus trabalhos para a hipótese de extravio.

Era evidente que havia em Portugal controlo de correspondência - naturalmente efectuado, solicitamente, por «dedicados militantes» - sobretudo quando o destinatário ou o remetente eram daqueles que convinha vigiar.

Algumas vezes tive de enviar, por portador, cópias de crónicas desaparecidas.

A partir de certa altura, senti que a fiscalização abrandava consideravelmente mas, de vez em quando, lá desaparecia mais uma, por artes mágicas e profundamente... «democráticas».

A cópia de uma das que se perdeu pelo caminho não chegou a ser remetida de novo para O País talvez por uma questão de desarrumação da minha numerosa papelada.

Só dei por isso muito mais tarde, num dia em que me senti com disposição para fazer uma limpeza às minhas gavetas.

Encontrei a cópia dessa crónica desaparecida que tinha, por sinal, um título muito sugestivo: «O vilão preocupado». Era dedicada àquele untuoso locutor e jornalista desportivo a quem devo a inesquecível «amabilidade» de me ter denunciado, em 28 de Setembro de 1974, como detentor ilegal de armas para a famosa «inventona».

Essa crónica fora-me sugerida por um artigo por ele subscrito no tri-semanário Record.




Como, entretanto, alguns meses haviam passado, decidi guardar aquela cópia esquecida, para a incluir neste livro. Porque o vilão é dos que precisam ser, definitivamente, desmascarados para que não venha a ter um dia a oportunidade de cometer novas traições. Aqui fica, portanto, mais uma «fotografia» dessa tristemente figura que dá pelo nome de Fernando Correia e que assina (?) agora corajosamente - apenas com iniciais - alguns comentários em «O Diário».


«O VILÃO PREOCUPADO

O "denunciante" continua em actividade. Aparentemente, desportiva. Na verdade, serve-se de um jornal desportivo para cumprir as ordens que recebe dos seus "patrões" e mentores políticos.

E serve-se, também, dos microfones para o mesmo fim.

Por isso, continua a ganhar a... vários "carrinhos". Embora queira convencer os incautos que continua muito preocupado com as classes mais desprotegidas.

Aliás, sempre foi assim o vilão. Procurando ganhar de várias fontes, sem o mínimo pudor em atropelar fosse quem fosse para alcançar os seus objectivos. Para satisfazer as suas ambições.

Viveu, permanentemente, atento à evolução dos acontecimentos para, no momento próprio, alinhar do lado que maiores benefícios lhe proporcionasse. Atraiçoando, se preciso fosse. E sempre com o mesmo ar melífluo, de quem não faz mal a uma mosca. Com o mesmo sorriso seráfico. Sempre no mesmo jeito adulador. Sempre aparentando uma falsa humildade com que conseguiu enganar muita gente.

Um dia deixou cair a máscara. Jogou uma grande cartada, pensando que era a mais certa - a definitiva. Não pensando, sequer, que tinha telhados de vidro. Que poderia ser facilmente desmascarado.

E o vilão foi, realmente, desmascarado. Sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Mas teve, uma vez mais, o talento suficiente para dar a "voltinha" na hora própria. Soube ajustar-se às circunstâncias. Recorrendo ao seu estilo de sempre. Com o tal ar melífluo de quem não faz mal a uma mosca, com o seu inseparável e seráfico sorriso. Com o seu tradicional jeitinho adulador. Humildemente e, talvez, com lágrimas na voz - as que lhe sobraram da reportagem do funeral de Salazar.

E o vilão recompôs-se do seu período menos feliz. E aí está, de novo, com o nome em caixa a duas colunas e com a prosa bem destacada, em páginas reservadas a... "opinião".

É comovente ver como o vilão lamenta certas mudanças operadas na Secretaria de Estado dos Desportos e, consequentemente, na Direcção-Geral dos ditos.




O vilão escreve que "se Portugal votou mais intensamente no Partido A, naturalmente que esse Partido não poderá fugir às suas responsabilidades perante o povo que acreditou em si, no seu programa e nas suas finalidades de acção".

E logo a seguir acrescenta: "Mas desprezar todos os outros valores que poderiam auxiliar o sistema, é difícil de entender e, também coloca muitos cidadãos a pensar no que vem a ser isso de democracia praticada com tais premissas e com parâmetros de acção tão restritos".

O vilão aparece, finalmente, preocupado com as pessoas desprezadas (a expressão é dele) pelo Partido A, e que são, portanto, os tais outros valores a que alude.

Teria manifestado, o vilão, essa trágica preocupação, antes do Partido A ter sido, legalmente, aquele que teve a grande preferência do Povo?

Não teria ao contrário, o vilão ajudado (quando julgou ter o rei na barriga) a afastar e a desprezar outros valores só porque isso poderia servir melhor os seus interesses e ambições?

Alguma vez, o vilão, botou escrituração a propósito de injustiças cometidas durante a... "curta (mas trágica) noite gonçalvista" - a maioria delas praticadas a partir de calúnias e falsidades?

Não! O vilão nunca se preocupou com o facto de se desprezarem outros valores, nem escreveu a respeito.

Nem podia escrever porque também colaborou nessas calúnias e falsidades. Pondo à prova o seu inquietante oportunismo e a sua falta de carácter, felizmente comprovados por muita gente.

Espanta porque o próprio vilão, depois da sua "bicada" no Partido a que chama de "Partido A", acrescente . "A não ser que cada um utilize a democracia segundo o seu próprio ponto de vista e para servir apenas as suas próprias intenções".

Porque assim procedeu ele e outros como ele. A não ser que tenha o desplante de afirmar que manter prisões sem culpa formada, roubar os haveres de quem os havia conseguido à custa de uma vida de trabalho, infligir torturas a alguns detidos (e parece que não foram poucos), lançar homens no desemprego sem justa causa e tantas outras barbaridades e ilegalidades cometidas durante esse "período de ouro" da vida portuguesa, é que era a verdadeira democracia.

O vilão, atacado por perigosa e inquietante diarreia mental, começa no seu "notável" artigo por fazer a apologia do socialismo no intuito evidente de deitar poeira nos olhos dos leitores desprevenidos. Chega mesmo a aludir ao "tempo das falsas liberdades, da confusão e da anarquia". Que foi, afinal de contas, o tempo que ele aproveitou habilidosamente para dar a sua "cambalhota política", na tentativa de se instalar em situações de privilégio. O que não terá conseguido inteiramente, a despeito da teia de mentiras e intrigas em que se envolveu.









Assinatura do Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE) no Mosteiro dos Jerónimos (12 de Junho de 1985).






Ver aqui





Porém, o vilão, depois da "colher de chá", oferecida ao socialismo, acaba por dar a "canelada" no Partido Socialista a que chama "Partido A", não se percebe bem porquê.

E tudo, para conduzir o leitor à conclusão que o Partido Socialista, afinal não é... socialista. Apenas lhe faltou a coragem para dizer onde mora, então, o verdadeiro socialismo.

Ao menos, o vilão podia ter alfabetizado convenientemente o seu pensamento, dizendo que embora o Partido A tenha ganho as eleições, quem deveria governar era o Partido... D! Em sua "democrática" opinião, claro está».


(...) AGORA - NESTE BRASIL AMIGO!

(...) Cheguei ao Brasil no dia 1 de Agosto de 1975.

Trazia os meus planos já bem delineados e certas garantias de trabalho. Não vinha à deriva, como tantos outros que, infelizmente, assim tiveram que aportar a esta terra amiga e acolhedora.

Ainda em Paris, onde estive durante três semanas antes do meu «salto atlântico», acertei com um grupo de trabalho a minha futura actuação no Brasil. Houvera, primeiro, uma hipótese-Estados Unidos, mas, em dado momento, os planos passaram a dizer respeito ao Brasil.

Sabia que teria de aguardar dois ou três meses para iniciar as minhas actividades. Necessitava, pois, de assegurar a minha subsistência durante esse período. O dinheiro que tinha era pouco, mas com um pouco de espírito de sacrifício seria o suficiente para me aguentar durante esse tempo. Depois, tudo seria mais fácil.

Enquanto se aguardava que os problemas do meu futuro trabalho se resolvessem, não fiquei parado. Algumas pequenas e esporádicas intervenções na Rádio e na TV, foram o suficiente para aguentar esses primeiros meses, sem delapidar a minha pequena «fortuna».

Finalmente, em Dezembro, entrei ao serviço de um Banco brasileiro onde foi criado um departamento português, com a finalidade de actuar junto da nossa numerosa colónia.

Eu nunca fora bancário, mas a verdade é que a minha tarefa primordial situava-se na faixa de relações públicas e, para isso, não era necessário ser um expert em operações financeiras.

De qualquer modo, alguma coisa aprendi e hoje sei do ramo muita coisa que, em Portugal, desconhecia por completo.

O Banco em cujo quadro ingressei, era uma das empresas de um Grupo para cujos serviços publicitários passei a trabalhar como elemento responsável.

Entretanto, passei a ter actividade regular num programa de Rádio dedicado ao desporto português e ainda num programa de Televisão, em que Portugal era tema dominante.

De Lisboa chegou-me convite para colaborar no semanário O País, como correspondente no Rio de Janeiro e, pouco depois, tive solicitação semelhante da revista Gazeta, para a qual escrevo através dos seus serviços de Londres.

Finalmente, o meu amigo e colega Henrique Mendes escreveu-me do Canadá solicitando-me uma crónica semanal para o seu programa de rádio.




Antes disso, já fora convidado - e aceitara - colaborar na página desportiva do jornal Voz de Portugal, que se publica no Brasil.

Assim, para além das minhas funções de... bancário - que têm constituído, aliás, a base da minha vida - com um vencimento quase vinte vezes superior ao que auferi em Portugal, durante vinte e cinco anos de actividade como locutor da Emissora Nacional, ia somando alguns «extras» bastante significativos que me têm permitido viver muito desafogadamente sem problemas nem aflições.

A minha actividade de bancário tem-me permitido muitos contactos importantes que me vão abrindo perspectivas interessantes com vista ao futuro. É muito possível que, muito em breve, proceda a modificações substanciais na minha vida, sobretudo no sentido de poder actuar mais de harmonia com a minha formação profissional e com total independência.

Muitos projectos me têm sido propostos que incluem uma maior presença na rádio e na televisão e também uma actuação mais objectiva em matéria de jornalismo. Isto, além de uma proposta muito interessante no plano comercial que poderá vir a constituir a garantia total do meu futuro.

De qualquer modo, não desejo precipitar-me nem dispersar-me em múltiplas actividades. Um homem quando se dispersa demasiadamente, acaba por não poder cumprir as suas obrigações em qualquer das suas faixas de actuação. O que é preciso é seleccionar e saber optar no momento próprio.

Aliás, não basta receber convites. É indispensável saber de onde eles vêm. E de quem partem. Porque também não faltam os sonhadores e os... oportunistas. Os sujeitos «habilidosos» que gostam de aproveitar todos os ensejos para explorar o próximo.

Tenho exemplos deste tipo de «cavalheiros», cujo nome me dispenso de citar, por agora, mas que se mantêm por aqui, caminhando sobre o muro da... indecisão à espera do momento mais próprio para saltar para o lado mais conveniente.

Alguns deles foram altamente beneficiados pela anterior situação política portuguesa, bajulavam homens muito conhecidos e prestigiados, rastejavam a seus pés, vomitando elogios e promessas de dedicação e hoje com uma desvergonha sem limites fazem-lhes referências agressivas, afirmando-se muito... progressistas e revolucionários.

Um desses espécimes tentou (e conseguiu) explorar durante algum tempo a minha condição de profissional da rádio, mas depressa concluí da sua limitada «estatura moral» e afastei-me a tempo.

Hoje, decorridos praticamente dois anos, após a minha chegada ao Brasil como emigrante, já tive oportunidade de seleccionar amigos e... pessoas. Conheço muita gente boa (felizmente é coisa que não falta por aqui) e também já conheço de «ginjeira» os habilidosos «picaretas» que andam sempre à espreita do ensejo de explorar, ainda mais, alguns dos já explorados «patrícios» que um dia tiveram que deixar a sua terra e procurar nova vida no Brasil.

Estou muito bem no Brasil. Sinto-me feliz e de novo realizado. O que não significa que tenha esquecido a minha terra. O que não quer dizer que não me sinta roído de saudades.

Sou e serei sempre português. Um português que nunca perde a esperança de poder voltar ao seu País e ali viver os últimos anos da sua vida. Um português que sente Portugal, que vive os problemas de Portugal. embora seja hoje (e até quando?) um português sem... Portugal! (in ob. cit., pp. 209-230; 243-252; 259-263).


Vestindo a personagem do motorista Miguel, no filme O Leão da Estrela, fui "cúmplice" de António Silva numa história que meteu futebol e uma viagem ao Porto.


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