sexta-feira, 20 de maio de 2016

Português sem Portugal (ii)

Escrito por Artur Agostinho




Nicolau Breyner, à direita.


«(...) Viveu no meio das grandes tertúlias intelectuais. 

Assisti a uma Lisboa fervilhante. O prazer que era estar uma noite com o Jaime Mourão Ferreira, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira, o José Saramago... Depois saía dali e ia ter com um grupo dos toureiros, a seguir ia para o mais bas-fond que existia, porque fazia luta livre e conhecia gente desse meio. E ainda podia ir para o meio da minha família, onde se faziam festas à tarde, com meninas a beber cup. Formei-me no meio disto tudo.

Onde é que se encontravam à noite? 

Na casa da Natália Correia, do Jaime Mourão Ferreira. Vinha o Vinicius, esse grande amigo - sou padrinho da sua última filha -, e era uma semana a rir e a beber copos.

O 25 de Abril apanhou-o a dormir... 

Estava muito bêbedo, graças a Deus. Quando vi os tanques na rua pensei que era uma operação-stop: "Que merda é esta agora, este aparato todo?" E fui dormir.

Era de esquerda? 


Completamente.


Mas teve algum confronto com a censura? 

Nas eleições de 1969, fiz a segurança da CEUD [Comissão Eleitoral para a Unidade Democrática, movimento de oposição liderado por Mário Soares], que tinha sede no Campo Pequeno. Era eu e uns amigos meus estivadores, porque também passei pela estiva e fiz lá amigos. A polícia aparecia com pastores alemães e eu também levava os meus cães. Estranhamente, veio o 25 de Abril e, um ano depois, pessoas que eu nunca tinha visto lá chamavam-me fascista.

Foi simpatizante da CEUD e do PS, candidatou-se pelo CDS. E diz que tem algo de monárquico. Não é um pouco confuso?


Sigo pessoas e ideias. Hoje, quando olho para os programas do PSD e do PS, rio-me porque aquilo é tudo a mesma coisa. Então o que é que interessa? As pessoas que os põem em prática.

Porque é que se candidatou à Câmara de Serpa? Acreditou que podia ser presidente? 

Absolutamente.

Perdeu a presidência e deixou de lá ir. 


Ou faço a sério ou não faço.

E ser vereador não era a sério? 


Era ir para as sessões fazer figura de parvo, dizer que não às coisas ou que sim, para depois fazerem exactamente o contrário do que eu dizia. Estavam em maioria.

Foi a única experiência na política? 

Nunca mais me apanharam...».

Nicolau Breyner: «Era boémio, anarquista e inconformado».





Localização de Serpa







«Foi no dia 1 de Agosto de 1975 que cheguei ao Brasil para iniciar uma nova fase da minha vida. Nova e, além do mais, verdadeiramente imprevisível. 

De facto, emigrar aos cinquenta e cinco anos, nas circunstâncias em que o fiz, não me permitia pensar em grandes facilidades e, muito menos, em qualquer tipo de sucesso, a curto ou a médio prazo. Como é evidente, o "longo prazo" estava, à partida, fora de todas as conjecturas, por mais optimistas que elas fossem. De qualquer modo, as perspectivas não poderiam ser piores do que aquelas que, na altura, se me apresentaram em Portugal. 

Depois de três meses de detenção em Caxias - e apesar de terem caído por terra todas as miseráveis invenções construídas com o propósito evidente de denegrir a minha imagem -, ninguém parecia disposto a permitir que eu continuasse a exercer qualquer das actividades profissionais a que me dedicava. 

Os jornais, a rádio e a TV tinham-me fechado as portas. Ainda alimentei, durante alguns meses, a esperança de que o país regressasse à normalidade, mas a verdade é que não se vislumbravam quaisquer sinais de que isso viesse a suceder, pelo menos, a curto prazo. Havia, pois, que tomar providências urgentes, antes que o telhado me caísse em cima. E foi assim que, em Julho de 75, tomei a decisão de procurar reconstruir a minha vida noutras paragens. Onde? Era um caso a pensar com ponderação, sem precipitações. 

Enquanto não me decidia pelo rumo definitivo, escolhi Paris como uma espécie de escala para meditação, até porque tinha aí a facilidade de dispor do apartamento de um amigo que o colocara simpaticamente à minha disposição. Era pouco o dinheiro de que dispunha e tinha que pensar na minha mulher e nas minhas duas filhas que, pelo menos tão rapidamente, não estavam em condições de poderem sair do País. 

Permaneci dez dias em Paris e acabei por me decidir pelo Brasil. Tinha recebido notícias de um outro amigo, que já se encontrava no Rio de Janeiro e me dava conta das diligências que estava a desenvolver, no sentido de levar por diante um projecto relacionado com a actividade bancária. Eu não possuía a mínima formação profissional nessa área, mas o meu amigo esclareceu-me que pensara em mim para o departamento de Relações Públicas e Marketing, integrado no plano em que estava a tentar interessar um banco brasileiro. 

«Nada está certo - avisou-me - mas, se a minha proposta for aceite, seria bom que cá estivesses nessa altura". 

O Brasil era uma das prioridades que eu já havia considerado e, ainda que o tal projecto não passasse disso mesmo, decidi avançar para o Rio. 

O meu amigo Manuel Barbosa - hoje, um dos mais conhecidos e activos empresários de futebol mas, na altura, apenas um profissional da área de viagens e turismo -, sabendo das minhas limitadas disponibilidades financeiras, ofereceu-me uma viagem Paris-Rio. 




Comigo, viajou o António Horta e Costa, que fora funcionário da Casa de Portugal, em Paris, e daí transitara para a delegação do Banco Pinto & Sotto Mayor, onde passou a trabalhar sob a direcção de Alfredo Jardim. Era este o amigo comum que, no Rio de Janeiro, estava a trabalhar no já referido projecto. 

De facto, de acordo com a informação que chegara até mim, nada estava ainda concretizado em relação ao plano que visava criar um departamento especialmente destinado, não apenas a captar clientes portugueses mas, sobretudo, a dinamizar os seus negócios e outros investimentos. 

Fora o facto de eu ser uma figura muito conhecida da colónia lusa, especialmente através de uma presença constante nos relatos desportivos da Emissora Nacional, com grande audiência no Brasil, que levou Alfredo Jardim a integrar-me na sua equipa, de que também fazia parte Alberto Costa, outro homem que trabalhava na dependência parisiense do Banco Pinto & Sotto Mayor, desmantelada na sequência da nacionalização da banca. 

Por compreensíveis razões de ordem económica, eu e o Horta e Costa, logo no dia seguinte à nossa chegada, tratámos de procurar um pequeno apartamento mobilado que pudéssemos partilhar. Conseguimos encontrá-lo, suficientemente confortável e em condições razoáveis de arrendamento, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, com janelas voltadas para a Avenida Atlântica, a dois passos do Hotel Miramar, em cuja esplanada se reuniam, todas as noites, muitos dos portugueses que, como nós, procuravam reconstruir as suas vidas. (...) 

Nos finais de 1977, a minha actividade era já intensa e diversificada, como, aliás, sempre foi do meu agrado. 

Assim, além de ter escrito, a solicitação do Baptista Rosa, o meu segundo livro - Português sem Portugal -, que, pela boa aceitação que teve, me proporcionou alguns proventos sempre bem-vindos, acabei por me lançar em mais uma aliciante aventura: fundar um jornal desportivo destinado especialmente aos portugueses residentes no Brasil. Foi das experiências mais interessantes da minha vida, que tive de interromper quando decidi regressar a Portugal.

(...) Depois de uma permanência de seis anos no Rio, regressei a Lisboa em Janeiro de 1981. 

Pisar de novo terra portuguesa foi, sem dúvida, uma sensação estranha e profundamente emotiva para quem chegou a emitir a hipótese de não voltar a Portugal. O país voltara praticamente à normalidade, depois de um longo período de quase permanente agitação e instabilidade. Eram evidentes algumas marcas de um passado ainda próximo, que só o tempo poderia apagar. Havia feridas por cicatrizar e muitas desconfianças e incertezas. Mas havia, em contrapartida, uma grande esperança num futuro melhor, alicerçado numa democracia que parecia, finalmente, em vias de consolidação. Toda (ou quase toda) a gente tinha uma perfeita noção da crise em que o país mergulhara e ninguém duvidava do alto preço que os portugueses teriam que pagar pela factura de muitas loucuras e erros cometidos. 



Seja como for, o Portugal que vim encontrar seis anos depois de ter partido, com tristeza e amargura, para uma aventura de desfecho imprevisível, era já um país consciente da necessidade de muitos e pesados sacrifícios. Na verdade, só assim seria possível alcançar a recuperação desejada, indispensável para definir um novo rumo, capaz de nos conduzir a um futuro melhor». 

Artur Agostinho («Ficheiros Indiscretos»). 



PORTUGUÊS SEM PORTUGAL


  (...) EU E O... «OUTRO EU»

Acordei com a estranha sensação de que não estava sozinho.

Olhei para a cama que está do meu lado direito. Vazia desde que o coronel M... se foi embora. Mas tive a impressão de que estava lá «outra pessoa». Que me pareceu ser eu próprio.

Ergui-me sobressaltado, porque tinha a certeza de que estava acordado - bem acordado. O outro fez o mesmo movimento que eu. Só que não revelava o mesmo sobressalto que eu sentira ou, pelo menos, não o aparentava. Mas o outro era... eu próprio. Como se estivesse a ver-me ao espelho.

Sentei-me na borda da cama e ele fez o mesmo. Ficou na minha frente. Com um pijama igual ao meu - exactamente como o meu.

Esfreguei os olhos para me certificar de que não se tratava de uma alucinação - do prolongamento de um sonho que não me lembrava de ter tido.

E então ele - o «outro eu» - com uma voz exactamente igual à minha, falou. Era como se me ouvisse a mim próprio. Porque era... eu que estava diante de... mim. Não podia haver a mais pequena dúvida.

- Prepara-te para passar aqui uma longa temporada! Disse-me isto, num tom arrepiantemente calmo, linear - sem a mais ligeira inflexão. E repetiu:

- Prepara-te para passares aqui uma longa temporada!

Dir-se-ia que esperava qualquer reacção da minha parte. Uma pergunta, um insulto ou uma simples gargalhada. Mas eu não senti desejos de o insultar, nem de rir. Só de perguntar:

- Porque me dizes isso? Como podes tu saber que vai ser assim? Quem to disse?


A minha pergunta foi o arranque para um diálogo que eu, no íntimo, não desejava mas que o «outro eu», estava, claramente, a provocar.

- Não preciso que ninguém mo diga. Basta pensar - raciocinar. Com lógica e objectividade.

- Mas quem te disse que eu não tenho pensado? Que não tenho raciocinado?

O «outro eu» sorriu - com um sorriso que tanto podia ser de desdém como... complacente. E continuou:

- O teu raciocínio tem tido, sempre, como ponto de partida, um facto que não interessa para este caso...

E sem que o pudesse interromper:

- Tens alicerçado o teu raciocínio no facto de estares inocente.

Reagi de pronto:

- E então? Tenho de partir de uma premissa verdadeira, incontestável. Não podia basear-me em mentiras. Chegaria a uma conclusão deformada, menos exacta. Ou será que também tu não acreditas que estou inocente?

Novo sorriso, mas agora a revelar compreensão.

- Não preciso de acreditar que estás inocente. Eu sei que estás inocente, porque eu sou... «tu próprio». Mas isso, agora, não interessa. Só te quero dizer que já devias ter seguido uma linha de raciocínio diferente da que tens seguido. Acabas por pecar por falta de originalidade.

Não encontrei resposta de imediato e ele prosseguiu:

- Tens que ser mais realista - mais objectivo.

E numa mudança brusca de tom:

- Não achas estranho e destituído de lógica que estejas aqui há mais de um mês?

- Sim... mas há muita gente para ser ouvida... e talvez pouca para ouvir. Há mais pessoas em situação idêntica à minha.

- Deixa, por agora, os outros. Estamos a tratar apenas do «nosso» caso.

- Do... «nosso» caso?


Os três astronautas que supostamente realizaram a histórica viagem à Lua marcaram presença na primeira sessão do Curto-Circuito. A imagem regista o momento em que eram apresentados ao público português.

- Sim, do «nosso». Já te expliquei que eu sou... «tu próprio». Deixa de ser burro e pensa comigo. Sabes que, não há muito, houve quem quisesse afastar-te da televisão. E sabes também que o conseguiram...

- Não completamente...

- Eu sei. Depois de uma grande «odisseia» de esclarecimento acabaste por ficar a fazer um pequeno programa semanal, cuja produção, aliás, não corria lá pela casa. Acreditaste que o assunto estava encerrado. Não consideraste, por exemplo, a hipótese de haver quem não tivesse gostado desse desfecho.

- Por acaso, considerei...

- Pois é. Mas não admitiste que houvesse uma segunda ofensiva...

- Não... confesso que não!

- E depois não queres que te chame ingénuo ou... burro!

(Era a segunda vez que ele me chamava burro. E eu começava a pensar que ele talvez tivesse razão).

Como não tivesse reagido, ele continuou:

- Pois foi o que aconteceu. Veio o segundo ataque. Calculo que muito bem engendrado, magnificamente encenado e muito bem apoiado.

- Não percebo o que queres dizer com o «muito bem apoiado!?»...

- Se não percebes, também não vou, agora, perder tempo a explicar-te. Em todo o caso, sempre te lembrarei que um boatozinho posto a correr ou uma calúnia que se faz circular, inofensivamente, resulta sempre num apoio excelente para quem tem em vista determinados objectivos. Mas, adiante... Como ia dizendo, veio o segundo ataque.

- Mas porque não veio logo a seguir à tal «odisseia» de esclarecimento de que me falaste há pouco?

- Tenho de te chamar burro pela terceira vez! Porque não era a táctica mais indicada. Podia desmascarar o seu autor ou os seus autores.

- Queres dizer que...

- ... Que ele (ou eles) acharam preferível que tu deixasses de estar em guarda e esperar a primeira grande oportunidade que surgisse. Entretanto podiam, até, aproveitar para dar uns retoques convenientes ao plano de ataque.

 - Mas... que retoques?

- Por exemplo, reavivar os boatos que se tinham diluído um pouco. Recriar as calúnias já inventadas e que começavam a ser esquecidas. Ou... inventar outras novas e de efeito mais seguro.


Aos 25 anos, no auge da popularidade na Rádio. Era, então, o homem dos Serões para Trabalhadores e do Programa da Manhã. O Desporto e o Cinema viriam logo a seguir.

- Não quero acreditar numa coisa dessas...

- Mas tens que acreditar. E, até, que admitir que haja quem seja capaz de tudo. Que diabo, tens lido aqui tantos livros policiais e não te passou, ainda pela cabeça, que há indivíduos capazes, até, de forjar documentos, de falsificar outros, de imitar assinaturas?... Há de tudo, meu velho...

- Não... não... Tu estás a querer assustar-me...

- Meu caro, eu desejo apenas que te mentalizes para uma permanência mais longa do que supões. Se assim for, melhor para... «nós»!

- Mas as pessoas que estão a tratar deste assunto não vão deixar-se enganar por uma... «vigarice» qualquer. Tenho a certeza de que querem, apenas, fazer justiça. Admito, até, que tenha havido um lapso ou uma precipitação.

- Não acredites nisso! Eles que te foram buscar naquela madrugada, é porque alguém os tinha alertado, a respeito de supostas actividades tuas... Não penses que fizeram um sorteio para prender as pessoas, e que tu foste um dos contemplados... Não me obrigues a chamar-te...

- ... já sei: burro!

- Isso mesmo! Vês, como começamos a entender-nos? E agora vai tomar um duche frio, que bem precisas. A seguir, tenta encaixar o meu raciocínio naqueles que tens desenvolvido agora. Verás que é possível estabelecer certas ligações entre diversos factos.

- Pensas, realmente, que vou passar aqui uma longa temporada?

Sorriu enigmaticamente:

- Eu disse, apenas, que te preparasses para isso...

Levantei-me maquinalmente. Despi o pijama e entrei no pequeno banheiro. Abri a torneira da água fria e fiz o que ele me disse. A princípio custou-me. Quase me faltou o ar. Depois, senti-me bem. Limpei-me e quando saí, ainda a esfregar a cabeça, voltei-me para a cama que, durante tanto tempo estivera vazia, e disse:

«Obrigado pelo conselho. o duche...».

Não completei a frase. Ele já lá não estava. Voltei a sentar-me na borda da cama e depois comecei a vestir-me. Na minha frente, só uma daquelas paredes brancas da cela. O «outro» tinha desaparecido.

Naturalmente, nunca lá tinha estado.



Prisão de Caxias


A porta abriu-se e o funcionário que serve o café com leite - rapaz amável e simpático - atirou-me um «bom dia» muito jovial e disse a sorrir:

- Nunca mais deixo de servir o 28! Parece que o senhor está com vontade de passar cá uma grande temporada...

Agradeci e exibi um sorriso (amarelo), para ele não perceber que eu não gostara da expressão «passar cá, uma grande temporada».

(...) MANOBRAS DE BASTIDORES

Passados dois ou três anos de actividade na Emissora Nacional, alguém se lembrou de que era necessário regularizar a situação dos locutores que tinham ingressado na equipa do Quelhas através de... concurso particular.

Ainda houve quem aventasse a hipótese de regularização, com base nas provas prestadas, mas era preciso respeitar a lei e esta dizia que o «concursozinho» era indispensável.

Por mim, achava tudo aquilo de um ridículo incomensurável. Um sujeito que todos os dias lia notícias, fazia reportagens, apresentava programas musicais, que - numa palavra - fazia «todo o serviço», ter que se sujeitar a ser «examinado» sobre essas mesmas matérias, era coisa que não cabia na cabeça de ninguém.

Mas lá fomos prestar provas perante o circunspecto júri, constituído por uns senhores que sabiam muitíssimo bem se nós éramos ou não capazes de ocupar os lugares que... já ocupávamos há anos.

Verdade que o presidente do júri - o poeta Silva Tavares -, que também considerava aquilo um «concurso de opereta», resolveu simplificar as provas ao máximo, transformando-as num simples «pró-forma».

Foi assim que eu, a Joana Campina e a Maria Leonor, que entrara pouco depois de mim (também por concurso particular), passámos a ser oficialmente aquilo que já éramos, há muito: locutores de terceira classe da Emissora Nacional, com o chorudo vencimento de 900 escudos mensais.

Passava-se isto por volta de 1947...

Mais tarde, houve concurso para preenchimento de vagas de locutor de segunda e lá fui outra vez, tendo sido classificado (como no anterior) em primeiro lugar.

O grande problema surgiu, anos depois, com a realização do concurso para o preenchimento da única vaga existente no quadro de locutores de primeira classe.

Os candidatos eram quatro para a tal vaga solitária.

Fizeram-se as provas e, depois de muitas manobras de bastidores, afixaram no hall dos estúdios a pauta das classificações. Era eu, mais uma vez, o primeiro classificado. Seria eu, portanto, a ocupar a vaga existente.

Seleccionando os pedidos (mais de um milhar por semana) dos ouvintes do programa Que Quer Ouvir?

Porém, as manobras não haviam cessado e eu iria esperar cerca de quatro anos pelo lugar que, legitimamente, me pertencia.

A pauta com as classificações foi retirada da parede onde estivera episodicamente e eu fiquei a aguardar a promoção. Da qual ninguém me voltou a falar.

Naquela época eu dava pouca importância a essas questões burocráticas e, durante muito tempo, não liguei ao assunto. Fundamentalmente, eu trabalhava por amor à profissão, mas acabei por achar tudo muito estranho. Para mais, sabia que tão insólita demora estava a ser provocada por certas «forças» internas, mais interessadas na promoção de um dos outros candidatos. Tive informações seguras de que se haviam movido grandes influências para alterar a decisão do júri do concurso, embora ela tivesse sido tornada pública em devido tempo.

Um dos argumentos invocados, ao mais alto nível, para que fosse preterido era o de que eu «não era pessoa de confiança política» (!).

Não deixa de ser curioso referir o facto, agora que em Portugal «a política mudou por completo».

Assim, antes do 25 de Abril fui prejudicado na promoção a que tinha direito por haver dúvidas (inventadas, claro) acerca do meu comportamento político. Os que me prepararam uma «rasteira» diziam que eu não era... «afecto ao regime vigente». Depois do 25 de Abril, os que decidiram «liquidar-me» trataram de afirmar que eu estava... comprometido com o regime deposto.

Tenho de concluir que o meu Destino é ter de viver sem... regime. Seja ele de esquerda, do centro ou da direita. Convenhamos que já é preciso ter azar.

Também quero esclarecer, para que não se pense que pretendo agora «armar em vítima» do antigo regime, com quaisquer intenções reservadas, que vivi sempre alheado da política. Era mesmo - devo confessá-lo - um homem mal informado sobre a matéria. Culpa minha? Talvez.

Aliás, confesso a minha falta de vocação para tal actividade, agravada pelo facto de ter, desde muito jovem, uma vida extremamente absorvente pelas actividades profissionais a que me dediquei.

Mas, voltemos ao celebérrimo concurso.

Quatro anos depois das provas prestadas e de não ter sido dado andamento ao processo de promoção, «picado» por alguns colegas, resolvi fazer um requerimento a solicitar a solução do problema.

Como não me dessem qualquer resposta, fiz um segundo requerimento, com o mesmo resultado do primeiro.

Lançado, decididamente, na «guerra» que decidira travar - e revoltado com o silêncio que a Direcção da Emissora Nacional mantinha, em relação aos meus dois requerimentos - resolvi não «deixar correr», como fizera durante cerca de quatro anos. Comecei a fazer perguntas, a querer saber «como era» e a sugerir, veladamente, que estava disposto a ir até onde fosse preciso para esclarecer o assunto.

Antes de um espectáculo de gala junto de dois colegas já desaparecidos: Fernando Frazão (ao centro) e Nuno Fradique (à esquerda). Ambos foram locutores da Emissora Nacional, antes de terem transitado para a RTP onde se afirmaram como dois dos seus melhores realizadores.
Foi, no decurso dessas minhas diligências, que ouvi falar na tal questão de... «confiança política». Era, no fim de contas, uma explicação» demasiadamente ingénua para conseguir convencer qualquer pessoa com dois dedos de inteligência. Pois se eu não era «de confiança» para exercer as funções de locutor de primeira classe, como o poderia ser para ser... locutor de segunda? Até porque as tarefas distribuídas eram as mesmas, independentemente da tal «classe» - outro aborto da regulamentação dessa época, que não sei se ainda se mantém.

Um dia decidi falar com o presidente da Direcção, que era, nessa altura, o senhor António Eça de Queiroz e «andava de candeias às avessas comigo» por força de certas intrigas mais ou menos... «palacianas».

(Mais tarde, já reformado, o senhor Eça de Queiroz teve a dignidade de me afirmar que havia sido enganado a meu respeito por pessoas interessadas em deformar a minha verdadeira imagem e que - reconhecera-o tarde demais - havia sido injusto comigo. Apreciei a sua humildade e ficámos amigos).

Como ia dizendo, o então presidente da Direcção da Emissora Nacional recebeu-me com muita frieza, mas educadamente, como era seu timbre, e afirmou-me que os meus requerimentos tinham seguido para a Presidência do Conselho, que não lhes dera despacho. Não «engoli» a explicação, por considerar injustificável que um assunto de lana caprina ficasse na «pasta dos assuntos pendentes» do Presidente do Conselho. No entanto, decidi jogar uma cartada que viria a ser decisiva. Disse ao presidente da Emissora que, sendo assim, iria escrever uma carta ao Presidente do Conselho para saber, concretamente, o que havia contra mim.

Creio que a «habilidade» foi decisiva, pois - soube-o mais tarde - os meus requerimentos nunca haviam passado dos serviços de secretariado do senhor Eça de Queiroz.

Passados alguns dias fui chamado ao senhor presidente que me disse que o meu problema estava, finalmente, resolvido, pois a Direcção de Emissora Nacional havia insistido, na Presidência do Conselho, no sentido de uma rápida solução.

Assim, quatro anos decorridos sobre o meu último concurso fui, finalmente, promovido a locutor de primeira classe que, na altura, valia o vencimento de 4 500$00 mensais - com os descontos, cerca de 3 600$00 escudos!

Será bom não esquecer que a «protecção» que os homens do antigo regime me dispensavam não ficou por aqui em matéria de benefícios morais e... materiais.

Mais tarde, surgiu uma alteração à lei que permitia que os locutores de primeira, os assistentes de primeira e não sei se mais alguns «não sei quê» de primeira, pudessem concorrer a chefes de secção. Mesmo que não tivessem as condições exigidas aos candidatos de fora, isto é, o tal «canudinho» que tantas portas abriu a algumas das mais «notáveis» inteligências do meu País.

Com Pedro Moutinho e Henrique Mendes, num momento bem humorado do show que o empresário Vasco Morgado, durante meses, apresentou a anteceder as sessões de cinema do Monumental e em que os três participavam como "mestres de cerimónias".

Nessa altura, eu trabalhava quase exclusivamente em reportagem geral e no sector desportivo. Houve, naturalmente, quem pensasse que a chefia da secção de reportagem e desportos estava talhada para mim, mas houve quem contrariasse essa opinião, por força de certos compromissos pessoais. Como argumento fundamental, para defesa dessa tese, pessoa com responsabilidade afirmava que eu era... «demasiado complicado, pois tinha a mania das inovações».

De facto, eu era «complicado» por não aceitar a inércia, o «deixa andar», o desleixo no trabalho que se oferecia diariamente ao público e muitas outras coisas que o meu conceito de profissionalismo não podia aceitar nem compreender. Também é verdade que tinha uma ânsia de «renovação», procurando fugir à rotina cómoda e fácil, que era o denominador comum de muita gente que pululava pelo Quelhas. Eu entendia como indispensável, a modernização dos processos de trabalho, o estudo e adaptação de certos esquemas postos em prática, com êxito, noutros países. Havia quem considerasse essa ânsia uma coisa demasiadamente trabalhosa e, portanto, demasiadamente... «chata». A estagnação, o imobilismo e o monolitismo, tornavam tudo mais fácil e sem riscos de qualquer espécie. Na Emissora Nacional dominava o princípio de que era preciso que os «carrilhões» e o «sinal horário» entrassem no ar no momento exacto. Que os «mapas horários» com a discriminação dos discos a incluir em cada uma das obsoletas rubricas que, em certos casos, se mantinham anos a fio, estivessem muito bem dactilografados e com os «vistos» de todos os chefes e subchefes. Que ninguém falhasse a assinatura do ponto e que as justificações de faltas fossem entregues a tempo e horas. Que não se falhasse a reportagem da inauguração do fontenário ou do descerramento da placa com os discursos da praxe, Que não se deixasse de citar, nesta ou naquela notícia, a presença de certos senhores «muito importantes». E assim por diante.

Quanto ao conteúdo dos programas, à actualização dos discos e até aos dislates que se diziam aos microfones - isso era o que menos interessava. O que era preciso era preencher as horas de emissão - «encher chouriços», fosse como fosse.

Por isso, todo aquele que pretendesse introduzir a mais ligeira alteração nos rotineiros processos do Quelhas, encontrava fatalmente uma barreira dificílima de transpor.

Lembro-me de ter travado - juntamente com alguns outros desejosos como eu de inovar alguma coisa - lutas verdadeiramente dramáticas e exaustivas. A tal ponto que se, por vezes, conseguíamos por fim conquistar o direito a fazer qualquer coisa, já não tínhamos forças, nem ânimo, nem disposição para levar a cabo os planos que tão entusiasticamente havíamos traçado.

Havia, pois, uma «resistência passiva» a todos os «inovadores» que não interessava pudessem ocupar certos postos de chefia. Iriam, provavelmente, dar muito trabalho a quem queria limitar-se a... cumprir o horário e «viva o velho».

Naturalmente eu estava condenado a não ser chefe de secção e chegaram mesmo a sugerir-me que não me apresentasse a prestar provas quando o concurso fosse feito, pois era capaz de... reprovar.

A verdade é que os «patrões» da Emissora Nacional, depois de abertas as inscrições, trataram de preencher muitos lugares de chefia por... convite ou interinamente, escolhendo quem muito bem lhes apeteceu.


Com Alice Cruz na apresentação de um festival da Canção.


Como é evidente, nenhum dos locutores de primeira classe foi escolhido ou... convidado e as provas ficaram para mais tarde. Se a memória me não falha, creio que ele acabou por se realizar. Mas, ou eu já estava na situação de licença ilimitada ou acabei por me desinteressar da promoção.

E assim, também um João da Câmara, um Pedro Moutinho e uma Maria Leonor, com inegável capacidade para irem mais além, foram preteridos para que alguns «senhores doutores» pudessem ocupar certos postos de chefia, mesmo que para tal não fossem os mais indicados.

(...) BARREIRO - TERRA PROIBIDA

Não foi uma «estreia» a minha prisão em Setembro de 1974.

Já passara por essa sensação alguns anos antes. Por duas vezes fui preso no Barreiro, ainda que em circunstâncias bem diferentes das que ocorreriam quinze anos mais tarde.

A primeira foi em Outubro de 1959 e a segunda em Março do ano seguinte, portanto cerca de cinco meses depois. As duas prisões estão, no entanto, intimamente ligadas e vale a pena relatar os acontecimentos que, mais uma vez, servem para demonstrar os «privilégios» de que eu beneficiava nos tempos do antigo regime.

Qualquer das prisões - a primeira das quais culminou com um insólito julgamento no tribunal do Montijo, cerca das onze horas da noite - foi executada pela Guarda Nacional Republicana, na pessoa de um capitão de nome Monteiro da Graça, e que bem pode ser considerado como um homem ao estilo do famigerado ex-COPCON.

Naquela época, a Guarda Republicana era «dona e senhora» do Barreiro que - pode dizer-se - era uma espécie de... país à-parte do próprio País.

Ali, as leis gerais não contavam. O comandante do posto da GNR era um autêntico «reizinho», que punha e dispunha a seu belo prazer. Como aconteceu no meu caso.

Para que não se pense que o relato dessa minha curiosa «aventura» possa ser influenciado por qualquer facciosismo da minha parte, vou socorrer-me da cópia de documentos que tenho em meu poder e que constituem um interessante e esclarecedor dossier das minhas «odisseias» barreirenses.

Transcreverei apenas os pontos fundamentais desses documentos para não tornar demasiadamente fastidioso este capítulo, inevitavelmente extenso.

O assistente dos Serviços do Exterior relata, assim, a minha prisão de 4 de Outubro de 1959:

«Chegámos ao local onde sempre nos fora permitido sair dos carros e onde, até há quinze dias, data em que se deu outra ocorrência também com o comandante da GNR, senhor capitão Monteiro da Graça, sempre fôramos autorizados a descarregar o material. Ordenámos ao motorista que parasse, apenas para a saída do pessoal, e seguisse imediatamente para o parque de estacionamento, então indicado por aquela autoridade (distanciado quinze metros), para aí efectuarmos a descarga.

«No local não existia qualquer sinal de estacionamento proibido e o trânsito era diminuto, como é fácil de calcular, pois chegámos ali cinquenta minutos antes da hora marcada para o começo do jogo.

«Apesar disso e embora por breves momentos - necessários à saída do pessoal - o carro estacionou à direita da faixa, junto da berma, e numa reentrância da vedação de um quintal ali existente, permitindo-se, assim, em caso de necessidade, liberdade de perfeita passagem para outros veículos.


Quartel do Carmo, Sede do Comando-Geral da Guarda Nacional Republicana (GNR) desde 1868.



«Quando todos os elementos da brigada, com excepção do motorista, já se encontravam fora da furgoneta, devidamente identificada pelas duas chapas "Estado» (à frente e na retaguarda) e a indicação "Emissora Nacional", em letras metálicas - aproximaram-se de nós um praça da GNR, que deu a indicação para o carro seguir imediatamente para o já citado parque, um tenente da mesma Corporação e o comandante. Este, agarrando violentamente por um braço no nosso colega Artur Agostinho - o elemento da brigada que de si estava mais próximo - ordenou-lhe, ostensiva e intempestivamente, que tomasse de novo lugar no carro - ordem, aliás, extensiva a todos nós.

«Perante a recusa, não só daquele nosso colega como dos restantes elementos da brigada, em dar cumprimento a uma ordem que, desde logo, nos pareceu destituída de fundamento legal, o senhor capitão Monteiro da Graça deu voz de prisão àquele nosso colega, que se limitava a pedir-lhe que não o agarrasse, pois não fugia, e conduziu-o num jipe para o posto da GNR daquela vila».

«Enquanto aguardávamos instruções de Lisboa, procurámos entrar em contacto com o nosso colega detido, o que não nos foi consentido, dada a rigorosa incomunicabilidade ordenada pelo senhor capitão Monteiro da Graça, com quem jamais conseguimos voltar a falar, por se desconhecer o seu paradeiro».

O tratamento que recebi no posto da GNR do Barreiro foi simplesmente humilhante. Tiraram-me todos os objectos que tinha comigo, incluindo os cigarros, o cinto e os atacadores dos sapatos. Cerca das vinte horas, fui levado a uma sala para registo das impressões digitais, o que foi repetido e tornado a repetir, mais tarde, apenas para me obrigarem a interromper a refeição que tive de mandar vir de um restaurante próximo e pagar do meu bolso.

Cerca das vinte horas fui levado à presença do «zeloso» capitão, que me informou que iria ser julgado, nessa mesma noite, no tribunal do Montijo, que se situava a alguns quilómetros do Barreiro. Acrescentou que, para a minha deslocação, havia duas opções à minha escolha: ou pagava o aluguer de um carro ou iria a pé, sob escolta.

Farto de tanta indignidade e das constantes manifestações de autêntica paranóia do «senhor capitão», respondi-lhe que «nem pagaria o aluguer do carro, nem me parecia possível o "passeio" a pé, sob escolta». Esclareci-o que era muito provável que tivesse de me levar de rastos caso insistisse na segunda alternativa, o que constituiria, sem dúvida, um «belo espectáculo». Como seria, também, um excelente «acto promocional» para a Corporação a que pertencia.

Acabaram por me levar num jipe, em que viajei acompanhado por um tenente e por um sargento de aspecto tenebroso - tipo «Gestapo» - que usava óculos de vidro fumados, talvez para esconder os seus olhos impregnados de ódio e de requintada malvadez.

A notícia da minha prisão correra veloz e o mesmo aconteceu em relação àquele julgamento, tão estranhamente marcado para as onze horas da noite.

A sala de audiências foi pequena para conter a multidão que ali acorreu e muitas centenas de pessoas ficaram na rua, aguardando o resultado do julgamento.


Brasão da GNR


O capitão Monteiro da Graça mentiu ao tribunal o mais que pôde, na ânsia de demonstrar que eu havia cometido um «crime gravíssimo». E foi, mais longe, na sua incompreensível obsessão de me «enterrar até ao pescoço». Ensaiou dois ou três soldados que serviam sob as suas ordens, obrigando-os a decorar um depoimento que pecou por... tirado a papel químico.

O capitão e seus acólitos acabaram por se cobrir de ridículo perante toda aquela gente que, ao ser proferida a sentença, os vaiou ostensivamente.

Fui absolvido por um juiz íntegro - o dr. Adrião Alves Branco -, que não receou desagradar à então poderosa Guarda Nacional Republicana.

Não quero deixar de transcrever um ponto importante dessa sentença:

«Do exposto resulta, pois, que a ordem dada pelos elementos da Guarda Nacional Republicana, ao réu e aos restantes indivíduos que compunham a brigada de exteriores da Emissora Nacional, ordem que consistia em reentrar no veículo deste organismo, ali em serviço, e de onde com esse fim se apearam, não tem conteúdo legítimo ou fundamento legal. Portanto, não lhe é devida obediência».

Provavelmente, para salvaguardar o «prestígio» da GNR e por uma questão de «espírito do corpo», o capitão Monteiro da Graça foi mantido no seu posto de comandante do Barreiro, portanto com todas as possibilidades de continuar a cometer as arbitrariedades que entendesse.

Ninguém quis saber se a sua triste actuação tivera, ou não, reflexos desprestigiantes para a GNR. Também ninguém se preocupou com o facto de ele ter desrespeitado os mais elementares deveres militares, mentindo descaradamente num tribunal, onde não hesitou em dar «a sua palavra de oficial» como aval de tão mal arquitectadas «invenções».

Hoje, ao passar em revista o comportamento de «outros Monteiros da Graça», que mentem descaradamente ao Povo de um País em plano inclinado; que inventam reaccionários e contra-revolucionários com uma facilidade impressionante; que forjam «malfeitores» entre pessoas de bem, já não me surpreende o que se passou no Barreiro, em Outubro de 1959.

Como não me surpreende o que se passou alguns meses depois - em Março de 1960 -, com os mesmos intérpretes do primeiro acto desta «história» rocambolesca.

De facto, o capitão Monteiro da Graça não me perdoara o «crime» de ter sido absolvido e havia jurado vingança. Que pôs em execução quase seis meses depois.

Recusei-me, durante algum tempo, a fazer serviços no Barreiro. Porque não me sentia obrigado a correr o risco de voltar a ser humilhado por um capitão sem «estatura militar». Além de que, o comandante-geral da GNR, apesar de solicitado nesse sentido, nunca se dignou dar resposta ao pedido da Emissora Nacional para que fossem dadas as indispensáveis garantias ao seu pessoal que, eventualmente, tivesse que se deslocar ao Barreiro.


Localização do Barreiro




Mas o tempo foi passando e todos se convenceram de que o incidente estava esquecido. Que não iria, por certo, repetir-se uma cena como aquela que culminaria no tribunal do Montijo.

E um dia, tive mesmo que voltar ao Barreiro para um relato de futebol.

O «simpático» capitão deve ter exultado de alegria quando soube que eu estava, de novo, ali mesmo «à mão de semear».

Fui, novamente, detido. Desta vez já dentro do campo de futebol, momentos antes de principiar o meu trabalho.

O tenebroso sargento veio «pedir-me amavelmente» que fosse falar com o «senhor capitão», que estava junto aos balneários. Acedi imediatamente ao «convite» e, uma vez na presença do empertigado comandante, recebi dele outro «convite» - este no sentido de o acompanhar ao posto da Guarda.

Com uma paciência evangélica segui-o disciplinadamente, embora o jogo de futebol que ia relatar estivesse a começar naquele momento.

Quando chegámos ao nosso destino, o capitão deu-me, desabridamente, voz de prisão; mandou proceder à minha identificação e deu meia volta, pronto a regressar ao... futebol.

Achei que tudo aquilo ultrapassava os limites da paciência humana e com voz firme e decidida disse-lhe:

- «O senhor tem que me dizer por que razão estou preso!».

O capitão parou subitamente, talvez surpreendido com a minha reacção. Voltou apenas a cabeça e disse, depois de breve hesitação:

- «Está preso por suspeita!».

A resposta não me pareceu suficientemente esclarecedora e - já ele se dispunha a seguir o seu caminho - insisti:

«Suspeito de quê?».

Os olhos do capitão fixaram-se de novo em mim, mas, desta vez, com um brilho especial - uma mistura de ódio e de espanto. Era mais do que evidente que o homem não estava preparado para aquela pergunta «atrevida». Voltou a hesitar, mas acabou por encontrar uma saída airosa.

- «Está preso por suspeita de actividades subversivas!».

E lá se foi apressadamente, talvez para evitar que o diálogo se prolongasse.

Fiquei atónito, Como ficaria, alguns anos mais tarde, ao ouvir um dos oficiais do COPCON dizer-me, na madrugada de 28 de Setembro de 1974, que estava preso por... «suspeita de pertencer a uma associação de malfeitores».






Ver aqui

Relativamente à minha primeira prisão, deram-me melhor tratamento quanto ao local em que me alojaram. Não fui levado para uma cela mas sim para uma sala, onde tinha, pelo menos, a possibilidade de me sentar com relativa comodidade.

E comecei a pensar no que iria «inventar» o tresloucado capitão para alcançar o objectivo que não conseguira na sua primeira tentativa.

O caso, agora, apresentava-se de forma bem diferente. Já não se tratava de «desobediência à autoridade», que ele invocara da primeira vez, mas de algo mais complicado, capaz de permitir uma detenção mais prolongada, com averiguações confiadas à corporação especializada nesse tipo de «problemas».

Apesar de naturalmente revoltado com tão insólita atitude, decidi aguardar, com a maior calma possível, o desenrolar dos acontecimentos.

Passaram-se algumas horas. O jogo de futebol, que não cheguei a relatar, já tinha terminado há muito quando me levaram à presença do capitão.

Entrei no seu gabinete com mais curiosidade do que preocupação.

De facto, durante aquela longa espera eu concluíra que não poderia ser difícil fazer desmoronar qualquer história de «actividades subversivas» arquitectada por aquele «incrível» oficial da Guarda Nacional Republicana - um homem que tanto podia ser movido por uma dose invulgar de maldade, como por um lamentável desequilíbrio mental.

Mandaram-me avançar até junto da secretária do ridículo «hitlerzinho». Ele estava de pé, com um volumoso dossier, que folheava sem nexo. À procura de... nada. Apenas para encenar a comédia que se preparava para representar.

Durante alguns minutos o «terrível» capitão não fez outra coisa que não fosse passar folhas, voltar atrás, tornar a passar - como se procurasse alguma coisa «muito importante». Por fim, interrompeu a sua peregrinação sem nexo pelas folhas do volumoso dossier, que fechou num gesto pretensamente triunfalista, ergueu os olhos para mim e disse:

- «Tenho aqui a documentação sobre as suas actividades subversivas. É um processo que temos de averiguar...».

Interrompeu-se, esperando talvez que eu dissesse alguma coisa. Mas, naquele momento, pareceu-me que a melhor resposta que lhe poderia dar era... ficar calado.

O «fuerherzinho» do Barreiro acusou o meu silêncio, que não lhe agradava, e gritou:

- -Não ouviu o que eu lhe disse?».

- «Ouvi. Agora estou à espera que averigue...».

Era evidente que o meu tom - calmo e um tanto irónico - o irritou. Adivinhei-lhe um grande esforço para se dominar. Abriu, novamente, o dossier e perguntou:

- «O senhor assinou a lista da oposição em 1949?».

- «Não, senhor!».




- «Tem a certeza?».

- «Tenho».

- «Não é isso que consta aqui».

Apeteceu-me dizer um palavrão, mas contive-me. Contei mentalmente até dez e disse:

- «Acho muito estranho que tivessem estado tantos anos à espera que eu viesse ao Barreiro para me fazerem essa pergunta. Podiam ter-me levado à rua António Maria Cardoso para me interrogarem sobre o assunto. Era mais prático».

O capitão não gostou da lógica da minha observação, mas torneou o obstáculo:

- «Este processo não foi organizado pela PIDE. Foi organizado aqui, com base nos contactos que o senhor tem mantido com elementos suspeitos no Barreiro...

Vi-o a sorrir, com aquele sorriso vitorioso dos energúmenos que se supõem geniais. Mas não o deixei gozar por muito tempo o efeito das suas palavras. Atirei-lhe, de imediato, com uma pergunta inocente:

- E deixaram-me à solta todos estes anos, correndo o perigo de permitir que eu fizesse alguma coisa que pusesse em perigo o regime? Acho que o senhor devia ter avisado a PIDE para me deitarem a mão...».

Foi como se lhe tivesse dado uma alfinetada. O capitão empertigou-se, fez-se vermelho, atirou com o dossier para cima da secretária e berrou:

«Isso não é da sua conta!».

Deu três passos em direcção à janela do gabinete, voltada para um largo onde havia muita gente aglomerada, voltou-se num repente, avançou para mim e perguntou:

- «Quem era o homem de samarra azul com quem o senhor falou, quando entrou no campo de futebol?».

(Eu tinha realmente, falado com o antigo futebolista Armando Carneiro que vestia uma samarra azul, mas decidi ver até que ponto seria o capitão capaz de levar aquela autêntica comédia).

- «O senhor tem a certeza que eu falei com um homem de samarra azul?».

- «A certeza absoluta. E preciso de saber quem é ele. Trata-se de um indivíduo suspeito».

Tive uma vontade enorme de dar uma gargalhada, mas achei mais conveniente não o fazer. Revesti-me da expressão mais seráfica que me foi possível arranjar e limitei-me a observar:

- «Valha-o Deus, senhor capitão! Então o senhor tem um homem suspeito, ali à mão de semear, e deixa-o desaparecer da circulação? Por que razão não o prendeu? A esta hora já saberia quem ele é...».

O «aprendiz» de oficial da «Gestapo», sentiu-se em terreno movediço. Fingiu não ter ouvido e mudou de assunto:

- «Quem são as pessoas aqui do Barreiro com as quais o senhor mantém contactos assíduos?».


Em 1972, após o campeonato de Futebol, com Jairzinho - famoso craque "brasileiro" - que foi convidado de honra do programa televisivo Curto-Circuito, apresentado no Teatro Monumental. Aqui o vemos, bem como Baptista Rosa, no decorrer da conferência de imprensa que antecedeu a realização do programa.

Uma vez mais, respondi serenamente:

- «Conheço poucas pessoas no Barreiro. É muito raro vir aqui...».

O capitão deve ter sentido que estava, finalmente, no caminho certo. E insistiu:

- «Vamos! Quem são essas pessoas? Quero os nomes!».

Fingi puxar pela memória durante meia dúzia de segundos, enquanto observava a expectativa do meu interrogador. Depois, comecei a responder:

- «Bem... as pessoas daqui, com quem tenho falado mais vezes...».

Fiz uma nova pausa, confesso que um bocadinho provocante. Que resultou em cheio porque ele queria «agarrar pelos cabelos» qualquer hipótese que lhe permitisse aguentar-me ali o máximo de tempo possível.

- «Venham os nomes!».

Recomecei:

- «Bem... as pessoas com quem tenho falado mais vezes são... o Augusto e a Maria de Lourdes Rezende!».

O capitão não explodiu, apenas porque sendo todo ele... bílis, não tinha lugar para um bocadinho de pólvora!

Foi com dificuldade evidente que conseguiu dominar-se, mudando outra vez o rumo do seu interrogatório:

- «Com quem é que o senhor preparou uma manifestação hostil à Guarda Republicana?».

- «Não percebo!» - respondi.

- «Sim, o senhor sabe muito bem que lhe tinha sido preparada uma manifestação de simpatia no Barreiro, quando entrasse no campo e que isso equivalia a um agravo para a GNR».

Com evangélica paciência, retorqui:

- «Se a GNR sabia que isso iria acontecer, por que razão não tomou providências para evitar a minha vinda ao Barreiro? Bastaria ter solicitado à Emissora que não me escalasse para este serviço...

- «Apenas soube da sua vinda quando você chegou ao Barreiro...».

O argumento era débil demais e a minha observação era inevitável.

- «Mas o senhor sargento, que aqui está, viu-me muito bem à entrada do campo e até me pediu os meus documentos de identificação... Teve, portanto, oportunidade de evitar o meu ingresso...».

A perturbação do capitão aumentava, à medida que via tornarem-se inúteis todos os seus esforços para me vencer com... palavras. Mas ele não era homem para desistir.


1977. Estádio da Luz (Lisboa). Ao serviço da Rádio Globo, Artur Agostinho deslocou-se a Lisboa para comentar o encontro do Benfica com a equipa das Antas, fazendo dupla com António Porto, narrador desportivo daquela emissora brasileira. Na imagem, pode-se ver o jornalista Alfredo Farinha.

- «Não ouviu os aplausos da multidão quando entrou?».

- «Não! Não ouvi coisa nenhuma. E devo dizer-lhe que os aplausos eram difíceis, na circunstância...».

- «Difíceis, porquê?».

Vi o capitão respirar fundo, cerrar e fechar furiosamente as mãos, que talvez preferisse aplicar no meu pescoço. Deu mais dois passos em direcção à janela e outros tantos para regressar ao ponto de partida. Depois, desabridamente, voltou-se para o tenebroso sargento de óculos com vidros fumados e disse-lhe:

- «Leve-o!».

O obediente acólito do «Himmlerzinho» do Barreiro, sorriu - embora o seu sorriso fosse amarelo - e fez-me um sinal para que o seguisse.

Foi o que fiz, regressando à sala que me servia de cela.

Confesso que, apesar de farto daquela comédia mal encenada, estava satisfeito comigo mesmo. Conseguira manter a maior serenidade e - o que era mais importante - conseguira descontrolar e desorientar o meu ridículo «carrasco».

Passou-se mais uma hora e o eficiente sargento levou-me, de novo, ao gabinete do seu «patrão».

Uma vez na presença da sinistra e inquietante figura do oficial, preparei-me para mais uma «ofensiva». Afinal, «sua excelência» resolveu adoptar outra técnica. Surpreendentemente, voltou-se para mim e disse-me:

- «Vou mandá-lo embora, mas não pense que isto fica por aqui. As averiguações vão continuar em Lisboa».

- «Acho muito bem - retorqui. - Até porque sou eu próprio quem vai pedir um inquérito, através do Organismo de que sou funcionário».

O capitão fingiu não me ouvir. E acrescentou:

- «Pode sair».

Olhei pela janela e vi que lá fora continuava aglomerada uma pequena multidão que esperava, por certo, o desfecho do episódio. Lembrando-me do que ele me dissera pouco antes, acerca de manifestações hostis à Guarda Nacional Republicana, observei com toda a serenidade:

- «Só sairei daqui depois do senhor mandar chamar um táxi que me leve ao cais de embarque».

Pareceu ficar surpreendido, olhando para mim de sobrolho carregado. Mas eu expliquei:

- «Está lá fora muita gente e quando eu sair pode alguém lembrar-se de me felicitar por regressar à liberdade. Claro que, nessa altura, o senhor dirá que eu provoquei uma manifestação hostil à GNR e volta a prender-me. Ora, a verdade, senhor capitão, é que me parece que para brincadeira já chega».

Fiquei à espera de uma reacção desagradável. E de uma negativa formal à minha «exigência». Mas isso não aconteceu. Com grande surpresa minha, aquela triste caricatura de Himmler deu ordem ao sargento, que telefonou para que o táxi viesse.

Segui, pouco depois, para o cais, onde os meus companheiros da Emissora me aguardavam.

Cheguei a Lisboa já noite cerrada.


Inauguração da Emissora Nacional. Na fila da frente estão Manuel Bivar, Pires Cardoso, o Presidente da República Óscar Carmona, Henrique Galvão, Duarte Pacheco, Esmeraldo Carvalhais e Carlos Ribeiro.

Os primeiros locutores da Emissora Nacional. Entre eles estão Áurea Rodrigues (ao centro), Maria de Resende e Fernando Pessa (à direita).

No dia seguinte apresentei uma longa exposição à Direcção da Emissora, solicitando um inquérito às minhas «actividades políticas» e a diligência que se impunha junto do Comando da Guarda Nacional Republicana.

O inquérito não se fez por ter sido considerado desnecessário e a diligência da Emissora seguiu os seus trâmites mas ficou, por certo, esquecida numa gaveta qualquer, de qualquer secretária do Quartel do Carmo.

Como no Barreiro ficou aquele incrível capitão, com o aval dos seus superiores, para continuar o seu rosário de prepotências.

Às vezes vem-me à memória as minhas «aventuras» no Barreiro e o maquiavélico capitão que embirrou comigo - ainda estou para saber porquê.

Verdade seja que ele embirrava com muita mais gente. Não fui apenas eu a sofrer os efeitos do seu evidente desequilíbrio mental. Houve muitas vítimas da sua estranha vocação para oficial da «Gestapo».

Depois daquela prisão por «suspeita de actividades subversivas», nunca mais tive o... desprazer de lhe pôr a vista em cima. Sei que acabou, mais tarde, por deixar o seu «reino» no Barreiro, mas não sei para onde terá ido fazer novas tropelias.

Como não sei se, depois do 25 de Abril, continuou a servir (mal) nas Forças Armadas. Mas não me admiraria se isso tivesse acontecido. Com a tendência que revelou para «arquitectar» comédias e dramas, é muito natural que tenha sido dos primeiros a aderir à Revolução e tenha passado de perseguidor dos «inimigos do Estado Novo» a grande lutador... anti-fascista!

E - vamos lá - porque não havia ele de ter feito uma coisa que tantos outros fizeram, com a maior das sem-cerimónias.

Num País onde alguns que serviram a Legião Portuguesa, não tiveram o menor escrúpulo em mandar prender pessoas apenas por terem sido da Legião e onde quem tanto exaltou os méritos da PIDE, não hesitou em catalogar, mais tarde, a mesma PIDE como «organização tenebrosa», nada nos poderá surpreender. Pelo menos, durante aquele período em que o Poder estava nas mãos de certos homens com estatura mental e moral muito semelhante à daquele capitãozinho para quem, no Barreiro, a única lei que vigorava era a que ele próprio impunha, pela força e pelo terror.

ONDE SE FALA DA AMÁLIA


O primeiro boato posto a circular a meu respeito, no que se refere a uma pretensa ligação com a PIDE, surgiu muitos anos antes do 25 de Abril. A atoarda diluiu-se com o tempo, mas o «vírus» nunca morreu definitivamente. Ficou sempre qualquer coisa pronta a ser reactivada quando os meus detractores entendessem que isso seria oportuno. Foi, afinal, o que aconteceu quando, em cumprimento das minhas obrigações profissionais, fui designado para realizar a reportagem do caso Santa Maria. Foi, também, o que sucederia mais tarde, ao eclodir o Movimento de 25 de Abril.

Não há dúvida que, das calúnias, alguma coisa fica nos arquivos dos mal intencionados, com vista a utilização posterior. Por mais que se prove a falsidade de uma atoarda, por mais que se mostre a sem-razão e a inconsistência de um boato, há sempre quem prefira ficar na dúvida, quem pense que «não há fumo sem fogo». E isso é, por via de regra, bem aproveitado pelos «profissionais» da calúnia, seja qual for o objectivo a atingir. Que tanto pode ser um objectivo de ordem meramente pessoal como de carácter político.

Quanto tive conhecimento do primeiro ataque lançado contra mim e que visava identificar-me com a antiga polícia política, fiquei naturalmente aborrecido mas não me preocupei, por aí além, com o caso. Confiava que as pessoas não tardariam a concluir da falta de tão incrível boato e depressa esqueci o assunto. Mal pensava eu, na altura, que o tal «vírus» permanecia em incubação e que viria a ser revitalizado noutras ocasiões, criando-me problemas delicados - alguns de consequências irremediáveis.

Artur Agostinho, no Teatro Politeama, com Amália Rodrigues, antes do início de mais um espectáculo de O Comboio das 6 e meia.

Entretanto, vale a pena contar como esta «história» começou - «história» em que me vi envolvido na companhia de Amália Rodrigues. Sim, porque eu e a Amália - por estranha ironia do Destino - «passámos a fazer parte da PIDE exactamente no mesmo dia».

Tudo aconteceu por causa de uma festa a favor das obras do Estádio do Sporting.

O dr. Manuel Vinhas, que presidia à Comissão criada para esse fim, lembrou-se de organizar um grande espectáculo que seria efectuado no próprio recinto de futebol e para o qual conseguiu a colaboração graciosa de Amália Rodrigues. Eu seria o apresentador e, antes da grande artista, exibir-se-ia um rancho folclórico.

A festa foi programada com grande antecedência e marcada a sua data.

Veio, entretanto, a campanha eleitoral para a Presidência da República, em que um dos candidatos era o general Norton de Matos. O clima político em Portugal não era, na altura, dos mais serenos. A oposição ao regime desenvolvia grande actividade e os homens da Situação não escondiam as suas preocupações.

Realizaram-se diversas sessões de propaganda e houve alguns confrontos de certa gravidade. Quando o período destinado à campanha estava a chegar ao seu termo, a Oposição marcou uma sessão - que seria a última - para o ginásio do Liceu de Camões. A data escolhida foi a mesma que estava destinada à tal festa a favor do Estádio do Sporting.

Aí começou o problema.

Logo circulou a notícia de que essa coincidência de datas (na verdade uma simples coincidência) fora premeditada pelos adeptos do regime salazarista. Com o intuito de desviar as atenções da sessão oposicionista.

Amália começou a receber telefonemas anónimos, com ameaças que a deixaram assustada. À medida que o dia do espectáculo se aproximava, essas ameaças tornavam-se mais violentas. Pelo telefone e por escrito. De tal forma, que a artista pôs ao dr. Manuel Vinhas a hipótese de não comparecer no espectáculo.

Eu também recebera alguns telefonemas e cartas do mesmo teor, mas o alvo principal era a Amália, sem dúvida a grande atracção do espectáculo.

Chegou mesmo a pensar-se seriamente no adiamento, mas o então ministro do Interior achou por bem intervir, pressionando o Sporting a tal ponto que a festa teve mesmo que realizar-se. Então, sim, já essa coacção tinha um sinal verdadeiramente político, pois o ministro decidira aproveitar a circunstância da coincidência de datas.

Amália, entretanto, estava verdadeiramente apavorada com o cerco que se apertava à sua volta. As ameaças já incluíam o atentado a tiro, no momento em que ela ousasse principiar a sua actuação. Porém, quando ela se declarou decidida a não comparecer, lembraram-lhe que havia uma folha de papel selado, com a sua assinatura e com a minha, na Inspecção-Geral dos Espectáculos, em que nos comprometíamos a participar graciosamente na festa do dia tal. Mais: que a sua não comparência seria, isso sim, considerada uma atitude política.

Amália foi colocada entre a espada e a parede e eu, por tabela, também. E lá fomos ao espectáculo, com a disposição que se imagina.

Não houve nenhum incidente. Nem houve nenhum atentado. Mas recordo-me, como se fosse hoje, do momento em que anunciei, em cima do estrado colocado no relvado de Alvalade, o nome de Amália Rodrigues.




Ela avançou, sob uma trovoada de aplausos, com passo firme - como se nada a preocupasse. Mas estava lívida. A sua palidez conseguira vencer todos os disfarces da maquilhagem. O xaile preto ainda tornava mais acentuada aquela palidez que nunca vira no rosto de Amália. Estendi-lhe a mão para a ajudar a subir ao estrado. Estava húmida e fria como o gelo. Amália ajeitou o xaile. Contorceu os dedos. E voltou a ajeitar o xaile com as suas mãos nervosas - tão brancas como o seu rosto assustado. Depois, os guitarristas começaram a tocar. E Amália cantou. Um, dois, três fados... O público aplaudiu-a de pé. E exigiu mais. Ela correspondeu - sabe Deus com que estado de espírito. E cantou dez ou doze fados. Na sua voz deixava transparecer a preocupação tremenda que a sua alma carregava naquela noite. O fado, que lhe corria no sangue, deve tê-la feito esquecer, por momentos, toda a angústia dos dias, das horas, dos minutos, que haviam antecedido aquele espectáculo.

Poucas vezes Amália terá cantado melhor do que naquela noite quente de Alvalade. Que também foi «quente» lá para os lados do Saldanha.

Poucos dias depois, começaram a circular alguns panfletos em que ambos éramos denunciados como colaboradores da PIDE. A distribuição desses papéis foi particularmente profusa no Porto.

Por mim, depressa esqueci o assunto, mas hoje penso que foi realmente naquela época distante que se lançou à terra a semente da calúnia que não mais deixou de atingir-me. Como foi o caso de Amália Rodrigues.

Não sei se ela se lembrará ainda deste episódio. Se já o terá ligado aos boatos que também a atingiram. Que continuaram a atingi-la ao longo dos anos. Até há pouco.

Quanto a mim, tenho a certeza de que foi por causa dessa festa que eu e ela «passámos a fazer parte da PIDE, exactamente no mesmo dia».

(ob. cit., pp. 91-96; 165-171; 183-200).

Continua

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