segunda-feira, 9 de maio de 2016

A Cambada

Escrito por Vera Lagoa



O soviético Álvaro Cunhal

«És um assassino»

Vera Lagoa


«Em Janeiro de 1964, realizava-se a II Conferência da Frente Patriótica, e o General [Delgado], agora presente, conseguiu impor a constituição da Junta Revolucionária Portuguesa e do Comando Operacional.

Do que consta das suas resoluções, oferecemos a seguir um extracto. Nelas, proclamava-se a urgência absoluta de produzir a luta a curto prazo. Foram seus signatários os membros da II Conferência da Frente Patriótica, os seus dirigentes, o General Humberto Delgado, o secretário do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal, e o prof. Rui Luís Gomes.

"... Portugal atravessa a MAIOR e MAIS GRAVE crise da sua longa história; a situação económica agravou-se; grandes sacrifícios são impostos à população trabalhadora; as classes médias, os pequenos e médios industriais, os pequenos e médios comerciantes, os pequenos e médios agricultores, pagam pesados impostos; a dependência crescente da economia nacional aos interesses estrangeiros, por concessões negociadas em troca de investimentos e empréstimos que põem em PERIGO a independência nacional e que tomam o aspecto grave da utilização do território português por forças militares de outros países; a conferência... concordou em APRESSAR o processo revolucionário... Para a preparação NO MAIS CURTO PRAZO das condições insurreccionais; a situação do país é EXTREMAMENTE GRAVE; os compromissos aceites pelo governo fascista... põem em PERIGO a independência nacional e o futuro do País".

"(...) Em conclusão, verifica-se que, quer os dirigentes da Frente Portuguesa, quer os da Frente Patriótica, reconhecem nos comunicados e resoluções da I e II Conferências, de que todos foram responsáveis e signatários, a urgência duma acção revolucionária, invocando até razões de salvação nacional e outras de extrema gravidade".


Mas, logo em 27/1/964, em entrevista concedida ao jornal francês L'Humanité, reproduzida no Portugal Democrático n.º 81, de Março, de 64, Álvaro Cunhal declarava não existirem, na realidade, condições para o desencadeamento dessa luta, devendo o Partido prosseguir no seu trabalho de 'catequização' e organização de massas. O Secretário-Geral do PCP traía, assim, a proclamação e as resoluções de que pouco antes fora signatário.

Mas, mesmo à luz dessa traição, alguma coisa continuava errada.

Como aceitar-se que Álvaro Cunhal se tivesse disposto a apresentar-se, publicamente, como um homem de duas caras, traidor das suas próprias resoluções?

Só uma razão de bastante força, ou de interesse bastante, o levaria a isso. Mas o quê?

O plano imediato do Partido Comunista Português consistia, em linhas gerais, em inutilizar, para a acção, o General Humberto Delgado, impedindo-o de levar a cabo a derrubada do fascismo, por forma a que, no interior do país, fossem, ao longo dos anos, criando as condições necessárias à sucessão inevitável da ditadura salazarista, pela cunhalista.


Álvaro Cunhal e Humberto Delgado aquando da reunião da Frente Patriótica de Libertação Nacional


Um tal programa deveria ser levado a efeito com um mínimo de consequências e repercussão. Era, contudo, necessário realizá-lo antes que fosse demasiado tarde; em teoria, antes de 1965, ano em que se realizariam as eleições presidencial e para deputados.

Enquanto o General Humberto Delgado se manteve pelo Brasil, o Partido limitou-se a sabotar, uma após outra, as suas tentativas de promoção de acções armadas, quer elas tivessem o objectivo de criar um clima revolucionário, quer o de produzir a queda do governo salazarista. E foi assim que a revolta de Beja se perdeu, antecipadamente, em Lisboa e Marrocos; que, posteriormente, um elemento ligado ao Partido deu descaminho duma remessa inicial de material de guerra, que o General fizera chegar ao interior para, em consequência do malogro da operação de Beja, aproveitar o clima que dela resultou, por forma a levar ao desenvolvimento dum processo revolucionário; que as grandes manifestações académicas e populares, que se estenderam pelo primeiro semestre de 1962, viriam a quebrar pela acção pacifista dos agentes do Partido, empenhados na defesa das acções legais e semi-legais, que o Povo Português [?] repudiava, por inúteis e revolucionariamente ultrapassadas.

Mas a revolta de Beja, em consequência do clima post-eleitoral de 1961, a envergadura, a frequência e o carácter, das manifestações de 1962, foram o sinal de alarme, quer para o governo, quer para a direcção do Partido. Um e outro, viram no ano eleitoral de 1965 um grave período de crise, no qual poderiam jogar-se forças e circunstâncias, que levassem à queda da ditadura. Daí resultou que, ambos, circunstancialmente irmanados, não hesitariam em conjugar a sua acção contra o General, sem que para tanto fosse necessário qualquer acordo contratual.

Assim, o Partido Comunista Português, através da fachada da Frente Patriótica e a pretexto da formação duma frente unitária, chamou a si, em Janeiro de 1964, o General Humberto Delgado, na intenção de o controlar e de, por qualquer forma, o impedir de preparar convenientemente a acção a desenvolver em 1965.

(...) Recebido com honras de Chefe de Estado e instalado no Palácio Presidencial (Palais du Peuple, Villa 3) Humberto Delgado e Ben Bella habituaram-se a conversar e a passear pelos jardins nas horas de lazer do Presidente. Dessas longas conversas surgiu o oferecimento para uma ajuda concreta à Oposição Portuguesa: convidado a definir-se, o General, dentro da amplitude que perspectivara, apresentou-lhe um plano, que foi aceite sem limitações nem reservas. O Presidente argelino punha, imediatamente, à disposição de Humberto Delgado, fundos, instrutores, instalações, alimentação, armamento e transporte, para um total de 600 homens, a mobilizar pelo General; mais se oferecia para uma ajuda complementar posterior, que poderia incluir o empréstimo de aviões militares.

(...) Demonstrarei que o desastre de Badajoz resultou da conjugação dos esforços da Frente Patriótica e da PIDE, coordenados num longo plano de acção, de conluio com o PC e o "grupo" Mário Soares, objectivamente destinado à eliminação do General.

Demonstrarei que aqueles que o traíram são precisamente os mesmos - todos eles hoje guindados ao Poder, nas altas posições políticas e administrativas deste País devastado - que agora, face à espontaneidade das manifestações do sentimento popular e às homenagens do Povo Português ao seu ídolo morto, se desfazem em elogios à própria vítima.

Depois de a terem traído.

Depois de a terem insultado, vilipendiado.

Depois de terem preparado e perpetrado o seu assassínio.




Mais coerente, apenas Álvaro Cunhal se tem mostrado moderado ao participar nessa farsa ridícula, enquanto Mário Soares, na ânsia de poder ainda prolongá-la, dominá-la para a própria salvação, promete, para próximo, justiça - a SUA JUSTIÇA.

Mário Soares o anunciou: "Soou a hora da Verdade".

No seu discurso televisionado - brevemente, com assustada celeridade - ainda arriscou dois curtíssimos períodos, perdidos num oceano verboso:

"Os Pides começarão a ser julgados. O Julgamento do General Humberto Delgado far-se-á igualmente ainda este ano".


Mortos Amadeu Cabral, Pedro Soares, Arrigo Repeto, Dr. Bisogno, Dr. Robles e Fernando Oneto, poucas ou nenhumas testemunhas restam para acusá-lo. Conta agora com a cobardia humana generalizada neste País. Se algo há em que Cunhal o apoie secreta e tenazmente é na manutenção do silêncio, na ocultação da Verdade sobre o assassínio de Delgado.

Contudo, a Espada de Dâmocles mantém-se suspensa sobre a sua cabeça e as dos seus acólitos do hediondo crime perpetrado a distância.

(...) que melhor expediente de dissimulação pode ter um criminoso na iminência de ser desmascarado, do que imiscuir-se entre os parentes da vítima, transportando o caixão sobre os ombros, carpindo em uníssono sobre a campa, comungando, embora teatralmente, da mesma dor e indignação?

Um actor, um advogado pode fazê-lo - sabe fazê-lo.

Mário Soares insinuou-se, arteiramente, advogado da vítima, infiltrou-se no seu meio - o melhor baluarte contra a suspeita - e multiplicou declarações à imprensa, apontando furiosamente os assassinos da PIDE, exigindo a justa punição.

Mas não bastava. Tornava-se-lhe igualmente imperioso justificar a origem da denúncia que acicatara a matilha pidesca. Só assim poderia sacudir as lamacentas suspeitas que o envolviam, incriminando globalmente com ele todo o seu Movimento.

Era-lhe pois imprescindível indigitar hipotéticos culpados; acusar inocentes; alastrar a Dúvida por mais vasto campo.

Para tal escolheu, por "bodes-expiatórios" Mário de Carvalho, Ernesto Bisogno e Henrique Cerqueira.

(...) O inquérito à Oposição não se fez. E pululam por aí indivíduos que foram os "donos" da Oposição Tradicional; que, permanentemente, colaboraram com a PIDE. Uns, para eliminarem concorrentes incómodos, como Álvaro Cunhal. O secretário do PCP, sempre que alguém lhe fazia sombra no Comité Central, acusava-o de ladrão e denunciava-o à PIDE - como a Francisco Martins Rodrigues... Outros, por ambição e vaidade pessoal, como Mário Soares, primeira "cimeira" da política nacional, que nunca fez fosse o que fosse contra o regime anterior, desde que para isso tivesse de arriscar a pele, conquanto sempre lograsse manobrar em proveito próprio. O seu papel, como advogado da família Delgado, teve essa finalidade exclusiva. Exilado em São Tomé, fruía de um ordenado de dezenas de contos do Grupo CUF; exilado em Paris, tinha-o do Grupo Bulhosa - dois grupos financeiros ligados ao salazarismo, que nunca pagariam ao "inimigo" do governo fascista, sem o acordo tácito deste.





(...) No seu "Portugal Amordaçado" [Mário Soares] conta-nos que a "a partir de 1965, a vigilância policial que sobre ele se passou a exercer tornou-se verdadeiramente asfixiante. "Os meus telefones e correspondência eram controlados em permanência e por forma grosseira, assim como todos os contactos que tinha e as deslocações que fazia (pág. 540). (...) "A pouco e pouco o círculo policial foi-se apertando e eu tinha a sensação nítida - partilhada aliás por todos os meus amigos - de que o Governo procurava um pretexto, mais ou menos airoso, para me inutilizar a título definitivo (...) o pretexto chegou em fins de 1967, com o rebentar do chamado escândalo sexual ou dos 'Ballets-Rose', caso em que apareceram envolvidas algumas personalidades gradas dos meios financeiros e mundanos portugueses, com a participação, ao que se disse e escreveu, de três membros do Governo de Salazar.

"A primeira vez que ouvi falar no assunto foi em casa dos meus amigos Sofia de Melo Breyner e Francisco Sousa Tavares. O nosso colega Joaquim Pires de Lima, regressado de uma viagem a Paris - e então muito interessado em actividades políticas oposicionistas a levar a efeito entre os meios católicos - apareceu expressamente para nos contar, com grande cópia de pormenores picantes, o que sabia da história, e em cuja revelação pública tivera alguma intervenção como advogado. (...)

"Foi então que me apareceu um jornalista inglês, do Sunday Telegraph, interessado num inquérito sobre o que chamava o caso dos 'ballets rose do Portugal salazarista'. Procurou-me no meu escritório, depois de me ter telefonado a marcar um encontro, e sem qualquer apresentação. Limitou-se a mostrar-me o seu cartão profissional de jornalista inglês. Disse-me que na origem do seu interesse estava o artigo publicado por Jeune Afrique e que, encontrando-se em Portugal há alguns dias, além de outros contactos nos meios jornalísticos e diplomáticos, tentara encontrar em Coimbra o prof. Antunes Varela, sem êxito, tendo apenas conseguido falar com um seu assistente. É claro que eu não sabia nada sobre o caso que lhe pudesse interessar ou que ele já não conhecesse. Em relação aos processos pendentes no Tribunal - objecto principal da sua curiosidade - disse-lhe que não me parecia que ele os pudesse consultar. Em todo o caso, sugeri-lhe que procurasse o advogado Pires de Lima, com intervenção profissional em pelo menos um desses processos, visto que seria ele, melhor do que ninguém, que o poderia informar sobre o que era possível apurar de concreto. Se é que havia alguma coisa mais para saber além do que já toda a gente bem informada conhecia...

"Aproveitando a minha sugestão o jornalista falou do meu próprio escritório para casa do pai do advogado Pires de Lima, onde este vivia. O pai de Pires de Lima, com o mesmo nome, pertencia ao Ministério do Interior onde ocupava, ao tempo, a alta função de director da administração política e civil.

"Só muito mais tarde vim a conhecer o que se passou depois. Na realidade o jornalista nunca falou com o advogado Pires de Lima, mas tão só com o pai deste, que teve o cuidado de não desfazer a confusão que se estabeleceu no espírito do inglês entre os dois. Foi o pai que se recusou a dar ao jornalista quaisquer informações sobre o caso, invocando "razões patrióticas" para a sua recusa! Posto, porém, ao corrente das intenções do jornalista - e porventura com a intenção de ilibar o filho de quaisquer responsabilidades na divulgação do caso, face ao rancor dos poderes constituídos - teria estado na origem da minha prisão posterior, como facilmente deduzi dos interrogatórios que me foram feitos na PIDE.




"O jornalista do Sunday Telegraph, uma vez regressado a Londres, publicou um artigo sobre o caso em que, partindo dos rumores divulgados pela Jeune Afrique, dava conta do que havia conseguido averiguar em Lisboa, e que não ia muito além do que se dizia nos meios sociais, jornalísticos e diplomáticos da capital portuguesa. No dia seguinte à tarde - mal tinha acabado o jornal de chegar a Lisboa! - fui preso, pela PIDE, no meu escritório, com um grande aparato bélico. Embora preso sem mandato de captura nem, como de costume, quaisquer explicações, logo verifiquei, pelos interrogatórios de que era acusado da 'divulgação de notícias falsas, no estrangeiro, susceptíveis de prejudicar o bom nome de Portugal'. Porém, quem não deve, não teme! Encarei minha prisão com perfeita tranquilidade, apesar das ameaças que, desde o início, tentaram comunicar-me.

- "Desta vez o senhor pôs em causa pessoalmente a moralidade do senhor Presidente do Conselho, injúria gravíssima! dizia-me o sub-director da PIDE Sachetti, com os olhos arregalados de horror perante uma tal audácia sacrílega.

"Como é evidente, neguei a acusação que me era feita. Dias depois (como soube mais tarde!) o jornalista do Sunday Telegraph desmentia explicitamente a acusação, escrevendo que eu não tinha sido de nenhuma maneira a "fonte das suas informações". Era verdade!

"Contudo, mantiveram-me preso durante três meses em condições muito duras de rigorosa incomunicabilidade. Fiquei todo o tempo na prisão privativa da PIDE de Caxias, dois meses e meio completamente isolado, numa cela individual, sem qualquer contacto com o exterior e apenas uma visita da Família, uma vez por semana, de um quarto de hora, por detrás de um vidro espesso e sempre na presença de um agente. Aí passei o Natal e o Fim do Ano de 1967, com um frio atroz. Não tinha livros nem, muito menos, jornais. (...)

"(...) Isolado na minha cela, os ecos de toda essa imensa campanha chegavam-me, deformados, através dos interrogatórios do sr. Sachetti. Contudo, dado que o inquérito, no que me dizia respeito, não conduzia a nada - 'isto é um limão que não deita suco!', lamentava-se o sub-director da PIDE quando lia os meus autos de resposta - a polícia tentou a exploração de outros caminhos, prendendo um mês e meio depois, o meu colega Francisco Sousa Tavares e o jornalista Urbano Tavares Rodrigues.

"(...) Como ao cabo de três meses a minha situação prisional se mantivesse inalterável, resolvi pedir a minha Mulher para dizer ao meu advogado - visto que este nunca tinha podido visitar-me, apesar das suas insistências - para requerer o habeas corpus. Na lei portuguesa a providência do habeas corpus é excepcional, hesitando os advogados em a requerer, dadas as penalidades de que são passíveis se o fizerem inconsideradamente. O processo impõe que o Supremo Tribunal de Justiça se pronuncie, num prazo mínimo, sobre a legalidade da prisão.

"José de Magalhães Godinho, o meu advogado, requereu pois o habeas corpus no dia 29 de Fevereiro de 1968 e eu fui posto em liberdade (assim como os meus dois co-arguidos Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues) no dia 1 de Março" (págs 541 a 547 de Portugal Amordaçado).

O que é que tudo isso significa, afinal? Mário Soares, sabendo-se sujeito a uma vigilância pessoal "asfixiante"; sabendo "controlados em permanência" os seus telefones; sabendo que o pai Pires de Lima era "Director-Geral do Ministério do Interior» - o Ministério da Polícia; sabendo dos nomes iguais que tinham os Pires de Lima, pai e filho, leva um jornalista inglês recém-chegado, a utilizar o seu telefone permanentemente controlado pela polícia; a ligar para casa do director-geral do Ministério do Interior e a pedir-lhe que lhe faculte dados que permitam a publicação, no estrangeiro, dum artigo escandaloso que atingiria gravemente o Governo. Distraído, o coitadinho Soares esquece-se de avisar o jornalista da posição oficial do pai e do facto de pai e filho terem o mesmo nome; como se esquece de que o seu telefone está sob controlo permanente havia mais de 2 anos. E como o telefone estava de facto controlado, publicado o artigo, Soares vai para a cadeia, desta vez por 3 meses e sem parte dos habituais privilégios, pagar a sua fajardice: meter na cadeia um colega, filho do director-geral do Ministério do Interior, envolvendo-o num escândalo cujas provas ficariam necessariamente na mão da PIDE.




A carreira do Sr. Soares está cheia de "sacanices" - passe o termo - deste género.

Interrogado pela polícia, que desta vez lhe faz sentir as condições a que sistematicamente submete os oposicionistas que com ela não colaboram, denuncia colega e amigo seu - o Dr. Sousa Tavares - que passa a beneficiar também da hospitalidade da PIDE.

Como se vê, neste - como em todos os casos relacionados com o nosso ilustre esteio - o comportamento daquela polícia de má-memória, é, apesar de tudo, bem mais decente que o dele. Poderia continuar, por centenas de páginas mais, a descrever dezenas de casos de flagrante colaboração de elementos mais ou menos destacados da chamada Oposição, com a PIDE».

Henrique Cerqueira («Acuso! Soares, Cunhal, Emídio Guerreiro, Lopes Cardoso na morte de Humberto Delgado», Vol. I).

«Uma análise da situação, indicava-me, sem margem para dúvidas, que o Partido Comunista Português estava numa fase iminente de assalto ao Poder.

Só quem não conhecesse a actuação dos partidos comunistas no Mundo, a firmeza da linha estratégica que a Internacional Comunista tem transmitido aos partidos seus filiados para a conquista do Poder, poderia admitir que o PCP entraria no jogo democrático de eleições, dentro da nova política nacional.

O PCP, de acordo com a sua essência, procuraria, por todos os meios, assaltar o Poder, a todos os níveis, desde as autarquias locais, até aos mais altos postos do Governo.

E assim aconteceu. Com o PCP a liderar um plano coadjuvado pelo seu "submarino" (como lhe chamávamos) o MDP/CDE.

Angustiou-me a impotência para impedir o desastre tanto mais grave quanto ele distorcia, completamente, o Programa do MFA, em especial no que respeitava à descolonização - com os vergonhosos acordos de Lusaka e o abandono da Guiné.

A nomeação do tenente-coronel Fabião, graduado em brigadeiro, para esta Província, ainda me alimentou a esperança de que não se perdesse de toda a dignidade.

À Guiné ligavam-me estreitos laços sentimentais, de amizade pelas suas gentes que não foram poupadas. Antes, com uma baixeza espantosa, a independência obedeceu a trâmites que deslustram tanto os descolonizadores, como os novos conturbenais do Poder.

A descolonização será, sempre, uma das páginas mais degradantes da História de Portugal.


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Os seus fautores afirmam que fizeram a descolonização possível. Mentem: fizeram a descolonização que lhes impuseram os seus mentores soviéticos, pelos construtores da estratégia de Moscovo, à qual era indispensável a destruição da África ao Sul do Equador, onde possuíamos importantíssima posição, que contrariava os intentos dos dirigentes comunistas. A barreira que lhes opunha a maior parte dos países dessa região africana, levava a Rússia a procurar, ali, um equilíbrio de forças.

Pela comunicação de Angola e de Moçambique, com o auxílio da República Popular do Congo e da Tanzânia, praticamente na sua órbita, poderia inverter esse equilíbrio de forças em seu favor, porque as duas Províncias portuguesas cortavam ao meio o Sul da África e atiravam a Rodésia e a União Sul-Africana para um isolamento cada vez maior. Teria a possibilidade de derrubar os regimes zambiano e do Malawi. E o Zaire, que é uma fonte de riqueza para os países imperialistas, seria presa fácil para os apetites soviéticos.

Portanto, manipulando os ideais - os chamados ideais - do 25 de Abril, tal como foram apresentados à Nação, os comunistas alcançaram uma esplêndida vitória.

Nem todos os que viveram o Poder real, no processo pós 25 de Abril, terão culpas na "descolonização exemplar" (um lugar comum, que peço me perdoem). Mas coube a alguns inteira responsabilidade nessa política de inspiração marxista-leninista.

A política dos portugueses em Angola, em Moçambique e na Guiné era, nos últimos anos, de integração dos nativos nos centros de decisão, fosse administrativa ou militar.

Mais de metade das Forças Armadas no Ultramar eram integradas por naturais dessas províncias. E foram esses os primeiros traídos. Homens que, durante anos, se bateram contra o inimigo comum (insisto na designação de inimigo, não de nacionalista, porque, como ficou provado, a tónica de todos os movimentos de libertação que adquiriram o Poder foi o marxismo-leninismo), tombaram mortos. Na melhor das hipóteses, tiveram de se exilar, para salvar a vida. Todavia, muitos, muitíssimos, foram - simplesmente - executados, passados pelas armas.

O sangue desses homens clama justiça. Desse sangue são responsáveis os descolonizadores, nos termos em que cederam, em que entregaram, sem consciência, sem piedade, sem humanidade - cobardemente - as vidas e os bens de compatriotas que lhes tinham defendido a fazenda.

As etnias europeias, com sucessivas gerações em África, muito mais ligadas a ela do que ao torrão europeu, não escaparam à sorte das vítimas.

Relembro Angola, onde o major Pezarat Correia, desarmou os "brancos", para que não se intrometessem ou para que não pesassem no prato das negociações.


Pezarat Correia






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Instilou-se o terror. Os abusos, a brutalidade, a insegurança, assustaram tão fortemente as pessoas que as obrigaram às decisões extremas: o abandono da terra onde nasceram, viveram, criaram os filhos, trabalharam; a terra onde geraram riqueza, onde geraram a riqueza de outros.

Num instante, uma tragédia de que só se pode encontrar comparações no Cambodja e na Rússia, centenas de milhares de seres humanos tiveram de despegar dos lares e haveres, para procurar refúgio - precaríssimo refúgio - no minúsculo rectângulo do Portugal ibérico, vieram sem culpa própria, engrossar a onda de desempregados que os excessos revolucionários, a falsa liberdade pela violência, a luta de classes tinham causado, a destruir a débil economia do País.

Duas fases de uma única manobra: a entrega dos territórios africanos e o aumento do desemprego, que a chegada dos refugiados provocou. O embrião, o ovo de um problema de que não se descortina o resultado: quase dois milhões de desocupados, numa população activa que pouco excede o dobro desse número.

É para mim, básico e evidente, que a destruição do Ultramar (entregando-o aos lacaios marxistas-leninistas) e a vinda, para Portugal, de uma trágica multidão, psicológica, e fisicamente chocada, em "stress", serão os fulcros de agitações sociais, de imprevisivéis consequências.

Os refugiados têm que lutar contra a fome, pelo mais elementar instinto de sobrevivência. Têm de defender os filhos de pungentes privações. Têm de recuperar a dignidade que lhes roubaram.

De um só golpe, a estratégia soviética vencera em dois campos de batalha.

(...) Começámos a segunda fase, de planeamento e, concomitantemente, pensámos no problema da implantação no terreno.

Durante o consulado gonçalvista, víamos, como única opção possível, a luta armada, para a qual necessitávamos de um serviço de informações.

O major de Artilharia, Morais Jorge, encarregou-se do sector, montando uma rede, a RAI-Rede de Acção Interna.

Morais Jorge cumpriu, excelentemente, a sua missão, até ao dia em que, talvez por fadiga, talvez por excesso de zelo, deu origem a dissensões, que poderiam comprometer quanto fizéramos anteriormente.

Tanto pelo resultado das eleições do 15 de Abril de 1975, como pelo conhecimento prático que tínhamos das potencialidades do PCP, estávamos seguros de que os comunistas concentravam as suas forças essencialmente na cintura industrial de Lisboa e no Alentejo.

O MDLP, anti-marxista, anti-comunista, deveria implantar-se no Norte do País, penetrando, a partir de lá, para as zonas de infiltração PC.




Como não travávamos batalhas partidárias, fomos aceites com facilidade. A Igreja, de tradições liberais e os núcleos de refugiados, os oprimidos - o Povo - abriram-nos os braços. Estavam connosco, eram dos nossos. Não abdicaram da liberdade que lhes roubavam.

O berço da nacionalidade reclamava o seu lugar na História, como tantas vezes o fizera no passado. As grandes batalhas liberais, o cerrar de dentes contra a opressão, tinham, a Norte, um exército pronto para o combate. Na fundação da nacionalidade, em 1143. No gonçalvismo, em 1975.

Precisavam, apenas, de um elemento aglutinador, que foi o MDLP. A Maria da Fonte, "de saco ao ombro e foice na mão", renascera, 130 anos depois, A Póvoa de Lanhoso, perdida entre verduras era símbolo, a galvanizar Trás-os-Montes, o Minho, a região duriense.

Oficiais do MDLP instruíram grupos de milícias ao nível de freguesias, apesar das dificuldades e dos perigos a que não podem escapar os movimentos clandestinos.

Foi em Agosto que nos unimos aos grupos da Maria da Fonte. Espontaneamente. Com a espontaneidade com que os nortenhos se rebelaram contra a loucuras gonçalvistas.

De mínima justiça é dizê-lo: o verdadeiro herói do Agosto de 1975 foi o povo do Norte. A ele - e só a ele - se devem as homenagens.

A unidade dos nortenhos, com o seu sentido de democracia em liberdade, e o MDLP, tiveram a clareza dos ideais que se confundem.

O plano de 13 de Abril entrara na terceira fase: o da subversão. Contra o regime gonçalvista, que tivemos o prazer de ver cair, mau grado preferíssemos que durasse até que a Europa Ocidental se apercebesse do perigo que defrontava na Península Ibérica.

Era imperioso que a Europa compreendesse que a campanha de Mário Soares, nas eleições de 1975, sob a capa do anti-comunismo, não excedia o âmbito de uma fraude, de um conjunto de truques, quais escudos de papelão a oporem-se a lanças de duro aço. O PCP ordenava, dominava, contra a vontade popular, expressa nas eleições. A assembleia de Tancos, ao derrubar Vasco Gonçalves, limitou-se a "dobrar a espinha", perante os levantamentos do Norte».

Alpoim Calvão («De Conakry ao MDLP»).


Alpoim Calvão


«O próprio movimento da contra-revolução de direita tem permanecido como uma espécie de tabu sagrado da história contemporânea portuguesa. (...) E o caso da contra-revolução, desse movimento inorgânico que foi o spinolismo em todas as suas formas, o Verão Quente de 1975 e a rede bombista de 76 são férteis de pequena história, de pequenos personagens, que, no entanto, tiveram uma proximidade aos principais líderes partidários do PREC que ainda hoje não se sabe o que uns dependiam de outros, não se sabe debaixo de que sombras caminhou, à época, a frágil democracia portuguesa. E era importante sabê-lo!

(...) Mas fiquemo-nos, para já, em 1975 e no dia em que José Magalhães e Torcato Correia se encontram. Menos de um ano depois da Revolução dos Cravos, o país estava a ferro e fogo, com rumores de golpes e contragolpes. O 11 de Março foi o berço do ódio, de parte a parte. O general Spínola sai do país depois de uma forte resistência da esquerda militar às movimentações de oficiais das Forças Armadas que eram leais ao homem que escreveu o livro que abalou o regime marcelista. E dele fica, nessa saída apressada de Portugal pela porta dos fundos da história, a imagem de um homem agarrado ao pingalim e a olhar o que fica para trás pela estreiteza do seu monóculo.

Era o culminar de uma série de inabilidades políticas - hoje consensualmente reconhecidas entre aqueles que foram seus inimigos mas também entre os que nunca deixaram de ser seus amigos. O guerreiro que nos alvores da juventude era capaz de irromper pelo campo de batalha de tronco nu aos tiros, indiferente às balas do inimigo ou a outros que espreitassem na noite da mata africana, passeava-se, no entanto, já depois da meia-idade, com grande dificuldade pelos corredores do poder. Mas o 11 de Março, apesar da interpretação política que ficou para a história do chamado "golpe spinolista", continua a ser também um caso por contar integralmente. E as fronteiras entre aquilo que é considerado um "golpe spinolista" ou uma "armadilha do PCP", na interpretação dos fiéis do general, são ainda muito difusas.

O general Pedro Cardoso, que à época do 11 de Março chefiava a 2.ª Divisão (Dinfo) do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), entidade que tinha a responsabilidade de centralizar, coordenar e estudar as informações internas e externas, confirma que ambos os lados conspiraravam. Num dos seus escritos recorda que teve conhecimento do "início da contra-revolução", em Tancos, na noite de 7 para 8 de Março. "Esta notícia foi imediatamente transmitida superiormente pelas vias competentes [...] e quando se esclareceu a situação veio a saber-se que o 11 de Março foi preparado por ambos os lados, sendo difícil determinar qual dos lados foi o agente motor e qual dos lados actuou por estímulos bem determinados em relação ao temperamento, às ambições e à estabilidade psíquica de determinadas personalidades, para provocar a acção [...]", escreve Pedro Cardoso, que esteve com Spínola na Guiné e chegou a ser secretário-geral desta então província ultramarina.

O país, esse, vogava nas ruas das cidades ao sabor das paixões. Daquelas que sempre foram adiadas, como a liberdade, e das que agora nasciam, como a militância partidária a céu aberto, que envolvia a utopia de uma sociedade sem classes, com todas as marcas igualitárias do marxismo-leninismo. Turbulentas paixões que se esgrimiam no campo de ideologias que agora se podiam gritar por todo o lado. Em nome de tais idealismos corriam as ocupações populares dos latifúndios alentejanos, as nacionalizações das fábricas, os saneamentos nas empresas, a estrutura económica do país anterior ao 25 de Abril foi destruída, a energia acabou por enredar-se numa asfixiante paralisia.

(...) O PCP, hegemónico, espraiava-se pelo país na força daquilo que dizia ser a luta contra a reacção. Os outros partidos vogavam ao sabor da instabilidade, procurando agarrar-se a um espaço político e a nesgas de apoio popular que sobressaem de um povo demasiado espartilhado entre essa esquerda esfuziante e enérgica e uma direita sem referências e dividida.




(...) É por entre esta turbulência, por esta voragem libertária, que a extrema-esquerda e a extrema-direita vão crescendo, apanhando não apenas o que sobrava da espuma daqueles dias mas procurando organizar-se, enquadrar as massas que andavam à solta, a saltar de ódio em ódio, de catarse em catarse.

Spínola sai no 11 de Março e instala-se no Brasil. Todo o seu percurso foi acompanhado de perto pela Dinfo, como comprova um relatório assinado pelo subchefe da Divisão, Garrido Borges, com a data de 12, que, entre outras coisas, alerta o Presidente da República, Costa Gomes, para a possibilidade de "o general Spínola se fazer deslocar para a ilha Terceira (Açores), onde poderia constituir em território nacional um governo contra-revolucionário com o possível apoio dos Estados Unidos e dos movimentos separatistas açorianos".

Depois da partida do avião da Ibéria que iria levar Spínola de Madrid ao Brasil, a Dinfo põe em estado de alerta os comandos militares da Madeira e dos Açores para a hipótese de o avião ser desviado para qualquer dos aeroportos destas regiões. Pede ainda à Aeronáutica Civil que vigie a rota do avião e entra em contacto com a Embaixada do Brasil em Lisboa para tentar perceber a atitude do Governo brasileiro face a um eventual pedido de asilo político por parte do grupo spinolista. O Governo brasileiro faz saber que não aceitaria factos consumados e só encararia tal pedido através de uma das suas embaixadas, mas acaba por receber Spínola.

No Brasil, Spínola obtém apoios da direita brasileira, tendo o empresário Carlos Lacerda como pivô, e começam a chegar-lhe os primeiros ecos de Lisboa. Encontra-se em Abril com Alpoim Calvão, que, depois de uma aventurosa fuga de Portugal para Espanha, se desloca ao Rio de Janeiro financiado pelo banqueiro Miguel Quina, (...) e discute os primeiros esboços do movimento spinolista com o general. Este comunica-lhe que já tinha sido contactado, " a nível oficial", pelos americanos, que lhe propõem a criação de uma organização e de um plano para combater o PCP. É a primeira missão do antigo combatente na guerra colonial, Alpoim Calvão, um dos oficiais mais condecorados das Forças Armadas portuguesas, que se fecha por uns dias num hotel de Copacabana a escrever o tal plano.

No princípio, a organização esteve para chamar-se Frente Nacional de Libertação Nacional, mas a opção final acaba por ser o MDLP. E logo aí fica decidido que não fazia sentido travar essa luta à distância de um oceano, ou seja, a partir do cómodo e dourado exílio brasileiro. A Espanha, ainda que a mergulhar no estertor anunciado do franquismo, seria a base ideal para as actividades contra-revolucionárias. E logo às primeiras horas de ressaca do 11 de Março todos os que tinham fugido para o país vizinho perceberam que seria essa Espanha na transição, ainda incipiente, do franquismo a asa protectora ou, pelo menos, cúmplice da contra-revolução.

A imprensa da época aludia mesmo às "actividades pidescas" que marcavam o ritmo da conspiração nas zonas próximas da fronteira, Salamanca, Badajoz, Verín, Pueblo Sanábria, Orense, Tuy, Vigo eram os pontos de um complexo itinerário que a contra-revolução se esforçava por dominar, na esperança de enquadrar os refugiados. Enquanto o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC) mergulhava numa espécie de ir e vir interminável, avanços e recuos que todos os dias cavavam novos ódios, a direita spinolista, de facto, reorganizava-se em Madrid, para onde foi Alpoim Calvão e um conjunto de velhos companheiros de armas, quase todos das comissões de serviço na Guiné, mas também nas zonas raianas, por onde se movimentava gente como Torcato Augusto Correia e José de Magalhães. Era o MDLP que ia nascendo um pouco todos os dias.

(...) a resignação de Vasco Gonçalves, antes do 25 de Novembro, já tinha sido um importante sinal de que no interior do novo poder vigente em Portugal algo estava a mudar. Alguns de entre eles, ali por Vigo e Tuy, sentiram com forte desânimo a saída de cena de Vasco Gonçalves. Sentimento aparentemente contraditório, que, no entanto, se explica pela força da raiva que campeava por aqueles montes. Muitos, para lá da vontade de voltar a suas casas e propriedades, o que queriam mesmo era correr com os comunistas para o limbo da clandestinidade. Empurrá-los para o mar. Exterminá-los! Tensões que viriam a revelar-se complicadas de gerir, mesmo em tempos de paz [?].




Vasco Gonçalves e Costa Gomes

Ao centro: Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves

(...) As varetas que José Magalhães e Torcato Augusto Correia deitaram às águas do Cabo Silleiro faziam parte de um lote de duas mil armas oferecidas pela FNLA, de Holden Roberto, ao comandante Alpoim Calvão, e que foram transportadas para um armazém de Tuy, onde ficariam à espera que alguém lhes desse uso. E isso poderia ter sido, talvez, a 1 de Dezembro de 1975, Dia da Restauração, que também se arriscou a ficar para a história como o dia do início de uma guerra civil. Ou talvez não, porque o transporte das armas demorou um pouco mais do que se esperava. As armas só chegariam a Tuy já na madrugada de 2 de Dezembro, mas muitas daquelas armas que conspiravam em terras de Espanha chegaram a alimentar o sonho de entrar pelo país no Dia da Restauração...

"Eram vinte e seis toneladas de armas e munições que transportámos de Tunes para Cádis, onde foram desembarcadas com a autorização do então comandante-geral da Guardia Civil, e escoltadas pelo inspector Miguel Ascencio Ayedo, da Seguridad espanhola. Saiu um navio de Tunes que, a meio da viagem, rumou para o estreito de Gibraltar, em direcção a Cádis, em vez de seguir a rota que estava destinada. Depois arranjámos uma zona nas imediações do porto onde fizemos o desembarque".

A quantidade é precisada pelo próprio Alpoim Calvão, que, na altura, já se encontrava há uns bons meses em Madrid, à frente do MDLP. Foi depois de uma prolongada estada no Ambriz, em Angola, junto da FNLA, com quem tinha mais ou menos contratado a permuta das armas mediante um serviço de minagem do porto de Luanda, capital de um país já profundamente envolvido na trama da guerra civil, que o carregamento do material bélico em causa avançou.

O banqueiro Miguel Gentil Quina, personagem fundamental dos primeiros passos da reorganização spinolista, era representante da FNLA em Paris e foi com ele que Alpoim Calvão acertou, em 16 de Setembro de 1975, os pormenores da sua deslocação ao Zaire e a Angola, com o objectivo de executar o serviço. Tudo começou com uma conversa entre os dois, já depois de um primeiro encontro, logo a seguir ao 11 de Março, em que Quina também viria a financiar a deslocação de Calvão ao Brasil para se encontrar com Spínola.

"Encontrei-me no Ambriz com Holden Roberto e com Gilberto Santos e Castro, que tinha começado o MDLP connosco mas que depois foi para Angola combater ao lado da FNLA, e eles aprovaram o plano. Fechava-se o porto de Luanda com minas e o MPLA morreria por graves dificuldades no abastecimento. O plano foi exposto ao homem da CIA que fazia a ligação com a FNLA e este concordou. Todavia, o trabalho de minagem acabou por não se fazer devido a pressões do Congresso norte-americano. Holden Roberto, porém, cumpriu com a entrega das armas", diz Alpoim.

Quem arranjou as armas para a guerra que se adivinhava foi Alpoim Calvão, que organizou o seu transporte por barco da Tunísia, onde se encontravam depositadas, até Cádis. Neste porto espanhol, as armas foram descarregadas, com a referida protecção da Guardia Civil e da Dirección General de Seguridad (DGS), ou seja, os serviços secretos. "O então ministro do Interior, Fraga Iribarne, com quem chegámos a contactar através do empresário Manuel Boullosa, não se quis meter na história, não quis, no fundo, tomar conhecimento oficial, mas avançámos com o apoio da Guardia Civil e da DGS", lembra Alpoim Calvão.

Conjugavam-se os interesses dos derrotados no 11 de Março e os do regime franquista, que olhava com grande preocupação para a situação política portuguesa. Por essa altura, finais de Setembro, princípios de Outubro de 1976, já a Embaixada espanhola em Lisboa havia sido assaltada e destruída pela extrema-esquerda. Militares e políticos, sobretudo os mais ligados à direita do regime franquista, olhavam para Portugal como falcões à espera que a presa desse mais uma oportunidade para se deixar apanhar.




Entre 11 de Novembro e 2 de Dezembro, foram transportadas do porto de Cádis para Tuy duzentas e trinta armas, a maior parte espingardas Mauser, e trezentas e quarenta e uma mil e seiscentas munições. Era a fatia mais importante do lote que tinha viajado de Tunes. O resto foi ficando pelo caminho, entregue a núcleos locais situados junto à fronteira. E o MDLP tinha vários núcleos particularmente activos, não apenas no Norte, mas da fronteira de Ayamonte para cima.

A operação das duas mil armas está descrita num relatório do seu responsável, tenente-coronel António Quintanilha, que o entregou, em 8 de Dezembro de 1975, à Divisão de Logística do MDLP, onde é explicitamente referido o apoio das autoridades espanholas e descrito o rol de viaturas envolvidas no transporte de Cádis para Tuy: um Renault 16 de matrícula 6653-QV-14; dois Ford Cortina, BR-15-03 e CF-62-46; um Opel 1204, CR-55-53; e três Land Rover, O-7931-C, M-AZ-2402 e M-AY-5218. Para lá de um camião TIR de trinta e tal toneladas... E escrevia o tenente-coronel António Quintanilha no relatório: "No dia 21 de Novembro, recebi do senhor tenente-coronel Dias de Lima a ordem, via telefónica, para entregar sessenta e dois cabazes de batatas e sessenta e dois melões ao senhor Joaquim Ferreira Torres". Traduzindo: Quintanilha recebeu ordem para entregar sessenta e duas caixas (cabazes) de armas (batatas) e ainda sessenta e duas munições (melões)...

Em Tuy, ficaram depositadas num armazém, que também era um dos principais pontos de apoio logístico das actividades do MDLP junto da fortíssima comunidade de refugiados, gente sobretudo do Norte, que se aglomerava por ali, entre Tuy, Vigo, Guardia, Pontevedra e Orense. Eram umas dezenas de milhares que viviam na ânsia de ver chegado o dia de vingança contra os comunistas que os obrigaram a fugir à pressa. Uns fugiram logo no dia 25 de Abril de 1974, outros só depois do 11 de Março.

Pois por esta história se vê que não foi pura fantasia esse perigo de se pegar o país inteiro ao tiro e à estalada. Como, de resto, hoje se sabe de ciência certa e segura. As montanhas do Norte e as planícies do Alentejo faiscaram intensamente entre 1974 e finais de 1975. Apenas faltou que alguém lhes deitasse o fósforo. Mas estava tudo preparado para mais uma convulsão peninsular, lá isso estava. À esquerda e à direita.

O próprio MFA acaba por se envolver num conturbado processo de guerras intestinas que culmina com alguns episódios que ilustram bem a força das emoções que corriam. A distribuição das armas a dirigentes do PS, PPD e CDS, bem como a populares, é feita por vários oficiais, entre os quais o general Galvão de Figueiredo, com a cobertura do próprio general Ramalho Eanes. Isto viria a ser reconhecido mais tarde, em comunicado do Estado-Maior do Exército, a propósito do caso que envolve um elemento da segurança do PS, Centeio Maria, apanhado pela Polícia Judiciária numa operação de venda de armas automáticas pertencentes ao lote distribuído aos socialistas através de Edmundo Pedro.

(...) O comunicado do Estado-Maior do Exército a propósito do "caso Edmundo Pedro" confirmava que em 1975 "tinha decidido distribuir armamento a elementos democráticos, por alturas do 25 de Novembro de 1975", e que as metralhadoras G-3 encontradas na posse de Edmundo Pedro faziam parte desses lotes.

(...) Todavia, a distribuição das G-3 não se tinha circunscrito ao PS. O próprio fundador e então dirigente do PPD, Emídio Guerreiro, garantia abertamente nos tempos do PREC que estava em condições de "dispor de mil homens em armas", sem especificar, porém, de que armas falava. A verdade é que as metralhadoras tinham desaparecido aos milhares dos depósitos militares de Beirolas, de Sacavém e de Tancos. Portanto, nem a Emídio Guerreiro nem a qualquer outro dirigente partidário seria difícil armar uma milícia. Coisa que aconteceu abundantemente nos partidos de extrema-esquerda, sobretudo nas Brigadas Revolucionárias do PRP, formação liderada por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, que chegaram a estar presos durante alguns anos por acções de luta armada protagonizadas nesses anos.






(...) Sete dias depois do 25 de Novembro, aliás, o Exército apressou-se a tentar recolher as armas distribuídas e desencadeou uma gigantesca operação stop em que envolveu diversas unidades, incluindo os fuzileiros. Foram apreendidas vinte e oito espingardas G-3, duas Kalashnikov, cinco espingardas Winchester automáticas, dezanove pistolas de guerra, quarenta e sete granadas de mão defensivas, setenta e cinco espingardas de caça, setenta carregadores de G-3, cocktails molotov, outras munições, punhais, matracas e fardas camufladas. Fraca colheita, contudo, perante a dimensão que a entrega de armas a civis tinha assumido. Mas uma simples operação stop dava conta dos cuidados de defesa que reinavam no país.

A revolução parecia estar na iminência de rebentar por dentro, com o perigo da direita a ulular em cada assalto a sedes dos partidos de esquerda e de extrema-esquerda.

(...) As Mauser, espingardas de repetição, armas robustas e de fácil manutenção, apesar de caídas em desuso nos meios militares, iam servir aquelas ânsias de vingança, pois destinavam-se a armar milícias populares dentro e fora do país. Eram os instrumentos fundamentais da subversão que o movimento spinolista, e não só, queria criar no país para cercar o PCP e o COPCON, força militar liderada por Otelo Saraiva de Carvalho, um dos maiores símbolos da Revolução dos Cravos, mas agora a deixar-se ir na volúpia dos excessos revolucionários da extrema-esquerda, executando prisões com mandatos em branco, de gente sem culpa formada. Quase bastava um grito da multidão, um apodar de "fascista" ou de "capitalista" para que o COPCON entrasse em cena. A justiça, nas suas várias componentes, da investigação ao julgamento, não funcionava. Tudo estava na mão do MFA e do poder militar emergente.

O plano do MDLP para lutar contra a hegemonia comunista previa a constituição de milícias coordenadas por grupos de oficiais, que funcionariam como suporte dos grupos de militares profissionais que estavam em constituição nas unidades das Forças Armadas portuguesas e que já haviam dado sinais de simpatia ao movimento spinolista. Contas feitas, com a prudência que a distância (...) aconselha, pelos próprios líderes do movimento, dão cinquenta a sessenta por cento das unidades do Centro e Norte ao lado do MDLP, em vésperas do 25 de Novembro, para lá das forças paramilitares da GNR e da PSP e de grupos de tropas de elite como os antigos comandos. Esses eram os elementos de um plano que passava por lançar a confusão no país com movimentos de resistência popular, atentados bombistas e acções armadas.

"Víamos como única opção a luta armada para fazer frente ao gonçalvismo", recorda Alpoim Calvão. Por isso, o MDLP obedecia funcionalmente a uma coisa que chamava "Estratégia geral de execução", que desenvolvia por sete fases. O primeiro passo era a criação de uma plataforma de frente comum - que agregasse as espumas inorgânicas que eram o ELP, o "Maria da Fonte" e, na fase inicial, o próprio MDLP. Depois, viriam sucessivamente o planeamento, a organização, a implantação no terreno, o início da subversão, as acções armadas, a guerra de libertação e, finalmente, a criação de condições para a implantação do sistema democrático livre e pluralista.

A marcha da contra-revolução spinolista parou durante a quarta fase ("do início da subversão") e antes da quinta ("da guerra de libertação"), como são definidas pelo estratega daquele movimento. Um plano que, mesmo no seio do movimento, não era pacífico, e Sanches Osório, major na reserva, que recebeu de Spínola o estatuto de encarregado das relações externas do movimento, em Paris, não hesita em apelidar de "megalómano". Razão que, aliás, considera responsável pelo afastamento de alguns serviços secretos ocidentais que, a certa altura, adoptaram uma postura de distanciamento em relação a Spínola, quando antes tinham manifestado grande entusiasmo em apoiar e fomentar as suas actividades contra-revolucionárias.

O major de artilharia Morais Jorge, que viria posteriormente a protagonizar uma cisão interna, ocupou-se da preparação da luta armada através da criação da Rede de Acção Interna (RAI) e passou a lançar os seus homens para o terreno nos contactos com os refugiados e com os caciques locais. Oficiais do MDLP instruíram os grupos de milícias nas freguesias e misturaram-se com os homens do movimento popular impulsionado pela Igreja nortenha intitulado "Maria da Fonte".


Paradela de Abreu


(...) O plano do MDLP cruzava-se no terreno com o plano "Maria da Fonte", uma criação do editor Paradela de Abreu, fortemente apoiado pela Igreja, através do arcebispo de Braga, primaz das Espanhas, D. Francisco Maria da Silva. Este, na altura já muito doente, nomeou o cónego da Sé de Braga, Eduardo Melo, cuja influência crescia a olhos vistos, para seu representante na execução do plano. Uma criação de Paradela que receberia ainda a bênção do major Sanches Osório, um militar de Abril de formação monárquica. Mas recebeu, sobretudo, o apoio inicial de Jorge Jardim, delfim de Salazar, homem riquíssimo e eminência parda do regime em Moçambique.

Jorge Jardim viria a ter um papel determinante nos bastidores das actividades contra-revolucionárias. Spínola e Alpoim Calvão eram os rostos que se movimentavam na cena política internacional. Jorge Jardim foi, até certa fase, o homem que mexia os cordelinhos junto da Igreja, da alta finança, dos serviços secretos de diversos países ocidentais. Era, afinal, a ponte mais consensual possível que se podia estabelecer entre os diversos grupos que se posicionavam no exterior contra a situação em Portugal.

Sanches Osório (...), era um contacto habitual de Jorge Jardim nas suas passagens por Paris. Algumas das conexões existentes com serviços secretos ocidentais passavam pela capital francesa. A própria relação de Sanches Osório com os serviços de informação franceses era um exemplo do interesse que o processo português suscitava no seio dos governos europeus. O homem das relações externas do MDLP adquiriu, em Paris, um contacto privilegiado com os serviços secretos franceses, que passava directamente pelo seu próprio responsável, o conde Marenches, com quem discutiu os apoios franceses ao movimento. Chegou a promover uma reunião entre Spínola e o conde Marenches, mas correu mal. "Aquele plano do MDLP era completamente megalómano e afastou os franceses de um apoio efectivo. A luta armada e a invasão não lhes calhou nada bem", afirma Sanches Osório.

Foi, também, o organizador de uma reunião que visava a instituição de uma pool de financiadores do MDLP. Um encontro que também correu mal. A reunião foi em casa de Manuel Boullosa, em Neully, nos arredores de Paris, com os industriais António Champalimaud e Miguel Quina. Champalimaud, porém, afastou-se da organização de Spínola logo no primeiro encontro. "Só financiava se ficasse ele como estratega e orientador político do MDLP, porque não acreditava no general Spínola. Considerava-o muito pouco hábil para a política. Como discordámos disso, nem ficou para almoçar e foi-se logo embora", recorda Sanches Osório.

(...) O 11 de Março surpreende Sanches Osório na Golegã, onde ouve as notícias que dão conta da saída de Spínola para Espanha. Sai então do país, a partir de Fátima, com a ajuda da Igreja Católica, mas depois consegue apanhar um carro que o leva até Salamanca. Só viria a encontrar-se com Spínola uns seis ou sete meses depois, no Rio de Janeiro, numa fase em que já estava sediado em Paris. Foi, contudo, com Jorge Jardim com quem mais contactou durante o exílio parisiente, até porque algumas das negociações de financiamentos, apoios políticos e operações mediáticas do MDLP tinham na capital francesa em centro nevrálgico.


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Foi por aí, por esses tempos de exílio parisiense, que Jorge Jardim terá tido uma ideia fulminante para envolver a Igreja na dinâmica de reacção interna aos comunistas. Conhecia bem o arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, e escreve uma carta de denúncia ao COPCON, revelando que o prelado ia a um congresso ao Brasil e que se preparava para transportar divisas para fora do país. É enviado de imediato um batalhão para o aeroporto e o bispo vive alguns momentos mais humilhantes da sua vida: é revistado e, para tal, obrigado a despir-se. "Foi genial, porque assim que regressou do Brasil, D. Francisco Maria organizou de imediato uma manifestação em Braga contra o Partido Comunista. Jorge Jardim estava convencido, e bem, que tinha de ser algo humilhante que o fizesse reagir, como, de facto, veio a acontecer", recorda Sanches Osório.

Daí para a frente o Verão nunca mais parou de subir nos termómetros. A chamada "reacção interna" salta para as ruas com todos os contornos conhecidos. E Sanches Osório também não tinha dúvidas que não havia outro caminho para conter o deslizar do país para a esquerda. Paradela de Abreu, um dos lideres de "Maria da Fonte", acaba por ser o elemento de ligação com toda a estrutura da Igreja no terreno. Estabelecia os contactos com aquilo a que Sanches Osório chama os "delegados" que a diocese de Braga nomeava para os "efeitos da contra-revolução".

Jorge Jardim foi, indiscutivelmente, o impulsionador dos movimentos de contestação ao poder instituído em Portugal com o 11 de Março, mas acabou por apostar, sobretudo, naquilo que inorganicamente se afirmava como movimento "Maria da Fonte" e que foi, nos seus traços essenciais, a capacidade de pôr o povo na linha da frente do combate anticomunista. Esteve em tudo: desde os financiamentos ao desenho concreto dos passos a dar no terreno.

"A própria designação "Maria da Fonte" nasceu quase telepaticamente. Após um longo diálogo, eu e Jorge Jardim exclamámos ao mesmo tempo um para o outro: "Mas isto pode chamar-se 'Maria da Fonte!'", explica-nos Paradela de Abreu, com as mesmas palavras que mais tarde escreveria no livro Do 25 de Abril ao 25 de Novembro...

(...) o expoente da raiva que envolvia comunistas e apoiantes da contra-revolução da direita, ou tão-só populares anónimos que não se reviam no PC, aconteceu na cidade de Leiria. Entre os dias 25 e 27 de Agosto a cidade de Leiria foi um dos maiores laboratórios desses ódios que andavam nas ruas e campos do país, que varriam todas as boas vontades. Milhares de pessoas, algumas estimativas falam mesmo em cinquenta mil, cercaram as sedes do PCP e de outros partidos de esquerda, que tiveram de ser defendidas por militares do Regimento de Artilharia de Leiria (RAL), mantendo os respectivos militantes sitiados. Houve tiros de um lado e de outro, "tropas" inesperadas e voluntárias que acudiam em socorro de cada uma das partes que não paravam de chegar. No clímax dos acontecimentos, as bombas fizeram ouvir-se e na troca de tiros morreu uma pessoa e houve para cima de trinta feridos. "O morto foi atingido por rajada de metralhadora que lhe esfacelou a cabeça", escrevia o Diário de Lisboa a 25 de Agosto de 1975. Nunca se ficou a saber de onde partiram os disparos, embora se admita, de um lado e de outro, que tenha sido do lado da tropa que defendia a sede do PCP.

O "comandante Cruz", nome de código de Paradela de Abreu, evoca esses momentos: "O que aconteceu em Leiria foi decisivo para fazer a profilaxia necessária a evitar uma guerra civil porque foram três dias de grandes tensões. Uma amostra a sério daquilo que, a generalizar-se pelo país, teria sido um desastre". E Leiria foi, afinal, um exemplo prático daquilo que era o plano "Maria da Fonte" nas suas linhas essenciais: pôr o povo anónimo na primeira linha da luta contra a influência do PCP.


Localização de Leiria








Localização do Alentejo




Destruição da sede do Partido Comunista em Braga


Localização de Braga




´











O enviado do Diário de Lisboa, jornal próximo do PCP, a Leiria era o escritor Luís Sttau Monteiro, que descreveu o assalto: "Os assaltantes, tendo aberto as janelas da sede, começaram a lançar por elas tudo o que encontravam, mesas, cadeiras, papéis, cartazes, folhetos, tapetes - tudo". E escreveu também sobre a troca de tiros registada, que provocou vários feridos, lembrando que "se ouviam os sinos de uma igreja a tocar a rebate e alguns dos presentes começaram a dizer que vinham aí camionetas das aldeias". Pois as armas estavam nas mãos dos dois lados, a Igreja mobilizava o povo, os insultos corriam céleres, a raiva pairava sobre uns e outros debaixo daquele sol que escaldava os corpos mas, sobretudo, as cabeças.

Os populares avançavam ao som de canções com letras "de resistência" e com ritmos de folclore minhoto que saíam de altifalantes e megafones colocados no meio das multidões que se concentravam nas manifestações. Eram canções de um disco de 45 rotações intitulado Zé do Povo que havia sido gravado no Canadá. Foram feitas três ou quatro mil cópias que foram transportadas de avião para Madrid e depois para Braga em diversos carros. O autor das letras e intérprete das cantigas era um padre, radicado na comunidade portuguesa do Canadá. Em Braga, o bastião dos bastiões, qualquer pretexto servia para juntar o povo nas ruas. Por outro lado podia ser contra a Reforma Agrária, contra os saneamentos, contra a "sovietização", contra o COPCON, de Otelo, etc.

(...) Otelo Saraiva de Carvalho e o "Copcão", como diziam na pronúncia do Norte, eram mais um dos alvos do ódio. Outras das cantigas gritavam morte ao "cunhalismo" e clamavam pela "razão". Letras eloquentes dessa "música de intervenção", que espelham com fidelidade os sentimentos reinantes:


Morte, morte, morte ao revisionismo
Morte, morte, morte ao cunhalismo
De vez em quando a caserna é alargada
Para que outra fornada
Possa lá entrar.
Enquanto isso, eu que sou o Zé do Povo
E que espero algo de novo
Continuo a esperar...
Ai quem me dera nada ter para dizer
Mas o certo é que o Povo nada tem para comer
E o trabalho que eles tinham prometido
Já entrou naquela história
que é a história do bandido
Fui enganado por esse bando canalha
Que utiliza a metralha
Para me fazer calar.
Mas que a razão nunca pode ser calada
Nem que seja à cacetada
Ela tem de se mostrar.


Por isso, que alto soaram sinos de pequenas e grandes paróquias nortenhas durante esses meses. Os sinos da Igreja Católica dobraram por esses homens da contra-revolução de direita que puseram o povo na rua à caça de comunistas. Pelas contas das cúpulas da "Maria da Fonte" estariam umas quatro mil pessoas nas cadeias e cerca de vinte mil refugiadas em Espanha. Uns cento e cinquenta milhões de contos terão também voado do país para contas bancárias na Suíça, em Espanha e no Brasil. "Era o terror. O terror comunista!", afirma Paradela de Abreu.

O plano "Maria da Fonte", salta então para o terreno: a Igreja contra o PCP, assim se pode defini-lo em poucas palavras. A revolução do 25 de Abril não tinha tocado a estrutura da Igreja - o único acto de hostilidade havia sido dado pela ocupação da Rádio Renascença -, mas no desembocar do Verão cada paróquia nortenha era já uma "base" anticomunista. Cada igreja fazia de "quartel", cada padre de "general", cada sino de "telefone", cada crente um "soldado". Acima do Douro, nesse Verão Quente de 1975, os orgãos de soberania instituídos depois da revolução não mandavam...

Assalto e incêndio da sede do PCP em Ponte de Lima no Verão Quente


Localização de Ponte de Lima


Localização de Bragança


Castelo de Bragança: Torre de Menagem.

"O fenómeno sociopolítico que foi esta reacção popular só foi possível com o apoio da Igreja nortenha. Teria sido impossível eu sozinho mobilizar e dinamizar o povo do Norte", reconhece Paradela de Abreu. E, por isso, a "Maria da Fonte" tinha os seus "comandantes" espalhados pelas paróquias. Em Braga era o inevitável cónego Eduardo de Melo, em Bragança quem mandava na contra-revolução era o cónego Ruivo (já falecido), em Lamego todos os contactos gravitavam em torno do cónego Aníbal (que também já morreu) e em Leiria o rosto que emergia era o do cónego Galamba. Mas em Seia, de outro modo, não havia cónego. Por ali, quem mandava era uma senhora, D. Aninhas, a quem os homens do "Maria da Fonte" davam uma espécie de código, "Vaticano II", e que personificava a igreja local. Uns e outros eram a expressão dessa aliança "Igreja/Povo" que agitava o país, tal como antes a aliança "Povo/MFA" tinha sido decisiva para meter a Revolução dos Cravos nos trilhos da vitória.

O MDLP e o movimento "Maria da Fonte" distribuíam clandestinamente panfletos de "evangelização", com citações do discurso de renúncia feito por Spínola na sequência do 28 de Setembro.

Pegando nas palavras de Spínola, era lançada a tese do "cancro" que se implantava "no corpo da Pátria", e feito um forte discurso de base regionalista: "É um cancro que tem o coração em Lisboa e que, minuto a minuto, contamina o sangue português. Quer impulsionar o seu veneno até cada cidade, cada vila, cada aldeia, intoxicar o corpo nacional, torná-lo inerte e indefeso para o sujeitar depois à escravidão. Todos nós Portugueses sabemos o que é esse cancro: são as organizações comunistas e os militares comunistas de Lisboa. E são as ramificações e canais que estendem pelo país: os seus núcleos, as suas sedes, as suas comissões, os seus centros de trabalho, as 'campanhas de dinamização'". Milhares de panfletos destes identificavam os "alvos". O combate contra a "frente comunista" era ali convocado e são apresentadas ao povo as organizações que "representavam a força e a voz do Povo Português": O Partido do Progresso, o Partido Liberal, o Partido da Democracia Cristã, o jornal República e a Rádio Renascença. E os partidos que a "Frente Vermelha" afastava da condução do país, ou seja, o PS, PPD e CDS, por esta ordem, curiosamente.

Com este cenário traçado, o MDLP, e "as suas Forças Armadas", anunciava a "todos os portugueses que ainda não o conhecem" a sua "imparável determinação" de desencadear aquilo que classificou como "guerra de libertação nacional" para expulsar o "comunismo invasor". Eram verdadeiros manifestos de guerra, que, inclusive, declaravam quem eram os soldados que se propunham combater o comunismo. Eles iam da "grande população católica que não quer amanhã sobre os campanários das suas igrejas a foice e o martelo", até aos "saneados injusta e selvaticamente", passando pelas "famílias dos desempregados, dos quadros que no estrangeiro buscam o ganha-pão, dos emigrantes, dos foragidos de Angola e de Moçambique". Sem esquecer, claro, "os caluniados e desprestigiados membros da Polícia de Segurança Pública, da Guarda Nacional Republicana, Guarda Fiscal, oficiais, sargentos e soldados, antigos combatentes de África». Um caldeirão em que cabiam todos os rancores e todos os despeitos. Mas também todas as vítimas! Que se iriam juntar numa "cruzada branca" contra a "opressão vermelha".

Outros panfletos apelavam à organização das freguesias em núcleos de "autodefesa". Chamavam a Álvaro Cunhal "funcionário de Moscovo e dos serviços secretos soviéticos", afirmavam que declarara em Évora ter "mandado armar o Sul", com o objectivo de castigar devidamente o "Norte não comunista e anti-soviético". Por isso, lançavam uma mensagem que também ecoava como o rufar de um tambor de guerra. "Quando ouvires os sinos da tua freguesia tocar a rebate vem para a rua com as armas que tiveres, caçadeiras, pistolas, picaretas, enxadas ou gadanhas. A capacidade de combate está a cargo das BAT (Brigadas Anti-Totalitárias), constituídas por combatentes civis".

(...) Julho, Agosto, Setembro foram os meses diabólicos dos assaltos do chamado "povo do Norte", que, por vezes, era recebido a tiro de caçadeira de dentro das sedes. E nessa agitação participavam todos de mãos dadas: bases do CDS, do PPM, do PPD e do PS.

(...) Por entre a natureza inorgânica de tudo aquilo nasceram os "Comandos Democráticos do Norte", as Brigadas Anti-Totalitárias e os "Viriatos", decalcados estes últimos dos grupos de portugueses que combateram ao lado de Franco na Guerra Civil espanhola. Uns eram do movimento "Maria da Fonte", outros do MDLP, outros simplesmente andavam por ali...


Populares queimam mobiliário da sede do PCP em Famalicão


Localização de Vila Nova de Famalicão


Localização da Região Norte


Localização do Porto


Localização de Lisboa


(...) Desde Outubro, ou seja, depois do culminar das acções do Verão Quente, que aquilo que é definido pelos intervenientes como "programa máximo" do plano "Maria da Fonte" estava concebido e testado. Pôr o povo na rua era o mais fácil, bastavam os sinos das igrejas, e em quarenta e oito horas o território nacional acima do Porto estaria controlado pela contra-revolução de direita. Lisboa ficava sem dois terços da sua energia eléctrica e das dezoito pontes existentes a norte de Lisboa, à época, apenas as três da cidade do Porto ficariam de pé. Tudo o resto seria dinamitado.

Os focos de resistência comunista previsíveis a norte do Douro eram apenas dois e estavam centrados nos estaleiros navais de Viana do Castelo e nas tropas do quartel de Vila Real. Paradela de Abreu, o cónego Melo, os operacionais militares do MDLP, Ângelo de Trancoso seriam os generais e os capitães desta nova revolução, provavelmente sangrenta como nunca tinha sido em Portugal. De consequências para sempre imprevisíveis, que ali fariam nascer um Portugal radicalmente diferente daquele que existe nos dias que correm.

Mas, fosse lá o que fosse a conspiração em curso, que ainda hoje não se sabe bem, estava marcada para o dia 25 de Novembro. Cinco dias antes da data que tinha sido posta a correr para os homens do movimento "Maria da Fonte". Talvez tenha sido uma manobra de contra-informação o avanço da data de 30. Mas as dúvidas persistem. Mesmo no seio do grupo do Paradela e do cónego Melo aconteceram episódios que ilustram bem as incertezas e desconfianças.

"Estive em Lisboa uns dias e segui para Braga poucos dias antes do 25 de Novembro, depois de ter combinado uma forma de actuação com Canto e Castro assim que estoirasse o golpe militar. Ele garantira-me que era a 30 e eu fui para Braga convencido disso. Mas, para meu espanto, o cónego Melo disse-me que ia para Espanha. Fiquei para cair de lado, pois não queria ter a responsabilidade de accionar sozinho o plano. Expliquei-lhe isso, mas ele parecia-me muito nervoso e até assustado. Combinámos então que eu consultaria dois sacerdotes importantes na hierarquia da diocese de Braga e a decisão seria tomada em conjunto. E o cónego lá partiu para Tuy."

A verdade é que o contacto com Canto e Castro aconteceu a 25, avisando que tudo estava em marcha mas que a "Maria da Fonte" não se mexesse. Desnorte nas hostes, que se acentuou quando no dia seguinte já não houve qualquer telefonema. Vieram os resultados do golpe pela televisão e por aí também assistiram à célebre intervenção de Melo Antunes a considerar o PCP um partido "fundamental para a construção da democracia". Carradas de desconfiança logo ali nasceram e levaram as cúpulas que restavam em torno de Paradela de Abreu a uma reunião para decidir se o plano era accionado ou não. E o "não" emergiu perante a resignação geral e, sobretudo, a manifesta insegurança instalada. A cadeia de comando não era evidente, não era segura, mais do que nunca o movimento "Maria da Fonte" avançaria para o terreno de forma desordenada e incontrolada. O espectro da matança era evidente. Por isso se optou por conter os ímpetos».

Eduardo Dâmaso («A Invasão Spinolista»).

Moca de Rio Maior


Localização de Rio Maior




«(...) Cada Natal que chega - depois do 25 de Abril - avolumam-se os processos, as multas e as condenações. O que se pretende? Castigar duramente o jornalista. PARA QUE SIRVA DE LIÇÃO AOS DESOBEDIENTES: Aos que não dizem "yes" a tudo,

(Lembro-me de há bem pouco tempo, Mário Mesquita ter escrito um artigo em que se focava os "yes men")

aos que, acreditando na liberdade de imprensa, abrem as suas páginas aos leitores que se sentem atingidos e confiam na justiça que, através do conhecimento público, será feita. Ora, neste país, entre os vários tabus (Conselheiros da Revolução, Ministros, etc.) há também a Polícia Judiciária, a Polícia que não descobre nunca (ou descobre e esconde?) os bombistas, não admite que um jornal publique a carta de um leitor que dela se queixa. Sem fazer um inquérito, manda punir.

O ano passado, o presente Natal que a Comissão encarregada de desvendar os mistérios do "Angoche" nos deu foi consentir em concordar em que deveriam estar vivos alguns dos tripulantes. Foi um presente, apesar de não figurar o nome de"O Diabo" (disseram sempre semanário) como autor da revelação. Revelação sensacional. Mas não quisemos nem queremos prémios. Queremos que façam imediatamente as pesquisas necessárias, que interroguem Vítor Crespo (continuará ele a ser intocável?) para que os que ainda se encontram vivos possam voltar para a família.

Mas também nos contemplaram com uma bomba, na Avenida da Liberdade, durante a manifestação que efectuámos no 1.º de Dezembro. Quem pôs a bomba que matou um pobre homem (estávamos a 200 metros, conforme assegura o neste caso honestíssimo "Diário de Lisboa") calcula que íamos morrer, os da primeira fila. O que tem graça (!) é que todos estávamos preparados para isso. O que não tem graça nenhuma é que o assassino viu a vítima sentada no local onde tinha posto a bomba. Basta ver as sequências fotográficas do "Extra". Sabia e não mandou levantar. Seria um a mais a ir pelo ar. Os assassinos viam a cena de camarote. Precisamente, da sede do Partido Comunista na Avenida da Liberdade».

Vera Lagoa («A Cambada»).


«Chego a Lisboa e escrevo ao Presidente da RTP. Mais ou menos isto: As eleições têm uma Lei, a chamada Lei Eleitoral. Essa Lei determina que a RTP, monopólio televisivo do Estado, bem como todos os orgãos de informação estatais, dê a todos os candidatos um tratamento rigorosamente igual. Ora  RTP já emitiu e anunciou emitir, durante hora e meia para cada um, entrevistas de propaganda eleitoral com os Srs. Freitas, Soares, Pintasilgo e Zenha. Façam o favor de me dizer quando é a minha vez.

Dias depois recebo a resposta. Vem numa carta assinada por um tal Dr. João Manuel da Palma Carlos que diz ser Presidente da RTP. Em linguagem chã, pão pão queijo queijo, o que me diz é o seguinte: a RTP entrevista quem muito bem entende, entende que a si não o entrevistará, nem a si nem a candidatos que não forem do sistema, que foi ele que aqui me pôs, e quanto à Lei mando a Lei às malvas.



(...) O "Diário de Notícias", que é um dos mais conhecidos orgãos da imprensa estatizada, publica uma entrevista de quatro ou cinco páginas, fotos, sorrisos e tudo, com o candidato do sistema, M. Soares. Informa os leitores de que é, essa, a última de uma série de entrevistas que fez a todos os candidatos presidenciais, entendendo naturalmente por todos apenas os quatro do "sistema". Como, decididamente, a bofetada da RTP nada me ensinou, fico estupefacto, arranco da caneta e escrevo ao Director do Jornal, um tal Senhor Mesquita que, sempre que leio o "Diário de Notícias", me faz ver a sua solene declaração de se demitir em certo dia futuro por amor à liberdade de imprensa e suas leis que diz estarem sendo coarctadas e infringidas. Cúmulo da ingenuidade: volto a citar a Lei e acrescento até um apelo à democracia. A resposta vem rápida e breve. Igualzinha à do Presidente da RTP: o Director do "Diário de Notícias" é quem é, foi lá posto pelo "sistema" e manda às malvas a democracia, a Lei, os candidatos independentes e tudo o mais que vier.

(...) Até aqui, os grandes orgãos de informação do Estado. Agora, "O Diabo", um semanário abominado - dizem - pelo "sistema", aparentemente oposto ao "sistema", último resquício - dizem - do fascismo.

O caso foi que Manuel Múrias publica no "Diabo" um artigo de descontraída sabedoria política sobre os anunciados candidatos à Presidência da República, caracterizando cada um deles e classificando-me a mim e ao Gen. Altino de Magalhães, como "candidatos perdedores". A mim atribui-me o propósito puramente intelectual de aprender o que seja a política que, como a natação, é coisa que só se aprende fazendo.

Mando para "O Diabo" uma resposta ao artigo. Por três razões a mando. É uma, a de o artigo suscitar resposta. É, outra, o respeito que tenho pelo talento do Múrias. A terceira é uma torpeza política: uma vez que os meios de informação me fecham as portas, não posso perder a oportunidade de uma polémica.

Mas também aqui, na imprensa privada e "independente", não funciona a lei da liberdade de expressão, com o direito de resposta que ela diz assegurar a todos os cidadãos. Também aqui vejo decepcionada a minha ingénua inocência política. Uma primeira resposta, embora acompanhada da réplica do Múrias, ainda é publicada. Envio a tréplica. Mas a Direcção do "Diabo" já não alinha. A minha querida Vera Lagoa, e quem mais seja, não quer, ou não pode, estragar o negócio. Está guardando o seu semanário para um candidato que lhe dê satisfações que eu não lhe posso dar; já na mira, o Champalimaud e, falhando este como sempre falha, o Freitas.

(...) Os jornalistas andam às apalpadelas. Estão nas redacções dos jornais, da rádio, da RTP onde lhes pagam o magro ou gordo salário que não podem dispensar. Têm naturalmente formada uma opinião sobre os candidatos que, em geral, conhecem pessoalmente, e bem. Mas como escrever? Que escrever? Está sem dúvida legalizada a liberdade de imprensa, há o sindicato, não há censura. Mas a liberdade de facto, se de facto a houver, só para os patrões. A eles apenas lhes cabe escrever o que os patrões mandarem. Se o não fizerem, o que escrevem não é publicado e, pior do que isso, acabar-se-lhes-á o contrato na primeira ocasião e não terão "boas informações de docilidade" para novo contrato. Não lhes resta senão escreverem o que os patrões quiserem. Mas que querem, que mandam os patrões? Esses também andam às apalpadelas. A maior parte nem sequer são patrões. São directores de imprensa e da rádio estatizadas, são portanto empregados do Estado e têm de obedecer ao Estado. O Estado não é, como muita gente julga, uma entidade abstracta. É uma organização muito poderosa comandada por certos senhores muito reais, os que compõem aquela "classe política" a que o Sr. Freitas do Amaral chama já "dirigente" e propõe, nos objectivos da sua candidatura, institucionalizar como uma "nomenklatura" moscovita (Ver o livro "Uma Solução para Portugal").

Os patrões da imprensa privada não estão melhor do que os outros. Geralmente são condóminos do jornal que dirigem e sabem que precisam do Estado para receber os indispensáveis subsídios, papel, etc. Têm por isso, de jogar certo porque se fizessem o jogo de um candidato que não tenha o apoio do "sistema", vão com certeza para a falência. Tudo e todos dependem, pois, dos chefões políticos. Dependem da distribuição que eles façam dos "orgãos de informação" pelos candidatos do sistema. É uma distribuição decerto fácil, apenas uma formalidade, mas tem um calendário táctico. Enquanto não for feita, os jornalistas andam às apalpadelas.

Orlando Vitorino

(...) Parece enfim completada a distribuição dos "orgãos de informação" pelos candidatos do sistema: a Presidência da RTP e a Direcção dos respectivos serviços de informação, ficaram no PS, que é o mesmo que dizer no Soares; a Direcção do "Diário de Notícias" está com Zenha; com Zenha está o "Jornal", o "Tal e Qual" e o "Diário"; o "Diabo" passou-se para Freitas e de Freitas é "O Primeiro de Janeiro", tal como o "Semanário", este, aliás, "suplemento" ou "complemento" político moderado de "O Diabo"; e assim sucessivamente.

Distribuídos os orgãos de informação, cada candidato controla os que lhe cabem. O controlo vai desde a assegurada obediência dos directores até à colocação de um "controleiro" na Redacção. Com tudo isto, os jornalistas nunca viram a sua independência tão desprezada. Todavia, nunca o direito de cada um só escrever o que entende foi tão expressamente consagrado na Constituição, representado em Instituições, regulado nas Leis e propalado aos quatro ventos. Ai, porém, do jornalista que não insinue louvores ao candidato do jornal, que não respeite o "controleiro". E sobre tudo isto, ainda se vê humilhado do modo mais vil. Imagine-se como se sentirá o redactor do "Semanário", de "O Diabo" ou do "Primeiro de Janeiro", que todos os dias é obrigado a utilizar a caneta em louvores ao candidato Freitas, imagine-se como ele se sentirá ao abrir o livro de candidatura deste candidato e aí se ver denunciado como elemento de uma desprezível classe de ignorantes e ameaçado de ser mandado para a escola.

O medo e a vergonha instalaram-se nas Redacções. Os jornalistas já nem têm o recurso de salvarem a cara com a existência da abominável Censura, que toda a gente julga que não há. Ao seu último orgulho só resta o refúgio numa atitude cínica e céptica que depressa os reconduzirá àquele aviltamento reles e canalha que Eça de Queiroz descreveu no romance "A Capital"».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).



A CAMBADA

Ouçam bem, amigos recentes, amigos antigos que continuam a sê-lo e amigos que perdi: eu não sou de direita, por formação. Mas - e isto queria que todos soubessem - se esquerda é aquilo em que vivemos, então, declaro que não sou de esquerda. Se esquerda é aquela infâmia que vota outra infâmia na fantochada em que se tornou a Assembleia da República, eu nunca mais serei de esquerda. Porca miséria!

(...) Revejo o meu País. Junho de 1978. Dia 13, dia fatídico. Fatídica notícia. Foi instaurada a pena de morte em Angola. Pena de morte que já existia, mas apenas para militares e que agora abrangerá também os civis. E aos civis estrangeiros que residam naquele "país", agora satélite da URSS e de Cuba.

Portugal que foi uma das primeiras nações a abolir a pena de morte, tem hoje um governo que se ufana das relações com um regime totalitário, escravo de Moscovo, que tem por símbolo a morte.

Portugal tem hoje um governo (é bom lembrar que os direitos humanos são também aqui atropelados) que, sabendo embora que o MPLA não representa senão uma minoria de fanáticos agentes comunistas, pretende legislar de modo a que a resistência à tirania em Angola seja por todos os modos impedida no nosso país.

O "enxofrável" Antunes foi a Luanda.

(Podem julgar-me cem vezes, que nunca o chamarei de outra forma)

e como resultado trouxe-nos - rica prenda - o seu amigo Costa Martins!

Mas não trouxe mais nenhum prisioneiro. Qual o futuro que espera os outros portugueses que jazem nas masmorras angolanas? Irão eles ser vítimas da pena de morte que Neto acaba de proclamar?













Que diligências já fez o Governo de Lisboa para obter a liberdade desses novos compatriotas? Como foi possível aceitar (e com que alegria!...) a nomeação de um embaixador do MPLA em Portugal, sem que, ao menos, esse gravíssimo problema fosse resolvido?

A pena de morte vai ser, pois, aplicada "legalmente" em Angola. E o governo que temos não só recebe de braços abertos o embaixador de Neto, como vai tentar proibir que os portugueses contactem (ou ajudem) com os angolanos que não se submetem à ilegítima tirania cubano-russa.

Impunidade absoluta. A Cambada continua à solta - o Costa Gomes, o Vasco Gonçalves. O Rosa Coutinho, o Melo Antunes, o Corvacho, o Costa Martins, o Diniz de Almeida, o Fabião, o Durant Clemente, o Judas, o Almada Contreiras, o Arnão Metelo, o Correia Jesuíno, o Montez, o Paulino, o Fernandes (das G3), os torcionários da Polícia Militar, os energúmenos da 5.ª Divisão, os "gajos porreiros" do Ralis...

(...) Revejo o meu País. Aparecem todos nas recepções das embaixadas. E quem vai a essas recepções? Ora todos os de antigamente e os de agora. Isso mesmo. A nova burguesia toda de vestido comprido. Todos se odeiam e se cumprimentam ternamente. Alguns mesmos aos beijinhos...

Plumas, senhoras que foram pegas e agora são intelectuais (está muito na moda ser-se intelectual e toda a gente escreve um livro contando o seu passado anti-fascista).

Estão quase sempre todos. O Gomes de Chaves (de novo em público), mostrando-se bastante efusivo. (Será devido às suas contínuas viagens aos países de Leste?); o Rosa Coutinho; o argelino Piteira Santos; lá aparecem também os conselheiros Sousa e Castro além do "enxofrável", Charais, Martins Guerreiro, Pezarat, o Vitor Alves e o inevitável Vitor Crespo com ar doentio, magro, pálido e bebendo qualquer coisa indolor que não é whisky. Talvez "gin tónico", talvez "vodka" ou talvez água das Pedras. E o major Aparício, sempre vigilante nestas recepções porque esta gente merece estar debaixo do olho da polícia...

(...) Revejo o meu país. Que situação trágica. Sabem o que tenho ouvido nas casas de estrangeiros que tenho frequentado? Estrangeiros informados, que lêem o que se passa no mundo. Estrangeiros que amam Portugal. Pois sabem o que tenho ouvido? "Portugal não tem viabilidade, Portugal não tem solução".

Isto quer dizer que há mesmo quem admita que Portugal, como Nação, possa desaparecer. Mas isso é que, Portugueses, nunca poderemos admitir. E depende de nós. Sabemos que tudo se fez para que Portugal deixasse de existir. Que tudo se faz ainda. Mas insisto: não o podemos admitir.

Se for preciso matar para que Portugal se mantenha independente, os portugueses matarão. Se for preciso morrer para que Portugal se mantenha independente, os portugueses morrerão. E não me digam que isto não é linguagem para uma mulher, porque não há homens nem mulheres quando se trata de defender uma Pátria. Há apenas patriotas.

(...) Uma Cambada! Uma Cambada!...




Revejo o meu País. No que nos reduziu o PC. Ao que nos reduziu também o PS. Sim, o PS! O PS donde obviamente saí a tempo e horas. Ao contrário da frase cuspida por Mário Soares (aquele que não sabe perder), em Catalazete: "Quem deve governar o País é o PS".

(Citada pelo "Diário" amigo dele Mário)

É justamente o PS quem não deve governar o País. Porque já demonstrou largamente a sua incapacidade para o fazer. Lançando-nos na miséria, deixando reinar o compadrio de Argel, com a cumplicidade do PC.

Quem se poderá esquecer do coio de mentirosos, de imbecis, de oportunistas, de vendidos e delinquentes do PS que deixaram este pobre País em pantanas? E, ainda têm o descaramento de falar em "pesada herança". Quem poderá esquecer do celerado Almeida Santos, o advogado dos grandes monopolistas de Moçambique, o responsável pela trama jurídica da desgraça da descolonização, o presumível passador de moeda para a Suíça antes da independência de Moçambique (isso não chega para o classificar de crápula?), a alma danada da intriga, da perfídia de todas as etapas do PREC?

(...) Quem se poderá esquecer do caquético e prostático arranjista que dá pelo nome de António Macedo, o tal da "casa" no Porto, do café e das "viagens" a Angola e das "conversas" com o Agostinho Neto? E do tartufo do Campinos que nunca é carne nem peixe, antes pelo contrário? E também do Zenha (custa-me, mas é verdade!) que dizia que não existiam presos políticos em Portugal, quando as nossas cadeias estavam ainda mais cheias do que as do Chile? E do pobre Raul Rego (também me custa, mas também é verdade) que, a pretexto de um anti-fascismo idiota fez aumentar o ódio e as divisões quando se impunha e se impõe a reconciliação e a pacificação de todos os portugueses? E do demagogo e ditador Manuel Alegre que só lhe resta ir-se embora - já! - para Argel? E da arteroesclerose itinerante do Tito de Morais que arrumou toda a família em bons empregos e também deverá arrumar - enquanto for tempo! - as malas para Argel?

E do vendedor da banha da cobra, do parlapatão de província Arnaud (que até levou o Torga à certa, mas nunca terá o nome nas páginas do 13.º volume do "Diário", com grande mágoa sua!) e que insiste em assoprar nos comícios de fim de semana gaitadas do S.N.S.? E do submarino vesgo Saias, que sabe tanto de Agricultura como eu sei de trânsito? E do intrujão do Marcelo Curto que até deixou crescer as barbas para fingir que é o Antero de Quental a dar ordens ao José Fontana? E do assexuado José Luís Nunes que não passa de um fala-barato, com tiques, ou de um idiota útil e que foi atirado para o julgamento do caso Delgado como uma cronista do Parque Mayer para ver se safa o bando de Argel?

Uma cambada! Uma Cambada!... Uma Cambada que dava para uma enciclopédia ou para uma biblioteca, quanto mais para um livro...

Revejo o meu País. Quem não deve governar o País é o PS.

Ver aqui

O povo não se deixou enganar mas o certo é que essa "maioria de esquerda" esteve sempre em exercício (embora por vezes veladamente) e, por fim, até com a cobertura imbecil e oportunista das cúpulas do CDS.

(...) O facto de o PS e o PC (ainda bem que mostraram o jogo) se recusarem a colaborar no governo orientado por Nobre da Costa, é a prova do conluio que vem de longe e cujo objectivo é tornarem impossível a governação patriótica e independente que ponha o interesse nacional acima dos partidos. Acima dos partidos e, em especial, acima dessa autopropagandeada "maioria de esquerda". Os interesses da nação não são, com efeito, os seus interesses. Pretendem o poder não para salvar o país (pois destruíram-no e venderam-no), mas para satisfazer longas e antiquíssimas ambições pessoais e de grupo. Não têm o sentido de Pátria, bem pelo contrário: a Pátria foi por eles traída, esquartejada, vendida. Vendida às internacionais comunistas e capitalistas.

(...) Expulsem os vendilhões de Portugal enquanto é tempo. E depois não digam que não os avisei.

Não pensem que os membros da Internacional Socialista ficam parados. Um dia, portugueses, vocês acordam com o vosso país transformado numa província estrangeira. E não será o povo espanhol o culpado. Porque a Internacional Socialista "não tem fronteiras", como afirmou Filipe Gonzalez. As ordens que eles têm são de unir a Península dentro da Internacional. E se vocês, portugueses, não acordarem, isso será feito.

(...) Sabiam que também existem assassinos de Pátrias?

Fora com a Cambada! Fora com a Cambada. Fora com a Cambada já!


(...) COMO TE AGRADEÇO, ÁLVARO CUNHAL!

Imagine-se! Um secretário-geral de um partido com alguns lugares na Assembleia vir a público falar de "O Diabo"! Imagine-se!

É preciso que esse partido tenha muito pouca força, que o seu secretário-geral a tenha perdido ou tema que isso aconteça. Com os problemas candentes que o PCP tem, certamente, para se ocupar (e ele ocupa-se de tudo, o maroto) ainda perde tempo em vir acusar "O Diabo".

Mas "O Diabo" está grato. E eu, gratíssima. Não gastámos um tostão de publicidade, a não ser os tais míseros panfletos que o "Página Um" (um jornal de grande tiragem... e categoria) estranhou (pela despesa) que fossem atirados duma avioneta sobre o Porto. Apenas isso. A outra publicidade, a grande, fá-la, agora, Álvaro Cunhal. Sim, porque ele pode ser um grandecíssimo malandro (que é) que não deixa de ser uma das principais figuras (tenebrosas) deste país. Um homem condecorado pelo "sol" da URSS, um homem conhecido em todo o mundo, digna-se perder algum do seu tempo (sabemos, é verdade, que para ele o tempo não conta; sabe esperar) com um jornal que ele diz ter pequena tiragem. Pequena tiragem? A média dos quatro números anteriores de "O Diabo", publicados sob a minha direcção, é superior à centena de milhar de exemplares e figura, ainda, como o caso de vendas mais espectacular registado na imprensa portuguesa.

Vera Lagoa

Estranha Cunhal que nos aguentemos. Estranha Cunhal que tenhamos surgido. Mas nós nunca desaparecemos. "O Diabo" esteve suspenso, portanto, calado. Mas eu e os jornalistas que o fazemos nunca nos calámos. Nunca! Nos vários jornais por Cunhal considerados de "direita", fizemos sempre ouvir a nossa voz. Cunhal fala no aparecimento de "mais um orgão de direita". Com a consciência tranquila (e ninguém melhor do que ele o sabe) deixo-o chamar-me "de direita" à vontade. E nem estranho que o PCP mantenha tantos jornais em circulação, com tiragens pequeníssimas e um luxo de instalações, carros, etc. etc. Pagos por quem? Pelas quotizações dos militantes do partido?...

Ora vamos lá, meu querido amigo. Não estranhem que eu chame "querido amigo" a Álvaro Cunhal, porque sei o que estou a fazer. E ele também sabe. Então tu, Álvaro (tratamo-nos por tu como fazem os "amigos" do PC) censuras a RTP por me ter deixado ir ao Telejornal falar do reaparecimento de "O Diabo"? Então tu, Álvaro, esqueces que sempre que sai um jornal de certa importância (não a podes negar a este, visto que dele te ocupaste) - ou reaparece - os directores vão à televisão? Claro que devem ter saltado por cima das tuas ordens para me ignorarem. Porque sei que as deste. Tive disso a prova quando mandaste pôr as bombas no "País" e lá foi a televisão (depois de eu muito insistir, claro). Foi e silenciou-me. E eu tinha muito para dizer. Mas o redactor que fez a reportagem (qual reportagem?) não me quis ouvir e prometeu-me que no dia seguinte lá iria alguém para me entrevistar. A bombita de Lopes Cardoso teve primeiras páginas e reportagens na televisão. As minhas nem sequer uma entrevista no Telejornal!

E a bomba no "Sol" que eu dirigia? Sim, Álvaro, agora vieste à liça, vou falar-te nela. Nessa bomba. És um assassino. Toda a gente sabe dos massacres por ti ordenados (como responsável pelo PCP és o responsável por esses massacres), mas nem toda a gente sabe que mandaste pôr uma bomba para me matar, no "Sol". Não morri, mas fiquei doente do coração. Mas não tão doente que não possa ainda falar. O medo que inspiras a certa pobre gente (ainda, apesar dos "sete-e-meio", apesar da decadência do teu Partido, apesar de já todos saberem o que ele representa) ainda funciona.

Aqui, no Porto, tive disso a prova. Mas funciona como "boomerang". Esse medo que inspiraste virou-se contra ti. Porque tu, agora, tens medo, Álvaro Cunhal. Tens medo deste jornal. Se não o tivesses não te tinhas a ele referido da forma como o fizeste. E, se não foi medo, então foi outra coisa. Foi o facto de te sentires devedor para comigo. Queres que to recorde? Então aí vai.

Os teus "amigos", os membros do teu Partido e tu próprio, durante longos anos beneficiaram da minha amizade, digamos, mesmo, da minha protecção. Lembras-te, Álvaro, como eu ia buscar a Caxias as presas políticas que acabavam de cumprir pena, para que convalescessem na minha casa? Lembras-te, Álvaro, de que, nessa altura, pagava-se com a cadeia tais actividades? E eu não era membro do Partido. Tive até a honra de um dia receber um elogio da parte do Comité Central pela forma devotada como eu trabalhava. Sim, Álvaro, essa a quem chamas de "extrema-direita"! Para ti, a esquerda são, certamente aqueles que antigamente escreviam no "Diário da Manhã" e na "Época" e aqueles que quando lhes pedíamos para esconderem em casa alguém fugido da Pide diziam que não podiam porque tinham a casa vigiada ("eles" sabem a quem me refiro). Tudo rapaziada fina.





Pois, Álvaro, se não foi o medo, foi a outra coisa. A gratidão. Quiseste pagar-me quanto me devias, fazendo-me publicidade. E que publicidade! Quando das outras vezes ma fizeste (refiro-me às bombas) "rebentei" com as tiragens. Quando das outras vezes que ma fizeste (refiro-me à suspensão imposta pelo C.R. e por ti inspirada, ou seja por Costa Gomes), "rebentei" com as tiragens. Agora, com esse teu acto de medo - ou gratidão - veremos quanto subimos. Porque nós, os jornalistas de "O Diabo", vivemos única e exclusivamente da tiragem deste jornal. Por isso te estamos gratos.

Como eu te agradeço, Álvaro Cunhal!

MÁRIO SOARES

O "TOTALITARISMO RENASCENTE"

Confirmando as ameaças que "O Diabo" já havia denunciado, Mário, o primeiro-ministro que hoje - infelizmente - temos, resolveu ir à Assembleia pedir "autorização legislativa", além de estruturas e "mecanismos", para, sob o pretexto da "defesa do Estado democrático" e da sua autoridade, conseguir todo um sofisticado aparelho de protecção à própria clique política de que faz parte.

Foi um discurso que, pelo seu cinismo, me teria surpreendido há uns tempos atrás. Mas, agora, já nada me surpreende naquele que, esquecido do passado, mostra a sua verdadeira face: ambicioso, susceptível, ameaçador, ferozmente apegado ao mando. Difícil me é ver no actual primeiro-ministro, o Mário Soares que em tempos me dizia:

"Você tem que acabar Os Revolucionários que eu conheci, pois é um serviço que está a prestar ao País".

(Pois, Mário, acabei (ou talvez não...) os "Revolucionários"; mandei-te um exemplar e nem sequer acusaste a recepção...).

Um verdadeiro democrata, o nosso primeiro-ministro... como se vê.

Discurso cínico, dizia eu, ou talvez apenas um arrazoado farisaico, que não deixou também de ser um indisfarçável grito de pânico face às gravíssimas responsabilidades que, mais tarde ou mais cedo, terá que assumir. E não apenas ele, claro. De resto, na "peça oratória" lida com o desplante que agora o caracteriza, está bem nítido o dedo do seu adjunto, cujos óculos partidos continuam a ser, ridiculamente, o grande cavalo de batalha das investidas deste poder sem pudor.

E porquê toda esta necessidade, toda esta "urgência" frenética de "protecção ao Estado" manifestada pelo chefe da dita clique socialista e governamental?

Já o disse mais do que uma vez. Apeados dos lugares de privilégio, impossibilitados de manejar os maquinismos do poder a seu favor, como iriam eles, por exemplo, enfrentar impunemente o tremendo libelo que representam os crimes da chamada "descolonização exemplar"? E, já que Mário Soares tanto fala de terrorismo, alguém poderá imaginar terrorismo maior e mais desumano que o que se seguiu a essa amputação de Portugal? Quantas dezenas ou centenas de vidas inocentes foram ceifadas? Quantos danos materiais e morais? Quantas torturas? Quem terá que responder por tudo isso?








Ver aqui

Como iriam justificar, também, este arrastar, aparentemente incompreensível, do julgamento do "caso Delgado"? Mais de quatro anos não foram ainda suficientes? Ainda não estão reunidas todas as condições para que surja a "verdade" que o "gang" de Argel quer impor? Ainda há mais livros a editar para que o "puzzle" se complete? O anunciado programa televisivo sobre o "caso Delgado".

(Programa para o qual fui convidada a depor, não o tendo feito por exigir que não houvesse cortes)

já tem agora os cortes e os "condimentos" necessários à "preparação psicológica" do público? A tese oficial ainda tem brechas a colmatar? Ainda há gente disposta a ir contra ela?

Compreendo as atribulações do primeiro-ministro Mário, ex-democrata. Compreendo na perfeição este "rapidamente e em força" em defesa da "autoridade do Estado". Do Estado? Oh eufemismo! Que descaramento! Oh "totalitarismo renascente" e engravatado!

Compreendo também como seria ingrato e perigoso para os elementos desse grupo terem de assumir tais responsabilidades como qualquer cidadão comum, sem prerrogativas excepcionais, sem acesso aos manípulos do poder.

Daí a necessidade de "aconselhar" e o atrevimento de ofender e até intimidar (mais uma vez...) a Magistratura.

Daí a vertigem de acabar com a imprensa independente, transformando esses jornais, como desesperadamente se pretende, em "organizações fascistas",

(O meu jornal poderá alguma vez ser fascista, Mário Soares?)

para depois os abater ao abrigo de leis que já estão na forja com esse declarado objectivo!

Espantoso ainda é que haja um primeiro-ministro capaz de criticar (insultar) tribunais pelo simples facto de absolverem, como se fosse dever imperativo da Magistratura condenar todos aqueles que são incriminados pelo Poder! Isto, apesar da confessada "vinculação (e de que maneira!) do Ministério Público ao Executivo"! Não me admiraria que, nestes casos, como noutros em que porventura pudesse perigar o poder absoluto do seu grupo, Mário Soares - se isso lhe fosse possível - impedisse os réus de terem até advogado e testemunha de defesa. Já esteve mais longe disso...

Alegando a necessidade da "defesa da autoridade do Estado democrático" o primeiro-ministro mais não quer que estabelecer a incongruência (aparente) de um totalitarismo democrático.

Prosseguindo nas suas declarações de pendor eufemístico, Mário Soares considera que, à cautela, há que criar uns "serviços de pesquisa e tratamento de informações". Mas estejam descansados os portugueses porque a estes serviços, segundo Mário Primeiro, não caberá proceder a "buscas domiciliárias", etc. Estes "serviços" só "pesquisam". Quem prende, interroga, faz buscas e o mais que for necessário (tudo a bem da democracia, claro) são outros "serviços" (Antónia e tantos, tantos outros que o digam).




Depois haverá também um "serviço de estrangeiros", cuja missão será combater, segundo Soares, a "actuação de grupos políticos estrangeiros organizados, particularmente no que se refere a acções dirigidas contra os novos países africanos de expressão portuguesa". O primeiro-ministro diz "países" quando devia dizer "regimes" e estes, como se sabe, são todos regimes totalitários comunistas, completa ou parcialmente dependentes do imperialismo de Moscovo. E aí está como a "democracia" portuguesa e seus "serviços", sob o comando de Soares, se propõem galhardamente bater-se em prol dessas ditaduras soviético-cubanas...

Quer isto dizer que uma nova PIDE, agora repartida por uns quantos serviços, irá funcionar em defesa da "legalidade democrática".

Não foi por acaso que o discurso do primeiro-ministro recebeu entusiásticos aplausos dos comunistas. Eles sabem que Soares fará sempre o seu jogo, mesmo quando por razões táctico-psicológicas, para enganar imbecis, simula zangas passageiras com o grupo de Cunhal. Mas são apenas palavras. É por isso que quando Soares se dispõe, como agora, a atacar a "violência" e o "terrorismo" nunca tal fez, em termos práticos, contra os comunistas, salvo quando teve que defender interesses próprios ou do grupo.

Pretende-se julgar o "fascismo" mas nunca Soares e seus acólitos tentaram sequer referir a necessidade de julgamento do social-fascismo que, esse sim, reina hoje neste País, cuja sociedade continua a corromper, de forma sistemática, através de uma ideologia antinatural, que jamais se implantou fosse onde fosse a não ser pela mais feroz violência, pela mais completa opressão. Julgar o fascismo moscovita como doutrina e sistema antidemocrático e totalitário, como crime organizado que é, nunca será possível neste País com socialistas no poder.

A inventona do 28 de Setembro, a provocação comunista do 11 de Março, a tentativa de golpe totalitário do 25 de Novembro, as sevícias monstruosas de todo este PREC abrilista nunca atingiram, nem ao de leve, o PC mas tão somente uns quantos indivíduos de somenos importância, aliás já recuperados na sua quase totalidade para a "democracia" soarista.

Por isso o PC quer (sempre quis) o PS no Governo. É cómodo para os comunistas não terem que assumir as responsabilidades do poder formal (embora tenham as vantagens) deixando aos líderes socialistas - mais preocupados com os interesses pessoais e de grupo - a possibilidade de encharcarem a máquina do Estado (e não só) com os seus amigos e famílias, clientes e adeptos, sinceros ou oportunistas. Ao PC basta-lhe dispor de um número suficiente de militantes nos lugares de manobra para poder dominar, efectivamente, desde o essencial dos grandes meios de comunicação (TV, RDP, e alguns jornais) aos Ministérios e serviços indispensáveis à sua estratégia, já que, no campo sindical, o controlo da INTER é completo.

Com a solidariedade do PC à esquerda e tendo à direita um CDS amorfo - as cúpulas do CDS, quero eu dizer - amarrado às "responsabilidades" da "governação", Soares pode, assim permitir-se o descaramento das ameaças, o impudor das afirmações que fez na Assembleia com a certeza de que a maioria desta, assim conseguida, irá aprovar os seus planos ditatoriais, totalitários e fascistas, sob a capa de uma legalidade democrática.

(Já agora não quero deixar de salientar que a referência aos jornalistas - Soares não lhes chama assim... - que se gabam de ter dezenas de processos sem julgamento e sem condenações, não é comigo, como alguns supuseram. Soares sabe bem que tenho sido julgada (que não me gabo nem me envergonho disso) e que até já fui condenada, quando tive por testemunha de defesa o seu compadre Manuel Alegre, o qual, na altura, declarou no tribunal que "em democracia não há intocáveis". Afinal, parece que há...).


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Mas só quem ande afastado do povo alimentando-se das bajulações da "corte" de São Bento e de umas passeatas ao serviço da Internacional Socialista pode ignorar que a indignação e a revolta dos portugueses cresce dia-a-dia contra quem os lançou na miséria e na vergonha e agora quer amordaçar-lhes a liberdade.

Reduzido à dimensão vexatória das "fronteiras medievais" - mas sem a possibilidade do Sonho das Descobertas e das Conquistas - perdida a independência económica e política, falido e à beira da fome, é Portugal - e não Mário Soares e o seu grupo - que necessita urgentemente, armar-se dos "mecanismos de autodefesa" que o primeiro-ministro reclama para o "Estado" que ele próprio julga ou pretende encarnar. Que ridículo Luís XIV!" Coitado!

Para terminar, direi apenas que estamos fartos desta humilhação de ter na classe dominante - subdesenvolvida e grotesca - estes pequenos títeres que só em alguns países da África negra poderiam ter a veleidade de aspirar ao poder.

O povo português que já tomou consciência profunda do drama em que o mergulharam, tem que começar a agir. Agir de forma organizada e decidida. E um dos primeiros passos dessa luta é fazer assumir a todos os Mários Soares deste País a sua responsabilidade, antes que nos imponham a ditadura que projectam como forma de impedir o seu próprio julgamento.

Social-fascismo, nunca mais!


O CASO DAS BASES TERRORISTAS

MEU DOCE PAÍS ONDE NADA ACONTECE

Em Maio do ano passado publiquei na primeira página de "O Diabo" um mapa indicando as zonas onde se encontram (ou encontravam ainda há meses) as bases de grupos terroristas internacionalmente reconhecidos como tais: ETA e FRAP. Igualmente em algumas dessas zonas estavam assinalados "comandos" da KGB. E no conjunto da informação sobressaía a existência de tractores preparados para serem transformados em auto-metralhadoras.

E nada aconteceu. Neste doce país nada acontece para além de um vago e curto comunicado do Estado-Maior das Forças Armadas ao jornal "A Capital" afirmando que o mapa carecia de fundamento. Pois bem: as "grandezas e misérias" da liberdade de imprensa têm destas coisas. Mas as "grandezas e misérias" são recíprocas, são uma faca de dois gumes: para quem corre o risco de escrever (utilizando a liberdade de imprensa) e para quem tem o dever de responder, sob pena de - não o fazendo - transformar a liberdade de imprensa numa cobertura maquiavélica para esconder a ditadura. E há duas formas de ditadura: uma formal, ostensiva e declarada; e outra que consiste em desprezar completamente a Opinião Pública. É a aplicação de um velho princípio: "os cães ladram e a caravana passa". Há uns anos atrás, no Brasil, aconteceu o mesmo fenómeno: nunca houve tanta liberdade na imprensa brasileira como no tempo do ditador Getúlio Vargas. Mas foi um jogo que se revelou perigoso ao terminar com o suicídio do próprio presidente Getúlio Vargas.

No conceito simplista das "grandezas e misérias" da liberdade de imprensa, rejeito a hipótese de ter cometido uma "miséria". Bem pelo contrário, tive a "grandeza" e a coragem de proporcionar um pretexto - em função da Opinião Pública - para ser utilizado da forma mais conveniente pelo Presidente da República. Pretextos há, infelizmente, muitos. Mas quando se pretende construir uma Democracia, os pretextos eventualmente utilizados carecem da aceitação e da cobertura da Opinião Pública. Foi o que, honesta e patrioticamente, pretendi. Parece que, porém, a iniciativa não terá sido assim interpretada.

Vou portanto - e agora unicamente para os nossos leitores que não quero que ponham em dúvida a credibilidade de "O Diabo" - falar um pouco mais sobre o mapa por nós publicado no último número.

O mapa é absolutamente verdadeiro. Foi fornecido por um Serviço Secreto Ocidental. Posteriormente, um outro Serviço Secreto, também da Europa Ocidental, forneceu mapa idêntico. São as ajudas dos Serviços Secretos preocupados com o imperialismo soviético, já que Portugal, como país, "virou" república de bananas. Do primeiro - aquele que publicamos - foi dado imediato conhecimento ao Presidente da República e ao Chefe do Estado Maior do Exército. Posso acrescentar que houve um contacto entre oficiais portugueses e oficiais do Estado-Maior do Exército Espanhol por causa do mapa e, segundo fonte idónea, os espanhóis teriam respondido que "o problema era nosso". Posso ainda acrescentar que as Forças Armadas já efectuaram algumas acções aparentemente baseadas no mapa, das quais resultou a apreensão de material de guerra em Sesimbra e em Vila Real de St.º António. Finalmente - e porque entendo não dever, de momento, ir mais além - acrescento que alguns oficiais superiores das Forças Armadas me têm garantido, separada e individualmente, que o mapa é verdadeiro.

Ver aqui

Assim, quando perguntei "Por que esperas Ramalho Eanes" queria significar exactamente isso. O que é preciso mais para desmistificar a "democracia" do sr. Álvaro Cunhal? Ou o complexo de esquerda cunhalista ainda existe? Ou quem telecomanda este doce país continua a ser o sr. Cunhal? Ou ninguém entende que os governos ocidentais sabem perfeitamente o que se passa, e isso condiciona tudo? Ou ainda há alguém que acredite que foi por acaso, ou por lapso lamentável, que o primeiro-ministro confundiu "isto" com uma república sul-americana?

Que a chamada Inter-Terror, organização que serve o imperialismo soviético, tenha o seu quartel-general na Líbia (o que é publicamente conhecido), impressione os cidadãos, compreendo. Mas os portugueses nada podem fazer contra isso (a menos que o coronel Costa Brás, quando lá foi, tenha feito alguma coisa). Que o segundo centro mais importante da Inter-Terror se localize agora em Roma, onde o Partido Comunista italiano ganhou o poder local, impressione ainda mais, também compreendo. Mas os portugueses nada podem fazer. Agora que Portugal se tenha transformado no terceiro centro mais importante de apoio logístico às actividades da Inter-Terror, comandadas pelo imperialismo soviético, atenção! Cuidado! O povo não vai gostar!

E quando o povo se zanga...


(...) FECHAM-SE AS "PORTAS DA ESPERANÇA"

Forma diferente (e ainda mais triste) de me dirigir a Antónia.

Querida. Há muito tempo que não me apareces. É por continuares sem notícias acerca do julgamento dos assassinos do teu filho? Isso não é motivo. Deves pôr-me ao corrente de tudo, para que eu possa tentar ajudar-te. E apressa-te. O povo português ainda não se apercebeu da forma até ostensiva, como os nossos algozes de 75 se apresentam agora em público.

Viste aquela foto tirada quando da "Conferência Anti-Apartheid"? Viste o Vasco Gonçalves (o maluquinho)? O Rosa Coutinho (o ignóbil)? O Otelo (o palhaço)? Todos três muito contentes com a conferência. Entendeste? Pois eu entendi. O mais ignorante entende. Se eles estavam contentes, é porque a conferência os beneficiava e beneficiava os soviéticos que agora, já não satisfeitos com Angola e Moçambique, querem também a África do Sul.

Vai ser mais difícil. E o que custa, Antónia, é ver ali sentadas pessoas como Raúl Rego (na mesma fila do Otelo que lhe roubou o "República"). É ver José de Magalhães Godinho a presidir. O nosso Provedor de Justiça. Bem o ouvi, dizer que estava ali como lutador anti-fascista e não como provedor. Também lá estará o membro do Soviete Supremo como lutador anti-totalitarista? Faria rir, Antónia, se não fosse tão trágico.

Estava a falar de Magalhães Godinho (José). Um homem honesto que eu julgava patriota. Afinal está de acordo com quem ocupou as nossas ex-colónias. Sim. Não foram nem os angolanos nem os moçambicanos que as tomaram. Que tomaram a sua independência. Tu sabes quem foi. Russos e cubanos. E é para isso que querem "libertar" a África do Sul? Para a entregarem a outros países? Sim, Antónia, os "libertadores" de Angola e Moçambique não criaram novos países. Entregaram-nos a outros. Que os tornaram prósperos, como temos visto...




Dir-me-ás, Antónia, que nada tens a ver com esta história da conferência. Mas tens. Todos temos. Estão nela a participar traidores, assassinos, causadores de genocídios. Dar-te a lista, tornaria esta carta muito longa.

E todos muito felizes em Lisboa, por sermos a sede da Conferência Anti-Apartheid. Muito felizes. Sabendo (ou não sabendo) do que se trata.

E, a propósito, gostaria de saber se, sendo tão livres, tão livres que nos podemos permitir fazer em Portugal esta Conferência que vai despertar a ira de quem alberga milhares dos nossos refugiados (se vierem, irão aumentar as hostes do Jamor), não podemos reconhecer o governo de Israel sem que os papeluchos estatizados venham entoar um coro de protestos, defendendo os árabes? A liberdade é isso? Somos tão livres que podemos enfrentar a cólera dum país inteiro e não posso eu, neste jornal, escrever sem que me sejam instaurados processos? Sete, Antónia, sete processos. Torno a perguntar-te: a liberdade é isto?

Tu que me conheces, Antónia, calculas como eu devo ser anti-apartheid. Claro que sou. Mas também não tenho os olhos fechados. Abri-os tarde, Antónia, mas abri-os. Abri-os a tempo de ver a minha terra achincalhada, saqueada, encharcada em sangue. Porque eu sou de Moçambique, Antónia, e já não tenho país. Sou, para os que lá agora imperam, uma "vendedora de nacionalidade".

Já te tenho perguntado até quando vamos suportar a injustiça de que somos vítimas. Até quando vamos suportar o silêncio sobre o assassinato do teu filho, à porta do Ralis, na manhã de 12 de Março? (Dizem-me que a Televisão tornou a passar o filme e que se vê teu filho morrer, mas eu não soube disso. Se o fez, merece o meu aplauso) Devia passá-lo todas as semanas, como eu todas as semanas aqui evoco essa morte.

Até quando vamos suportar o silêncio feito à volta do processo movido por nós, mulheres verdadeiramente democratas, contra a P.M., que nos espancou numa célebre manifestação de apoio ao VI governo, em que pedíamos o afastamento dos que agora estão (outra vez) na primeira fila? Na primeira fila da Conferência Anti-Apartheid. Fomos todas ouvidas. Não há dúvidas de que houve crime. E, como vês, nada nos respondem.

E Eanes? Não poderá dar ordens no sentido de serem julgados os criminosos deste país?

Eanes? Sim, o que prometeu (através duma criada) que te receberia logo que fosse Presidente. Não te recebeu! Não entendo. Gaba-se Portela Orfão de que o Presidente o recebe. Sabes? Dei a mim própria um prazo para continuar a confiar em Eanes. O nosso único Presidente da República. Aquele em quem votei. Aquele que tenho respeitado. Aquele em quem tenho confiado. Mas dei a mim própria um prazo e não vou ultrapassá-lo.

Não te recebe? Não nos faz justiça? Consente que o ofendam como o faz o sofrível major Antunes (que me leva a tribunal no próximo dia 7) e o inexplicável jornaleco "Página Um"? Pois eu revolto-me contra esses insultos. Revolto-me e não os consinto. Como não posso escrever-lhe uma segunda crónica: "Senhor Presidente, perdi-lhe o respeito", porque ele não é Costa Gomes, passarei a calar-me. É a minha forma de protesto contra a sua atitude. Quando passar o prazo, silenciarei Ramalho Eanes. Porque terei perdido a esperança.




Antónia, tu que me conheces, sabes que dificilmente a perco. Mas... o prazo está a terminar. E aquilo a que um dia (ainda não distante) Mário Soares (de quem tanto esperei) chamou "as portas da esperança", está a fechar-se.

Serei então, pela primeira vez na minha vida, além duma mulher indignada, uma mulher desesperada.

Antónia, Antónia, mulheres indignadas e desesperadas como tu, mulheres indignadas e desesperadas como eu, que vai ser de nós?

(...) MOÇAMBIQUE , MEU AMOR

Nasci na Ilha de Moçambique.

É natural, portanto, que olhe com amor para aquela terra. Para aquela terra que se prepara para ser embebida em sangue, muito mais sangue do que o vertido durante a guerra colonial.

O que me chega de Moçambique, envolvido em anedotas, faz-me chorar de emoção. E de raiva. Amigos meus que colaboraram no acordo de Alvor, devem chorar de emoção e de raiva comigo. Porque, embora outros os acusem, eu acredito que eles acreditaram. Nesta altura já sabem como foram enganados. Já sabem como não passaram de um joguete nas mãos dos países (ou do país) de quem estamos em vésperas de nos tornarmos satélites.

Vou deixar a amargura daqueles que foram involuntariamente responsáveis pela tragédia da terra onde nasci, para contar um pouco daquilo que vou sabendo e que me chegou por intermédio de pessoas de indiscutível honestidade. Pessoas agora desesperadas, que como eu, ali nasceram, que já têm netos ali nascidos, foram escorraçados. Humilhados e ofendidos. Por um racista cujo racismo só poderá ser comparado ao de um Hitler. Que o digam esses humilhados e ofendidos que percorrem as redacções dos jornais para mostrar o seu corpo chicoteado e outras coisas mais que não podem ser descritas neste local.

Humilhados e ofendidos porquê? Apenas por serem brancos ou apenas por serem portugueses?

Dificilmente escrevo. A indignação limita-me. O desespero paralisa-me. Mas tenho que me dominar. De cada vez que me deixo levar pela indignação e pelo desespero, sou processada.

O senhor Machel (o déspota da minha terra que não explorei como colonialista e de onde não trouxe sequer uma escultura maconde) vestido por Pierre Cardin (vem tudo especialmente de Paris onde o tirano deixou as suas medidas), manda prender quando quer e manda libertar se alguma vez o quer).

Neste momento, entre brancos e negros, estão presas 65 mil pessoas. As escutas telefónicas (lá como cá...) são grosseiramente feitas e funcionam à perfeição para prender indiscriminadamente. As cartas são abertas pela chamada Judiciária, perfeitamente às claras. Essa informação é dada ao "guichet" dos Correios com a maior naturalidade. Por exemplo: "nós aqui não abrimos não. Quem abre é a Judiciária".

O senhor Samora Machel, vestido pela última moda de Cardin (vejam como ele é civilizado: vejam como ele zela pelo dinheiro do povo), prende, tortura, humilha e mata. Quase sempre sem motivo. Só para seu prazer, porque gosta de ver correr o sangue, porque é caprichoso e, às vezes, está de mau humor. Um César negro, para quem as vidas humanas não contam, que ergue ou baixa o polegar - um gesto tão simples, tão pouco cansativo... - conforme o apetite do momento. As cabeças rolam e ele diverte-se.






Nasci em Moçambique. Por isso lhe tenho amor. Por isso sofro, quando me vêm contar o que se passa por lá, após uma descolonização "exemplar".

E choro.
O NORTE JÁ ESTÁ A ARDER?

Nenhum povo é, voluntariamente, comunista. Mostrem-me um que o seja. Sem cortinas de ferro ou de água. Sem muros de vergonha, sem aparelhos policiais e militares essencialmente repressivos, sem ditaduras, sem uma classe política opressora e monolítica.

O comunismo é aberrante e antinatural. Portanto, antipopular. Falo do Povo, não das massas alienadas por slogans e lavagens ao cérebro. Falo do Povo, não de populações controladas, vigiadas, sem alma e sem carácter próprios. Falo do Povo e não de rebanhos. Falo do Povo, portanto de Autenticidade e de Verdade, nas suas glórias e misérias. Falo do Povo, daquele Povo que revela na sua espontaneidade natural a sabedoria de séculos, que é a expressão de uma vontade projectada para o futuro. Falo do Povo e não de uma sociedade mecanizada pela ditadura burocrática. Falo do Povo e não de massas embalsamadas, museu de cera de personagens míticas ou artificiais que nos contam uma História que não foi nem será nunca. Falo do Povo - alma e essência - e não de quantidades-número apenas expressas e contabilizadas em função limitada da matéria, somatório do consumo e da produção.

Ninguém pode contabilizar a liberdade, ninguém pode medir, por melhor que seja o computador, a coordenada transcendental da Vontade comunitária de um Povo - séculos que passaram, séculos que hão-de vir.

Ninguém poderá sobrepor-se, a não ser por uma violência antinatural e desumana, a esta Vontade de Ser.

Mas há épocas históricas, às vezes longas décadas, em que os povos ficam submersos, afogados pela tirania daqueles que os querem ilegitimamente representar.

A opressão - e o nosso Povo já sofreu das maneiras mais sofisticadas - inicia-se muitas vezes pelo ludíbrio momentâneo desse mesmo Povo. Os inimigos do Povo afivelam as máscaras do Povo.

Vem isto a propósito das comemorações do 25 de Abril a que se vão juntar os "pêcês" e a propósito das comemorações do primeiro aniversário da Constituinte a que os "pêcês" já se juntaram.

É de pasmar o que se lê nos jornais. Depois do cerco à Assembleia Constituinte (haverá por aí alguém que se esqueceu? Tenho a impressão que sim...) Depois dos ataques à Assembleia de S. Bento, os mais entusiastas a louvarem a Constituição, os mais "democratas", os que mais falaram na defesa da mesma Constituição, foram os membros do PCP! Chegaram ao ponto de fazerem no IST uma sessão comemorativa em que afirmaram: "A defesa da Constituição pode unir democratas"! Quem estava presente? Pois todo o PCP, tendo tomado a palavra o Piteiral detentor da coluna de "Arroto a Zurro!, seguindo-se Octávio Pato, etc., etc., etc. Lamentavelmente uniram-se a estes "democratas" outros que o deveriam ser (e que ainda julgo o sejam) tais como o presidente da Câmara de Lisboa, Aquilino Ribeiro. Seria por ingenuidade? Aquilino Ribeiro esqueceu o cerco à Constituinte?


Cerco à Constituinte (12-13 de Novembro de 1975). Ver aqui




Já me perdi. Perdi-me na minha indignação em ver aqueles que mais ofenderam a Constituição e quem a elaborou festejarem, entusiasmarem-se, com o seu primeiro aniversário. Fácil é descobrir quem está por detrás desta comemoração do IST e quem estará por detrás das do 25 de Abril.

É aqui que me refiro ao Norte. Sei que o PCP que pretende aderir (ou mesmo promovê-las) a essas comemorações, não deixará, pela boca do seu líder soviético Álvaro Cunhal, de perguntar às suas filiais nortenhas, agora embandeiradas em arco, de braço dado com associações populares e regionais e envergando trajes folclóricos: "O Norte já está a arder?"

É preciso que o Norte sobre o qual Cunhal e as suas hostes lançaram a sua arrancada, desperte.

(E ainda há gente tão inocente que não se apercebeu dessa arrancada, dessa escalada, adormecida que está, segura da protecção de Pires Veloso, que consideram a sua muralha - não de aço (livra!), mas de carácter e de coragem!)

É preciso que o Norte se aperceba de que por detrás das comemorações que Cunhal e a sua FEPU pretendem populares, se esconde o PC e o seu desejo - intenso - de conquistar aquilo que foi uma barreira inexpugnável. Que foi e deve continuar a ser.

O Norte, sobre o qual se está a desencadear a sanha de conquista e destruição de todos os sectores da vida do seu Povo, saberá reagir. Eu tenho essa certeza. Tenho a certeza de que saberá dizer não aos estrangeiros de Cunhal, o assassino de Praga, o assassino de Angola, o assassino de Moçambique, o assassino da Guiné, o assassino de Timor.

Cunhal não será o assassino do Norte.

O Povo do Norte - todo o Povo Português - saberá apontar a dedo e matar, se necessário à cajadada, o lobo moscovita vestido de cordeiro, com colares de flores ao pescoço.

O Povo do Norte virá, se for preciso - como já veio -, para a rua desmascarando quem o quer amordaçar. Se os homens do Norte ficarem em casa - o que não acredito - irão as mulheres gritar que não querem o seu Norte queimado pelas hostes soviéticas. Irão as mulheres gritar que entendem muito bem as paralisações de trabalho, as greves, as permanentes contestações. E eu não sou do Norte mas aqui vivo - e trabalho - irei com elas, à frente delas, como já fiz em Lisboa. Não tenho nada a perder. Já vivi a minha vida. Só me resta fazer o possível por merecer a minha morte.

O Povo do Norte responderá directamente a Cunhal e seus acólitos que não.

QUE O NORTE NUNCA ESTARÁ A ARDER!


(...) TARECO ESTATIZADO

Finalmente, Tareco é nosso! Tareco é nosso! Tareco é nosso!

Como ele dizia durante a "longa noite fascista": Goa é nossa! Goa é nossa! Goa é nossa!

Finalmente, Tareco encontrou um dono. Há gatos assim. Depois de terem andado pelos telhados a fazer das suas (deles) - e que suas! -


Tareco (Francisco Sousa Tavares) na tarde de 25 de Abril de 1974, no Largo do Carmo.


Pode mesmo dizer-se que os telhados por que andou Tareco são de vidro...

procuram um dono. O Poder. E vêm comer-lhe à mão.

Vem isto a propósito duma crónica inserida numa série que a RDP costuma lançar para o ar aos domingos de manhã e que - passe o reclame - vale a pena ser ouvida. Nesta última manhã de domingo, ouvi as sete. Manuel Magro falou sobre Vitorino Nemésio, numa crónica em que dizia que o homem que é só político, é estúpido. A crónica de Tareco viria a dar-lhe razão. Ouvi com o maior agrado a de Silva Tavares, um pouco amargurada (e quem o não está?). A sectária (já não me surpreendo) de Helena Vaz da Silva. A brilhante de Alçada Baptista. A agradável e também inteligente, de Assis Pacheco. E, chega a vez de Tareco. Não foi a última, mas ela é que me faz escrever esta coluna. Ou esperava o nosso Tareco (lembrem-se de que é nacionalizado, nosso) um artigo de fundo?...

Ora, Tareco, a propósito do meu artigo "A Cambada" insurge-se. Insurge-se e denuncia. Denuncia e chama a atenção dos poderes constituídos (o tal dono a que lambe a mão)

Quantas mãos tem lambido o Tareco!

Tareco (é preciso dizer que às vezes se chama Sousa Tavares) afasta para segundo lugar a crise económica portuguesa e diz: "... não sei até que ponto a estabilidade das instituições não é mais ameaçada ainda pelo desbragamento e insulto, pela insolência da insinuação, pela perfídia maliciosa do boato".

Ora, aqui, nós, o Diabo, eu, Vera Lagoa, vimos perguntar: "Quem lança boatos? Não terá sido um boato - e que boato - a afirmação de que a companheira de António Ramalho estava no cemitério no dia 12 de Março? Boato que levará o estatizado jornal do estatizado Tareco a Tribunal?"

E, antes que nos respondam (a resposta é óbvia), também pergunto: "É mentira, é boato, o que afirmei sobre Rosa Coutinho, Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Mário Soares e Ramalho Eanes?" A resposta também é óbvia.

Como é óbvia a denúncia de Tareco (nosso) quando declara que chamei "cambada" a toda a classe dirigente do país". Serão as pessoas citadas "toda a classe dirigente do País" Foi Tareco quem o afirmou.

E Tareco, como Brutus, é um homem honrado...

Tareco denuncia e faz o elogio da Imprensa estatizada (a que pertence). Tareco diz que os abusadores da liberdade de Imprensa (eu) têm saudades da Pide, (!) das prisões de madrugada, da censura, etc.

Não temos escutas? Não temos correspondência violada? Não temos processos por liberdade de Imprensa? Entrei nos 40. Processo, claro. Que liberdade? Não temos prisões de madrugada? Perguntem aos presos do 28 de Setembro e 11 de Março. Não temos Pide?????

"A areia do ódio" diz Tareco. Quem odeia? Tareco? Evidentemente. Eu não odeio. Apenas o desprezo.

"... Podemos estar seguros que acabaremos mal se o delírio verbal continuar a dominar como dominou em 74 e 75 a praça pública e a alastrar cada dia que passa a mais um orgão de comunicação social" - diz Tareco (nosso, nacionalizado, estatizado).




E pergunto: "Quem em 74 e 75 se opôs a essa demagogia a que Tareco se refere?" Parece-me que nele não se falou como num dique a essa demagogia. Orgulho-me de ter em "Tempo" e "O País" sido eu uma das pessoas que mais lutou para que se instituísse a democracia. Mas não. O Bichano enfurecido (por não ter sido ainda ministro) arreganha o dente e aponta a pata para o colega. Aponta a pata e não tem processos. Pelo menos, se tem, como o jornal que dirige (?) é estatizado, não é ele quem paga as multas.

O que vale é que nem toda a classe dirigente presta atenção ao que mia o gato. Pode Tareco estar descansado: não pretendo ser ministro. Não lhe faço concorrência. Faço sim, nas vendas do jornal. Mas isso...

Temos, pois, nós os que nos movíamos no mesmo meio do felino director de "A Capital" com grande surpresa, um Tareco vigilante e moralizador. Não. Não o incluo na "Cambada". Até para isso é preciso ter categoria.

Que Tareco (nosso), que Tareco (nacionalizado), que Tareco (estatizado) se acautele. Os amoladores de tesouras de navalhas que antigamente circulavam pela cidade, ainda não desapareceram por completo. E vai daí, um dia destes, um deles ao ouvi-lo miar, saca da faca e zás: faz-lhe aquela operação que costuma fazer-se aos gatos. Se é que não lha fizeram já...


(...) "O SEU DESEJO FEIO"

Não creais, ninfas, não, que fama desse
a quem ao bem comum e do seu rei
antepusesse seu próprio interesse,
imigo da divina e humana lei.
Nenhum ambicioso que quisesse
subir a grandes cargos cantarei,
só por poder com torpes exercícios
usar mais largamente de seus vícios.

Nenhum que use de seu poder bastante
para servir o seu desejo feio (...)

Camões, "Lusíadas" Canto XII,


Agora que Camões, depois de saneado, é celebrado em Portugal, agora é oportuno mencioná-lo. Camões que não cantava quem "quisesse subir a grandes cargos, só por poder com torpes exercícios, usar mais largamente de seus vícios" estaria, se fosse vivo, a caminho da cadeia. Perdão, já lá estava. E da cadeia me leria. Leria a minha recusa de cantar, eu também, quem use do "seu poder bastante para servir o seu desejo feio". E não só eu. Muitos mais. Muitos mais se recusam a cantar os ambiciosos do poder. Os "intocáveis". Os que, apregoando-se democratas, em nome dessa democracia metem quem os critica na prisão. Pois Camões lá estaria. Na prisão. Pois Herculano, cujas celebrações estão em curso, far-lhe-ia companhia. Pois Garrett. Pois Eça. Pois Ramalho. Pois Fialho. Pois Oliveira Martins. Pois tantos outros. Tantos outros que hoje (porque mortos) são ídolos. Nenhum falharia. Porque todos eles levantariam a sua voz para protestar contra o abuso do poder, contra a ambição desmedida, contra a ânsia de silenciar quem mostrar o seu desacordo. E quem mostra o seu desacordo é todo um povo. O tal povo "maduro e consciente" de que fala Ramalho Eanes. Mas o povo arreceia-se. O povo espera uma palavra de ordem. O povo começa, sim, a estar cansado de esperar.

E quem é a voz do povo? Quem lhe descreve a miséria, a angústia, a indignação? Alguém que, tendo um jornal à disposição e não estando enfeudado a quem quer "servir o seu desejo feio", vem à liça arriscando a sua liberdade. Esse alguém é o jornalista. O jornalista que, depois do advento da democracia, corre os maiores riscos em Portugal.

"Em nome da democracia". É assim que se começa. Que se começa e acaba numa ditadura. Pois não será uma ditadura que lhe preserve o poder, o que deseja o primeiro-ministro? Pois não acabámos de ver condenado a trezentos contos (ou à cadeia) um director de jornal que demonstra que Mário Soares é "mentiroso", "relapso" e "contumaz"? Pois não será Mário Soares "anafado"? Alguma vez a verdade pode ofender a ponto de se mandar prender quem a disse?


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Mário Soares é mentiroso. Sei o que me espera afirmando-o, a exemplo de Manuel Múrias. Sei e não me importo. É mentiroso e provo-o. Não mentiu Mário Soares aos jornalistas quando, uma vez interrogado sobre se ia haver mudança de gabinete, respondeu que não fazia um governo "trouxe-mouxe". Fê-lo logo a seguir. Não mentiu Mário Soares quando negou a desvalorização do escudo e no dia seguinte o mesmo escudo era desvalorizado? E assim por diante. Relapso? Evidentemente. Por que não se arrepende de mentir. Contumaz? Certamente. Porque insiste na mentira. Anafado? E depois? Também eu não sou magra e nunca processei ninguém por magra não me achar.

Manuel Maria Múrias, director da "Rua", tem para mim um grande mérito. Mérito, por se ter sempre afirmado da direita, sendo por isso coerente. E em democracia, não é crime ser da direita. Demérito, por ser salazarista. O que também não é crime em democracia. Mas eu não estou de acordo. Não fui salazarista em vida de Salazar e não sou salazarista depois da sua morte. Considero-me sim, democrata. Por isso, não tenho medo de vir levantar a minha voz para protestar veementemente contra a condenação de um colega. E para o aconselhar, também veementemente, a ir para a cadeia. Há épocas em que o único lugar digno dum cidadão honesto é na prisão.

Seja de direita ou de esquerda, um jornalista tem todo o direito de apontar os defeitos, os crimes (porque não usar esta palavra?) de quem governa. O primeiro-ministro é "enxofrável" como o major Antunes? Muito bem. O facto de mandar para a cadeia o jornalista não o limpa dos defeitos, dos crimes (porque não insistir na palavra?). Bem pelo contrário. Quem pretende ser conhecido na Europa (e no resto do Mundo) por democrata, dá uma bela prova do que realmente é.

Da cadeia, Manuel Múrias dirigirá o seu jornal. Não estará preso por muito tempo. O terror da Imprensa livre demonstrado pelo primeiro ministro, é sinal de que o fim do seu poder está próximo. Não me pode, ele, acusar de desejar o fascismo. De forma alguma. Pode acusar-me, sim, de recusar o social-fascismo. Que já chegou. No dia em que Múrias entrar na prisão, será inaugurada a ditadura soarista em Portugal. Até aqui, havia apenas ameaças. Ameaças que deram lugar a factos bem concretos.

Múrias não ficará sozinho. Segui-lo-ão muitos mais jornalistas. Porque não quero acreditar que só ele seja condenado. Todos os jornalistas independentes portugueses têm o seu lugar reservado na cadeia. Eles não vão ficar calados. Eu, pelo menos, estou preparada, porque me recuso terminantemente a pagar qualquer multa, ligada à lei de Imprensa. Nem que fosse uma multa de cem escudos eu pagaria. Pagar multas por afirmar a verdade?

Resta-me que não estou em parte incerta e que já tenho as malas feitas. Também continuarei a dirigir o "Diabo" da cadeia, porque não serão as grades que me calarão. Só a morte. E mesmo assim... há mortos cuja voz é muito incómoda. A ditadura soarista, apesar de pouco inteligente, não desejará fazer mártires.

Imodestamente copio Camões:

Não cantarei

"Nenhum que use de seu poder bastante
 para servir o seu desejo feio"


(...) A CAÇA ÀS BRUXAS

Nenhuma ditadura do proletariado pode ser imaginada sem o terror e a violência.

Lenin
















Ela aí está a lei celerada! Eles aí estão já a manifestar-se, os bufos, os pides frustrados (quantos o desejariam ter sido e não puderam?!) a iniciar a sua campanha de denúncias, de perseguições e de ódios!

Amanhã, quarta-feira (que dia feliz para essa escumalha!) entra oficialmente em vigor a tenebrosa "lei da caça às bruxas". A lei aprovada apenas pelos amigos de Cunhal e Soares, transformados em pseudo "maioria de esquerda" - pois sei de muitos socialistas que a repudiam por evidente inconstitucionalidade, por ofender claramente os princípios do Direito, por calcar aos pés a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

E não é por acaso que, a preceder a entrada em vigor da lei celerada, os denunciantes profissionais começaram já a acender as suas fogueiras para os autos-de-fé.

Não foi por acaso que o jornal do famigerado Piteira

(Piteira, a quem o General Delgado chamou, em documentos por nós já publicados, "traidor, perseguidor de portugueses, intriguista e indivíduo perigosamente ambicioso"; Piteira, denunciado no "Avante" clandestino, como traidor e provocador)

há dias veio com nova provocação policiesca, ligando a formidável manifestação popular do 1.º de Dezembro do ano passado - pela Independência Nacional - às "organizações fascistas". Eu sei que para os comunistas (e para os traidores) a independência nacional é sempre uma forma de fascismo... As primaveras de Praga e Budapeste e a forma horrorosa como foram suprimidas, disso são inegável exemplo.

Mas o mais espantoso é que tenham aprovado essa lei em que se considera ser expressão fascista a "violência como forma de luta política" exactamente os partidos que mais violências cometeram neste país, à sombra de uma actividade política.

Que foi afinal, o gonçalvismo? Quem esteve por detrás das prisões sem culpa formada, das sevícias monstruosas, da conspiração do 25 de Novembro, dos assassinatos a frio, das liquidações morais e físicas de tantos e tantos portugueses? Quem incitou à destruição violenta dos bens nacionais e estrangeiros que hoje o Povo tem que pagar? Quem foram esses "fascistas"?

Quem, sob a sigla de um partido político, continuou a praticar assaltos e roubos, a assassinar agentes da ordem, a fazer declarações odientas, dizendo que o 25 de Abril tinha feito poucas mortes em Portugal?
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Que são, afinal, esses bandoleiros do PRP (BR), que continuam a receber armas e explosivos do estrangeiro (ou dos depósitos internos e das "boas-mãos" que têm tratamento de excepção, mesmo na cadeia; que continuam a ser apoiados por determinadas publicações e até por um certo tipo de "intelectuais" (com conferências de imprensa e tudo...) os quais não vemos lutar pela libertação de outros presos, alguns deles claramente inocentes? Não estarão estes "intelectuais", com o seu apoio, a avalizar e até a impulsionar o terrorismo político (?) dos seus "afilhados"?

Até onde irá o cinismo e a desfaçatez desta gente? Até onde e até quando as autoridades - desde as que aprovaram às que promulgaram a lei - vão continuar a aceitar esta inversão de valores, esta provocação sistemática, este insulto à inteligência e à verdadeira liberdade dos portugueses?

Segundo o texto celerado, compete ao Supremo Tribunal de Justiça pronunciar-se sobre esta matéria, a requerimento de qualquer dos seguintes orgãos: Presidente da República, Conselho da Revolução, Assembleia da República, Governo, Provedor de Justiça e Procurador-Geral da República: Pergunto: Qual destas entidades se sentirá com coragem, independência e isenção suficientes para agir face à "violência como forma de luta política" que continua a verificar-se neste país?

Foi também contra essa violência, contra as injustiças de toda a ordem, contra a sujeição (ideológica, política e económica) ao estrangeiro, foi pela INDEPENDÊNCIA NACIONAL, que o Povo Livre de Portugal acudiu ao meu apelo e se manifestou, em 1977 e em 1978, no 1.º de Dezembro, descendo em alegria e paz, a Avenida da Liberdade! Paz perturbada pelos assassinos bombistas que desesperadamente tentaram travar a MARCHA DO POVO:

De todos os lados chegam-me sinais para se voltar a descer a Avenida. No dia 1.º de Dezembro.

Desce-la-emos, portugueses, se essa for - e é seguramente - a vossa vontade. A vossa vontade é o nosso Futuro. E esse está nas nossas mãos (in A Cambada, Intervenção, 1978).




A Cambada





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