sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Admirável Mundo Novo (i)

Escrito por Aldous Huxley









«...ilusão perigosa é a de crer que o advento da administração planetária é uma fatalidade histórica inevitável. A facilidade com que a pequena Honduras quebrou as pernas do gigante mundialista mostra que, ao menos por enquanto, o poder desse monstrengo se constitui apenas de um blefe publicitário monumental. É da natureza de todo blefe extrair sua substância vital da crença fictícia que consegue inocular em suas vítimas. Com grande frequência vejo liberais e conservadores repetindo os slogans mais estúpidos do globalismo, como por exemplo  o de que certos problemas - narcotráfico, pedofilia, etc. - não podem ser enfrentados em escala local, requerendo antes a intervenção de uma autoridade global. O contrasenso dessa afirmativa é tão patente que só um estado geral de sonsice hipnótica pode explicar que ela desfrute de alguma credibilidade. Aristóteles, Descartes e Leibniz ensinavam que, quando você tem um problema grande, a melhor maneira de resolvê-lo é subdividi-lo em unidades menores. A retórica globalista nada pode contra essa regra de método. Ampliar a escala de um problema jamais pode ser um bom meio de enfrentá-lo. A experiência de certas cidades americanas, que praticamente eliminaram a criminalidade de seus territórios usando apenas seus recursos locais, é a melhor prova de que, em vez de ampliar, é preciso diminuir a escala, subdividir o poder, e enfrentar os males na dimensão do contato direto e local em vez de deixar-se embriagar pela grandeza das ambições globais.

Que o globalismo é um processo revolucionário, não há como negar. E é o processo mais vasto e ambicioso de todos. Ele abrange a mutação radical não só das estruturas de poder, mas da sociedade, da educação, da moral, e até das reações mais íntimas da alma humana. É um projecto civilizacional completo e sua demanda de poder é a mais alta e voraz que já se viu. Tantos são os aspectos que o compõem, tal a multiplicidade de movimentos que ele abrange, que sua própria unidade escapa ao horizonte de visão de muitos liberais e conservadores, levando-os a tomar decisões desastradas e suicidas no momento mesmo que se esforçam para deter o avanço da "esquerda". A ideia do livre comércio, por exemplo, que é tão cara ao conservadorismo tradicional (e até a mim mesmo), tem sido usada como instrumento para destruir as soberanias nacionais e construir sobre as suas ruínas um onipotente Leviatã universal. Um princípio certo sempre pode ser usado da maneira errada. Se nos apegamos à letra do princípio, sem reparar nas ambiguidades estratégicas e geopolíticas envolvidas na sua aplicação, contribuímos para que a ideia criada para ser instrumento da liberdade se torne uma ferramenta para a construção da tirania».

Olavo de Carvalho («A Filosofia e seu Inverso»).


«Com o abandono do padrão-ouro perdeu-se aquela simplicidade que fazia do dinheiro um instrumento da justiça; com o abandono da correspondência entre a quantidade da moeda e a quantidade das mercadorias, perdeu-se o que fazia do dinheiro um instrumento da liberdade; com a paridade flexível, perde-se agora a projecção na economia da existência das pátrias.







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Orlando Vitorino (ver aqui).



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Perde-se a projecção na economia da existência das pátrias, dizemos, e perde-se a imediata evidência que a economia dá a cada um da necessidade dessa existência. Trata-se de uma realidade essencial mas a que os teorizadores da ciência económica, estranhamente, nunca atenderam, antes vendo na existência de diferentes repúblicas um obstáculo ao perfeito funcionamento do sistema da economia. O próprio von Mises é um exemplo desta estranha atitude. Muitas vezes utiliza ele, para fazer valer os seus argumentos ou apenas os explicitar, a hipótese de uma república mundial que acompanha de declarações atribuindo à existência das nações, à divisão do mundo em diferentes entidades nacionais e ao nacionalismo, a causa dos clamorosos erros que denuncia na economia contemporânea, como seja o ódio - a expressão é dele - ao padrão-ouro. É possível explicar esta atitude do grande teorizador pelas perturbações da época em que viveu e o sujeitaram a muitas espécies de atribulações e sofrimentos não apenas vividos - o exílio e a pobreza, por exemplo - mas também intelectuais. Era em nome do nacionalismo alemão ou aurindo suas forças no nacionalismo russo, que via instaurar-se o intervencionismo socialista.

De certo modo, esta posição de von Mises corresponde à imagem também mundialista que Adam Smith formava do dinheiro e do comércio, ele que via a economia como um sistema que sucedera ao da agricultura. Diz, por exemplo, que o "ouro circula entre os países comerciantes como a moeda circula dentro de cada país: pode considerar-se a moeda da grande república mundial do comércio".

Tais posições têm, por sua vez, equivalência na banalizada convicção popular de que "o dinheiro não tem pátria". Ora a verdade é que de nada, como do dinheiro, se pode com mais razões afirmar que tem pátria.

Sem a variedade das moedas nacionais, não haveria troca e mercado do dinheiro, e desapareceria o último e mais resistente instrumento, que é o câmbio, para, abandonados os outros padrões, conhecer ou apreciar o poder aquisitivo da moeda e defender as populações das arbitrariedades, então definitivamente instaladas no intervencionismo, dos sucessivos e sempre ocasionais governantes».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).




Manuel Kant



«Em primeiro lugar, a noção kantiana de "paz eterna", tão própria para seduzir os sentimentais pela sua vaga ressonância bíblica, não significa outra coisa senão "governo mundial". Num estudo interessantíssimo, o Pe. Michel Shooyans, filósofo belga que já leccionou no Brasil, mostra que as novas legislações uniformizantes que a ONU vem impondo ao mundo, como por exemplo o abortismo obrigatório (....), são de inspiração diretamente kantiana. O governo global que a ONU está construindo com rapidez desnorteante é a tradução jurídica exata do que Kant entendia como "comunidade humana".

(...) Para quem quer enquadrar o planeta num modelo jurídico uniforme, esmagando os adversos e recalcitrantes com a boa consciência de um apóstolo da paz eterna, nada mais inspirador do que os abstratismos de Kant.

A igualdade das culturas perante a suprema Razão kantiana é hoje um dogma imposto a todas as nações pelos pedagogos politicamente corretos da ONU. É imensurável a bibliografia destinada a persuadir o mundo de que, por exemplo, os rituais astecas de sacrifícios humanos eram um costume tão decente quanto a caridade franciscana.

(...) E que ninguém me venha com aquela conversa mole de que Kant tinha a melhor das intenções, de que foi tudo culpa do zelo exagerado de discípulos incompreensivos. As consequências perversas do kantismo, como as do hegelianismo e do marxismo, não vieram séculos ou milênios depois: foram quase imediatamente conseqüentes. Um pensador que se acha capaz de virar do avesso o universo inteiro dos conhecimentos humanos não tem desculpa para ignorar os efeitos mais obviamente previsíveis da difusão de suas idéias. É indecente passar da arrogância intelectual suprema aos gemidos de inocência fingida. Não se pode conceder esse direito a Kant, como não se pode concedê-lo a Hegel, a Karl Marx ou mesmo a Nietzsche, malgrado o atenuante da loucura. Quem quer que anuncie ter compreendido o sentido integral da História humana tem a obrigação estrita de prever com acerto o próximo episódio, ao menos no que diz respeito ao seu próprio campo limitado de atuação pessoal. Se nem isso o cidadão consegue fazer, é porque não alcançou a plenitude da autoconsciência filosófica de um Platão, de um Aristóteles, de um Tomás de Aquino ou de um Leibniz. E, nesse caso, é só por devoção idolátrica que continuamos a considerá-lo um grande filósofo e não apenas um pensador interessante».

Olavo de Carvalho («Filosofia e seu Inverso»).


«A Nova Ordem Mundial, liderada pela ONU, está agora a precipitar o cerco em nome 'da luta contra o terrorismo', da 'crise dos refugiados', das 'alterações climáticas', do atropelo aos direitos humanos e tutti quanti. Em suma: estamos na iminência de uma sociedade totalitária global nunca antes vista, já praticamente consumada na destruição das nações, na perseguição religiosa, na destituição do pensamento, no cercear da liberdade individual, enfim, tudo isso e muito mais está, de facto, a ser invocado para que, em termos internacionais, se actue em nome da salvação da humanidade, o que será, de resto, a sua perdição.

Daí que, em Portugal, à imagem do que vai por esse mundo fora, a actual 'classe política' obedeça a tudo quanto a dita 'comunidade internacional' lhe impõe. Esta foi, pois, a verdadeira herança deixada pelo episódio mais vil, pérfido e destruidor de toda a Histórica de Portugal: a Revolução Comunista de 1974.

De resto, o recente discurso do Anti-Papa Francisco nas Nações Unidas, mostra-nos a inusitada identificação da Igreja Católica com as medidas draconianas que serão implementadas por aquela organização contra indivíduos e grupos que não adiram ao totalitarismo da Nova Ordem Mundial. Assim, o Papa -  e por extensão a Igreja Católica Apostólica Romana -, já adoptou a agenda mundial que, em nome de uma aparente fraternidade universal, se traduz no poder ilimitado de agências e organizações que potenciam uma administração planetária sem precedentes na história humana. E a trágica ironia, no meio disto tudo, é que a generalidade dos católicos estão manifestamente incapacitados para perceberem o que se passa, e quando porventura o perceberem, já será tarde demais».

Miguel Bruno Duarte



Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima






Liga das Nações (Genebra).














Costa Gomes com o general secretário da ONU, Kurt Waldheim, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, em Nova Iorque (Outubro de 1974).

Costa Gomes nas Nações Unidas (Outubro de 1974).












Cavaco Silva nas Nações Unidas (2015). Ver aqui.











Shakira nas Nações Unidas (2015). Ver aqui.


Shakira USA






"The Meditation Room" na ONU. Ver aqui.











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O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, com o Papa Francisco


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Leonardo DiCaprio


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«Revolta feminista, abortismo, quotas raciais, movimento gay, revolução agrária, indigenismo, ecologismo, antitabagismo, liberação das drogas pesadas – todas as bandeiras de luta que se agitam no mundo podem ser rastreadas desde o cenário público até sua origem discreta nos círculos do internacionalismo iluminado. E para disseminá-las não há somente as “redes”, estendendo-se até o infinito, mas todo um sistema burocrático milionário: a ONU tem mesmo cursos universitários para formar técnicos em “criação de movimentos sociais” no Terceiro Mundo. Movimentos populares espontâneos, é claro, e por espontâneo milagre harmonizados na concepção integral de uma nova ordem da civilização.

A bibliografia a respeito traz documentação mais que probante, mas, protegida pela indolência intelectual das massas, levará alguns séculos para tornar-se objeto de conhecimento comum. E então a humanidade já não terá interesse em conhecer sua origem: pois será a “humanidade nova”, embriagada da ilusão de haver-se criado a si mesma pela força espontânea do progresso e das luzes».

Olavo de Carvalho («Raízes do mundo novo»).


«... A engenharia social antevista por Aldous Huxley carecia ainda do computador e das redes digitais como substrato material de controlo. A digitalização do mundo a partir da segunda metade do século XX criou fluxos de comunicação e formas de controlo ubíquas, diferentes das que foram imaginadas por H. G. Wells, Aldous Huxley ou George Orwell, mas também por escritores pós-cibernéticos como Philip K. Dick, J. G. Ballard, William Gibson ou Neal Stephenson. Ainda que o efeito hipnótico e orgiástico do soma e do cinema sensorial possa comparar-se ao ciberespaço como alucinação consensual, a capacidade simulatória do meio digital induziu efeitos psicoactivos cujo alcance psíquico e social talvez seja ainda mais profundo. Além disso, as lógicas finalmente automatizadas do sistema financeiro e da guerra são agora algoritmos programados no sistema cibernético, capazes de desencadear instantaneamente acções catastróficas com repercussões planetárias. Ecranizada, a morte tornou-se um jogo remoto via satélite. O próprio comportamento de consumo das massas se encontra matematicamente programado na infra-estrutura cibernética, usada para monitorizar o consumo, incluindo o consumo frenético e dispositivos de obsolescência programada. A reorganização das práticas quotidianas em função da conexão remota instantânea e da monitorização em tempo real dos desejos e dos estados emocionais dos indivíduos, colaboradores voluntários na avatarização de si próprios como itens na grande base de dados em que o mundo se tornou, é francamente diferente das antevisões ficcionadas literariamente ou projectadas cientificamente nas últimas décadas.

Os sistemas actuais de vigilância política também não correspondem aos imaginários distópticos de tortura e brutalidade ostensiva ou de propaganda e repressão clandestina, ainda que estas continuem a ser usadas como instrumentos semilegais numa espécie de estado universal de emergência não-declarado de guerra ao terror. A granularidade da vigilância política aperfeiçoou a sua impessoalidade automática, permitindo agora a localização automática individual por coordenadas GPS e a prospecção massiva das redes de comunicação, num desrespeito flagrante pelo direito de privacidade, de que o programa XKeyscore da Agência de Segurança Nacional norte-americana seria apenas um exemplo [Dado a conhecer publicamente através das provas recolhidas e divulgadas por Edward Snowden em 2013, o programa XKeyscore permite fazer vigilância sistemática da Internet, dando aos analistas a possibilidade de pesquisar, sem qualquer autorização prévia, vastas bases de dados contendo correio electrónico, conversação em linha e a história da navegação contida nos browsers de milhões de indivíduos. Cf. Glenn Greenwald, «XKeyscore: NSA tool collects 'nearly everything a user does on the Internet'», The Guardian, 31 de Julho de 2013]. Um número cada vez maior das nossas acções deixa vestígios nos sistemas de dados, traços que são utilizados para monitorizar o comportamento futuro, garantindo a plena conformidade com a administração integral da nossa existência, dos nossos desejos e da nossa imaginação. Todos os sistemas recolhem dados e todos nos garantem a bondade dessa recolha, levando-nos a assinar contratos que nos colocam numa posição marcadamente assimétrica, alimentando-os com a informação que nos será instantes depois vendida sob a forma de produtos e serviços, e que servirá para programar no sistema os nossos perfis de consumidores e cidadãos. A virtualização da economia e da identidade permite agora reconstituir na rede digital electrónica um número crescente de interacções e realidades como puros fluxos de dados, imagem correlata da abstracção dos mercados financeiros e da ficção do valor.



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A programação dos indivíduos e a engenharia social constituem a essência da relação entre sociedades complexas e tecnologias avançadas: a complexidade das tecnologias implica um sistema ubíquo de controlo e vigilância, que amplifica em simultâneo a dependência do sistema tecnológico e dos seus dispositivos, e os processos globais de administração e controlo. Esta retroalimentação pode ser observada, por exemplo, na forma do aeroporto internacional como instituição totalizante, a qual, para alimentar os aviões com um fluxo constante de passageiros, submete os indivíduos aos processos de controlo e vigilância necessários ao sistema de gestão técnica e financeira das aeronaves. Idênticas descrições poderiam ser oferecidas do complexo técnico-militar, no qual a perigosidade de materiais - incluindo os agentes de guerra química, biológica e nuclear - submete os indivíduos a um controlo e vigilância sistemáticos. O princípio da vigilância instituiu-se como princípio universal na definição do comportamento das instituições relativamente aos indivíduos, alargando-se ao espaço público das ruas e parques. Ser administrado e ser vigiado é essência última do cidadão livre.

O contexto histórico imediato da emergência da distopia de Huxley é o contexto da expansão da civilização urbana industrial - com a sua marcada divisão de classes -, da consolidação dos sistemas de propaganda e violência estatal -, do rápido advento de uma sociedade consumista e hedonista - na qual a inebriação do consumo faz parte do mecanismo de reprodução económica e cultural, sendo mesmo um instrumento para a aceitação generalizada das condições alienadas da existência - e dos avanços científicos e técnicos das primeiras décadas do século XX. O conhecimento das forças fundamentais da natureza e dos códigos que determinam a vida prometiam novas possibilidades de habitar o universo e conjurar o humano. Os testes nucleares do Projecto Manhattan, a partir de 1942, e a descrição da estrutura molecular do ADN, em 1953, constituíram o culminar de processos de investigação nesses dois campos. Ainda que, como refere Huxley no seu prefácio à edição de 1946, a obra se centre mais naquilo que ele descreve como as ciências da vida (biologia, fisiologia e psicologia) do que nas ciências da matéria (física, química e engenharia), a sua interrogação fundamental diz respeito aos efeitos da ciência aplicada e ao modo como a vida se torna um servomecanismo da tecnologia.

Um dos aspectos que caracterizam o admirável mundo novo é a absoluta planificação e administração da existência. A planificação eugénica dos seres humanos permite inscrever no código genético a diferenciação social e naturaliza a evolução artificial obtida através da manipulação genética. Ainda que a programação genética dos indivíduos não tenha chegado ao ponto imaginado por Huxley, a administração e estatização do mundo ampliou-se, em consequência do aumento da complexidade técnica dos processos de produção, comunicação e transporte. Os padrões de organização do trabalho e de circulação de mercadorias e os fluxos das diferentes formas de capital estruturam-se agora à escala mundial, submetendo os indivíduos à lógica autónoma da sua própria reprodução e acumulação infinita. A distribuição desigual da riqueza material, alimentada por um processo obsessivo e auto-referencial de crescimento económico e valorização financeira, continua a manter milhões de seres humanos no limiar da sobrevivência, em estado de servidão e ignorância, sem recursos para comprarem as mercadorias que eles próprios produzem, sem tempo ou condições para aprenderem a ler e a escrever, e sem possibilidade de reparação para o seu sofrimento. 


(...) A prescrição de felicidade no admirável mundo novo em construção tornou-se uma mensagem repetida até à exaustão à medida que as novas tecnologias reforçam a fantasia do controlo, isto é, a ideia de que podemos prever, planificar e controlar tudo o que acontece à nossa volta e tudo o que acontece dentro de nós. A obsolescência programada nos dispositivos e aparelhos que usamos torna-se também a obsolescência programada dos nossos desejos e pensamentos, como se, desapropriados de nós mesmos, só nos restasse consumir, a crédito, o ser que desejaríamos ser e o pensamento que desejaríamos pensar. Talvez o facto mais extraordinário proporcionado pela descrição científica do mundo e pela tradução dessa descrição em complexos sistemas tecnológicos esteja na amplitude e na pregnância das transformações, de tal modo que a possibilidade de um exterior ao admirável mundo novo parece tornar-se cada vez mais impossível. Todas as relações sociais de produção e de consumo e todas as formas de vida e de cultura estão destinadas a refazer-se segundo a lógica da megatecnologia, que torna impensáveis e inimagináveis formas de vida ou de pensamento não domesticadas. A possibilidade de um "selvagem", exterior ao admirável mundo novo, passaria a ser impossível.

A selecção genética - que diferencia alfas e betas de gamas, deltas e epsilões - e a clonagem de embriões garantem uma produção em massa de cada tipo, segundo necessidades de mão-de-obra previamente determinados pelos técnicos de predestinação social. Esta produção fabril administrada de castas de seres humanos em incubadoras mimetiza a estrutura social, com ganhos de eficiência e produtividade sobre os modos de reprodução naturais, controlando os rácios de diferenciação entre masculino e feminino ou entre trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais. O que importa ao sistema é reproduzir a sua própria estrutura, ampliando para o todo social da reprodução biológica humana a fordização, que decompôs e racionalizou as tarefas produtivas numa cadeia de montagem. A própria morte pode ser fordizada e racionalizada, entrando na cadeia de produção.

O desenvolvimento de uma classe administradora, cuja função é supervisionar o funcionamento eficiente de todo o sistema, reflecte a cientifização das modernas práticas de gestão, destinadas a disciplinar os corpos e as mentes, tornando-os mecanismos obedientes da engrenagem. A nomenclatura das instituições e dos espaços sugere quer a funcionalização racionalizada da reprodução de embriões humanos, quer a natureza planificada e administrada de todos os espaços sociais do admirável mundo novo: Centro de Incubação e de Condicionamento de Londres-Central; Depósito de Embriões; Armazém de Orgãos; Sala de Decantação, Sala de Fecundação; Sala de Envasamento; Sala de Predestinação Social; Infantários - Salas de Condicionamento Neopavloviano; director da Incubação e do Condicionamento; administrador residente da Europa Ocidental; Estúdio de Cinema Sensorial de Hounslow; Central Hipnopédica; Companhia-Geral das Secreções Internas e Externas; Hospital para Moribundos de Park Lane.






Cabe referir ainda a presença dos media e de dispositivos de propaganda e engenharia das emoções, responsáveis pela produção de um sistema de crenças que sustenta uma determinada ordem social e pela manipulação psicológica e emocional. Antes de conhecermos Helmholtz Watson, autor de cenários para filmes sensoriais e de fórmulas e slogans hipnopédicos, o conglomerado dos media é assim apresentado:

"As diversas secções de propaganda e do Colégio de Engenharia Emocional estavam instalados no mesmo edifício de sessenta andares de Fleet Street. Na cave e nos pisos inferiores encontravam-se as tipografias e os escritórios dos três grandes jornais de Londres, O Rádio Horário, jornal para as castas superiores, A Gazeta dos Gamas, de verde-pálido, e, em papel cor de caqui e usando exclusivamente monossílabos, O Espelho dos Deltas. Depois, seguiam-se os escritórios de Propaganda por Televisão, por Cinema Sensorial, e por Voz e Música Sintéticas, que ocupavam, ao todo, vinte e dois andares. Por cima estavam os laboratórios de investigação e as câmaras acolchoadas onde os escritores de bandas sonoras e os compositores sintéticos levavam a cabo o seu delicado trabalho. Os dezoito últimos andares eram ocupados pelo Colégio de Engenharia Emocional".

A disposição arquitectónica das diversas tecnologias dos media em três secções num mesmo edifício, permite perceber a ecologia diversificada, mas interdependente dos media (imprensa periódica, música gravada, cinema, rádio, televisão) e associá-los à engenharia emocional. O cinema sensorial - capaz de activar conjuntamente os sentidos da visão, da audição, do tacto e do olfacto - aponta para a lógica imersiva das representações, cujo poder holográfico e sensorial lhes permite oferecerem-se como mundos de substituição que compensam a monotonia sensorial e motora da funcionalização industrial dos corpos geneticamente controlados.

Esta função compensatória cabe também à música sintética e à dose diária de soma. A descrição da saída da fábrica da Companhia-Geral de Televisão, observada pelo Selvagem, mostra a conjugação alienante entre trabalho e não-trabalho:

"Era justamente a hora de saída do turno principal do dia. Uma multidão de trabalhadores das castas inferiores, em bicha diante da estação do monocarril, setecentos a oitocentos homens e mulheres gamas, deltas e epsilões, que não tinham, entre todos, mais do que uma dúzia de fisionomias e estaturas diferentes. A cada um deles o bilheteiro dava, juntamente com o bilhete, uma pequena caixa de cartão com pílulas".

O controlo compensatório da química cerebral e o consumo recreativo de narcóticos são extensões da engenharia social programadora da felicidade. A erotização difusa e omnipresente dos corpos assume idêntica função compensatória, sinal de uma relação inversa entre liberdade sexual e liberdade política e económica. Tal como em Nós, de Evgueni Zamiatine, ou em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, a troca sexual é manifestação da instrumentalização do desejo, tornado acto funcional colectivo, no qual a ligação afectiva individual perturba a lógica impessoal e meramente abstracta das relações.











No prefácio de 1946, Huxley antevê a eficiência futura do controlo das massas através das formas brandas do poder do Estado, da propaganda dos media e dos sistemas de ensino, cujo verdadeiro fim seria produzir o amor à servidão. A produção fabril de seres humanos - geneticamente modificados, conformados a reproduzirem um sistema de relações alienadas e cuja existência é totalmente administrada - é uma imagem extrema da racionalidade e da eficiência pressupostas pelas tecnologias avançadas de produção. Para um sistema auto-referencial, centrado nas cadeias de produção e de valor, é o próprio ser humano que é necessário reproduzir à sua imagem e semelhança. Produzir uma realidade mais real que a realidade e administrar obsessivamente a existência continuam a fazer parte das utopias tecnológicas dos nossos imaginadores do futuro. Talvez por isso a designação "admirável mundo novo" tenha hoje, além da ressonância irónica original, algo do sabor amargo e melancólico de uma fantasia realizada. Se tornar os indivíduos felizes é fazê-los amar a sua servidão, a função da planificação consiste em continuar a gerar as condições presentes e futuras dessa felicidade servil».

Manuel Portela («Os imaginadores do futuro», prefácio in Aldous Huxley, «Admirável Mundo Novo», Antígona, 1.ª Edição, 2013).


«O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

Também a arte tem a sua moral, e grande parte das regras da ética vulgar. O remorso, por exemplo, é tão indesejável no que diz respeito à nossa má conduta como no que se relaciona com a nossa má arte. A malignidade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Meditar longamente sobre as fraquezas literárias de há vinte anos, tentar remendar uma obra defeituosa para lhe dar uma perfeição que ela não tinha quando da sua primitiva execução, passar a idade madura a tentar remediar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que cada um é na sua juventude - tudo isto, certamente, é vão e fútil. E eis porque este actual Admirável Mundo Novo é o mesmo que o antigo. Os seus defeitos, como obra de arte, são consideráveis, mas para os corrigir ser-me-ia necessário escrever novamente o livro -, e durante esse novo trabalho de redacção, ao qual me entregaria na qualidade de pessoa mais velha e diferente, destruiria provavelmente não apenas alguns defeitos do romance, mas também os méritos que ele poderia ter possuído na origem. Por esta razão, resistindo à tentação de me rebolar no remorso artístico, prefiro considerar que o óptimo é inimigo do bom, e depois pensar noutra coisa.

No entanto, parece-me ser útil citar pelo menos o mais grave defeito do romance, que é o seguinte: ao Selvagem são oferecidas apenas duas alternativas - ou uma vida demente na Utopia, ou a vida de um primitivo na aldeia dos índios, vida mais humana sob certos pontos de vista, mas, noutros, pouco menos bizarra e anormal.




Na época em que o livro foi escrito, a ideia segundo a qual o livre arbítrio foi concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura, por outro, era uma noção que eu achava divertida e que considerava poder perfeitamente ser verdadeira. Todavia, por amor ao efeito dramático, é permitido frequentemente ao Selvagem falar de uma maneira mais racional do que a que seria justificada pela sua educação entre os praticantes de uma religião que é metade culto da fecundidade e metade a ferocidade do Penitente. Mesmo o seu conhecimento de Shakespeare não iria, na realidade, justificar tais falas. No fim, bem entendido, ele recuará perante a razão: o seu Penitentismo natal reafirma a sua autoridade, e ele acaba na tortura demente que a si próprio inflige. E no suicídio sem esperança. "E foi assim que eles continuaram a morrer miseravelmente" - o que muito tranquilizou o esteta divertido e pirrónico que era o autor da fábula.

Não tenho hoje nenhum desejo de demonstrar que é impossível ser-se são de espírito. Pelo contrário, se bem que verifique, não menos tristemente que outrora, que a saúde de espírito é um fenómeno muito raro, estou convencido de que ela pode ser conseguida e gostaria de a ver mais espalhada. Por tê-lo dito em vários livros recentes e, principalmente, por ter elaborado uma antologia daquilo que os sãos de espírito dizem sobre a saúde do mesmo e sobre todos os meios pelos quais ela pode ser atingida, fui acusado por um eminente crítico académico de ser um deplorável sintoma da falência dos intelectuais em tempo de crise. Este julgamento subentende, suponho, que o professor e os seus colegas são alegres sintomas de êxito. Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão, e no pórtico de entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras: À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO. SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE.

Mas voltando ao futuro... Se eu tornasse agora a escrever este livro, daria ao Selvagem uma terceira alternativa. Entre as soluções utópica e primitiva do seu dilema, haveria a possibilidade de uma existência sã de espírito - possibilidade actualizada, em certa medida, entre uma comunidade de exilados e refugiados que teriam abandonado o Admirável Mundo Novo e viveriam dentro dos limites de uma reserva. Nessa comunidade, a economia seria descentralizada, à Henry George, a política seria kropotkinesca, cooperativa. A ciência e a técnica seriam utilizadas como se tivessem sido feitas, como o sabat, para o homem, e não (como são presentemente e como serão ainda mais no admirável dos mundos novos) como se o homem tivesse de ser adaptado e absorvido por elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do Fim Último do homem, o conhecimento unitivo do Tao ou Logos imanente, da Divindade ou Brahma transcendente. E a filosofia dominante da vida seria uma espécie de Utilitarismo Superior, no qual o princípio da Felicidade Máxima seria subordinado ao princípio do Fim Último - sendo a primeira questão que se punha e à qual seria necessário responder, em cada uma das contingências da vida, a seguinte: "De que modo este pensamento ou este acto contribuirão ou porão obstáculos à realização, por mim ou pelo maior número possível de indivíduos, do Fim Último do homem?"




Educado entre primitivos, o Selvagem (nesta nova e hipotética versão do livro) só seria transportado para a Utopia após ter tido ocasião de se informar conscientemente sobre a existência de uma sociedade composta de indivíduos cooperando livremente e consagrando-se à procura da saúde do espírito. Assim modificado, o Admirável Mundo Novo possuiria qualquer coisa de completo, artisticamente e (se é permitido empregar uma tão importante palavra acerca de uma obra de imaginação) filosoficamente, que lhe falta, com toda a evidência, sob a sua actual forma.

Mas o Admirável Mundo Novo é um livro sobre o futuro e, quaisquer que sejam as suas qualidades artísticas, um livro sobre o futuro não pode interessar-nos a não ser que as suas profecias tenham a aparência de coisas cuja realização se pode conceber. Do nosso ponto de vista actual, quinze anos mais abaixo no plano inclinado da história moderna, qual é o grau de plausibilidade que ainda possuem os seus vaticínios? Que se passou, durante este doloroso intervalo, para confirmar ou invalidar as previsões de 1931?

Há um enorme e manifesto defeito de previsão que imediatamente se verifica. O Admirável Mundo Novo não faz a menor alusão à cisão nuclear. De facto, é extremamente curioso que assim seja: pois as possibilidades da energia atómica constituíam já um preponderante assunto de conversa alguns anos antes de o livro ter sido escrito. O meu velho amigo Robert Nichols tinha mesmo escrito a esse respeito uma peça com boa aceitação, e lembro-me de eu próprio ter mencionado o assunto, de passagem, num romance publicado nos últimos anos da década de vinte. Parece-me portanto, como digo, muito curioso que os foguetões e os helicópteros do sétimo século de Nosso Ford [trocadilho com Our Lord (Nosso Senhor)], não tenham possuído, como força motriz, núcleos de desintegração. Este esquecimento pode não ser desculpável, mas, pelo menos, pode ser explicado facilmente. O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência propriamente dita; é o progresso da ciência no que diz respeito aos indivíduos humanos. Os triunfos da química, da física e da engenharia são tacitamente dados por adquiridos. Os únicos progressos científicos explicitamente descritos são aqueles que envolvem a aplicação aos seres humanos das futuras pesquisas em biologia, fisiologia e psicologia. É unicamente devido às ciências da vida que a vida poderá ser modificada radicalmente. As ciências da matéria podem ser utilizadas quer para destruir a vida, quer para tornar a existência insuportavelmente complexa e desconfortável; todavia, salvo se utilizadas como instrumentos pelos biólogos e psicólogos, são impotentes para modificar as formas e as expressões naturais da própria vida. A libertação da energia atómica assinala uma grande revolução na história humana, mas não (a não ser que nos façamos saltar em pedaços e ponhamos, assim, fim à história) a revolução final e a mais profunda...».

Aldous Huxley (prefácio de 1946 ao «Admirável Mundo Novo»).







ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

A sala na qual os três foram introduzidos era o gabinete do administrador.

- Sua Forderia vai descer dentro de um momento.

O mordomo gama deixou-os sós.

Helmholtz começou a rir muito alto.

- Isto parece mais uma reunião de amigos tomando uma solução de cafeína do que um julgamento - disse, deixando-se cair na mais luxuosa das poltronas pneumáticas. - Coração ao alto, Bernard! - acrescentou, quando o seu olhar pousou na face esverdeada e infeliz do amigo.

Mas Bernard não queria ser tranquilizado. Sem dar resposta, sem mesmo olhar Helmholtz, foi sentar-se na cadeira mais desconfortável da sala, cuidadosamente escolhida na esperança de conjurar de qualquer maneira a cólera das potências superiores.

Entretanto, o Selvagem percorria a sala, muito agitado, lançando olhares de uma vaga curiosidade superficial aos livros das estantes, aos cilindros das bandas sonoras e às bobinas das máquinas de leitura, nos seus compartimentos numerados. Em cima da mesa, debaixo da janela, estava um volume maciço pseudocouro preto e marcado com grandes TT dourados. Pegou nele e abriu-o. A minha Vida e a Minha Obra, por nosso Ford. O livro tinha sido editado em Detroit pela Sociedade para a Propaganda do Conhecimento Fordiano. Com um gesto descuidado folheou algumas páginas, leu uma frase aqui, um parágrafo além, e chegara à conclusão de que o livro não lhe interessava quando a porta se abriu e o administrador mundial da região da Europa Ocidental entrou com passo rápido na sala.

Mustafá Mond apertou a mão aos três; mas foi ao Selvagem que se dirigiu.

- Assim, ao que parece, você não gosta nada da civilização, Sr. Selvagem?

O Selvagem olhou-o. Tinha vindo disposto a mentir, a fingir-se fanfarrão, a encerrar-se numa reserva sombria; mas tranquilizado pela inteligência jovial do rosto do administrador, resolveu dizer a verdade, com absoluta franqueza. «Não». Abanou a cabeça.

Bernard sobressaltou-se e mostrou-se horrorizado. Que pensaria o administrador? Ser catalogado como amigo de um homem que afirma não gostar da civilização, que o diz abertamente, e ainda por cima ao próprio administrador - era terrível.

- Ora essa, John - começou a dizer.





Um olhar de Mustafá Mond reduziu-o ao mais humilde silêncio.

- Entenda-se desde já - não pôde deixar de reconhecer o Selvagem - que há coisas que são muito agradáveis. Toda esta música aérea, por exemplo.

- Às vezes, mil instrumentos melodiosos cantarolam em meus ouvidos; e às vezes vozes... (1)

A fisionomia do Selvagem inundou-se de súbita alegria.

- O senhor também o leu? Julgava que nunca ninguém tinha ouvido falar deste livro aqui em Inglaterra.

- Quase ninguém. Eu sou uma das raríssimas excepções. Sabe, está proibido. Mas como sou eu que faço as leis, posso igualmente transgredi-las. Impunemente, Sr. Marx - acrescentou virando-se para Bernard. - Coisa que, ao que parece, o senhor não poderá fazer.

Bernard sentiu-se mergulhado num estado de miséria ainda mais desesperada.

- Mas porque está ele proibido? - perguntou o Selvagem. Emocionado por se encontrar em frente de um homem que tinha lido Shakespeare, esquecera momentaneamente todas as outras coisas.

O administrador encolheu os ombros.

- Porque é velho, eis a razão principal. Aqui não temos o culto das coisas velhas.

- Mesmo quando são belas?

- Sobretudo quando são belas. A beleza atrai, e nós não queremos que as pessoas sejam atraídas pelas coisas velhas. Queremos que amem as coisas novas.

- Mas as novas são tão estúpidas, tão horrorosas! Estes espectáculos onde só há helicópteros a voar por todos os lados e onde se sente os beijos das pessoas! - Fez uma careta. - Bodes e macacos! - Só repetindo as palavras de Otelo pôde manifestar convenientemente o seu desprezo e o seu ódio.

- Animais bem gentis e nada desagradáveis, no entanto - murmurou o administrador, como num parêntesis.

- Porque não lhes dá a apreciar o Otelo?

- Já lhe disse: é velho. E por outro lado eles não compreenderiam.

Sim, era verdade. Lembrou-se de como Helmholtz tinha rido de Romeu e Julieta.

- Pois bem! Então - continuou depois de um silêncio - qualquer coisa nova semelhante ao Otelo e que eles sejam capazes de compreender.

- Aí está o que todos nós de há muito desejamos escrever - disse Helmholtz rompendo um silêncio prolongado.

- E é o que você nunca escreverá - disse o administrador -, porque se a obra se parecesse realmente com o Otelo, ninguém estaria em condições de a compreender. E se fosse coisa nova, não se podia parecer em nada com o Otelo.

- Porque não?

- Sim, porque não? - repetiu Helmholtz. Esquecia, também, as realidades desagradáveis da situação. Verde de terror e de apreensão, Bernard era o único que se lembrava; mas os outros não reparavam nele. - Porque não?




- Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Otelo. Não se pode fazer calhambeques sem aço, e não se pode fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora, As pessoas são felizes; conseguem o que querem, e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem; estão em segurança; nunca estão doentes; não receiam a morte; vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice; não são sobrecarregadas com pais e mães; não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas; estão de tal modo condicionados que, por assim dizer, não podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa correu mal, há soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem. A liberdade! - Pôs-se a rir. - O senhor espera que os deltas sejam capazes de compreender Otelo! Meu caro amigo!

O Selvagem calou-se por um momento.

- Apesar de tudo - insistiu obstinadamente - Otelo é belo, Otelo é melhor que os filmes sensoriais.

- Não há dúvida - assentiu o administrador. - Mas esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificámos a grande arte. Temos em seu lugar os filmes sensoriais e o orgão de perfumes.

- Mas são coisas sem sentido nenhum.

- Têm o seu sentido próprio; representam para os espectadores uma porção de sensações agradáveis.

- E contudo... são narrados por um idiota (2).

O administrador pôs-se a rir.

- Você não está a ser muito delicado para com o seu amigo Sr. Watson. Um dos nossos mais distintos engenheiros de emoção...

- Mas ele tem razão - concordou Helmholtz com uma tristeza sombria. - É realmente idiota, Escrever quando se não tem nada a dizer...

- Exactamente. Mas isso exige uma habilidade extraordinária. Fabricamos calhambeques com o mínimo possível de aço, obras de arte utilizando apenas sensação pura.

O Selvagem abanou a cabeça.

- Tudo isso me parece absolutamente horrível.

- Sem dúvida. A felicidade real parece sempre bastante sórdida por comparação com as largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada de pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

- É evidente - concordou o Selvagem depois de um silêncio. - Mas será indispensável atingir o grau de horror de todos estes gémeos? - Passou as mãos pelos olhos como se tentasse apagar a lembrança da imagem daquelas longas fileiras de anões idênticos nas mesas de montagem, daquelas manadas de gémeos em bicha na estação do monocarril de Brentford, daquelas larvas humanas invadindo o leito de morte de Linda, do rosto indefinidamente repetido dos seus agressores. Olhou a mão esquerda coberta por um penso e estremeceu.

- Horrível!

- Mas tão útil! Estou a ver que não gosta dos nossos Grupos Bokanovsky; mas, garanto-lhe, são os alicerces sobre os quais está edificado o restante. São o giroscópio que estabiliza o avião-foguetão do Estado na sua marcha inflexível.




A voz profunda vibrava de modo arrebatador: a mão gesticulante representava implicitamente todo o espaço e impulso da irresistível máquina. O talento oratório de Mustafá Mond estava quase ao nível dos modelos sintéticos.

- Pergunto a mim próprio - disse o Selvagem - o que o leva a mantê-los, no final de contas, uma vez que pode produzir aquilo que quiser nessas provetas. Já que está entregue a essa função porque não se faz de cada um deles um alfa-mais-mais?

Mustafá Mond riu novamente.

- Porque não temos vontade nenhuma de nos fazer estrangular - respondeu. - Acreditamos na felicidade e na estabilidade. Uma sociedade composta de alfas não poderia deixar de ser instável e miserável. Imagine uma fábrica onde todo o pessoal fosse constituído por alfas, quer dizer, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, de boa hereditariedade, e condicionados de forma a serem capazes (dentro de certos limites) de escolher livremente e de arcar com responsabilidades. Imagine isso! - repetiu.

O Selvagem tentou imaginar, mas sem grande êxito.

- É um absurdo. Um homem decantado em alfa, condicionado em alfa, enlouqueceria se tivesse de fazer o trabalho de um epsilão-semiaborto, enlouqueceria ou pôr-se-ia a destruir tudo. Os alfas podem ser completamente socializados, mas com a condição de só os obrigarem a fazer trabalhos de alfa. Só a um epsilão se pode pedir que faça os sacrifícios de um epsilão, pela boa razão de que se não trata de sacrifícios; eles são a linha de menor resistência. O seu condicionamento traçou a via que terá de percorrer. Não tem outro remédio; está fatalmente predestinado. Mesmo depois da decantação, está sempre dentro de uma proveta, de uma invisível proveta de fixações infantis e embrionárias. Cada um de nós, já se vê - prosseguiu meditativamente o administrador - atravessa a vida dentro de uma proveta. Mas se acontece sermos alfas, a nossa proveta é, em termos relativos, enorme. Sofreríamos intensamente se estivéssemos condicionados num espaço mais limitado. Não se pode deitar pseudochampanhe para castas superiores em provetas de casta inferior. É teoricamente evidente. Mas é coisa que está igualmente demonstrada na vida real. O resultado da experiência de Chipre foi convincente.

- Mas que experiência foi essa? - perguntou o Selvagem?

Mustafá Mond Sorriu.

- Pode-se, sem dúvida e se o quisermos, designá-la como uma experiência de reemprovetamento. A experiência começou no ano 473 d. F. Os administradores fizeram evacuar da ilha de Chipre os habitantes existentes, e recolonizaram-na com um lote especialmente preparado de vinte e dois mil alfas. Confiou-se-lhes um equipamento agrícola e industrial muito completo e deixou-se-lhes a responsabilidade de gerirem os seus negócios. Os resultados estiveram em completo acordo com todas as previsões teóricas. A terra não foi convenientemente trabalhada; houve greves em todas as fábricas; as leis valiam menos que nada; desobedeciam às ordens dadas; todas as pessoas destacadas para efectuar uma missão de categoria inferior passavam o tempo a fomentar intrigas, visando obter trabalho de categoria mais elevada, e todas as pessoas dos cargos superiores fomentavam contra-intrigas, para poderem continuar, a qualquer preço, nos lugares que ocupavam. Em menos de seis anos estavam embrulhados numa guerra civil de primeira ordem. Quando, dos vinte e dois mil, foram mortos dezanove mil, os sobreviventes fizeram uma petição unânime aos administradores mundiais a fim de estes retomarem o governo da ilha. Foi o que se fez. E assim terminou a única sociedade de alfas de que o mundo teve conhecimento.

O Selvagem deu um suspiro profundo.

- A população óptima - continuou Mustafá Mond - deve obedecer ao modelo do icebergue: oito nonos abaixo da linha de flutuação, um nono acima da linha.

- E os que estão abaixo da linha de flutuação sentem-se felizes?

- Mais felizes que os de cima. Mais felizes que os seus dois amigos que estão aqui, por exemplo. - E apontou-os com o dedo.

- Apesar do trabalho horrível?






- Horrível? Mas essa não é a opinião deles. Pelo contrário, agrada-lhes. É leve e de uma simplicidade infantil. Nenhum esforço excessivo, nem para o espírito, nem para os músculos. Sete horas e meia de trabalho leve, nada esgotante, e depois a ração de soma, os desportos, a cópula sem restrições, e o cinema sensorial. Que mais podiam eles pedir? É certo - acrescentou - que poderiam pedir uma jornada de trabalho mais curta. E, bem entendido, podíamos conceder-lha. Tecnicamente seria perfeitamente possível reduzir a três ou quatro horas a jornada de trabalho das castas inferiores. Mas isso torná-las-ia mais felizes? Não, em nada. A experiência foi tentada, há mais de século e meio. Toda a Irlanda foi posta sob o regime da jornada de quatro horas. E qual foi o resultado? Perturbações e um acréscimo notável no consumo de soma. Mais nada. Estas três horas e meia de folga suplementar estavam tão longe de ser uma fonte de felicidade que as pessoas se viam obrigadas a evadir-se pelo soma. O Gabinete de Invenções regurgita de planos de dispositivos destinados a poupar a mão-de-obra. Há milhares. - Mustafá Mond teve um gesto largo. - E porque não os pomos em execução? Para bem dos trabalhadores; seria pura crueldade infligir-lhes folgas excessivas. E aconteceu o mesmo com a agricultura. Poderíamos fabricar por síntese a mais ínfima parcela dos nossos alimentos, se o quiséssemos. Mas não o fazemos. Preferimos conservar no trabalho da terra um terço da população. Para seu próprio bem, porque é preciso mais tempo para obter os alimentos a partir da terra do que utilizando as fábricas. Além disso, precisamos de pensar na nossa estabilidade. Aqui está uma outra razão para que estejamos tão pouco inclinados a utilizar invenções novas. Qualquer descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva; qualquer ciência tem de ser, às vezes, tratada como um possível inimigo. Sim, mesmo a ciência.

A ciência? O Selvagem franziu o sobrolho. Conhecia a palavra. Mas o que realmente significava não o sabia John. Nem Shakespeare nem os velhos do pueblo tinham mencionado a ciência, e de Linda recebera apenas indicações muito vagas: a ciência é qualquer coisa que leva a que a gente zombe das danças do milho, qualquer coisa que nos impede de criar rugas e de perder os dentes. Fez um esforço desesperado para entender o que o administrador queria dizer.

- Sim - dizia Mustafá Mond - esta é a outra parcela no passivo da estabilidade. Não é apenas a arte que é incompatível com a felicidade; há também a ciência. A ciência é perigosa; somos obrigados a mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada.

- Como? - interveio Helmholtz admiradíssimo. - Mas nós repetimos continuamente que a ciência é tudo no mundo. É um truísmo hipnopédico.

- Três vezes por semana, dos treze aos dezassete anos - precisou Bernard.

- E toda a propaganda científica que efectuamos no colégio...

- Sim, mas que espécie de ciência? - perguntou sarcasticamente Mustafá Mond. - Você não recebeu cultura científica, de maneira que não está em condições de julgar. Pela minha parte, eu era muito bom físico nos meus tempos. Muito bom, suficientemente bom para me aperceber de que toda a nossa ciência não passa, afinal, de um livro de cozinha, com uma teoria ortodoxa da arte culinária de que ninguém tem o direito de duvidar, e uma lista de receitas às quais é preciso nada acrescentar, a não ser uma autorização especial do chefe de cozinha. Sou eu o chefe de cozinha agora. Mas houve tempos em que não passava de um jovem ajudante de cozinha, cheio de curiosidade. E comecei a cozinhar à minha maneira. Cozinha heterodoxa, cozinha ilícita. Um pouco de ciência verdadeira, em suma. - Calou-se.

- E que lhe aconteceu? - perguntou Helmholtz.

O administrador suspirou.

- Mais ou menos o que vai acontecer convosco, meus jovens amigos. Estive quase a ser enviado para uma ilha.

Estas palavras galvanizaram Bernard, suscitando nele uma actividade violenta e deslocada.



- Enviar-me para uma ilha, a mim? - Levantou-se de um salto, atravessou a sala a correr e parou, gesticulando, diante do administrador. - O senhor não me poderá mandar. Não fiz nada. Foram os outros. Juro que foram os outros. - E apontava com dedo acusador Helmholtz e o Selvagem. - Oh, peço-lhe, não me mande para a Islândia! Prometo fazer tudo o que devo fazer. Peço-lhe, dê-me ainda outra oportunidade de me emendar. Peço-lhe, dê-me uma oportunidade! - Começaram a correr-lhe as lágrimas. - É culpa deles, já lhe disse - soluçou. - E não para a Islândia. Oh! Suplico-lhe, Sua Forderia, suplico-lhe... - E num paroxismo de baixa humilde, atirou-se de joelhos aos pés do administrador. Mustafá Mond tentou obrigá-lo a levantar-se; mas Bernard correu inesgotavelmente. Por fim o administrador viu-se obrigado a tocar para chamar o seu quarto secretário.

- Traga três homens - ordenou - e leve o Sr. Marx para um quarto de dormir. Dê-lhe uma boa vaporização de soma, meta-o depois na cama e deixe-o só.

O quarto secretário saiu para voltar com três lacaios gémeos de uniforme verde. Arrastaram Bernard, que continuava a gritar e a soluçar.

- Dir-se-ia que o vão estrangular - comentou o administrador, depois de a porta de ter fechado. - Ao passo que se ele tivesse a mais leve parcela de bom senso, compreenderia que o castigo é na realidade uma recompensa. Mandamo-lo para uma ilha. Quer dizer, mandamo-lo para um lugar onde estará em contacto com a mais interessante sociedade de homens e mulheres existentes em qualquer parte do mundo. Todas as pessoas que, por esta ou aquela razão, tomaram individualmente excessiva consciência do seu eu para poderem adaptar-se à vida em comum, todas as pessoas insatisfeitas com a ortodoxia, que têm ideias independentes, bem pessoais, todos aqueles que, numa palavra, são alguém, Nem sei mesmo a razão por que o não mando para lá, Sr. Watson.

Helmholtz riu-se.

- Então qual a razão por que não está o senhor numa ilha?

- Porque, no fim de contas, preferi isto - respondeu o administrador. - Deram-me a escolher: ser enviado para uma ilha, onde me seria possível continuar os meus estudos de ciência pura, ou então ser admitido no Conselho Supremo, com a perspectiva de ser promovido em tempo oportuno a um cargo de administrador. Escolhi isto e abandonei a ciência. - Depois de um breve silêncio, acrescentou: - Às vezes, tenho pena de ter deixado a ciência. A felicidade é uma soberana exigente, sobretudo a felicidade dos outros. Uma soberana bastante mais exigente, se não estamos condicionados para a aceitar sem discussões, do que a verdade: - Suspirou, voltou a cair no silêncio, depois continuou em tom vivaz: - enfim, o dever é o dever. Não se pode consultar as preferências pessoais. Interesso-me pela verdade, amo a ciência. Mas a verdade é uma ameaça, a ciência é um perigo público. Ela é actualmente tão perigosa como já foi benfazeja. Deu-nos o equilíbrio mais estável que a história registou. O da China era, em comparação, desesperadamente inseguro; até os matriarcados primitivos estavam menos firmes do que nós estamos. Graças, repito-o à ciência. Mas não podemos permitir à ciência que desfaça o bom trabalho que realizou. Aqui está por que estabelecemos com tanto cuidado os limites das suas investigações, eis por que estive prestes a ser enviado para uma ilha. Apenas lhe permitimos que se ocupe dos problemas mais urgentes do momento. Todas as outras pesquisas são cuidadosamente desencorajadas. É curioso - continuou depois de uma curta pausa - ler o que se escrevia na época de Nosso Ford acerca do progresso científico. Parece que pensavam que se lhe podia permitir que se processasse indefinidamente, sem consideração por qualquer outra coisa. O saber era o deus mais alto; a verdade, o valor supremo; tudo o mais era secundário e subordinado. É verdade, também, que as ideias começam a modificar-se a partir dessa época. Nosso Ford fez muito para tirar à verdade e à beleza a importância que lhe concediam, transferindo essa importância para o conforto e para a felicidade. A produção em massa exigia essa transferência. A felicidade universal mantinha as engrenagens em funcionamento muito regular; a verdade e a beleza não eram capazes de tal. E, esclareça-se, de cada vez que as massas se apoderavam do poder político, era a felicidade, mais do que a verdade e a beleza, o que importava. Todavia, e apesar de tudo, as investigações científicas sem restrições eram ainda autorizadas. Continuava-se sempre a falar da verdade e da beleza como se fossem os bens supremos. Até à época da Guerra dos Nove Anos, que os forçou a cantar noutro tom, posso garantir-vos! Que sabor podem ter a verdade ou a beleza quando as bombas de antraz rebentam à nossa volta? Foi então que a ciência começou a ter rédea curta, depois da Guerra dos Nove Anos. Nesse momento as pessoas estavam até dispostas a deixar encurtar as rédeas ao apetite. Fosse o que fosse, desde que pudessem viver sossegadas. Desde então continuámos a encurtar as rédeas. Isso não foi lá grande coisa para a verdade, claro. Mas foi excelente para a felicidade. É impossível conseguir-se alguma coisa por nada. A felicidade tem de ser paga. O senhor paga, Sr. Watson, o senhor paga porque me parece que se interessa excessivamente pela beleza. Eu interessava-me muito pela verdade; por isso paguei, eu também.



- Mas o senhor não foi para uma ilha - disse o Selvagem quebrando um longo silêncio.

O administrador sorriu.

- Foi desta forma que eu paguei. Escolhendo servir a felicidade. A dos outros, não a minha. Ainda bem - acrescentou depois de um silêncio - que há tantas ilhas no mundo. Não sei o que faríamos sem elas. Seríamos obrigados a metê-los todos na câmara de gás, suponho. A propósito, Sr. Watson, agradar-lhe-ia uma ilha de clima tropical? As Marquesas, por exemplo; ou Samoa? Ou ainda qualquer coisa mais excitante?

Helmholtz levantou-se da sua poltrona pneumática. Mau - respondeu. - Parece-me que se poderia escrever melhor num clima mau. Se lá houvesse vento e tempestades em abundância, por exemplo...

O administrador manifestou a sua aprovação com um sinal da cabeça.

- A sua coragem agrada-me, Sr. Watson. Agrada-me extraordinariamente. Tanto quanto a desaprovo oficialmente. - Sorriu. - Que pensaria das ilhas Falkland?

- Sim, parece-me que me servirão - concordou Helmholtz. . E agora, se me dá licença, vou ver o que é feito desse pobre Bernard (in Admirável Mundo Novo, Antígona, 2013, pp. 258-271).


Notas: 

(1) Sometimes a thousand twangling instruments / will hum about my ears; and sometimes voices... (THE TEMPEST, III, 2).

(2) Life is a tale / Told by an idiot, full of sounde and fury, / Signifying nothing. (MACBETH, V, 9).

Continua


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