domingo, 15 de fevereiro de 2015

Os 47 ronins (ii)

Escrito por Bertrand Solet




Toshiro Mifune


Throne of Blood (1957)










Sanjuro (1962)










































Yojimbo (1961)














Samurai Rebellion


Akira Kurosawa e Toshiro Mifune


The Sword of Doom (1966)


























«Aqueles que se apegam à vida morrem. Só vivem aqueles que a desafiam». 

(Uesugi Kenshin).



«A ideia fundamental para o bushi é a da morte. Esta ideia deve estar presente no seu espírito dia e noite, noite e dia, da aurora do primeiro dia do ano ao último minuto do último dia... O samurai deve considerar cada dia da sua vida como sendo o último».

(Daidoji Yuzan, séc. XVII).



«Um bushi não ama nem odeia nenhuma criatura. Ele não tem paixões, nem dúvidas e não experimenta nenhuma pena na derrota nem alegria na vitória. Ele é um universo de paz e cumpre com serenidade os deveres do seu estado». 


(Taiheiki - "Crónica da Grande Paz" -, séc. XIV).



«Aqueles que não estão dispostos a oferecer a sua vida e a correr ao encontro da morte não são verdadeiros bushi». 


(Uesugi Kenshin).



«O samurai não pensa na vitória nem na derrota: ele simplesmente combate furiosamente até à morte. É assim que ele se realiza».


(Hagakure).



«Não tenho vida nem morte. O absoluto é a minha vida e a minha morte». 


(Samurai anónimo).



«O essencial é o espírito (shin). Observe-o. Estabeleça-se nele firmemente. Poderá então compreender que existe em si algo que está para além do espírito e da vida». 


(Uesugi Kenshin).






Zatoichi meets Yojimbo (1970)











«Tenho a impressão de que os jovens samurai de hoje em dia escolheram para si outros objectivos deploravelmente baixos. Têm um olhar furtivo dos bandidos. A maioria não pensa mais do que no seu interesse pessoal e em exibir a sua inteligência. Mesmos aqueles que parecem ter uma alma serena isso não passa de uma fachada. Esta atitude não é correcta. Só é verdadeiramente um samurai aquele que não tem outro desejo que não seja o de morrer rapidamente - e de se tornar um puro espírito oferecendo a sua vida ao seu senhor, na medida em que a sua preocupação constante é o bem-estar do seu Daimio a quem presta contas, sempre, do modo como resolve os problemas para consolidar as estruturas do domínio. Assim, Daimio e servidores devem ser igualmente determinados. É portanto indispensável possuir uma resolução tão inabalável que ninguém, nem mesmo os deuses e os Budas, o possam desviar do objectivo fixado.

(...) Se se quisesse resumir em poucas palavras a condição de samurai diria que ele é em primeiro lugar devoção de corpo e alma a um mestre. Em segundo lugar, diria que ele deve cultivar a inteligência, a compaixão e a coragem. O domínio destas três virtudes reunidas pode parecer impossível a uma pessoa vulgar, mas isso é fácil. A inteligência não é mais do que saber conversar com outra pessoa sobre variados assuntos, recebendo em compensação uma sabedoria infinita. A compaixão consiste em agir para o bem do próximo comparando-se a ele e considerando-o melhor. A coragem, é saber cerrar os dentes. Basta fazer isto em qualquer circunstância. O conhecimento de tudo o que está além destas três virtudes não tem utilidade. Em terceiro lugar, no que diz respeito ao aspecto exterior deve cuidar-se da própria aparência, a maneira de se exprimir e aperfeiçoar a sua caligrafia. Tudo isto são coisas correntes que é necessário aperfeiçoar constantemente. No fundo, é necessário sentir em si mesmo a presença de uma força tranquila. Quando ele tiver conseguido tudo isto, terá de aprender a história da sua terra e os seus costumes. Poderá então aprender algumas artes recreativas. Ser um samurai é, em suma, muito simples. Se olhais aqueles que, agora, são de alguma utilidade, percebereis que eles reuniram estas três condições.

Alguém disse um dia: "Há duas espécies de orgulho, o orgulho interno e o orgulho externo. Um samurai que não possua as duas, é de uma utilidade duvidosa.". O orgulho pode ser comparado à lâmina do sabre. Esta deve ser afiada e depois reintroduzida na bainha. De vez em quando, ela é desembainhada, brandida, depois limpa e reembainhada. Se o sabre de um samurai está sempre desembainhado, se está sempre erguido, as pessoas temê-lo-ão e ele terá dificuldade em ter amigos. Se, pelo contrário, ele não sai nunca da sua bainha, a lâmina embaciará e cobrir-se-á de ferrugem e as pessoas já não temerão aquele que o usa.











Zatoichi Shintaro Katsu





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Zatoichi (2003)











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A melhor atitude a tomar no que diz respeito à palavra, é não a usar. Se pensais poder passar sem ela, não faleis. O que tem de ser dito deve sê-lo da maneira mais sucinta, lógica e claramente possível. É surpreendente o número de pessoas que se ridicularizam por falar irreflectidamente e assim se desconsideram.

Diz-se que, no final de cada reunião do seu clã, Oki Hyobu dizia sempre: "Os jovens devem esforçar-se por aumentar a sua determinação e a sua coragem. Isso não se pode fazer se a coragem não estiver enraizada no coração. Quando o sabre se partiu, é preciso atacar com as mãos. Quando as mãos forem amputadas, têm de se servir dos ombros. Quando os ombros forem cortados, tem de se morder o pescoço de dez, mesmo de quinze inimigos. Isto é a coragem"».

Bernard Marillier («Samurai»).


«The code of Bushido was originally an unwritten one. Nevertheless, it was common currency among the élite of the social hierarchy from the 12th century to the mid-19th century. The samurai were taught that just as rank has its privileges so it also has its duties, and therefore they were expected do conduct themselves as models of dignity and virtue. They were required to lead austere lives, devoting themselves unswervingly to the service of their feudal lord (daimyo). They were expected to be courageous (courage was defined as simply seeing what had to be done and doing it, even if it resulted in death), and in this connection they were expected to be capable of determining the right moment to die, and to have a right reason. Anyone could rush blindly into battle and be killed, but unless the cause was right this was deemed a 'dog's death'. In this light, we see that the pratice of seppuku or hara-kiri (suicide by cutting open the belly, followed by beheading by a 'second') was not the last resort of a warrior pushed beyond his limits by the vicissitudes of fate; but an honourable act of ultimate free-will. Often demanded by the daimyo or state in the form of lawful sentence of death, it allowed the nobleman to atone for his transgressions and enable his lineage to continue without dishonour.

Although Bushido was not passed on initially buy the written word, a book called Hagakure ('Hidden among the Leaves') has come down to us from the early 18th century. This work, although often contradictory, contains the thoughts and precepts of an ex-samurai priest, Jocho Yamamoto (1659-1719). His words - noted down and preserved by his student Tsuramoto Tashiro (in spite of instructions to the contrary) - give us invaluable insight into the samurai's concept of Bushido. This book was never made freely available, but was kept and treasured as a system of practical and moral teachings for the lord and samurai of the Nabeshima clan. One or two examples from its pages will clearly reveal the profound effect of the centuries of Bushido influence.








"In a 50-50 life or death crisis, simply settle it by deciding on immediate death. There is nothing complicated about it. Just brace yourself and proceed" (Book One).

"The best conduct with regard to speaking is to remain silent" (Book Three).

"If you must fail, then fail splendidly" (Book Two).

"Lord Naoshige said, 'The Way of the Samurai is a mania for death. Sometimes 10 men cannot topple a man with such conviction'" (Book One).

Regarding the aims and abilities of the individual samurai in the martial arts, Jocho quotes the words of a master swordsman, to the effect that a samurai's training lasts a lifetime. Initially, all the training seems to no avail as the student never seems to improve. At the next stage, he begins to realise his deficiencies, and the shortcomings of others. The next highest level is attained when the samurai is competent and confident enough to rely on himself. In this stage, he is pleased to receive praise and laments the failings of others. Above this is the level that demonstrates true mastery, in which the samurai never reveals his feelings or emotions by facial gestures and the like, nor does he continually exhibit his skill: on the contrary he pretends ignorance and incompetence whilst truly respecting the skill of others.

This, the master supposes, is the highest level that most can aspire to, but there is yet one more stage; the stage in which the one who reaches it realizes that his training will have no end, and that he will never achieve perfection. Here he quotes Yagyu Tajima no Kami Munenori; "I do not know how to excel others, I only know how to excel myself. Today I am better than I was yesterday, tomorrow I will be better than I am today".











Perhaps understandably, the Hagakure became a huge bestseller during World War II and one of its slogans "I found that the Way of the Samurai is death" was taken to heart by the kamikaze suicide pilots. It was also a formative influence on Mishima, Japan's best-known post-war novelist, who lived and died according to the Hagakure morality.

Naturally enough, with the Allied victory, the book was quickly abandoned as "dangerous and subversive". It is not, however, a manual of death. It exemplifies correct behaviour in all circumstances, and surely it has something to say to the modern Western budo-ka; for even if, at first sight, it portrays a staggering approch to our taboo subject of death. Again one must urge the Western karate-ka to look beyond the practice of technique and seek that calm acceptance of the inevitable which was an integral feature of the samurais's psychological make-up. Karate-do, like Bushido, is not to be confined to the dojo or the battlefield; it is for life».

PMV MORRIS («The Karate-do Manual»).


«Um abismo separa a "morte" que sentiramos tão próxima durante a guerra [...] do mundo actual, pacífico e sem acontecimentos. Passámos [...] de uma vida em que a morte era uma realidade para um mundo em que a morte não passa de uma ideia: a sensação de realidade que sentíamos numa vida que estava próxima da morte [...] transformou-se numa ideia».

Yukio Mishima
















OS 47 RONINS

O trecentésimo samurai, Murakami Kiken, regressa de viagem. Ao mesmo tempo que a tristeza, a cólera invade-lhe o coração quando sabe da morte do príncipe Asano. Procura os seus companheiros, mas não encontra nenhum.

- Partiram todos! - exclama. Então Kira Yoshihisa pode viver em paz? Não é possível! Tenho que encontrar os outros samurais... alguns, pelo menos, e saber o que decidiram!

Murakami informa-se, percorre os campos. Acaba por encontrar Oishi. O ronim está amesentado numa taberna próxima, bebendo o saqué, com os olhos brilhantes e a cara afogueada, aparentemente bêbado.

- Oishi! Sou eu, o Murakami. Soube a terrível notícia...

- Murakami, de que notícias falas? Da morte de Asano? Ora Morrem samurais todos os dias. Senta-te e bebe comigo.

- Cobarde! - grita Murakami. - Tu, aquele que eu considerava o melhor de todos... Sim, não passas de um cobarde!

Por um instante, dir-se-ia que a boca de Oishi se torce de cólera ao terrível insulto. De olhos coruscantes levanta o braço. Depois a expressão distende-se, o olhar abranda e deixa o braço sobre a mesa.

- Vem beber! - repete num soluço.

Murakami já partira, pálido de desilusão... Procura outros antigos companheiros e consegue encontrar alguns. Mas o primeiro afirma que a lei do xógum é a mais alta... O segundo ergue os braços ao céu e diz:

- Para quê falar em vingança? É preciso viver. Olha, acabo de ser contratado por abastado comerciante. Parto a acompanhar uma caravana, protegê-la dos salteadores. Queres vir comigo?




Não! Ninguém pensa em vingar o príncipe Asano. Uns são sinceros; quanto aos outros 47 fiéis, escondem os seus sentimentos, porque juraram calar-se até à hora da vingança. Foi uma jura que não deve ser atraiçoada, nem mesmo para Murakami Kiken. Isso porque sabem que em Edo, Kira, o chefe do protocolo, está longe de se sentir em segurança e envia espiões para a província de Iga.

Os espiões regressam dizendo a Kira Yoshihisa:

- Pode dormir em paz, senhor.

- Oishi?

- Esse? Não pára de beber, está bêbado de manhã à noite. Cheguei a desembainhar-lhe o sabre... A lâmina está enferrujada!

Kira sorri, descansado. Apesar da camada de cosméticos, a cicatriz feita pelo sabre de Asano ainda se vê, avermelhada, quase de uma orelha à outra.

- E os outros samurais? - pergunta ainda.

- São todos ronins. Dispersaram-se por todo o país, a maioria ao serviço de mercadores ou nobres.

- Realmente?

Parece que Murakami Kiken é o único que vos quer mal, senhor! Partiu para o Império do Meio, donde só deverá voltar daqui a anos...

- Está bem! - diz Kira Yoshihisa.

No entanto no fundo de si mesmo continua temeroso...

E não está errado. De facto, o fogo mantém-se vivo debaixo das cinzas. E continuará latente vários meses à custa de grandes sacrifícios por parte dos 47 ronins.

Um deles recusa certo dia bater-se, embora tivesse sido ofendido. Recusa porque se arrisca a morrer durante um duelo contra um guerreiro muito hábil, e o juramento feito proíbe-o de morrer tão cedo.

Um outro vende a sua casa prejudicando a mulher e o filho, porque precisa de comprar armas para outros companheiros, demasiado pobres para as comprar.

Outro ainda abandona a noiva que ama, persuadido de que a vingança correrá mal e não quer torná-la infeliz. Faz-se passar por um ladrão para que a jovem o esqueça.

Diz-se que a mãe de outro samurai do príncipe Asano se apunhalara a fim de não ser um peso para o filho, cuja missão secreta adivinha...

No entanto, a maior parte das famílias e amigos dos 47 samurais, nobres, habituados às leis da honra, adeptos do bushido, não os compreendem. Grande número de mulheres, filhos e amigos sentem vergonha e desprezo por eles, esquecendo o dever sagrado!




Mas os 47 suportam todas as ofensas, assim como o próprio Oishi, o bravo cavaleiro, que bebe como uma esponja e arde interiormente de raiva contida.

Isso até ao dia em que se torna claro que Kira Yoshihisa abandona a anterior inquietação e já não há nenhum espião pago por ele em toda a região.

Disfarçados de saltimbancos, de tocadores de biwa [alaúde], os samurais vão-se dirigindo a Edo, verificam que a guarda do grande chefe do protocolo se tornou menos numerosa... Habilmente, informam-se sobre os movimentos e hábitos de Kira, a sua forma de viver, e sobre a sua casa na cidade. É aí, fora do palácio, que eles projectam abatê-lo.

O ataque realiza-se numa noite de Dezembro de 1702, precisamente a 14.

A residência de Kira fica na margem de um rio, perto de uma grande ponte de madeira, no meio das outras habitações de notáveis, num bairro quase deserto.

Compõe-se de um conjunto de edifícios de madeira, com pesadas portas cuidadosamente fechadas.

Neva. As barcas atingem, silenciosamente, a margem. Comandados por Oishi, os ronins desembarcam de capacetes e armaduras, trazendo todos o non, sinal distintivo do clã de Asano. Além das armas, trazem escadas e um pesado aríete. Alguns atravessam a ponte como sombras.

Estão todos os 47 fiéis, avançando para os edifícios, em passo acelerado. Os defensores de Kira encontram-se no fundo de uma ruela que eles alcançam rapidamente.

- As escadas! - ordena Oishi Kuranosuke.













Imediatamente as escadas são encostadas e os samurais marinham até ao cimo do muro. Oishi sorri de puro contentamento.

- O aríete!

Avançam 12 dos mais robustos samurais trazendo aos ombros a pesada arma de madeira com a extremidade ferrada... Um estrondo tremendo abala todo o quarteirão. Como a porta resistisse, as pancadas do aríete sucedem-se ininterruptamente.

Os 12 guardas que vigiam Kira irrompem no pátio interior de armas na mão. As cordas dos arcos são estendidas e as setas assobiam.

- Benzai! [avante!]

A porta de entrada acaba de ceder. O grupo dos samurais precipita-se no interior, lançando um grito de guerra. Os guardas de Kira, aqueles que não haviam sido trespassados pelas setas, são desbaratados num abrir e fechar de olhos. Apenas se ouve um raro entrechocar de aço contra aço. A batalha pouco dura.

- Kira! Onde está Kira?

Os samurais gritam ainda mais alto, apavorando criadas e criados desarmados. Uma mulher aponta um esconso utilizado para arrecadar a roupa suja. Fora aí que se refugiara o mestre-de-cerimónias, lívido de pavor...

Os fiéis de Asano retiraram-no do esconderijo.

- Tragam os seus sabres! - ordena Oishi.





Mas Kira atira-se ao chão, geme, chora, implora piedade, recusa bater-se. Um novo silvo...

- Foi feita justiça! - diz Oishi.

Lá fora, os servos das casas vizinhas continuam em armas em frente das portas, mas evitam intervir nesse caso de honra.

Um dos 47 samurais monta a cavalo e parte a galope: tinha sido encarregado de prevenir a família do príncipe Asano de que este fora vingado. Os outros samurais dirigem-se para as barcas e descem lentamente o rio até ao templo de Sengaku-ji, onde está enterrado o seu senhor.

Aí, em procissão solene, depositam sobre o túmulo do príncipe o sabre que matara Kira e uma nota a relatar que fora feita vingança.

Depois, vão-se entregar como prisioneiros à polícia do xógum. O seu processo irá durar mais de um ano. A população de Edo aclama-os sempre que tem oportunidade e grande número de samurais vem vitoriá-los. O próprio xógum sente admiração por eles. No entanto, condena-os à morte pelo hara-kiri, uma morte honrosa como a do seu senhor.

São apenas 46, porque o xógum não quis condenar o 47.º ronim, o que fora prevenir a família do príncipe.

Esse viverá até à idade de 90 anos antes de ser enterrado no templo de Sengaku-ji, junto dos seus companheiros.

Mas, para falar verdade, há hoje 48 túmulos no templo, pois também aí depositaram Murakami Kiken, o samurai que partira para a China, desesperado. E isso porque, no seu regresso, logo que soube da vingança, sentiu-se tão culpado por ter apodado de cobardes os seus companheiros que quis partilhar da sua morte fazendo hara-kiri.

É esta a lenda dos 47 ronins fiéis, uma lenda que, ainda hoje, todos os japoneses sabem de cor... (in ob. cit., pp. 95-99).


'Campas' de Asano Nagaroni e dos 47 ronins no Templo Sengaku-ji (Tóquio).



Seppuku cometido por Asano Nagaroni (Templo Kisshoji, Osaka).





47 Ronin (2013)


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