domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Japão dos Tokugawa

Escrito por Kenneth Henshall











«Em Takamagahara (a Planíce do Alto Céu), nasceram algumas divindades. Abaixo dela redemoinha uma massa líquida. Duas das divindades, Izanagi ("Aquele Que Convida") e Izanami ("Aquela Que Convida"), são enviadas para transformar este líquido em terra. Izanagi mergulha a sua lança no líquido e as gotas que caem coagulam, formando a ilha de Onogoro (Ilha "Autocoagulante"). As duas divindades descem para a povoar.

É criada uma numerosa descendência de divindades, não apenas por nascimento vaginal, mas também a partir de outras partes do corpo e mesmo das matérias que este expele. O Deus do Fogo é, infelizmente, uma das divindades nascidas pela vagina e Izanami morre queimada quando dá à luz.

O seu marido, Izanagi, vai a Yomi, a Terra dos Mortos, para tentar trazê-la de regresso à Terra dos Vivos. Contudo, ela fica envergonhada e zangada quando Izanagi vê o seu corpo cheio de larvas e expulsa-o de Yomi. Quando se banha num rio para lavar a contaminação dos mortos, saem divindades da sua roupa, dos olhos e do nariz. Entre elas estão a deusa solar Amaterasu ("Luz do Céu") e o deus das tempestades e do mar Susano-o ("Homem Selvagem").

Izanagi envia Amaterasu a Takamagahara para governar os céus, enquanto a Susano-o é confiado o mar para governar. Porém, o teimoso Susano-o desobedece ao pai, sendo por ele banido.


Amaterasu



Antes de se dirigir para o exílio, Susano-o visita a sua irmã Amaterasu em Takamagahara. Por iniciativa dele, têm vários filhos, mas discutem acerva do que o motivou. Susano-o atormenta a irmã, destruindo os limites dos seus campos de arroz, espalhando excrementos nas paredes do seu palácio e atirando um pónei esfolado pelo telhado do alpendre do tear. Amaterasu foge para uma gruta, mergulhando o universo nas trevas.

As outras divindades tentam atraí-la para fora. Penduram um espelho e um colar de jóias numa árvore e, depois, uma das deusas dança sensualmente, exibindo a sua nudez e fazendo rir ruidosamente as outras divindades. Intrigada com os risos, Amaterasu espreita para fora da gruta, vê as jóias e o espelho e vai olhá-los de perto. As divindades apanham-na e fecham a entrada da gruta com uma pedra. Susano-o é, então, obrigado a cumprir a pena de banimento.

Dirige-se a Izumo (Prefeitura de Shimane), onde tem várias aventuras. Numa ocasião, mata um monstro que devorava crianças. Numa das oito caudas deste encontra uma espada com que mais tarde presenteia a irmã Amaterasu, em sinal de arrependimento.

A espada, o espelho e as jóias são ainda hoje as insígnias imperiais do Japão.

Atribui-se a Okuninushi, o filho de Susano-o, ter pacificado a terra selvagem. Sendo um herói, é vítima de vários actos de traição dos seus irmãos invejosos e até do seu pai. Matam-no diversas vezes, mas regressa sempre à vida.

Os filhos de Okuninushi concordam com o pedido de Amaterasu para que os descendentes dela governem a terra. Jimmu, o seu tetraneto, torna-se o primeiro imperador do Japão.









Os mitos do Japão foram registados pela primeira vez no século VII, aparecendo como Kojiki (Registo das Coisas Antigas) em 712, e Nihongi ou Nihon Shoki (Crónica[s] do Japão), em 720. Foram iniciados pelo imperador Temmu (r. 673-686), que pretendia legitimar a supremacia da família imperial, atribuindo-lhe origem divina.

Para tal objectivo, é curioso que não seja feita distinção real entre divindade e ser mortal em termos de comportamento, de moral ou de criação. Para além de algumas referências inexplicadas a misteriosos aborígenes, parece que as pessoas dos mitos são descendentes terrestres de deuses ou de semideuses, o que significa que quase todos os Japoneses podem alegar ascendência divina. Pelo menos, a família imperial pôde afirmar ser descendente da divindade suprema, Amaterasu, e não do deus caído Susano-o.

As crónicas não têm, obviamente, credibilidade como fonte de factos históricos. Apesar disso, para o observador prudente continuam a ser um instrumento valioso para compreender o passado remoto do Japão».

Kenneth Henshall («História do Japão»).


«Após séculos de guerra, o Japão conheceu, a partir do século XVII, uma longa era de unidade nacional, de paz e de estabilidade, tornada possível pelo reforço do regime feudal - em que o feudo ocupa uma posição determinante permitindo fixar os postos - e a instauração de um governo autoritário, centralizador e burocrático. A obra de Ieyasu foi imensa, em todos os aspectos. Não somente unificou e legislou de modo a tornar impossível qualquer rebelião, como também reformou as instituições e desenvolveu a economia e o comércio reatando as relações com a China. Simultaneamente reforça o poder dos bushi e codifica o seu papel e os seus comportamentos: o Buke shohatto (Leis das casas militares), uma das bases do futuro bushido. Os shoguns seguintes (Hiderata, Iemitsu, Tsunayoshi, etc.) adoptam uma política menos audaciosa que a de Ieyasu, fecham o país aos estrangeiros, à excepção dos Chineses e dos Holandeses que podem entrar no porto de Nagasaki (ilha de Dejima) e optam por uma política anticristã. O poder do shogun aumentou em detrimento do dos samurai de categoria inferior e dos daimio que sofreram um certo empobrecimento. A expansão das cidades e a progressão dos chonin (comerciantes) e dos shokunin (artesãos), aliada ao desenvolvimento económico, enfraqueceram o poder da casta guerreira, sem no entanto lhe fazer perder a primeira classe na escala social. Os seus membros tornaram-se administradores e consumidores. Mas foram também os promotores do florescimento do artesanato, do comércio e de uma cultura requintada, contribuindo para o nascimento do moderno Estado japonês, que deveria, a seu tempo, ser-lhes fatal. Apesar destas transformações, a sociedade, muito hierarquizada, assenta ainda sobre quatro ordens funcionais. Os bushi (7% da população), no cume da pirâmide social e enquadrando o povo. Usam o daishio (par de sabres), reservado unicamente aos guerreiros depois de Hideyoshi (1588) e um nome. A posição de cada um na estrutura vassálica é em função da classe e da quantidade de alqueires de arroz (koku) produzidos ou recebidos. É preciso antes citar os daimio, depois os hatamoto (ao pé do estandarte); os go kenin (nobres da Casa shogunal); os to zama (senhores longínquos), daimio de velha cepa descendentes dos fiéis de Takauji; os baishin, ante-vassalos dos shogun e, à margem, os Kuge (nobres da Corte).


Tokugawa Ieyasu





O samurai, que não é mais do que um título, designa o detentor de um feudo. Qualquer bushi tem direito de cobrança (tori) sobre o produto das colheitas, nomeadamente do arroz. Abaixo encontram-se os ronin (homens flutuantes), vassalos sem senhor; os ashigaru e os chugen, simples guerreiros de baixa condição aos quais é recusado o título de samurai. As outras ordens: os camponeses (honbyakusho, nago e fudai, 83% da produção), os artesãos e mercadores (em conjunto, 6% da população). É a confirmação dos shinokosho, as quatro grandes ordens da sociedade organizada rigidamente e favorecendo a paz interna. Além destas ordens, é necessário citar os eta e os hinin (não humanos), votados às tarefas degradantes. A partir do século XVIII, a decadência do Bakufu [a tenda do quartel-general de um chefe militar em campanha, e depois a residência do chefe da guarda imperial] torna-se irreversível. O enfraquecimento da casta guerreira, a pressão das potências estrangeiras, sobretudo anglo-saxónicas (comodoro Perry), desejosas de ver aberto o mercado nipónico, as revoltas esporádicas, mas sangrentas dos camponeses e a agitação dos partidários de uma restauração do poder imperial acabaram com o Bakufu cujas tropas foram vencidas em Kioto em 1864. O shogun Yoshinobu oferece então a sua demissão em 1865 e estabelece-se um governo provisório. Em 1867, o Bakufu de Edo é abolido, enquanto que o Tenno Mutsuhito toma pessoalmente o poder e ocidentaliza o Japão. Nos anos seguintes vêm o desmantelamento das especificidades feudais do país, ao mesmo tempo que um exército recrutado e a abolição dos privilégios seculares dos samurai. Depois de 700 anos de poder militar, o poder civil recuperava a sua "legitimidade", inaugurando a era Meiji (governo iluminado)».

Bernard Marillier («Samurai»).



Agostinho da Silva


«É curioso que Agostinho da Silva houvesse dito que os portugueses, contribuindo indirectamente para a reunificação do Japão, tivessem lançado os japoneses na senda do triunfo mecânico, técnico e industrial. Curioso, porque o Período Tokugawa, que vai de 1600 a 1868, foi o "Período do País Fechado", conforme nos indica a expressão sakoku jidai. Período no qual, convém lembrar, quase todos os ocidentais tinham sido expulsos em 1639, o que revela, por si mesmo, um país fortemente controlado pelo xogunato.

Em todo o caso, este período, após três séculos de intensas e sangrentas guerras feudais, é o que vai permitir, num ambiente de paz e estabilidade, o desenvolvimento de todas as vias marciais  culturais. Temos, assim, a formalização da via guerreira numa expressão harmoniosa e espiritual do corpo, da mente e do espírito, precursora do que viria a ser o Budo, bem como a reformulação estratégica e religiosa do código dos samurais, o Bushido, por então representado quer na história dos Quarenta e Sete Ronins, quer nas descrições hoje populares do Hagakure, escritas por  Yamada Soko, ou no Go Rin No Sho, atribuído a Miyamoto Musashi. É neste período, fechado às potências ocidentais, que emerge no Japão uma tradição espiritual extraordinária, simbolizada no sabre mítico que a todas as coisas dá, não a morte, mas a vida ao mesmo e ao outro, ao protagonista e ao antagonista, ao amigo como ao inimigo. Uma tradição que consolida, por esse modo, uma mestria espiritual em que o indivíduo, abandonando o ego, passa a situar-se num círculo de amplitude ilimitada, onde cada ponto que se queira visualizar se pode converter no centro do universo.

Vejamos anda que os japoneses, ao contrário dos ocidentais, só entraram na "Idade Moderna" em 1868, que para eles corresponde ao Período Meiji e vai até 1912. Desde então, com o regresso dos diabos estrangeiros, é que o Japão irá rapidamente mergulhar, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, na corrida pelo triunfo técnico e industrial. E com isso viria subjacente aquele espírito militar que Agostinho da Silva muito bem vira num povo que, entrando para a "modernidade" pela mão dos portugueses, talvez não a tivesse devidamente compreendido a ponto de mais tarde poder avaliar a vontade de poder de nações perigosamente industrializadas».

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa»).





«Num Japão que fora dilacerado ao longo de séculos por guerras infindáveis entre senhores feudais, a época em que Musashi viveu correspondeu à transição para um período de relativa acalmia, marcado pela unificação do império e pela gradual perda de importância dos samurais, os nobres guerreiros que dominavam a arte da espada. A introdução das armas de fogo pelos navegadores portugueses em meados do século XVI e a constituição de novos exércitos que dispensavam os samurais contribuíram para a decadência desta classe guerreira. No entanto, a tradição com raízes no kenjutsu, a verdadeira arte da espada, persistiu até aos nossos dias, transformando-se no kendo. Nesta última prática, as armas usadas mortalmente pelos samurais - a espada longa e curta, a lança, a alabarda, o bastão de madeira e até o leque metálico - foram substituídas pela espada de bambu utilizada nos treinos e, por fim, reservada para competições desportivas».

Introdução de Luís Serrão (in Miyamoto Musashi, «O Livro dos Cinco Anéis»).


«Quem desejar sinceramente aprender o meu caminho da estratégia obedecerá aos preceitos seguintes:

1. Pensar com rectidão e verdade.

2. Seguir o caminho através da prática.

3. Familiarizar-se com todas as artes.

4. Conhecer os caminhos das várias profissões.

5. Distinguir vantagens e inconvenientes nos assuntos mundanos.

6. Desenvolver a compreensão intuitiva de todas as coisas.

7. Perceber aquilo que não é óbvio.

8. Prestar atenção aos pormenores.

9. Não fazer coisa alguma que seja inútil».

Miyamoto Musashi («O Livro dos Cinco Anéis»).



Miyamoto Musashi ataca Denshichiro Yoshioka


Musashi vs. Gion Toji






Monumento a Miyamoto Musashi no Parque Iwato-no-sato, Nishi-ku, Kumamoto, Japão.


«Segundo as palavras de um poema Zenrin:


Os gansos selvagens não se reflectem intencionalmente;

A água não forma o propósito de lhes receber a imagem.


Assim, a vida sem um fim em vista é o tema constante da arte Zen em todos os seus géneros, exprimindo o próprio estado interior do artista não indo para parte alguma num momento sem tempo. Todos os homens têm, ocasionalmente, tais momentos, e é precisamente então que apreendem essas vivas imagens do mundo, que tanto brilho lançam sobre vagos trechos de memórias que permanecem - o cheiro a folhas queimadas, na neblina de uma manhã de Outono; um bando de pombos, iluminados pelo Sol, voando contra o fundo negro de uma trovoada; o som de uma cascata invisível, ao cair do dia; o grito solitário de um pássaro desconhecido, nas profundezas de uma floresta. Na arte do Zen, cada paisagem, cada traço de bambus ao vento ou de rochedos solitários, é um eco de tais momentos.

Quando a disposição do momento é de solidão, chama-se sabi. Quando o artista se sente deprimido ou triste e, nesse peculiar vazio de sentimento, tem um vislumbre de qualquer coisa vulgar e despretensiosa no seu incrível "tal-qual" (ismo), a disposição chama-se wabi. Quando o momento evoca uma tristeza mais intensa e nostálgica, associada ao Outono e ao desvanecer do mundo, é chamada aware. E quando a visão é a percepção súbita de algo de misterioso e estranho, sugerindo um desconhecido que nunca se poderá descobrir, a disposição chama-se yugen. Estas palavras japonesas, praticamente intraduzíveis, indicam as quatro disposições básicas de furyu, isto é, da atmosfera geral do "sabor" Zen, na sua percepção dos momentos sem finalidade da vida.

Inspirado nos mestres Sung, o Japão produziu uma grande linha de soberbos pintores sumi, cujas obras se encontram entre os mais apreciados tesouros artísticos do país - Muso Kokushi (1275-1351), Cho Densu (f. 1431), Shubun (1414-1465), Soga Jasoku (f. 1483), Sesshu (1421-1506), Miyamoto Musashi (1582-1645), e muitos outros. Existem ainda pinturas notáveis da autoria dos grandes monges Zen Hakuin e Sengai (1750-1837), revelando este último uma intuição para a pintura abstracta tão surpreendentemente próximo do século XX, que é fácil compreender o interesse de um grande número de pintores contemporâneos pelo Zen».

Alan W. Watts («O Budismo Zen»).



Pintado por Miyamoto Musashi


«Partindo precisamente da ideia que, quando se toma como critério o homem e a mulher absolutos, se encontra geralmente um homem na mulher e uma mulher no homem, Weininger sustenta que se verifica a atracção entre um tal homem e uma tal mulher quando ao adicionarmos parcelas de masculinidade e de feminilidade presentes nos dois se obtém como resultado o homem e a mulher absolutos. O homem que, por exemplo, tivesse três quartos de homem (yang) e um quarto de mulher (yin), encontraria o seu complemento sexual natural numa mulher que tivesse um quarto de homem (yang) e três quartos de mulher (yin) e sentir-se-ia irresistivelmente atraído, pois ao seu contacto desenvolver-se-ia uma intensa força magnética, justamente porque a soma das parcelas restabeleceria na sua totalidade o homem e a mulher absolutos. São as tais parcelas que, na realidade, se encontram na base da polaridade primordial dos sexos e que provocam a primeira faísca do eros: pode afirmar-se que são elas que se amam e procuram unir-se em cada homem e em cada mulher. Daqui deriva a verdade máxima de que todas as mulheres amam um só homem e todos os homens amam uma só mulher. A fórmula proposta por Weininger fixa, assim, um dos condicionalismos essenciais à escolha sexual quando entram em causa as camadas mais profundas do ser.

(...) a referência às "formas sexuais intermédias", a um processo incompleto de sexualização ou a uma regressão, não explica todas as variedades de homossexualidade. Existiram, com efeito, homossexuais masculinos que não eram efeminados nas "formas intermédias", e igualmente homens de armas, indivíduos decididamente viris no aspecto e no comportamento, homens potentes que tinham ou podiam ter tido à sua disposição as mais belas mulheres. Esta homossexualidade não é fácil de explicar e tem-se o direito de, neste caso, falar de desvio e perversão, de um "vício" relacionado eventualmente com uma moda. Não se compreende, com efeito, o que pode impelir sexualmente um homem verdadeiramente homem para um indivíduo do mesmo sexo. No caso da experiência do amor heterossexual, se é quase inexistente o material adequado para o que acontece no acume do orgasmo, mais ainda isso acontece quanto ao acto sexual entre pederastas.

(...) Também não é convincente a motivação frequentemente encontrada em países como a Turquia e o Japão de que a homossexualidade dá um sentimento de potência...».

Julius Evola («A Metafísica do Sexo»).











Ver aqui




Ver cenas 12, e 4




Lucy Liu (O-Ren Ishii).


Ver cenas 1 e 2











O Japão dos Tokugawa 

Os ocidentais constituíram sempre um problema. Não estavam familiarizados com os costumes japoneses, comportavam-se de maneira inesperada e, muitas vezes, desafiadoramente, falavam línguas estranhas que eram difíceis de acompanhar e tinham ideias estranhas acerca de um poder divino que transcendia quer os imperadores, quer os xóguns. O seu comércio era benéfico, decerto, possuíam uma tecnologia que era útil, mas eram uma ameaça demasiado grande para a paz de espírito do xogunato. Em particular, o desafio que o seu Deus inflexível representava para a autoridade do xógum era um problema importante, não tanto em termos teológicos, mas sim políticos.

Se os ocidentais tivessem reservado as suas crenças cristãs para si mesmos e não tivessem tentado afirmar a autoridade do seu Deus, e apenas do seu Deus, com pregações e juízos morais, talvez tivessem tido melhor acolhimento. O Japão era (e continua a ser) uma terra de tolerância religiosa. As campanhas de Nobunaga contra as instituições budistas tinham fundamento político, e não religioso, e o mesmo se deve dizer dos actos de Hideyoshi e, mais tarde, dos Tokugawa contra os cristãos.

Embora os Japoneses não se preocupassem muito com a distinção teológica, os católicos eram considerados uma ameaça maior do que os protestantes recém-chegados (1). Isto pode ter acontecido ou porque os católicos constituíam a maioria dos cristãos no Japão - e praticamente todos os Japoneses convertidos - ou porque se exteriorizavam mais e eram mais assertivos na expressão da sua fé do que os protestantes. O mais provável, todavia, é que ficasse a dever-se em grande parte ao facto de o xogunato estar a par da violenta construção de impérios levada a cabo pelos países católicos no Novo Mundo. O próprio Colombo era proveniente de uma nação católica. Para além disso, a Igreja Católica tinha até o seu próprio Estado, o Vaticano, com papas que se envolviam frequentemente em política. Tudo isto dava a entender que a Igreja Católica não era apenas espiritual.

Em todo o caso, a Cristandade acabou por simbolizar a presença e a ameaça do Ocidente ao poder e à autoridade do xogunato. Tornou-se num ponto central da acção do xogunato contra essa ameaça. Esta acção não tinha por objecto apenas os ocidentais, mas também os Japoneses que se tinham convertido ao cristianismo. Tal como os castigos que eram então aplicados, foi cruel, sobretudo com os cristãos japoneses.




As perseguições intensificaram-se durante o início de seiscentos. A muitos suspeitos de serem cristãos era pedido que demonstrassem a sua rejeição do cristianismo pisando uma placa de cobre que continha a imagem de um crucifixo ou de um símbolo cristão semelhante. Alguns permaneceram firmes na sua fé, apesar das torturas a que os submeteram para que renunciassem a ela serem horríveis, como, por exemplo, arrancar-lhes os olhos ou torturar os filhos à frente dos pais (2). As execuções também eram horríveis, envolvendo crucificações, decapitações com uma serra ou serem atirados para piscinas de água termal a ferver.

O culminar da perseguição foi o massacre de Shimabara, perto de Nagasáqui, em 1638, no qual um total de 35 000 pessoas - homens, mulheres e crianças, na sua maioria cristãos - foram mortas pelas forças do xogunato. Não se tratava apenas de uma perseguição aos cristãos, mas também de reprimir uma revolta provocada, em parte, pelo descontentamento face aos impostos e por um dáimio impopular (3). No entanto, as causas tornaram-se convenientemente confusas e o massacre terminou, de facto, com a presença visível do cristianismo no Japão (embora "o cristianismo clandestino" continuasse a ser professado por alguns Japoneses, especialmente na região de Nagasáqui). A partir de 1640, todos os Japoneses eram obrigados a registar-se em templos budistas para provar que não eram cristãos, uma prática que também ajudou a vigiar o conjunto da população.

Os missionários cristãos tinham sido expulsos em 1614, mas foi permitido aos mercadores ocidentais que continuassem a visitar e até a residir no país. Gradualmente, todavia, o xogunato chegou à conclusão de que as desvantagens do comércio externo superavam as vantagens. Não era apenas uma preocupação constante em termos de segurança nacional, mas a consciência de uma ameaça indirecta aos Tokugawa, devido a enriquecimento de alguns dáimios que participavam no comércio externo. Mesmo nessa fase tão inicial, o xogunato tinha também uma vontade, com motivações económicas, de proteger os comerciantes do país de uma concorrência excessiva (4).

Em 1639, todos os ocidentais tinham sido expulsos ou tinham saído voluntariamente, à excepção dos Holandeses, que eram aceites apenas na pequena ilha de Deshima, no porto de Nagasáqui (5). A par dos Chineses e dos Coreanos, foram os únicos estrangeiros a quem foi formalmente permitido comerciar com o Japão, retirando-se este, efectivamente, do contacto com o mundo nos dois séculos seguintes. Esta foi a época que mais tarde foi descrita como sakoku jidai ou "Período do País Fechado".

Navio holandês

Não se tratou apenas de impedir os estrangeiros de entrar no Japão, porque o xogunato parece ter rejeitado quase toda a forma de "estrangeirismo". A partir de 1635, com muito poucas excepções, não era permitido aos Japoneses viajar para o estrangeiro e os que estavam fora nessa altura, que totalizavam dezenas de milhares, a maioria do Sudeste da Ásia, foram proibidos de regressar, sob pena de morte (6). A construção de navios de grande porte, capazes de viagens oceânicas, também foi proibida nesta fase. Os navios autorizados a fazer tráfego costeiro tinham de ostentar um selo do xogunato (7).

A chegada dos ocidentais tinha contribuído para gerar uma consciência nacional no Japão (8), reforçada pelo processo de unificação que se seguiu pouco depois. Foi durante o século XVII que as Ilhas Ryukyu, ao sul, e Hokkaido, ao norte, começaram a ser integradas na nação, dando-lhe uma identidade geopolítica muito próxima da do actual Japão. Os planisférios desse tempo, que eram outro exemplo de adaptação a partir da China, mostravam o Japão, e não aquele país, como centro do mundo (9). Era evidente que, pelo menos por enquanto, o Japão dos Tokugawa não estava interessado num envolvimento demasiado grande com as nações inferiores que pertenciam ao seu mundo. Um país fechado era também um país mais seguro para os seus governantes Tokugawa.


O Samurai e a ética

Como o país entrava numa fase de estabilidade e de paz e até sem qualquer ameaça estrangeira real, os guerreiros passaram a ser supérfluos. Havia umas quantas revoltas de camponeses para dominar, a honra dos seus senhores para defender e algum policiamento a fazer, mas havia pouco trabalho para os verdadeiros guerreiros. Em vez disso, tornaram-se burocratas e administradores. As suas guerras passaram a ser meras guerras de papel.

Estes homens, que constituíam a classe superior da ordem social, estavam, na realidade, muito embaraçados com a sua vida quase paradisíaca. Aproveitavam a mínima oportunidade para acções reais para provar o seu valor e chegavam a extremos absurdos para justificar a sua existência. Um resultado bastante irónico foi ter sido durante esta era de samurais supérfluos que emergiram algumas das expressões mais evidentes do ideal samurai, como o bushido ("o caminho do guerreiro").

Ver aqui


Toshiro Mifune (ver aqui).



























Ver aqui


Charles Bronson, Alain Delon, Úrsula Andress e Toshiro Mifune (Red Sun, 1971).












Ver aqui



Todo o japonês conhece a história dos Quarenta e Sete Ronin. Um ronin (vagabundo) era um samurai sem senhor, por ter sido despedido ou por este ter sido executado ou despromovido. Havia alguns no Japão dos Tokugawa que deambulavam pelo país, causando perturbações aos aldeãos e inquietando as autoridades. Os quarenta e sete em questão, no entanto, são vistos como a encarnação das virtudes do samurai.

Em 1701, o seu senhor, Asano Naganori (1665-1701), de Ako, em Harima (Prefeitura de Hyogo), tinha sido insultado por Kira Yoshinaka (1641-1703), o chefe do protocolo do xógum. Asano tinha puxado da sua espada no castelo do xógum, uma ofensa capital. Teve de fazer seppuku e o seu domínio foi confiscado à família. Quarenta e sete dos seus samurais servidores, agora sem senhor, juraram vingar a sua morte, tirando a vida a Kira. Ocultaram o seu intento durante dois anos, fingindo levar uma vida dissoluta, e depois atacaram e mataram Kira num momento em que estava sem guarda, colocando a sua cabeça no túmulo do seu senhor.

Embora o seu comportamento fosse considerado exemplar do bushido, foi-lhes ordenado, todavia, que se suicidassem, por terem tomado a lei nas suas próprias mãos. Apesar das discussões entre eruditos e da controvérsia pública, suicidaram-se num seppuku colectivo. Os seus túmulos, no Templo Sengakuji, em Tóquio, são hoje uma grande atracção turística.

Entre as descrições do bushido que ainda hoje são populares contam-se Hagakure (Na Sombra das Folhas), de 1716, e Gorin no Sho (Os Cinco Anéis), de 1643, aproximadamente. Porém, uma das mais interessantes foi escrita por Yamaga Soko (1622-1685), que também era um ronin, Foi também um dos mestres de um dos Quarenta e Sete Ronin.





Ver aqui


Niten-Ichi-Ryu Kenjutsu








Yamaga foi talvez o primeiro a ver o bushido como uma filosofia geral (10). Nos seus vários escritos salientou aspectos dele, como a lealdade e a autodisciplina, bem como a importância de aprender e praticar as artes e do desenvolvimento perfeito do homem no seu todo. Saber qual é o seu papel na vida e como comportar-se adequadamente com os outros é por ele particularmente acentuado. Mas também assumiu um papel de defesa com a sua justificação da aparente falta de utilidade prática do samurai na sociedade desse tempo. Yamaga argumentou que a liberdade do samurai relativamente a uma possível ocupação permitia que se concentrasse no adequado aperfeiçoamento da sua virtude moral e, portanto, servir de modelo para o resto da sociedade, disciplinando os imperfeitos, se necessário fosse (11):

«O samurai passa sem a tarefa do agricultor, do artesão e do mercador e limita-se a praticar este Caminho. Se alguém pertencente às três classes do povo comum transgredir estes princípios morais, o samurai pune-o sumariamente e, portanto, promove na terra adequados princípios morais».

Há aqui uma referência à moralidade, mas é uma moralidade diferente da sua concepção ocidental. Ainda não é uma questão de bem e de mal, mas de fazer o que é esperado, no contexto das relações sociais e da ordem. Sai-se da linha e é-se sumariamente punido.

A explicação de Yamaga tem também uma forte componente confuciana. Os confucionistas estavam muito preocupados em saber qual era o seu lugar, em respeitar relações, respeitar a ordem e cumprir o seu dever. Por causa destes valores, o confucionismo foi recuperado e promovido pelo xogunato dos Tokugawa. Em certos aspectos, porém, foi modificado para se adaptar ao Japão. Por exemplo, o confucionismo chinês permitia que se mostrasse lealdade à consciência, mas, no Japão, esta ficou reduzida à lealdade ao superior de cada um. Foi nomeado um conselheiro confucionista para o xógum e fundada uma escola superior confucionista em Edo com o o apoio do xogunato. Este período produziu muitos eruditos budistas notáveis, como Hayashi Razan (1583-1657), Yamazaki Ansai (1618-1682), Arai Hakuseki (1657-1727) e Ogyu Sorai (1666-1728).


Confúcio (551 - 479 a. C.)


Uma influência confucionista importante deu-se no modo de ver as diferenças entre os sexos e, por extensão, as relações sexuais. Textos como o Onna Daigaku (Grande Ensinamento para Mulheres), de 1716, pregavam as "cinco doenças da mulher", a indocilidade, o descontentamento, a calúnia, a inveja e a parvoíce, e colocavam-na numa posição bastante inferior à dos homens. O Onna Daigaku afirmava que (12) "não há dúvida nenhuma de que estas cinco doenças se encontram em sete ou oito de cada dez mulheres e é delas que resulta a inferioridade das mulheres em relação aos homens". Este conceito depreciativo das mulheres era uma das razões por que tantos samurais, se não mesmo a maioria, preferiam as relações homossexuais (13). Aliás, de acordo com a filosofia chinesa do yin e do yang que por vezes era seguida, uma associação demasiado próximo com o yin feminino poderia enfraquecer gravemente o yang masculino.

Os confucionistas e o xogunato não aprovavam realmente a homossexualidade, mas fechavam os olhos. O xogunato estava particularmente predisposto a ser tolerante, porque, no caso do Japão, a homossexualidade masculina reflectia invariavelmente o estatuto social, com o parceiro activo a ser sempre o de uma classe mais alta (14).

O confucionismo nem sempre foi benéfico para o xogunato. Uma das suas ironias era que encorajava ideais de mérito e aprendizagem. Estes eram permitidos pelos conceitos de hierarquia e de estatuto, em vigor na China, que tornavam possível alguma mobilidade com base neles, e em séculos posteriores também foram parcialmente aceites no Japão. No entanto, a promoção do mérito e da aprendizagem não contribuía necessariamente de forma positiva para os interesses do xogunato dos Tokugawa e para a sua política de ortodoxia e estabilidade inquestionáveis. Com o tempo, surgiram nalguns quadrantes atitudes bastante mais críticas e questionaram o que o xogunato pretendia, embora tal não deva ser exagerado, porque a obediência era ainda a norma.

Os filhos dos samurais e dos nobres eram ensinados em casa ou em escolas especiais dos domínios. Os mercadores ricos criaram escolas privadas. Progressivamente, aos filhos das outras classes foi dada possibilidade de estudar em pequenas escolas conhecidas como terakoya (literalmente, "edifício para criança do templo"). Estas eram originalmente erigidas sob os auspícios dos templos das aldeias, mas rapidamente se difundiram nas cidades. O ensino era geralmente muito barato ou grátis, uma vez que o professor era frequentemente um sacerdote que ensinava por benevolência ou um samurai em busca de um sentimento de autoestima. Em resultado desta educação alargada, a taxa de alfabetização no final do período foi estimada em 45% para os homens e 15% para as mulheres, o que dá uma média de 30%. Supõe-se que esta fosse a mais elevada taxa mundial, nesta altura. Deu origem a uma tendência duradoura, pois ainda hoje o Japão possui a taxa de alfabetização mais elevada do mundo, com 99%.

Outra ironia confucionista derivava de o seu encorajamento da obediência ao governante levantar inevitavelmente a questão de quem era exactamente o governante. Não passou despercebido a uma população progressivamente mais instruída que, na China, o governante era o imperador. Tal significava que o xógum podia ser visto como um usurpador.


As dúvidas acerca do xogunato intensificaram-se a partir do século XVIII com o renascimento do xintoísmo e de textos originais que lhe estavam associados, como o Kojiki. O xintoísmo e o Kojiki eram vistos como algo puramente japonês e tornaram-se parte do kokugaku ("ensino nacional"). De certa maneira, este renascimento era uma continuação da emergência da consciência nacional, estimulada pela lembrança ocasional do mundo exterior, devido a náufragos ou navios estrangeiros em busca de autorizações de aprovisionamento ou algo parecido. Era também expressão do sentimento de que o Japão era excessivamente chinês. Os letrados kokugaku incluíam figuras como Motoori Norinaga (1730-1801) e Hirata Atsutane (1776-1843). Motoori publicou uma versão anotada do Kojiki e era abertamente crítico de aspectos de influência chinesa. Hirata  argumentou a favor da superioridade do xintoísmo e do Japão e seria em parte inspirador do nacionalismo e do imperialismo posteriores.

A idealização do caminho do samurai, o renascimento do confucionismo, a expansão do ensino e a emergência do nacionalismo tiveram todos a sua função na formação do Japão moderno. Mas também faziam parte dele o conformismo e a ortodoxia que constituía a sua base (in «História do Japão», Edições 70, 2004, pp. 84-90).


Notas:

(1) Vd. Massarella 90, pp. 359-363.

(2) Vd., por exemplo, os diversos relatos contemporâneos que constam do cap. 22 ("Persecution") de Cooper 65, pp. 383-398 (especialmente a p. 390).

(3) Elison 83 b.

(4) Massarella 90, 343-344.

(5) Encontra-se em Boxer 68 uma descrição detalhada dos Holandeses e da sua base em Deshima. Continuar o comércio com o Japão poderia ter sido um privilégio concedido a outra nação não predominantemente católica, a Inglaterra, se o xogunato não tivesse sobrestimado a dimensão do catolicismo inglês, tendo talvez sido deliberadamente enganado pelos Holandeses, desejosos de garantir para si o exclusivo dos privilégios comerciais. Vd.. Massarella 90, pp. 359-363.


(6) As excepções incluíam algumas relações com a Coreia, estando sediada em Pusan uma wakan (Casa do Japão). Havia um número surpreendentemente elevado de Japoneses fora do país à data desta proibição. Os comerciantes (e os piratas) japoneses operavam tão longe como o Oceano Índico e o Mar de Arafura, perto do Norte da Austrália. Também havia muitos japoneses a residir de facto no estrangeiro. Havia uma colónia de cerca de 3000 Japoneses nas Filipinas, havia muitos no Sião (Tailândia) e a residir tão longe quanto Seram (no sudeste da actual Indonésia). Estas colónias acabaram por ser absorvidas pelas comunidades locais. Vd. Bolitho 93, p. 69, para mais exemplos da dimensão da actividade dos Japoneses fora do seu país, nesta época, e também Massarella 90, sobretudo as pp. 135-136. Vd. também Frei 91, sobretudo as pp. 14-15. Frei estima que, entre 1604 e 1635, cerca de 100 000 Japoneses deixaram as praias do Japão, 10 000 dos quais podem ter ficado a residir permanentemente no exterior.

(7) O selo era popularmente chamado maru (círculo), o qual é ainda hoje usado como terminação do nome dos navios japoneses (analogamente às siglas inglesas SS e HMS).

(8) Moris-Suzuki 96, p. 83.

(9) Ibidem.

(10) Muitos outros se lhe seguiram, inclusive na contemporaneidade. Um dos mais conhecidos foi Nitobe Inazo (1862-1933), que tentou explicar o Japão ao mundo no início do século XX e considerou o bushido a característica nacional essencial. Vd. a sua obra de 1905 Bushido: The Soul of Japan.

(11) Vd. a tradução de Shido (O Caminho do Samurai) em Tsunoda et al. 64, vol. I, pp. 389-391 e, sobretudo, a p. 390.

(12) Crê-se que o texto se baseia, postumamente, num manuscripto do erudito confucionista Kaibara Ekiken, ou Ekken (1631-1714). Vd. a tradução parcelar em Paulson 76, p. 11.

(13) Leupp 95, p. 3. Vd. também as pp. 47-55 para uma análise detalhada da homossexualidade entre os samurais.

(14) Leupp 95, p. 95. Vd. também a p. 20 sobre a tolerância confucionista da homossexualidade.




Nenhum comentário:

Postar um comentário