segunda-feira, 26 de maio de 2014

Maçonaria e Igreja Católica (iii)

Escrito por Marie-France Etchegoin Frédéric Lenoir







«(...) A Igreja fundada por Jesus Cristo liga-se a Ele por meio da sucessão apostólica e episcopal. O colégio apostólico, com São Pedro à frente, prolonga-se ao longo dos séculos no colégio episcopal com o Papa, sucessor de São Pedro na sua cátedra e no seu episcopado de Roma. Cristo encarregou os Apóstolos e os seus sucessores na Igreja da Revelação divina, que eles difundiram no seu duplo leito: Sagrada Escritura e Sagrada Tradição. Uma e outra "constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus confiado à Igreja". "Derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim [...] e transmitem integralmente a palavra de Deus" (Vaticano II, Dei Verbum, n.º 9). A Revelação cristã terminou no momento da morte do último apóstolo. Desde então, até aos nossos dias, houve revelações privadas de Jesus Cristo, mas essas não obrigam ninguém em consciência, a não ser talvez aquele que as recebe.

A revelação de Jesus Cristo não é "esotérica", um termo transcrito do grego que significa "interior, reservado, oculto" e é antónimo de "exotérico", que significa "exterior, público". Historicamente, o carácter esotérico-ocultista (gnosticismo, maçonaria, etc.) opôs-se frontalmente ao cristianismo. Nos ensinamentos de Jesus e no próprio Jesus, nada há de oculto. Pregou o Sermão da Montanha, súmula e essência da sua doutrina, aos seus discípulos e à "multidão", a todos (cf. Mt 5, 1). Ordenou inclusivamente aos seus discípulos: "O que vos digo às escuras [a vós, a sós] dizei-o à luz do dia [em público]; e o que escutais ao ouvido [em segredo], proclamai-o sobre os terraços" (Mt 10, 27). Deseja e manda que a sua mensagem chegue a toda a Terra e a todos os tempos (cf. Mc 16, 15).

(...) Os gnósticos (século II e ss.), na sua vertente maioritária, a cristã, erigiram o seu sistema filosófico-religioso e a sua gnose na verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Mas essa era, de facto, uma "Igreja marginal (ou, se se preferir, paralela à institucional ou hierárquica) que, além disso, se adaptava inteiramente ao ambiente sociocultural em mudança. Para se ser "Apóstolo de Jesus Cristo" era preciso preencher duas condições objectivas, a saber: ter sido "testemunha da ressurreição" e"ter convivido com o Senhor desde o seu baptismo" no Jordão "até à sua ascensão" (Ac 1, 21-22). O gnosticismo prescinde destas duas condições e da hierarquia, substituindo-as por uma experiência religiosa peculiar meramente subjectiva. Os gnósticos partem de uma "iluminação interior" que remeterá para uma "visão" e uma "revelação" situadas entre a ressurreição do Senhor e a sua ascensão e mesmo depois desta experiência intramental, semelhante à iluminação búdica e budista. Por ser esotérica, a revelação gnóstica é secreta e transmitida oral e unicamente aos iniciados.
















Aquele que vê ou escuta Cristo no seu interior (visões e locuções em transe ou estado alterado da consciência) é dotado da mesma ou de maior autoridade do que os Apóstolos e os seus sucessores, os bispos. A gnose de qualquer época (gnóstica, cátara, maçónica, da New Age) rejeita o ministério apostólico enquanto episcopado garantido pela sucessão ininterrupta de bispos a partir de um Apóstolo (sucessão material) e transmissora do mesmo conteúdo doutrinal, etc. (sucessão formal), ou seja, a concepção que a Igreja sempre teve e tem do ministério apostólico e episcopal. A gnose de todos os tempos classifica-o, depreciativamente, como jurídico, legalista, petrino e masculino. Considera superior a tradição gnóstica, que é esotérica, pneumática ou espiritual, joanina (de João Evangelista), feminina (encabeçada por Maria Madalena).

A concepção esotérica e subjectiva da "revelação" terá decorrido subterraneamente e, por vezes, surgido à superfície. Todas as suas exteriorizações se precipitaram no subjectivismo. Para comprová-lo, basta conhecer o catarismo medieval, o gnosticismo moderno, a maçonaria, a New Age. Note-se que tanto a Nova Era como o gnosticismo moderno receberam da maçonaria, ou pelo menos de alguns mações, o impulso inicial que lhes deu origem e, em parte, os configurou. Jules-Benoît Doinel (1842-1902), o iniciador do gnosticismo moderno, tornou-se mação em 1884, Venerável Mestre da sua loja (1892), Membro do Conselho da Ordem (1890-1893), arquivista do Grande Oriente de França e bibliotecário do museu maçónico e bispo (gnóstico) em 1890. Ainda não está esclarecido o mistério do seu abandono da maçonaria em 1894 e o seu regresso à Igreja Católica em 1895. A igreja gnóstica, fundada por Doinel em 1889, é a raiz a partir da qual brotaram, directa ou indirectamente, as inúmeras seitas gnósticas do nosso tempo, incluindo as pelo menos 46 implantadas nos países de língua espanhola.

Segundo a gnose e a sua acentuada subjectividade, não se alcança o divino através de uma autoridade alheia ou exterior a si próprio (hierarquia, clero), nem de uma fé objectivada numa fórmula ("Credo"), nem de um conjunto de textos declaradamente inspirados do exterior (Cânone). O divino alcança-se a partir do interior de si mesmo e encontra-se no interior de cada um. O "Caminho" não é Jesus Cristo (cf. Jo 14, 5-6), mas sim "a luz que existe e que ilumina dentro de cada um" (Evang. Tom. 38-24; Dialog Salvat 142, 78), também chamada por vezes "deus interior" pela maçonaria e pela Nova Era. No fundo, a consciência individual é que estaria em contacto com a consciência universal ou com o Cristo Cósmico».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).


















O ESPÍRITO DE ABERTURA DO CONCÍLIO VATICANO II

Demonizada ao longo de todo o século XIX pela Igreja Católica, a maçonaria vai continuar a sê-lo durante a primeira metade do século XX. Mas desde então produziram-se evoluções notáveis. A 15 de Dezembro de 1985, a Igreja Católica de França associa-se a outras Igrejas cristãs e a cinco obediências maçónicas francesas num «Apelo comum à Fraternidade» que defende os valores da tolerância e do acolhimento, ao mesmo tempo que denuncia a exclusão e o racismo de que são vítimas as populações imigradas. Uma associação deste cariz teria sido impossível ainda trinta anos antes, tanto para a instituição católica como para a maior parte das obediências maçónicas. Só que, entretanto, o Concílio Vaticano II, em meados dos anos 1960, havia marcado a abertura da Igreja à modernidade (reconhecimento da liberdade religiosa, promoção do diálogo inter-religiões e com não-crentes) à qual aspirava a maioria dos católicos no mundo.

Lenta, mas seguramente, esta abertura também se manifestou no que respeita à maçonaria. São estabelecidos diálogos cada vez mais oficiais sobretudo em França mas também na Alemanha. Em Maio de 1980, a Conferência Episcopal Alemã publica uma declaração onde se faz o balanço de vários anos de debates mantidos com os maçons das Grandes Lojas Unidas da Alemanha. Este documento reconhece vários pontos de convergência entre o cristianismo e a maçonaria: o empenhamento caritativo e humanitário, a promoção dos direitos do homem, a importância dos símbolos e dos ritos. Todavia, os bispos alemães dão igualmente relevo aos pontos de incompatibilidade fundamental entre cristianismo e maçonaria, designadamente entre a iniciação maçónica e a iniciação cristã. Consequentemente, o episcopado alemão considera que a dupla pertença deve continuar a ser proibida aos católicos.


A TOMADA DE POSIÇÃO DO CARDEAL RATZINGER

Ser maçon e católico continua, por conseguinte, a ser incompatível. É-se uma coisa ou é-se outra, assevera, em Novembro de 1983, o cardeal Ratzinger, à data prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. «Permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja. Os fiéis que se inscrevem nas associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão», escreve o futuro Papa Bento XVI. E na mesma declaração explicita que não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se com um juízo que implique derrogação deste parecer.
















Ver aqui




"The Meditation Room" nas Nações Unidas (ver aqui).







Esta chamada à ordem é sentida como um verdadeiro duche frio pelos católicos maçons e por aqueles que, de um e outro lado, pensavam estar solucionada uma condenação ainda tão global da maçonaria. Não sem razão, aliás, tendo em consideração a evolução da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II, evolução essa que acabava de ser inscrita no novo Código de Direito Canónico (código jurídico da Igreja Católica) publicado em Janeiro de 1983 que substituía o famoso artigo 2335 do anterior Código de Direito Canónico datado de 1917.

Este último havia confirmado a excomunhão de facto, enunciada ao longo de todo o século XIX, «daqueles que se inscrevem numa seita maçónica ou em qualquer outra associação do mesmo género que maquina contra a Igreja e os poderes civis legítimos...». Ora, em Janeiro de 1983, já não se trata de «seita maçónica». O artigo 1374 do novo Código de Direito Canónico estipula simplesmente que «quem se inscreve em alguma associação que maquina contra a Igreja seja punido com justa pena; e quem promove ou dirige uma dessas associações seja punido com interdito». Com base nisto, há quem se regozije com aquilo que consideram ser uma mudança significativa da Igreja romana, enquanto outros ficam inquietos, sobretudo nas fileiras dos católicos conservadores. Foi, aliás, devido a um pedido de esclarecimento que o cardeal Ratzinger decidiu responder com a sua declaração de Novembro de 1983. Segundo ele, se não é feita menção mais explícita às associações maçónicas é porque o novo Código de Direito Canónico não as referiu, assim como não referiu as outras «porque elas estão evidentemente incluídas em categorias mais latas». Excepto que ele não especifica nem as associações nem as categorias em questão, tornando assim o seu esclarecimento algo confuso...


OS PIONEIROS DA APROXIMAÇÃO

Mas é sem dúvida difícil ser mais claro para um cardeal que acaba de empreender uma tomada de posição doutrinal e encontra grandes resistências por parte dos católicos mais empenhados na abertura da sua Igreja. Uma abertura que, na sua base, as igrejas locais, começou bem antes do Concílio Vaticano II, incluindo naquilo que se refere à maçonaria, nomeadamente em França.

No fim da Primeira Guerra Mundial, o padre Berthelot, um jesuíta, entabula um diálogo regular com a Grande Loja de França, em particular com o seu bibliotecário, Albert Lantoine, que publica em 1937 uma Carta ao Sumo Pontífice na qual realça que a maçonaria e a Igreja Católica não são incompatíveis por natureza mas complementares. Este texto é recebido com frieza de ambos os lados...




O assunto é retomado após a Segunda Guerra Mundial por outro jesuíta, o padre Riquet, que estabelecera numerosos laços de amizade nos círculos maçónicos. Em 1961, em Laval, ele organiza uma conferência sobre o ateísmo perante a loja Volney do Grande Oriente, presidida por Marius Lepage. O tema deu que falar, sobretudo na maçonaria. Foram muitos os membros do Grande Oriente que aí viram uma tentativa de recuperação da maçonaria pela Igreja Católica. Era uma coisa inaudita! Foi Marius Lepage que sofreu as consequências. Suspenso pelas autoridades do Grande Oriente, rapidamente adere à Grande Loja Nacional Francesa, com a qual o padre Riquet prosseguirá doravante o diálogo. Ele considera que os seus debates deveriam ser mais frutíferos com a chamada maçonaria «regular» que enuncia, nos seus princípios fundamentais, a crença em Deus, na revelação e na imortalidade da alma.

Em Dezembro de 1962, durante o Concílio do Vaticano II em Roma, o monsenhor Méndez Arceo, à data bispo Cuernavaca (México) advogara uma flexibilização da posição da Igreja Católica. A pena de excomunhão aplicada aos católicos que pertencessem à maçonaria impedia que muitos maçons, explicava, integrassem a Igreja Católica e ao mesmo tempo impedia-os de trabalhar em prol da «eliminação de tudo o que possa ser anti-cristão e anti-católico na maçonaria», além de que essa dimensão, prosseguia o bispo mexicano, não fazia parte da maçonaria original. Mas este discurso não teve efeito imediato.

É apenas em 1972 que a Congregação para a Doutrina da Fé oferece uma interpretação menos globalizante do famoso artigo 2335 do Código de Direito Canónico de 1917. Uma vez que este último pune com a excomunhão aqueles que pertencem a uma «seita maçónica» que «maquina contra a Igreja e os poderes civis legítimos», considera-se legítimo que os católicos possam pertencer a uma loja maçónica que não maquine nem contra uma nem contra os outros. Os episcopados locais (nomeadamente os Estados Unidos e a Inglaterra) orientam então neste sentido a sua acção pastoral para com os católicos maçons. Estes, como por exemplo os da Grande Loja Nacional Francesa ou da Grande Loja de França, consideram, por seu lado, que já não estão abrangidos por uma excomunhão que é de facto abandonada na sua dimensão global.





Todavia, em Fevereiro de 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé recorda que as conferências episcopais não possuem autoridade para «se pronunciarem publicamente com um juízo geral» sobre a natureza da maçonaria. É uma maneira de deixar bem claro que o reconhecimento da dupla pertença depende unicamente de um exame caso a caso. Mas não deixa por isso de significar que a pertença de um católico a uma loja maçónica possa ser reconhecida como legítima pelas autoridades eclesiásticas locais. Ora a declaração de 1983, assinada pelo cardeal Ratzinger, diz totalmente o contrário quando afirma, sem fazer distinções, que «os fiéis que se inscrevem nas associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão. E acrescentado a isto que as autoridades locais não têm qualquer poder de derrogação neste campo...

A porta que se havia entreaberto parecia agora ter sido brutalmente fechada. Mas será que o foi na realidade? Vale a pena colocar a questão porque esta declaração deu azo a interpretações divergentes. A maior parte dos católicos maçons, satisfeitos com os progressos anteriores, não lhe atribuíram grande importância. No próprio interior da instituição católica, subtis distinções relativas ao estatuto de autoridade dos diferentes textos introduzem também alguma confusão. Assim, para alguns especialistas em direito canónico, um católico que pertença a um ramo maçónico que não pode ser considerado anti-cristão não poderá ser privado do acesso à Santa Comunhão. Em França um prelado, monsenhor Jean-Charles Thomas, à data bispo de Versalhes, vê na declaração de 1983 uma advertência contra um risco de pecado grave ao qual nenhum católico maçon lhe parece estar sistematicamente exposto. Inicia com a Grande Loja de França um diálogo que tornará público em meados dos anos 1990, não sem que as autoridades romanas se esforcem por dissuadi-lo disso. O cardeal Ratzinger terá a última palavra.

Desde então, nenhum bispo se arriscou a enveredar por este caminho. Nem, aliás, em qualquer outro lado do mundo católico, pelo menos publicamente. Deixar de condenar de uma maneira geral os católicos maçons é uma coisa. Ir mais longe, no sentido de uma forma de reconhecimento da dupla pertença já é outra. Porque os princípios fundamentais da maçonaria «foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja», recordava o cardeal Ratzinger em Novembro de 1983. Sendo estes princípios comuns à maçonaria no seu conjunto, não existe nada de um ponto de vista doutrinal que esteja no «plano da fé e das suas exigências morais» a distinguir as obediências consoante a «sua atitude declarada para com a Igreja». Era isto que estava especificado num artigo não assinado publicado em Fevereiro de 1985 no Osservatore Romano, o orgão de imprensa do Vaticano. Em consequência disto, é preciso compreender que a pertença de um católico à maçonaria continua a ser, em todos os casos, inconciliável com a fé cristã, pelo menos tal como a Igreja romana a concebe.





ORTODOXOS E PROTESTANTES

A Igreja Católica é a única Igreja cristã que proíbe tão rigorosamente os seus fiéis de pertencerem à maçonaria. No entanto, esta nem sempre foi bem aceite nos outros ramos do cristianismo. Em 1972, a Igreja Ortodoxa Grega renovou a condenação da maçonaria que o seu Santo Sínodo havia pronunciado em 1933 por considerá-la uma religião pagã. Mas o cristianismo ortodoxo não é unívoco, uma vez que cada uma das Igrejas conserva a sua autonomia. Falecido em 1972, um dos seus mais latos dignitário, Monsenhor Atenágoras, que restaurara, enquanto patriarca ecuménico da ortodoxia, o diálogo com a Igreja romana e com o Papa Paulo VI, era ele próprio maçon e titular do 33º grau do Rito Escocês. À data arcebispo do patriarcado ecuménico na América do Norte, fora iniciado nos Estados Unidos.

Historicamente, este não era um caso excepcional no cristianismo ortodoxo. Antes da revolução bolchevique de 1917 na Rússia, inúmeros prelados e papas da Igreja Ortodoxa Russsa eram iniciados na maçonaria. Esta foi seguidamente proibida durante a era comunista. Desde o colapso do bloco soviético, o clero da Igreja Ortodoxa e os nacionalistas russos, que se sentem geralmente próximos, mostram-se muito hostis para com a maçonaria, aliás pouco presente. A mesma hostilidade é encontrada no conjunto da área balcânica ortodoxa. De forma geral, religiosos e nacionalistas vêem a maçonaria como uma força anti-religiosa, de origem estrangeira e uma ameaça para a coesão nacional. Grande parte do clero ortodoxo grego comunga das mesmas ideias. Em contrapartida, a situação é diferente nas Igrejas Ortodoxas da diáspora. Na Europa Ocidental e nos Estados Unidos elas não se pronunciam nem a favor nem contra a maçonaria. Esta tem, aliás, nas suas fileiras um certo número de cristãos ortodoxos que não incorrem por isso na ira da sua Igreja.

Foi isto que sucedeu durante muito tempo no universo protestante. Mas no século XX trouxe algumas evoluções importantes, se bem bastante negativas para a maçonaria que, no entanto, era considerada a filha natural do protestantismo. De facto, protestantes e maçons encontravam-se geralmente lado a lado, em particular no mundo latino, para defender a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, valores modernos aos quais a Igreja Católica só se converteu em meados da década de 1960 com o Concílio Vaticano II. Nas Igrejas históricas (luterana e reformista) a maçonaria nunca foi, e continua a não ser condenada. E o mesmo se aplica à dupla pertença, que muitos dos seus fiéis e pastores não escondem. Já é o contrário que acontece nas Igrejas evangélicas surgidas no século XX, para as quais a maçonaria é incompatível com a fé cristã.










Muito ligadas à liberdade de consciência, as Igrejas baptistas não têm uma posição oficial sobre o assunto. Porém, os baptistas conservadores manifestam uma desconfiança pronunciada em relação à maçonaria. E a esfera baptista sente-se bastante reticente no que diz respeito à dupla pertença, o que não impede a maçonaria anglo-saxónica de ter baptistas nas suas fileiras. Do lado das Igrejas metodistas, a sua Conferência de Bradford tinha, em 1927, desaconselhado aos seus fiéis a frequência da maçonaria. A corrente anti-maçónica ressurgiu em força na década de 1980. Os metodistas ingleses, que contavam mesmo assim perto de mil maçons nas suas fileiras, também adoptaram em 1985 uma série de Instruções sobre a maçonaria em que desaconselhavam com firmeza a que se aderisse. Não se tratava aqui de uma interdição estrita da dupla pertença, mas os fiéis preocupados apressaram-se a criar uma associação de metodistas maçons... Os metodismo continua, todavia, a ser um caso à parte na medida em que o fundador deste ramo dissidente da Igreja Anglicana, John Wesley (1703-1791), era hostil aos maçons, que suspeitava de corromperem a religião cristã.

Dois séculos depois, a Igreja de Inglaterra seguiu de algum modo o seu exemplo. Em Maio de 1987, o seu Sínodo geral adoptou as recomendações de um relatório que se traduziam na incompatibilidade entre o cristianismo e a maçonaria. Esta é, inclusivamente, aí classificada de herética e alguns de seus ritos de blasfematórios. Denunciam ainda o seu elitismo masculino (que ainda se mantém na maçonaria anglo-saxónica), contrário à universalidade da revelação divina transmitida pelo cristianismo. Como resultado, os fiéis viram-se convidados a pôr em questão a sua pertença à maçonaria. Uma diferença relevante entre esta Igreja e a Igreja Católica é o facto de não ter sido formalmente pronunciada qualquer interdição. O que não significa que os laços históricos entre a Igreja de Inglaterra e a maçonaria não tenham, por causa disto, ficado extremamente tensos. Doravante, a dupla pertença, que havia sido quase uma tradição durante mais de dois séculos, é rejeitada por três quartos do seu clero. Enquanto ainda em meados do século XX se contavam umas duas dezenas de bispos anglicanos maçons, actualmente não resta nenhum (ibidem, pp. 328-339).










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