sexta-feira, 23 de maio de 2014

Maçonaria e Igreja Católica (ii)

Escrito por Marie-France Etchegoin e Frédéric Lenoir




«Já o Papa Leão XIII, na sua encíclica Humanum Genus (20 de Abril de 1884), aconselhava os bispos o seguinte: "Que o vosso primeiro acto seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é" (n.º 31). A lei do segredo maçónico permite sempre levantar a interrogação e a dúvida sobre o que é obrigatoriamente silenciado. Na maçonaria operativa, havia a obrigação de guardar segredo, mas tratava-se de um segredo profissional, relacionado com a arte tectónica, que variava segundo as várias escolas. Não se podia revelar as técnicas. Uma coisa lógica, tal como agora não se revelam as descobertas técnico-científicas em determinadas circunstâncias ou durante um processo de investigação. Em contrapartida, na maçonaria especulativa o segredo refere-se aos ritos, àquilo que se fala nas lojas, aos nomes dos outros membros, etc. É certo que as lojas se vão abrindo cada vez mais, se bem que muito mais nos Estados Unidos do que na Europa e incomparavelmente mais do que em Espanha. Mas ainda não promoveram um open day (dia de portas abertas).

(...) Houve épocas e estratos sociais em que o nome não era apenas uma etiqueta que permitia identificar facilmente as coisas e os seres nomeados. Ele era concebido como algo inerente ao nomeado, representativo e identificado com ele. Daí que fosse único e intransferível e, frequentemente, secreto e conhecido apenas de quem estava numa união muito peculiar com o nomeado, como por exemplo os pais relativamente aos filhos e os esposos entre sí.

Daí o significado da imposição dos nomes aos animais por Adão (Gn. 2, 19-20). E também o alcance do adágio latino: nomen omen - "o nome, augúrio" do futuro ou do que virá a ser o nomeado. O nome que alguém escolhe para substituir o seu nome próprio não é omen ou "augúrio" do que essa pessoa realmente será a partir desse momento. Mas afigura-se um reflexo do que ela considera ideal, um catalisador das suas aspirações e um eco da sua verdadeira identidade interior. O mação de Palencia entrevistado pelo jornalista Julio César Izquierdo Pascua no livro Conversaciones con Um Masón chama-se "Hamlet". Evidentemente que esse não é o seu nome próprio, nem provavelmente um simples pseudónimo destinado a ocultar a sua identidade e a evitar a sua identificação. Tão-pouco se trata do seu "nome de guerra", ou seja, um nome que seja utilizado na maçonaria em tempo de perseguição ou de perigo para evitar a identificação dos seus membros. Parece ser um "nome iniciático" ou "simbólico", ou seja, um nome escolhido no rito de iniciação maçónico. O iniciado nas religiões mistéricas da Antiguidade, e também na maçonaria, é um homem renascido após a sua morte iniciática ou simbólica, representada de maneira muito realista no terceiro grau, o de Mestre. É lógico, portanto, que depois disso receba um novo nome que o identifique não com o passado, mas sim com o devir desejado ou o objecto das suas aspirações. A julgar pelos nomes iniciáticos que conheço, os mações escolhem nomes de personagens históricas (Cid, Sócrates), literários (Hamlet, Édipo, Quixote), fluviais (Danúbio, Volga), etc. "Zen" era o nome simbólico ou iniciático de Ferrer Guardia, "Giordano Bruno" o de Alejandro Lerroux, "Justicia" o de Diego Martínez Barrio, "Ebro" o de Marcelino Domingo, "Paz" o de Sagasta e "Washington" o de Prim.









George Washington Masonic Memorial












Réplica da Arca da Aliança no George Washington Masonic Memorial



George Mason University Campus



























O nome iniciático é de uso exclusivamente interno, quer dizer, utiliza-se nas lojas e nos seus documentos. Compreende-se que sirva como disfarce ou modo de ocultação de quem assim se chama, ou seja, é uma peça do segredo maçónico. Quando se lida com documentos internos da maçonaria, lê-se uma série de nomes iniciáticos e não é possível esconder uma interrogação. Pergunta-se "quem será este mação?", mas fica-se sem resposta a não ser que se consiga descobrir o nome próprio correspondente. Além disso, o nome iniciático impede de conhecer a presença e a influência dos mações na vida sociopolítica e cultural. O nome iniciático está a cair em desuso na maçonaria regular, mas continua em pleno vigor na irregular».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).


«Durante o século XVIII, mas sobretudo no XIX e na primeira metade do XX, a maçonaria fez correr rios de tinta, tanto a favor, como contra a instituição. A literatura filomaçónica e anti-maçónica consolidaram-se como géneros próprios e defrontantes.

Neste contexto, teve lugar, nos finais do século XIX, um dos episódios mais turvos da história desse combate intelectual. Trata-se do caso de Leo Taxil, de que, seguidamente, daremos um resumo sumário, mas ainda assim, algo extenso; o suficiente para tirarmos umas interessantes conclusões que ainda hoje têm aplicação prática. A informação provém, na sua maior parte, de Alec Mellor, irmão maçon, e de Rosario Esposito, padre paulino, destacado filomaçon, que recentemente foi admitido da irmandade.

Gabriel Jogand era um jornalista anti-clerical que costumava escudar-se por tráz do pseudónimo Leo Taxil. Depois de uma educação em colégios católicos, durante a qual perdeu a fé, transformou-se num anti-cristão fanático e, depois de numerosas burlas e mudanças de morada, estabeleceu-se em Paris, onde se dedicou a escrever pornografia para publicações periódicas desse género desprezível que, já então, estava na moda. Fundou uma revista chamada O Anti-clerical. Em 1879 - tinha nascido em Marselha em 1853 - um panfleto de Taxil, intitulado Abaixo com o Clero, alcançou uma tiragem de 130.000 exemplares, e provocou um escândalo tal, que o autor foi levado a tribunal por violar uma lei de 1819 que proibia ultrajar uma religião reconhecida pelo Estado. Os membros do jurado eram, na sua maioria, anti-clericais, pelo que Jogand-Taxil foi absolvido.




Em Setembro de 1881, teve lugar uma assembleia-geral da Associação dos Livres-Pensadores, na qual um grupo dissidente, liderado por Taxil, decidiu afastar-se para fundar a Liga Anti-Clerical, que teve um êxito imediato. Esta associação publicou um libelo infame, com o título Os Amores Secretos do Papa Pio IX, que apareceu atribuído a um inexistente "Volpi".

Taxil era um agitador profissional. Embarcou numa série de conferências sobre "os crimes da Inquisição". Durante estas conferências, mostrava instrumentos de tortura que dizia ter comprado, no norte de França, aos herdeiros dum carrasco. Claro que se tratava de artefactos inventados pelo próprio Taxil. "Um pouco de óxido contribuía para dar àqueles instrumentos uma aparência antiga», comenta Alec Mellor.

As embrulhadas de Taxil pareciam não ter limites. Fazendo-se passar por secretário do Arcebispado de Paris, e assinando apenas como "Jean-Pierre", escreveu ao director do jornal de orientação radical revolucionária La Bataille. Na carta, dizia que era obrigado a manter o anonimato, mas oferecia-se para fornecer informações sobre as fraquezas da Igreja. A partir de então, a sua imaginação excedeu-se vezes sem conta. La Bataille chegou a publicar que os cónegos de Paris se tinham reunido numa capela subterrânea com o objectivo de preparar os instrumentos de tortura para começar a repressão se o Conde de Chambord conseguisse restaurar a monarquia legítima em França.

Nos começos de 1881, Jogand foi iniciado, no grau de aprendiz, na loja Le Temple de L'Honneur. Em Outubro do mesmo ano, um tribunal de justiça maçónica expulsou definitivamente Jogand da Ordem, segundo parece, por causa de um acumular de burlas e por uma conduta imoral (segundo Mellor, devido à publicação de um libelo contra Sua Santidade Pio IX).

Mas nem por isso Taxil abandonou o seu empenho anti-clerical, nem os seus excessos, chegando inclusivamente, nas conferências sobre a Inquisição, um dos seus temas favoritos, a exibir bonecos de cera, de tamanho natural, que representavam pessoas torturadas... cobertas de sangue, para provocar a estupefacção do auditório.

Em 20 de Abril de 1884, Leão XIII publicou a sua encíclica Humanum Genus, contra a Franco-Maçonaria. Taxil arranjou um exemplar e leu-o. Mas entretanto, o agitador, com os seus desvarios, tinha granjeado muitos inimigos no seu próprio campo anti-clerical. Além disso, como refere Mellor, o mercado das publicações anti-clericais e pornográficas, saturado até à medula, entrava num período menos pujante.


Leo Taxil


Acabou por fingir uma conversão estrondosa à fé católica para zombar dos católicos, e de passagem, ganhar a vida mais facilmente explorando a credibilidade destes. Chegou a escrever à sua própria família dando conta de como tinha recebido a graça fulminante e atribuindo esse dom à intercessão de Joana d'Arc, cujo processo de canonização estava nessa época a ser reavivado, e que seria concluído anos mais tarde, com a sua beatificação por São Pio X, e a sua canonização por Sua Santidade Bento XVI. Jogand-Taxil tinha uma tia, Josephine Jogand, que tinha abraçado a vida religiosa, movida pela ânsia de obter a conversão do sobrinho. Em religião, adoptou o nome de "Maria das Sete Dores". "Chorou de alegria, e com ela toda a família", comenta Mellor.

Taxil escreveu uma falsa abjuração dos seus erros passados e "fez" uns exercícios espirituais com um director espiritual jesuíta, tendo, no final, simulado uma confissão geral em que teve o atrevimento de se acusar a si mesmo de um assassinato.

Depois, tornou pública a sua "conversão". Suportou, sem desfazer o seu jogo, uma chuva de cartas duríssimas, nas quais os seus antigos companheiros anti-cristãos lhe atiravam à cara a sua traição. A Liga Anti-Clerical, para cuja fundação ele tinha contribuído, convocou uma reunião extraordinária para 27 de Julho de 1885. O único ponto da ordem do dia era a expulsão de Leo Taxil das suas fileiras. Tendo, ele próprio, recebido também o convite com a ordem do dia, por ainda ser membro do grupo, decidiu assistir. Desceu para a cave onde a assembleia acabava de começar. No meio de um grande burburinho, foi decidida a sua expulsão por ser traidor à Liga e vira-casaca. Então, Taxil pediu a palavra e disse aos seus companheiros: "Tendes o direito de me chamar vira-casaca, pois há quatro dias enviei uma carta de abjuração. De forma explícita, rejeito todos os meus escritos contrários à religião, mas peço que risqueis a palavra traidor, que não tem aplicação ao meu caso. Naquilo que hoje estou a fazer, não há sombra de traição". E concluiu: "Agora, não compreendeis o que acabo de dizer, mas entendê-lo-eis mais adiante".

A partir de então, Taxil iniciou uma nova carreira. A imprensa católica internacional fez-se eco da conversão do antigo grande inimigo da Igreja. O Núncio do Papa em Paris concedeu-lhe uma audiência durante a qual Taxil aproveitou para lhe confiar que estava a considerar ingressar na Cartuxa. O Núncio, comovido, argumentava que devia permanecer no mundo e assegurou-lhe que ia escrever ao Papa para que lhe concedesse uma audiência.

Começava então a "etapa apologética católica" da sua produção literária.

Em 1885, Taxil publica um livro com o título A República Mostra-se tal Como É, no qual sustentava que a separação da Igreja e do Estado tinha sido decidida nas lojas, e constituía somente um passo no percurso para a supressão total da Igreja. Neste livro, ainda não se encontra uma menção explícita à presença do Diabo nas lojas.

Em 1886, publicou um panfleto intitulado Roma será devolvida ao Papa, seguido de outro em que satirizava o Governo da República: Ali Babá e os Quarenta Ministros.

Crimes Maçónicos apareceu em 1889, e em 1890, Taxil publicou, em colaboração com o padre Paul Fesoh, O Martírio de Joana d'Arc.


Joana d'Arc




As obras destinadas aos católicos estavam a proporcionar-lhe elevados rendimentos. Retirou-se para viver perto dos Pirenéus e aí escreveu as suas Conversões Famosas, livro que recebeu o aplauso de muitos bispos.

A sua inclinação antiga para a pornografia encontrou algum alívio com A Corrupção de Fim de Século. Não podendo cultivar este género depravado de maneira explícita, aproveitou um livro aparentemente moralizador, no qual, teoricamente, insultava os vícios da sociedade do seu tempo, para entregar-se, ao longo das suas 425 páginas, a todo o tipo de descrições escabrosas, repletas de detalhes repugnantes, das práticas que tinham lugar a coberto das paredes dos bordéis. Elevaram-se vozes de eclesiásticos indignados por tais cruezas às quais Taxil "respondeu, cinicamente, que estava disposto a retirar o livro se a Sagrada Congregação do Índice o condenasse. Mas Roma leva sempre o seu tempo", escreve Mellor, e entretanto, a primeira edição esgotou-se rapidamente e preparava-se uma segunda para 1894.

Mas nessa altura, Taxil já tinha conseguido que o recebessem no Vaticano. Primeiro, encontrou-se com o Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, Secretário de Estado do Papa Leão XIII, e depois, com o Cardeal Parocchi, tendo ambos louvado o trabalho de Taxil. Segundo parece, o Cardeal Rampolla (veja-se o capítulo dedicado à maçonaria e a Igreja) felicitou-o, pois, sem ter passado de grau de aprendiz, possuía um grande conhecimento dos ritos maçónicos que, em substância, coincidia com os rituais da maçonaria que se encontravam em poder do Vaticano.

Pouco tempo depois, obtinha a ansiada audiência com Sua Santidade Leão XIII. É preciso ter em conta que a maior parte da informação, referente às trapaças de Gabriel Jogand-Leo Taxil, provem das suas próprias declarações pelo que todos os episódios privados da vida de Taxil, tanto este como os referidos anteriormente, repousam, na sua quase totalidade, sobre a palavra do falsário. De qualquer maneira, segundo o próprio Taxil, a audiência papal durou três quartos de hora (ou meia hora, segundo Mellor) e ambos falaram "muito" sobre o Diabo. Taxil ter-se-ia ajoelhado diante do Vigário de Cristo para receber a sua bênção e o Papa ter-lhe-ia dito: "Meu filho, o que queres?", ao que, Taxil, teria respondido: "Santo Padre, o meu maior desejo seria morrer a vossos pés neste instante".

"Sorrindo, Leão XIII dignou-se dizer-me que a minha vida ainda era de muita utilidade no combate pela fé". Sempre segundo Taxil, Leão XIII ter-lhe-ia confessado que tinha na sua biblioteca pessoal todos os seus livros (da fase católica, claro) e que os tinha lido na sua totalidade. "Disse que, sendo somente um aprendiz, eu tinha um grande mérito por ter compreendido que o Demónio 'estava ali'", explica Taxil.








No regresso a Paris, Taxil diz que recebeu a visita de um jesuíta, arcebispo de Port-Louis, nas Maurícias, Monsenhor Leon Meurin. Segundo Taxil, Meurin ficou totalmente convencido da existência do culto satânico na maçonaria.

Meses mais tarde, foi publicado o livro com o qual seria atingido o clímax do embuste urdido por Gabriel Jogand-Leo Taxil, O Demónio no Século XIX, com o subtítulo «Os Mistérios do Espiritualismo ou, por outras palavras, a Maçonaria Luciferina». O livro era assinado pelo Doutor Bataille, pséudonimo de um colaborador de Taxil. No livro, sustentava-se que havia três categorias de maçonaria: a das lojas, a dos mais altos graus e, mais acima, e desconhecida pelos graus inferiores, o paladismo - a maçonaria luciferina. O livro denotava a destreza para o embuste do seu autor que, enquanto excitava a imaginação dos seus leitores, deixava nas suas páginas advertências para que não se confundissem os fenómenos físicos, como as alucinações e os erros de percepção, com as genuínas manifestações satânicas. Em O Demónio do Século XIX, Taxil-Bataille denunciavam Renan como paladista, bem como o conhecido ateu inglês Charles Bradlaugh, e muitos outros anti-clericais notórios. Segundo o livro, o maçon Giuseppe Mazzini tinha organizado em Roma um Soberano e Executivo Directório Paladista, a que presidia, e que era antagonista da Santa Sé, e de forma semelhante, o franco-maçon americano do grau 33, General Albert Pike, teria formado um Directório Supremo em Charleston, na Carolina do Sul. Uma terceira organização paladista teria a sua sede em Berlim. Taxil detinha-se sobre todo o tipo de detalhes administrativos destas organizações, dando rédea solta à sua criatividade. A 28 de Fevereiro de 1884 (vinte dias antes da publicação da Encíclica Humanum Genus, contra a maçonaria), explicava aos seus leitores que, no decurso de uma reunião do Grande Triângulo dos Onze-Sete, o tecto do templo onde estavam reunidos os participantes abriu-se e, por essa abertura, desceu um demónio em chamas. Tratava-se do demónio Asmodeu que empunhava um sabre na mão direita e a cauda do leão de São Marcos na esquerda, como se se tratasse de um troféu por alguma vitória obtida contras as legiões de anjos do Senhor. Taxil também deu conta de como o General Pike costumava manter com regularidade tertúlias com um demónio especialmente enviado pelo próprio Lúcifer. Esses encontros tinham lugar todas as sextas-feiras pela tarde. Da mesma maneira, afirmava que o forte de Gibraltar tinha umas galerias subterrâneas que tinham ligação com o fogo do inferno, e mil outras loucuras mais.


General Pike



Uma invenção estava particularmente destinada a alcançar um grande sucesso: a de Diana Vaughan. Pedindo emprestado o nome de uma rapariga de carne e osso que conhecia, Taxil criou uma personagem que apresentou como uma adepta do luciferismo paladista que, desde a juventude, convivia com o demónio Asmodeu com o qual chegou a ter ajustado um casamento espiritual.

A fictícia Diana Vaughan foi iniciada no paladismo e chegou a ser mestra templária. A 8 de Abril de 1889, Lúcifer exigiu que Diana lhe fosse apresentada solenemente num santuário paladista da cidade de Charleston. Nessa cerimónia, Lúcifer assegura a Diana que pode ficar tranquila porque encarregou o demónio Asmodeu de a proteger sempre de todos os perigos. Em 1891, é nomeada Inspectora-geral do Paladismo.

Entre os católicos, têm início campanhas de oração para solicitar a salvação de Diana. A 8 de Maio de 1895, o diário católico parisiense La Croix lança uma campanha de oração para obter a sua conversão, e menos de um mês depois, a 6 de Junho, no próprio dia em que devia celebrar a cerimónia mais importante do calendário paladista, Diana converte-se à fé católica. A jovem ajoelha-se diante de uma estátua de Joana d'Arc - que ainda não tinha sido canonizada - e implora-lhe protecção contra as terríveis vinganças que podia esperar dos seus amigos companheiros luciferinos.

Diana encontra refúgio num convento de freiras. A 13 de Junho, a festa do Corpus Christi, recebe o baptismo, no qual lhe é imposto o nome de Jeanne-Marie em honra da sua protectora Joana d'Arc e da Virgem Maria.

Os leitores da imprensa católica iam seguindo, emocionados e aflitos, o desenrolar das reviravoltas na vida de Diana e as suas vicissitudes, entrando e saindo furtivamente do convento, na sua existência de fugitiva.

É comovente descrever estes detalhes e pensar no grau de retorcimento e de baixeza a que pode chegar uma inteligência mistificadora posta ao serviço do mal.

Taxil tinha percebido que esta personagem lhe podia trazer vantagens, e escudando-se na sua obrigação de zelar pela integridade e segurança da sua protegida, oferecia-se para canalizar as comunicações da imprensa, dos prelados e dos católicos do mundo inteiro que queriam felicitar a heróica convertida, dar-lhe ânimo e oferecer-lhe o seu apoio, inclusivamente, material. Desta maneira, num período em que o anti-clericalismo intensificava o seu ataque à Igreja, a personagem de Diana Vaughan converteu-se, durante algum tempo, num ícone popular dos católicos de França e de outras partes do mundo. Um ícone que sintetizava as esperanças e o sofrimento de muitas pessoas. Entre os católicos que, de boa fé, acreditaram de todo o coração na história da Menina Vaughan, encontravam-se pessoas de uma dimensão excepcional. O caso mais pungente é o da Irmã Teresa do Menino Jesus e do Santo Rosto: Santa Teresa de Lisieux. Quando a religiosa soube, por conhecidos seus, da história da desditosa Diana Vaughan, e das suas agruras, entusiasmou-se e provocou o entusiasmo da sua comunidade. Teresinha quis escrever a Diana Vaughan para felicitá-la pela sua conversão e para lhe assegurar a sua oração. Junto com a carta, a Santa juntava uma fotografia de uma representação teatral dentro do Carmelo na qual aparecia vestida de Joana d'Arc. Santa Teresinha chegou a receber uma carta autógrafa de Taxil, mas "assinada" por Diana Vaughan, em que agradecia as orações  da freira... a quem, como vemos, ainda viriam a infligir uma última humilhação.


Mas houve muitos outros casos de eclesiásticos de renome que se deixaram convencer pelas fabulosas revelações de Taxil.

Por fim, o próprio êxito da farsa, e a sua difusão internacional, acabaram por colocar em apuros o impostor que tinha urdido toda esta trama. Apesar de numerosos investigadores católicos, de autoridade indiscutível, terem acreditado nas falácias paladistas, e de outros lhes terem concedido um elevado grau de credibilidade, como o benemérito Arcebispo Meurin (de cuja boa fé, erudição e sabedoria, não pode haver dúvidas, o mesmo se dizendo dos seus numerosos e valiosos contributos para o estudo da maçonaria), houve outros que, desde o princípio, desconfiaram dessas novidades tão estrepitosas. De entre os católicos peritos em maçonaria que questionaram abertamente a veracidade de Jogand-Taxil, destaca-se o padre francês Henri Delassus, director do jornal La Semaine Religieuse de Cambrai e o jesuíta austríaco Hermann Gruber. De 26 a 30 de Setembro de 1896, teve lugar na cidade de Trento o primeiro Congresso Anti-Maçónico. Entre os presentes, encontrava-se um numeroso grupo de investigadores do mundo germânico, entre os quais tinha despertado uma fundada desconfiança sobre as afirmações taxilianas. "Era uma voz corrente que um jornal do centro da Alemanha, o Kölnische Volkszeitung, tinha já recolhido um completo dossier de documentos que demonstravam a inexistência de Diana Vaughan, e em consequência, o embuste de Taxil", explica Rosario Esposito (SMSU, p. 163). Em Roma, tinha sido constituída uma "Comissão de investigação do assunto Diana Vaughan-Leo Taxil". Este grupo - dinamizado por Monsenhor Baumgarten que contava entre os seus colaboradores com Keller, ex-maçon e redactor do jornal vienense Vaterland - instigava Taxil a fornecer provas da existência da sua personagem. Taxil, que conhecia esse movimento crescente de desconfiança, fazendo gala da sua temerária ousadia, apresentou-se no Congresso e pronunciou uma conferência. Monsenhor Baumgarten exigiu-lhe provas documentais que demonstrassem efectivamente que algum bispo católico tinha recebido a abjuração da Menina Vaughan, quem lhe tinha administrado o baptismo e onde tinha recebido a primeira comunhão. Também lhe pedia a demonstração de que as elevadas somas obtidas com a venda dos livros de memórias de Diana Vaughan se tinham destinado realmente a obras de beneficência, como ele assegurava. Taxil afirmava ter todos os documentos que lhe pediam, mas refugiava-se no suposto perigo de vingança dos maçons. "Os delegados partiram de Trento com mais que razoáveis suspeitas", conclui Esposito.

De repente, as dúvidas da imprensa católica mundial sobre o assunto começaram a tornar-se mais assíduas e prementes.

Em Abril de 1897, Leo Taxil convocou uma conferência extraordinária na Sociedade de Geografia de Paris. Ele mesmo encarregou todos os detalhes da decoração e do cenário. Esposito cita, como exemplo do grau de pormenor com que Taxil preparou a sua atoarda final, que no arquivo da casa dos jesuítas de Colónia (Alemanha) encontrou o convite pessoal que Taxil enviou ao Padre Hermann Gruber, provavelmente o mais céptico dos investigadores do affaire Diana Vaughan. O nome do jesuíta aparece escrito à mão pelo próprio Taxil, e no cartão do convite, aparece o número da fila e o lugar que o convidado devia ocupar.




Entre os convidados encontravam-se tanto maçons como prelados. O orador declarou que tudo era fruto da sua imaginação, que tinha conseguido enganar todo o mundo (o que não era exacto), desde o Papa até à última religiosa do Carmelo. No estrado, Taxil exibiu uma imagem ampliada da fotografia de Teresinha de Lisieux vestida de Joana d'Arc, a mesma fotografia que a Santa tinha enviado a "Diana Vaughan", isto é... a Leo Taxil. O impostor concluía com esta vilania doze anos de falsidade, de vida dupla, de embuste contínuo».

José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).


«(...) Precisamos que as guerras não dêem, tanto quanto possível, vantagens territoriais. Transportada, assim, a guerra para o terreno económico, as nações verão a força de nossa supremacia, e tal situação porá ambas as partes à disposição de nossos agentes internacionais, que têm milhares de olhos e que nenhuma fronteira pode deter. Então nossos direitos internacionais apagarão os direitos nacionais, no sentido próprio da expressão, governando os povos, do mesmo modo que o direito civil dos Estados regula as relações entre os seus súbditos.

Os administradores, escolhidos por nós no povo, em razão de suas aptidões servis, não serão indivíduos preparados para a administração do país. Assim, facilmente se tornarão peões de nosso jogo, nas mãos de nossos sábios e geniais conselheiros, de nossos especialistas, educados desde a infância para administrar os negócios do mundo inteiro. Sabeis que nossos especialistas reuniram as informações necessárias para administrar segundo nossos planos, tirando-as das experiências da história e do estudo de todos os acontecimentos notáveis.

Os cristãos não se guiam pela prática de observações imparciais tiradas da história, mas pela rotina teórica, incapaz de atingir qualquer resultado real...

Toda a república passa por diversas fases. A primeira compreende os primeiros dias de loucura dum cego que se atira para a direita e para a esquerda. A segunda é a demagogia, de onde nasce a anarquia; depois, vem inevitavelmente o despotismo, não um despotismo legal e franco, porém um despotismo invisível e ignorado, todavia sensível; despotismo exercido por uma organização secreta, que age com tanto menos escrúpulo quanto se acoberta por meio de diversos agentes, cuja substituição não só não a prejudica como a dispensa de gastar seus recursos, recompensando longos serviços.

Quem poderá derrubar uma força invisível? Nossa força é assim. A franco-maçonaria externa serve unicamente para cobrir nossos desígnios; o plano de acção dessa força, o lugar que lhe cabe é inteiramente ignorado do público.






(...) Para que os espíritos dos cristãos não tenham tempo de raciocinar e observar, é necessário distraí-los pela indústria e pelo comércio. Desse modo, todas as nações procurarão as suas vantagens e, lutando cada uma pelos seus interesses, não notarão o inimigo comum. Mas, para que a liberdade possa, assim, desagregar e destruir completamente a sociedade dos cristãos, é preciso fazer da especulação a base da indústria. Desta forma, nenhuma das riquezas que a indústria tirar da terra ficará nas mãos dos industriais, mas serão sorvidas pela especulação, isto é, cairão nas nossas burras.

(...) Devemos apropriar-nos de todos os instrumentos que os nossos adversários possam empregar contra nós. Devemos buscar nas subtilezas e delicadezas da língua jurídica uma justificação para o caso em que tenhamos de pronunciar sentenças que possam parecer muito ousadas e injustas, porque é mister exprimir essas sentenças em termos que tenham a aparência de ser máximas morais muito elevadas, conservando seu carácter legal. Nosso regime deve rodear-se de todas as forças da civilização, no meio das quais deverá obrar. Rodear-se-á de publicistas, jurisconsultos experientes, administradores, diplomatas, enfim, homens preparados para uma educação superior especial em escolas especiais. Esses homens  conhecerão todos os segredos da existência social, todas as linguagens formadas de letras ou de termos políticos, todos os bastidores da natureza humana, todas as cordas sensíveis que deverão tocar. Essas cordas são o feitio do espírito dos cristãos, suas tendências, seus defeitos, seus vícios e suas qualidades, suas particularidades de classe ou de condição. Fica bem entendido que esses colaboradores de génio do nosso governo não serão tomados entre os cristãos, habituados a fazer seu trabalho administrativo sem cuidar de sua utilidade. Os administradores cristãos assinam papéis sem ler; servem por interesse ou por ambição...».

Os Protocolos dos Sábios de Sião


«(...) Lisboa, 14 de Maio [de 1962] - (...) A propósito de uma notícia sobre os Açores na imprensa dos Estados Unidos, troquei rápidas impressões com Salazar. Diz: "se não houver mudança americana, não poderemos negociar; então terá de ser outro governo a fazê-lo". Exprimo a convicção de que nenhum governo português assinaria um acordo contra os interesses nacionais. Reage Salazar: "Meu caro senhor, está muito enganado. Há homens que querem ser ministros seja em que circunstâncias for, e para isso estão dispostos a assinar seja o que for, ainda que subordinem, entreguem ou vendam o país. O senhor é muito ingénuo, está muito enganado"».

Franco Nogueira («Um Político Confessa-se. Diário: 1960-1968)»).


(...) Contamos atrair todas as nações para a construção dum novo edifício fundamental, cujo plano traçámos. Eis porque precisamos, antes de tudo, fazer provisão da audácia e presença de espírito, qualidades que, na pessoa de nossos agentes, destruirão todos os obstáculos que se anteponham em nosso caminho. Quando tivermos dado o nosso golpe de Estado, diremos aos povos; "Tudo ia horrivelmente mal, todos sofreram mais do que aquilo que se pode suportar. Destruímos as causas dos vossos tormentos, as nacionalidades, as fronteiras, a diversidade da moeda...».

Os Protocolos dos Sábios de Sião








«(...) Com o abandono do padrão-ouro perdeu-se aquela simplicidade que fazia do dinheiro um instrumento da justiça; com o abandono da correspondência entre a quantidade da moeda e a quantidade das mercadorias, perdeu-se o que fazia do dinheiro um instrumento da liberdade; com a paridade flexível, perde-se agora a projecção na economia da existência das pátrias.

Perde-se a projecção na economia da existência das pátrias, dizemos, e perde-se a imediata evidência que a economia dá a cada um da necessidade dessa existência. Trata-se de uma realidade essencial mas a que os teorizadores da ciência económica, estranhamente, nunca atenderam, antes vendo na existência de diferentes repúblicas um obstáculo ao perfeito funcionamento do sistema da economia. O próprio von Mises é um exemplo desta estranha atitude. Muitas vezes utiliza ele, para fazer valer os seus argumentos ou apenas os explicitar, a hipótese de uma república mundial que acompanha de declarações atribuindo à existência das nações, à divisão do mundo em diferentes entidades nacionais e ao nacionalismo, a causa dos clamorosos erros que denuncia na economia contemporânea, como seja o ódio - a expressão é dele - ao padrão-ouro. É possível explicar esta atitude do grande teorizador pelas perturbações da época em que viveu e o sujeitaram a muitas espécies de atribulações e sofrimentos não apenas vividos - o exílio e a pobreza, por exemplo - mas também intelectuais. Era em nome do nacionalismo alemão ou aurindo suas forças no nacionalismo russo, que via instaurar-se o intervencionismo socialista.

De certo modo, esta posição de von Mises corresponde à imagem também mundialista que Adam Smith formava do dinheiro e do comércio, ele que via a economia como um sistema que sucedera ao da agricultura. Diz, por exemplo, que o "ouro circula entre os países comerciantes como a moeda circula dentro de cada país: pode considerar-se a moeda da grande república mundial do comércio".

Tais posições têm, por sua vez, equivalência na banalizada convicção popular de que "o dinheiro não tem pátria".

Ora a verdade é que de nada, como do dinheiro, se pode com mais razões afirmar que tem pátria. Sem a variedade das moedas nacionais, não haveria troca e mercado do dinheiro, e desapareceria o último e mais resistente instrumento, que é o câmbio, para, abandonados os outros padrões, conhecer ou apreciar o poder aquisitivo da moeda e defender as populações das arbitrariedades, então definitivamente instaladas no intervencionismo, dos sucessivos e sempre ocasionais governantes...».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).




 UMA SEITA HORRÍVEL




A maçonaria encontra-se de novo na linha de mira do Vaticano em 1821. Com a bula Ecclesiam a Ieso Christo (Setembro de 1821), o Papa Pio VII reitera as condenações dos seus predecessores, Clemente XII e Bento XIV. A sua introdução projecta uma luz nova sobre a reacção da Igreja romana: «O que aconteceu em tempos já recuados renova-se ainda, e sobretudo na época deplorável em que vivemos, época que parece ser aqueles últimos tempos, tantas vezes anunciados pelos Apóstolos, em que "chegarão impostores marchando de impiedade em impiedade, de acordo com os seus desejos". Ninguém ignora o número de homens prodigiosos culpados que se coligaram nestes tempos tão difíceis contra o Senhor e contra Cristo e tudo fizeram para enganar os fiéis através das subtilezas de falsa e vão filosofia, e para os arrancar ao seio da Igreja, na louca esperança de arruinarem e deporem esta mesma Igreja. Para alcançarem mais facilmente este objectivo, a maior parte deles formaram sociedades ocultas, seitas clandestinas, congratulando-se por este meio de associarem mais livremente um número maior às suas conspirações e aos seus desígnios perversos».

A declaração de Pio VII denuncia explicitamente a Carbonária, um movimento italiano semi-clandestino com ideias republicanas e oposto ao poder temporal do papado. Encontram-se aqui alguns maçons mas, para o Papa, é o movimento na sua globalidade que tem a ver com a maçonaria. A seus olhos, são as suas várias sociedades, mais ou menos ocultas, que estão provavelmente na «origem da dos carbonários, ou que certamente lhes serviram de modelo...». E denuncia «essas reuniões clandestinas e ilegítimas que eles formam a exemplo de várias seitas heréticas, e esta agregação de pessoas de todas as religiões e de todas as suas seitas...».

No plano religioso, Pio VII acusa em particular os carbonários de terem «como principal objectivo propagarem a indiferença em matéria de religião, o sistema mais perigoso de todos», «darem a todos a liberdade absoluta de seguirem uma religião de acordo com as suas tendências e ideias», «desprezarem os sacramentos da Igreja» e mesmo «profanarem-nos (...) por meio das suas pecaminosas cerimónias». Num plano moral, os carbonários são acusados de favorecer «o prazer dos sentidos». Mas Pio VII acrescenta uma outra marca grave de imoralidade, também ela resultante dos fantasmas do anti-maçonismo desta época: a «permissão de matar» os iniciados que violassem o segredo com o qual se haviam comprometido. Num plano mais político, o Papa enuncia dois motivos de condenação. O projecto dos carbonários, por um lado, para derrubar a Santa Sé romana, «contra a qual, animados de um ódio muito particular (...) eles urdem as conspirações mais negras e mais odiosas». Por outro lado, a sua doutrina, segundo a qual «é permitido promover revoltas para despojar do seu poder os reis e todos aqueles que comandam, e a que ela dá o nome injurioso de tiranos...».




Com Pio VII, a maçonaria fica assim claramente arrumada ao lado das seitas, que, na tradição católica, são por definição heréticas. Seitas, ademais «clandestinas», elas próprias colocadas no campo das forças obscuras do mal, maquinando contra uma ordem social, política e religiosa ordenada por Deus e da qual a Igreja romana é a guardiã. Todas as condenações papais do século XIX vão situar-se nesta perspectiva marcada pelo contexto político da época: a difusão dos ideais republicanos da Revolução Francesa na Europa e a ascensão dos movimentos nacionalistas, nomeadamente na península italiana onde o esmagamento dos carbonários pelos austríacos não diminui a aspiração popular à unificação do reino.


A SINAGOGA DE SATANÁS

Em 1882, o Papa Gregório XVI (1831-1846), pela sua encíclica Mirari vos, renova a condenação da maçonaria acentuando o seu carácter herético, porque, na sua opinião, ela é unicamente composta por «sectários de toda a espécie de falsas religiões e cultos». Mas com seu sucessor, Pio IX (1846-1878), as vociferações papais sobem de tom. Nesse meio tempo, os partidários da unificação de Itália haviam passado da clandestinidade para o movimento de massas liderado por fortes personalidades, como o famoso Garibaldi, que tenta impor uma república de Roma em 1849. Pio IX já condenara, em 1846, as ideias políticas liberais e aqueles que as veiculam, como as sociedades secretas que ele apresenta como «filhos do demónio» numa elocução em Dezembro de 1854. Em 1870, após a anexação de Roma pelo reino de Itália, o Papado perde o seu poder temporal. Encerrado no Vaticano, Pio IX promulga em Dezembro de 1873 a encíclica Etsi multa, na qual classifica a maçonaria de «sinagoga de Satanás». A expressão é retirada do Apocalipse de São João e ilustra o clima de fim dos tempos em que vivia Pio IX. Mas o seu carácter anti-semita é incontestável. Porque desde a época do Abade Barruel os turiferários da conspiração vinham cada vez mais conjugar anti-semitismo com anti-maçonismo, associando judeus numa mítica conspiração «judaico-maçónica»...

Este é, nomeadamente, o caso de França em que, no período pós-revolucionário, se desenvolveram diversas sociedades católicas clandestinas como a dos Cavaleiros da Fé (1810). Elas praticam o segredo, seguindo o modelo da maçonaria, a fim de a combater empregando as mesmas armas. A ideia de que os judeus teriam fundado a maçonaria para dominar o mundo, apresentada pelo abade Barruel em 1806, encontra um terreno fértil neste movimento católico e contra-revolucionário, totalmente devotado à demonização da maçonaria. Uma  minoria laboriosa cujas teses vão progressivamente contaminar a Igreja católica francesa. Tanto mais que são também popularizadas por obras com títulos sem qualquer ambiguidade como O novo judaísmo, ou a maçonaria desvendada, publicada em 1815.






A HORA DA ESCOLHA

A Concordata, assinada em 1801 entre Napoleão e Pio VII, veio alterar a relação de forças entre galicanos e ultramontanos. Ela oferece a estes últimos o poder de impor, sem passar pela autoridade civil, a aplicação de condenações pontifícias que, até aí, pouco efeito tinham. Em conjunção com a subida do anti-maçonismo, esta mudança vai tornar cada vez mais insustentável a dupla pertença, obrigando um número crescente de católicos, os clérigos em primeiro lugar, a abandonarem as lojas maçónicas à medida que também diminui a tolerância dos bispos mais liberais. Roma multiplica as intervenções para se fazer obedecer. Em Junho de 1865, Monsenhor Darboy, arcebispo de Paris, ousou celebrar as exéquias religiosas do marechal Magnan, grão-mestre do Grande Oriente de França. Pio IX chama-o à ordem, renovando os anátemas pontifícios contra «essas seitas ímpias» que se esforçam «por corromper por todo o lado os costumes e o espírito (...), propagar vícios abomináveis (...), enfraquecer o império de toda a sua autoridade legítima, derrubar, se isso fosse possível, a Igreja Católica (...) e expulsar o próprio Deus do céu».

Ao longo da segunda metade do século XIX, os bispos franceses fazem-se sobretudo notar pelo seu activo contributo para o anti-maçonismo. São disso testemunho diversos escritos: A Maçonaria, o que eles são, o que eles fazem, o que eles pretendem de Mons. de Ségur (1867), Estudos sobre a maçonaria de Mons. Dupanloup (1875), O grande perigo do nosso tempo, a maçonaria de Mons. Turinaz (1879), A maçonaria, sinagoga de Satanás de Mons. Meurin (1893). Obras de qualidade desigual, das quais a mais caricatural e mais reeditada é a de Mons. de Ségur. Nela encontramos um verdadeiro catálogo do anti-maçonismo católico, estigmatizando as «missas do diabo» e outras práticas satânicas atribuídas a uma maçonaria fantasma, sem esquecer a sua filiação templária, o seu ateísmo, o seu terrível segredo e os crimes cometidos em seu nome... E é sem a mínima dificuldade que a Igreja católica francesa, como aliás o Vaticano, apoia o falsário Léo Taxil que, com as suas Confissões de um ex-livre pensador (1887), se vangloria de ter provas da aliança, no interior da maçonaria, entre os adoradores de Satanás, os judeus e os protestantes. Uma mistificação publicamente reconhecida pelo seu próprio autor em 1897.





Do lado da maçonaria francesa, é uma radicalização em sentido inverso que se opera. Um número crescente de maçons torna sua a herança da Revolução e a defesa dos ideais republicanos face a uma Igreja que se empenha em mostrar-se próxima do trono e contra a República, como o fizera por ocasião da Revolução de 1848 ou da Comuna de Paris em 1871. Semelhante contexto acabou por acentuar as clivagens entre os maçons teístas ligados a um enraizamento cristão da maçonaria, e as correntes deístas e racionalistas, onde se destacam o ateísmo e um anti-clericalismo cada vez mais radical. A ponto, por vezes, de se tornar anti-religioso quando as lojas excluem alguns dos seus membros devido à sua dependência da Igreja romana. Igreja essa que fabricou o seu próprio espantalho com o Syllabus, publicado por Pio IX em 1864. Nele estão resumidos, e são condenados, os «principais erros do nosso tempo», entre os quais se encontram o naturalismo e o racionalismo, o socialismo, o comunismo, as inevitáveis sociedades secretas e o «liberalismo moderno», este sobretudo porque defende a liberdade de consciência, a separação entre a Igreja e o Estado e o fim do poder temporal do papado.

Num século, a maçonaria francesa pendeu maioritariamente para o campo republicano e anticlerical. Disso é testemunho a evolução significativa da sua obediência principal, o Grande Oriente de França, na frente do combate pela secularização das instituições, com a escola em primeiro plano. O artigo primeiro das Constituições, adoptadas em 1849, afirmava que a maçonaria «tem por base essencial a existência de Deus e a imortalidade da alma». Foi substituído em 1877 por uma nova versão, isenta de qualquer referência divina: «A maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem como objectivo a procura da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e da artes e o exercício da beneficiência. Tem como princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Ela não exclui ninguém devido às suas crenças. Ela tem como lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade». Dez anos depois, é a referência ao Grande Arquitecto do Universo, na abertura e no fecho dos trabalhos das lojas, que é tornado facultativo e é gradualmente abandonado.


LEÃO XIII E A CONDENAÇÃO DO NATURALISMO




Último Papa do século XIX, Leão XIII (1878-1903) está muito ciente desta evolução da maçonaria francesa, bem como da subida do anticlericalismo noutros países, designadamente a Itália. Por diversas vezes no decurso do seu pontificado renovou as condenações dos seus predecessores. O seu texto mais importante é a encíclica Humanus genus (Abril de 1884), que recapitula o essencial da argumentação do papado contra a maçonaria. Ela permanecerá, sobre este assunto, o documento de referência dos seus sucessores.

Para Leão XIII todos os males engendrados pelos maçons, cujo objectivo é «destruir de uma vez por todas» a cristandade, têm a sua origem na base doutrinal que, segundo ele, lhes é comum, a saber o naturalismo. Uma doutrina particularmente condenável, uma vez que o seu princípio fundamental estabelece que «em todas as coisas, a natureza, ou a razão humana, deve ser senhora e soberana». Consequentemente, os naturalistas «afirmam que Deus nada revelou aos homens» e também  que «fora daquilo que a razão humana pode abarcar, não existe um dogma religioso nem verdade...». Donde o «labor renhido» da maçonaria para «reduzir a nada» a autoridade da Igreja sobre a sociedade ao impor, por exemplo, a sua separação do Estado a fim de constituir este último «fora das instituições e dos preceitos da Igreja».

Paralelamente a esta condenação do naturalismo e dos seus delitos, a encíclica retoma também, e com a mesma insistência, os perigos da tolerância religiosa praticada pela maçonaria. Esta não seria mais do que um meio de inflacionar as fileiras dessa «seita», a fim de «tornar mais verosímil o maior erro dos tempos presentes», denuncia Leão XIII. Erro esse que «consiste em relegar para a categoria das coisas indiferentes a preocupação com a religião e em colocar em pé de igualdade todas as formas religiosas. Ora, por si só, este princípio é suficiente para arruinar todas as religiões e particularmente a religião católica porque, sendo a única verdadeira, ela não pode (...) tolerar que as outras religiões sejam iguais a si...».

Um pormenor assaz singular: Leão XIII expõe, sempre neste mesmo texto, a hipótese de que alguns grupos maçónicos «não aprovam as conclusões extremas» às quais devem logicamente conduzir os princípios da doutrina naturalista. Mas a sua condenação da maçonaria, tal como a dos seus predecessores, não deixa por isso de ser menos global. Àqueles que ainda pudessem ter dúvidas, a carta Custodi di quella (Dezembro de 1892) recorda que «cristianismo e maçonaria são na sua essência inconciliáveis, de tal forma que aderir a esta é divorciar-se daquele». Leão XIII aborda o assunto por uma última vez num documento (Annum ingressi) de 1902. Considerando-a «cheia do espírito de Satanás», a maçonaria é aí apresentada como «uma contra-sociedade que domina secretamente a sociedade civil e, por isso, em guerra contra Deus e a Igreja de Deus». Esta será, até meados do século XX, a doutrina romana, que tem a sua tradução jurídica no artigo 2335 do Código de direito canónico publicado em 1917, que confirma a excomunhão «daqueles que se inscrevem numa seita maçónica ou em qualquer outra associação do mesmo género que maquina contra a Igreja e os poderes civis legítimos...» (ibidem, pp. 317-327).



Continua


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