sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Nova Esquerda, Nova Direita

Escrito por Orlando Vitorino







O texto que ora se segue foi publicado pela primeira vez em 1977, no primeiro número da revista Escola Formal. Tratava-se, pois, de uma revista de pensamento em que a política não era nem devia ser confundida com qualquer ideologia, doutrina ou prática de conquista e exercício do poder. Por outras palavras, não era uma revista necessariamente política, se bem que não fugisse a encarar e a denunciar a infeliz situação em que os portugueses haviam caído na sequência da revolução comunista de 1974.

A revista Escola Formal defendia, antes de mais, a liberdade humana. Logo, demonstrando, nas suas parcíssimas laudas, que a esquerda é a maior inimiga da liberdade, situava-se numa direita doutrinária, ou, com mais propriedade, na nova direita. Escusado será então dizer que em Portugal foi a única revista que logrou pensar e sistematizar, de uma forma ampla e aberta, os princípios filosóficos do liberalismo económico, político e religioso. Mais: a revista Escola Formal, não obstante distinguir, em termos conceptuais, o conteúdo caracterizador da esquerda e da direita no contexto das vicissitudes e circunstâncias históricas relativamente recentes, teve sempre como horizonte superno o pensamento enquanto princípio garante e realizador da liberdade sempre volátil e fugaz. Posto isto, vamos ao que mais importa.




«Nós somos do século d'inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que já foram inventadas».

José de ALMADA-NEGREIROS



1. COMO SE INVERTERAM AS DESIGNAÇÕES

Se a direita usufrui de uma radicação na realidade que a esquerda não possui, a esquerda goza de um prestígio que falta à direita. Este prestígio - que explica a generalização do chamado "complexo de esquerda" - foi fabricado na primeira metade do século passado e preservado até a primeira guerra mundial, durante todo o período em que a esquerda representou o primado dos direitos individuais, a inviolabilidade da propriedade, o anticlericalismo, a liberdade de pensamento, de ensino e de expressão, enquanto a direita não era mais do que nostalgia do clericalismo do século XVIII, do absolutismo e do totalitarismo do século XVII e do feudalismo dos séculos anteriores. A partir da I Guerra Mundial, o comunismo adquiriu, ao instalar-se na Rússia, um instrumento eficaz para a propaganda marxista, até então cientificamente desdenhado e politicamente insignificante. Em nossos dias, o marxismo acabou por monopolizar a designação de "esquerda" de tal modo que as posições políticas se definem hoje como mais ou menos esquerdistas consoante estão mais próximas ou mais distantes do marxismo. Trata-se de uma definição irreversível e que é, portanto, inevitável, além de conveniente, aceitar, reconhecer e utilizar.




2. COMO A DIREITA É A ESQUERDA E A ESQUERDA É A DIREITA

Com a monopolização marxista da esquerda, as posições tradicionais de esquerda e de direita não só se alteraram como se trocaram. Aquelas que, não há meio século, eram ainda rigorosas posições de direita são hoje as posições características da esquerda e vice-versa. Com efeito:

O clericalismo - isto é: a intervenção da Igreja na política e na doutrinação das populações - que era uma atitude rigorosamente direitista, aparece nos nossos dias como uma exigência característica das facções católicas "progressistas" que gozam do apoio e do aplauso dos marxistas "abertos" ao diálogo com a Igreja;

A condenação do individualismo e a abominação do direito privado, que foram bandeiras da ultradireita, reaparecem em nossos dias na proclamação esquerdista do primado e soberania da colectividade, concretamente do Estado, sobre o indivíduo e a pessoa;

O condicionalismo dos meios de comunicação, isto é, da liberdade de informação e de expressão, pode equivaler - como aconteceu com as recentes decisões dos governos esquerdistas portugueses de taxar como produtos de luxo, primeiro, e, depois, de proibir a importação de livros e revistas estrangeiros - a uma "censura universal" esquerdista que deixa a perder de vista todo o conjunto das sectoriais censuras direitistas do Santo Ofício, de Pina Manique e de Salazar;

A liberdade do ensino vê-se suprimida na esquerda de hoje, tal como, concretamente, se verifica na vigente constituição esquerdista portuguesa, que só enquanto supletivo tolera o ensino livre (a que chama particular).

Finalmente, a planificação da economia leva a limitação da liberdade à existência quotidiana de toda a população e instala a mais perfeita actualização do servilismo feudal que é a prisão do homem aos meios de produção.


3. COMO SE FORMA A NOVA DIREITA




Se a esquerda tem, pois, o pensamento ou, pelo menos, a doutrina correspondente às suas posições, que é o marxismo, a direita continua a alimentar em si mesma um certo "complexo" inibitório que não é mais do que o medo de pensar as suas posições, medo que procura esconjurar com atitudes de hostilidade a todo o pensamento e com filáucias pragmatistas às quais a crítica fácil dos erros socialistas confere uma superioridade que, se é real, não é, todavia, fecunda. O que assim há, de um lado e do outro, equivale-se: tão pouco vale a recusa a pensar da direita como a atitude da esquerda em pensar dentro dos quadros do marxismo. Esta última atitude é, no entanto, a mais forte para a propaganda ideológica ou doutrinária até ao momento em que a direita, decidindo-se a pensar, facilmente refute os rudimentares chavões marxistas: planificação da economia, luta de classes, crítica das categorias económicas, primado da economia na existência social, exclusividade da produção pelo trabalho, abolição da propriedade, etc.

As vias que se abrem à direita para adquirir um pensamento próprio são, em primeiro lugar, as da reflexão dos momentos essenciais da filosofia política, desde Platão e Aristóteles, até Maquiavel, D. Duarte, Suarez, Hobbes ou Hegel. Residem elas, em segundo lugar, nos mesmos pensadores que, até à monopolização marxista, eram os característicos doutrinadores da esquerda: Locke, Hume, Rousseau, Stuart Mill. Estão, finalmente, nos críticos desse esquerdismo tradicional, cuja identificação com a possível "nova direita" é hoje a mesma evidência: Joseph de Maistre, Tocqueville, Donoso Cortês, e naqueles que, mais recentemente, viram como a velha e prestigiosa esquerda estava sendo a possível nova direita e conciliaram o pensamento de seus doutrinadores e seus opositores: Unamuno, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Ortega y Gasset. Em Portugal, ainda podemos contar com o autor da "Arte de Ser Português", Teixeira de Pascoaes, com Fernando Pessoa e, já nos nossos dias, com Álvaro Ribeiro. Todos eles são, enquanto pensadores políticos, pensadores da liberdade.

Deve entretanto registar-se que a "nova direita" tem, nos últimos anos, aberto caminho no domínio, precisamente, em que a esquerda marxista se julgava mais forte: na economia. Economistas como Ludwig von Mises e Frederico Hayek - para só citarmos os mais significativos - demonstraram à saciedade como a economia socialista, ao substituir as categorias económicas pela planificação económica, só conduz, irremediavelmente, à miséria dos povos e à servidão dos homens. O mais conhecido dos livros onde essa demonstração é feita intitula-se, precisamente, "O Caminho para a Servidão" (The Road to Serfdom, Frederico Hayek, London, 1976).






4. COMO SE FORMOU A NOVA ESQUERDA

À medida que a esquerda veio sendo monopolizada pelo marxismo, aqueles que não eram marxistas e que, considerando o carácter absolutista, totalitário e opressivo de todo o comunismo, eram da esquerda precisamente por serem antimarxistas, foram caindo numa situação de perplexidade e desequilíbrio. Fiéis à imagem, já moribunda, da velha esquerda libertária e individualista, fiéis também ao repúdio da velha imagem, essa já enterrada, de uma direita absolutista e reaccionária, foram ficando temerosos de terem de enfrentar a realidade, de terem de reconhecer que, monopolizada pelo marxismo, a esquerda trocara as suas posições com a direita.

Um grupo deles, os mais teimosos em confundir a antiga honestidade dos "homens de um só rosto" com a fidelidade aos emblemas, preferiu continuar a beber pela garrafa de velho rótulo o novo vinho do que beber o vinho velho pela garrafa de novo rótulo.

Outro grupo, mais citadino, mais filho-família, mais playboy, continuou a seguir a esquerda, seduzido pelo bem-pensantismo que a monopolização marxista ainda lhe não fizera perder e continuou a ver na direita um covil nauseabundo de jarretas reaccionários e ultrapassados.

Um terceiro grupo, dia-a-dia mais numeroso, veio cedendo à evidência e à realidade, não conseguiu deixar de beber o vinho velho, fossem embora novos os rótulos das garrafas, e acabou por descobrir e denunciar, com prazenteira bonomia, a caturrice teimosa dos "homens de um só rosto" e a vacuidade ridícula do bem-pensantismo na esquerda monopolizada.

Convém, finalmente, referir um último grupo, esse de origem clericalista que, defendendo a tradicional intervenção eclesiástica no Estado e sabendo claramente como essa intervenção é facilitada pelo absolutismo, aderiu francamente a uma esquerda, na qual o totalitarismo marxista é a actualização do absolutismo oitocentista; ao chamar, à esquerda marxista, a "nova esquerda", este grupo mostrou bem como a direita e a esquerda tinham trocado as posições.


Tal dissolução da antiga, séria e prestigiosa esquerda veio decorrendo durante os últimos trinta anos em que, depois da guerra, o socialismo se divulgou pela Europa como um equívoco. Dizemos "como um equívoco" no significado rigoroso do termo, pois o socialismo generalizou-se dando à mesma palavra dois sentidos contrários. Num sentido, o socialismo era a via para o comunismo, era o regime que, uma vez realizado em todas as suas consequências, constituiria o comunismo. Noutro sentido, o socialismo seria o regime que, por fazer certas concessões ao comunismo, constituiria a barreira eficaz ao seu avanço definitivo e nele caberiam, portanto, todas as posições da velha esquerda - o ensino livre, a imprensa livre, a propriedade livre, até o anticlericalismo - caso, evidentemente, todos concordássemos em aceitar a hipocrisia. E deste modo, por um ou outro sentido, a maioria dos esquerdistas portugueses, ao ter de optar democraticamente, aceitou, num primeiro momento, optar pelo socialismo. Em breve, porém, como em toda a Europa, o equívoco se veio desfazendo. Porque "socialismo há só um" e esse é, inevitavelmente, o que conduz ao comunismo. Dos vários grupos em que a esquerda se havia dividido, apenas um, o de origem clericalista, se mantém decididamente no socialismo, na esquerda marxista ou "nova esquerda". Os outros, sem ainda terem adoptado, ou terem podido adoptar, a "nova direita", procuram uma posição, que ainda conjecturam possível, de compromisso: primeiro, num socialismo democrático cuja versão social-democrata lhes é suspeita e, em prazo mais ou menos longo, os decepcionou já ou decepcionará; depois num centrismo cuja instabilidade geométrica a todo o instante se projecta na instabilidade política; por fim, num abstencionismo de expectativa.


5. DE QUE É QUE A DIREITA SE TEM DE LIBERTAR

Perante a esquerda monopolizada pelo marxismo, a direita, nem em Portugal nem na generalidade da Europa, conseguiu ainda definir-se nem, portanto, organizar-se. Começa por não conseguir desfazer os compromissos em que se deixou enlear com as formas nacionalistas - o nazismo, o fascismo, o salazarismo da última fase - que o socialismo adoptou nos vinte anos anteriores à guerra em que essas formas nacionalistas viriam a ser vencidas pelo socialismo internacionalista.

Também não conseguiu ainda a direita desfazer os compromissos com a plutocracia, capitalismo de empresa de que o capitalismo de Estado, ou comunismo leninista, é o natural sucedâneo. A plutocracia vê, com razão, na organização socialista dos trabalhadores o regime mais tranquilo para o exercício da sua actividade que tem, naturalmente, um carácter multinacional como o socialismo tem, naturalmente, um carácter internacional: a organização socialista entrega aos trabalhadores a definição do que eles entendem ser os seus direitos, cuja expressão económica - salários, etc. - tem um preço que a plutocracia deverá pagar, e paga, mas cujo valor - através da cotação da moeda, por exemplo - só a plutocracia tem o poder de determinar de acordo, evidentemente, com as suas conveniências.




Não conseguiu finalmente a direita desprender-se da velha obediência clericalista sem perceber que os próprios clérigos a não aceitam já; nem desprender-se de um tradicionalismo que vai até ao respeito (sem crítica) da realeza sem perceber que a realeza perdeu há muito o sentido da monarquia, regime constitucional que todos os grandes pensadores, desde Platão a Hegel, consideram o melhor dentre todos os possíveis; nem desprender-se do repúdio do sistema de partidos, com o qual identifica o liberalismo e tende a identificar a democracia, sem perceber que nem ao liberalismo nem à democracia é inerente, ou sequer convém, o sistema de partidos: o mais generoso doutrinador do liberalismo e da democracia moderna, Stuart Mill, foi o mais acérrimo adversário dos partidos políticos.

Em suma: inverteram-se, de facto, as posições de esquerda e de direita, mas enquanto a primeira, "nova esquerda" monopolizada pelo marxismo, tem a consciência, o saber e a doutrina equivalentes a essa inversão, a direita não consegue ter o pensamento daquilo que de facto ela mesma é hoje, não se desprende das posições que já não são as suas, não desfaz os compromissos em que, no trânsito daquela inversão, se deixou envolver, não pode por conseguinte organizar-se, não assume a forma, a eficácia e a actualidade de uma "nova direita".

Virtualmente, entre nós como na Europa, a direita tem por si a maioria das populações que vivem uma existência actuante, responsável, real e concreta. Não tem por ela as populações da existência abstracta, as do parasitismo urbano, burguês, filho-família, playboy, que vive na inveja do plutocrata, ou as do proletariado entregue à previdência social e, acorrentado aos contratos colectivos, que vive na inveja do burguês. Todos esses vêem a salvação para a insegurança de si, para a sua frustração quotidiana e para a má consciência da sua inutilidade, no aconchego dos planeamentos e na servidão da unidade característicos do socialismo. E não pode a direita dizer que não tem por si as "massas" que, vivendo uma existência concreta com um trabalho real e um salário quotidiano, se entregam a quem lhes paga, sobretudo a quem, com finalidades "revolucionárias", lhes paga melhor e lhes promete pagar mais. Em termos eleitorais, essas populações que, de facto, pertencem à "nova direita", ou dão, resignadas, o seu voto táctico a organizações partidárias nas quais se sabem logradas ou compõem o partido maioritário dos abstencionistas.

Serão susceptíveis, estas reflexões, de indicar a alguém o caminho? (in Manual de Teoria Política Aplicada, Edição Babel, 2010, pp. 123-130).





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