quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Drácula (ii)

Escrito por Bram Stoker








7 de Maio. – Levanta-se uma nova aurora. Estou bem repousado, e as últimas vinte e quatro horas decorreram sem incidentes. Esta manhã levantei-me tarde. Logo que me vesti, dirigi-me para a sala onde havia tomado a anterior refeição, e encontrei preparado o primeiro almoço. Sobre a mesa, ao lado da cafeteira, estava um cartão com estas palavras:

«Tenho de me ausentar durante um certo tempo. Não me espere. D.»

Depois de ter tomado conhecimento desta mensagem, almocei à minha vontade. Então quis chamar um criado, e procurei, com o olhar, uma campainha. Não havia. Isto pareceu-me tanto mais insólito quanto, numa casa onde se ostentava opulência, a ausência de um objecto de tal utilidade se tornava desconcertante. No entanto, tudo era de inapreciável riqueza: os reposteiros e cortinas eram feitos de tecidos sumptuosos, o serviço da mesa era em ouro finamente cinzelado. E, ao passo que eu vira em Hampton Court cadeiras usadas e roídas pelas traças, as que ali se encontravam – embora da mesma época e do mesmo estilo – estavam ainda em excelentes condições de conservação. Por fim, coisa ainda mais surpreendente, não encontrei um só espelho. Nem mesmo sobre a mesa de “toilette”. Quando quis barbear-me, tive de recorrer ao meu pequeno estojo. Nada de criados. Pelo menos não vi um único. Depois do almoço (não seria antes um jantar? Eram cinco ou seis da tarde, quando o tomei), pus-me a procurar um livro. Não quis aventurar-me pelo castelo sem ter recebido autorização do conde; mas não encontrei ali nem livro, nem jornal, nem mesmo com que escrever. Decidi-me a entreabrir outra porta, e então encontrei-me numa espécie de biblioteca.

Tive a muito agradável surpresa de descobrir uma vasta colecção de livros ingleses, e uma abundância de jornais e revistas de todos os géneros, todos em língua inglesa. Nenhuma das publicações era recente, mas os livros tratavam dos assuntos mais diversos: história, geografia, política, botânica, geologia, direito. Todos diziam respeito à Inglaterra, à vida e aos costumes ingleses. Alegrei-me de encontrar uma tal documentação sobre o meu país.



Enquanto eu examinava todos estes livros, a porta abriu-se e o conde entrou. Cumprimentou-me muito cordialmente, como na véspera, e perguntou-me se eu tinha dormido bem. Depois acrescentou:

- Estou encantado de que tenha vindo a esta biblioteca. Tenho a certeza de que encontrará aqui uma multidão de coisas interessantes. Estes companheiros – e dizendo isto acariciava as lombadas dos livros – têm sido para mim fiéis amigos, e desde há alguns anos, depois de eu ter tido a feliz ideia de ir a Londres, têm-me dado grande número de horas de prazer. Através deles descobri a vossa grande Inglaterra, e descobrindo-a aprendi a amá-la. Gostaria de passear entre a multidão, nas ruas da vossa imponente capital, e perder-me no meio dela, compartilhar das preocupações dos transeuntes, viver com eles até à morte. Mas infelizmente apenas conheço a sua língua pelos livros. Quero crer que, graças a si, meu amigo, conseguirei falá-la.

- Mas, conde – respondi – fala impecavelmente o inglês.

Ele inclinou-se, delicadamente:

- Agradeço-lhe, meu amigo, essa lisonjeira apreciação. Mas receio estar ainda muito longe da meta que a mim próprio fixei. Conheço a gramática e o vocabulário, sim, mas não sei como utilizá-los.

Protestei, por amabilidade.

- Não – continuou ele. – Sei bem que, se estivesse em Londres, não conseguiria fazer-me passar por um inglês. Eis o motivo por que considero não serem suficientes os meus conhecimentos. Bem vê, eu sou um boiardo. Os humildes conhecem-me, para eles eu sou um senhor, um personagem poderoso. Mas um estrangeiro, num país que não é o seu, permanece estrangeiro. Não o conhecem e ninguém se interessa por ele. Eu seria feliz se me considerassem como um cidadão semelhante aos outros e não dissessem, ao ouvir-me falar: «Ah! Mais um estrangeiro!». Fui o senhor, durante bastante tempo para querer continuar a ser. Ou, pelo menos, para que ninguém procure dominar-me. É-me enviado pelo meu amigo Peter Hawkins, de Exeter, para me falar da minha nova propriedade de Londres. Perfeito. Não se importará de ficar algum tempo em minha casa, suponho. Teremos numerosas conversas. Desta maneira poderei fixar as peculiaridades de pronúncia da língua inglesa. Peço-lhe com empenho que não hesite em emendar-me cada vez que eu cometer um erro, ao falar. Lamento ter estado hoje ausente, mas tal como creio ter-lhe dito, tinha vários negócios importantes a arrumar.

Disse-lhe que era perfeitamente natural, e perguntei se me autorizava a frequentar de vez em quando a biblioteca.



Christopher Lee



- Pode andar por onde quiser, neste castelo – disse-me ele – com excepção dos compartimentos que estão fechados à chave e nos quais, bem entendido, não tentará entrar. Tenho boas razões para proceder desta maneira. Estamos na Transilvânia, e a Transilvânia não é a Inglaterra. Os nossos costumes não são os mesmos. Pode ser que algumas coisas lhe pareçam estranhas, mas depressa se habituará.

Pois que a conversa se orientava sobre esse assunto, fiz ao conde algumas perguntas sobre o que já tinha podido notar no seu país, e repeti a narrativa da noite passada no caminho, na sua caleça. Perguntei-lhe por que motivo o cocheiro se apeava de cada vez que via brilhar uma pequena chama azul, e se dirigia imediatamente para ela. O meu hospedeiro explicou-me então que a crendice popular afirmava que durante uma certa noite do ano – a noite em que os espíritos maléficos se tornam senhores do mundo – uma chama azul aparecia nos lugares onde um tesouro se encontrava escondido debaixo do chão.

- Provavelmente foi escondido um tesouro na região que atravessou a noite passada. Mas subsiste uma certa dúvida a tal respeito. Bem vê – continuou o conde – este território foi disputado, durante séculos, pelos valáquios, os saxões e os turcos. Não há uma polegada de chão que não tenha sido fertilizada pelo sangue desses homens, patriotas ou invasores. Foi uma época apaixonante. Os austríacos e os húngaros avançavam contra nós, em hordas selvagens. E os nossos compatriotas – homens, mulheres, crianças e velhos – erguiam-se todos contra eles. Iam esperá-los no alto dos rochedos, de onde faziam chover sobre os inimigos avalanches artificiais de pedras e de rochas. Se os atacantes conseguiam abrir caminho, nada encontravam no país cujos habitantes haviam enterrado profundamente tudo quanto possuíam.

- Mas – perguntei eu – como é possível que tais tesouros tenham permanecido tanto tempo escondidos na terra, quando as pequenas chamas indicam a sua posição a quem passa e se dê ao trabalho de as observar?

O conde sorriu, mostrando uma vez mais as gengivas e os dentes aguçados e estranhos.

- Porque quem passa é poltrão e tolo. Essas chamas apenas ardem uma vez por ano, e nessa noite nenhum homem deste país ousaria arriscar-se a andar por aí, a não ser obrigado. E, caro senhor, mesmo que se arriscasse a sair de casa, essa temeridade de nada lhe serviria, pois seria incapaz de encontrar as pequenas chamas apesar dos pontos de referência que deixasse junto delas. O senhor mesmo não reconheceria os pontos onde viu os pequenos clarões.

- É certo – confessei. – Sem dúvida que os não encontraria.

O conde parecia ter pressa de mudar de assunto.


Bela Lugosi


- E se me falasse um pouco de Londres – disse ele, suavemente – e da casa que compraram para mim?

Pedi-lhe para me desculpar por momentos e sai para ir buscar, a uma das minhas malas, a cópia da escritura de venda. Enquanto punha em ordem os meus papéis, ouvi um tilintar de porcelanas e de pratas, na sala, e quando voltei vi que já haviam levantado a mesa. Uma lâmpada iluminava a biblioteca, pois caía a noite. O conde, estendido sobre um sofá, lia o Guia Inglês de Bradshaw. Assim que me viu, levantou-se para examinar comigo os planos da casa. Fez-me numerosas perguntas sobre a localização e os arredores. Pareceu-me evidente que se havia documentado muito sobre este último ponto, pois sabia muito mais do que eu. Como eu lhe fizesse notar isso, respondeu:

- Não lhe parece que isso me é necessário? Vou encontrar-me só, por lá, e o meu caro Harker Jonathan – desculpe, nós temos o hábito de colocar o apelido antes do nome – não estará a meu lado para me dar a sua preciosa ajuda. Estará em Exeter, a várias milhas de distância, ocupado a tratar de outros negócios com o meu amigo Peter Hawkins. Portanto…

Mergulhámos nos pormenores relativos à propriedade de Purfleet, que ele ia comprar; o conde assinou os papéis necessários, e escreveu uma carta destinada a Hawkins. Depois perguntou-me de que maneira eu tinha encontrado uma propriedade tão agradável. Li-lhe os apontamentos que eu tinha tomado durante a prospecção, e copio-os aqui.

«Em Purfleet, seguindo um caminho transversal, chego diante de uma propriedade que me parece corresponder a todas as condições exigidas pelo nosso cliente. Um velho cartaz indica que a propriedade está à venda. Encontra-se rodeada por velhos muros, muito altos, construídos com grandes pedras, e que há decerto um bom número de anos não têm sido reparados. As portas são de carvalho maciço, e as grades de ferro cobertas de ferrugem.

«A propriedade chama-se Carfax. Este nome é sem dúvida uma alteração da antiga denominação de Quatro Faces, justificada pela exposição dos quatro lados da propriedade aos quatro pontos cardeais. A superfície de conjunto é de cerca de vinte acres. Todo o domínio está cercado por muros. As árvores abundam, e escurecem-no em vários pontos. Há um pequeno lago, alimentado por uma fonte; a água, muito clara, vai deslizar um pouco mais longe, num riacho. O edifício deve datar da Idade Média. As raras janelas são muito altas, e fechadas por grossos varões de ferro. Talvez tivesse sido, noutros tempos, um fortim ao qual estava ligada uma capela. Não tenho a chave que me permitiria entrar nesse anexo da propriedade. Mas fiz várias fotografias dos locais. A parte ainda habitável, actualmente, parece ter sido construída mais tarde, num ponto solitário. Existem apenas algumas casas nos arredores. Uma delas, a mais recente, foi transformada em asilo de alienados. O asilo não é visível do domínio de Carfax».






Quando terminei a leitura, o conde declarou:

- Estou encantado por se tratar de uma casa antiga. Pertenço a uma família muito antiga, e a necessidade de viver numa casa nova deixar-me-ia doente. Alegra-me muito, também, que haja uma capela nas dependências. Nós, que pertencemos à velha nobreza da Transilvânia, sentir-nos-íamos humilhados pensando que os nossos ossos poderiam ser um dia misturados com os do comum dos mortais. Tenho de pensar nisso, porque já não sou novo; não procuro a alegria, e já não sinto a voluptuosidade que inspira aos novos o murmurar de uma fonte. Passei muitos anos a chorar os meus mortos, e o meu coração esqueceu o prazer. As muralhas do meu castelo estão em ruínas, e o vento geme atravessando as seteiras e as janelas. Gosto desta atmosfera e não detesto a solidão, com os meus pensamentos, no meio das sombras.

Estas últimas palavras pareciam não se harmonizar com a expressão da sua cara; o seu sorriso tinha qualquer coisa de hostil e malévolo.

Depois de me ter pedido para lhe entregar os documentos que trouxera, deixou-me. E, como ele não voltasse, comecei a observar os livros que guarneciam o compartimento. Notei um atlas, que ficara aberto num mapa da Inglaterra. Esse mapa parecia ter sido consultado muitas vezes. Olhando-o com mais atenção, vi que estava marcado com pequenos círculos, um dos quais indicava a localização da nova propriedade do conde, a leste de Londres. Dois outros círculos rodeavam a cidade de Exeter e a de Whitby, na costa do Yorkshire.

Tinha decorrido uma larga hora quando o conde regressou.

- Oh! – exclamou ele. – Ainda mergulhado na leitura? Muito bem, mas é preciso não se matar com trabalho. Creio que a sua ceia está pronta…

Tomou-me pelo braço e entrámos na sala vizinha, onde descobri uma apetitosa refeição, já preparada. O conde voltou a desculpar-se, dizendo que jantara durante a minha ausência, e tal como fizera na véspera, sentou-se à mesa e pôs-se a conversar comigo enquanto eu fazia as honras à ceia. Quando acabei, fumei um charuto e as horas deslizaram rapidamente. Devia ser muito tarde, mas eu não ousava chamar a atenção do meu hospedeiro, com receio de lhe desagradar. Fosse como fosse, não tinha sono, pois descansara bastante na noite anterior. No entanto estremeci ligeiramente, como pode acontecer a qualquer um à aproximação da alvorada (ouvi dizer que, frequentemente, os moribundos exalam o seu derradeiro suspiro de madrugada, ou à hora em que muda a maré). De repente, ouvimos cantar um galo, no ar da manhã. O conde Drácula levantou-se bruscamente, admirado:

- Como? Já vem a aurora, novamente? Creia que estou desolado por tê-lo demorado até tão tarde. É preciso que não torne tão interessante a sua conversação, quando me fala de Inglaterra. Se der às suas palavras um tom menos apaixonante, não esquecerei que o tempo voa.






Então, depois de se ter inclinado, saiu rapidamente e deixou-me só.

Regressei ao meu quarto e corri as cortinas. A minha janela dá para o pátio, e vejo o céu iluminar-se pouco a pouco.

8 de Maio. – Quando comecei este diário, receei ter-me alongado demasiadamente. Mas agora sinto-me feliz por ter, desde o princípio da minha instalação no castelo, mencionado uma série de pormenores, pois tudo o que vejo aqui, e tudo o que aqui se passa, é estranho. Reconheço que me sinto pouco à vontade. Gostaria de poder ir-me embora e sair daqui são e salvo. Mas é possível que as noites de vela tenham agido sobre os meus nervos. Se, ao menos, tivesse alguém com quem desabafar! Mas estou só. Além do conde, não há vivalma no castelo. Para me tranquilizar, vou tentar expor os factos tal como se vão desenrolando. Talvez que assim possa impedir a minha imaginação de mergulhar na extravagância. Se não o conseguir, estou perdido. Vou portanto recapitular os incidentes da noite passada, tal como julgo tê-los vivido.

Tinha-me deitado e dormira durante várias horas. Quando acordei, compreendi que não poderia voltar a conciliar o sono, e levantei-me. Eu tinha suspendido o espelho do meu estojo no fecho da janela, e começara a barbear-me quando senti uns dedos tocaram-me num ombro. Reconheci a voz do conde, que me dava os bons-dias, e fiquei admirado por não o ter visto aproximar-se, pois podia, no meu pequeno espelho, avistar todo o quarto e cortei-me de leve, na cara. De momento não notei isso. Depois de ter correspondido aos «bons-dias» do conde, olhei de novo o espelho e tentei compreender como tinha sido possível não o ver chegar. O que é certo, no entanto, é que ele se encontrava muito perto de mim. Bastava-me voltar imperceptivelmente a cabeça, para verificar isso, mas a sua imagem não se reflectira no espelho. Pareceu-me surpreendente, e esse facto veio acrescentar-se a uma multidão de outras coisas misteriosas, acentuando ainda a impressão de mal-estar que eu sentia sempre que me encontrava na presença do conde. Foi então que notei o pequeno corte que tinha feito na cara. Pousei a navalha de barba sobre a pequena mesa, e procurei algodão para estancar o sangue. No mesmo instante os olhos do conde brilharam numa espécie de furor demoníaco, e inesperadamente tentou agarrar-me pelo pescoço. Dei um passo para trás, e a sua mão tocou na pequena corrente da qual estava suspensa a cruz. No mesmo momento operou-se nele uma súbita transformação; a sua cólera dissipou-se com espantosa rapidez, de tal maneira que eu nem ousava acreditar que o vira em tal estado um segundo antes.

- Tenha cuidado – disse-me ele – tenha cuidado quando se ferir. Neste país é muito mais perigoso do que pode julgar.










Pegou no meu pequeno espelho e acrescentou:

- Foi este objecto de desgraça, a causa de tudo. Mais um estúpido brinquedo da vaidade humana… É preciso não o guardar.

Abriu a janela e atirou o espelho para o pátio, onde se quebrou nas lajes. Depois saiu, sem acrescentar uma palavra. Era tanto mais vexatório quanto eu perguntava a mim mesmo como poderia barbear-me, a não ser que utilizasse a tampa do meu relógio, ou a cobertura metálica da taça de barbear.

Nessa manhã, tomei o meu pequeno-almoço durante a ausência do conde. Ainda não o vi comer ou beber. É um homem verdadeiramente singular! Depois da refeição, saí para dar uma volta pelo castelo. Havia uma janela aberta, na escada do lado sul. A vista era magnífica e abarcava uma paisagem maravilhosa. O castelo está construído à beira de um pavoroso precipício. Tenho a certeza de que, se tivesse atirado uma pedra para o abismo, ela não encontraria qualquer obstáculo numa profundidade de mais de mil pés. Até perder de vista, distingue-se um mar de montes verdejantes, por vezes cortados por um desfiladeiro. Aqui e além, fitas prateadas correm entre a espessura verde, ribeiros que deslizam através da floresta e se precipitam nas fundas gargantas.

Mas não tenho coragem para descrever estas belezas naturais; depois de ter admirado a paisagem, continuei a minha inspecção do castelo. Portas e mais portas, por toda a parte surgem portas e todas estão fechadas, com chave ou com ferrolho. Deve ser impossível sair daqui, a não ser que passe pelas janelas que se abrem no alto das muralhas.

O castelo é uma verdadeira prisão, e eu sou um prisioneiro! (in ob. cit., pp. 33-42).



Continua


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