segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Drácula (i)

Escrito por Bram Stoker





Vlad Tepes



«A Golden Dawn, fundada em 1887, era procedente da Sociedade da Rosa-Cruz inglesa, criada vinte anos antes por Robert Wentworth Little, e que angariava partidários entre os mestres mações. Esta última sociedade compreendia 144 membros, entre os quais Bulwer-Lytton, autor de Os Últimos Dias de Pompeia.

(…) Arthur Machen tomara o nome de Filus Aquarti. Havia uma mulher filiada na Golden Dawn: Florence Farr, directora de teatro e amiga íntima de Bernard Shaw. Ali se encontravam também os escritores Blackwood, Stoker, o autor de Drácula, e Sax Rohmer, assim como Peck, o astrónomo real da Escócia, o célebre engenheiro Allan Bennett e sir Gerald Kelly, presidente da Real Academia. Segundo parece, esses espíritos de elite foram marcados de forma indelével pela Golden Dawn
. Como eles próprios confessaram, a visão que tinham do mundo foi alterada e as práticas às quais se entregaram não deixaram de lhes parecer eficazes e exaltantes».


Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»).



«Os homens fixam as noções que lhes foram ensinadas… e não querem afastar-se delas. Esse é o defeito da ciência. Você não acredita, por exemplo, na reencarnação, nem na materialização dos espíritos? Nem na transmissão de pensamento?».


Van Helsing





Introdução

Draculea é a designação romena referente a uma figura histórica do século XV, mais particularmente a Vlad III, um poderoso voivoda ou príncipe da Valáquia, também conhecido por Vlad Tepes (Tsepesh), “O Empalador”. Ora, essa designação significa “filho do dragão” (drac, em romeno), ou filho de Vlad Drakul, que pertencera à Ordem do Dragão (Societas Draconistrarum, em latim), fundada, em 1431, pelo Sacro Imperador Romano Sigismundo (rei da Hungria). De resto, Drakul também pode significar, na língua romena, "demónio" ou "vampiro".

Consta que Vlad III ainda figura na qualidade de herói popular na Roménia e na Moldávia, quanto mais não seja por ter conduzido uma política de independência perante o avanço do Império Otomano na Europa. Além disso, ergueu grandes mosteiros, não obstante a ferocidade usada contra o inimigo turco, que mandaria empalar ou enterrar até meio corpo para, por fim, esmagar-lhe a cabeça, quando não mesmo tirar partido de outras práticas de crueldade inusitada, a que nem os seus conterrâneos escapariam.

Enquanto símbolo do Astral, o Dragão foi, desde a Antiguidade, celebrado nas montanhas dos Cárpatos e na vizinha e lúgubre Transilvânia. De facto, esta «morada de eleição» também ficou conhecida como a «Terra do Dragão», mais particularmente localizada na Bessarábia, a este da embocadura do Danúbio. Aliás, já Heródoto a tivera na conta de um lugar habitado por mágicos e feiticeiros capazes de se transformarem nos mais estranhos e pitorescos animais.






Digno de nota é, pois, o devido folclore em que ocorrem expressões como ordog, pokol ou sregocia, que significam, respectivamente, Satã, inferno e bruxa. Por sua vez, vrolok, em eslovaco, e vlkoslak, em sérvio, constituem expressões que significam, aproximadamente, lobisomem e vampiro. Seja como for, o símbolo do Dragão não fora um atributo exclusivo dessa região, posto que, ainda antes da chegada dos Ários, transitara do Mediterrâneo ao vale do Ganges, na Índia.

Há, decerto, quem veja uma correspondência simbólica entre o Dragãoa pedra filosofal, que também pode, por seu turno, simbolizar a quintessência do Astral. E daí a relação estabelecida entre o Drácula de Bram Stocker e Saint-Germain (1), ambos «condes ou príncipes da Transilvânia», além de companheiros da já mencionada Ordem do Dragão. Enfim, trata-se de uma relação em que a ficção se mescla com elementos susceptíveis de aturada indagação histórico-filosófica.

Por outro lado, tudo parece indicar que Bram Stoker, na qualidade de membro da Golden Dawn, encontrara nessa sociedade de iniciação neopagã, fundada em 1887, a fonte de inspiração necessária para redigir a sua obra-prima. De facto, vários são os elementos esotéricos que larga e profundamente impregnam essa obra, como por exemplo:

1. O sangue como manifestação do princípio vital da alma individuada, tal como, aliás, transparece no Fausto de Goethe;

2. A não-reflexão do conde Drácula no espelho, tão brutalmente repudiada pelo próprio: «Foi este objecto de desgraça a causa de tudo. Mais um estúpido brinquedo da vaidade humana… É preciso não o guardar». (Ora, curiosamente, Fernando Pessoa, ainda que num outro contexto, diria por sua vez: «O criador do espelho envenenou a alma humana»);






3. A total incapacidade de amar do conde Drácula, assacada por uma das três sombras imateriais em termos lapidares: «Você nunca amou! Nunca ama!».

Depois, há um outro episódio que, embora precedendo a cena do espelho, convém ter igualmente presente: é quando Jonathan Harker, percorrendo numa caleça a estranha quão ameaçadora escuridão que o levará ao castelo do seu anfitrião, supõe, no momento em que o cocheiro se apeia em direcção a uma chama azul, ser joguete de uma ilusão de óptica. Ou seja: o cocheiro, não obstante permanecer entre a chama e Jonathan Harker, permanecera «translúcido».

Quanto ao amor, é não menos curiosa a resposta de Drácula perante o riso cruel e maquinal vindo de três sombras em forma lunar ou feminina: «Sim, eu também posso amar. E vocês sabem isso. É preciso recordar-lhes o passado?»

De resto, para Jonatham Harker, quase tudo se passaria por entre pálpebras semicerradas, ou na forma de um estado hipnótico de sonho ou pesadelo invulgar. Aliás, não fora por acaso que Bram Stoker, reportando-se ao «País Médio», fizera questão de, por esse modo simbólico, assinalar parte do caminho percorrido por Harker em direcção ao castelo de seu misterioso anfitrião, e por onde a caleça «dava a impressão de sobrevoar o terreno, tal era a velocidade com que seguia».






Entretanto, perante o que define e caracteriza um vampiro, fiquemos então com um dos trechos mais significativos do romance epistolar de Bram Stoker:


«DIÁRIO DE MINA HARKER

30 de Setembro. – Depois de jantar, reunimo-nos todos no gabinete do Dr. Seward. O professor [Van Helsing] fez-me sentar à sua direita e pediu-me para lhe servir de secretária. Depois falou:

- Meus caros amigos, creio chegado o momento de lhes explicar contra que espécie de adversário temos de combater. Depois, estarão em melhores condições de tomar as suas posições de combate. Vamos enfrentar um vampiro, como sabem. Que os vampiros existem, é um facto inegável. Mesmo que não tivéssemos tido o doloroso exemplo dos últimos dias, encontraríamos provas no passado. Se eu me tivesse mostrado menos incrédulo desde o princípio, se eu tivesse sabido o que hoje sei, talvez a nossa pobre Lucy estivesse ainda viva, neste momento. Pois que é demasiado tarde, temos de nos esforçar, pelo menos, por evitar novos dramas. Saibam que “nosferatu” não morre depois de ter mordido a sua vítima, como a abelha que fere e deixa o seu ferrão na ferida. Depois de ter sugado a sua presa, o vampiro torna-se mais vigoroso. Aquele a quem temos de combater possui a força de vinte homens. Por muito curioso que possa parecer, apoia-se sobre a necromancia que é, como se sabe, a arte de predizer o futuro evocando os mortos. Estes, se ele se aproxima, estão à sua mercê e obedecem-lhe. É uma verdadeira fera, é um demónio sem coração nem piedade. Pode por vezes dominar os elementos e tem um poder irresistível sobre os animais, tais como o rato, o mocho, o morcego e o lobo. É capaz de aumentar ou diminuir de tamanho, à vontade, e pode desaparecer diante dos nossos olhos, como se não existisse. Como iremos encurralá-lo e, quando chegarmos a esse ponto, como o destruiremos? Esse é o problema. É uma tarefa difícil, e pode ser uma luta cruel. Eu sou velho, e o perigo de um fim trágico não me assusta. Mas os meus amigos são novos, já sofreram demasiado e merecem melhores dias. Ousarão medir-se com ele?






Todos nos apressámos a responder afirmativamente, e fizemos uma espécie de pacto que selámos apertando-nos as mãos. Depois de ter colocado o seu pequeno crucifixo sobre a mesa, o professor continuou:

- Não nos faltam os meios de defesa. Temos por nós a vantagem do número, visto que o vampiro é sempre só. Temos também o apoio da ciência. E, qualquer que possa ser ainda a nossa incredulidade, temos de nos referir igualmente às tradições e às superstições. Não é por superstição que os homens acreditam nos vampiros? Qual de entre nós, neste século céptico e materialista, teria admitido a existência de vampiros, há menos de um ano? E todavia, desde que o homem existe, o vampiro manifestou sempre a sua presença. Viram-no na antiga Grécia, na antiga Roma, mostrou-se na Alemanha, na França, nas Índias, na China e mesmo entre algumas das quatro penínsulas a que os gregos chamavam “khersonesos”, mormente a de Malaca. Por toda a parte foi temido. Acompanhava as hordas dos hunos, dos eslavos, dos saxões e dos magiares que invadiam o Ocidente. A sua vida prolonga-se durante tanto tempo quanto pode beber sangue humano, e quando bebe sangue jovem consegue mesmo rejuvenescer. Quando não encontra uma presa, não come; Jonathan verificou isso durante a sua estada no castelo Drácula. Mas o vampiro possui uma outra faculdade muito mais extraordinária, a de poder criar uma espécie de neblina à sua volta. Aparece então, à luz, transformado em partículas de poeira, o que permitiu a Jonathan distinguir as três mulheres, no castelo, e à infeliz Lucy deslizar como fumo pelos interstícios da porta do jazigo. O vampiro pode transformar-se em morcego e em lobo. Finalmente, vê na escuridão, o que não é um dos seus menores privilégios. Possui todos estes dons, e no entanto não pode tudo, tem de obedecer a certas leis. Quando entra numa casa, por exemplo, pode voltar quando quiser, mas é preciso que, da primeira vez, seja chamado. Todos os seus poderes cessam com a aurora, para só voltarem com a noite. Não pode deixar o lugar onde repousa, senão dentro de certos limites, a não ser que se transporte numa sepultura não abençoada, como a do suicida Whitby. Finalmente – e isto pode ser-nos útil para as nossas pesquisas – um ramo de roseira brava, ou de flores de alho, impedem-no de se deslocar. Uma bala disparada sobre ele, no seu caixão, transformá-lo-ia num morto definitivo. Se lhe cravarem uma arma no coração, alcança a paz eterna. Esta é-lhe igualmente concedida se lhe separarem a cabeça do tronco. Em conclusão, o que nós temos de fazer é obrigá-lo a ficar no seu caixão, para o destruir de vez. Como o conde é dotado de grande astúcia, pedi ao meu amigo Arminius, da Universidade de Budapeste, para me ajudar a conhecê-lo melhor, fornecendo-me algumas informações sobre os seus antecedentes. Foi sem dúvida um voivoda que ilustrou o nome de Drácula, batendo os turcos depois de atravessar o rio que constituía a fronteira do seu país. A propósito, os vampiros só podem atravessar a água na maré cheia. De qualquer modo, os Drácula deixaram atrás deles, durante séculos, uma reputação de guerreiros corajosos e inteligentes. Estas qualidades persistem, mas infelizmente o seu último descendente serve-se delas contra nós. Os Drácula – precisa Arminius – eram uma nobre raça, mas a acreditar em certas narrativas da época, alguns deles tinham relações com o diabo. O maligno ensinava-lhes os seus segredos, nas montanhas que dominam o lago de Hermanstadt. Um velho manuscrito, encontrado recentemente, refere-se a um Drácula como sendo um “wampyr”. Todos nós conhecemos demasiado bem a significação desta palavra. Mas nada impede que, se a raça produziu grandes homens, o monstro aproveite esta alta ascendência para se esconder atrás de tudo o que a recorda e permaneceu puro…» (in Drácula, Amigos do Livro, pp. 211-214).



Christopher Lee



O romance de Bram Stoker também acabou por ser adaptado ao teatro e ao cinema. Em 1922 surgiu o primeiro clássico do horror em filme (Nosferatu), do realizador expressionista alemão, Murnau. Depois, seguir-se-ia, com a aparição do sonoro, A Marca do Vampiro (1935), de Tod Browning, O Pesadelo de Drácula (1958), de Terence Fisher, e ainda, no mesmo ano, aquele que seria o primeiro de uma série de filmes de horror protagonizados por sir Christopher Lee, intitulado Drácula. De resto, um outro actor ficara igualmente ligado à personagem criada por Bram Stoker, como o italiano Bela Lugosi, a ponto de chegar a dormir num caixão para se meter na pele do monstro.

Por fim, outras produções cinematográficas viriam à baila, entre as quais Noite Horripilante (1985), Entrevista com o Vampiro (1994), com a participação de Brad Pitt, Tom Cruise e António Banderas, seguida, num registo mais marcial ou coreográfico, por uma trilogia que, baseada numa série de banda desenhada (Blade/Marvel Comics), contaria com o desempenho de Weslley Snipes no papel de Blade (1998, 2002 e 2004).

Enfim, posto isto, debrucemo-nos então sobre a personagem criada por Bram Stoker, de cujo romance passamos a transcrever os Capítulos II e III.


(1) Cf. Jean Robin, La Véritable Mission du Comte de Saint-Germain, Guy TRÉDANIEL Éditeur, Collection «Initiation et Pouvoir», 1986. Quanto a Saint-Germain, consta que teria confessado «ao seu último amigo, o príncipe Carlos de Hesse, que era filho do príncipe Rakoczy, da Transilvânia, e da sua primeira mulher, uma Tekely» (cf. António Monteiro, A Ordem Rosacruz, Publicações Europa-América, p. 84). O conde de Saint-Germain, envolvido em denso mistério, fora, de facto, uma personagem real do século XVIII que encantou a corte de Luís XV, os salões de Paris e a alta aristocracia personificada pelo «marechal de Belle-Isle, [o] marquês de Beringhen, de la Poulinière, bem como [por] damas, como a velha marquesa de Urfé (que possuía um laboratório de alquimia), Madame Gerzy, Madame Marchais, princesa de Montauban, etc. O próprio rei Luís XV dedicou-lhe profunda amizade e a sua célebre amante, Madame de Pompadour, incentivava as suas visitas» (in A. Monteiro, ob. cit., p. 86). No entanto, «é impossível seguir um rasto estritamente histórico desta personagem do século XVIII. Annie Besant sabia, na verdade, quem era Saint-Germain, e, de certa maneira, o conde foi sincero quando se referira à sua infância e à fuga pelas florestas, com a cabeça a prémio. Foi, de facto, uma das encarnações de Christian Rosenkreuz.







O Ego que encarnou nestas duas personagens tinha sido, anteriormente, Lázaro, o amigo de Jesus; mais tarde foi Francis Bacon e, hoje em dia, está encarnado num descendente de uma velha família principesca da Europa Central, que, curiosamente, se celebrizou na época de Saint-Germain e que vive nos seus domínios, com cerca de quarenta anos, tranquila e discretamente.

E agora, ainda a propósito de Sir Francis Bacon, morto em 1626 e cujo corpo foi misteriosamente substituído por uma boneca de chumbo, conforme se verificou, mais tarde, ao abrir-se o túmulo: terá sido este filósofo o verdadeiro autor das famosas obras de teatro atribuídas a William Shakespeare, ele próprio Irmão Leigo da Ordem Rosacruz e seu amigo íntimo. Segundo Roger Facon, nos princípios deste século, o coronel Fabian, chefe dos serviços criptográficos do exército americano, bem como o general Cartier, seu homólogo francês, teriam decifrado, em textos de Shakespeare, as seguintes revelações de Bacon:

"Ainda que cercado, ameaçado, espiado, escrevi esta história completamente cifrada, plenamente convencido, em minha alma e consciência, de que o mundo inteiro quererá saber a verdade. O meu principal objectivo é escrever a história secreta da minha própria vida, simultaneamente com uma história verídica da época".

Mais adiante:

"Algumas obras já publicadas, e de que sou o autor, trazem o nome de William Shakespeare; como já produzi um certo número de peças para o seu teatro, continuarei a fazê-lo, pois que ele actua como se fosse escravo da minha vontade. O meu nome não acompanha nenhuma das peças, mas muitas vezes aparece em cifra, que espíritos hábeis traduzirão"» (in ob. cit., pp. 88-89).

Miguel Bruno Duarte





Drácula


DIÁRIO DE JONATHAN HARKER

5 de Maio


Creio que adormeci, pois sem isso como poderia deixar de ficar impressionado com o admirável aspecto deste castelo? De noite, o pátio parecera-me de grandes dimensões. De cada lado, diversas passagens conduziam para arcos imensos, e eram provavelmente essas arcadas que davam, ao conjunto, uma grandeza majestosa. Durante todo o dia não tive ocasião para voltar a ver o pátio.

Quando a caleça parou, o cocheiro ajudou-me a descer, e de novo senti a sua força prodigiosa. A sua mão era como uma tenaz de aço, e se tivesse querido, esmagar-me-ia o braço com a maior das facilidades. Pegou nas minhas bagagens, pousou-as a meu lado e voltou a subir para o seu lugar. Os cavalos partiram imediatamente e a caleça desapareceu sob um dos arcos que a escuridão parcialmente envolvia. Encontrei-me diante de uma porta muito antiga, com grossos pregos de ferro. Notei confusamente que o enquadramento da porta era de pedra maciça, esculpida mas muito gasta pelo tempo e pelas intempéries.

Bela Lugosi


Fiquei um tanto indeciso, perguntando a mim mesmo o que devia fazer: não havia sineta nem aldraba com que pudesse avisar da minha presença. Poderia tentar gritar, mas era pouco verosímil que me ouvissem para além daquelas paredes espessas e das janelas dissimuladas na escuridão. Esperei, durante um tempo que me pareceu longo. Sentia-me novamente invadido por um receio inexplicável, que me mergulhava na angústia. Em que curioso caminho me havia metido, e diante de quem iria encontrar-me? Em que sinistra aventura me arriscara inconsideradamente? Decerto não era um incidente habitual na vida de um empregado de solicitador, que vinha para negociar, com um desconhecido, a compra de uma propriedade situada nos arredores de Londres. Empregado de solicitador! Mina não teria gostado disso. Solicitador, de facto. Algumas horas mais cedo havia sido informado do bom êxito do meu exame. Era, naquele momento, um verdadeiro solicitador! Esfreguei os olhos e belisquei um braço, para me convencer de que não estava a viver um pesadelo. Não seria a primeira vez que eu adormecia, ao cabo de um dia de trabalho intenso. Mas naquele momento estava bem acordado, e como sentia a dor dos beliscões, não podia haver enganos. Portanto, não havia dúvidas de que me encontrava nos Cárpatos. Tudo o que me restava era esperar o nascer do dia.

Encontrava-me neste ponto das minhas reflexões quando ouvi passos pesados que se aproximavam da porta, vindos do interior. Por uma fenda, avistei ao mesmo tempo um raio de luz. Ouvi ruído de correntes; uma chave girou com dificuldade na fechadura que, sem dúvida, não funcionava havia muito tempo. E a grande porta abriu-se.

Vi diante de mim um impressionante velho, de compridos bigodes brancos. Estava vestido de preto, dos pés à cabeça, sem a mais pequena nota de cor nas suas roupas. Segurava na mão uma lanterna de prata, na qual brilhava a luz que nenhum vidro protegia, e que oscilava, projectando em volta grandes sombras móveis. Com um gesto amável, o velho convidou-me a entrar e disse-me, num excelente inglês que todavia tinha estranhos acentos:

- Seja bem-vindo. Entre à vontade.

Não deu um só passo ao meu encontro e ficou hirto, imóvel como se o acolhimento que me dera o houvesse petrificado. Mas, assim que transpus o limiar, precipitou-se e tomou-me a mão, com tal força que quase me fez gritar de dor. Além disso, o contacto deu-me a impressão de ter tocado num pedaço de gelo. A mão dele parecia mais a de um morto do que a de uma criatura viva. Repetiu:

- Seja bem-vindo. Entre à vontade. E consinta em deixar em minha casa um pouco da felicidade que traz!







O aperto de mão, brutal, lembrou-me o do cocheiro cuja cara eu não tinha visto. Perguntei a mim mesmo se não estaria a falar com a mesma personagem. Para acabar com as dúvidas, disse bruscamente:

- O conde Drácula?

- Sim, sou Drácula e renovo os meus cumprimentos de boas-vindas, Harker. Entre, a noite está fria e deve ter necessidade de se restaurar.

Enquanto falava, pousou a lâmpada sobre uma base e foi buscar as minhas malas. Antes que eu tivesse tempo para me antecipar, trouxe-as para o corredor.

Tentei protestar, mas ele insistiu:

- Não, caro senhor. É meu convidado. É tarde, e todos os meus criados descansam. Vou conduzi-lo, pessoalmente, aos seus aposentos.

Quis absolutamente levar as minhas malas e subiu uma grande escada de caracol, tomando depois por um corredor ao fundo do qual abriu uma pesada porta. Senti-me imediatamente reconfortado por me encontrar numa sala acolhedora onde estava uma mesa posta. A lenha ardia na chaminé, alegrando a casa.

O conde parou, pousou as minhas malas no chão, fechou a porta e, atravessando a sala, abriu outra porta que comunicava com um pequeno quarto octogonal, iluminado por uma única lâmpada e sem qualquer janela. O conde abriu ainda outra porta e convidou-me a precedê-lo. Tive então uma agradável surpresa; encontrei-me num grande quarto de dormir, brilhantemente iluminado e aquecido, como a sala, por um fogo de lenha que decerto fora aceso pouco antes. Foi ainda o meu hospedeiro quem trouxe as minhas bagagens, dizendo-me, antes de fechar a porta:

- Depois de uma viagem tão fatigante deve ter necessidade de cuidar da sua “toilette”. Encontrará aqui tudo aquilo de que precisar. Quando estiver pronto, volte à outra sala onde a ceia estará preparada.






A luz, o calor, o cortês acolhimento do conde, formavam um conjunto muito agradável que rapidamente dissipou as minhas angústias. Eu tinha recuperado todo o meu sangue-frio, mas estava meio morto de fome. Assim, depois de uma “toilette”, voltei à sala onde estava a mesa posta.

Encontrei a refeição preparada. O meu hospedeiro, apoiado num ângulo da enorme chaminé, fez um gesto amável na direcção da mesa e disse-me:

- Queira sentar-se e cear, meu caro senhor. Desculpar-me-á por não compartilhar da sua refeição, mas tinha jantado pouco antes da sua chegada, e agora ser-me-ia difícil acompanhá-lo.

Entreguei-lhe a carta que Hawkins me encarregara de lhe levar. Abriu-a, leu-a pausadamente e, com um agradável sorriso, restituiu-ma para que eu a lesse por minha vez. Uma passagem da carta deu-me verdadeiro prazer:

Lamento vivamente que um ataque de gota – a doença que constantemente me martiriza – me prive do prazer de o visitar pessoalmente, mas tenho a sorte de poder fazer-me substituir por alguém que tem toda a minha confiança. É um jovem enérgico, sempre senhor das suas acções e que é a discrição personificada. Quase que cresceu no meu cartório. Está pronto a receber a suas instruções e a segui-las sempre que quiser dar-lhas.

O conde aproximou-se da mesa, e ele mesmo levantou a tampa de uma travessa. Tive então a ocasião de apreciar um excelente frango assado. A este prato de óptimo gosto vieram acrescentar-se um saboroso queijo, uma salada e uma garrafa de velho vinho de Tokay, do qual bebi apenas dois copos. Eis o resumo completo da minha primeira refeição no castelo. O conde fez-me diversas perguntas sobre a maneira como decorrera a minha viagem. Narrei-lhe em pormenor todos os incidentes que a haviam entretecido. E, quando acabei a minha narrativa, tinha acabado também a minha ceia.



O meu hospedeiro convidou-me a aproximar-me do lume e ofereceu-me um charuto, desculpando-se por ele próprio não fumar. A dizer a verdade, era aquela uma excelente ocasião para o observar. E, de entrada, achei que tinha uma expressão particularmente cruel.

Na sua cara notava-se, antes do mais, um nariz aquilino, de narinas bastante largas; a testa, alta e convexa, coroava-se por uma cabeleira que só era abundante em volta da cabeça, pois a parte da frente estava bastante desguarnecida. As sobrancelhas juntavam-se sobre o nariz e pareciam sobrepor-se, tão densas eram. A boca – ou o que eu podia ver dela, sob os compridos bigodes – tinham uma expressão quase brutal, descobria dentes invulgarmente brancos e agudos, que sobressaíam dos lábios. Estes eram de um vermelho vivo, o que indicava uma vitalidade extraordinária num homem de tal idade. As orelhas, sem cor, terminavam em bico; o queixo, voluntarioso, traduzia uma determinação e uma energia pouco comuns. Mas o que mais impressionava, na cara dele, era a extrema palidez.

Logo de princípio eu havia notado as mãos dele. Tinham-me parecido compridas e finas, quando as cruzara sobre os joelhos. Mas agora que as via de mais perto e não estavam iluminadas pelos reflexos do lume, pareciam-me espessas e grosseiras, com dedos curtos. Uma coisa me pareceu estranha: as palmas das mãos estavam cobertas de pêlos. Quanto às unhas, estavam cortadas em bico. Assim, quando o conde se debruçou para mim, não pude reprimir um breve estremecimento. No momento em que ele ia tocar-me, senti uma espécie de repulsa que me esforcei por disfarçar, mas que o meu hospedeiro notou. Recuou um passo, esboçando um sorriso que me pareceu de mau agoiro. O sorriso permitiu-me ver melhor os seus dentes salientes. Ele foi tranquilamente retomar o seu lugar no ângulo da chaminé. Ficámos calados. Olhei maquinalmente para a janela e vi surgir as primeiras claridades da aurora. Um estranho silêncio pesava sobre todas as coisas, mas prestando atenção pareceu-me distinguir ao longe os uivos dos lobos, que subiam das profundidades do vale. Os olhos do conde puseram-se a brilhar, enquanto ele comentava:


- Ouve-os? São os filhos da noite. Que música agradável! Suponho que ele leu alguma surpresa na minha expressão, porque acrescentou imediatamente:

- Ah, meu caro senhor! Um habitante das cidades nunca poderá compreender as reacções de um caçador.

Com estas palavras, levantou-se e mudou de assunto:

- Deve estar fatigado. O seu quarto está pronto e, amanhã, poderá dormir tanto tempo quanto quiser. Pelo que me diz respeito, serei obrigado a ausentar-me até ao princípio da tarde. Portanto, durma bem e tenha belos sonhos!

Depois, inclinando-se sempre tão cortesmente como quando da minha chegada, abriu a porta do pequeno quarto octogonal e afastou-se para me deixar passar. Entrei no meu quarto…

Eis-me mergulhado num oceano de dúvidas e receios. Sinto-me envolvido num turbilhão de impressões contraditórias. Nem sequer ouso confessar a mim próprio, abertamente, que tenho medo. Deus me defenda, ainda que não seja senão para não entristecer os que me são queridos (in ob. cit., pp. 27-33).














Continua


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