quarta-feira, 8 de maio de 2019

Ensaio sobre o que é o pensamento

Escrito por Orlando Vitorino





«Estranho é também atribuir geração aos seres eternos ou antes isso é uma das coisas impossíveis. Não há necessidade de pôr em dúvida se os pitagóricos lhes atribuem ou não geração, pois claramente afirmam que, quando o uno se consolidou quer a partir de planos, quer da superfície ou de um gérmen ou de elementos que eles não são capazes de exprimir, logo a parte mais próxima do ilimitado começou a ser atraída e limitada pelo limite.»


Aristóteles Met. N 3, 1091 a 12 (DK 58 B 26).


«Parménides de Eleia, filho de Pires, foi discípulo de Xenófanes (e este, segundo Teofrasto, no seu Epítome, foi-o de Anaximadro). Mas apesar de discípulo de Xenófanes, não o seguiu. Juntou-se também, como refere Sócion, ao pitagórico Amínias, filho de Dioquetas, homem pobre mas nobre, a quem preferiu seguir. Quando Amínias morreu, Parménides, que provinha de uma ilustre família e era rico, mandou erigir-lhe um templo. Foi graças a Amínias, e não a Xenófanes, que ele se converteu à vida contemplativa… Atingiu a sua plenitude na sexagésima Olimpíada [sc. 500 a. C.]… Também se diz que estabeleceu leis para os cidadãos de Eleia, segundo refere Espeusipo na sua obra Sobre os filósofos.»

Diógenes Laércio IX, 21-3 (DK 28 A 1).


«Aristóteles foi durante séculos considerado o fundador da lógica, e só há poucos decénios pretenderam os eruditos destituir a sua fama de tão honroso mérito. Efectivamente, se para seu ensino exotérico Aristóteles compendiou, em livros mais conhecidos, as normas da gramática, da retórica e da dialéctica, em resultado de estudo sobre as obras dos seus antecessores, no ensino superior, ou acroamático, distinguiu as formas de pensamento apropriadas à realidade sensível e suprassensível, em termos difíceis de interpretar, exactamente porque constitutivos de uma ciência nova. A discussão deste problema de história da filosofia depende do que entendermos por lógica e por logos. Se considerarmos a lógica como uma doutrina fixa, normativa e esquemática, teremos de concluir que fora dela se situa o elemento de sensação e de inquietação que caracteriza e explica a alma humana; se, pelo contrário, soubermos ver na lógica a doutrina da modalidade mental, explicável pela finalidade das formas intelectivas, relegaremos para segundo lugar a agitação menos significante de ingredientes subjectivos no pensamento humano. Entre a lógica normal, que abstraída da gramática, da retórica e da dialéctica, regula apenas a coerência do discurso, e a lógica formal, ou morfologia das articulações intelectivas, há-de o estudioso optar como se estivesse no ponto crucial da filosofia.

Quem souber ler, com suficiente atenção, os escritos aristotélicos poderá interpretá-los como elementos dispersos de uma cerrada polémica contra todas as doutrinas da imobilidade. É certo que, nos estudos triviais, Aristóteles exige a obediência ao preceito da identidade, segundo o qual a substância do discurso, aquilo de que se fala, ou o sujeito, não deve ser alterado por qualquer processo de sofismação. Se durante o discurso esquecermos a substância, alterando ou adulterando a acepção da mesma palavra, perderemos o ponto fixo a que deveríamos articular os processos discursivos e intelectivos. Esta exigência de respeito pela memória mostra apenas que a mobilidade pressupõe um imóvel mentado, como termo de pensamento humano. Não é lícito atribuir alcance ontológico, substancialista ou substantivista, a um mero preceito útil da disciplina trivial. O sujeito do discurso não é por isso mesmo, - pode ser ou deixar de ser, - a substância real.

Aristóteles polemiza contra a doutrina da imobilidade professada por Parménides, segundo a qual o ser é uno, indiviso ou átomo. Ainda que tal fosse, seria indispensável explicar por que é que, uno na essência, seja também vário e plural nas aparências. Neste primeiro exemplo se vê o mérito de Aristóteles ao mostrar as leis da inteligência: assim, para a nossa intelecção, a unidade está sujeita à divisão espacial, e nesse caso cinde-se em dois elementos, ou está sujeita à distinção mental pela negação dialéctica que opõe o não-ser ao ser. A contradição, quer incida sobre a cópula, quer sobre o predicado, determina os extremos ou contrários. Este processo lógico de exigir o segundo elemento, ou o segundo princípio, aos fisiologistas que se contentam com a unidade da substância material, é constantemente aplicado por Aristóteles, no seu intento de explicar a manifestação, a geração e a corrupção. Assim como o sujeito nada diz, não constitui discurso, se não tiver predicado, assim a substância, ou a matéria, nada explica sem a forma.

Aristóteles polemiza também contra os filósofos que admitem a imobilidade na pluralidade finita dos seres. Assim, os números de Pitágoras, os átomos de Demócrito, as ideias de Platão, imóveis por postulado, incorruptíveis e eternas como os deuses, exigem outro princípio ou outro elemento que explique a mobilidade aparente no mundo sensível. São elementos simples, mas os compostos formam-se e configuram-se pela intervenção de outro elemento. Fixados em quadros, os números, as figuras geométricas e os substantivos designadores de ideias prestam-nos um excelente serviço mnemónico e didáctico, mas induzem-nos no erro de que o movimento é finito e consiste na deslocação. O movimento ficará reduzido à mudança de ponto para ponto, de lugar para lugar, ou de estado para estado. Contra esta noção de movimento descontínuo, relativo e exterior, protesta toda a obra de Aristóteles para demonstrar que todas as figuras resultam, afinal, de formas em contínua evolução.




Estátuas de Platão e Atenas




Descendo a série dos números inteiros, de um até dez, para estabelecer por limite a década pitagórica, é-nos possível constituir uma escala, ou uma escada, ou um trono sobre o qual outros símbolos podem ser colocados por correspondência ou conveniência. A memória há-de assim fixar pela matemática, ou pela matesiologia, os suportes indispensáveis ao esforço da lembrança e da reminiscência. Esta figuração não pode, porém, ser entendida sem estabelecer, ou restabelecer, o movimento da actividade mental que reconhece, se não pratica, as operações elementares da aritmética, e esse factor intelectivo de divisão, de dedução ou de multiplicação é já um complemento gnosiológico.

A crítica aristotélica que mais abunda de argumentos contra as doutrinas da imobilidade é aquela que incide sobre a relação das ideias de Platão com as coisas denominadas ou definidas. Efectivamente, a quantidade das ideias não poderá ser limitada pelo número se desejarmos uma correspondência com os seres produzidos por acaso, por arte ou por natureza neste mundo sublunar. As ideias não são nomes, nem classes, nem géneros. Depois, a relação entre as ideias inteligíveis e os entes sensíveis é difícil de interpretar e de entender, já que a doutrina da participação, aceitável por análoga com a predicação ética, de origem socrática, não abre caminho para o pensamento categorial, de ampla fecundidade científica.»

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).


«Nunca foi nem será, pois agora é como um todo, um só, contínuo. Pois que origem lhe poderás buscar? Como e donde cresceu? Não te permitirei que digas ou que penses a partir do que não é: pois é indizível e impensável o que não é; e que necessidade o teria levado a surgir mais tarde, em vez de mais cedo, se viesse do nada? Assim, força é ou que seja inteiramente, ou absolutamente nada. Nem a força da persuasão consentirá que, junto do que é, algo possa surgir alguma vez do que não é. Por isso a Justiça jamais soltou as grilhetas para lhe permitir nascer ou perecer, antes as segura firmemente. E a decisão acerca disto reside no seguinte: é ou não é. Mas decidido está, de facto, como é necessário, abandonar um dos caminhos por impensável e inexprimível (pois não é caminho verdadeiro), mas que o outro é real e autêntico. E como poderia ser no futuro o que é? Como poderia gerar-se? É que, se se gerou, não é: nem é, se alguma vez vier a ser no futuro. Assim se extingue a geração, e a destruição é coisa inaudita.»

Fr. 8, 5-21, Simplício in Phys. 78, 5; 145, 5.


«Dogmáticos e cépticos, monistas e pluralistas, concordam ao admitir o nexo da mobilidade com a sensibilidade e facilmente reconhecem que refutada uma logo fica refutada a outra. Tal era, aliás, a tendência dos filósofos gregos: negar a realidade do mundo sensível e, consequentemente, negar a realidade do movimento. Aristóteles distinguiu-se como filósofo ao querer interpretar e explicar o que os dialectas e os sofistas se contentavam com negar e refutar. A particularidade do sentido, ainda que nominada ou numerada não constitui substância ou suporte para a ciência. É, porém, um estímulo incessante para a inquietação humana, que se explica na acção exterior como na acção interior. Fora da nossa consciência, ou dentro dela, o movimento existe como realidade inegável. Movimento absoluto, afirmado ou negado pelo verbo ser, sem predicados, atributos ou epítetos, é tema inesgotável das doutrinas ontologistas. A Aristóteles interessava, porém, afirmar a existência, que é o modo de ser predicável no tempo e no espaço, e constituir aquela lógica superior que se caracteriza por afirmar a mobilidade não já do sensível, mas do inteligível, como processo único de explicar que em todos os modos de ser, humanos, naturais e divinos, a forma gera a figura. De tudo quanto fica antecedentemente exposto resulta que a filosofia de Aristóteles não poderia progredir sem prévia refutação da escola eleática.

A cidade de Eleia estava situada ao sul da costa ocidental da Itália, então Grande Grécia. Fundada por Parménides e constituída pelos seus discípulos, a escola eleática ensinava a unidade do ser e opunha-se à doutrina da pluralidade numérica, afirmada por Pitágoras de Samos. A divisão da unidade, operação intelectiva que os pitagóricos admitiam e que, na sequência racional, permitira também a divisão das figuras geométricas, para demonstração das respectivas propriedades, abria caminho para a tese da possibilidade de determinação dos fenómenos físicos e dos fenómenos da Natura. Zenão de Eleia, discípulo de Parménides, considerado pelos historiadores da filosofia como fundador da dialéctica, viveu no século V a. C. Teria cerca de 40 anos quando acompanhou seu velho mestre Parménides em viagem à cidade de Atenas, e a este facto ocorrido entre 451-459 assistiu o jovem Sócrates. Tal encontro foi proveitoso para quem aprendeu a arte de refutação dos sofistas. Zenão teria lido, copiado e meditado o poema de Parménides que tem por título Sobre a Física, mas excedeu o mestre ao revelar-se um invulgar espírito analítico no modo de examinar os argumentos da retórica brilhante e fulgurante que era usada pelos sofistas, a julgar pelos testemunhos que nos deixaram os doxógrafos tais como Platão, Aristóteles, Eudemo e Simplicius.

Zenão de Eleia ter-se-ia celebrizado por um tipo de argumentação que consistia em demonstrar a ininteligibilidade, e portanto o absurdo, do movimento. Os argumentos incidem sobre os exemplos do movimento mais simples, isto é, do movimento de deslocação. Para melhor entendimento dos seus ouvintes, Zenão de Eleia escolheu o movimento terra-a-terra, espacial, superficial, horizontal, usando de imagens perfeitamente acessíveis ao homem da rua. É o movimento ao alcance dos olhos, como no exemplo da flecha. Eros, figurado com asas, é substituído por Aquiles, o de pé leve. Como sempre, a desmitificação dá-se em proveito da evemerização, para que o celestial seja explicado pelo terreal.»

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).





«Por isso é justo que o que é não deva ser imperfeito; pois de nada precisa - se assim não fosse, de tudo careceria. A mesma coisa é pensar e é por isso que há pensamento. Pois, em tudo o que se disse [ou "em que o pensar está expresso"], não encontrarás o pensar sem o que é. Nada há ou haverá para além do que é, visto que o Destino o acorrentou por forma a ser um todo inamovível. Por isso tem sido chamado todos os nomes que os mortais lhe puseram, convencidos de que esses nomes eram verdadeiros - gerar-se e destruir-se, ser e não ser, mudar de lugar e alterar a cor brilhante. Mas uma vez que há um limite extremo, está completo, como a massa de uma esfera bem rotunda de todos os lados, em igual equilíbrio em todas as direcções a partir do centro. Pois força é que não seja um tanto maior ou um tanto menor num ou noutro ponto. De facto, nem há não-ser, que o impeça de atingir o seu igual, nem há ser de uma forma tal, que seja mais num lado e menos noutro, pois é todo inviolável: é que por ser igual a si mesmo por todos os lados, encontra-se uniformemente nos seus limites.»

Fr. 8, 32-49, Simplício in Phys. 146, 5.


«Para comodidade do leitor, vamos transcrever os argumentos de Zenão de Eleia, conforme o texto dado por Aristóteles no livro da Física. Urge que o estudante os apreenda e os aprenda até ao ponto de os fixar de memória para os enunciar facilmente em qualquer oportunidade de controvérsia filosófica. Antepomos aos argumentos umas paráfrases que os tornem mais inteligíveis às pessoas ainda não habituadas a tão abstractos processos de dialéctica. Devemos, porém, notar que os argumentos não são constituídos por processos de sofismação, tais como o uso de homonímias, equívocos, falsificação de definições, subterfúgios, abuso de anfibolias, etc. Zenão de Eleia, tão leal na admissão das premissas como correcto na extracção das conclusões, não infringiu de modo algum as leis do pensamento dialéctico, e não pode ser justamente apodado de sofista. A sua argumentação límpida e forte poderá causar surpresa aos desprevenidos, mas tem por fim demonstrar que um erro existe na noção pitagórica de movimento.


1.º Argumento: A dicotomia


Vemos que sempre um móvel chega ao fim do seu percurso, como, por exemplo, uma pedra mandada ou arremessada pela mão. Não poderemos, porém, prever que ele chegue ao fim do percurso, se nos detivermos a pensar que o móvel terá de passar pelo meio do espaço a percorrer, por metade do meio, e assim sucessivamente. A divisão não tem fim. Há um abismo que é impossível ao móvel transpor.

Tradução do texto de Aristóteles:


"O primeiro argumento, o argumento dicotómico, conclui a impossibilidade do movimento de que o móvel transportado há-de chegar primeiro à metade do que ao termo".


2.º Argumento: Aquiles


Vemos que um corredor mais veloz alcança sempre outro mais vagaroso. Não poderemos, porém, dizer que ele o atinge, se pensarmos que entre um e outro, há uma distância a percorrer. Aquiles, o herói de pés leves, por mais rápido corredor que seja, nunca alcançará a lenta tartaruga, que partiu à frente. A razão é a seguinte. Enquanto Aquiles chega ao ponto onde está a tartaruga, esta avança, por pouco que seja. Há sempre uma distância, uma diferença, que vai diminuindo, a favor da tartaruga. Mas como não há limite para esta diminuição, sempre Aquiles ficará atrás.


Tradução do texto de Aristóteles:


"O segundo é o argumento Aquiles. Ei-lo. O mais lento na carreira nunca será alcançado pelo mais rápido, porque aquele que persegue deve sempre alcançar o primeiro ponto de que partiu aquele que foge, com o que sempre o mais lento tem alguma vantagem. É o raciocínio idêntico ao da dicotomia, com a diferença de que a dimensão sucessivamente alcançada e dividida não o é em dois. Como na dicotomia, conclui-se que não se pode chegar ao limite, dividindo a magnitude de um ou outro modo, mas aqui acrescenta-se que o muito rápido não pode alcançar o muito lento".


3.º Argumento: A flecha


Vemos que uma flecha voa para atingir o alvo. Não poderemos, porém, dizer que ela o atinge, se pensarmos que ela ocupa sempre um espaço igual a si própria, espaço indivisível, e se o ocupa sempre, não se move. Não há movimento.

Para ocupar dois espaços sucessivos, precisaria de dois instantes: mas no primeiro está num espaço no segundo está noutro espaço. O movimento é uma ilusão.


Tradução do texto de Aristóteles:


"O terceiro argumento pretende que a flecha que voa está imóvel, consequência de supor que o tempo se compõe de instantes".
4.º Argumento: O Estádio


Vemos que dois corredores, caminhando em direcções contrárias dentro do estádio, passam um pelo outro ao mesmo tempo. Não poderemos, todavia, dizer que tal acontece, porque há uma ilusão. Efectivamente, se pensarmos que um deles corre em relação ao estádio durante certo tempo, teremos de concluir que corre em relação ao outro durante um tempo duplo. Ora o mesmo tempo do primeiro corredor é simples em relação ao estádio, ou ao estado, ou ao imóvel, e duplo em relação ao outro corredor, o que é absurdo.


Tradução do texto de Aristóteles:


"O quarto argumento, que trata de massas iguais, as quais se movem em sentido contrário ao largo de outras massas iguais, no estádio, umas partindo do fim, outras do meio, com velocidade igual, pretende deduzir a consequência de que metade do tempo é igual ao seu dobro".

Para bem interpretar as "aporias" de Zenão de Eleia, convirá ter sempre em mente que elas foram dirigidas contra a doutrina dos pitagóricos. Ao afirmar a continuidade do ser, o eleata não pode admitir que um seja dois, ou mais, isto é, que a unidade seja dividida ou divisível. A divisão será sempre contrariedade, contradição, oposição do não-ser ao ser. A dialéctica não se compadece com qualquer distinção modal ou categorial; assim se opõe também à quantidade e ao número que a determina.

Admitindo de cada vez uma hipótese contrária, com ela acertando a configuração estilística do novo argumento, Zenão de Eleia pergunta sempre como é que o móvel pode passar de um lugar para outro lugar, sem contradição. A série de lugares, estados ou estações que o móvel tem de percorrer, e que significam, aliás, estacionamentos, figura-se na escrita por uma série de letras e de espaços, ou no desenho por uma série de pontos, entre os quais existem os respectivos intervalos. Subjacente ao móvel haveria, pois, o pleno e o vazio, a impenetrabilidade e a penetrabilidade, o extenso e o inextenso, enfim, os contrários.

Acusado de admitir sucessivamente duas teses contraditórias, isto é, uma inconsequência, não se perturba, agasta ou ofende o pensador sincero que em tal advertência reconhece a chamada para terceira via de afirmação. Cumpre-lhe, por isso, manter a serenidade bastante para analisar os termos da contradição proposta pelo adversário. Assim procedeu Aristóteles na refutação de Zenão de Eleia.

Não nos competindo já apreciar a dialéctica, nem insistir em que ela torna impossível a ciência ao reduzir todas as oposições a contradições, todas as contradições à do ser e do não ser, e consequentemente, a fazer prevalecer uma ontologia, teremos de ver que na distinção modal, já indicada por Platão mas constituída por Aristóteles, está o princípio de toda a matesiologia. As noções matemáticas constituem-se já em plano superior ao da dialéctica, da retórica e da gramática, parecem infringir as normas do discurso ou da discussão, vão para além dos princípios trivialmente chamados de identidade, de contradição e de terceiro excluído. A aritmética estabelecendo a série, o progresso ou a progressão dos números, e designando por verbos as operações essenciais, representa, com muita propriedade, a primeira arte do quadrívio.

Aristóteles conhecia certamente toda a matemática do seu tempo, conforme é lícito inferir dos vestígios deixados nos livros que lhe são atribuídos. O filósofo foi, porém, mais longe do que os professores: estabeleceu os princípios lógicos da matemática segundo uma doutrina simples que se articula racionalmente em todo o seu sistema do saber. Separando os números, e as figuras geométricas para os considerar diferentes das substâncias do mundo sensível, subordina-os principalmente à categoria de relação para os estudar segundo um método que não difere radicalmente da análise moderna. As relações entre números significam ou exprimem operações. A transição do número para a figura geométrica realiza-se pelo acto de construção. O descobrimento de propriedades das figuras geométricas, e, portanto, das relações numéricas ou aritméticas implícitas, realiza-se por transição da potência ao acto, mediante uma linha que separa, ou divide, espaços confusos. Aristóteles ensina, em vários textos que conviria reunir, como é que o pensamento humano procede na construção e no desenvolvimento das ciências matemáticas, sem aceitar a ontologia dos pitagóricos, que desvaloriza o mundo sensível, e sem referir o movimento às figuras, aos ídolos ou às ideias.

Importa agora mostrar como que é Aristóteles interpreta e refuta os argumentos de Zenão de Eleia contra a inteligibilidade da deslocação ou da mudança de lugar. No livro IV da Física existe um capítulo que trata do lugar e do tempo, onde se lê:

"A dificuldade de Zenão tem de ser discutida, pois se todo o ente ocupa um lugar, também o lugar, que é um ente, ocupa um lugar, e assim sucessivamente".

Esta dificuldade é resolvida aristotelicamente pelo método de verificar as várias acepções que uma palavra pode ter ao longo do discurso. Dizer ocupa um lugar, ou está em, é um modo cuja repetição há-de concretizar-se ou determinar-se pelas sucessivas categorias. Existe um sofisma onde o progresso da expressão não corresponde ao progresso do pensamento.

No livro VI da Física expõe Aristóteles a refutação dos argumentos citados, mas a dificuldade do intérprete consiste em aceitar a nomenclatura para a tornar inteligível aos leitores que hajam sofrido as exigências da ciência moderna. Procuraremos seguir de perto o texto.
Contra o argumento da dicotomia, alega Aristóteles que o espaço e o tempo não estão infinitamente divididos, mas caracterizam-se pela sua infinita divisibilidade, o que não acontece aos outros seres. Assim o tempo tem elementos em número infinito.

"De aqui o erro de raciocínio de Zenão, quando supõe que os infinitos não podem ser percorridos sucessivamente, cada um em tempo finito. Com efeito, a extensão e o tempo, e em geral todo o contínuo dizem-se infinitos em duas acepções, seja em divisão, seja com respeito aos seres extremos. Nada há de absurdo, pois, em que se percorra o infinito em um tempo finito, e o infinito existe semelhantemente na grandeza e no tempo".

Contra o argumento de Aquiles, alega Aristóteles que ele é da mesma ordem que o antecedente, com a diferença de que no primeiro o divisor é sempre 2, de onde obteve o nome, enquanto no segundo o divisor está indefinido, porque depende da distância concedida à tartaruga. Se o encontro vier a ser um facto, porque a distância a percorrer é finita, o facto dará prova de que é ilusória a divisão do tempo e do espaço. É preciso ultrapassar ou anular os limites. Esta argumentação de Aristóteles tornar-se-á clara para quem vir a relação do finito com o infinito, que resulta da divisão. Ela pode ter representação geométrica no teorema de Tales de Mileto, que estabelece a lei das figuras proporcionais. É o triângulo de base indefinida, imagem do trono, da escada e da escala.

Contra o argumento da flecha, nega Aristóteles que o tempo seja composto de instantes. Se o tempo não é composto, não há instantes ou momentos de repouso, o que significa que o movimento é contínuo. Aristóteles teve o cuidado de definir a significação da palavra continuidade. Contínuo é aquilo que tanto se pode dividir por aqui ou por ali, visto que não tem partes nem estrutura. Além disso, há que estabelecer a distinção modal entre passar, estar e ser, já que o estado é parcial, enquanto o ser é total. A relação entre a parte e o todo não é uma relação de contrariedade, nem causa de contradição.

Contra o argumento do estádio, alega Aristóteles que seja falso que uma grandeza igual, com uma velocidade igual, se mova em um tempo igual, tanto ao longo do que é movido como ao longo do que está em repouso.

Estes dois argumentos têm de comum o mostrarem a relatividade do movimento, quer dizer, a ignorância da quietação, de qual o termo quieto, ou o ponto fixo.

A refutação aristotélica dos argumentos de Zenão de Eleia contra a inteligibilidade do movimento de deslocação assume especial importância científica por ser a mostração de um esquema representativo das aplicações da mecânica à indústria. A composição das peças de modo a facilitar a recíproca movimentação, pressupõe um ponto fixo, ou ponto de apoio, mas também a máquina se caracteriza por lhe ser exterior o princípio de movimento. A história da aplicação do mecanismo às actividades industriais e às investigações científicas regista êxitos que, pelo menos, demonstram a utilidade prática da representação pelas figuras mínimas fixadas nos seus lugares ou pela deslocação segundo uma ordem fixa e também espacial. A utilidade mnemónica deste esquema ao alcance da mentalidade pueril leva, porém, a opinião a estender para além dos domínios em que se encontra legitimamente circunscrita a abusiva intenção de deduzir geométrica ou mecanicamente todas as operações da vida e todas as estruturas da sociedade, e, mais ainda, de conduzir à dedução cronológica do processo histórico. Assim, por comparação com as séries descontínuas dos lugares, estados e estações ao longo dos quais poderemos representar-nos a deslocação de um móvel, construímos séries descontínuas de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, lustros, séculos, épocas, eras, etc., dentro dos quais figuramos os eventos que pretendemos narrar, interpretar e explicar. A verdade é, porém, que só o espaço foi desmitificado pela ordem geométrica e pela progressão aritmética dos pitagóricos; mas o tempo resiste a qualquer desmitificação conceitual.

A doutrina aristotélica, se admite a realidade do movimento de deslocação, que é o movimento relativo, quer dizer, da relação de um móvel com um imóvel, seja este o lugar ou o espaço, estuda-o porém numa ciência teorética de tipo matemático, metafísico ou teológico. Aristóteles reserva para a física o estudo dos seres que têm em si próprios o princípio do movimento, e quem diz princípio diz razão, causa, força, ou energia. Reagem contra a doutrina aristotélica todos quantos pretendem reduzir ao movimento de deslocação e, consequentemente, à situação privilegiada no lugar e no espaço, os movimentos reconhecidos pela física. Contra esta abstracção ou simplificação, defendem os aristotélicos a irredutibilidade das outras categorias de movimento, como a quantidade e a qualidade, para conferir inteligibilidade aos dados da observação, da experimentação e da construção.


Parthenon (Atenas).


Cada substância é, pois, dotada de vários movimentos, ou de várias categorias de movimento, que lhe permitem realizar a acção que lhe é própria. A doutrina aristotélica foi lucidamente posta em evidência por Leibniz quando este pensador, ao reagir contra o eleatismo, a dialéctica, o pitagorismo e o mecanismo dos sábios seus contemporâneos, estabeleceu a equação entre a substância e a força. Substância não é inércia. A substância não está em repouso, move-se para atingir um fim, e o carácter teleológico do movimento há-de ser mais ou menos declarado aí onde estiver latente a noção de conformidade, conveniência, valor.

Qualquer máquina, figuração singular e sensível de um mecanismo, estará subordinada ao fim preconcebido pelo constructor. As partes ou peças articulam-se para a unidade de um todo, mas coordenam-se e subordinam-se relativamente ao movimento, à força, à energia, que existe para além, ou para fora, da complexidade do engenho. A finalidade formal prevalece sobre a matéria figurativa, mensurável, resistente e fixa.

Admitamos, portanto, que movimento relativo, próprio da mecânica, facilita a representação esquemática das coisas, mas reconheçamos também que ele depende de outros movimentos, ou de movimentos de outra categoria, e concluamos que, em doutrina física, sem finalidade não pode haver inteligibilidade. Aqui se vê a semelhança da inteligência com enteléquia e teleologia. A energia, que significa acto, e a dunamis, que significa potência, completam a descrição explicativa do movimento próprio de cada ser. O movimento é já uma condição da liberdade, mas importa explicá-lo não só pela passagem através de sucessivos lugares, mas também pela aceitação dos modos de potência e acto.

Tal como o ser é dito com várias acepções, coordenáveis pelas categorias, também o agir se explicita em vários verbos que caracterizam os modos de ser das substâncias. A prioridade lógica do acto é um princípio director da doutrina aristotélica. Depois do agir consideremos o poder agir, e verificaremos também que o poder está restrito por várias acepções que são os modos. De aí a flutuação semântica entre potência e possibilidade, entre os poderosos e os possíveis. A noção de potência refuta e anula a noção de não-ser, ou de nada, ainda porque a dialéctica impugna a noção de origem. Se a substância fosse inerte, se não existisse para uma finalidade de acção ou de paixão, não observaríamos no tempo algo mais importante do que o eventual fluir, o frustrado ou logrado trânsito da potência ao acto. A finalidade esconde o tempo, mas encerra-o no seu conceito, como predicado a revelar.

O verbo passar, designativo de deslocação e significativo pela série figurativa dos lugares, não responde nem corresponde ao movimento próprio das substâncias. Ilusório será o quadro estante das idades, ou das fases, se dissermos que através dele passa identicamente o ser vivo. Mais do que ilusório, porque também erróneo e enganador, se dentro dele situarmos o ser humano. É que a doutrina do movimento, ou fisiologia, apela pelo seu complemento que é a morfologia.

Chama-se morfe, ou forma, ou alma aquela força que dentro da substância produz a série teleológica das figuras. Nunca poderá inteligir este segredo natural quem não der preferência intelectiva à cinemática da morfologia sobre a estática da anatomia, porque o estudo dos processos ascendentes de geração deve preceder o dos processos descendentes de corrupção. Já na própria gramática a morfologia significa o estudo, ou a inteligibilidade, das flexões e das variações que a palavra pode assumir. Depois na botânica a noção de metamorfose adquire primado explicativo sobre a análise, a descrição e a classificação das figuras que afinal existem por serem resultados das formas. É na antropologia, porém, que a atenção à alma, ou à forma, ou a morphe, mais clarifica e justifica a transição da potência ao acto, e a realização do acto até ao fim.»

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).


«Assim que Sócrates isto ouviu [a leitura que Zenão fizera do seu livro], pediu-lhe que lesse de novo a primeira hipótese do primeiro argumento. Após a leitura disse: "Que pretendes dizer com isso, Zenão? Se as coisas que existem são muitas, nesse caso força é que sejam semelhantes e dissemelhantes, o que é impossível - pois nem o que é dissemelhante pode ser semelhante, nem o que é semelhante, dissemelhante. Não é isto o que dizes?" - "Assim é", respondeu Zenão. - "Logo, se é impossível que o que é dissemelhante possa ser semelhante e o que é semelhante, dissemelhante, é também impossível que haja muitas coisas? Pois, se houvesse muitas coisas, estariam sujeitas a impossibilidades. É esta a finalidade dos teus argumentos - rebater precisamente tudo o que comummente se diz, que não há muitas coisas? E consideras tu cada um dos teus argumentos como prova desta mesma conclusão, de modo que, efectivamente, acreditas que aduzes tantas provas, de que não há muitas coisas, como os argumentos que escreveste? É isto o que dizes, ou não te estou eu a compreender correctamente?" - "Não", respondeu Zenão, "compreendeste lindamente a intenção de todo o tratado."»

Platão Parménides 127 D-128 A





«Aristóteles diz, no Sofista, que Empédocles foi o primeiro a descobrir a retórica e Zenão, a dialéctica.»

Diógenes Laércio VIII, 57 (DK 29 A 10).


«Não sabemos nós, portanto, que este eleático Palamedes argumenta com tal habilidade, que as mesmas coisas se afiguram aos seus ouvintes ao mesmo tempo semelhantes e dissemelhantes, uma só e muitas coisas, em repouso e em movimento?»

Platão, Fedro 261 D (Dk 29 a 13).


«(…) a meditação do que descrê e a assumpção da descrença, a meditação do ateísmo são momentos necessários da vida religiosa mais profunda. Esta, porém, não pode assumi-la a alma enganada e enganosa na relação com o corpo e o mundo, ou com a intuição e a razão de si inscientes, mas há-de assumir-se na relação mais funda da velada plenitude da alma e de todo o corpóreo, com o que não é, como vimos, nem alma, nem corpo, nem equívoca ou unilateral substância alguma, na união, dizemos, sempre cindida, e a todo o momento reatada, com o que se disse, onde veridicamente se disse, espírito, o qual, pelas razões expressas e a exprimir ainda, é em nós e para nós o insubstancial substante.»

José Marinho («Teoria do Ser e da Verdade»).


«Para além da razão existe a fé. Num livro de filosofia, o ponto da fé, quer dizer, de quietação e de segurança a que há-de ser referido o movimento da inteligência, nunca pode deixar de ser a existência de Deus. Há que afirmar Deus essente e existente, porque o crer ou acreditar em Deus, confiar nas suas ameaças ou nas suas promessas, implica já questões menores de arbitrária subjectividade. O ateísmo, como já foi dito, não passa de uma forma de analfabetismo, isto é, incapacidade de ler a designação e a significação de uma palavra sagrada.»




Ensaio sobre o que é o pensamento 


(para abertura da exposição das teses)


Chega um homem, muito velho em anos, os cabelos todos brancos, mas de postura elegante e nobre, um estrangeiro, de seu nome Parménides, vindo da cidade de Eleia, na Grande Grécia, chega e diz: “nada se move”. E o que diz é tomado a sério. Mais do que isso: dizê-lo deu origem à civilização. Como entender? Como é possível?

Quando, mais tarde, ele por sua vez já idoso, Sócrates – que foi a quem Parménides disse que nada se move – adverte Teodoro, que lhe trazia um outro estrangeiro, vindo também de Eleia, mas o qual escondeu ou guardou o nome, o adverte, dizíamos, de que se acautelasse pois nunca se sabe se um estrangeiro não é algum deus passeando-se entre os humanos, o que aconteceu ao que Parménides disse faz-nos compreender a advertência. E compreender também que, observando Teodoro ser o estrangeiro um filósofo, Sócrates tenha acrescentado que, então não seria talvez um deus, mas seria decerto divino, pois divinos são os filósofos, divina a filosofia. Milénios decorridos, o disse Pascoaes de Leonardo. A não ser assim, como entender haver chegado um homem a Atenas, haver dito que nada se move, coisa manifestamente absurda, e ser tomado a sério no momento em que, não só o disse, mas pelos séculos sem fim ter dado origem à filosofia e, com ela, à civilização?

Foi em casa de Pitodoro, em Atenas, que Parménides disse o que disse. Sócrates era ainda muito jovem, entroncado de corpo e feio de rosto. Já criara gosto e hábito de passear pelos lugares mais populosos e Santana Dionísio conta que, ao percorrer os mercados onde se ofereciam os mais deliciosos frutos dos campos e os mais cuidados produtos de arte, exclamava para consigo: “Tanta coisa há no mundo que eu não preciso!” Anos e anos correram. Lá longe, morreu Parménides, morreu Zenão que o acompanhara a Atenas e seus outros discípulos. Morreu Sócrates bebendo cicuta como o Tribunal do povo mandara em nome da democracia e da piedade pelos deuses que ainda não existiam, o mesmo Tribunal que, três séculos mais tarde, mandou crucificar Cristo em nome do falso deus. O mesmo que, ainda hoje, três milénios decorridos está sempre prestes a julgar, condenar, destruir e chamar a si o governo dos povos. Anos e anos correram pois, mais de cinquenta, contam os rigorosos, quando chegam também a Atenas, vindos de Clazomenes, cidade da Jónia no Golfo de Hermene, alguns homens que Céfalo, quem os traz, diz serem “grandes amadores da filosofia”. Vêm ouvir a narrativa do encontro em que Parménides dissera a Sócrates o que dissera. Já não é vivo nenhum dos que assistiram ao diálogo, mas Antifon, que se dedica agora à nobre arte da equitação, ouvira de Pitodoro o relato e dispõe-se de bom grado a reproduzir a Céfalo e seus amigos, palavra por palavra, o que haviam afirmado e respondido, durante longas horas, havia mais de cinquenta anos, Sócrates e também o seu companheiro Teeteto, Parménides e também seu discípulo Zenão, o dos quatro famosos argumentos, modelos de racionalidade, refutando a divisibilidade do tempo e do espaço em que se firma o movimento, resistindo a todas as críticas, continuando ainda hoje a fazer o desespero dos cientistas e fundando a dialéctica.

A Morte de Sócrates





Temos assim como Platão escreveu o que repetira a Céfalo depois de ter ouvido a Pitodoro que o escutara a quem o dissera. Quatro gerações. Quatro gerações ou a sucessão interminável dos homens? Ou acaso onde há memória não há história como Zenão dizia que não há tempo?

Não há tempo, não há espaço, nada se move… Como pode o pensamento que todos nós exercemos e com ele conhecemos a vivida realidade em que estamos envolvidos e nós próprios somos, como pode o pensamento entender? Esse pensamento que a todos os homens é dado pela mesma natureza e que, para acentuarmos como nos é natural, poderemos dizer ingénuo, como dizemos da criança ainda embalada no colo, entre os joelhos da mãe. Como pode ele entender? Esse pensamento que a soberba dos olímpicos filósofos desdenhosamente diz, não ingénuo, comum e vulgar. Ou acaso, se a filosofia é coisa séria, há vários pensamentos, várias formas ou modos de pensar, os que alcançam mais alto e os que voam rasteiro, o de todos nós, que é comum, vulgar ou ingénuo, e o da filosofia, que diremos filosófico, entre si tão diferentes como a luz e a sombra? E outros ainda, diferentes desses ambos, como o poético? Também o científico, caso este não seja um certo grau, mais complexo ou exigindo mais paciência, do pensamento ingénuo? Teremos então de concluir que o pensamento ingénuo é o dado e acessível a todos, que o pensamento poético é o dado a raros mas acessível a quase todos e que o pensamento filosófico é o dado a muito raros e a muito raros acessível? Este é todavia o que procede como o que mais importa e o de que depende, porventura deriva, não apenas todo o saber, mas até todo o real, como se comprova nisso de, vindo Parménides a Atenas, ter dito a Sócrates o que disse e daí haver surgido a civilização.

O pensamento comum resiste sempre a tamanha pretensão da filosofia o que terá retardado, para o último que surge, o aparecimento do pensamento filosófico, esse que emerge aí, no remoto diálogo com um estrangeiro muito velho em anos, de cabelos todos brancos mas de elegante e nobre figura, que vem afirmar que nada se move. Pois não se via o velho rodeado de corpos em movimento, desde os astros do céu aos vermes da terra? Não se movia ele próprio? E se o movimento é, como o mesmo pensamento filosófico afirmaria, a própria realidade, a própria vida, o mais real e o mais vivo, negá-lo não será, como viria a dizer Aristóteles, um acto de demência? Não deu ao velho a merecida e acertada resposta aquele grosseiro Diógenes, grosseiro mas a sempre celebrada figura em que o pensamento comum se revê, erguendo-se do escano e ensaiando alguns passos de cá para lá, de lá para cá, contente de si?

No entanto, Sócrates confidenciaria ter conhecido em Parménides “o mais respeitável e temível dos homens”. E Platão chamou-lhe pai, pai da filosofia, pai de todos nós, quando, ao refutar-lhe a tese imperitura, se suspeitou a si próprio de parricida.

Depois, ampliando-se, prolongando-se, repetiu-se a mesma estranheza deste exemplo primordial, a mesma sua demência, a mesma sua negação em que veio desenvolver-se o pensamento filosófico ao longo da sua já longa história, se acaso a filosofia é filha do tempo. Como compreender?

Bem vistas as coisas, não foi por dizer que nada se move que Parménides provocou o aparecimento da filosofia. Até, em rigor, não foi ele quem o disse, mas Zenão, seu discípulo, o mais falador da primeira parte do diálogo cujo relato Céfalo, vindo de Clazomenes, ouviu a Antifon, agora dedicado à arte de bem cavalgar toda a sela, o qual, Antifon, o escutara de Pitodoro, anfitrião do estrangeiro de Eleia e dos outros, entre eles Aristóteles em quem Sócrates delega substitui-lo na discussão com Parménides e que veio a ser um dos trinta tiranos de Atenas, quer dizer, um daqueles trinta homens a quem, por sua sabedoria e prudência, os atenienses entregaram, desesperados de democracia, o governo despótico mas esclarecido da cidade, entre eles fizeram de Crítias, amigo de Sócrates, irmão da mãe de Platão, Perictone, descendente de Sólon, e “sem dúvida – virá a escrever Hegel – o mais inteligente, o mais espiritual e portanto o mais perigoso e o mais odiado dos Trinta”.

Atentemos reflectidamente, como aconselha o fauno de Mallarmé. Ao dizer que nada se move, o que é manifestamente falso, Zenão tinha em vista demonstrar, como demonstrou, que mais absurdas e ridículas são as consequências de afirmar que todo o real é múltiplo do que aquelas que os que isso afirmam extraem da tese, essa sim, de Parménides, de que o real é uno, nos termos originários, de que o todo é o uno.




O cerne da questão está aí: o todo, quer dizer, tudo o que há – na expressão de Parménides: o que é – ou se compõe de múltiplos ou é uno. A primeira tese, a do pensamento ingénuo, afigura-se imediatamente confirmada na manifesta realidade vivida. A segunda, a do pensamento filosófico, afigura-se contrariar a manifesta realidade vivida. Sem reflexão, o pensamento ingénuo repudia a tese do pensamento filosófico. Ora o todo como uno não exclui o todo como composto de múltiplos, antes um e outro se implicam na medida em que um do outro carecem. Ao todo como uno é preciso abstrai-lo do todo composto e é nessa abstracção que o movimento se tem de dar por impossível como os argumentos de Zenão demonstram, pois só há movimento onde há relatividade ou relação de múltiplos entre si. Ora excluído o Uno, os múltiplos são as partes do todo que, assim composto de partes, se tem de admitir infinitamente divisível, seja na sua totalidade, seja nas formas em que essa totalidade é real, o tempo e o espaço, os corpos e a matéria que preenchem o tempo e o espaço.

Os argumentos com que Zenão, dando origem à dialéctica, negou a possibilidade de movimento num todo composto de múltiplos ou divisível em partes, constituíram sobretudo a negação da divisibilidade infinita que o pensamento ingénuo atribui – e ainda hoje é o preconceito e a finalidade da ciência moderna – ao tempo, ao espaço, aos corpos e à matéria. Com efeito, o movimento não é possível se essa divisibilidade for real: nunca o veloz Aquiles alcançará a tartaruga que partiu para a corrida com um ligeiro avanço, nunca a seta disparada do arco transporá o lugar do seu comprimento.

Assim nos encontramos numa situação paradoxal: o Uno, em sua noção, implica a exclusão do movimento, mas a multiplicidade num real infinitamente divisível torna impossível o movimento.

A situação só é, porém, paradoxal para o pensamento ingénuo. Não o é para o filosófico que vê bem o que se destina a ver: que, num todo que não seja uno, nada impediria que cada um dos múltiplos que o compõem se reconhecesse e afirmasse separado e independente, como o todo se afirma separado e independente do Uno, e não haveria então entre eles relação alguma, de deslocação ou crescimento, de alteração ou mudança, de harmonia ou contraste, de amor ou ódio, não haveria nada de comum nem de geral, nem portanto de pensamento que sempre generaliza, não haveria o movimento nem a vida que, no movimento, é o conteúdo do real. Assim, o Uno, ao mesmo tempo que em sua noção nega o movimento, o afirma e garante na realidade de que se abstraiu.

Chegados a este momento, aqui se nos revelam as duas determinações essenciais e originárias do pensamento filosófico. É, uma, a absolutização. É, outra, a cumulação de afirmar e negar.

Absolutizar é abstrair. Mas enquanto a abstracção separa uma parte do todo, a absolutização abstrai a integridade do todo, como Uno, do todo como composto de partes. O processo do pensamento filosófico consiste em absolutizar. O uno é um absoluto no qual, sendo o primeiro afirmado, se marca a origem da filosofia.

O que vimos dar-se com o Uno em relação ao movimento, se dá com qualquer absoluto que o pensamento filosófico alcança: cumulativamente nega o que afirma e afirma o que nega. E o pensamento, desenvolvendo-se por absolutização, é a garantia tanto do que afirma como do que nega, é ele mesmo constante afirmação e negação sem conhecimento, ciência ou saber feito algum em que se fixe, sem se coisificar ou no que afirma ou no que nega, sem se dar a si próprio limite ou cessação. Desse modo, é portador da liberdade e na liberdade tem sua forma, pois não conhece limite e tem seu conteúdo, pois incessante e cumulativamente nega o que afirma e afirma o que nega.

O pensamento, e só ele, é portanto o mundo do absoluto, o mundo em que o absoluto obtém a sua realidade e da qual se projecta para realidades ou mundos que não são o seu, penetrando-os e excedendo-os, transmitindo-lhes a firmeza no que são e a liberdade no que não são e espelhando-se em imagens apelativas da especulação, por isso símbolos, como a luz e a sombra, a noite e o dia, o nascer e o morrer, o rio que corre incessantemente, e corre e sempre permanece.

O Uno é o primeiro absoluto alcançado e não só historicamente. Logo lhe é solidário o Infinito, não o falso infinito da ciência ou saber feito pelo pensamento comum e ingénuo, que se diz infinito por nada obrigar a conceber-lhe um fim na sucessão do tempo e na distância do espaço, mas o verdadeiro Infinito, o que se diz tal, não por não ter limite, mas por nada haver ou ser possível fora dele, o que não tem além, o que um poeta disse alcançar-se “percorrendo todos os sentidos do finito”.




Terceiro absoluto, com os anteriores e com todos os alcançáveis solidário, é o mesmo Absoluto, esse mesmo que a absolutização implica e requer, esse que justifica, constituindo-o, o pensamento como a finalidade justifica e constitui todo o processo que a ela conduz, esse que permite dizer absolutos o Uno, o Infinito e todos os que forem ditos. É ele o mundo do pensamento coroando-se de sua majestade ou magistério, e também aí não se fixando em saber algum de si, que incessantemente possui e constantemente abandona, evitando dar-se, como certos filósofos não evitaram dá-lo, por princípio, ideia e origem donde tudo deriva, também aí, e agora referido a si próprio, não a qualquer outro real, se negando e afirmando, negando e afirmando a liberdade de que é portador, sua forma e conteúdo, pois não só a liberdade está envolta na fugacidade sem descanso do seu princípio como, absoluta pelo pensamento, do pensamento há-de receber cumulativamente e sempre a sua afirmação e a sua negação. (in Teoremas de Filosofia, n.º 11, Porto, Primavera de 2005, pp. 73-78).

sábado, 4 de maio de 2019

Da loucura controlada

Escrito por Carlos Castaneda








«Enquanto estávamos a almoçar, no dia seguinte, don Juan disse que Genaro tinha empurrado o meu ponto de conjunção, com a sua marcha de poder e que tinha sido capaz de o fazer, porque eu estava num estado de silêncio interior. Explicou-me que o ponto de articulação de tudo o que os videntes fazem era qualquer coisa de que ele me vinha a falar, desde o dia em que nos encontrámos: parar o diálogo interior. Salientou uma quantidade de vezes que o diálogo interior é o que mantém o ponto de conjunção fixo à sua posição inicial.

- Uma vez conseguido o silêncio, tudo é possível - disse ele.

Eu disse-lhe que estava muito consciente do facto de, em geral, ter parado de falar comigo próprio, mas não sabia como o tinha conseguido. Se me pedissem que explicasse o processo, eu não saberia o que dizer.

- A explicação é extremamente simples - disse ele. - Você quis e, dessa forma, estabeleceu uma nova intenção, uma nova ordem. Então, a sua ordem torna-se a ordem da Águia.

- Esta é uma das mais extraordinárias coisas que os novos videntes descobriram: que a nossa ordem se pode tornar a ordem da Águia. O diálogo interior pára da mesma forma que começa: por um acto de vontade. Afinal, somos forçados a falar connosco próprios por aqueles que nos ensinam. Enquanto nos ensinam comprometem a sua vontade e nós comprometemos a nossa, ambos sem o sabermos. Enquanto aprendemos a falar com nós próprios, aprendemos a manipular a vontade. Nós temos vontade de falar connosco. A forma de parar de falar connosco é usar exactamente o mesmo método: temos de ter vontade, temos de ter intenção de o fazer.

Ficámos em silêncio, por alguns minutos. Perguntei-lhe a quem é que se referia, quando dissera que nós tínhamos professores que nos ensinavam a falar connosco.

- Estava a falar do que acontece com os seres humanos, quando são crianças - replicou - uma altura em que são ensinadas, por todos os que os rodeiam, a repetir um diálogo sem fim sobre si próprias. O diálogo é interiorizado, e essa força mantém o ponto de conjunção fixo.

- Os novos videntes dizem que as crianças têm centenas de professores que lhes ensinam exactamente onde colocar o seu ponto de conjunção.

Disse-me que os videntes vêem que as crianças, a princípio, não têm o ponto de conjunção fixo. As suas emanações aprisionadas estão num estado de grande agitação, e os seus pontos de conjunção mudam para qualquer lugar da faixa humana, dando às crianças uma grande capacidade de focalização das emanações que, mais tarde, serão completamente menosprezadas. Então, quando crescem, os seres humanos mais velhos, à sua volta, através do seu considerável poder sobre eles, forçam os pontos de conjunção das crianças a ficarem mais estáveis, por meio de um diálogo interior progressivamente mais complexo. O diálogo interior é um processo que fortalece, constantemente, a posição do ponto de conjunção, porque essa posição é arbitrária e necessita de reforço constante.

- O importante é que muitas crianças vêem - continuou. - Muitas das crianças que vêem são consideradas esquisitas e são envidados todos os esforços para as levar a consolidar a posição dos seus pontos de conjunção.

- Mas será possível encorajar as crianças a manter os seus pontos de conjunção mais fluidos? - perguntei.

- Só se viverem entre os nossos videntes - disse ele. - De outra forma, seriam apanhadas, como aconteceu com os antigos videntes, nas complexidades do lado silencioso do homem. E, pode crer, isso é pior que ser apanhado nas garras da racionalidade.










(…) Perguntei-lhe que outros organismos eram capazes de deslocar os seus pontos de conjunção.

- Podem deslocar os seus pontos - disse ele, - mas a deslocação não é uma coisa voluntária neles.

- O ponto de conjunção dos outros organismos também é treinado para aparecer onde aparece? - perguntei.

- Todos os organismos recém-nascidos são treinados, de uma forma ou de outra - replicou. - Podemos não compreender como se processa o treino, afinal, nem sequer percebemos como se processa em nós, mas os videntes vêem que os recém-nascidos são coagidos a fazer o que a sua espécie faz. É precisamente o que acontece com as crianças humanas: os videntes vêem os seus pontos de reunião mudarem para todos os lados e, depois, vêem como a presença dos adultos prende cada ponto na sua área. Acontece o mesmo com todos os organismos.

Don Juan pareceu reflectir por um momento e, então, acrescentou que, de facto, havia um efeito único que o ponto de conjunção do homem tem. Apontou para uma árvore lá fora.

- Quando nós, como seres humanos adultos e sérios, olhamos para aquela árvore - disse ele, - os nossos pontos de reunião alinham um número infinito de emanações e alcançam um milagre. Os nossos pontos de conjunção fazem-nos perceber um grupo de emanações a que chamamos árvore.

Explicou que o ponto de conjunção não afecta somente o alinhamento necessário para a percepção, como também impede o alinhamento de certas emanações, de forma a chegar a um maior refinamento da percepção, uma depuração, uma engenhosa construção humana, sem paralelo.

Disse que os novos videntes tinham observado que só os seres humanos eram capazes de agrupar, novamente, os grupos de emanações. Usou a palavra espanhola "desnate", para descrever o acto de separar a nata mais saborosa da superfície de uma vasilha de leite fervido, depois de arrefecer. Do mesmo modo, em termos de percepção, o ponto de conjunção do homem fica com uma parte das emanações já seleccionadas para alinhamento e faz com elas uma construção mais agradável.

- As desnatações do homem - continuou don Juan, - são mais reais do que aquilo que as outras criaturas percebem. Essa é a nossa armadilha. São tão reais para nós, que nos esquecemos que as construímos, ordenando os nossos pontos de conjunção que apareçam onde aparecem. Esquecemos que são reais para nós, só porque a nossa ordem é percebê-las como reais. Temos o poder de desnatar o melhor dos alinhamentos, mas não temos o poder para nos protegermos das nossas próprias ordens. Isso tem de ser aprendido. Dar total liberdade às nossas desnatações, como nós damos, é um erro de julgamento, que pagamos tão caro quanto os antigos videntes pagaram pelos seus.»

Carlos Castaneda («O Fogo Interior»).


«O movimento virtual da alma infantil irá casar-se com os movimentos que o despertem. E, como a alma é uma harmonia opulenta e heróica, variados ritmos a podem abalar.

A ressonância com os movimentos de Beleza e Unidade lança-a no caminho da elevação, a ressonância com movimentos artificiais arremessa-a para o caos, para a barbaria primitiva.

A primeira educação deve ser artística, e as próprias virtudes morais só podem ser dadas à criança pelas implícitas intimações de harmonia estética.»








« - Como é ver, Don Juan?

- Tens de aprender a ver para saber isso. Não posso dizer-to.

- É um segredo que eu não posso conhecer?

- Não. É que não consigo descrever-to.

- Porquê?

- Não faria sentido para ti.

- Experimente, Don Juan. Talvez faça sentido para mim.

- Não. Tens que fazê-lo tu próprio. Quando aprenderes, passarás a ver todas as coisas do mundo de uma forma diferente.

- Então, Don Juan, o senhor já não vê o mundo da maneira habitual.

- Eu vejo de ambas as maneiras. Quando olho para o mundo, vejo-o da mesma forma que tu. Depois, quando quero vê-lo, olho para ele da maneira que conheço e capto-o de uma forma diferente.

- As coisas parecem-lhe ser as mesmas quando as vê?

- As coisas não mudam. Nós é que mudamos a forma de as ver, só isso.

- Quero dizer, Don Juan, que se vir, por exemplo, a mesma árvore, ela continua a ser a mesma cada vez que a vê?

- Não. Muda, sem deixar de ser a mesma.

- Mas se a mesma árvore muda de cada vez que a vê, ver poderá ser uma mera ilusão.

Ele riu-se e não respondeu durante algum tempo, mas pareceu-me que estava a pensar. Finalmente disse: - Quando olhamos para as coisas, não as vemos. Só olhamos para elas, suponho eu, para nos certificarmos de que tudo está lá. Como não estamos preocupados em ver, as coisas parecem-nos sempre as mesmas, cada vez que olhamos para elas. Quando aprendemos a ver, por outro lado, uma coisa nunca é a mesma cada vez que a vemos, e, no entanto, é sempre a mesma. Eu disse-te, por exemplo, que um homem parece um ovo. Cada vez que vejo o mesmo homem, vejo um ovo, mas não é o mesmo ovo.

- Mas não consegue reconhecer coisa alguma, visto que nada é o mesmo; então qual é a vantagem de aprender a ver?

- Podemos distinguir as coisas. Podemos ver como elas realmente são.

- Eu não vejo as coisas como elas realmente são?

- Não. Os teus olhos só aprenderam a olhar».

Carlos Castaneda («Conversas com Don Juan - Para além da realidade»).





Da loucura controlada


Voltei a casa de Don Juan no dia 3 de Outubro de 1968, com o único fito de lhe fazer perguntas acerca dos factos que rodeavam a iniciação de Eligio. Tinha-me ocorrido uma torrente quase interminável de perguntas, ao reler o relato do que se havia passado. Procurava explicações muito exactas, pelo que fiz antecipadamente uma lista das perguntas, escolhendo cuidadosamente as palavras mais adequadas.

Comecei por perguntar-lhe:

- Eu vi nessa noite, Don Juan?

- Quase viste.

- O senhor viu que eu estava a ver os movimentos de Eligio?

- Sim. Eu vi que Mescalito estava a permitir-te que visses parte da lição de Eligio, caso contrário terias estado a olhar para um homem sentado, ou talvez deitado. Durante o último mitote, não deste por os homens fazerem nada, pois não?

No último mitote, eu não tinha notado que qualquer dos homens fizesse movimentos fora do normal. Disse-lhe que apenas podia dizer com segurança que tinha notado que alguns deles se levantavam e iam até os arbustos mais vezes do que outros.

- Mas quase viste toda a lição de Eligio - prosseguiu Don Juan. - Pensa nisso. Compreendes agora como Mescalito é generoso para contigo? Mescalito nunca foi tão gentil com pessoa alguma, que eu saiba. Nem uma. E, no entanto, tu não mostras apreço pela sua generosidade. Como podes voltar-lhe as costas tão indelicadamente? Ou talvez devesse perguntar-te em troca de quê voltas as costas a Mescalito?

Senti que Don Juan estava a encurralar-me de novo. Não sabia responder às suas perguntas. Sempre tinha acreditado que desistira da aprendizagem para me salvar, mas não fazia ideia daquilo de que estava a salvar-me ou para quê. Queria mudar rapidamente a direcção da nossa conversa e, para esse fim, abandonei a minha intenção de continuar a fazer toda as minhas perguntas pré-calculadas e dirigi-lhe a minha pergunta mais importante.

- Gostaria que me falasse mais da sua loucura controlada - disse.

- Que queres saber a esse respeito?

- Por favor diga-me, Don Juan, o que é exactadamente a loucura controlada?

Don Juan soltou uma ruidosa gargalhada e bateu na coxa com a mão, de uma forma sonora.

- Isto é uma loucura controlada! - disse, rindo-se e batendo de novo na coxa.

- O que quer dizer?...

- Estou satisfeito por me teres perguntado pela minha loucura controlada, ao fim de tantos anos, embora não tivesse tido a mínima importância que não perguntasses. Todavia, decidi ficar satisfeito, como se me importasse, por teres perguntado, como se tivesse importância que eu me interessasse. Isso é loucura controlada!

Ambos nos rimos muito alto. Abracei-o. Achara a sua explicação deliciosa, embora não a compreendesse perfeitamente.






Estávamos sentados, como era habitual, no espaço em frente da porta da sua casa. A manhã ia a meio. Don Juan tinha na sua frente uma pilha de sementes e estava a separar os detritos misturados com elas. Tinha-me oferecido para o ajudar mas ele recusara; disse-me que as sementes eram uma oferta de um dos seus amigos do México central e eu não tinha poder suficiente para lhes tocar.

- Com quem exercita a loucura controlada, Don Juan? - perguntei, ao fim de um longo silêncio.

Ele riu-se.

- Com toda a gente! - exclamou, sorrindo.

- Então quando decide exercitá-la?

- Todas as vezes que actuo.

Achei que devia recapitular, nesse ponto, e perguntei-lhe se a loucura controlada significava que os seus actos nunca eram sinceros, mas apenas representações.

- Então tudo o que faz deve ser loucura controlada! - disse eu, verdadeiramente surpreendido.

- Sim, tudo - respondeu ele.

- Mas não pode ser verdade - protestei - que cada um dos seus actos seja apenas loucura controlada.

- Porque não? - respondeu ele, com um olhar misterioso.

- Isso significaria que nada lhe interessa e não se preocupa com coisa alguma ou com alguém. Eu, por exemplo. Quer dizer que não lhe interessa que eu me torne ou não um homem de saber, ou que eu viva ou morra, ou faça seja o que for?

- É verdade! Não me interessa. Tu és, como Lucio, ou como todas as outras pessoas da minha cidade, a minha loucura controlada.

Experimentei uma peculiar sensação de vazio. Obviamente não existia uma única razão para que Don Juan devesse preocupar-se comigo, mas, por outro lado, tinha quase a certeza de que se interessava pessoalmente por mim; achava que não poderia ser de outra forma, visto que ele sempre me prestara toda a sua atenção durante todos os momentos que eu passara com ele. Ocorreu-me que talvez Don Juan estivesse apenas a dizer aquilo por estar aborrecido comigo. Afinal, eu tinha abandonado os seus ensinamentos.

- Tenho a impressão de que não estamos a falar da mesma coisa - disse eu. - Talvez não devesse ter usado a minha pessoa como exemplo. Mas só queria dizer que deve haver alguma coisa no mundo por que se interesse de uma forma que não seja loucura controlada. Não acho possível que continue a viver se nada lhe interessar verdadeiramente.

- Isso é o teu caso - disse ele. - As coisas são importantes para ti. Quiseste saber da minha loucura controlada e eu disse-te que tudo o que eu faço em relação a mim e aos meus semelhantes é loucura, porque nada interessa.

- E eu pergunto, Don Juan, se nada lhe interessa, como pode continuar a viver?









Ele riu-se e, após uma pequena pausa, em que pareceu decidir se deveria ou não responder-me, pôs-se de pé e dirigiu-se às traseiras da casa. Segui-o.

- Espere, espere, Don Juan - disse eu. - Eu quero mesmo saber; tem que explicar-me o que quer dizer.

- Talvez não seja possível explicar - disse ele. - Certas coisas da tua vida interessam-te porque são importantes para ti, mas para mim já não há uma única coisa que seja importante, nem os meus actos, nem os actos de qualquer dos meus semelhantes. Continuo a viver, no entanto, porque tenho a minha vontade. Porque temperei a minha vontade durante toda a minha vida até ela ser nítida e perfeita, e agora não me interessa que nada me interesse. A minha vontade controla a loucura da minha vida.

Acocorou-se e passou os dedos por umas ervas que tinha posto a secar ao Sol sobre um pedaço de saca.

Eu estava desorientado. Nunca poderia ter previsto a direcção que a minha investigação tomara. Após uma longa pausa, pensei num bom ponto de vista. Disse-lhe que, em minha opinião, alguns dos actos dos meus semelhantes tinham suprema importância. Apontei-lhe que a guerra nuclear era decididamente um exemplo dramático de um desses actos. Disse-lhe que, para mim, destruía a vida à superfície da Terra, era um acto de espantosa enormidade.

- Tu acreditas nisso porque estás a pensar. Estás a pensar na vida - disse Don Juan com um brilho nos olhos. - Não estás a ver.

- Sentiria de forma diferente se pudesse ver? - perguntei.

- Quando um homem aprende a ver, encontra-se sozinho no mundo, sem nada excepto a loucura - disse Don Juan de uma forma críptica.

Deteve-se, por um momento, e olhou para mim como se quisesse avaliar o efeito das suas palavras.

- Os teus actos, tal como os actos dos teus semelhantes em geral, parecem-te importantes, porque aprendeste a pensar que são importantes.

Utilizava a palavra «aprendeste» com uma inflexão tão peculiar que me forçou a perguntar-lhe o que queria dizer.

Ele deixou de mexer nas suas plantas e olhou para mim.

- Nós aprendemos a pensar em tudo - disse e depois treinamos os nossos olhos para olharem para as coisas tal como pensamos nelas. E, por isso, temos que nos sentir importantes! Mas depois, quando um homem aprende a ver, apercebe-se que já não pode pensar nas coisas para que olha, e, se não conseguir pensar nas coisas para que olha, tudo perde a importância.

Don Juan deve ter notado o meu olhar surpreendido e repetiu as suas declarações três vezes, como para me fazer compreendê-las. O que ele estava a dizer pareceu-me incoerente, a princípio, mas, depois de pensar no assunto, as suas palavras pareceram-me uma sofisticada afirmação acerca de uma faceta da percepção.






Tentei pensar numa boa pergunta que o fizesse esclarecer o seu ponto de vista, mas não me lembrei duma única. Subitamente, senti-me exausto e não conseguia pensar claramente.

Don Juan pareceu notar a minha fadiga e deu-me uma palmadinha no ombro.

- Limpa estas plantas - disse - e depois parte-as em pedaços, cuidadosamente, para dentro deste boião.

Entregou-me um grande boião de café e partiu.

Regressou a casa horas depois, ao fim da tarde. Eu já tinha acabado de partir as plantas e tivera tempo de sobra para escrever as minhas notas. Queria fazer-lhe logo algumas perguntas, mas ele não estava com disposição para me responder. Disse que estava cheio de fome e tinha que preparar a comida primeiro. Acendeu o lume no seu forno de terra e colocou sobre ele uma panela de caldo de osso. Olhou para o saco de mercadorias que eu trouxera e retirou alguns legumes, cortou-os em pequenos pedaços e deitou-os na panela. Depois deitou-se na sua esteira, atirou fora as sandálias, e disse-me que me sentasse ao pé do lume, para o ir alimentando.

Estava quase escuro; donde estava sentado, podia ver o céu a ocidente. Os rebordos de algumas densas formações de nuvens estavam coloridas de uma cor de camurça escura, enquanto o centro das nuvens permanecia quase negro.

Ia fazer um comentário acerca da beleza das nuvens, mas ele falou primeiro.

- Rebordos macios e centro denso - disse ele, apontando para as nuvens.

A sua declaração tinha vindo de tal forma a propósito, que me sobressaltou.

- Eu ia mesmo falar-lhe das nuvens - disse eu.

- Então ganhei-te - disse ele, rindo-se com um abandono infantil.

Perguntei-lhe se já estava com disposição para responder a algumas perguntas.

- O que queres saber? - respondeu ele.

- O que me disse esta tarde acerca da loucura controlada perturbou-me muito - disse eu. - Não consigo compreender o que quis dizer.

- É claro que não consegues compreender - disse ele. - Tu estás a tentar pensar no assunto, e aquilo que eu disse não se ajusta aos teus pensamentos.

- Estou a tentar pensar nisso - disse eu porque é a única forma de eu pessoalmente conseguir compreender alguma coisa. Por exemplo, Don Juan, quis dizer que, quando um homem aprende a ver, tudo o que existe no mundo inteiro perde o valor?

- Eu não disse que perdia o valor. Disse que não era importante. Tudo é igual e, por isso, não importante. Por exemplo, não tenho maneira de dizer que os meus actos são mais importantes do que os teus, ou que uma coisa é mais essencial do que outra, portanto todas as coisas são iguais e, sendo iguais, não são importantes.




Perguntei-lhe se as suas declarações eram um pronunciamento de que aquilo a que ele chamava «ver» era, efectivamente, uma «melhor maneira» do que simplesmente «olhar para as coisas». Disse que os olhos dos homens podiam desempenhar ambas as funções, mas nenhuma delas era melhor que a outra; no entanto, treinar os olhos para olhar era, na sua opinião, uma perda desnecessária.

- Por exemplo, precisamos de olhar com os olhos para rir - disse - porque, só quando olhamos para as coisas podemos captar a parte divertida do mundo. Por outro lado, quando os nossos olhos vêem, tudo é tão igual que nada é divertido.

- Quer dizer, Don Juan, que um homem que vê nunca se pode rir?

Ele ficou silencioso durante longo tempo.

- Talvez haja homens de saber que nunca riem - disse. - No entanto, não conheço nenhum assim. Aqueles que eu conheço vêem mas também olham, por isso riem.

- Um homem de saber também chora?

- Suponho que sim. Os nossos olhos olham, por isso podemos rir, ou chorar, ou alegrar-nos, ou estarmos tristes, ou estarmos felizes. Pessoalmente não gosto de estar triste, por isso, quando assisto a alguma coisa que normalmente me deixaria triste, limito-me a modificar o olhar e a vê-la em vez de olhar para ela. Mas quando deparo com alguma coisa divertida, olho e rio-me.

- Mas então, Don Juan, o seu riso é real e não loucura controlada.

Don Juan olhou-me por um momento.

- Eu falo contigo porque me fazes rir - disse ele. - Recordas-me aqueles ratos do deserto de rabo peludo que ficam presos quando metem as caudas nos buracos para tentar assustar outros ratos, para lhes roubar a comida. És apanhado pelas tuas próprias perguntas. Toma cuidado! Às vezes esses ratos chegam a arrancar as caudas para tentar libertar-se.

Achei esta comparação divertida e ri-me. Don Juan tinha-me mostrado, em tempos, uns pequenos roedores com caudas peludas que pareciam esquilos gordos; a imagem de um desses ratos gordos a arrancar a cauda era triste e, ao mesmo tempo, morbidamente divertida.

- O meu riso, como tudo o resto que eu faço, é real - disse ele - mas também é loucura controlada porque é inútil; não muda nada e, no entanto, eu faço-o na mesma.

- Mas, em minha opinião, Don Juan, o seu riso não é inútil. Fá-lo feliz.

- Não! Eu fico feliz porque decido olhar para as coisas que me fazem feliz e depois os meus olhos captam o seu aspecto divertido e rio-me. Já te disse isto inúmeras vezes. Devemos sempre escolher o caminho com prazer para nos sentirmos o melhor possível, talvez para podermos rir sempre.

Interpretei o que ele dissera como querendo dizer que chorar era inferior a rir, ou, pelo menos, talvez um acto que nos enfraquecia. Ele afirmou-me que não existia uma diferença intrínseca e que ambos eram importantes; disse, no entanto, que preferia o riso, porque o riso fazia com que o seu corpo se sentisse melhor do que quando chorava. Nessa altura, sugeri que, quando se tem uma preferência, não é tudo igual; se ele preferia o riso ao choro, o primeiro era efectivamente mais importante.












Insistiu teimosamente em que a sua preferência não queria dizer que não fossem iguais; e eu insisti em que a nossa discussão poderia ser logicamente alargada à afirmação de que, se todas as coisas eram iguais, porque não escolher a morte?

- Muitos homens de saber o fazem - disse ele. - Um dia, desaparecem simplesmente. Há quem pense que eles sofreram uma emboscada e foram mortos por causa dos seus actos. Eles escolhem morrer porque isso não lhes interessa. Por outro lado, eu escolho viver, e rir, não porque isso interesse, mas porque essa escolha é a inclinação da minha natureza. A razão porque digo que escolho é porque vejo, mas não é por isso que escolho viver; a minha vontade faz-me continuar a viver, apesar de tudo o que possa ver.

Tu não me compreendes agora por causa do teu hábito de pensar como olhas e olhar como pensas.

Esta declaração intrigou-me muito. Pedi-lhe que me explicasse o que queria dizer com aquelas palavras.

Ele repetiu a mesma frase diversas vezes, como se estivesse a dar a si próprio tempo para a elaborar em termos diferentes, e depois explicou-se, dizendo que por «pensar» se referia à ideia constante que temos de tudo no mundo. Disse que «ver» afastava esse hábito e, até eu aprender a «ver», não poderia compreender o que ele queria dizer.

- Mas, se nada importa, Don Juan, porque haveria de importar que aprenda a ver?

- Já te disse uma vez que o nosso destino, como homens, é aprender, para o bem ou para o mal - disse ele. - Eu aprendi a ver e digo-te que nada interessa realmente; agora é a tua vez; talvez um dia vejas e saberás então se as coisas importam ou não. Para mim, nada interessa, mas talvez para ti interesse. Já devias saber, nesta altura, que um homem de saber vive agindo, não pensando em agir. Um homem de saber escolhe um caminho com entusiasmo e segue-o; e depois olha e alegra-se e ri; e depois vê e sabe. Sabe que a sua vida terminará cedo de mais; sabe que ele, como toda a gente, não vai para parte alguma; sabe, porque vê, que coisa alguma é mais importante do que qualquer outra. Por outras palavras, um homem de saber não tem honra, nem dignidade, nem família, nem nome, nem pátria, apenas a sua vida para viver, e, nessas circunstâncias, a sua única ligação com os outros é a sua loucura controlada. Assim, um homem de saber trabalha, sua e resfolega, e, se alguém olhar para ele, é igual a qualquer outro homem, só que a loucura da sua vida está sob controlo. Nenhuma coisa sendo mais importante do que outra, o homem de saber escolhe cada acto, e executa-o como se ele o interessasse. A sua loucura controlada fá-lo dizer que aquilo que faz tem importância e faz com que ele aja como se tivesse, embora ele saiba que não tem; por isso, depois de cumprir os seus actos, ele retira-se em paz, e, se os seus actos são bons ou maus, resultaram ou não resultaram, são coisas que não lhe interessam.

Um homem de saber pode escolher, por outro lado, permanecer totalmente impassível e nunca agir, e comportar-se como se estar impassível tivesse realmente importância para ele; também será verdadeiro em relação a isso, porque isso também será a sua loucura controlada.

Nessa altura envolvi-me num esforço muito complicado, com o fim de explicar a Don Juan que estava interessado em saber o que motivaria um homem de saber a actuar de uma determinada forma, apesar de saber que nada interessava.

Ele riu-se mansamente antes de responder.

- Tu pensas nos teus actos - disse. - Por isso tens que acreditar que os teus actos são tão importantes como tu pensas que são, quando, na realidade, nada do que fazemos é importante. Nada! Mas, então, se nada interessa realmente, como me perguntaste, como posso continuar a viver? Seria simples morrer; é o que tu dizes e crês, porque estás a pensar na vida, tal como estás a pensar agora em como será ver. Querias que to descrevesse, para poderes começar a pensar nisso, da mesma forma por que fazes com tudo o mais. No caso de ver, não posso dizer-te como é ver. Queres que te descreva as razões da minha loucura controlada e eu só posso dizer-te que a loucura controlada é mais ou menos como o ver; é uma coisa em que não se pode pensar.

Bocejou. Estendeu-se de costas e estendeu os braços e as pernas. Os seus ossos estalaram.



















- Estiveste longe de mais - disse. - Pensas de mais.

Pôs-se de pé e dirigiu-se à espessa mata ao lado da casa. Eu alimentei o lume para manter a panela a ferver. Pensei em acender a lanterna de querosene, mas a semiobscuridade era muito tranquilizante. O fogo do forno, que fornecia luz suficiente para escrever, também criava um clarão avermelhado à minha volta. Pousei as minhas botas no chão e estendi-me. Sentia-me cansado. De toda a conversa com Don Juan, a única coisa acerba na minha mente era o facto de ele não se interessar por mim; perturbava-me terrivelmente. Durante vários anos tinha depositado nele a minha confiança. Se não sentisse total confiança nele, ficaria paralisado de medo perante a hipótese de aprender o seu saber; a premissa em que tinha baseado a minha confiança era a ideia de que ele se interessava pessoalmente por mim; na realidade, sempre sentira medo dele, mas tinha controlado o meu medo porque confiava nele. Quando ele me retirou essa base, fiquei sem ter onde me apoiar e senti-me indefeso.

Invadiu-me uma estranha ansiedade. Fiquei extremamente agitado e comecei a passear de um lado para o outro, diante do fogão. Don Juan estava a levar muito tempo. Esperei por ele impacientemente.

Regressou algum tempo depois; sentou-se de novo diante do fogo e eu dei vazão aos meus receios. Disse-lhe que estava preocupado porque era incapaz de mudar de direcção a meio da corrente; expliquei-lhe que, em conjunto com a confiança que tinha nele, tinha também aprendido a respeitar e a considerar a sua maneira de viver como intrinsecamente mais racional, ou, pelo menos, mais racional do que a minha. Disse-lhe que as suas palavras me tinham mergulhado num conflito terrível porque tinham como consequência que eu tivesse que alterar os meus sentimentos. Para ilustrar o meu ponto de vista, contei a Don Juan a história de um velho, da minha cultura, um advogado muito rico e conservador, que vivera a sua vida convencido de que era detentor da verdade. No início dos anos trinta, com o advento do New Deal (1), encontrara-se apaixonadamente envolvido no drama político dessa época. Estava categoricamente seguro de que a mudança seria prejudicial ao país, e, por dedicação à sua maneira de viver e pela convicção de que estava certo, fez um voto de lutar contra aquilo que pensava ser um mal político. Mas a maré dos tempos era forte de mais, e esmagou-o. Lutou durante dez anos contra ela na arena política e no reino da sua vida pessoal: depois da II Guerra Mundial transformou os seus esforços numa derrota total. A sua queda política e ideológica provocou-lhe uma profunda amargura; auto-exilou-se durante vinte e cinco anos. Quando o conheci, tinha oitenta e quatro anos e tinha regressado à sua cidade para passar os seus últimos anos num lar de idosos. Pareceu-me inconcebível que ele tivesse vivido tanto tempo, considerando a forma por que desperdiçara a sua vida na amargura e na autocompaixão. Não sei porquê, achou a minha companhia agradável, e costumávamos ter longas conversas.

Na última vez em que o vira, tinha concluído a nossa conversa com as seguintes palavras: «Tive tempo para olhar para trás e examinar a minha vida. Os acontecimentos do meu tempo não passam hoje de uma história; nem sequer uma história interessante. Talvez eu tenha desperdiçado anos de vida em busca de algo que nunca existiu. Tive ultimamente a sensação de que eu acreditava em algo que não passava de uma farsa. Não valia os meus esforços. Penso que sei disso. No entanto, não posso recuperar os quarenta anos que perdi.

Disse a Don Juan que o meu conflito surgira das dúvidas que as suas palavras sobre a loucura controlada me tinham provocado.

- Se nada interessa verdadeiramente - disse eu - depois de uma pessoa se tornar um homem de saber, encontra-se, forçosamente, tão vazio como aquele meu amigo e numa situação não muito melhor.

- Isso não é assim - disse Don Juan de forma cortante. - O teu amigo sente-se solitário porque vai morrer sem ver. Na sua vida foi envelhecendo e agora deve sentir mais autocompaixão do que nunca. Sente que desperdiçou quarenta anos porque andou atrás de vitórias e só encontrou derrotas. Nunca saberá que ser vitorioso e ser derrotado são coisas iguais.

Portanto, agora tens medo de mim porque eu te disse que és igual a tudo o resto. Estás a ser infantil. A nossa missão como homens é aprender e parte-se para o conhecimento como se parte para a guerra; já te disse isso inúmeras vezes. Parte-se para o saber ou para a guerra com medo, com respeito, com a consciência de que se vai para a guerra e com absoluta autoconfiança. Põe a tua confiança em ti mesmo, não em mim.

Com que então tens medo do vazio da vida do teu amigo. Mas não há vazio na vida de um homem de saber, digo-te eu. Tudo está cheio até à beira.






Don Juan pôs-se de pé e estendeu os braços, como se apalpasse coisas no ar.

- Tudo está cheio até à beira - repetiu ele - e tudo é igual. Eu não sou como o teu amigo que apenas envelheceu. Quando te digo que nada interessa, não o digo da mesma forma que ele. Para ele, a sua luta não valeu a pena, porque foi derrotado; para mim não há vitória, nem derrota, nem vazio. Tudo está cheio até à beira e tudo é igual e a minha luta valeu a pena.

Para nos tornarmos homens de saber, precisamos de ser guerreiros, não crianças choramingas. Temos que lutar sem desistir, sem uma queixa, sem vacilar, até vermos, e nos apercebermos de que nada interessa.

Don Juan mexeu a panela com uma colher de pau. A comida estava pronta. Tirou a panela do lume e colocou-a sobre um bloco rectangular de adobe, que tinha construído encostado a uma parede e que utilizava como prateleira ou como mesa. Puxou com o pé duas pequenas caixas que serviam de cadeiras confortáveis, especialmente se uma pessoa se sentasse encostada às vigas que suportavam a parede. Fez-me sinal para que me sentasse e encheu uma tigela de sopa. Sorriu; os seus olhos brilhavam como se apreciasse realmente a minha presença. Empurrou gentilmente a tigela para mim. Havia tanto calor e bondade no seu gesto que ele me pareceu ser um apelo para que restaurasse a minha confiança nele. Senti-me idiota; tentei modificar a minha disposição procurando a minha colher, mas não consegui encontrá-la. A sopa estava demasiado quente para ser bebida directamente da tigela, e, enquanto ela arrefecia, perguntei a Don Juan se a loucura controlada queria dizer que um homem de saber não podia ser como as outras pessoas.

Ele parou de comer e riu-se.

- Estás muito preocupado com gostar das pessoas e que elas gostem de ti - disse ele. - Um homem de saber gosta, só isso. Gosta daquilo ou de quem quer, mas usa a sua loucura controlada para não se preocupar com isso. O oposto daquilo que tu estás a fazer neste momento. Gostar das pessoas ou ser amado por elas não é tudo o que podemos fazer como homens.

Olhou para mim durante um momento, com a cabeça um pouco inclinada para o lado.

- Pensa nisso - disse.

- Há mais uma coisa que quero perguntar, Don Juan. Diz que precisamos de olhar com os nossos olhos para rir, mas eu acho que nos rimos porque pensamos. Por exemplo, um cego também ri.

- Não - disse ele. - Os cegos não se riem. Os seus corpos sacodem-se um pouco com uma onda de riso. Mas eles nunca olharam para o lado divertido do mundo e têm que o imaginar. O riso deles não é exuberante.

Não falámos mais. Eu tinha uma sensação de bem-estar, de felicidade. Comemos em silêncio; então Don Juan começou a rir. Eu estava a usar um raminho seco para levar os legumes à boca.

(In Conversas com Don Juan - Para além da realidade, Publicações Europa-América, 1996, pp. 72-82).


(1) O Novo Acordo designa as reformas sociais e económicas da ala progressista do Partido Democrático norte-americano, especialmente as advogadas sob a liderança do presidente Franklin D. Roosevelt, em 1933-1939. (N. T.)