quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Atlântida

Escrito por Júlio Verne


«Quem foi o primeiro a ver as ilhas encantadas do Oceano? A história dos seus primeiros tempos poderia escrever-se na névoa marinha. Tais fragmentos da perdida Atlântida, luminosos como país das fadas, que se erguem perante a visão dos mareantes como miragem acima das vagas ou desaparecem na névoa azul para lá dum rasto de espuma, têm andado nas lendas europeias desde os tempos mais remotos. As Hespérides, as ilhas dos Bem-Aventurados, a ilha das Aves de S. Brandão, as ilhas Afortunadas – parece que se perderam e acharam e tornaram a perder de espaço a espaço, durante mais de dois mil anos. Tão próximas da Europa ou da África do Norte, que um navio costeiro levado pela tormenta poderia facilmente ser impelido para as suas costas, e tão pequenas, não obstante, e tão isoladas por léguas de mar desconhecido, que um marinheiro pouco hábil que desse com elas uma vez por acaso poderia nunca mais conseguir lá voltar.

Estas ilhas pairaram assim durante séculos na orla dos conhecimentos europeus, até que o grupo das Canárias, que estavam relativamente perto do continente, foi o primeiro a surgir da lenda para a luz. Exactamente quando ou como isto se deu é vago, mas ao tempo de D. Henrique haviam já sido conhecidas de várias gerações – quase tão bem como nós hoje conhecemos os arquipélagos mais isolados do oceano Pacífico» 

Elaine Sanceau («D. Henrique, o Navegador»).  









A ATLÂNTIDA



No meio dos dédalos pedregosos que fendiam o fundo do Atlântico, não havia obstáculos para o capitão Nemo, que avançava sem hesitação. Não só conhecia de sobejo aquele caminho, mas até o haveria percorrido por mais de uma vez, e não podia perder-se. Seguia-o com inabalável confiança. Aquele homem parecia um génio do mar, e quando caminhava na minha frente, admirava-lhe a estatura avantajada, que se destacava no fundo luminoso do horizonte.

Era uma hora da madrugada. Havíamos alcançado as primeiras rampas da montanha, e para lá chegar foi preciso abrirmos o caminho pelos atalhos de uma moita.

Moita de árvores secas, sem seiva, árvores mineralizadas sob a acção das águas, e dominada aqui e além por pinheiros gigantescos. Era como uma mina de carvão de pedra ainda de pé, aferrada pelas raízes ao solo surribado, e cujos ramos, à maneira dos finos recortes do papel negro, se desenhavam claramente na abóbada das águas. Imagine-se uma floresta de Hortz, pendurada dos flancos de uma montanha, mas uma floresta submergida.

Os atalhos estavam obstruídos por algas e bodelhas, entre as quais pululava um mundo de crustáceos. Eu caminhava, trepando rochas, saltando por cima dos troncos deitados, despedaçando os cipós do mar, que se balouçavam de uma árvore a outra, enxotando os peixes, que voavam de ramo em ramo. Já não sentia o cansaço, tanto mais que seguia um homem que se não cansava.

Que espectáculo! Como descrevê-lo? Como pintar o aspecto daqueles bosques e seus rochedos naquele meio líquido, com as bases sombrias e selvagens, e os cumes coloridos de vermelho sob aquela claridade duplicada pela poderosa reverberação das águas?

Espécie de molusco do género Nautilus



Trepámos rochedos, que em seguida se esboroavam aos pedaços com o baque surdo da avalanche. À direita, à esquerda, abriam-se tenebrosas galerias extensíssimas. Aqui rasgavam-se vastas clareiras, que a mão do homem parecia ter separado, e mais de uma vez perguntei a mim mesmo se não me apareceria de súbito algum habitante daquelas regiões submarinas.

Mas o capitão Nemo continuava a subir, e eu não queria ficar atrás. Seguia-o, pois, ousadamente, valendo-me do pau ferrado. Um passo em falso teria sido perigoso por aqueles estreitos passadiços vazados nos flancos dos abismos; mas caminhava com passo firme e sem sentir a embriaguez da vertigem. Umas vezes saltava uma fenda que me faria recuar em terra; outras vingava o tronco vacilante das árvores lançadas de abismo a abismo, sem olhar onde punha os pés; não tinha olhos senão para admirar os sítios selvagens daquela região. Ali parecia estar, desafiando as leis do equilíbrio, rochedos monumentais, inclinados sobre as bases cortadas regularmente. Árvores havia que quase se podia dizer rebentavam sob a força de uma pressão formidável, e sustentavam aquelas que a seu turno as sustentavam também. Além disso, torres naturais, lanços talhados a pique como cortinas, pendiam em ângulo, que as leis da gravitação não haveriam autorizado à superfície das regiões terrestres.

Valha a verdade que eu também sentia aquela diferença devido à densidade da água, quando, não obstante o meu pesado vestuário, a cápsula de cobre, os sapatos de metal, me guindava por pendores de uma aspereza impraticável, vencendo-os por assim dizer com a ligeireza de uma camurça ou de um cabrito.

Pela narração que faço desta excursão por debaixo de água, bem sei que não posso deixar de ser inverosímil! Historio coisas aparentemente impossíveis que, no entanto, são reais, incontestáveis. Não sonhei; vi e senti.


Rota do Nautilus



Duas horas depois de havermos deixado o Nautilus, tínhamos ultrapassado a linha das árvores, e a cem pés por cima da nossa cabeça erguia-se o pico da montanha, cuja projecção fazia sombra na brilhante irradiação da vertente oposta. Por aqui e por ali corriam em ziguezagues de forma acentuada alguns arbustos petrificados. Os peixes levantavam-se aos bandos debaixo dos nossos pés como aves surpreendidas.

A massa rochosa estava cavada por anfractuosidades impenetráveis, grutas profundas, buracos insondáveis, no fundo dos quais iam rumores formidáveis. O sangue refluía-me ao coração, quando eu avistava uma antena enorme, que me embaraçava a passagem, ou alguma pinça medonha, que se escondia com estrondo na sombra das cavidades! Milhares de pontos luminosos brilhavam no meio das trevas. Eram os olhos de crustáceos gigantes, caranguejolas enormes, que se endireitavam como alabardeiros, e tilintavam com as patas como se estas fossem de ferro, caranguejos titânicos, assestados com canhões nas carretas, e polvos horripilantes, que entrelaçavam os tentáculos, como uma sarça viva de serpentes.

Que era aquele mundo exorbitante que eu não conhecia ainda? A que ordem pertenciam estes articulados, aos quais a rocha formava como que uma segunda concha? Onde havia a natureza encontrado o segredo da sua existência vegetativa, e há quantos séculos viviam assim nas últimas camadas do oceano?

Mas não podia parar. O capitão Nemo, familiarizado com aqueles temíveis animais, não lhes ligava importância. Havíamos chegado a um primeiro platô, onde me esperavam ainda novas surpresas. Desenhavam-se ali pitorescas ruínas, que atraiçoavam a mão do homem, e não a do Criador. Eram vastos montões de pedras, onde se distinguiam as formas vagas de castelos, templos revestidos de um mundo de zoófitos em flor, e aos quais, em lugar de hera, as algas e os funchos faziam um espesso manto vegetal.




Mas que era aquela porção do globo engolida pelos cataclismos? Quem havia disposto aquelas rochas e aquelas pedras como dólmenes dos tempos pré-históricos? Onde estava eu? Para onde me havia arrastado a fantasia do capitão Nemo?

De boa vontade o haveria interrogado, e como não podia fazê-lo, fui obrigado a parar. Travei-lhe o braço, e ele, abanando a cabeça e mostrando-me com o dedo o último cume da montanha, pareceu dizer-me:

– Vamos, vamos para diante!

Segui-o num último esforço, e dentro de poucos minutos subi o pico que dominava por dez metros toda aquela massa rochosa.

Olhei para o lado que acabávamos de percorrer. A montanha não só se elevava de sete a oitocentos pés acima da planície, senão que pela vertente oposta tinha dobrada altura sobre o fundo em contraposição àquela parte do Atlântico. Estendi a vista ao largo e abracei um vasto espaço iluminado por uma fulguração violenta. De facto, aquela montanha era um vulcão. A cinquenta pés abaixo do pico, no meio de uma chuva de pedras e de escórias, uma larga cratera vomitava torrentes de lava, que se espargiam em cascatas de fogo no seio da massa líquida. Aquele vulcão, assim colocado como um facho luminoso, alumiava o plano inferior até aos últimos limites do horizonte.

Disse eu que a cratera submarina arrojava lavas, mas não chamas. A estas é preciso o oxigénio do ar, e por conseguinte não poderiam desenvolver-se sob as águas; mas as torrentes de lava, que têm em si próprias o princípio da sua incandescência, podem subir até ao rubro branco e lactar vantajosamente contra o elemento líquido, vaporizando-se ao seu contacto. Rápidas correntes arrastavam todos aqueles gases em difusão, e as torrentes lávicas deslizavam até ao sopé da montanha, como as do Vesúvio sobre a Torre del Greco.

Com efeito, ali, à minha vista, arruinada, abismada, demolida, aparecia uma cidade destruída, com as casas derrubadas, os templos abatidos, os arcos deslocados, as colunas tombadas, notando-se em tudo isto as sábias proporções da arquitectura toscana; mais além, os restos de um aqueduto gigantesco; aqui, a saliência empastada de uma acrópole, com as formas flutuantes de um Pártenon; ali, vestígios de cais como se algum porto antigo houvesse abrigado outrora, nas praias de um oceano que desapareceu, navios mercantes e naus de guerra; mais longe ainda, estiradas linhas de muralhas derrocadas, largas mas desertas. Uma Pompeia inteira sepultada sob as águas, que o capitão Nemo ressuscitava à minha vista.

Onde estava eu! Quis sabê-lo a todo o custo, queria falar, queria arrancar a esfera de cobre que me pesava na cabeça.

Mas o capitão Nemo veio até mim e conteve-me com um gesto. Depois, apanhando um pedaço de pedra calcária, dirigiu-se a um rochedo de basalto negro e traçou esta palavra

ATLÂNTIDA


Que clarão me atravessou o espírito! A Atlântida, a Metrópole de Teopompo, a Atlântida de Platão, esse continente negado por Orígenes, Porfírio, Jamblique, D’Anville, Malte Brun, Humboldt, que atribuíam a sua desaparição a uma lenda, admitido por Possidónio, Plínio, Ammien, Marcellin, Tertuliano, Engel, Sherer, Tournefort, Buffon, d’Avezac, esse continente tinha-o eu à vista, manifestando ainda as provas irrecusáveis da sua catástrofe! Era, pois, essa região submergida que existia fora da Europa, da Ásia, da Líbia, para além das colunas de Hércules, onde vivia esse povo poderoso dos atlantes, contra os quais se fizeram as primeiras guerras da antiga Grécia.

O historiador que consignou nos seus escritos os altos feitos daqueles tempos heróicos foi o próprio Platão. O seu diálogo de Timeu e de Crítias foi, por assim dizer, traçado sob a inspiração de Sólon, poeta e legislador.

Um dia, Sólon conversava com alguns sábios velhos de Sais, cidade que já contava oitocentos anos, como o atestavam os anais gravados no muro sagrado dos templos. Um daqueles anciãos contou a história de uma outra cidade mil anos mais antiga. Esta primeira cidade ateniense, com mais de novecentos séculos, tinha sido invadida e em parte destruída pelos Atlantes. Esses povos, dizia ele, ocupavam um continente imenso, maior que a África e a Ásia juntas, que cobria uma superfície compreendida do duodécimo grau de latitude até ao quadragésimo grau norte. O seu domínio estendia-se até ao Egipto. Quiseram impor-se à Grécia, mas tiveram de retirar-se ante a indomável resistência dos Helenos. Passaram-se séculos. Houve um cataclismo, inundações, terramotos. Uma noite e um dia bastaram para o aniquilamento daquela Atlântida, cujos vértices mais altos, a Madeira, os Açores, as Canárias e as ilhas de Cabo Verde, estão ainda a descoberto.

Açores

Eram estas as recordações históricas que a inscrição do capitão Nemo me trazia ao espírito! Assim, pois, conduzido pelo maior dos acasos, calcava com o pé uma das montanhas daquele continente! Tocava com a mão aquelas ruínas mil vezes seculares e de antigas épocas geológicas! Trilhava o mesmo caminho por onde tinham andado os coevos do primeiro homem! Esmagava sob os meus pesados sapatos esqueletos de animais dos tempos fabulosos, que estas árvores, agora mineralizadas, cobriam com as suas sombras.

Se não me faltasse o tempo, queria descer os declives abruptos daquela montanha, percorrer todo aquele continente imenso, que sem dúvida ligava a África à América, e visitar aquelas grandes cidades  antediluvianas. Talvez que ali, à minha vista, se estendessem Makhimos, a guerreira, Eusebes, a piedosa, cujos habitantes de estatura gigantesca viviam séculos inteiros, e aos quais não minguara força para amontoarem aquela penedia, que resistia ainda à acção das águas. Bem pode ser que um dia algum fenómeno eruptivo traga ao lume de água aquelas ruínas engolidas! Apontam-se numerosos vulcões submarinos naquela parte do oceano, e muitos navios sentiram abalos extraordinários ao passarem por alturas tão tormentosas. Uns ouviram ruídos surdos, que anunciavam a luta profunda dos elementos; outros apanharam cinzas vulcânicas pelo mar. Todo este solo até ao Equador continua a ser trabalhado pelas forças plutonianas. E quem sabe se em época remota não virão à superfície do Atlântico cumes de montanhas ignívomas, avolumados pelas torrentes vulcânicas e por camadas sucessivas de lavas!

(In Vinte Mil Léguas Submarinas, Edição Hetzel, 2025, pp. 365-371).







Nenhum comentário:

Postar um comentário