domingo, 20 de novembro de 2016

Promoção do Português (ii)

Escrito por Fernando Sylvan



Infante de Sagres

«Os escritores de formação universitária que ultimamente têm abordado, entre nós, assuntos de carácter filosófico, seguem o ensino estrangeiro: manifestam geral concordância em atribuir à matemática e à física um predomínio intelectual que leva à adulteração da lógica e à repulsão da metafísica; mas, assim, acompanham tardiamente um movimento caduco.

E por daquele ponto de vista terem sido julgadas as vicissitudes da filosofia em Portugal, admite-se inadvertidamente que a persistência na silogística escolástica e a resistência passiva ao cartesianismo, longe de parecerem um enigma cuja decifração seria de proveito, dêem pretexto a juízos pessimistas e até injuriosos, acerca da capacidade especulativa dos portugueses.

Afastados da Europa Central, por situação geográfica e por missão histórica, desatentos à aurora e ao crepúsculo da filosofia "moderna", (da Renascença ao Iluminismo), talvez os portugueses preservassem dessa maneira uma qualidade oculta mas original; assim, o que na linha internacional parece marcha retardatária, talvez possa ser interpretado como fidelidade nobilíssima, se não como astúcia antevisora.

A expressão especulativa do génio manifestado nos Descobrimentos só mais tarde, e de outras fórmulas, poderia surgir. Quando o movimento romântico e o idealismo alemão se reflectiram em Portugal como luar distante, quando uma nova relação entre a Cultura e a Natura modificou a direcção da filosofia, já o pensamento português procurou exprimir-se pelos sistemas contrários que do romantismo, por acção ou reacção, se consideram derivados; mas o iluminismo repelia ainda para as zonas infernais qualquer tentativa dos filósofos especulativos. O pensamento hodierno, levando mais longe do que o romantismo o estudo dos conceitos de tempo e de vida, verificou a deficiência filosófica da interpretação determinista da lei natural, da hipótese comteana dos três estados, da generalização indevida da doutrina evolucionista, além de outros dogmas afins. Agora, a problemática filosófica, resultada da crítica aos erros dominantes nos três séculos passados, oferece ao espírito português a possibilidade de verificar a compatibilidade do aristotelismo dos coimbrões com o mais elevado e o mais recente voo do pensamento especulativo».

Álvaro Ribeiro («O Problema da Filosofia Portuguesa»).


«Deve examinar-se e avaliar-se objectivamente o estado actual dos vários grupos étnicos africanos, asiáticos e oceânicos que constituem a Comunidade Portuguesa. E embora se tenha de reconhecer, depois desse exame e avaliação, estarem os mais deles ainda muito atrasados, nada justifica pensar-se que outro teria sido o seu destino se outra tivesse sido ou fosse a sua órbita. O atraso que se lhes aponta é em relação a um estado ideal que se deseja e não por paralelismo com qualquer outra acção colonizadora, meio de comparação que de resto não pode afastar-se porque é dele exactamente que saem mais enaltecidos o movimento e a acção dos portugueses primeiros, bem como o seu tipo de contacto.

Aqueles dos ultramarinos que podem pensar acerca de Portugal-Comunidade não podem abstrair-se do fulcro, do imanente da perspectivação do núcleo no todo. Não se pode sequer insinuar que se pretende um retrocesso ou despegamento, porque se para isso fosse o impulso não valeria sequer pensar no plano da portugalidade. Mas porque exactamente se trata de pensar no plano da portugalidade é que vale a pena buscar e revelar aquilo que foi insuficiente ou mesmo errado e que se torne imperativo desenvolver ou rectificar ou anular para que em plenitude aconteça o exercício da portugalidade.

Portugalidade não significa predomínio de um modo de ser sobre um todo, mas o próprio modo de ser do todo. Falar de portugalidade não é, pois, dizer do domínio de Portugal-Unidade sobre o Portugal-Comunidade, mas sim dialogar sobre o Portugal-Comunidade-Unidade. Do ponto de vista nacional não há parcelas, há a unidade indivisível, e é tudo. Não há portanto que pressupor-se outro destino ou órbita para alguns de seus grupos étnicos e regiões, pois não pode admitir-se a cisão como ponto recuado para uma proposição futurante, acerca da Pátria. Portugalidade é, pois, especificamente, o acontecimento da Comunidade Portuguesa.


É importante revelar-se estar no espírito de todos os líderes da Comunidade que alguma coisa aprenderam e apreenderam de Pátria Portuguesa defender o futuro nacional de todos; e por isso importante é também repetir o que é uma das teses do meu ensaio "Arte de Amar Portugal" - o perigo que seria para as províncias africanas, asiáticas e oceânicas da Comunidade Portuguesa transformarem-se, por anexação ou "independência", em minorias, que não poderiam deixar de vir a ser escravas, uma vez que ou fossem aglutinadas ou justapostas seriam absorvidas por grupos e normas de que sempre haviam estado afastadas. E deles se tornariam vítimas, tanto mais vítimas quanto certo seria não poderem então antolhar outro futuro senão o da sujeição.

A formação do que foi o império português, fórmula imprecisa mas generalizada e aceite, não se deu por haver sido provocada qualquer cisão ou quaisquer cisões com outros todos nacionais. Pode afirmar-se que os povos encontrados vogavam em expectantes, indecisos e inseguros. A missão dos portugueses primeiros não foi só encontrá-los, dar-lhes nome e aglutiná-los. Não. Foi reconhecer neles os buscados. E a busca não se fez por aventura, mas por imperativo. A aglutinação foi, assim, a consubstanciação em unidade do activo e do passivo predestinados, sem prévio choque ou desgaste para adaptação e acerto. E a partir daí aconteceu a gesta.

Foi erro grave deixarem-se passar tantos séculos sem ter-se explicado a todos o que a pátria é, e o que é a Pátria Portuguesa. Naturalmente que os corpos vivos mal explicados tornam-se mórbidos em certas de suas partes. Mas por erro ter havido, e esse é um caso de circunstância, não pode negar-se a verdade imanente. A Pátria Portuguesa não é somente uma verdade histórica, porque, se isso fora apenas, a sua força futurante não seria indiscutível. A Pátria Portuguesa é uma verdade mental, laborada em coordenadas rácicas.

Não se me afigura que a filosofia portuguesa possa fundamentar-se na filologia portuguesa. E não, porque seria restringir, e da pior maneira, a realidade pluri-racial e pluri-continental da Pátria Portuguesa. Não podemos insistir em que a Língua Portuguesa seja a de todos os povos que constituem a Comunidade, nem esperar que ela venha a ser cultivada de tal modo que em pouco tempo se torne também a mais íntima de todos os outros membros da Comunidade.

A Língua é o veículo das ideias e dos sentimentos e a sua posse é um dos dons mais fundos do homem. Ora o homem-unidade pode abdicar da sua língua primitiva ou materna, mas o homem-povo não o poderá fazer sem ficar perdido no tempo e no espaço. É possível a uma pessoa pensar com rigor numa outra língua ou tornar sua uma que não foi a dos seus ancestrais. Mas não é possível uma atitude paralela de grupos étnicos inteiros.

Será possível, sim, através de um exercício escolar autêntico, levar a um povo o conhecimento de uma nova língua, mas não é fácil propor-lhe a sua substituição. As línguas começarão por chocar-se; depois, interpenetrar-se. Mas só com muito tempo, muito tempo mesmo, se poderá conseguir o domínio total, da que se pretende impor, sem ressentimentos. É que será necessário formar-se um estado de aceitação geral, pois, de contrário, o gesto de fazer esquecer uma língua por outra será atentatório do espírito do povo ou grupo étnico que sofre a proposta. Os povos não devem ser coibidos de cultivar a sua própria língua. É um direito lógico.


Ver aqui

Será possível, sim, que a Língua Portuguesa seja, para todos, a da comunicação com o mundo e entre os grupos étnicos por ser uma Língua nobre e possuidora de invulgares pergaminhos, por ser uma língua total, isto é, com todas as possíveis correspondências com as mais perfeitas, entre as quais, evidente e consequentemente, ela própria se conta. Deve propugnar-se para que no futuro todos a falem, mas sem nunca forçar-se à abdicação da primeira Língua, primeira porque ancestral.

Quinhentos anos de presença ou, mais discretamente, de convívio, provam não ser fácil anular as Línguas Nativas. E tantas, tantas são elas, que se se abrissem brechas profundas na sua constituição e uso, se correria o risco gravíssimo de por toda a parte empobrecer o meio de expressão mais autêntico que o homem possui. As ideias e os sentimentos sairiam adulterados, e o homem ficaria diminuído e desencontrado. O homem diminuído e desencontrado é o homem que não pode progredir, porque é o que perde a noção de onde vem e, sobretudo, se impossibilita de dizer para onde vai.

Assim, pois, se a filosofia portuguesa fosse só a dos portugueses primeiros, quer com expressão contida, quer universalista, poderia ela fundamentar-se na filologia da Língua Portuguesa. Mas filosofia portuguesa não pode somente ser a dos portugueses primeiros. Há um erro grande de proposição nos seus cultores e defensores. Se essa é a filosofia portuguesa, não há filosofia em Portugal. Mas não. A Filosofia Portuguesa é uma Filosofia de coordenadas do que há de commumente convergente no pensar de todos os grupos étnicos da Comunidade.

Embora sem o apoio linguístico, o que quebrará os juízos tradicionais, sinto a evidência de uma arqui-filosofia portuguesa que recusa o apoio da filologia. Não poderá cada grupo étnico da Comunidade, entre os quais se conta o dos portugueses primeiros, filosofar sem o apoio da sua própria Língua. Mas só o que no filosofar de cada grupo étnico for comum, isto é, só o que, em relação a todos, for uma constante, poderá considerar-se filosofia portuguesa.

Não pode conceber-se uma pátria sem um exercício filosófico colectivo a mantê-la e a explicá-la. Esse exercício filosófico é intrínseco à vida e à unidade dos povos, mesmo quando, como no caso português, as diferenças rácicas são profundas. E nem o nega, o facto de não ter sido identificado, ou devidamente identificado e historiado, esse exercício filosófico, porque ele existe na precedência de toda a condição e imanente na gesta. A filosofia é interior, é elo, embora radiante. É, como na matéria, o átomo, que é atractivo e irradiante, ou pulverizante, sem deixar de ser em si um universo.

Cada grupo étnico da Comunidade Portuguesa é atractivo e também irradiante, é um universo metido noutro universo. A causa da gesta comum é imanente. Cada grupo tem o seu filosofar milenário, mas a futuração dele dar-se-á através de uma explicada convergência coordenante que a todos dará em unidade transcendência universal.


A discussão deste exercício não compete aos povos em si, claro está, mas às suas elites. E este teor não é possível sem revelação, porque não é possível buscar-se o que não existe, mas somente o que se pressente. O pressentimento é o modo de Deus nos anunciar o que não sabemos.

Não é a filosofia portuguesa o que apenas é pensado pelos portugueses primeiros, da mesma forma que o não será o que apenas o for pelos timorenses, por exemplo. Mas cinco séculos de convívio, mesmo considerando todas as diferenças, hão-de ter inoculado nos vários sangues sinais comuns e nas almas aspirações semelhantes, sinais e aspirações que equacionados hão-de exactamente revelar uma constante, ou seja a filosofia portuguesa.

Competirá a uma acção pedagógica que tenha amplitude e constância o explicar a todos os povos da Comunidade a estrutura da filosofia portuguesa nos precisos aspectos em que de todos é extraído e equacionado o essencial. Mas este teor filosófico não pode explicar-se apenas através de uma escolaridade lectiva. É de uma engenharia social que se carece.

A engenharia social transformará o pensamento em acção e dirigir-se-á não somente a alunos, mas a todos os homens, ainda aos menos interessados e aos inconscientes. Uma estrutura filosófica realiza-se nos povos exactamente através da arquitectura actuante de uma engenharia social. Assim, todos os ramos de actividade humana, desde os mais subjectivos aos objectivos, desde os especulativos aos económicos são conjugados de uma forma futurante para que a sociedade perfeita aconteça um dia.

Só um plano de engenharia social animado por um transcendente pensamento comunitário, quer dizer, só uma engenharia social que seja actuante da filosofia portuguesa posta em tais termos pode moralmente garantir a realidade da Pátria Portuguesa pluri-continental, pluri-racial e pluri-religiosa - pode garantir Portugal.

O ideal português no mundo é o ideal do mundo - as aspirações maiores dos homens de todas as épocas e quadrantes. Essas aspirações não são a resultante de uma experiência religiosa, mas uma condição de pensamento libertador em que o homem pensa em não salvar-se, mas em caminhar de mãos dadas com os outros homens, não somente em buscar a plenitude divina, mas em deixar na Terra um alto sinal de vivência, isto é, em responsabilizar os homens perante os povos e os povos perante a Humanidade no cumprimento de imperativos que são os de Deus.

Pelo equívoco de ter-se considerado filosofia portuguesa a filosofia dos portugueses primeiros, não pôde entender-se o que era o ideal português no mundo, pois sem propor-se uma filosofia coordenante comunitária, transcensão da filosofia própria de cada grupo - e um deles é o dos portugueses metropolitanos -, não é possível a percepção do que de facto é o ideal português. O ideal português, o ideal aplicado à vida e ao futuro, e sugestionando a vida e o futuro, não é metropolitano só. Floração do que se sonha e pensa em longe, é como planta una que se nutre de dias diferentes, de águas diferentes, de temperaturas diferentes e que no fim dá uma só flor e só dela se evola o seu tipo original de perfume. Dias históricos diferentes, mares diferentes, climas diferentes, não desmentem, contudo, ser Portugal uma só planta, e o ideal português a aspiração que se desprende duma intenção universalista única. E por isso o ideal português no mundo é o ideal do mundo - as aspirações dos homens de todas as épocas e quadrantes.

Padrão dos Descobrimentos em Belém (concepção artística de Cottinelli Telmo e esculturas de Leopoldo de Almeida).
 
Não poderá ser tomado como inconsciente vaidade ou demasiado orgulho a afirmação de que o ideal português no mundo é, de facto, o ideal do mundo, o ideal de toda a humanidade, aquele que pretende que todos os homens sejam irmãos na mais transcendente das simbioses, a rácico-filosófica. E é de direito que a esse ideal se chame de ideal português, porque foram os portugueses quem primeiro o pressentiu e o único povo que o soube ensinar ao mundo.

Entende-se, portanto, que o ideal cresce ou rescende da filosofia portuguesa; mas enquanto a filosofia é para-nacional, o ideal é para-universal. Quer dizer que no serem nacional, como elementos predestinados para serem os construtores ou os estrutores da Pátria Portuguesa, os diversos grupos étnicos da Comunidade só depois de realizarem o acontecimento da pátria por ela partem para o ideal universal que seu é.

Os portugueses primeiros não puderam manter-se em número ímpar. Mas eles e os outros não puderam manter-se em número par. Portugal, Portugal-Comunidade, Portugal-Mundo explicam os períodos antes-pátrio, pátrio e pátrio-universal. Mas para todos eles o adjectivo português está certo.

A simbiose rácico-filosófica que explica a Comunidade Portuguesa e anuncia ao mundo os ideais do mundo é que permite compreender o autêntico significado das Descobertas e Conquistas. A missão não se destinou só a consubstanciar Portugal de parcelas universais. Pretende ser a essência do mundo. A simbiose rácico-filosófica de todas as raças será no extremo fim o ideal da Humanidade».

Fernando Sylvan («O Ideal Português no Mundo», in O que é o ideal português).


«Se a garantia da expressão está no pensamento implícito, muito mais do que na comunicação de emoções, sentimentos e volições, os estudos de linguística, estilística e literatura necessariamente tendem para a filologia. Tal era a direcção desses estudos na Antiguidade Clássica, especialmente na Escola de Alexandria. Da Grécia recebemos a doutrina tradicional de que os estudos humanistas são aqueles que se cingem aos aspectos em que o homem é diferente dos animais, e só nessa diferença assenta a liberdade.

A linguística do nosso tempo, desconfiando da razão e das categorias lógicas que foram definidas por Aristóteles, pretende demonstrar que não há paralelismo entre o pensamento e a expressão. Fácil é demonstrar, por exemplo, que em português nem sempre os modos e os tempos se exprimem segundo as prescrições dos compêndios de gramática e dos tratados de estilística. A variedade das expressões que envolvem ou desenvolvem a afirmação lógica, aumentando a plasticidade do idioma, não serve, porém, de argumento contrário à tese universal da identidade da razão humana.

[...] Decerto que não há línguas bem feitas, línguas perfeitas, e sabendo que a linguagem idiomática é susceptível de equívocos, ambiguidades e paralogismos, compreendemos que o orador ou escritor, impossibilitado por vezes de conciliar a correcção com a clareza, haja de sacrificar uma à outra. A cada geração, dentro de cada povo, compete fazer trabalho análogo ao que Aristóteles realizou nos livros reunidos com o título de Organon. Este trabalho, delimitando as fronteiras entre a linguística e a filologia, isto é, entre o estudo positivo da língua e o estudo normativo da razão, torna possível ver em que medida uma comunidade idiomática se encontra apta para filosofar, e de que modo estabelece a transição do relativo para o absoluto».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).





«Ao publicar, em 1943, o seu primeiro livro, "O Problema da Filosofia Portuguesa", Álvaro Ribeiro estava longe de prever que o seu nome ficaria para sempre ligado à designação de "filosofia portuguesa" e ao que por ela se entendeu. 

O que por ela se tem entendido é da mais perturbante e confusa variedade. O que Álvaro Ribeiro entendeu é muito singelo e patente: se cada povo, ou cada pátria, é uma entidade espiritual, como a singularidade da língua demonstra, então corresponde-lhe, necessariamente, uma filosofia própria. Propôs-se, Álvaro naquele livro, descrever as condições, que são sobretudo didácticas, para que tal filosofia se exprima. Porque se ela não se exprimir, a entidade espiritual que é o povo, ou a pátria, tem o destino ameaçado, não viverá a existência que lhe é própria, depressa se evanescerá. Há hoje quem considere que tal evanescência é a fase em que o povo português se encontra. 

O problema consistiria, pois, em criar as condições para a expressão da filosofia portuguesa. Mas não foi assim que foi entendido. O que se entendeu foi que Álvaro Ribeiro afirmava a existência histórica, literária, cultural e documental da filosofia portuguesa, coisa que a "cultura oficial" recusou e recusa admitir. Em dois sentidos a recusa. 

O primeiro sentido, que tem António Sérgio por patrono ou padrão é o de que não houve, não há, nem pode haver uma filosofia portuguesa. Não a houve nem há, porque não temos, entre nós, filósofos. Não a pode haver porque a filosofia é universal e, portanto, incompatível com definições ou limitações nacionais. É certo que, reconhecem esses objectores, se fala de uma filosofia alemã ou inglesa ou francesa, mas dessas se pode falar porque estão referidas a povos que dispuseram efectivamente de muitos e grandes filósofos e representaram, cada um deles, um estádio na evolução da filosofia, o que não aconteceu connosco. Mesmo assim, trata-se apenas de uma maneira de falar. 

A tais objecções responde facilmente Álvaro Ribeiro. Responde, primeiro, que não é nesse sentido que fala de "filosofia portuguesa"; depois, que, até nesse sentido, há em Portugal, desde Pedro Hispano e D. Duarte até Leonardo Coimbra, uma longa tradição de filósofos com decisiva projecção na filosofia universal, os quais só se ignoram porque nunca foram estudados; em terceiro lugar, que é precisamente por ser universal que a filosofia tem de ser nacional (José Marinho viria a dizer, ironicamente, que é por haver laranjas que há laranjas de Setúbal).

O segundo sentido das objecções é o que identifica a afirmação da filosofia portuguesa com a afirmação de teses, de teorias ou de sistemas que seriam defendidos por Álvaro Ribeiro, por José Marinho, por Delfim Santos ou por Santana Dionísio na sequência do pensamento de Leonardo Coimbra, seu mestre comum, de Teixeira de Pascoaes e da "Renascença Portuguesa". Movidos pelos seus interesses de meros repetidores de algum mais recente e passageiro ou mais remoto e erudito pensador, tais objectores viam na tese de Álvaro Ribeiro uma ameaça ou risco. A eles se juntaram, naturalmente, todos os que, em domínios como a política e a estética, nada mais conseguem ser do que agentes das diversas doutrinas que, em cada momento, sucessivamente vão triunfando e desaparecendo em França, na Alemanha ou no mundo.




Esta segunda ordem de objecções desmorona-se por si mesma. Primeiro, porque a afirmação da filosofia portuguesa não é a afirmação de um sistema feito, mas de um sistema sempre a fazer. Depois, porque, não há psitacismo, por mais "actualizado" que se apresente, que não se apague depressa na sua superficial e transitória efemeridade.

Certo é, todavia, que, passados quarenta anos, estas duas ordens de objecções não cessaram de se acirrar contra a tese de Álvaro Ribeiro, agora já só ponto de partida de um "movimento" ou "escola" de filosofia garantida pelas obras que entretanto foram sendo realizadas. Numa prolixa página de um número de Novembro de 1982 do quinzenário "JL", um representante da Universidade sempre inalterável mas agora intitulada de nova (como Estado Novo ou Ordem Nova), vem à carga contra a filosofia portuguesa dando-a, nos termos já utilizados por António Sérgio há 40 anos, por cadaverosa e enterrada. Tão acirrada persistência, que demonstra decerto a vitalidade da filosofia portuguesa, também significa que a cultura oficial continua a ser hoje o que era ontem mas, passados que foram quarenta anos, ainda mais anquilosada.

A fecunda vitalidade da filosofia portuguesa manifesta-se, mais que na sua perduração, no desenvolvimento da tese inicial: de problema, que se tratava de resolver, passou a designação e constituição de uma escola de filosofia. Do que ainda não há, porém, adequada percepção é a de que esta "escola" se tornou muito mais de que a afirmação de uma exigência patriótica. A filosofia portuguesa passou a ser, já hoje é, a consciência da perpetuidade da filosofia clássica».

Orlando Vitorino («Um filósofo singular: Álvaro Ribeiro»).



O BRASIL E O DESLUMBRAMENTO PELO AMOR
A SEDUÇÃO

Um dos mais poderosos sinais do homem é a sua capacidade para o deslumbramento. Por se poder deslumbrar o homem prova-se possuidor de uma estranha gama de virtualidades, e por poder conjugá-las cria as condições precisas para se tornar mais subtil. Em todas as grandes horas da sua promoção o homem se mostrou pleno dessas condições, e o avanço que por elas deu corresponde a uma incursão, em sentido futurante, na liberdade do jugo do seu trânsito. Não foi ante as viagens que os portugueses se deslumbraram, mas ante o facto da realidade ou possibilidade de outras gentes. O que lhes deu crescimento e cultivou condições foi, na verdade, mais do que os novos horizontes, paisagem e fauna o homem que se ocultava na distância, o homem que tinha de ser buscado para que a Humanidade se realizasse.

Os portugueses viviam eufóricos desse encontro e em seu pensamento ele se realizava em antecipação. E se a percepção do acontecimento e motivos de prestígio e disciplina estavam na mente dos mais responsáveis, a grande massa dos navegadores engrinaldava as razões económicas da sua aventura com o anseio de ver e experimentar-se na mulher exótica. Os que vinham de torna-viagem eram mais fiéis a contar e a contar-se como sedutores e seduzidos do que a recordar e a relatar as agruras e as violências das viagens ou a dar importância aos salários que recebiam e aos valores que traziam. O relato técnico das viagens a poucos competia, e por isso o grande romance das navegações era sobretudo a memória das novas experiências, e que eram afinal as grandes experiências dos pequenos marinheiros. A rememoração delas é que os queimava na quietude do regresso e desafiava os telúricos.

As Navegações traziam, assim, às massas populares, directa ou indirectamente, uma nova lição, e dela saía-se, sem dúvida, multiplicado. Sempre restringidos no seu hábito sexual e impossibilitados de fazer a livre escolha dos noivos, os portugueses, e neles especialmente o povo, tinham uma quase completa inexperiência de amor, e não gozavam, portanto, do mínimo de liberdade consentida ao homem e à mulher que é a de se constituírem em família pela conjugação das suas vontades próprias. As pessoas reais e as pessoas nobres, de certo modo também sujeitas aos mesmos costumes, tinham, porém, o recurso ao adultério, e com seu uso transcendiam-se de todas as forçadas limitações conjugais, e podiam cumprir-se no exercício do amor. Mas à plebe, estava impossibilitado o adultério voluntário, e, por isso, o casamento, revestindo-se embora de ritual, não passava de um arranjo económico-consanguíneo sem projecção real. Ora entre as razões coibitivas de promoção social, ocupa  primeiro lugar a inexperiência de amor. Sem que ao homem e à mulher, aos jovens sobretudo, esteja possibilitada a sua experiência, jamais as sociedades adquirirão consciência de si próprias, do seu destino, porque não receberam o primeiro e mais elevado sinal de liberdade.




A funda apetência de amor resultante da activação celular provocada pela mais estranha das simbioses rácicas, que é a identificada nesta ponta da Europa, colocou todos em estado de atenção face às notícias e sobrenotícias das Navegações e que, a despeito de todas as dificuldades de comunicação percorreram e sacudiram todo o país. Mesmo nas terras recônditas onde nem se sabia para que lado precisamente se encontrava o mar, e, mais ainda até o que era o mar, mesmo nesses lugares perdidos, a outra mulher, a mulher do longe desconhecido, desafiava o homem inadequado a ser, ao menos ele, livre. O sentido contra-revolucionário das Navegações tornava contra-revolucionário o próprio homem perdido, consciencializava-o ainda que ele não desenterrasse os pés do húmus. Mas sair ou não sair da sua aldeia ou do seu lugar não era já o essencial, porque o mais importante era o exercício filosófico que tal noticiário motivava ao conjugar-se com a apetência inata dos portugueses para amar. As próprias mulheres despertavam ante a possibilidade de fuga dos seus homens ou dos que poderiam sê-lo e intuíam-se numa liberdade íntima e desconhecida que as tornava mais responsáveis da sua vida maternal. Dava-se realmente uma profunda modificação no sentir do povo. Pela primeira vez as gentes simples se reconheciam também usufrutuárias da vida.

O deslumbramento dos navegadores ante as ameríndias, figuras não-humanas por a sua nudez plenamente as revestir de inocência, foi um momento superior na vida da Humanidade. A carta de Pero Vaz de Caminha no-lo induz. O espectáculo novo da mulher em pleno equilíbrio com o homem, também como ela inocente, ambos senhores dominados de uma flora e uma fauna imensamente ricas, aparentemente desnecessitados do mundo e da Humanidade, deram aos portugueses sugestões de intemporalidade ainda não consentidas até então em seu espírito. As forças conjugadoras da Humanidade, impostas em trânsito na anterioridade criadora do futuro, tornavam-se aparentes ou à medida do homem dessa actualidade. Motivos de interesse por si próprios estavam ali à espera dos navegadores portugueses, e, ampliando-se, ofereciam ao homem uma nova teoria da existência.

E se os movimentos, a coloração da pele e o sorriso falavam vozes estranhas, a nudez das nativas abriam a percepção de mundos de pureza nunca antes compreendidos. Por elas, na sua majestade simples, o homem se entendia sem pecado ancestral e os navegadores, face ao novo reino, desentendiam-se do paraíso religioso. Era possível, compreendiam-no então, o homem liberto de todos os seus medos futuros, completamente alheio à noção do pecado, a mulher e o homem realizados mas puros na sua visão mais transcendente. O que se julgava apenas possível em pessoas isoladas, que se entendiam na experiência da sua pureza exactamente por se terem separado ou por terem sido separados, aparecia ali na totalidade da sua expressão social, límpido, inexplicável, mas perceptível. A mulher, secularmente afastada de dar significação primeira à vida, reduzida à sua função procriadora, porque se dimensionara o juízo de que o homem era o justificador e o criador do que na Humanidade acontecia, era apetecida e amada por os portugueses terem entendido o significado verdadeiro da mulher face à vida. A mulher não sujeita ao homem, mas paralela ao homem, a mulher não variante do homem, nem descendente do homem, ou arrancada do homem, mas um ser de atitude e altitude plena, a mulher com um relevo completamente desconhecido na Europa, surgia carregada de autênticas, exercitadas e exercitantes virtualidades. A mulher que os navegadores encontravam, pura e completa nas suas intenções e perspectivas, dava prova de quanto o homem se afastara de si próprio, no panorama dos europeus e dos árabes, quiçá no dos demais povos. A mulher e o homem na sua posição relativa natural, conjugados para se cumprirem um destino comum, em perfeito equilíbrio de usufruto social, patenteava-se plenamente naquela revelada sociedade autóctone.

A notícia do resto do mundo dada com a chegada dos portugueses e a notícia religiosa de Deus simultaneamente oferecida pelos padres católicos alteraram, porém, a situação relativa da mulher e do homem ameríndios, e restruturaram a sua vida social partindo da consciencialização do pudor e do pecado, primeiro por informação mímica e mais tarde por diálogo. Os ameríndios foram levados a vestir-se para assistirem aos rituais católicos, e, através desses gestos e aparatos, a compreenderem que se lhes propunha um novo modo de ser reactivado na sua atitude inconsciente perante o destino. Entre si se interrogaram e buscaram compreender não apenas o que os homens trazidos pelo mar lhes queriam anunciar, mas, com certeza, o que em si próprios anunciavam. A sua percepção do mundo e da Humanidade não resultou, pois, no fundamental, de uma imediata aprendizagem, mas da interrogação do mediato. As ameríndias e os navegadores buscaram-se, e elas e eles humanizando-se e reumanizando-se deram-se em ansiedade e interesse e pelo que deram de permanência ao acto depois de realizado, exercitaram-se pela primeira vez em amor. A cópula ofereceu às ameríndias novos padrões emocionais e a sua sensibilidade foi reeducada e tomou sentido social, pelo que entre os homens e as mulheres autóctones, pela experiência de algumas delas e por reflexo temático, divulgado pelo diálogo, as relações de tradição e de sexo foram transcendidas pelas relações de amor. E esse entendimento de amor também foi promocionário em relação aos navegadores que, ao regressarem à primeira margem do Atlântico na verdade não regressavam, mas se propunham continuando o seu trânsito. e de forma tão consciente e tão activa o fizeram que só a partir daí se estabeleceu a unidade humana em Portugal.

Desembarque de Cabral em Porto Seguro (óleo sobre tela de Óscar Pereira da Silva, 1922). Acervo do Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro).




Grandes modificações começaram a operar-se na sociedade. A plebe, que não tinha, até então, um conceito de família suficientemente prestigiado, pois lhe falecia tradição cívica e religiosa, recebeu dos longes exóticos o argumento da sua promoção. A acto sexual embebeu-se de um novo sentido, e se é certo por muito tempo ainda os noivos continuarem a ser unidos sem se escolherem e proporem, verdade é também que uma nova motivação surgia a estabelecer e a desenvolver o recíproco interesse entre eles. Então, pela experiência de convívio os cônjuges libertavam-se da imposição que os unira e implantavam no segredo das suas vidas a liberdade, amando-se. Os filhos que então nasciam, sentiam-nos os pais com carne, sangue e alma tirados da sua carne, do seu sangue e da sua alma, e as famílias tomaram consciência de que eram fundamentalmente blocos espirituais de perspectivas futurantes. E de tal forma que o uso das esposas e das filhas dos homens da plebe por parte dos príncipes e dos senhores rurais passou a ser recusado, ingloriamente, mas recusado. O homem da plebe tomara, no seio da família gerada pelo amor, o seu lugar de patriarca. E defendia a liberdade que esse amor lhe trouxera.

A experiência do encontro com a mulher exótica, e sobretudo a experiência do encontro com a ameríndia, deu ao homem português a experiência do próprio homem português com o equacionamento de todas as suas potencialidades. E deu também à mulher dos continentes aonde chegaram o consentimento de uma dignidade e liberdade que nem sequer intuíam. E por isso a sensação de posse plena foi conjugada com a de um subtil concretismo que se especifica na transacção étnica mais importante da vida da Humanidade. O Brasil é por excelência fruto dessa conjugação, que transcendeu o convívio dos portugueses primeiros com as ameríndias para ser a mescla social de um novo tipo em nossos dias. O que importa, não é já esse encontro, ou não é já só esse encontro, mas tudo o que se expressa no acontecimento nacional do novo povo na América do Sul. O Brasil, com um solo imensamente rico e um povo carregado de esperança, que é forma superior de apetência futurante, a explorar atentamente as suas fontes em termos de cultura e a expandir essa cultura com verdadeira autoridade, responde, na sua expressão nacional, não aos imperativos de um país que foi construído por outro povo, mas aos imperativos próprios, como país que se constrói através de exercícios filosóficos, pedagógicos e políticos.

As navegações trouxeram, pois, aos portugueses, a plena compreensão da vida, não apenas no que dela os tornou apetentes, como pela verdadeira apreensão do seu significado social. O rapaz e a rapariga começaram a praticar o direito de se buscarem e escolherem, e os cônjuges, que eram habitualmente primos direitos e primos segundos passaram a situar-se em graus mais afastados ou até originários de famílias diferentes. Os lugares e as aldeias deixavam, com isso, de ser pontos isolados e estranhos, pois foram os namorados, e por eles o amor, que instintivamente os uniram descobrindo os atalhos entre eles. E os pretextos, primeiro individuais, para se visitarem, foram-se, a pouco e pouco, tornando em expressão colectiva e com ela em expressão festiva. Cantigas e danças começaram a fazer parte da linguagem popular, e os arraiais, atraindo gentes de sítios distantes motivaram razões imediatas, conscientes, de unidade regional. A província começava a ter verdadeira expressão. Os caminhos, os arraiais, as feiras e, sobretudo, o amor traziam-lhe alforria.

O casamento e, na sua intimidade, o amor, proposto em liberdade quebrava o plano da revolução da vida familiar. O círculo familiar encerrado num circuito religioso regressivo asfixiava progressivamente os núcleos humanos. A contra-revolução, cujo sentido e trânsito foi apreendido pelo povo face à notícia das navegações, descobria, assim, ao lugar, à aldeia, à província as suas perspectivas. E daí à aquisição de consciência da Humanidade pode dizer-se que nada mediava, porque, ao contrário dos outros povos da Europa, não podiam considerar-se egocêntricos, ou, melhor, tinham razões transcendentes e evidentes para não se considerarem egocêntricos. Com efeito, também para o completo usufruto do amor os portugueses se tinham servido do anterior consequente da rota contra-revolucionária. Por isso, depois desta compreensão, os portugueses deram todo o seu entendimento à ideia de pátria, não agarrada ao seu terrunho e consequente da acção administrativa do rei e dos nobres, mas para além, ou no além do quando. Compreendiam a pátria transcendendo-os não só a eles, povo, mas ao próprio rei e aos nobres, não limitada ao seu circunstancial, mas oferecendo-lhes a morada do dia seguinte e sempre em relação ao dia longe. Não se tendo dado conta no seu húmus e no seu circunstancial das forças e perspectivas que verdadeiramente os identificavam, perceptaram em consequência do grande acontecimento navegatório que o seu real não acontecido teria de ser buscado no virtual, em gesto de apetência utente.



Monumento a Pedro Álvares Cabral (Brasil).

Túmulo de Pedro Álvares Cabral em Santarém (Portugal).

Parte dos restos mortais de Cabral encontram-se em exposição na Antiga Sé, no Rio de Janeiro

Portugal tornava-se através de uma teoria de não-acontecidos, e que por isso eram em anterioridade inevitáveis, um povo universal. O seu movimento ao encontro de outros povos e continentes não significava expansão, e foi erro considerá-lo, porque um homem ou um povo se não expande por movimentar-se, mas por filosoficamente propor a outros povos o que para si e para todos for intuindo como solução da Humanidade. Por isso é que a expansão só pode fazer-se em termos de cultura. Ora o que os portugueses sobretudo faziam nos seus movimentos não era expandir-se, nem podia sê-lo, mas apreender-se em consciência colectiva antes de mais nada, pois lhes faltava a compreensão do futuro das suas virtualidades anteriores ou inatas. Não foi a Índia, mas o Brasil, que o possibilitou, porque só depois de descobri-lo os portugueses se mediaram sem tempo e em termos de amor tomaram consciência da contra-revolução. Por essa fusão o Brasil se anunciava pátria mediata.

A independência do Brasil não pode ser interpretada como ferida na História de Portugal. Os autóctones que se conjugaram com os navegadores, e sobretudo as ameríndias que os deslumbraram, apreenderam-se em trânsito recíproco, e, assim, o Brasil se encontra desperto desde quando se viram. Pelo deslumbramento, o Brasil se transmitiu desde a primeira hora, e por isso se revelou também activo, o que tão sintomaticamente não pode assinalar-se em relação a qualquer dos outros povos aonde os portugueses chegaram. Pelo amor das ameríndias, os autóctones brasileiros que universais se tornaram ajudaram predestinadamente os portugueses primeiros a compreender-se e a dar altitude aos seus movimentos geográficos. Durante três decénios, diz-se que os portugueses nada foram buscar ao Brasil, e o esqueceram. A verdade é que do Brasil viera a motivação para a unidade humana da metrópole.

O facto de os portugueses primeiros terem recebido no e do Brasil a motivação da sua unidade humana desautoriza o historiador, o sociólogo e o político de colocar o Brasil em posição filial relativamente a Portugal. Considerar o Brasil descendente de Portugal é afirmação gratuita que não deve fazer parte do exercício pedagógico dos dois países para que se não generalize um juízo que não tem possibilidade de uma fundamentação filosófica. Um povo como o brasileiro não pode descender senão de si próprio, na anterioridade de um conceito futurante, seja qual for o modo bio-psico-linguístico porque se haja conjugado. O facto de Portugal ter interferido de uma forma ímpar na sua estruturação é apenas sinal de que ele se cumpriu no Brasil, e de que o Brasil, caminhando livre, forte e cultivado, raça com sinais de muitas raças, será o padrão futurante pelo qual a Humanidade se cumprirá.

O Brasil não é filho de Portugal, mas a resultante do exercício da portugalidade que reactiva o trânsito do homem e irresponsabiliza toda a responsabilidade. Tudo o que resultou da vontade transformou-se num princípio, na lei, que se firmou imutável, de uma nova gesta. Da vontade de Deus saiu o homem e a eternidade, e o homem é irresponsável do seu trânsito inevitável. Os portugueses primeiros, em acção compreensível, são responsáveis do padrão brasileiro, mas o povo brasileiro é, desde que se intuíram pátria, irresponsável. Mas reactivam-se no que se revela lei do seu trânsito, pois desde que cesse a pertinência da vontade, a acção não se futurará sob responsabilidade, mas recriar-se-á em lei na irresponsabilidade. Por isso é que o Brasil nunca foi colónia ou pátria portuguesa. Surgiu pátria sua.

Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I, comunicando o descobrimento da Ilha de Vera Cruz.

NAVEGADORES DA REVOLUÇÃO
A RECUSA

Para um completo entendimento do que os portugueses pretenderam realizar, e realizaram, na hora mais alta da nossa História, é preciso dividir os navegadores, portugueses ou que em Portugal desenvolveram a sua escola, em dois grupos: os da não-revolução e os da revolução. A História de Portugal é, nos seus pontos mais vivos, uma história de não-revolução, uma história que dá à Humanidade muitos feitos pela primeira vez concebidos e realizados. Povo que sentia, e sente, o imperativo de caminhar por desconhecidas vias, apresentou-se sempre, aventurosamente, a pisá-las, e quando os seus condutores o obrigaram a repisar-se revolucionariamente, decaiu. Sendo o homem o único ser não criado para a revolução, os portugueses, em vários momentos da sua vida conscientemente a conjugaram com o destino da Humanidade.

Provado está que Deus não criou o homem para uma viagem cíclica, pois que, se o fizesse, não teria necessidade de criar-lhe a eternidade. O tempo limitado chegaria para o homem viver, uma vez que predestinada a sua passagem pelos mesmos pontos da circunferência, o tempo limitado englobaria todo o seu rumo. Mas porque o homem só volta aos mesmos pontos quando desobedece, que a repetição da viagem implica um desencontro com a vontade de Deus, a eternidade possibilita o trânsito do homem através do tempo. O homem deixará de desobedecer quando plenamente intuir o seu destino, e a partir de então desconhecerá a circunferência como sua própria via, de acordo com a vontade de Deus.

As viagens marítimas dos portugueses realizadas sob a égide da Coroa de Portugal, sempre foram perfurantes, e um novo caminho surgiu para comunicar com outros homens e outro tempo. Nunca elas valeram apenas pelo caminho em si, pela natureza e forma da via, mas sobretudo pela fraterna irradiação que por isso se motivava. O sentido e conteúdo executava-se e revelava-se completamente na direcção tomada na partida, e nunca na do regresso, que não era o ir e vir que mais importava, mas o ir e chegar além. De Sagres ou de Belém, o caminho era em linha, irradiante, tal como o fora do Minho ao Algarve, e nele estavam situados o Brasil e as terras do Oriente. Em nenhuma das rotas da Fundação ou dos Descobrimentos se realizou a revolução. E por isso aos portugueses primeiros se juntavam os outros, num gesto de aglutinação irradiante como o dos árias, quase no princípio do mundo.

O trânsito dos portugueses primeiros e dos outros não se tornou paralelo, mas sobretudo, entrepenetrado, e se uma linha só havia para o destino nacional, uma linha só continuou a haver. Essa linha não se identifica apenas no corredor Norte-Sul de Portugal, mas no curso de todos os continentes, e nem a tortuosidade de seus planos geográficos anula a sua recta estrutura. Destinado a ser o primeiro povo ecuménico da nova idade, manifestou de forma ampla as condições de uma completa fraternidade e nelas se reconhece a teorização anulatória das razões que aparentemente separam as raças e as civilizações. É claro que a separação não pode ser concebida no trânsito total, mas somente no cíclico, porquanto só neste o costume prevalece à verdade, ou simplesmente prevalece. O trânsito original, aquele em que todas as etapas, por todos os tempos, serão sempre novas, é o da não-revolução, que o outro, o da revolução, permite o regresso, e o homem, passando pelos mesmos sítios, nivelar-se-á ao estado anterior do momento quando. A memória do homem dará pelo regresso, e confundirá o criar com o intuir e iludir-se-á sobre o seu destino, convencido de que o cumpre já quando regressa. É erro insistir-se na descoberta de ciclos históricos na vida dos portugueses, que os portugueses têm sido dos menos desobedientes à vontade de Deus. A Fundação, os Descobrimentos e a Restauração provam a noção de novidade na sua gesta.

Victoria, nau comandada por Fernão de Magalhães (mapa de 1590).

Réplica da nau Victoria em Nagoya (Japão).

Esta é a explicação do até agora não entendido motivo de recusa dos projectos e serviços de Fernão de Magalhães e Cristovão Colombo, o primeiro, português, e, o segundo, estrangeiro, que tomou parte da sua escola em Portugal. Estes dois navegadores, figuras das maiores da Espanha, acabaram por colocar-se ao serviço da Espanha e realizar sob a égide da sua Coroa suas espantosas viagens. Acima de todas as razões circunstanciais que possam invocar-se, coloca-se uma outra que acaba por tornar-se a mais lógica e convincente. De facto, os projectos de Fernão de Magalhães e Cristovão Colombo estavam, e estão, em conflito com o sentido ideal das navegações portuguesas, o sentido da não-revolução, que é o sentido do homem. Aqueles dois navegadores foram, sintomaticamente, os navegadores da revolução. Um e outro pretenderam provar, e provaram, a esferoicidade da Terra e, consequentemente, a possibilidade de, seguindo sempre na mesma direcção, chegarem ao ponto de partida. Ao ponto de partida. O projecto de Fernão de Magalhães cumpriu-se até ao seu termo; o de Colombo, teve um desfecho prático diferente da proposição teórica, mas a intenção não ficou anulada.

Nenhuma das duas notáveis viagens se destinava a fixação e convívio, e serviram mais a ciência que o humanismo, ao contrário das dos portugueses que tendo muito embora servido a ciência no mais alto grau, o que sobretudo conseguiram foi propor novo plano, o inevitável plano de relações humanas. A fraternidade, nunca segunda vez entendida depois dos árias, que, na sua recuada e longa viagem Oriente-Ocidente, pela primeira vez a propuseram a povos da Ásia e da Europa, ponta ocidental da Ásia, foi então proposta a todos os povos da Terra nos precisos e definitivos termos em que se potenciará a gesta do homem. Intuíram os portugueses, pois, em nome do homem a vontade de Deus, e possível não é chamar a atenção do homem para o seu próprio destino, responsabilizá-lo, sem ser através das soluções entendidas pelos portugueses. E todos os portugueses, os primeiros e os outros, estão presentes nesta solução e nela responsabilizados, pois que seja qual for o padrão de responsabilidade e de vontade dos comparticipantes, a verdade é que sem íntimas correspondências a proposição não teria validade. Assim, se no circunstancial, no aparente, o grau de colaboração pode ter mais do que uma medida, no essencial, não. É consequentemente igual, no essencial, a medida de comparticipação de cada um no gesto fraternal de todos. E sendo assim em relação aos portugueses no âmbito ecuménico, não poderá deixar de ser assim em relação a todos os povos da Terra cuja unidade ideal está já determinada para um tempo futuro pela queda de todas as diferenças. A unidade portuguesa realizada através de povos de todos os quadrantes deu no essencial a queda de todas as diferenças aparentes. Não há de facto diferenças de civilização e de cor que se não tivessem sujeito a uma perfeita simbiose, perfeita porque cedendo no circunstancial e aparente surgiu o essencial potenciado no entendimento de imperativos futurantes. Revelado o processo, o resto da Humanidade nada mais terá do que interceder nele, activa e declaradamente, se o puderem, ou passivamente, mas cada um com uma medida própria de responsabilidade. As navegações dos portugueses, sobretudo as navegações, ensinaram ou revelaram que o homem não era revolucionário, que estava livre da revolução.

Os conhecimentos científicos então revelados pelos portugueses foram em muito ultrapassados, e em grande parte sem a sua própria colaboração. Isso servirá para provar que um povo se não realiza pela ciência, mas principalmente pelo que concebe, aproveitando, por períodos mais ou menos longos, o que ele próprio e os outros realizaram já ou podem realizar na precisa data no campo da ciência e da tecnologia. Mas quantos, atingindo já um amplo estado de comando, confundem esse estado com ultrapassagem e promoção, sentirão na hora própria o devido recuo, por não terem progredido numa linha de proposições eminentemente humanas. E aos povos que, não tendo ainda identificado os seus próprios meios de promoção, forem oferecidos, em vez deles, planos e labores científicos e tecnológicos, funcionarão em desequilíbrio e poderão atrasar o seu próprio conhecimento.

Mas na lição que deram e têm dado desde há quinhentos anos, de fundo humanismo e revelação futurante, os portugueses apresentaram ao homem de todos os tempos as bases da solução mais alta. E se na ciência e na técnica foram ultrapassados, não o foram e não o serão na sua proposição humanística. O que por eles tem sido realizado parcelarmente contém o gesto pleno, e por ele é contido. O caminho da Humanidade, o caminho de todas as Humanidades é esse, não por ter sido proposto pelos portugueses, mas por terem proposto o inevitável que intuíram. Não pode dizer-se que Deus esperou, porque ele está desligado do processo do homem cujo trânsito se iniciou quando o criou e à eternidade. O esperar contém a ideia do imediato, e no mediato nada do inevitável deixará de acontecer. E o homem tem destino para realizar todo o seu inevitável.


Folha de rosto do Tratado de Tordesilhas (1494, in Biblioteca de Lisboa).

O Meridiano de Tordesilhas segundo diferentes geógrafos

Só o homem tem destino. Mais nenhum outro ser o tem porque só o homem o contém. Os seres brutos, os animais e as plantas não têm destino. Nem os mundos. Nem Deus. Não se trata de viver ou não viver, de ser ou não ser, mas de conter ou não conter. O simples facto de nascer, viver ou morrer, ou de não nascer, nem viver, nem morrer, não é inerente ao destino. O destino resulta da intuição e solução do inevitável, e porque inevitável contido antes de intuído. Pela intuição do destino as gerações transcendem-se e no transcenderem-se ou comunicarem-se com as seguintes recusam a revolução. Por se arrumarem no tempo imediato e no espaço geográfico, e assim permanecerem no tempo e no espaço, o homem não se realiza, porque concorda com a revolução. Não se arrumando no tempo imediato nem no espaço geográfico, conservando-se inquieto no tempo e no espaço, o homem vivifica-se na consciência do seu trânsito não-revolucionário e promove-se. Os portugueses assim são.

A revolução é contrária ao espírito da liberdade e exige menos sentido aventuroso que a não-revolução. A revolução, seja ela de que natureza for, resulta da disposição de reencontrar uma experiência já vivida ou um lugar já pisado. Trata-se em qualquer caso, no humano ou fora do humano, de uma regressão em condição de saudade ou de inércia, e nela se desconhecem as visões e os factos que desde a hora da criação se encontram já na eternidade e para cujo encontro e entendimento o homem tem seu trânsito. A revolução retira ao homem as qualidades da sede, que a sede é coragem. Só se justifica a sede face à não-revolução. O homem sem sede está próximo das feras. O homem inteiramente sem sede não percepta.

Têm muitos povos como hábito, ou alguns de seus líderes, provocar a revolução como meio de solucionar algumas de suas fundamentais questões, sob a promessa de as solucionarem todas. Também muitos homens, para melhoria de suas próprias vidas no ponto de vista familiar-social a fazem ou provocam em si próprios ou no seu agregado familiar. Mas a revolução social ou político-social não se afasta da regra imutável de todas as revoluções que é a da regressão. Uma regressão por choque e por isso aparentemente evolutiva pelo sinal de uma aparente restruturação. Mas os homens e os povos não podem restruturar-se, mas apenas adiantar-se perceptivamente, ou promover-se, o que é contrariado pela revolução. Povo ou homem que busque pela revolução solucionar os problemas da sua vida prova não saber utilizar-se de uma acção pedagógica futurante. Pela revolução só o aparente ou circunstancial se resolve, pois as questões de fundo manter-se-ão, quando a vida dos homens e a dos povos requerem exactamente o contrário, visto ser pelo essencial que as gerações se comunicam. A acção pedagógica e o exercício político, essenciais para que as sociedades se adiantem e os homens se concebam em liberdade social, sempre ficam contrariados ou comprometidos pelas revoluções, porque não sendo cíclica, porque humana, a sua rota, a pedagogia e a política lhes ficam sujeitas. Amarrada, e o homem pode fazê-lo desobedecendo, a Humanidade não se dará a si própria a ajuda da sua promoção ou avanço no inevitável do seu trânsito.

Os povos que se envolvem numa revolução vivem em franca desobediência integrando-se numa vida social de motivação religiosa que substitui a vontade pela resignação. O homem resignado ou masoquista não pode intuir porque é o homem abatido, o homem que se abate sobre o seu passado e se ocupa das horas melhores que por ele lhe são reprometidas. A revolução político-social permite, sim, que muitos saiam dos seus lugares próprios, que as hierarquias sejam desrespeitadas e a ascensão se processe sem correspondência dos valores humanos. E desse desacerto as sociedades se prejudicam porque a elas só por acaso serão propostos os seus pensadores. Sem eles a criarem as condições de responsabilidade os povos não encontrarão o sentido mais alto das instituições porque que devem reger-se.

A revolução político-social, a revolução-choque, contraria a vida do homem, porque sobretudo o prende ao existencial, e o obriga a ser vigilante em vez de perceptante. Obriga-o a não ser pacifista, e o homem deve ser, tem de ser pacifista. O pacifismo oferece substancial ajuda à formação das virtualidades de cada povo e por conseguinte à percepção do seu próprio destino. A progressão da percentagem dos que em cada povo ou grupo étnico podem perceptar o seu destino aumentará as condições de promoção desse povo ou grupo. A noção de liberdade está ligada ao conceito de promoção, porque é livre todo o que se promove e simultaneamente interfere na promoção do outro. Se for um homem, o outro será um homem. Se for um povo, o outro será um povo. Se for uma Humanidade planetária, o outro será uma Humanidade planetária. Só assim o homem poderá corresponder-se, porque usa ao máximo das suas virtualidades potentes e estará atento ao entendimento das ainda desconhecidas. Deve o homem entender que pacifismo é a atitude não violenta de explorar todas as virtualidades colectivas patentes com vista à exploração das ainda desconhecidas com usufruto antecipado na consciência do futuro.

"Mapa de Colombo", Lisboa, oficina de Bartolomeu e Cristovão Colombo, c. 1490.


Túmulo de Colombo na Catedral de Sevilha. Os restos mortais são carregados pelos reis de Castela, Leão, Aragão e Navarra.


Se lícito foi o uso da revolução antes de compreender-se que só a não-revolução promove o homem, deixou de o ser quando explicada. Na História de Portugal outro facto importante além das viagens revolucionárias de Fernão de Magalhães e Cristovão Colombo deve ser referenciado como recusa da não-revolução: o reinado de D. Sebastião e, mais especificamente, a batalha de Alcácer-Quibir. Tendo-se entendido que a nova fase da sua história seria voltada ao mar ao longe, por caminhos desconhecidos, mas intuídos, D. Sebastião cometeu o erro de recusar o rumo e desejar transferi-lo para outro campo utilizando o mar que não era português. Esse caminho tinha de facto sido ensinado a Dom Fuas, na hora primeira dos portugueses, pelos mouros. D. Sebastião, voltando a remar sobre esse caminho e voltando a combater os mouros, contrariou o destino, antepondo à não-revolução a revolução. E as consequências ficaram à vista: Portugal desencontrou-se do seu rumo. E fechado num cinturão de aço, atrofiou-se e vegetou no desconhecimento de si próprio. O Portugal ecuménico renunciava-se e as abdicações e traições sucederam-se principalmente entre os que por tradição se anunciavam os utentes das virtualidades rácicas. Isso prova que as virtualidades de um povo só podem residir na totalidade do povo, e não apenas em alguns homens ou famílias. E por isso Portugal só se deu solução quando todos se deram conta da sua responsabilidade. Ao aproximar-se de 1640 os portugueses voltaram a intuir-se. E recomeçaram a sua vida nacional nos mesmos precisos moldes: Luta contra a Espanha, na primeira fase, e viagens do mar em longe, na segunda.

Desde 1580 a 1640 viveram os portugueses primeiros, de novo reduzidos e de novo sós, o mais dramático de seus ciclos revolucionários. E enquanto o viveram, e viveram-no enquanto não voltaram a intuir o seu futuro, fecharam sobre esse ciclo um ciclo maior motivado pelas recordações de quanto tinham feito no primeiro solo e no resto do mundo. A visão retrospectiva do espaço espiritual sem futuro desenvolveu-lhes extraordinariamente a capacidade de vivência regressiva e ao sentimento provocado deram o nome de saudade. E enquanto não for colectivamente perceptado o mediato, os portugueses continuarão a ser quase invalidados pela saudade. É o tributo da revolução.


ULTRAMAR E CONTRA-MAR NA CULTURA
A EXPANSÃO

A contribuição dada pelos portugueses à promoção do homem é reconhecível e tem plena validade. Mas não deram nenhuma contribuição à dilatação da Fé. E por ter-se ajuizado aquela com erradas implicações desta, criou-se a expressão binária Fé-Império que nada significa. Tomar, porém, o binário na sua não-significação e utilizá-lo como símbolo de um gesto significativo, o mesmo foi que criar um plano de irresponsabilidade onde a responsabilidade se confundiu. Promover ou dilatar é criar novos artigos no imediato em compreensão do mediato. Os portugueses, no plano das relações humanas, criaram de facto novos artigos no imediato em plena compreensão ou intuição do mediato. O homem, por isso, encontrou novas motivações na vida e pôde entender a amplitude dos seus ângulos, quando só entendia as suas convergências. Os portugueses, da forma mais perentória, apreenderam primeiro que ninguém o inevitável homem do futuro, o arquétipo universal, e propuseram o seu arquétipo nacional. Esse arquétipo é a resultante ideal do seu gesto humano.

Como já ensinei, o Português é um arquétipo, e resulta das coordenadas comuns do ideal dos povos que portugueses são. Arquitectado, no plano mais alto e mais puro, um novo homem, transporta-se a realização humana para a rotina da função biológica como meio próprio de oferecer à concepção a matéria-prima. Pátria Portuguesa é por isso morada futurante, extremo fim dos portugueses que se transfundirá na pátria universal contínua. A Pátria Portuguesa será a única pátria contínua, porque todas se transmutarão na pátria universal, enquanto que a portuguesa nela se transfundirá. É que a Pátria Portuguesa é em si universal porque foi intuída no tempo pleno. Mais precisamente, pátria, só a portuguesa o é.

A promoção iniciada pelos portugueses provocará de facto o aparecimento de um novo homem, um homem com novos artigos ou faculdades mentais, o homem desde a criação inevitável. Não têm o portugueses, porém, estado atentos, ou suficientemente atentos, aos indícios significativos e realidade dessa promoção e por isso mais de uma vez têm buscado fechar-se em ciclo. Os efeitos resultantes encontram-se facilmente caracterizando certos períodos da nossa história total e mostram que nem os portugueses, nunca se traindo embora, foram capazes de inteiramente corresponder aos imperativos do seu ideal. E o ideal maior do homem, esse, dos portugueses, perderá a nossa identidade na memória dos povos, que não na eternidade, se nos não conjugarmos mais e mais para que ele socialmente se concretize na matéria-prima do nosso sangue.




Compete-nos insistir na lição e para ela exprimirmo-nos em termos filosóficos, porque só pela filosofia transmitiremos a potência e o grau de pureza do ideal português. E se nós próprios desconhecemos ou não equacionarmos as nossas proposições, meios não teremos de em nosso nome as fazer valer. Portugal já é, e, em consequência, sê-lo-á com ou sem nome. A ideia pura não se invalidará sem o nosso nome; mas os portugueses só serão validados se à ideia pura conscientemente praticarem o gesto de oferecer a matéria-prima. Quer dizer que a Raça só tem expressão se concretizar o ideal. Raça portuguesa só existirá na realidade do seu trânsito se for estabelecida uma perfeita simbiose entre o ideal puro e a matéria-prima portuguesa ou povos portugueses. Os Descobrimentos anunciaram em fulgor este destino, mas a colonização demonstrou que nem sempre se esteve atento ao significado desse anúncio. Mas não deixou de provar a absoluta apetência dos portugueses para estabelecer essa simbiose, que foi mútuo o deslumbramento com que reciprocamente os portugueses primeiros e os outros se encontraram. A miscigenação em alto grau concludentemente o prova como base de prova, não só no Brasil e parte do Ultramar, como na própria Metrópole. Mas se a miscigenação é prova como base de prova apenas, evidentemente que tem de realizar-se sempre como aculturação do ideal através de um exercício filosófico que habilite em progresso a apetência dos portugueses pelo significado do seu destino. Um circuito religioso, proposto sobre a não-revolução dos Descobrimentos, amorteceu por séculos a sua revelada apetência.

Os missionários, fazendo cristandade, os militares, realizando a ocupação, e os administradores, impondo a autoridade, por negligência ou desleixo recusaram à expansão portuguesa a amplitude do seu destino. Pretendeu-se tentar nestes três pontos o binário Fé-Império, mas o que mais interessava, e interessa, não é de combinar palavras, mas interpretar ideias. Os Descobrimentos, que se iniciaram numa longa meditação e resultaram do diálogo mais vivo de toda a história de Portugal, nem por isso têm vocacionado os portugueses para a filosofia. Aquele binário que nada é e nada explica, fez adormecer toda a curiosidade, e os portugueses, que se realizavam no trânsito da eternidade, numa atitude ímpar, não ligaram à sua cultura as suas intuições maiores e não pensaram que por ela, em futuração, pela filosofia, haveria de fazer-se a reportagem do que era certo e não acontecera ainda. Só no século XIX surgiram escritores profundamente interessados no Ultramar, aumentando consideravelmente o número desde o limiar do século XX. Mas porque o Ultramar não interferia no diálogo, as  teses funcionavam em desequilíbrio pela não interferência de pensadores ultramarinos. Demorou-se tempo demasiado no estudo do aparente, e, assim, um povo por excelência actuante, e actuante porque sobretudo perceptava o seu destino, não podia dar sentido pedagógico ao seu exercício, nem dar marca filosófica às suas intuições, como se o rumo tivesse toda a sua explicação no imediato. E porque o imediato é inapetente de cultura, e porque a investigação do mediato implica apetência filosófica, deu-se um desajuste que tornou afilosófica a cultura portuguesa. A cultura afilosófica destitui a Pátria.

Parecia congénito o desinteresse da cultura pelo destino da Pátria, e as instituições, que deveriam ser animadas por uma fundamentação filosófica, substituíram a essencialidade da norma própria pela assimilação teórica das instituições laboradas por outros povos. Foi por isso que algumas das instituições fundamentais não cumpriram em relação a todos os povos portugueses, pois a nossa problemática era uma, e as que as haviam motivado outras. E porque se não deram conta desta divergência verdadeiramente anulatória, muitas das virtualidades rescendidas da hora do primeiro encontro entre os portugueses primeiros e os outros foram rudemente abafadas, e a Pátria, por largo tempo, desconheceu-se. Mas porque essas virtualidades resultavam de um gesto inevitável com precedências futurantes, ou seja, ligado ao depois pelo momento quando, foram redescobertas e estimadas.

Forte de Maubara (Timor Leste).

Da cultura em ciclo revolucionário, baseada na história, na monografia, no folclore e na etnografia, processou-se uma fuga, não generalizada, mas vigorosa, para que pela cultura os portugueses todos não permaneçam no seu próprio espaço, mas dele irrompam com o transcendente sinal do seu trânsito. O interesse pelo destino da Humanidade, interesse contendo o destino de Portugal, só muito tarde, e muito recentemente portanto, se estabeleceu na cultura portuguesa. Bastaram aos portugueses primeiros, durante longo tempo, apriorísticas afirmações de tempo inadequado no falso sentido do binário Fé-Império. E os outros só muito mais tarde ainda, só agora, beneficiaram da explicação filosófica, a autêntica, da experimental situação de prosélitos da Igreja e de Portugal para a situação plena de portugueses, situação real desde a hora primeira do encontro, mas só perceptada depois. A cultura tomou, assim, a notícia da sua responsabilidade que lhe é inerente. O comportamento do homem faz já parte de uma problemática cultural, e cultura portuguesa como reflexão do exercício voltado ao futuro de todos os povos da Comunidade tem já o seu sentido próprio. Não mais será possível, depois de atingido este momento de explicação, que qualquer povo dos que portugueses são venha a sentir-se isolado exactamente quando percepta o corpo nacional. A cultura, na sua expressão verdadeira, que é a filosófica, em todos inocula a altiva consciência de portugueses porque é apetente da contribuição profunda de todos os que em qualquer quadrante forem capazes de pensar na Humanidade através de Portugal. Com o estabelecimento do primado dos pensadores sobre os missionários, os militares e os administradores não haverá prosélitos, mas pessoas.

Não é verdade que os portugueses tivessem dado qualquer contribuição à dilatação da Fé. Deram, sim, à dilatação do homem e, portanto, à da Humanidade, porque lhe criaram novos artigos. A Fé, a Fé estabelecida ou definida nos moldes cristãos, nunca foi tão dilatada, porque a Igreja de tal forma se entregou à cristandade que não estabeleceu novos artigos, dogmas, doutrina e filosofia para si própria se promover. A Igreja é ainda o que foi na primeira hora, e a constante chamada que faz aos homens para que descansem no seio de Deus ou de novo habitem o Paraíso é um convite ao regresso, e o homem não pode regressar. Há um profundo desajuste entre essa chamada e o inevitável trânsito do homem, e por isso nem a própria Igreja conseguiu dilatar a Fé e em sim própria implantar novas faculdades paralelas às que o homem, promovendo-se, em seu trânsito descobrirá.

Cristianizar, ou fazer cristandade não é dilatar a Fé, mas tão só expandi-la na horizontalidade dos povos e obrigá-los a estabelecerem diálogo de juízo comparativo acerca das suas próprias religiões. É, na realidade, um jogo de abdicações em que se digladiam os vários conceitos da Verdade. Assim, cristianizar tal como tem sido concebido e realizado, corresponde, exclusivamente, a um chamamento. Nada acontece de intrínseco à Fé, mas apenas um aumento do número de cristãos. Fazer cristandade não é, portanto, uma dilatação da Fé, mas um proselitismo, visto que apenas aumenta o número de aderentes. Os portugueses e a Igreja, ou a Igreja nos portugueses foram pelo mundo fora não a dilatar a Fé, mas a solicitar neófitos entre as gentes de outras raças. Tem-se confundido cristianismo com proselitismo e por isso se não equacionou em seus devidos termos a problemática da dilatação da Fé.

Não se trata de considerar que a cristandade contrariou a Fé. Apenas não serviu à sua dilatação; e, consequentemente, os povos que pelo abraço do missionismo transformaram em resíduos a sua crença antiga ou aglutinaram uma e outra não foram por esse abraço promovidos. O que se deveria ter estabelecido, em vez de fazer cristandade, era o diálogo para o mútuo entendimento do homem novo que pela acção dos Descobrimentos se propunha ao mundo. Esse homem novo, homem recapacitado por virtualidades até então desconhecidas ou ampliado por novas intuições, teria então buscado, não fora de si, mas em si, não a Deus, que o não devia, mas o arquétipo ou construção mental que plenamente o responsabiliza no seu inevitável trânsito. O que só pela filosofia deveria ter sido proposto, não poderia ser resolvido pela religião.


Jesus Cristo

Tempestade no Mar da Galileia, do pintor holandês Rembrandt

Esse facto não dá prova de inapetência dos portugueses, que a apetência vinha confirmada da concepção e gesto inicial. Pertence-lhes a autoria e a autoridade do reconhecimento dessa implicação do destino humano e portanto uma funda responsabilidade em afastar o homem de Deus em obediência ao mesmo Deus. Faça-se a vontade de Deus e não a do homem - Cumpra-se a tua vontade e não a minha!, disse Cristo - e por isso a Humanidade só tem que caminhar para os longes de onde percepta a eternidade na qual se ruma o seu trânsito. O próprio Cristo se desligou de todos os laços do seu passado, de todo o Velho Testamento, apesar de nele parecer estar anunciado o seu advento, e perscrutou o seu destino, o seu trânsito na eternidade. O que dele verdadeiramente sabemos não é que pisou os caminhos da Galileia há dois mil anos, mas que intuiu tão em longe o seu destino, que activou de tal forma o seu trânsito em lição do trânsito do homem, que passou já pelo momento onde ao depois nascemos.

Os Jesuítas, o mais irrequieto grupo católico e o que mais respeita os rumos da inteligência, e por isso o mais independente, perfeitamente apreenderam que do gesto português o homem saía promovido, e deram à sua missionação um cunho diferente do das demais Ordens. Eles poderiam ter responsabilizado os homens, entre quem estabeleciam o diálogo, não perante a Igreja, mas perante o futuro próprio. Estiveram em condições de dar aos povos entre quem pregaram uma superior consciência de trânsito, pondo-os a utilizar a sua vontade e a compreender a sua liberdade. Teriam contribuído para a antecipação do nascimento do Brasil como portentosa metrópole onde se anunciam e realizam todas as condições de cedência ante as diferenças étnicas e sociais em proveito do ideal de democracia étnica. O Brasil é, apesar de tudo, a proposição de Portugal, e bastaria ele só, na vivência do seu esplendor futurante, para mostrar e demonstrar o destino da Humanidade de pleno acordo com o trânsito perceptado. E se mais se não fez, foi porque também eles, os Jesuítas, tiveram de anunciar o regresso do homem a Deus e não puderam evitar de todo o masoquístico circuito religioso, e se comprometeram propondo a segregação racial.

O plano que orientou os Jesuítas no Brasil, numa parte obediente à Igreja e noutra aos imperativos de fraternidade segundo conceitos particulares, atenuou a falta de um plano administrativo, razão porque o Brasil em muito se distinguia das províncias ultramarinas portuguesas. Foi possível ao Brasil ser menos revolucionário ou mesmo caracterizar-se pela contra-revolução, para o que mais do que tudo contribuiu a Casa Grande. Um ímpeto de promoção e o deslumbramento do encontro possibilitaram um novo padrão humano, o padrão que se projecta como futurante e no qual se encontrará o destino do homem, no qual cada homem, qualquer que seja o seu quadrante de origem, encontrará o seu destino maior.

O Brasil é hoje o povo mais perfectível do mundo e nenhum percepta tão completamente o seu futuro como ele. Em si próprio se contém já não apenas a síntese da Humanidade, mas até a das Humanidades dos mundos planetários. Quando da sua descoberta, tinha já um grupo autóctone heterogéneo ou alófilo e mantinha definido o Tupi, o Ge, o Aruaque, o Caraíba, o Betoia, o Pano e o Guaicuro. Os portugueses primeiros transfundiram-se no contacto com essas gentes e na sua terra luxuriante e estranha marcaram referências que sinalizaram o caminho para emigrantes de todo o orbe. O Brasil é na terra ponto de convergência de todas as raças e os seus utentes e os outros que o habitam ou o buscam aceitam em antecipação as condições para o estabelecimento da fraternidade. Não é possível deixar de tomar o Brasil como a magistral lição de Portugal.

Cristo Redentor no topo do morro do Corcovado (Rio de Janeiro).

Essa lição não acabou ainda e temos dentro da Comunidade grupos étnicos apetentes dela. E da do Brasil. Pode a lição inacabada justificar uma censura, mas não invalida a autoria, nem retira direitos, porque autoria e direitos se não ratificam com a execução, mas com a concepção. Não foi por ter criado o Brasil que Portugal afirmou a sua vida futurante, mas por a sua vida conter a do Brasil antes de manifestada. Igualmente as outras que ainda se não manifestaram estão contidas, e isso por si só afirma já a realidade. A Comunidade Portuguesa, como razão pátria, é, pois, indiscutível, uma vez que está já afirmada a possibilidade de todos os portugueses a perceptarem entendendo o Português como o arquétipo resultante das coordenadas filosóficas comuns de todos os grupos étnicos portugueses, como ensinei já no meu livro «Comunidade Pluri-Racial». O Português é o ideal comum dos ideais de todos, e pátria a morada actual futurante.

Uma vez que filosoficamente estão já definidas e entendidas como reais os conceitos de Pátria e de Português, foram retiradas todas as razões actuais ou longínquas para qualquer ultramarino desejar ter outra pátria ou ser outro Povo. Nem mesmo a independência do Brasil o poderá autorizar ou explicar, porquanto o Brasil não foi jamais Pátria Portuguesa ou Povo Português. Não pode desconhecer-se a acção dos que no Ultramar eliminaram, abafaram ou desprezaram tudo o que nos autóctones poderia ter criado mais sinais de comunhão, mas é possível ainda uma acção contra-revolucionária ampla para que os portugueses todos afirmem plena consciência do seu destino. Só a filosofia, propondo e equacionando a problemática nacional, a pedagogia, exercitando-a, e a política, consentindo um movimento social amplo, poderão proporcionar que se mantenha com o nome de português o inevitável que os portugueses intuíram como trânsito do homem.

Para a contra-revolução garantidora da sobrevivência da Pátria, impõe-se que os pensadores tomem adequado lugar e o honrem, porque só pela filosofia poderá ser garantida a expansão portuguesa no mundo. Não são os missionários, os militares e os administradores que o podem fazer, porque as suas funções são revolucionárias ou de trânsito limitado e repetido, e por elas se não adquire consciência do destino humano. O Português o contém. Se pátria só a portuguesa o é, o Português, pelo que intui na sua fuga de Deus, é, verdadeiramente, o homem de Deus» (in ob. cit., pp. 147-181).

Cascais, Agosto-Setembro de 1962.


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