terça-feira, 15 de novembro de 2016

Promoção do Português (i)

Escrito por Fernando Sylvan




Brasão de Armas do Infante D. Henrique

Promontório de Sagres

«O Infante de Sagres encarna um caso feliz e superior da mistura de sangues, como aliás a "ínclita geração" a que pertenceu. Entre latino e anglo-saxão, o seu génio, dos mais completos da História, é o de um "apaixonado metódico". Nele se confunde monoliticamente a sonhadora ebulição e o ardor da vontade dos meridionais, com a persistência e o espírito prático dos fleumáticos, capaz de subordinar a afectividade aos rumos intelectuais de acção e às exigências desta.

Místico e negociante, cruzado e sábio, motor imóvel de navegações, sonhador e calculista da Aventura, teve de fazer a ciência, os homens e o dinheiro que um sorvedouro implacável consumia. Até o monopólio da indústria dos sabões obteve, a braços com enormes despesas, num orçamento que as altas receitas jamais equilibrariam, tão ilimitada era a empresa.

Metido no seu promontório de onde custava arrancá-lo, torre de comando feita de rochas a pique avançando sobre o mar, aí lhe principiava o mundo só de oceanos e terras virgens. Espírito fervente e solitário, movia sistematicamente uma devassa geográfica sem par e a valorização das terras novas. Em tudo pensava numa entrega total.

Ocorre duvidar-se dos sentimentos desse homem, sacrificando um irmão cativo em Tânger, não diligenciando o bastante para evitar o desastre do outro em Alfarrobeira. A sua aborção na empresa marítima porém explica tudo, mesmo essas falhas de afecto. Deu-se com o Infante uma especialização da emotividade pelo estreitamento do campo da consciência que naturalmente o inibia para o que não estivesse no interesse fundamental».

Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).


«Apelo ao interesse de D. Henrique - e à sua bolsa - fazia-o também a Universidade, de que era protector oficial desde a sua juventude. Não era simples título honorário. Crendo como cria que a ciência era a fonte de todo o bem, o Infante encarou as suas funções muito a sério e, sob a sua influência, o sistema de ensino e o plano de estudos foram revistos e actualizados. Foi no seu tempo que as matemáticas e a astronomia foram introduzidas a par da gramática, lógica e retórica, que haviam ocupado o primeiro lugar nos cursos medievais.

A Universidade portuguesa, fundada em Coimbra por D. Dinis, fora subsequentemente transferida para Lisboa, onde permaneceu até ao reinado de João III. D. Henrique encontrou-a a funcionar precariamente em prédios particulares alugados. Remediou este estado de coisas comprando casas apropriadas, com que dotou a Universidade.

Escolheu os edifícios com grande cuidado e mandou-os decorar a seu gosto, e ele mesmo determinou como se haviam de acomodar as diversas aulas. Assim a retórica e as ciências seriam ensinadas no rés do chão, onde as sete artes liberais se achavam representadas em quadros em volta da sala de prelecções. As aulas de medicina também se realizariam em baixo, presididas por um retrato de Galeno. A teologia, a filosofia e o direito canónico foram convenientemente instalados no andar de cima, em aulas decoradas, respectivamente, com quadros da Santíssima Trindade, um papa, um imperador e Aristóteles. Parece que a gramática não tinha qualquer quadro - talvez não o precisasse. Deve ter sido, porém, uma aula animada, visto que D. Henrique decretou que fosse ensinada num anexo por "que he de grande arroido"».

Elaine Sanceau («D. HENRIQUE, o Navegador»).




«Foi o Infante um homem excepcional, um homem de vontade férrea, um homem que soube rodear-se dos que ao tempo mais sabiam de astronomia, de geografia, de cartografia, do regime das correntes, ventos e marés, de construção naval, etc., isto é, de alguns judeus, de alguns árabes e de alguns portugueses, mas nada poderia ter realizado, se não tivesse em sua volta, inquebrantável, a Milícia de Cristo, com seu saber, sua força de carácter, sua unidade interna, seu juramento de obediência e de sacrifício sem limites.

Eis porque os capitães foram cavaleiros de Cristo, condição indispensável, que não era a de possuir um diploma de marinheiro, mas infinitamente mais exigente, a de ter recebido uma iniciação capaz de os transformar em instrumentos do destino, em agentes (como se julgavam) da Providência ou de um desígnio sobrenatural, qual o que na lenda, foi revelado por Jesus Cristo a D. Afonso Henriques em Ourique. Não trabalhavam sob contrato laboral, não eram mercenários, não procuravam pessoalmente o lucro ou sequer as honras, mas exerciam uma missão ao serviço de um plano humano-divino».

António Quadros («Portugal, Razão e Mistério», Livro II).


«Tem-se usado e abusado da expressão "tolerância" para marcar e demarcar a atitude dos portugueses primeiros em relação aos restantes povos da Comunidade, no sentido de justificar a presença do povo que deu movimento à missão comum nas terras ultramarinas. Aceita-se, é claro, que foram esses portugueses os autores do movimento em que frutificou a missão, mas para que ela tenha no futuro a validade de uma presença nobre é preciso compreender que não foram eles só que lhe deram expressão. A expressão é comum, porque a missão não constituiu nem constitui dádiva unilateral aos que primeiro se chamaram portugueses. Se assim não fora, seria vazia a expressão Raça e periclitantes as forças que convergem no futuro, equiparadas. Este é exactamente um dos argumentos que mais valida a Comunidade, pois de contrário não seria possível sair do atrofiante colonialismo em que um equívoco de alguns séculos lançou o homem encontrado além. Mas porque de missão se tratava e porque os que primeiro usaram tal nome de portugueses não eram todos os que poderiam usá-lo, não ficaram sufocados nos novos que haveriam de sê-lo para sempre as ansiedades fecundas que se multiplicam em esforços cívicos futurantes. O equívoco foi por isso rectificado e a missão recomeçada em plenitude.

Colocados, pois, em igualdade, por missão que a filosofia explicará, todos os povos da Comunidade, como plenos dessa mesma Comunidade, não podem aceitar existir e viver nela senão no mesmo nível. Consentir que um dos povos, neste caso o metropolitano, conceda ter permitido a apreensão comunitária por tolerância, é aceitar o baixo sentido pejorativo dessa expressão e aniquilar todas as possibilidades de uma digna igualdade entre os grupos rácicos que constituem Portugal.

O termo tolerante, usado para justificar ou definir a atitude dos portugueses primeiros em relação aos povos do Ultramar é contrário à noção do Direito e à função de todos. Na Comunidade Portuguesa não há tolerados, mas sim povos e indivíduos que a despeito de diferenças civilizacionais ocupam lugares coordenantes na gesta nacional. O emprego de tal expressão pejorativa só pode partir de quem não tenha sido capaz de entender o movimento e acção que consubstanciam o empréstimo de pensamento, alma, sangue e força que todos instintivamente fazem a Portugal, por exigência de Portugal, para que Pátria seja de povos espalhados por quatro continentes. É que Portugal, que começou por ser apenas o território europeu dos portugueses primeiros, tornou-se síntese evolutiva e mítica de todos aonde aqueles chegaram. Portugal não é já somente os dois palmos de Europa que germinaram no coração de D. Teresa. Aonde quer que os portugueses primeiros chegaram, aí também encontraram, em ansiedade secular, pedaços de Portugal esperado.

Túmulo de D. Teresa na Sé de Braga

Os portugueses são o povo que habita e tem habitado Portugal, ou seja a parte europeia da Comunidade Portuguesa. Mas o Português, quer dizer, o Homem Português, o arquétipo, não é só esse, ou, talvez melhor ainda, não é nunca só esse. O Português é o Homem ideal, o que se conhece como resultante de Pátria Portuguesa una e indivisível e aquele que tem em si, potenciados, os imperativos desta concepção. Não pode recusar-se a forma genérica de portugueses para todos os grupos, uma vez que na aparência histórica e cronológica foram os portugueses os autores em missão do abraço universalista. Mas é indispensável a destrinça, porque sem isso não poderá haver personificação e responsabilização de cada grupo, e não é na amálgama que se fortalecem as razões superiores que podem enformar o arquétipo dos portugueses, isto é, o Português. O Português não tem, pois, forma antropológica. O Português é o ideal, dos portugueses primeiros e dos outros.

Se assim não pudesse ser tornar-se-ia conflituosa a existência nacional de tantas raças, e dar-se-ia justificada cisão à medida que cada povo desejasse o abrigo de uma pátria futurante. E a morada pluri-racial perderia sentido, quando, afinal, é ela a única que pode dar explicação a uma Comunidade. Os elementos ou indivíduos de povos diferentes podem fundir-se em cruzamentos sucessivos, e daí resultar o dessoramento de alguns grupos e o aparecimento de novos padrões humanos. Mas tal se não concebe como norma política de sujeitar uns grupos a outros, uma vez que os cruzamentos tendem, como seu último fim, a uma completa aglutinação. Ora os cruzamentos, quando conduzidos, portanto intensificados por um plano alheio à vontade individual dos que neles interferem perdem a grandeza que deve coroar o mais importante dos actos humanos.

Não sendo, pois, de admitir uma aglutinação forçada, só pode prevalecer o desejo de respeitar a estrutura de cada uma das raças. Evidentemente que podem séculos sobre séculos de convívio e vizinhança provocar o dessoramento de grupos étnicos coexistentes e dar como resultante novos tipos físicos, mentais e morais e, portanto, também, um novo tipo de civilização em que o melhor de cada grupo prevalece e fica como padrão. Mas prever o que deve prevalecer é concorrer para um erro gravíssimo, porque o prever não é mais do que tentar prever, e não é possível saber-se ao certo, num determinado presente, quais são os valores relativos que, potenciados, venham a ser infalivelmente os valores convenientes. Esses valores convenientes hão-de surgir do choque e do convívio pacífico.

Admitir como ponto certo a proeminência dos metropolitanos, que em si próprios são já a resultante de um exercício de choque e de convívio, é partir de uma premissa falsa. Nos espaços contínuos, tal é possível e facilitado por um natural emparedamento. Mas nos espaços descontínuos, não. Assim, o que se dará como se deu na metrópole entre os invasores bárbaros e não bárbaros, dar-se-á nas regiões ultramarinas, mas entre vizinhos, ou seja entre os grupos étnicos situados em regiões contínuas. E como não é de admitir a prepotência violenta, dada a participação levada a efeito no período colonial, e a posterior vigilância dos poderes constituídos, verificar-se-á, com certeza, do choque e do convívio pacífico, a afirmação dos tais valores convenientes em novos grupos resultantes.

A mestiçagem, comummente o cruzamento entre o homem metropolitano e a mulher africana, não pode ficar apenas neste entendimento. Tomará o aspecto voluntário e nobre de busca individual emotiva entre muitos outros grupos étnicos e fornecerá novos padrões rácicos.

Os portugueses jamais, por si sós, poderiam produzir o Português tipo ideal universalista, mas empreenderam a missão de o buscar dando-o. Os portugueses e os outros povos de si distantes que estavam cercados de segredos e de mistério deram de si mesmos pedaços de alma e de sangue para a formação ideal do Português.




A diferença entre uns e outros está apenas em que nos portugueses havia movimento e nos outros passividade, mas um e outros se completam na contribuição dada ao Português. Quer dizer que não é possível admitir-se, em face da conclusão futurante, o primado dos metropolitanos. Eles apenas foram os primeiros a iniciar uma acção, mas o alto significado de tal gesto só permanecerá se renunciarem a qualquer disputa de posições, pois não se trata de ordená-las, mas de conjugá-las. A permanência de Portugal no mundo não depende do que os portugueses fizerem, mas sim do comportamento de todos os povos do globo que portugueses são. Aceitar o contrário, é aceitar cindindo. Ora aceitar assim é revelar incompreensão. Mas se aceitar assim é incompreender, pior será actuar assim, porque isso será mostrar e demonstrar haver de facto uma dificuldade conjugadora interna, ou seja uma dificuldade contra a unidade necessária. Todos os povos portugueses têm de capacitar-se para dispender esforços contínuos, identificados com as suas aspirações comuns, além de realizarem o exercício que lhes é devido como grupos étnicos individualizados. Assim, cada grupo étnico garante-se no exercício individual; e a Comunidade garante-se no exercício colectivo.

Na compreensão da missão de todos reforça-se o sentido comunitário, tão forte que liberta sem desprender, sinal que coroa a insistência com que os portugueses primeiros sempre se desprenderam da Europa, o que bem indica que Portugal não era europeu, apesar da correspondência de níveis civilizacionais com os demais países da Europa. Tal facto serve para demonstrar não serem os tipos ou níveis civilizacionais por si só justificativos de alianças. Os vários grupos étnicos portugueses dos continentes exóticos não estão mais próximos dos seus vizinhos que dos portugueses metropolitanos, porque são principalmente as aspirações que aproximam os homens e não os seus estados civilizacionais. Os portugueses primeiros, quando chegaram aos pontos geográficos colocados além-mar fundamentaram a existência de um novo Homem, concreto por abstracção, futurante por não ter passado, de vivência por nunca ter existido, ideal por ser completo. É esse o Português, ou seja o arquétipo.

A compreensão deste fenómeno por parte de todos os compartimentos rácicos portugueses em todos criará a compreensão do consentimento coexistente que será o fundamento da Comunidade. A Comunidade será a única forma digna de coexistência, porque ela não implica para uns sujeição, mas pelo contrário a todos liberta da sujeição. O sentido actual de assimilação deixará de ter de discutir-se, porque a coexistência não implica assimilação; o sentido incompleto de integração deixará também de interessar, porque outro caminho mais amplo se encontrou, o da Comunidade, mais livre e mais nobre. Na Comunidade, ninguém ou nenhum povo terá de sujeitar-se ou alterar-se. Basta saber caminhar de mãos dadas.

Considero que houve um equívoco entre missão e missionar. E por isso a missionação avulta na acção colonizadora e em certos aspectos e regiões ocupa o único lugar no historial da acção dos portugueses. Não se trata de um erro, mas de uma insuficiência, e, assim, em vez de ter-se actuado também intelectualmente, como cumpria à amplitude de uma missão, evangelizou-se, como finalidade da missionação. Para muitos, colonizar queria exactamente ou substancialmente dizer evangelizar, e os autóctones, postos diante desse único caminho pelos que invadiram as suas regiões edénicas, eram convidados para um novo modo de buscar a Deus. Mas ficava de lado, como coisa menor, o ensinamento e a aprendizagem de processo necessário à confraternização dos homens. O desenvolvimento de uma consciência cívica, o interesse por tudo aquilo que compõe a vida, a percepção verdadeira do cosmos dominado no futuro pelo homem, isso, não podia ser entendido por um homem a quem não fora dado encontrar-se. E não havia, aparentemente, o entendimento do interesse em que ele se encontrasse, porque, de quantos o foram buscar e despertar dos seus fundos silêncios quase todos estavam alheios da missão de que iam investidos.


A missionação, realizando-se como se realizou, em potência e extensão, salvou os Descobrimentos e Conquistas do completo malogro, pois fez da sua missão a missão de Portugal, e invocou-o insistentemente como pátria terrena daqueles a quem oferecia uma pátria celestial. A Administração aproveitou na totalidade o chão que a Igreja preparou e passou a entender que deveria impulsionar a missionação, tornando-a como sua missão, para impor a soberania. Mas o que de mais alto se esperava não era apenas impor soberania. E não é ainda.

Com este equívoco foi possível equacionar menos do que se devia a função da conjugação de um pensamento e também considerar menos do que convinha os vários aspectos intrínsecos dos autóctones de cada grupo, incluído o sentido religioso particular de cada um. Não foi possível, por isso, levar suficientemente em conta que no interior de cada homem há o seu anterior, isto é, o ancestral, a linha infinita mas nunca indefinida dos avoengos que nele são garantia de autenticidade.

O homem brutalmente despegado dos hábitos dos seus maiores e esquecido da sua religião primitiva antes de entendê-la no possível, fica um ser não-cósmico ou anti-cósmico e a sua individualidade demorará a personalizar-se. O indivíduo que não é pessoa é um desentendido e não poderá lutar por sê-lo com o necessário vigor, porque tem dificuldade em permanecer com antecedência no seu destino. A missão dos portugueses primeiros junto aos novos povos portugueses era exactamente fazer-lhes entender o sentido cósmico do homem e da vida na antecedência de Deus. Essa é a razão que explica, decorridos cinco séculos de colonização, não estarem esses povos em condições de dar uma colaboração mais activa a si próprios e aos outros.

Evidentemente que este equívoco não foi exclusivo dos portugueses primeiros. Os outros povos europeus que também colonizadores se tornaram não foram capazes de fazer melhor. Fizeram sem dúvida pior. Mas os primeiros navegadores e conquistadores tinham plena consciência da missão que os levava a romper o mistério dos mares. Quase pode aceitar-se que o entendimento da missão cessou quando os propósitos de um encontro universal de todos os homens deixaram de ser exclusivamente lusíadas para ser, como depois foram, europeus».

Fernando Sylvan («O Ideal Português no Mundo», in O que é o ideal português).



PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS


COMPREENSÃO PORTUGUESA DO MUNDO 
A VONTADE

Os árias, os egípcios, os portugueses e os russos são os relativos autores dos grandes movimentos contra-revolucionários com os quais o homem dá aparência ao estabelecimento e restabelecimento do trânsito no eterno. Os primeiros, emigrando para o Ocidente e iniciando a fusão humana pela miscigenação; os segundos, perceptando o Deus único e transmitindo essa percepção aos hebreus por intermédio de Moisés; os portugueses, determinando, pela mão do Infante, novas rotas terrestres e estabelecendo a fraternidade humana; e, os últimos, colocando o homem fora da Terra e possibilitando o curso para outros planetas, dão notícia dos principais pontos de catapultagem do homem no seu trânsito pela eternidade. Esses são os sinais visíveis da apetência do homem pela sua própria promoção. O homem pode intuí-la, e só por intuí-la a apetece. A intuição e a apetência surgem em anterioridade futurante, quando é já inevitável.


Assim, quando surgiu o Infante, síntese dos portugueses e fronteiro da Europa, já os povos em quem se tinham realizado as experiências anteriores tinham consigo a apetência de uma nova etapa. E por isso todos os europeus e os hebreus fisicamente recobriram e ampliaram as rotas portuguesas, embora não tendo apreendido delas o significado fraternal e a finalidade promocionária, se usassem dos povos que foram encontrar. A colonização, tal como a entenderam esses europeus, e o emparedamento migratório biológico-social praticado pelos hebreus não corresponderam ao intuído pelos portugueses, nem, portanto, às suas propostas mais significativas. Por tal motivo, razões de aliança que deveriam ser equacionadas feneceram, e em vez de uns povos se colocarem no seio de outros, provocaram-se impactos, por vezes rudes, para ocupação territorial. Foi assim proposto, com graves repercussões, um equívoco histórico, e por ele se confundiu ocupação com colonização. E porque a ocupação sugere uma actuação imediata diferente da colonização, dirigida em longe, ao mediato, pareceu a esses povos emigrantes que deveriam continuar a viver a sua vida, ou uma outra sua vida, alheios aos imperativos consequentes da proposição portuguesa. Não se correspondeu nem à apetência própria, nem à apetência recíproca, e, assim, a colonização tomou aspectos instintivos cujos principais rumos foram ou evidenciar virtualidades secundárias deslocando-as do conceito, ou o apartamento dos autóctones, ou a sua escravização, ou, o que é mais dramático, a sua extinção. A Inglaterra, na Índia, ilustra o primeiro aspecto; a União Sul-Africana, com o «apartheid», o segundo; a Bélgica, através da sua permanência no Congo, o terceiro; e os comparticipantes da formação dos Estados Unidos da América, não apenas o último aspecto, mas também, o segundo e o primeiro. É evidente que estes são apenas os sinais mais vivos, observáveis, no vasto e inquieto quadro humano, pois, com mais ou menos margem, todos os povos colonizadores erraram. Simplesmente, o erro de alguns foi tão clamoroso que os juízos acerca deles não poderão ser conjugados com o tempo no pretérito, porque os seus efeitos se garantem no futuro. É sobretudo por se garantirem no futuro que dificultam a promoção do homem, mas o trabalho de rectificação confia-se aos pensadores, pois que só eles, como legítimos representantes de todos os povos interessados na sua vida podem intuir a exigência do futuro, já existente.

Os pensadores portugueses estão nessa atitude imensamente responsabilizados, pois lhes cumpre, em exclusivo, dar à Pátria Portuguesa o pleno entendimento de si própria para que todos os povos que portugueses são tenham garantido no dia seguinte de todos os seus dias a sua morada ideal. A falta deste exercício trouxe à Pátria incalculáveis danos, e com prejudicar-se a Pátria transmitiu-se o prejuízo nela à Humanidade, pois que a destinada acção de que se incumbira não interferiu no trânsito do homem tanto quanto podia. A não realização da acção apetecida quando inteiramente possibilitada, corresponde a cindir, que o mesmo é que não corresponder à apetência, e iludi-la na impossibilidade de a negar. Não são os profetas que podem perceptar o futuro da Humanidade, porque eles são instrumentos actuantes de ciclos revolucionários e não entendem o futuro no seu extremo fim contínuo. O pensador, não, porque é por excelência o único homem livre, e a promoção só se consecutiva em plena liberdade, mais especificamente na relevância da capacidade contra-revolucionária.

Na vida portuguesa os pensadores nunca tomaram o justo lugar, nunca, portanto, usaram da liberdade que por o serem lhes é cometida. E, assim, nunca puderam garantir socialmente o que para a sociedade intuíram, e o que dela intuíram, transmitindo a elementos do imediato activo, geralmente pessoas ou entidades de forças ordenadas, a sua autoridade. Daí a dificuldade que os portugueses têm tido de estabelecer para o mediato o exercício consecutivo da filosofia, da pedagogia e da política, não tendo encontrado ainda as instituições definitivas apetentes da sua acção nacional. É que a pedagogia e a política necessitam não apenas da autoridade da filosofia, mas do próprio filósofo como pessoa, para que ele próprio interfira no âmbito do consequente. A falta do pensador no âmbito consequente como pensador, não só no aparente imediato o destitui de si mesmo, como altera a ordem hierárquica, ou mesmo a inverte, tomando a política o lugar cimeiro, a pedagogia o imediato e a filosofia o último. O que acontece face a esta inversão é tornar-se a política, ou tornarem-se os políticos a classe mentora e ser proposta à sociedade não uma doutrinação fecunda e em termos nacionais, mas um arranjo apriorístico conjugador dos incidentes circunstanciais. A autoridade intelectual será então substituída pela autoridade activa, mesmo autoridade visível, ou seja a não-autoridade, porque responsável. E a compreensão da autoridade intuída, real, perde-se porque se impossibilita.
Todos os povos que tenham além do soberano, príncipe ou presidente os políticos no primeiro lugar da vida nacional, sofrerão um rude desajuste, porque ao erro grave de não se oferecer aos pensadores o lugar próprio, se acrescenta este outro de pôr os políticos no lugar dos pensadores. E, então, a pedagogia, que deveria estar sujeita à filosofia, desarticula-se, e deixa de sê-lo para submergir-se, falecendo com isso o instrumento activador e conjugador de todas as virtualidades colectivas. O pensamento nacional inexpressiva-se, e a acção deixa de fazer-se sobre a visão ideal do futuro, para incidir numa perspectivação histórica que não pode deixar de ser a recusa da contra-revolução. Os políticos votam, então, pela revolução, a sua actividade torna-se eufórica, impetuosa, e, sem o saberem, substituem a vassalagem aos imperativos nacionais, que humanos são, pela obediência aos planos internacionais, vivos sem trânsito, porque não de rumo próprio.

A compreensão portuguesa do mundo expressa-se na certeza da inevitável fraternidade de todas as raças, e essa compreensão adjectivada pelo Infante terá de propor-se universal por todos os homens. Não se trata de missão, que sendo inevitável o trânsito, a vida humana é em si missão, não podendo, por isso, ser atributo de alguns homens ou de certos povos apenas. Trata-se, sim, do uso da vontade na conjugação de forças ou na disciplina de forças já propostas como despertadoras da apetência inata do homem pelo ideal da fraternidade. Aceitar-se como missão de alguns apenas o que a todos está cometido, o mesmo seria que fundamentar o mérito histórico desses homens ou povos e desautorizar todos os demais com um novo motivo de diferenciação, por certo o mais grave porque tomado como verdadeiro implicaria o juízo de que Deus criara mais do que um tipo de homem, pelo menos dois, o da missão e o outro. E a ser um facto tal proposição, impossibilitado estaria, porque antecipadamente condenado, todo o processo de fraternidade. A missão do homem é total e nela todos se implicam.

O Infante, autêntico português, quando se adiantou na intuição da nova etapa, não o fez como português, mas como homem. Não é possível apreender-se o longe do destino humano sob a estimativa de um conceito de nacionalidade. Mas apreendê-lo serve esse conceito no mais alto grau pelo prestígio que a ele se empresta em dádiva definitiva. E esse prestígio não se estabelece em ordem do homem para o povo e do povo para a Humanidade, porque se não desenvolve do núcleo anterior para o total, em progressão e potenciação, do antes para o depois, do princípio para o fim, como seria face ao desconhecido que vai acontecer, mas do depois para o antes, do futuro contínuo para o anterior, do ideal futuro introvertido que vai acontecer no antes, e, portanto, da Humanidade para o povo e do povo para o homem. Não foi o homem que gerou o povo e o povo a Humanidade, mas precisamente o contrário, que Deus, ao criar o homem para, no para estava já ele contido, ou seja na expressão mais ampla da Humanidade para vir a ser no futuro do futuro o que desde então já é, pois não se pode intuir no futuro senão o que no anterior já é.

A base da pirâmide humana não é o polígono, mas o ponto, que a síntese se antecipa no tempo controlável. E por isso a Humanidade não é o conjunto de povos num dado tempo de sempre, mas o todo quando povos já não forem na realidade do futuro do futuro, ou a plena intuição dela no tempo premeditado. A Humanidade real não é a real, mas a virtual, pois a existência de homens em seus povos e a de povos em suas terras, inapetentes uns dos outros não corresponde à Humanidade fraternal do devir. Não é por existir o homem em seus povos e os povos em suas terras que se atingirá aquela expressão plenamente contínua, porque a Humanidade no seu pleno exercício social não resultará da progressão em si desses povos, mas da percepção do fim infindável. A Humanidade não é consequência de uma multiplicação biológica, ou explicada pela biologia, mas um termo anterior de apetência do futuro, termo no qual o ideal se humaniza na precedência do todo. A Humanidade não é o acontecido humano, mas o ideal a acontecer no humano, ou seja o consequente da consequência em vez da consequência do consequente. A Humanidade vem vindo na promoção. É erro considerar-se que a Humanidade vai indo na promoção. A promoção nega-o.




O futuro não é consequência, mas antecipação. Não se coordena no que vai indo, mas no que vem vindo, porque a sua disciplina não é revolucionária, mas contra-revolucionária. O homem que percepta o futuro faz que ele venha no antes. A percepção não é sinal de que o homem vai, e que por si haverá. A percepção sinaliza o haverá, e o haverá vem. Por ir ou ir indo identifica-se ou consente-se unicamente o presente que se desloca e actualiza. Esse é o condicionado pelo trânsito inevitável, num movimento de que o homem, inapto, se serve. Mas no trânsito inevitável o homem não se promove, porque no seu movimento não há futuro, mas apenas presente, ainda que em tempo sucessivo. No trânsito inevitável nada se descobre do que só pode ser intuído ou perceptado, porque somente se descobre o imediato, pelo que o homem no trânsito inevitável é instrumento e testemunha, mas jamais alavanca de si próprio.

O futuro do futuro pode ser perceptado em qualquer tempo do trânsito, que a percepção é simétrica. Se a percepção não fosse simétrica, por ela se não poderia entender o futuro do futuro, e não era por havê-lo que se possibilitaria a promoção do homem. A criação do homem e da eternidade em si mesma não contém para o homem a inerência do de si saber, e o de si saber pode constituir aquisição simétrica directa, portanto intuitiva, em acção filosófica, ou indirecta, portanto social, em acção pedagógica. Assim, pois, o conhecimento do futuro não é exclusivo atributo de quem o apreende, mas também de quem acerca dele aprende, e nivelada fica a importância social de um e de outro porque é de usufruto o direito consequente da apreensão e da aprendizagem. Quer dizer que o filósofo usufrue do seu exercício o mesmo que o outro que dele aprende, e só quando outro dele aprende, porque um e outro por um e outro se promovem.

Por isso a pedagogia só pode ser consequência da filosofia, e a política consequência da pedagogia. O serviço que uns aos outros os homens se devem prestar encontra plenas condições de estabelecimento, e só assim as encontra. A filosofia, a pedagogia e a política, tornam-se, por tal motivo, em fusão contínua, num serviço público. Os núcleos étnicos ou povos não podem dispensá-lo, por si próprios em si e pelos outros na sua relação. Por bem equacioná-lo, as sociedades realizam os seus imperativos, os quais só se cumprem quando na generalidade se prestigiam na motivação de instituições que no imediato sirvam o bem comum na sua acção social e no mediato a fraternidade humana na sua gesta ideal. Desta forma o homem defenderá, pela inteligência e pela acção, a liberdade de se cumprir e o direito de ser feliz pelo dever de obedecer à vontade de Deus, para o homem uma só vez expressa.

O Infante e os portugueses do Infante, ele porque o apreendeu, os outros porque aprenderam dele, colocaram-se na posição chave de dar a todos os povos, principalmente através dos europeus e daqueles aonde chegaram, exemplar notícia do intuído em razão simétrica do futuro do Infante. O Infante, na serenidade da sua vontade extrema, não como príncipe de Portugal ou dignitário da Igreja, mas como homem do homem, ergue-se, imponente, certo, e traça, na sombra do espaço, a linha de luz que, existindo, faltava na Terra. Iam preencher-se novos espaços antigos, desenterrar-se do trânsito inevitável os caminhos indispensáveis.

E foi então que Portugal aconteceu, não como conjunto de regras ou circunstâncias acumuladas no curso de dois séculos e meio, mas como núcleo perceptante de uma comunidade humana futura. Portugal não se tornou para povo próprio quando pôde justificar seu trânsito revolucionário, mas quando se intuiu contra-revolucionário, quando se apercebeu núcleo apetente de futuro. E tornou seu, e em si de todo o homem, o único futuro. Daí a compreensão portuguesa do mundo conduzir ao encontro total em cada tempo, e ser o real numa antecedência só aparente de todo o virtual futurante no qual se plena a Humanidade ideal. A responsabilidade colectiva não se gerou, não foi consequência de uso de tradições, que os primeiros que se deram conta da existência de uma razão de nacionalidade a desligaram do tempo vivido, e por isso toda a explicação de Pátria Portuguesa, em cada tempo, parte do tempo não vivido. Não são os portugueses todos por ir indo no tempo que se conta que delineiam a Pátria, mas pelo vir vindo dela.




Príncipe de Portugal e mestre da Ordem de Cristo, o Infante, face ao Reino e face à Igreja, fechava em si o circuito da gesta humana. Cindir o circuito, foi entender o homem no seu destino. E partindo do subestante, recusando, pela contra-revolução, a revolução, pela primeira vez, desde Moisés, o homem se apercebia utente do seu trânsito. O importante não era as caravelas partirem de Sagres, mas ser português o destino que vinha sobre elas. Nenhum acontecimento, até então, se tinha adjectivado com o nome de um povo, e um povo surgia que, consciencializado do seu trânsito futurante, dava seu nome à gesta do homem. As navegações adjectivaram-se de portuguesas. D. Henrique não lhes chamou reinado ou cruzada, porque, na verdade, elas transcendiam o príncipe e o mestre, o Reino e a Igreja. Portugal era o símbolo do destino da Humanidade, e os portugueses, os portugueses segundos buscados pelos portugueses primeiros, haveria de fazê-lo em eternidade.

A Pátria Portuguesa estava entendida, plenamente entendida, e com ela o trâmite ideal da Humanidade, aquela que se realiza na medida da apetência do momento contínuo em longe. A vontade do Infante era o guia, e aonde quer que os portugueses primeiros chegassem ele chegava, porque nele se entendia o povo português na sua nova expressão pluri-racial, exercício pelo qual se atingirá a unirracialidade na qual é extrema a vontade de Deus. Será inalterável este destino dos portugueses que porá em evidência o Português arquétipo e é antecipado reflexo do ideal da Humanidade. Mesmo que novo rei surja para segunda aventura de Alcácer-Quibir e outro cardeal renove a extrema-unção à Pátria, tentando fechar o circuito onde o Infante o cindiu, os portugueses recolocarão a Pátria no seu destino contra-revolucionário.

A compreensão portuguesa do mundo exige de todos os povos a compreensão de Portugal na sua totalidade comunitária, porque sem entender a perspectiva das Navegações nenhum povo entenderá o seu destino ou a realidade virtual do seu trânsito. A intuição do Infante é intuição de Humanidade em pátria, e justifica-se com igual validade em termos nacionais e em termos universais. Portugal não pode, por isso, deixar de ser consentido pelos portugueses como pelos outros, pois que, se é certo só uns poderem aceitar suas proposições nacionais, estes mesmos se acrescentarão e serão dos que devem aceitar as suas proposições universais. E consentir Portugal em seus termos universais não será tolerá-lo, mas estimá-lo em plenitude, porque estimá-lo é aceitar de antes o seu depois, e só por possibilitá-lo, a problemática do mundo, a problemática de Humanidade, é Portugal.


APETÊNCIA E INAPETÊNCIA COLONIZADORA
A AMBIÇÃO

Quando os portugueses primeiros se lançaram ao mundo, não era a Índia o que pretendiam. O que sobretudo despontava a sua apetência era, sim, o próprio mundo, ou o homem do mundo. Mais do que buscar, queriam levar, tinham que levar, e levar o que intuíam estar a ser solicitado pelo desconhecido que já de facto conheciam. A Índia foi sempre mais um símbolo do que uma realidade. Portugal encheu-se com seu nome no mundo, porque, para além do mar, a Índia era o único povo que para a Europa verdadeiramente tinha nome. A Europa estendia as mãos e fixava os olhos nas riquezas imensas do seu ventre, que os povos construtores da história europeia tinham esgotado a aventura e voluntariamente se haviam encerrado num ciclo de recordações milenárias. Atentos à sua própria história, parecia-lhes que vivendo-a e rememorando-a se bastariam, pois que, por terem uma imperfeita noção de futuro, consideravam que a contavam com princípio, meio e fim. A Europa, contudo, não se propunha em termos de futuro, e todos os seus movimentos, reais ou virtuais, incluindo os filosóficos ou religiosos, destinavam-se a bastar-se, a justificar-se e a explicar-se nas conveniências particulares e não em relação ao destino da Humanidade. A Europa fechava-se numa entente, e mesmo com blocos internos entre si contrários, conjugava-se com uma teoria confederada para opor-se a outras teorias de povos. A sua vida era um problema, mas não se tinham proposto a problemática da Humanidade. Carregada embora de doutrinação filosófica e religiosa, não tinha apreendido o trânsito do homem e não se dera conta de que desconhecendo-o, ignoraria o sentido real da sua vida. A vida substante da Europa não se manifestaria no curso desse desconhecimento ou ignorância.




A Europa considerava-se ponto de convergência, e não de irradiação para uma nova era. Se havia mar em longe ou não, se o planeta era quadrado ou não pouco lhe importava, porquanto não eram os seus caminhos de partida que lhe interessavam, mas a existência de atalhos por onde alguns dos outros pudessem chegar. Saber coisas de si fora de si não estava nos domínios da sua vida egocêntrica, e do planeta contentava-se em saber que ele existia e que nele se existia. A indagação dele considerava-a não apenas tormentosa, mas, também, atormentadora, embora, para sustos grandes como os provocados pelas descobertas de Galileu, a Igreja sempre tivesse meios de levar os sábios a abjurar todas as suas intuições e certezas. O que a todos interessava, o que interessava que todos desejassem, era existir. O pensamento ainda lhes não tinha proposto, em vez da existência, a vida.

A notícia da Índia, da Índia humana, não apetecia à Europa. O que a Europa queria era a Índia magnificente, exótica e estranha, a Índia longínqua e misteriosa descarregada num calmo porto mediterrâneo. Era essa a prova maior que a Europa dava de si própria. Concretizava a noção de que os bens do mundo lhe eram destinados. Pedras preciosas, tecidos, especiarias e essências potenciavam, com expoentes nunca calculados, tudo o que ela própria a si se oferecera ou mesmo acrescentado com o que do Médio-Oriente se canalizava. O futuro do homem total, o futuro dos europeus conjugados com os outros era de somenos. A embriaguês do luxo, da grandeza, motivada pelas pedrarias, pelas novas cores e padrões dos tecidos, pelo diferente aroma das essências e pelo subtil paladar que os temperos davam aos manjares, tornaram os príncipes, os nobres, os padres e os mercadores mais circunstanciais e, portanto, mais alheios ainda de seus imperativos. Esse estado social fechado sobre todos os horizontes comprometia não apenas o destino da Europa, mas o da Humanidade toda. A compartimentação do homem nas ilhas ou nos continentes, como nas ideias ou nos sonhos, trai o seu destino. E o que a Europa estava a fazer era exactamente trair o destino do homem num clamoroso gesto de desobediência à vontade de Deus. A sua responsabilidade, a responsabilidade dos povos europeus tornava-se tanto maior quanto certo era serem os de maior trânsito em toda a vida do homem. Povos europeus, autóctones puros, quase os não havia já, e os que se encontravam eram reduzidos núcleos. Eles resultavam na sua consequência bio-linguística dos grandes movimentos do homem que partindo do coração secreto da Ásia tinham estabelecido num curso de milénios o padrão de um novo tipo. Migrações e invasões sem paralelo propuseram a capacidade de trânsito que o homem continha mas não usara ainda. Pelo trânsito se especificou o europeu. E, contudo, ele negava-se porque insistentemente recusava não apenas acontecer-se no trânsito real, como o estabelecimento do seu paralelo virtual. Homem perdido ou homem reduzido, pelo profundo desajuste entre o seu real e o seu virtual, necessitava de quem o despertasse da letargia, quem para ele estabelecesse coisas novas, não por ele, europeu, mas pela Humanidade. Se o considerar-se o extremo fim do mundo era já contrariar o trânsito e anular o despertar, o mandar vir da Índia a um porto do Mediterrâneo, era regressar, e da forma mais negativa, que era o regresso sem gesto, sem movimento, sem amor. Era um acontecimento despojado de essencialidade, pois implicava um quadro de valoração humana não em obediência a virtualidades intrínsecas, mas por paralelismo dos bens que possuía ou iria possuir. Da Índia vinha o preço do homem.

Da Índia vinha também o preço da mulher. A mulher da nobreza europeia foi realmente a primeira a ter preço que as riquezas da Índia motivaram e pagaram, tanto como os títulos nobiliárquicos concedidos a maridos tolerantes por príncipes irrequietos, muitos pactos de amor. Mas esse amor não se abria em ansiedade, em grandeza, em honra, e nunca pôde, portanto, contribuir para o entendimento da própria vida. Tudo se tornara, na intimidade de cada um, demasiado calmo e regular, e os choques extrínsecos não descobriam as virtualidades intrínsecas. Faltava já ao europeu, à mulher e ao homem, a capacidade de deslumbrar-se ou de espectar o deslumbramento, grande causa e herança dos árias quando reconstruíram e unificaram a Europa. E sem uma nova experiência de deslumbramento ou espectação dele impossível seria continuar o seu milenário curso e pelo qual a Humanidade se promove e se realiza.

Esfera Armilar (Mosteiro dos Jerónimos).

A Europa desviara-se do seu trânsito. E competia-lhe ser, pela natureza da sua heterogénea homogeneidade, a activadora do homem no mundo e no tempo. Em si contivera a configuração estática de todo o planeta, com núcleos humanos desconhecendo-se completamente. O movimento que gerara a sua configuração continental tinha de objectivar-se em relação aos continentes identificados. Ignorando ou desejando ignorar a sua origem, a Europa vinha desde séculos considerando-se nascida Europa, sem acreditar nas suas íntimas relações com o Oriente, considerando como únicos credores da sua fala o latim e o grego; da sua religião, o Cristianismo; do seu Direito, as instituições romanas; e da sua cultura, as fontes greco-latinas. E, contudo, fala, religião, Direito e cultura tinham os seus fundamentos bem mais longe, de quando a Europa o não era ainda. O Oriente, carregado por milénios de sonho e pensamento, continha em si todas as sugestões dos grandes rumos.

A Europa não podia considerar-se desligada nem do Oriente donde provinha, nem dos outros quadrantes que a esperavam. Todo o tempo que esteve desligada dos que devia continuar e dos que devia preceder, de si própria se desligou, e por isso é de responsabilizá-la pelo longo, secular interregno que a Humanidade sofreu. Foram, na verdade, séculos demais aqueles em que a Europa, demasiadamente ensimesmada, ou demasiadamente inscrita em seus conceitos renunciou a cumprir-se. Tudo o que ela julgou encontrar para bastar a um mundo dentro do mundo, a uma Humanidade dentro da Humanidade produziu apenas tédio e cansaço, e com isso e nisso um desvirtuamento dramático. A Europa quase perdia as últimas possibilidades, depois de abandonar ou desconhecer todas as anteriores, de apreender os rumos que lhe estavam destinados.

Portugal, desde longe vinha a manifestar seu desajuste com o comportamento da Europa, e cada vez menos se voltava para ela, não por sentir-se separada, mas para não asfixiar-se, porque na precedência intuía que esse não era o destino colectivo. As perspectivas futurantes em que então já cimentava o crescimento nacional, tomavam, também, o nome de Europa. Recebia então os primeiros sinais de responsabilidade, e se era heróico o seu gesto de desbravar o mundo, magnificente era voto de unificá-lo. Os ideais em que se empenhava Portugal estavam estruturalmente em desacordo com os desejos dos demais povos da Europa; e, contudo, era Portugal que continha os ideais dos povos europeus, não os que eles apaticamente manifestavam, mas os que subestavam no segredo incontido da decisão de Deus.

Não foi a Índia que deu a Portugal consciência do seu destino. Mas, povo heróico, sentindo-se capacitado para cumprir o seu destino e, nele, o da Europa, não segundo uma constante da História, mas sob o impulso de novas perspectivações, voltou-se para o mar, para o mar extenso, indefinidamente extenso, e desafiou a comodidade de todos os outros europeus. A Índia não foi, nem é, termo de uma gesta, e propô-la como tal é fechar um circuito ou dar um fim a factos propulsores da vida nacional. O equívoco de considerar a Índia, além de caminho, etapa, irresponsabilizou em certa medida os portugueses de se continuarem nos seus esforços de promoção do homem, que os esforços sempre quebram ou paralisam os que pensam terem chegado ao fim do seu caminho ou programa. Os portugueses assim o pensaram quando chegaram à Índia, onde motivações não exactamente ajustadas ao trânsito da Humanidade também se lhes propuseram. A comunhão pátria na Índia foi-se sucessivamente destroçando, a despeito de ter atingido os mais altos padrões, como o prova a simbiose indo-portuguesa, de natureza rácica, e a indo-cristão, de natureza religiosa. Mas foi impertinente, ao longo de todo o secular convívio real, a recusa da projecção virtual correspondente. Mantiveram sempre entre si, contra toda a proposição dos portugueses primeiros, o regime de castas que os compartimentava, e compartimenta, criando a todos, os não-beneficiados e os beneficiados, as menos dignas condições de convívio. E também a sistemática recusa na aceitação da língua portuguesa, que nunca foi, para nenhuma região ou casta, a primeira ou a segunda língua. Quer dizer que nunca na Índia, que ao longo dos séculos, para Portugal, se ia territorialmente diminuindo, foi possibilitada a proposição da portugalidade. A queda da Índia Portuguesa indica que Portugal recontinuará enfim a sua gesta. Goa, cidade intuída, reaparecerá portuguesa.


A notícia da chegada dos portugueses à Índia constitui o maior choque desde sempre experimentado pela Europa. Nada provocara ainda tanta surpresa e admiração simultaneamente em todas as cortes. E o desvio do empório comercial do mediterrâneo para o Atlântico acrescentou à surpresa e à admiração a inquietação. O movimento que Portugal, pelas Descobertas, imprimia à vida da Europa, ultrapassava-a e criava-lhe meios intrínsecos de conflito, pois lhe propunha, contra a convergência, a irradiação. Essa mudança do passivo ao activo forçava-a a uma reconversão ou voltar ao entendimento e uso das forças ideais e de atracção biológica que a haviam motivado. A Europa por si própria recusada encontrava o futuro da sua mais longínqua ancestralidade nas proposições do génio português. E essas proposições não se dirigiam apenas à Índia, mas a todo o homem, portanto onde quer que houvesse uma razão solicitante, ainda que completamente passiva ou no mais profundo adormecimento. Realizava-se, em plenitude, a lição da parábola, que o nosso próximo é, verdadeiramente, o que necessita de nós. Os que necessitam do homem entendedor do seu trânsito são os que o não entendem.

Não foi a Índia que deu a Portugal a sua grandeza e, portanto, também lha não retira. Portugal é sobretudo uma realidade ideal que em si é, e nenhum povo se promoverá sem que antecipadamente aceite as proposições adjectivadas de portuguesas, mas que são universalmente humanas. Elas dirigem-se na direcção dos quatro pontos cardeais a todos os povos da Terra e em si contêm as condições que os hão-de tornar em um só povo e esse quando será o momento mais alto da Humanidade, ou talvez mesmo o seu primeiro momento, que até lá a Humanidade é apenas o que dela se percepta. A Comunidade Portuguesa não é um compartimento da Humanidade, mas uma síntese dela, porque o que de si percepta é exactamente uma aglutinação ideal que em relação a todos se potenciará. Os portugueses de todos os quadrantes têm de compreender e sentir-se orgulhosos dessa panorâmica, e têm de ser conduzidos pedagogicamente para a prospecção desse ideal. É preciso que assim aconteça, para mais alta exploração dos sentimentos patrióticos de todos e de cada um, pois que a pedagogia se não entende apenas habilitada na Escola, mas em todos os sectores da vida colectiva. Torna-se fundamental a habilitação de todos os sectores para que as proposições de pátria portuguesa não sejam falseadas como por exemplo em Timor onde mais de noventa por cento dos funcionários administrativos que têm sido lá colocados trai os superiores interesses de Portugal.

A hora actual dos portugueses, dos portugueses expressos na Comunidade Pluri-Racial, não é de fraqueza, que não são as lutas, os ataques e as mutilações que destroem as pátrias, mas a sua inapetência de sobrevivência. Não se provam menos certas as proposições portuguesas. Elas são as únicas que oferecem à Humanidade a teoria das suas soluções futurantes, e nem por terem o particular cunho de portuguesas são menos universais. Foi deficiência de todos os povos que o podiam fazer desde recuados tempos ou que para tal se capacitaram nestes últimos lustros não terem reconhecido prioridade sobre as demais questões internacionais à proposição de Portugal ao mundo. O debate de tal questão não se destinaria, evidentemente, a colocar Portugal num lugar diferente ou de privilégio, mas, tão somente, a discutir o futuro da Humanidade nas bases propostas por quem o tinha intuído com maior verdade e dignidade. Mas porque as forças políticas e religiosas não foram capazes de conjugar seus esforços face à problemática da Humanidade, mas exploraram antes as forças próprias e por elas afirmaram a liberdade de as impor, que não é liberdade nos seus precisos termos, nunca o caso português, que é, por excelência, o caso do Homem, subiu, na sua magnitude, aos areópagos internacionais. Os próprios portugueses nisso se culparam ao enclausurarem-se com gesta e povos no que chamaram Mundo Português. Não há mundo português, mas apenas mundo, mundo futurado quando os portugueses o transcenderam e que deveria futurar-se na sua própria transcensão. O lógico da vida humana, e por isso o seu problema se transcende em problemática, é a antecipação do uso do objecto do seu trânsito, uso cada vez mais colectivo. Compreendendo os povos ser inevitável a unidade, e cumprir-lhes a cada um de per si esforços completos para a anulação de tudo o que sacrifique esse ideal, criam em si o incrível pela inapetência do inevitável.


A responsabilidade dos povos deveria começar por em si próprios criarem condições de apetência desse ideal, porque sem o entendimento dele, em proporção decisiva em relação a cada povo e a cada grupo étnico, não será possível o exercício colectivo pelo qual se anuncia a solução. Esse gesto, ou o movimento propulsor de tal gesta, chama cada grupo às suas verdadeiras responsabilidades, porque conjuga o que há de si e dos outros em plenitude fraternal. Não o fazer, quando tudo anuncia que deve fazê-lo, é não desejar procurar da forma própria e nas fontes próprias as linhas mestras do futuro. Não se trata de recusar ou não a lição dos portugueses ou de propor ou não em plano de universalidade a estrutura que agora se entende chamar de portugalidade; trata-se de reconhecer o necessário, e isso é que a Humanidade é una e indivisível, e, como tal, que o seu destino é único.

As propostas de Portugal à Europa, à Ásia, à Oceania, à África e à América, as propostas de Portugal à multidão de povos de todos os continentes estão rigorosamente certas, e são-no. Povo na sua fonte primeira heterogéneo, dirigiu-se na direcção de todos os quadrantes aos povos que subestavam na sua pureza étnica inicial, em voto de obediência, chamando-os ao convívio pluri-racial, ou seja, à unificação real e virtual fundamentando a responsabilidade na e da cedência. Foi a Europa quem surgiu então contrariando o gesto ecuménico de Portugal, e recusando a unificação real e virtual pela cedência e na cedência, que foi no encalço das rotas portuguesas impor o contrário. Os povos europeus, afinal autênticos produtos de mestiçagem, recusavam, de forma insólita, continuar o exercício que os tinha motivado. Foi assim que os portugueses, que deveriam ter contado com a comunhão de toda a Europa na realização dos fins que perceptavam, se viram compelidos a realizar, absolutamente sós, pelos caminhos do mundo, a vontade de Deus. Foram os portugueses, pois, que entendendo a motivação do trânsito do homem, se foram aos seus outros continentes e o movimentaram, acordando-o, em alguns continentes e ilhas, de sonos milenários e dando orientação ao seu quase pleno desentendimento do que era o homem. As suas rotas não foram circuitos, mas poderosas e conscientes incursões que libertaram o homem, ou a essência do homem, do movimento revolucionário dos astros. O homem, perceptando-se contra-revolucionário, separava-se, definitivamente, com seu génio próprio, dos inertes movimentos planetários (in «Filosofia e Política no Destino de Portugal», Sociedade de Expansão Cultural, 1963, pp. 123-145).

Continua


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