quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Capela de Santo António

Escrito por Ana Leonor Mata e Inês Florindo Lopes



Montargil. Ver aqui



















«A vila de Montargil, localizada no alto da encosta, desenvolve-se numa malha urbana concentrada mas ao mesmo tempo dispersa, onde são bem evidentes as várias fases de ocupação adaptadas sempre à morfologia do terreno em constantes montes e vales. No alto [onde os primeiros habitantes se protegiam dos seus inimigos], vê-se o extenso espelho de água que constitui a albufeira de Montargil, e que na realidade é a verdadeira protagonista deste trecho do território português e que fez com este local, pelas suas características, fosse o escolhido para que se fixasse um determinado grupo populacional que fez ao longo de décadas nascer e desenvolver esta Vila.

Quando chegamos ao coração de Montargil podemos encontrar a Capela de S. Sebastião, numa plataforma mais elevada com acesso por escadaria, que fica no topo das duas ruas principais que se desenvolvem ao longo do vale e caracterizam o pequeno centro. São estas duas ruas paralelas, que permitem o acesso à Igreja Paroquial também localizada numa zona superior, que são símbolo da arquitectura típica montargilense. Quer a Rua da Misericórdia, onde se localiza a Igreja da Misericórdia, quer a Rua do Comércio, primam pela sua posição central e privilegiada de acesso à principal igreja da vila. Este trajecto é rico em fachadas altas, estreitas, esgrafitadas e coloridas a tons quentes e ocres, bem como em habitações de caio branco e barras amarelas ou azuis ou revestidas por superfícies azulejares, realçando elementos decorativos de protecção em ferro forjado e em madeira. É toda esta mescla cromática e de texturas que caracteriza esta vila tão pitoresca, com tanto para contar.

A parte mais antiga do traçado urbano de Montargil é protegido por três montes, como se se tratasse de um triângulo de protecção em que facilmente no nosso imaginário figuramos uma muralha virtual. Sendo assim, no cimo de cada monte existe uma capela, nomeadamente: S. Sebastião, Igreja Matriz de Santo Ildefonso e Capela de Santo António, e, no coração do vale, a Igreja da Misericórdia.


Igreja de São Sebastião


Interior da Igreja de São Sebastião, de nave única, em abóbada de volta perfeita.


Igreja Paroquial de Montargil



Pelourinho


Estas capelas, símbolo da espiritualidade da época, certamente que estiveram ligadas ao poder e prestígio das ordens religiosas, mas (...) implantadas no seio de uma comunidade agrícola apresentam características fortemente rurais, que consoante a riqueza dos patronos e os recursos ou dádivas disponíveis, se revestiram de maior ou menor qualidade técnica, exuberância formal e decorativa. (...) A construção destes templos constituía uma das mais importantes tarefas das comunidades recém-formadas, pelo que as casas mais importantes do povoamento seriam as próprias igrejas ou capelas. Era pela Porta do Céu que se entrava na Casa de Deus, em torno da qual era possível viver no conforto da paz espiritual.

Com o passar dos anos e devido à contínua ocupação destas terras, e nesse sentido o aumento dos fiéis, houve a necessidade de se construir na parte noroeste da vila uma nova capela, dedicada a S. Pedro, e uma pequena ermida, que ficando à beira da estrada, dava passagem para outras aldeias e lugares próximos já na direcção do Ribatejo. Nessa sequência explica-se, mais tarde, a necessidade da construção das capelas da Farinha Branca e Vale de Vilão».

(in «Montargil. Na Rota do Sagrado», Associação Nova Cultura de Montargil, 2011, pp. 26-27).


«...O mundo do sagrado é o daquele plano da alteridade que transcende absolutamente a nossa pobre vida do dia a dia. É o mundo do numinoso, do luminoso irradiante, do fascinante absoluto, também o do tremendo absoluto. Ora em qualquer ponto do planeta, por mais humilde que seja, está aberto o caminho para a experiência do sagrado. Está aberto, pois, em Montargil. Há séculos, há milénios que essa experiência é vivida pelo homem em Montargil.

Nos dois últimos milénios, essa experiência é a do cristianismo (...). A rota do sagrado tem o diâmetro exacto do planeta Terra e pode dizer-se que está agora a sair dele para além dele, para o espaço integral do sistema solar. Há no Planeta um pequeno rincão que dá pelo nome de Montargil. A rota planetária do sagrado passa por aqui, é assinalada pelo homem montargilense aqui. Na nossa terra...».

Manuel Ferreira Patrício (Posfácio, in «Montargil. Na Rota do Sagrado», p. 63).










Capela do Senhor das Almas






CAPELA DE SANTO ANTÓNIO

Localizada no alto de Santo António, num dos pontos mais altos da povoação, com vista privilegiada para a barragem de Montargil, a Capela de Santo António impõe-se não só pelo deslumbre da paisagem, mas também pela espiritualidade do local, e pitoresca construção. É um edifício com fachada de pilastras encimadas por fogaréus piriformes, frontão simples, telhado com campanário de olhal de volta perfeita, portal recto e duas pequenas janelas com gradeamento.

A nave única, de planta rectangular, provavelmente adaptada a partir do primitivo nártex coberto, mas aberto ao exterior por arcos laterais é de caio branco e tecto novo forrado a madeira. A capela-mor circular, provavelmente a primitiva construção, destaca-se pela pintura mural da cúpula, o estuque decorativo das paredes e o altar em talha dourada com imagem do padroeiro. A planta centrada de origem oriental, estará ligada a funções baptismais ou fúnebres, embora não haja exemplo disso em Portugal. O simbolismo é caracterizado pela dimensão apocalíptica da Jerusalém celeste, servindo a sua geometria sagrada para invocar um sentido de redenção, que a ideia do sepulcro de Cristo encerra. Não existe qualquer dúvida que inicialmente esta capela era de planta circular e cúpula hemisférica, de influência helenística e oriental que tinha o objectivo de aumentar a mística dos fiéis pelo envolvimento que a estrutura circular comportava e oferecia.

Capela de Santo António

Na pintura mural da cúpula, pouco subsiste da pintura original datável do século XVII-XVIII. Aplicada a seco, sofreu um repinte no século XIX que alterou as feições da imagem central de Santo António. E assim sendo, da pintura original permanecem apenas, na parte inferior da cúpula, pormenores de cenas da vida do Santo.

A pintura decorativa sobre as paredes que ladeiam o altar-mor da capela de Santo António é um revestimento tradicional à base de uma argamassa de cal e pó de mármore, muito comum no século XIX português. Este tipo de revestimento funciona como uma camada de apresentação estética que pretende imitar a pedra de mármore, e que era geralmente de cor branca ou cor escura, ambas as situações retratadas na capela de Santo António. Quando as argamassas estavam ainda frescas, na tentativa de imitar as juntas utilizava-se um ponteiro para marcar as arestas das supostas pedras e por vezes poderiam ser adicionados pigmentos na argamassa, sobretudo no caso de superfícies mais escuras. Para completar o revestimento, eram ainda aplicados a seco, alguns veios numa imitação mais fiel do mármore. As paredes circulares apresentam um marmoreado branco sustentado por lambrim texturado em tons de amarelo e arco com marmoreado de veio escuro, Do lado direito, ainda uma janela em trompe-l'oeil imita a simétrica que se abre à sua frente.

Ladeando o retábulo em talha dourada, no altar-mor, surge um trabalho em estuque relevado com concheados, enrolamentos vegetalistas e florais, comum em edifícios religiosos e casas de habitação nobre. Na realidade, o século XIX português assiste à industrialização da arte do estuque sobretudo no referente aos estuques decorativos modelados, compostos de cal e pó de mármore.

O retábulo da capela de Santo António é uma peça em madeira de castanho, entalhada e dourada a ouro fino, do século XVIII. É composto por um nicho central, ladeado por duas colunas de cada lado e cimalha em forma de concha centrada por querubins. As colunas são torsas e profusamente decoradas com parras, uvas e pássaros, salientando um efeito expressivo típico do período barroco. É sem dúvida um retábulo sumptuoso, com formas curvilíneas e agitadas, e efeito expressivo apoiado na luz e cor. No nicho central figura uma escultura em madeira entalhada e policromada de Santo António do século XVIII.


Interior da Capela de Santo António de nave única e planta rectangular.




Todo o edifício foi alvo de uma intervenção de conservação e restauro profunda quer a nível estrutural, quer a nível decorativo que decorreu no ano de 2010. A Capela de Santo António é sem dúvida um local místico, cheio de recordações locais e a fama de casamenteiro do santo padroeiro tornou-a muito querida entre os montargilenses. Ainda se contam os episódios em que as raparigas da vila, em idade de casar, tentavam acertar na fechadura da porta com os olhos vendados: o número de tentativas correspondia ao número de anos que demorariam a realizar a ambicionada cerimónia! De facto, Santo António é sem dúvida o Santo português mais venerado e depois de S. Francisco de Assis, o Franciscano de maior relevo. É considerado Doutor da Igreja e o número de milagres que lhe são atribuídos é o suficiente para fazer dele um grande taumaturgo... (in «Montargil. Na Rota do Sagrado», pp. 40-43).


Nenhum comentário:

Postar um comentário