quinta-feira, 30 de abril de 2015

Holocausto em Angola (iii)

Escrito por Américo Cardoso Botelho














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«Durante a Segunda Guerra Mundial, os simpatizantes pró-soviéticos nos Estados Unidos incluíam várias pessoas que detinham cargos médios no Governo. Entre eles encontrava-se Nathan Witt, do Departamento da Agricultura, Alger Hiss, do Departamento da Justiça (mais tarde Departamento de Estado), e Victor Perlo, do Departamento do Tesouro. A história de Alger Hiss, que trepou até uma alta posição dentro da hierarquia do Departamento de Estado enquanto trabalhava como espião soviético, foi um caso típico dos esforços soviéticos para se servirem do Partido Comunista Americano como campo de recrutamento. Um outro simpatizante comunista e espião soviético nas fileiras do Departamento de Estado foi Noel Field. Apanhado nas purgas políticas da Europa do Leste depois da Segunda Guerra Mundial, Field passou vários anos numa prisão húngara, sob suspeita de ser um espião da CIA. Foi libertado durante a revolução húngara de 1956, e no princípio dos anos 60 trabalhou mais uma vez para os serviços de informações em especial como tradutor e como editor de falsificações antiamericanas. Julius e Ethel Rosenberg foram sentenciados à morte em 1951, e executados dois anos mais tarde como sendo espiões russos e por passarem segredos atómicos para Moscovo. Julius Rosenberg, um comunista muito dedicado, prestara esses serviços voluntariamente.

(...) Apesar do julgamento dos Rosenberg haver sido posto em causa pela Comissão Americana para Garantia de Justiça no Caso Rosenberg, e por numerosos jornalistas, advogados e pelos filhos dos Rosenberg, nenhum deles conseguiu fornecer elementos novos que provassem a inocência dos Rosenberg. De acordo com uma declaração pública de Robert L. Lamphere, em 1982, que trabalhara no FBI de 1941 a 1955, este tinha conhecimento do envolvimento dos Rosenberg com os soviéticos, por intermédio de mensagens do KGB, descodificadas.

(...) O último grande grupo de espionagem composto por membros do Partido Comunista Americano foi o de Jack Soble. Inicialmente um admirador e apoiante de Trotsky, Soble foi recrutado em 1931 e instruído para penetrar no círculo íntimo de Trotsky. Quando este ficou desconfiado, Soble foi para os Estados Unidos em 1941 e organizou uma rede de espiões que recebeu uma grande variedade de missões, desde o roubo de documentos secretos do Governo americano até à penetração em organizações sionistas e trotsquistas. Depois da sua prisão, Soble declarou-se culpado e foi sentenciado a sete anos de prisão, e em 1961 o seu irmão foi condenado pela mesma ofensa. Vários membros do grupo Soble, avisados pelos soviéticos, conseguiram escapar-se para a Europa.









(...) As agências internacionais, incluindo as Nações Unidas, são também coberturas favoritas para o KGB. De acordo com Arkady N. Shevchenko, o principal diplomata de Moscovo nas Nações Unidas, que desertou para os Estados Unidos em 1978, cerca de metade da delegação soviética de cem pessoas, junto das Nações Unidas, são espiões. Os especialistas dos serviços de informações da Europa ocidental calculam que existem cerca de 130 agentes do KGB nos diversos serviços das Nações Unidas instalados na Europa. Os sensível posto de director pessoal da sede europeia das Nações Unidas, em Genebra, por exemplo, está desde 1978 ocupado por Geli Dneprovsky, um operacional do KGB. A posição dá aos serviços de informações soviéticos um acesso directo às fichas confidenciais de cerca de 3000 funcionários das Nações Unidas.

(...) As Nações Unidas são uma organização internacional que merece uma atenção especial pelo papel que desempenha nas campanhas de propaganda pública ou clandestina conduzidas pelos soviéticos. Sendo uma organização que ajuda a formar a opinião pública mundial e joga um papel vital na manutenção da paz, as Nações Unidas são um grande campo de batalha para a União Soviética e os Estados Unidos. Entre os 32 000 membros da comunidade diplomática das Nações Unidas em Nova Iorque, a União Soviética, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, França e Alemanha Ocidental, Israel, República Popular da China e outros países têm grandes contingentes operacionais das informações. Porém, é a União Soviética que mantém a mais impressionante organização, que consiste na maior concentração de espiões soviéticos em qualquer ponto do Ocidente. Um operacional americano calcula que a rede soviética, incluindo agentes do KGB e GRU e colaboradores ideológicos entre os funcionários soviéticos empregados no Secretariado das Nações Unidas, atinge um total de cerca de 1000 pessoas. Espiar em Nova Iorque é tão habitual que alguns diplomatas se referem às Nações Unidas como sendo a "bolsa de valores das operações globais de espionagem". A espionagem e contra-espionagem electrónica são não apenas óbvias como toleradas. A maior parte dos delegados às Nações Unidas rejeita protecção contra a espionagem porque tal daria a impressão de uma vigilância policial.

Uma hábil diplomacia soviética, a propaganda e as campanhas de desinformação alteraram grandemente a direcção política das queixas do Terceiro Mundo. O tradicional carácter Norte contra Sul das discussões das Nações Unidas (países desenvolvidos contra países menos desenvolvido, foi reorientada pelos soviéticos, transformando-se num conflito Leste contra Oeste. Na Assembleia Geral de 1982, as nações do Terceiro Mundo votaram ao lado da União Soviética uma média de 83,4 por cento do tempo, e o mesmo grupo votou uma média de 20,4 por cento do tempo com os Estados Unidos.






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A maior parte da desinformação propagandística emprega a simples técnica da falsificação de um documento com um conteúdo ultrajantemente comprometedor, e da sua entrega anónima nos meios de comunicação de massas. 

(...) Para aumentar a sua colecção de cabeçalhos e assinaturas de proeminentes personalidades ocidentais, os serviços de espionagem soviéticos usam um método simples mas eficiente. Os operacionais estacionados no estrangeiro sob a cobertura oficial de diplomatas, jornalistas ou representantes de várias organizações comerciais, enviam um grande número de saudações aos seus equivalentes estrangeiros e a personalidades importantes todos os Natais. Tal como manda a boa educação, recebem mensagens assinadas e por vezes até escritas em papel timbrado.

(...) Na terça-feira, 16 de Setembro de 1980, um certo número de estações de rádio sensacionalistas, várias redacções de jornais em Washington e Nova Iorque, e representantes diplomáticos nas Nações Unidas de países da África Negra, receberam a cópia de um documento com consequências políticas potencialmente explosivas. No dia seguinte, um grupo de ministros negros convocou uma conferência de imprensa na sede das Nações Unidas em Nova Iorque para exporem "a política externa racista americana para com a África Negra". Os ministros exigiram uma série de acções administrativas, entre elas a demissão imediata de Zbigniew Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter e líder do Conselho de Segurança Nacional . O Rev. William A. Jones, dirigente da Convenção Nacional Baptista e participante na Conferência Nacional dos Pastores Negros, apresentou as provas: uma cópia do que parecia ser um memorando presidencial de treze páginas, com o carimbo de "Secreto" em todas as páginas e ostentando a assinatura de Brzezinski. Quando lhe perguntaram como obtivera o documento, Jones afirmou que recebera uma cópia de "uma fonte fidedigna" e que as suas implicações seriam ponto de discussão prioritária para a Conferência Nacional de Pastores Negros, a realizar mais tarde nesse mesmo ano. As mesmas revelações comprometedoras foram discutidas nesse mesma noite em várias estações de rádio de Nova Iorque e da área de Washington.

A Casa Branca foi alertada quando um certo número de jornalistas telefonou para o secretário de imprensa Jody Powell, para verificação da autenticidade do documento. Numa conferência de imprensa rapidamente organizada, em 17 de Setembro de 1980, Powell distribuiu uma cópia do documento aos jornalistas "a fim de acabar com esta história" porque, afirmou, "o documento é na realidade uma falsificação, e disseminada de modo calculado". Intitulado "Memorando Presidencial da Recapitulação, NSC 46", o comprido documento fazia-se passar por um estudo das relações entre o movimento negro nos Estados Unidos e a África Negra e fora solicitado por  Brzezinski em Março de 1978. Estava dirigido ao Secretário de Estado da Defesa e ao Director da CIA.

O conteúdo era na verdade embaraçador para a administração Carter, pois pedia o apoio americano à África do Sul e a vigilância dos líderes negros africanos. Recomendava também acções contra "actividades coordenadas dos movimentos nacionalistas em África e do movimento negro nos Estados Unidos", e sugeria que as agências de espionagem americanas deveriam controlar e recolher informações sensíveis sobre os representantes negros à ONU que se opusessem à política americana para com a África do Sul. Além disso o documento propunha "um programa especial destinado a perpetuar as divisões no movimento negro", a neutralizar "grupos de orientação radical esquerdista" e a simular "dissensões e hostilidade" entre as organizações negras. Era óbvio que o autor da falsificação pretendera virar os negros americanos contra o Governo, prejudicar a imagem pública de Zbigniew Brzezinski, e virar a comunidade diplomática negra das Nações Unidas contra os Estados Unidos.





















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Doze documentos sobre a segurança nacional foram desclassificados durante a administração Carter, em resposta a pedidos feitos sob o Acto da Liberdade de Imprensa. Pelo menos um deles caiu nas mãos do autor da falsificação, que se serviu dele como modelo para fabricar o pseudodocumento NSC 46. Os funcionários da Casa Branca familiarizados com o formato dos memorandos NSC salientaram que o documento usava linguagem governamental utilizada durante a administração Nixon mas abandonada pela equipa de Carter. Em vez de se referir ao Comité de Revisão Política, um termo usado na administração Carter, o documento referia-se a um Grupo interdepartamental do NSC em África, designação utilizada durante a era de Nixon. O verdadeiro memorando NSC 46 era um documento datado de 4 de Maio de 1979 e focava uma revisão das políticas dos Estados Unidos para a América Central. Quando interrogado a respeito do possível autor da desinformação, Jody Powell disse que não era claro se a falsificação era obra de uma potência hostil, ou de oponentes domésticos hostis ao presidente Carter.

A falsificação do NSC apresentava todas as características de uma falsificação feita pelo bloco soviético, mas nenhum dos jornais diários que relataram o incidente o relacionou com a ofensiva de falsificações analisada num muito completo relatório da CIA e distribuído à imprensa em Fevereiro de 1980. Apesar da denúncia do documento por parte da Casa Branca, aquele deixou resíduos de suspeitas entre os diplomatas negros instalados nos Estados Unidos, e entre os líderes negros americanos. Randall Robinson, director da Transáfrica, um grupo de pressão para uma mais agressiva política para com a África do Sul, comentou: "É certamente possível que a administração seja responsável pelo documento". A possibilidade de que o documento fosse produto das fábricas de desinformação soviéticas foi considerada apenas por alto, mas na opinião dos funcionários de Washington que foram entrevistados na altura, a falsificação fora produzida por um grupo doméstico, de esquerda ou de direita.

A falsificação do documento NSC exemplifica mais ou menos o problema da identificação das prolíferas falsificações soviéticas para assim ser revelado ao público o verdadeiro rosto que se encontra por detrás dessa ameaça internacional. Por causa das suas fortes tendências políticas, os meios esquerdistas americanos aceitam as falsificações com facilidade, sem darem uma grande atenção aos procedimentos elementares de verificação. Jornais politicamente ao centro e tão proeminentes como o New York Times e o Los Angeles Times em geral relatam os incidentes de maneira séria e sem se comprometerem, mas na ausência de provas verificáveis do envolvimento soviético mantêm-se cautelosos. Talvez os grandes custos em tempo e dinheiro não justifiquem as suas próprias investigações em profundidade. Por outro lado, publicações e críticos dos media do campo ultraconservador devotam muito tempo e energias ao perigo da penetração comunista, mas os resultados não são consistentes. Um considerável volume de suspeitas sem fundamentos e de acusações lança dúvidas até sobre as revelações de intervenções soviéticas. Entretanto, os soviéticos prosseguem com o jogo da desinformação.










(...) A União Soviética dispõe de uma vasta gama de meios de propaganda ao seu dispor: as agências noticiosas TASS e NOVOSTI, as emissões internacionais de rádio tal como as da Rádio Moscovo e a mais pequena mas mais agressiva Radio Paz e Progresso; emissoras clandestinas instaladas na Europa Oriental, tal como a Voz Nacional do Irão a a Voz do Emigrante Italiano; grande número de livros e revistas distribuídos em todo o mundo em mais de cinquenta línguas e cerca de setenta e cinco partidos comunistas pró-soviéticos fora do bloco soviético.

Para dar credibilidade e interessar as massas pelas suas políticas internas e externas, a União Soviética estabeleceu também uma rede de organizações internacionais que servem de fachada para as suas operações. Entre elas encontram-se a Federação Mundial dos Sindicatos, a Federação Mundial da Juventude Democrática, A União das Mulheres e o Conselho Mundial para a Paz. Estas organizações são utilizadas para influenciarem o comportamento público de vários grupos sociais a favor das políticas soviéticas e para fornecerem uma útil cobertura aos serviços de informações comunistas.

O movimento para a paz, por exemplo, é um dos mais importantes veículos soviéticos de decepção. A política soviética a longo prazo de utilização da paz e de falsas reacções espontâneas contra a política externa militarista dos EUA foi iniciada em Setembro de 1947 pelo representante soviético Andrei Zhdanov, numa reunião do Comintern que teve lugar na Polónia. O Conselho Mundial para a Paz foi fundado em 1949, e operou da sua sede em Paris até que o Governo francês expulsou a organização em 1951, por aquilo que denominou de "actividades de quinta-coluna". Desde o primeiro Congresso do Conselho Mundial para a Paz, realizado conjuntamente em Paris e Praga em Abril de 1949, as reuniões e assembleias foram organizadas mais ou menos de três em três anos, nas seguintes cidades: Varsóvia, 1950; Viena, 1952; Helsínquia, 1955; Estocolmo, 1958; Moscovo, 1962; Helsínquia, 1965; Berlim Oriental, 1969; Budapeste, 1971; Moscovo, 1973; Varsóvia, 1977; Sofia, 1980; Praga, 1983. Todas estas reuniões, cuidadosamente encenadas para atingirem os seus objectivos políticos e militares, em regra apoiam a política externa soviética e atacam as políticas dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais. O KGB participa como um operador silencioso e invisível, ligando às escondidas as linhas quebradas e instruindo ocasionalmente os seus agentes para participarem nas campanhas.

Os grupos internacionais de fachada escondem-se atrás de uma máscara de independência financeira e política e de instituições não comunistas, mas em 1978 receberam apoios financeiros da União Soviética no valor de 63 milhões de dólares. Reflectem a política externa oficial soviética e espalham grandes temas de propaganda soviética para criar uma sensação de maciço apoio público às políticas soviéticas em todo o mundo. Além disso, as organizações de fachada são de vez em quando utilizadas como canais de desinformação ou propaganda clandestina.



O amplo uso das organizações de fachada revelou muitas delas como sendo instrumentos da política externa soviética e forçou os soviéticos a procurarem novas formas de cobertura. Nos anos 50, por exemplo, a União Internacional dos Estudantes, com a sua ênfase na solidariedade internacional, cooperação e justiça social, atraiu muitos estudantes ocidentais que se revoltaram com o que entendiam como um sistema social altamente explorador e competitivo. Vinte anos mais tarde a União Internacional dos Estudantes é ainda um útil veículo de manipulação nos países do Terceiro Mundo, mas os soviéticos começaram a aplicar tácticas diferentes no Ocidente. Em vez de criarem uma nova organização internacional que lhes sirva de frente, tentam penetrar e manipular um certo número de organizações nacionais e internacionais legítimas, como fundações e outras.

(...) O Directorado Científico e Técnico (Directorado T) do Primeiro Directorado Central do KGB é o mais lucrativo componente dos serviços de espionagem soviéticos. Os operacionais do KGB afirmam que, em termos de dinheiro, a contribuição do Directorado Científico e Técnico para a economia soviética ultrapassa largamente o custo da manutenção de todo o sistema de espionagem soviético. Foi-lhe confiada a tarefa de roubar os segredos industriais, científicos, tecnológicos e económicos do Ocidente, incluindo dados sobre pesquisa nuclear e espacial. Com mais de quinhentos operacionais, quase todos licenciados por universidades e institutos tecnológicos soviéticos, e com um grande número de consultores, conselheiros e agentes nos principais centros soviéticos industriais e de investigação, o Directorado Científico e Técnico tem sido, nos últimos vinte anos, o sector operacional de mais rápido crescimento em toda a espionagem estrangeira soviética. A missão do Directorado é fornecer, tanto à economia soviética como aos militares, dados científicos que custariam biliões de dólares ao país se tivessem de os desenvolver com os seus próprios recursos. Coopera intimamente com o Comité Científico e Técnico (GNTK), que coordena e regula as pesquisas científicas básicas e dita prioridades cientificas de acordo com directivas do Comité Central do Partido Comunista.

Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, vários importantes agentes soviéticos colocados entre a elite científica americana e britânica (Pontecorvo, Fuchs e os Rosenberg), entregaram aos soviéticos as mais valiosas informações que estes já haviam recebido: o segredo do fabrico da bomba atómica. Com esse segredo, os soviéticos obtiveram um estatuto de igualdade como superpotência na arena internacional. Entre os cientistas, especialistas tecnológicos e investigadores ocidentais são recrutados agentes que se dedicam à recolha no estrangeiro de informações de natureza científica e tecnológica, e que levam a cabo medidas activas capazes de fortalecer a economia soviética e a sua ciência, e enfraquecer as dos seus opositores. A maioria dessas operações envolve o contrabando de tecnologia ocidental para a União Soviética. Entre 1981 e o fim de 1983, os funcionários das alfândegas dos EUA confiscaram mais de 2330 carregamentos ilegais no valor de quase 150 milhões de dólares. Em 1983, por exemplo, os soviéticos compraram em segredo um gigantesco computador VAX 11/783 fabricado nos EUA pela Digital Corporation, de Maynard, Massachusetts, para possível uso em mísseis guiados e para a localização permanente de tropas. Foi apreendido em Hamburgo, pouco antes de ser transportado para a União Soviética, via Suécia.

Sede do KGB








O desenvolvimento da desinformação científica demonstrou tratar-se de uma área muito mais difícil do que as outras para os serviços de informação. Enganar os mais altos cientistas do campo inimigo envolve muito mais do que alguns slogans propagandísticos ou falsificações habilidosas. Requer um alto nível de especialização científica que só pode ser obtida junto dos melhores cientistas soviéticos, e nem todos eles se mostram preparados para pôr em risco a sua reputação. Uma excepção, é a área das ciências sociais. As doutrinas marxistas-leninistas justificam a mistura das ciências sociais com a política, e como requerem uma intensa luta ideológica contra o capitalismo internacional simplificam a tarefa do KGB no recrutamento de auxiliares entre os cientistas sociais soviéticos. O KGB tem mais autoridade, confiança e liberdade de acção na arena política do que nos jogos económicos e científicos. O falhanço das medidas activas na obtenção de objectivos políticos é facilmente justificado no Politburo com a desculpa de "existência de obstáculos objectivos", mas o KGB perde muita da sua confiança e agressividade quando estão em jogo enormes quantidades de divisas ocidentais sempre que levam a cabo medidas económicas ou científicas. Uma perda de vários milhões de dólares numa complicada campanha internacional pode ser interpretada como um arriscado desperdício dos bens do Estado, e os autores podem ser enviados para a prisão por prejuízos para a economia soviética.

O rápido crescimento da tecnologia de computadores oferece aos agentes da desinformação comunista oportunidades que eram totalmente desconhecidas há alguns anos atrás. Se uns quantos estudantes liceais americanos, de mentes brilhantes, conseguem decifrar os códigos de computador e manipular sofisticados negócios e computadores de universidades, operacionais do KGB, bem treinados e com a ajuda de especialistas em computadores, podem levar a cabo o mesmo efeito. Extrair dados importantes de um computador ou introduzir dados desinformativos cuidadosamente planeados numa rede de computadores é um novo desafio. Em pequena escala, pode irritar continuamente a instituição ou companhia que estiver a servir de vítima, mas o potencial é muito mais amplo. A penetração com êxito num centro de computadores pode desorientar parcialmente ou até paralisar as defesas militares da nação: pode levar um grupo de cientistas a chegar às conclusões erradas num projecto importante; pode interromper o comércio entre companhias ou entre países».

Ladislav Bittman («O KGB», 1985).



«... Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, afim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados à Terra estão esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir...». 

Carta de Rosa Coutinho para Agostinho Neto 












«Foi o almirante Rosa Coutinho quem primeiro ordenou o desarmamento dos brancos, em Outubro/Novembro de 1974, segundo declarações do capelão João Dimantino em Memórias da Revolução. O protagonismo do "almirante vermelho" em território angolano terminou com o Acordo de Alvor, embora continuasse a intervir na sua função de membro do Conselho da Revolução, de 11 de Março a 25 de Novembro de 1975.

Em certas noites, mesmo que não houvesse recolher obrigatório, os tiros e morteiros que cruzavam os céus de Luanda, a "cidade branca", destinavam-se a encobrir acções subversivas ao Acordo de Alvor, afastando, com o ruído das armas, o menor laivo de curiosidade sobre o que se passava fora de casa. Assim aconteceu numa das madrugadas de finais de Abril de 1975, num caso tornado público. Para que o MPLA conseguisse descarregar o armamento do navio jugoslavo atracado ao porto de Luanda, rodeado de faplas para impedir qualquer aproximação, o céu de Luanda cobriu-se de luzes e explosões, com as miras apontadas para o alto, assustando sem causar danos».

Leonor Figueiredo («Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola»).


«Muitos dos responsáveis pelos interrogatórios, pela tortura e pelos massacres angolanos foram, por sua vez, torturados e assassinados. Muitos outros estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro [«HOLOCAUSTO em ANGOLA»] é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam. A esquerda e a direita portuguesas têm, em Angola, o seu retrato. Os portugueses, banqueiros e comerciantes, ministros e gestores, comunistas e democratas, correm hoje a Angola, onde aliás se cruzam com a melhor sociedade americana, chinesa ou francesa».

António Barreto (Jornal Público, 13.04.2008).




António Barreto




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«Rosa Coutinho teve, também, um papel fundamental na mobilização do apoio cubano. Alguns relatos dão testemunho de uma deslocação de Rosa Coutinho a Cuba, num avião que Fidel Castro dispensou para o efeito. Rosa Coutinho terá estado durante três dias em La Habana para negociar com o Presidente cubano o apoio militar ao MPLA (Rosa Coutinho sabia que a UNITA era mais poderosa militarmente). Para tal acenou a Fidel Castro com as riquezas de Angola, mormente o cobiçado petróleo.

O papel de Rosa Coutinho neste percurso de traição ao povo angolano tem sido frequentemente referido por literatura muito diversificada: "Rosa Coutinho veio em segredo a Cuba [...]. O almirante chegou num avião que Fidel enviou a Luanda e permaneceu em Havana três dias. A sua visita ocorreu num momento chave, em Setembro de 1975, quando na mesa de negociações com os grupos guerrilheiros se chegava a um acordo com vista à convocação de eleições. António Rosa Coutinho sabia que os comícios iam ser ganhos por quem controlasse Luanda e que a UNITA era a organização com mais presença militar [...]. Rosa Coutinho descreveu a Fidel as imensas riquezas de Angola [...], e apresentou-lhe como inevitável o facto do país cair nas mãos da UNITA se Fidel não enviasse tropas". Santiago AROCA, Fidel Castro, El Final del Camino, Barcelona: Planeta, 1992, 275s. Também Juan F. Benemelis chama a atenção para o papel de Rosa Coutinho: "Em Julho de 1974, o governo de Spínola designa como Alto-Comissário em Angola o vice-almirante Rosa Coutinho, que tem fortes ligações com o PCP. A partir do momento em que assume funções, Rosa Coutinho bloqueia tanto a FNLA de Holden Roberto como a UNITA de Savimbi e designa, para cargos-chave do governo de transição, pessoal de confiança que facilita o transporte de contingentes estrangeiros de confiança e de armas soviéticas para o MPLA, que se iniciaram nesse mesmo mês, provenientes da URSS, via Congo-Brazzaville [...]. O vice-almirante Rosa Coutinho favorece a entrega ao MPLA de uma força necessária composta por 6000 catangueses que figuram no exército colonial e pelos angolanos que servem no mesmo. Estes contingentes são enquadrados por conselheiros militares cubanos e checos que se instalam na base de Massangano". Castro, subversão e terrorismo em África, Lisboa: Europress, 1987, 222s.

Encontro do Luso, 18 de Dezembro de 1974. Agostinho Neto, Rosa Coutinho (atrás Lúcio Lara) e Jonas Savimbi.







Fidel Castro e Otelo Saraiva de Carvalho em Cuba (Julho de 1975).









Rosa Coutinho e Otelo Saraiva de Carvalho


















Uma amostra do que se ensina nas escolas em Portugal e por esse mundo fora.




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Ver 1, 2 e 3



Destruição de Angola











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(...) Os direitos que cubanos e soviéticos gozavam no território angolano contrastavam com as privações impostas aos angolanos; desde a liberdade de circulação, dentro do país e para fora do país, até às condições de assistência ao nível da saúde ou da alimentação. Nada revoltava mais os estudantes e intelectuais que habitavam as prisões angolanas. Esta condição de povo refém nas mãos de um partido que se impôs como o único legítimo era, para eles, insuportável.

Estes presos tinham o discernimento suficiente para perceber que se tratava de uma nova colonização que pretendia apenas gerir, na região, uma determinada hegemonia política e retirar, deste país naturalmente rico, os dividendos possíveis. O próprio Lúcio Lara terá dito, quando em 1981 visitou Portugal, que 50% dos recursos angolanos acabavam por permanecer hipotecados em razão da aliança com Cuba e a União Soviética. Com o investimento que era necessário para alimentar a máquina de guerra, nada podia restar para qualquer melhoria das condições de vida do povo angolano. Acrescente-se a isto o facto de, como observa Félix Miranda, os cubanos terem desmantelado grande parte das infra-estruturas industriais angolanas para as transferir para Cuba. Tal foi o que aconteceu à fábrica da Catumbela-Benguela e da açucareira do Bom Jesus no Caxito-Bengo, forçando, assim, Angola a passar de exportador a importador de açúcar (de Cuba, claro).

(...) "São palpáveis os lucros estratégico-militares obtidos pela URSS e por Cuba com a vitória angolana. Isto torna-se evidente nos conflitos etíope-somália e yemenita, assim como nas Malvinas. Quanto a planos a longo prazo estes têm a ver com o petróleo de Cabinda, o uso do porto de Luanda pela frota pesqueira cubano-soviética e o aproveitamento de Angola como base, em circunstâncias anómalas. É demasiado simplista pensar que Castro implementa a sua ajuda internacionalista em Angola apenas para pagar a assistência que recebeu do campo socialista nos primeiros anos. A intervenção castrista apoia o expansionismo soviético ao mesmo tempo que contribui para o êxito das suas ambições pessoais no sentido de ser o centro da política internacional" Juan Benemelis, Castro, subversão e terrorismo em África, Europress, 1986, 257.

(...) Muitos não compreendiam como podiam os cubanos ser tratados com benesses que estavam vedadas aos angolanos. Bastante comentado era o assunto do hotel de luxo do Lubango, capital da Huíla - hotel de cinco estrelas, um dos melhores de Angola. Foi nele que recaiu a escolha de aquartelar os amigos cubanos, depois de uma ocupação legitimada pela violência do mais forte, logo a partir de Novembro.

Outros privilégios se descobriam. Com acesso prioritário ao sistema de comunicações da aviação, a partir da base aérea do Saurimo, os cubanos tinham conhecimento da chegada dos aviões que, ao serviço da Diamang, chegavam ao Dundo com bens diversos, sobretudo alimentares. Assim que um Hércules aterrava, apareciam os camiões de origem soviética, conduzidos por cubanos, em busca de géneros alimentares. Queriam também aves e outros animais para consumo, que na Cacanda eram produzidos com grande eficiência.

Estas chegadas "oportunas" dos cubanos acabavam por atrasar os serviços, impedir a rápida colocação dos produtos, e privavam a companhia de uma boa parte das suas compras realizadas fora de Angola. Entre os trabalhadores, indignados com a obrigação de sustentar este exército estrangeiro, abundavam os comentários: "O Fidel Castro não se esquece de mandar as balas, mas esqueceu-se de mandar comida para os seus internacionalistas".












Recordo um incidente. Nesse dia, Bernardo Reis tinha-se deslocado a Luanda e eu havia voado para os Camarões. Não estava, assim, ninguém que assinasse as requisições dos bens alimentares que os cubanos queriam. Na Cacanda, o responsável pela exploração disse-lhes que não podia abastecê-los sem as habituais guias. Os cubanos, furibundos, desataram aos tiros em todas as direcções. Foi de tal maneira assustador que os trabalhadores fugiram para os campos vizinhos. O medo era tal que não foi fácil convencê-los a regressar ao trabalho na Cacanda.

(...) Gostava de ouvir as conversas dos presos que, entre outras proveniências, vinham do sul. Muitas delas eram sobre cubanos, pois estavam em quantidade ali na fronteira. Neste dia estava comigo o Paixão, sempre ávido de notícias novas.

O nosso interlocutor vinha do sector da SIGA (onde, aliás, estava grande parte destes homens do sul). Falava do que se havia passado perto da fronteira de Angola com a Namíbia: um cubano decidiu treinar a sua pontaria quando, por perto, um grupo de crianças brincava. As crianças pararam estupefactas quando ouviram um tiro e logo viram abandonado ao chão o corpo de um companheiro que segundos antes ali brincava.

A notícia espalhou-se quase na proporção das dimensões do crime, e a população juntou-se para fazer justiça com as suas próprias mãos. Valeu ao cubano a protecção da força das faplas. O porta-voz desta força militar procurou ultrapassar o conflito declarando: "Isto são acidentes da Revolução".

(...) De entre as queixas que se repetiam entre as paredes da prisão, avolumavam-se as que diziam respeito aos roubos - mesmo se lhe chamavam outra coisa - perpetrados pelos cubanos. João Faria falava com indignação do que havia sucedido, sob os seus olhos, numa grande empresa, a CADA. Ao que parece o exército de Fidel precisava de um equipamento que a empresa possuía. A solução adivinhava-se simples: era só chegar e pegar, sem dar contas a ninguém, mesmo se tal gesto imobilizasse a empresa (recorde-se o que se noticia noutro lugar, envolvendo o roubo da central eléctrica de emergência do bloco operatório do Hospital do Lubango). Comentavam os presos que este material ia frequentemente de viagem até terras de Fidel Castro. Como foram milhares de toneladas de madeira numa área de 500 hectares, provocando em Cabinda desequilíbrios de monta advindos daquela ampla desflorestação [cf. Expresso, 24.11.90]






(...) Serve, também, este testemunho - para além de mostrar mais alguns retalhos de vidas maceradas pelas violações dos mais elementares direitos humanos - para dizer algo acerca do estado da saúde na Angola dominada pelos cubanos. Dos episódios que [os] enfermeiros me contaram acerca da sua experiência hospitalar retive, em particular, os que diziam respeito à mais crassa incompetência dos médicos cubanos. Registei, por exemplo, o que se passou naquela noite de 28 de Maio de 1977 com um soldado, um jovem de vinte e três anos. Estava casado há três meses. Como não havia sido circuncidado, as relações sexuais traziam-lhe algum sofrimento e, em tais circunstâncias, o médico aconselhou-o a submeter-se a uma pequena cirurgia, a qual lhe traria o conforto almejado. Mas o cirurgião cubano que ficou responsável pela intervenção achou que a solução era a amputação do pénis. Os enfermeiros tinham bem vivo na memória aquele momento em que o soldado se deu conta do resultado da cirurgia, momento de raiva e loucura cujos gritos invadiram de dor toda a enfermaria».

Américo Cardoso Botelho («HOLOCAUSTO em ANGOLA»).


«Como expressaria Álvaro Vasconcelos:

"...A partir de 1974, com a demissão do primeiro-ministro Palma Carlos e do ministro de Estado Francisco Sá Carneiro, o PCP consegue tomar em mãos a descolonização de Angola, conseguindo que para primeiro-ministro seja escolhido Vasco Gonçalves e para presidente da Junta Governativa, seja escolhido um fiel seguidor das suas teses, o almirante Rosa Coutinho. Este fez tudo quanto podia para reforçar o MPLA, o único que considerava 'progressista', em detrimento dos outros movimentos nacionalistas, a FNLA que era considerada como de 'direita', e a UNITA, considerada de 'centro'. Prova evidente do papel que Rosa Coutinho desempenhou é, por exemplo, ter imposto aos mercenários catangueses, anteriores servidores do exército português, a transformação em servidores do MPLA. Fá-lo em Dezembro de 1974, nas vésperas da assinatura dos Acordos de Alvor para a independência entre os três movimentos nacionalistas (FNLA, UNITA e MPLA) e o governo português..."

Enquanto o MPLA e FNLA se vêem envolvidos em contactos com as autoridades portuguesas, a UNITA acelera e generaliza a contenda guerrilheira, uma vez que recusa as propostas de uma confederação portuguesa. A razão assenta em que o MPLA e a FNLA necessitam de apoio exterior para se consolidarem no poder, face ao crescimento e popularidade da UNITA. Quando, posteriormente, fracassa a manobra do MPLA com Portugal, este decide jogar a carta cubano-soviética.


























A descolonização ultramarina portuguesa não encontrará a URSS mal preparada como acontecera quinze anos antes quando da descolonização franco-britânica. Isto terá muito a ver com a posição do PCP de que a URSS e Cuba iniciem a partir de 1974 a introdução de armas e homens para beneficiar o MPLA, aproveitando a instabilidade metropolitana.

Enquanto ao longo de 1974, a FNLA continua operando nas regiões nortenhas de Angola, Agostinho Neto procura desesperadamente tomar o poder pela força. É conhecido em Moscovo, em Havana e entre os marxistas portugueses, que apenas através da superioridade militar poderá o MPLA inclinar a balança a seu favor, especialmente após a cisão das forças comandadas por Daniel Chipenda.

(...) A administração Nixon, influenciada por Henry Kissinger, estimava que os movimentos angolanos eram extremamente débeis, não possuindo os Estados Unidos alternativas para um processo de descolonização. Sem dúvida, a URSS estava a par destes critérios da burocracia norte-americana e de que Washington não afrontaria uma escalada em Angola, mas que apenas procuraria entorpecer as operações. Fidel Castro, por seu lado, seguiria pormenorizadamente os acontecimentos em Portugal e Angola.

Procurar-se-ia a fortalecer Agostinho Neto com o apoio cubano-soviético, para evitar que Jonas Savimbi ou Holden Roberto ficassem com o controlo do vital porto de Luanda. Em Outubro de 1974, a URSS inicia o seu envio massivo de armamentos ao MPLA, através do Congo-Brazzaville, ao mesmo tempo que Holden Roberto recebe assistência técnica e militar da Roménia e da China, contando com mais de cem assessores chineses, incluindo um general.

Durante esse lapso de tempo, o denominador comum em Angola é a divergência entre as organizações que se haviam oposto ao colonialismo. Savimbi propõe, então, a união dos três movimentos, o que não se concretiza apesar de vários estados e líderes estarem de acordo com esta mesma manifestação.

Em 1975, entra em funções o governo de transição angolano nascido dos Acordos de Alvor, Portugal, a 5 de Janeiro, conseguidos no final do ano anterior, com a participação equilibrada de Lisboa, da UNITA, da FNLA e do MPLA, com o compromisso da realização de eleições em Novembro de 1975.

Segundo os termos deste Acordo, visa-se o desarmamento das tropas "especiais" formadas por catangueses e zambianos, ao serviço do exército colonial português. No entanto, grande parte desses dois exércitos, assim como as unidades auxiliares de angolanos, seriam "trespassadas" ao MPLA, em Janeiro de 1975, por ordem do Alto-Comissário Rosa Coutinho, que autoriza o MPLA, para além do mais, a proceder a recrutamentos na zona de Luanda. A introdução de armamento soviético e instrutores cubanos a favor do MPLA continua, uma vez que se inicia a assistência prestada pelo Zaire e Estados Unidos ao FNLA, desencadeando-se a guerra civil.

Com as tropas cedidas ao MPLA, por Coutinho, e com o armamento proveniente da URSS, além de certos arsenais portugueses generosamente postos à disposição, Neto disporá dos recursos necessários para bloquear o governo provisório, evitar as eleições e levar a disputa ao plano militar.



Encontro de membros da Junta Governativa de Angola com Jonas Savimbi e directório da UNITA no Outono de 1974 no Leste. Da esquerda para a direita na primeira fila, os elementos da comitiva portuguesa: Ferreira de Macedo, comandante da Região Militar de Angola; António Silva Cardoso, comandante da 2.ª Região Aérea; Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa e Altino de Magalhães, comandante do Comando Militar de Luanda. Na segunda fila do lado direito, Pezarat Correia, coordenador do MFA de Angola.


As queixas da FNLA e da UNITA, a partir da própria Conferência de Alvor, a respeito da parcialidade de Rosa Coutinho, levam Lisboa a substituí-lo por Silva Cardoso que, por sua vez, é rapidamente substituído como Alto-Comissário pelo chefe da Marinha de Guerra Portuguesa em Angola, o comandante Leonel Cardoso, outro conhecido simpatizante do MPLA, que consolida a reorganização militar deste movimento.

A partir dos últimos meses de 1974, os soviéticos incrementam o seu apoio militar ao MPLA. Em Outubro, Neto recebe através do porto do Lobito, carregamentos de armas soviéticas procedentes de Brazzaville, ao mesmo tempo que coloca no velho forte português de Massangano, cem milhas a sul de Luanda, um grupo de instrutores cubanos. A presença destes é descrita por um oficial do exército de Castro que participou directamente na campanha angolana:

"...Dezasseis cubanos especialmente treinados em guerra de guerrilha e sabotagem, todos os membros das chamadas Tropas Especiais, ajudaram a insurreição angolana contra o Governo Central de Lisboa e as suas forças armadas. Seguiram via Guiné-Bissau, sob as ordens do comandante Estebanell, convertendo-se assim na união entre a União Soviética e o chefe Guerrilheiro Agostinho Neto..."

Esta conexão angolana entre o MPLA e as altas autoridades portuguesas é facilitada por Álvaro Cunhal e o seu partido. Em África conta com o apoio de Marien Ngouabi no Congo-Brazzaville, Samora Machel de Moçambique, Sékou Touré da Guiné e no Yémen do Sul com Abdul Fattah Ismail. Por trás desses movem-se as sombras de Fidel Castro e Leonid Brezhnev.


(...) Em Fevereiro de 1975, Holden Roberto denuncia os planos soviéticos de instalar, pela força, o MPLA no governo, com a conivência das autoridades portuguesas em Angola, a presença de instrutores cubanos em território angolano e o equipamento militar que o MPLA vinha recebendo da URSS via Pointe Noire e Lobito. À medida que as forças de Holden Roberto se deslocam para a capital iniciam-se os choques com o MPLA que, por sua vez, não se faz rogado para destruir o governo de unidade nacional.

Nesse mesmo mês de Fevereiro, as forças de Daniel Chipenda, que haviam contado com o apoio soviético, as únicas dentro do MPLA com verdadeiro treino militar, rompem com Agostinho Neto e deslocam-se para Sul. Este facto decide a URSS e Castro a aumentar o envio de pessoal militar cubano, sobretudo à medida que os confrontos entre a FNLA e MPLA ganham maior envergadura.

Como tanto o MPLA e a FNLA dependiam de aprovisionamentos logísticos provenientes do exterior e do apoio de certos países, reforça-se a internacionalização do conflito, obrigando a UNITA a procurar ajuda externa. Assim, o Zaire transforma-se no veículo de apoio norte-americano à UNITA. Dá-se então a escalada do envolvimento exterior em que tanto Moscovo, Havana, Washington, Pretória, Lisboa e Kinshasa terão conhecimento cabal dos movimentos das partes contrárias.

Em Março de 1975, a URSS aumenta visivelmente o volume da sua ajuda bélica ao MPLA, por via aérea, e inicia uma escalada que o Zaire e os Estados Unidos não podem superar. Os AN-12 e AN-22 fazem escala em Brazzaville, onde deixam a sua carga, a qual é imediatamente transportada em pequenas embarcações e aviões para as zonas controladas pelo MPLA.

Inicia-se assim a chegada ao enclave petrolífero de Cabinda de um enorme grupo de conselheiros militares cubanos e guineenses que não é incomodado pelo exército português, por ordens expressas de Leonel Cardoso.








Ainda no mês de Março, as reservas militares de Cuba são integradas ampliando o contingente efectivo. Já nessa altura existe um número de instrutores cubanos em solo angolano que ronda os 500 homens. Um número não identificado destes é detectado e é denunciada publicamente a sua presença na zona sul de Benguela e Lobito, e nos finais do seguinte mês confirmam-se a chegada de mais soldados a solo angolano.

(...) A intervenção cubano-soviética em Angola, desde os inícios de 1975, e a sua posterior escalada, desmente a visão de que ela é produto de uma reacção à presença sul-africana [o sublinhado é nosso]. O vice-ministro das Relações Exteriores de Castro, Ricardo Alarcon, declara à imprensa estrangeira em Dezembro de 1975, que o envio de tropas cubanas para Angola havia começado na Primavera de 1975, para a base de Massangano.

Em Agosto, as baterias cubanas abrem fogo no Bié sobre o avião que transporta Jonas Savimbi. A 9 de Agosto, a UNITA decide declarar guerra ao MPLA e aos seus assessores cubanos; por essa mesma altura, a presença cubana começa a activar-se após a chegada do general Raul Dias Arguelles, que assume o comando das operações e estabelece uma "testa de ponte" em Angola, preparando a massiva irrupção posterior.

À medida que se aproximam as eleições, o MPLA, incentivado pelos conselhos do PC português, atiça a guerra civil em todas as frentes [o sublinhado é nosso], e em especial contra a FNLA, nas imediações de Luanda. Mesmo assim, a luta estende-se também contra a UNITA. Os colonos de origem portuguesa ameaçam ser alvo do MPLA e inicia-se o êxodo».

Juan F. Benemelis («Castro, subversão e terrorismo em África»).


«Em meados de 1976, Lúcio Lara, em reunião do Bureau Político, afirma que Sita Valles fora mandada pelo Partido Comunista Português para controlar o MPLA, logo acrescentando haver vários portugueses com a mesma missão.

Na sequência desta intervenção, o Bureau Político delibera afastar os portugueses do MPLA. A medida visava Sita Valles. Só que esta nascera em Angola. De modo que, pouco tempo depois, são afastados todos aqueles que anteriormente tinham militado noutras organizações políticas. O que podia levar à exclusão de Lúcio Lara e do próprio Agostinho Neto. Este contorna o problema declarando-se membro do MUD Juvenil. E recomenda à sua assessora, também ela antiga militante do PCP, que escreva precisamente isso na ficha que lhe entrega.






Contudo, militantes de outras organizações, como a UDP ou o MRPP, não são atingidos. A medida tem carácter pessoal. Visa apenas Sita Valles, que é afastada do MPLA.

Mais ou menos por esta altura, foram buscar Sita Valles. Lúcio Lara queria falar com ela. Facto é que desapareceu durante muito tempo. O marido moveu céu e terra para encontrar a mulher.

A nível militar são afastados vários combatentes com provas dadas.

João Jacob Caetano (Monstro Imortal) é colocado no Estado-Maior das FAPLA na dependência de combatentes menos capazes.

José Van Dunem é afastado de comissário político do Estado-Maior General, passando a comissário político da Frente Leste. E é substituído no cargo pelo comandante Balakov, com elevadas qualidades operacionais, mas uma menor capacidade política.

E são, ainda, suspensos da suas funções os responsáveis do Departamento de Alfabetização de Quadros do Comissariado Político Nacional das FAPLA.

Em fins de Setembro de 1976, um tal Pedro Skifer, da DISA, afirma, alto e bom som, que Juca Valentim, José Van Dunem e outros eram uma camarilha que iria desaparecer.

E em finais do ano, numa reunião do sector intelectual no DOM Regional, Lúcio Lara ameaça:

- Venho dizer-vos que o Presidente Neto já afirmou, por mais de uma vez, que não admite que se diga que ele ou que eu fomos membros do Partido Comunista Português. Participámos sim em células de luta anti-colonial, ligada ao PCP. Mas se insistem em dizer que fomos do PCP, será muito fácil resolver o problema de vez. Encosto-vos ao "paredón".

O fuzilamento, método radical de solução dos problemas».

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus («Purga em Angola. O 27 de Maio de 1977»).




Lúcio Lara




«...a esposa do Eng. Valles, quando voltou à cadeia, encontrou um muro de silêncio acerca do destino do seu marido. Procurou-o em São Nicolau, na Kibala, mas evidentemente as suas buscas não poderiam ter sucesso.

O destino da sua irmã, Sita Valles, não tinha sido mais feliz. Depois dos acontecimentos de Maio de 1977, refugiou-se numa aldeia do Norte de Angola, Kaleba. Ela sabia que todos os seus companheiros de luta estavam a ser presos e sumariamente entregues à morte. Assinou a sua sentença de morte no dia em que arriscou enviar uma mensagem para a família Van Dunem através de um filho daquele que a recebia em Kaleba, Francisco Karicukila. A mulher que recebeu a missiva enviada por Sita Valles, tendo o marido preso, ensaiou em desespero de causa uma troca, denunciando Sita Valles junto do Director-adjunto da DISA. A carta visava a preparação de uma fuga sob a protecção dos soviéticos. O mensageiro foi preso, torturado e, assim violentado, conduziu os militares ao esconderijo de Karicukila. Aquelas que recordam Sita falam de uma mulher destemida. Quando alguém lhe oferecia comida respondia: "A um comunista não se dá leite, dá-se porrada". A extrema-esquerda, em Portugal, acusava Sita de ter sido a mentora política da tentativa de golpe, qual Mata-Hari que tinha partilhado a cama de, pelo menos, dois dirigentes do MPLA: Nito Alves e Van Dunem.

O fim terá chegado pelas cinco da manhã, no dia 1 de Agosto de 1977, sem qualquer julgamento, depois de torturas e violações às mãos de vários disas. Kilombelombe falou-me dessa execução: Sita Valles, jovem de 26 anos, depois de recusar a venda nos olhos, foi morta com um tiro na cabeça, não sem antes ter recebido um tiro de raiva na vagina, bem sublinhado pelo comentário circunstancial do carrasco: "A cabra parecia que não queria morrer". Com ela foram fuziladas outras quatro mulheres, num cemitério próximo da Cuca. Não se conhece o local exacto onde foram sepultadas - de certeza numa das inúmeras valas comuns abertas durante este período.






Mata Hari




Ver aqui









(...) Era sabido que as ordens de Neto estavam por detrás de todas as grandes acções repressivas - da leitura de Iko Carreira pode concluir-se o mesmo. Ludi, Carlos Jorge, Kambulucusso, Pitoco e Luisinho não poderiam pôr em marcha tantas atrocidades sem a confiança política das cúpulas do poder.

Entre os nomes que mereciam mais atenção nessas informadas conversas encontrava-se o de Sita Valles. Como já atrás se referiu foi fuzilada num cemitério próximo da Cuca, na companhia de outras quatro mulheres, num ritual de sadismo indigno da nossa humanidade. Os fuzilamentos foram antecedidos de violações e torturas, processo vergonhoso que conheceu a presença dos agentes Carlos Jorge e Inácio, além de outros (um deles fez fotografias do "espectáculo")».

Américo Cardoso Botelho («HOLOCAUSTO em ANGOLA»).


«Nós faremos de Angola a pátria dos trabalhadores e a revolução continuará a sua marcha ao lado dos povos que seguem o mesmo caminho».

Camarada Presidente Dr. Agostinho Neto, Jornal de Angola, 27.02.82





«Nunca pensámos que a independência seria o país convertido numa imensa prisão e num cemitério».

Luís Fernandes do Nascimento

















HOLOCAUSTO em ANGOLA


Doença e fome


Tenho já poucas palavras para definir as condições de saúde nas prisões angolanas. Mas a situação era ainda mais degradante nos campos prisionais como a Kibala. A este propósito, recordo o Dr. Vidigal, um perfil de desassombro... As minhas notas de 3 de Março de 1978 não omitiram a admiração que por ele sentia. Médico na cadeia de São Paulo, era chamado a fazer relatórios sobre a situação dos presos, e não calava os sinais das piores agressões e das mais vis torturas, ele que por pouco escapou a uma dessas marchas nocturnas para o fuzilamento. Mas não escapou a uma dessas caravanas de degredados para o campo da Kibala. Entre os presos ninguém duvidava de que esse era o castigo pelo desassombro dos seus relatos acerca do estado de saúde dos presos e do desastre sanitário que se vivia na prisão.

Os doentes eram aqueles que mais sofriam. É que, como diziam os cartazes, "é proibido adoecer". Aliás, quando chegavam ao campo, era-lhes, imediatamente, dado a conhecer o "regulamento": "ninguém pode adoecer mais do que um dia por mês".

De acordo com os testemunhos que colhi, muitos doentes eram submetidos a trabalhos mais pesados com o objectivo de os levar a "superar" a doença para poderem voltar ao regime de trabalho manual. A tuberculose pulmonar era a doença mais fatal. Todos recordam o caso dos cerca de trinta presos, num estado avançado de tuberculização, que, pelo Natal de 1978, foram transferidos para o hospital de Ngunza, ou pretensamente transferidos, uma vez que jamais houve qualquer informação sobre o seu paradeiro.

Castro Lopo lembra-se, entre outros, de Pascoal (34), que encontrou no dia 30 de Julho de 1979 no Hospital Militar; o homem de robusto que era, tinha-se transformado num ser débil, vítima de tuberculose pulmonar. Era da FNLA, mas entregou-se sob a promessa de perdão e integração. O resultado da integração está à vista.






Castro Lopo tem, também, presente o caso do filho do Vicente (35), exemplo claro da ausência de qualquer escrúpulo por parte do MPLA. Este filho do Vicente era epiléptico. As crises que sofria impressionavam deveras todos os seus companheiros em São Paulo. Também ele foi mandado para a Kibala. Não era, de facto, possível imaginar um lugar pior para alguém nestas circunstâncias. O Campo tinha um médico principal, Areias, que comia com o Comando. Mas os presos tinham com ele uma relação difícil. De facto, nenhum doente podia contar com ele para obter a confirmação de que não estava apto para o trabalho, mesmo no caso das crises de paludismo. O outro médico, Vidigal, mais estimado pelos presos, tinha pouca influência junto do Comando.

A água era um dos veículos principais para a transmissão de doenças. Luís Lopes, que tinha como colegas o engenheiro Macau e o estudante de medicina José Reis, procurava constantemente obter medicamentos que depurassem a água. Ora, certo dia, numa inesperada rusga, foram-lhes apreendidos tais medicamentos. Imediatamente foram acusados de possuir comprimidos de cianeto para envenenar o Campo. O Dr. Areias confirmou que se travava de produtos para depuração da água. Não convencidos disso, os responsáveis pelo campo enviaram os comprimidos para serem analisados em Luanda. Nunca tiveram viagem de regresso. Os presos viriam confirmada a convicção de que tudo aquilo era uma farsa; que afinal teriam ficado com eles para tratamento da sua própria água.

O Germano (36) contou-me que, pelas quatro e trinta da madrugada, davam um pão muito pequeno acompanhado de água "chalada". Até ao almoço - por vezes só às quatro da tarde, depois do trabalho nos campos - era esta, normalmente, a "dieta" - porque muitas vezes não havia sequer mata-bicho. Depois vinha aquele espectáculo degradante: a multidão dos presos, andrajosos, descalços, sentados no chão, a comer, com as mãos, os seus quarenta gramas de arroz, sem sal nem gordura, servidos numas indescritíveis latas de óleo. Alguns, mais habilidosos, conseguiam fabricar colheres a partir de latas usadas ou de pedaços de plástico. Por vezes davam aos presos o tradicional funge, acompanhado de peixe, melhor, de espinhas de peixe; a carne, essa, não era conhecida dos reclusos, não porque não existisse, mas porque o resultado das caçadas era reservado para o Comando, para os seus capangas e para os presos bufos. Acontecia, por vezes, que lhes subtraíam a comida enviada pelos familiares. Luís Lopes, Nonato, José Reis e Macau tinham por hábito juntar a comida que lhes era enviada (37). Quando, numa rusga, viram tal quantidade de comida concentrada, fabricaram de imediato uma acusação: "Esses géneros são para corromper a guarnição!". Era um conluio para se apoderarem dos mimos da Páscoa - amêndoas, passas, etc. - vindos de Portugal. Aliás, já tinham sido invejados no controlo de entrada.

Com frequência não havia sequer jantar, mas era proibida e reprimida toda e qualquer reclamação. Não faltavam sequer os cartazes com os avisos: "Proibido reclamar por falta de comida!". Barata, um português, disse-me mesmo que os portugueses, na Kibala, se viram obrigados a comer erva para poderem sobreviver. Tendo em conta outras informações que obtive, esta situação não me surpreendia. Uma das primeiras experiências dramáticas para os presos era, precisamente, este recurso ao capim para enganarem a fome (38).






Fome é, portanto, uma palavra bem nutrida de realidade nos campos da Kibala. Barata não se esquece daquele dia em que lhe deram duas marmitas grandes cheias de comida que a família de um preso havia deixado: comeu tudo de uma só vez, o que trouxe complicações graves ao seu aparelho digestivo, habituado que estava ao regime de fome da Kibala. A alimentação era, pois, duma precariedade absoluta; tal conduzia, evidentemente, a um estado, cada vez mais agravado, de vulnerabilidade à doença.

Por vezes, os atentados à saúde dos reclusos conseguiam, ainda, ser mais explícitos. Como daquela vez em que deslocaram um grupo de presos para outro sector do campo fazendo crer que iam ser fuzilados. Aí, deram-lhes a beber a água que estava dentro de um bidão que tinha servido como depósito de gasolina. O português José Maria Magalhães, que estava neste grupo (39), contou-me que a água cheirava inequivocamente a gasolina e que quase todos os que a beberam ficaram com as barrigas inchadas.

Outros factos agravavam, no entanto, esta situação. Apesar de ser um dos climas mais agradáveis de Angola, os seus 1200 m de altitude tornavam-se muito penosos para quem vivia naquelas condições. O frio era fatal para estes prisioneiros que, sem casa e dormindo no chão térreo com metade da manta por baixo do corpo e a outra metade por cima, não tinham sequer roupas e calçado. Nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março vinham as chuvas. Era, então, frequente ficarem muito molhados quando regressavam dos campos. Já no campo, despiam-se e punham a secar a única roupa que possuíam. Mas tal prática não era bem vista pela direcção do campo que mandava confiscar as roupas estendidas o que obrigava os presos a terem de as pedir novamente. Quando as recebiam, vinham com um prémio acrescido: mais um turno de trabalho com as mesmas roupas molhadas. Estas circunstâncias tornavam-se uma espécie de tortura permanente que conduzia a problemas de saúde graves. O português Luís Rodrigues viu umas das suas pernas paralisadas durante muito tempo devido ao frio e à humidade. Pelas mesmas razões Germano tinha lesões sérias num dos pés, o que lhe dificultava a locomoção; quando chovia não tinha possibilidade de acompanhar os companheiros, chegava a demorar quatro horas no percurso de regresso.

As condições de alojamento eram indescritíveis. Isso mesmo pôde constatar o Procurador Antero de Abreu aquando da sua visita ao campo a 8 de Janeiro de 1980. O barracão não tinha qualquer pavimento; as instalações sanitárias, essas, por falta de coragem, nem sequer foram mostradas. Mas lá foram dizendo que estavam projectados melhoramentos.

De acordo com o testemunho de Luís Lopes e de outros portugueses o armazém de sisal em que dormiam era, todo ele, um perigo constante. Não só estava em ruínas como os obrigava a conviver com os mais variados espécimes zoológicos. As cobras passeavam no travejamento e, não raras vezes, sobretudo quando se envolviam em lutas com os ratos, caíam, provocando o pânico. Por cima dos corpos, que no chão procuravam o descanso, passavam procissões de bicharada: ratos, osgas, lagartos, baratas. Mas o pior eram certos insectos que provocavam doenças e lesões graves: moscas, matacanhas, o mosquito provocador do katalotolo, etc. Tanto o Luís Lopes como o Lara foram mordidos pela matacanha. Trata-se de um parasita hematófago, conhecido por bicho dos pés, que se aloja na pele causando inchaços e ulcerações por via das cavernas que abre perfurando a pele. O insecto tinha de ser retirado imediatamente; na falta de outros instrumentos, a agulha era o utensílio indicado.









Como não existiam balneários, os presos tinham de se deslocar ao rio para tomar banho. Aí tinham de se banhar junto da cascata, onde as águas eram mais agitadas, pois os jacarés afastavam-se delas, preferindo as águas mais calmas. Mas, não poucas vezes, aconteciam quedas que provocavam fracturas ósseas - como aconteceu a Luís Lopes - ou, pior ainda, tombos que conduziam os presos às áreas de ataque dos jacarés. Apesar de tudo, este banho era um dos poucos momentos de alguma satisfação para os reclusos. Alguns até já conheciam os peixes que sempre por ali andavam e adoptavam um ou outro como mascote do grupo.

Algumas das vítimas desta crueza passaram por São Paulo, como aquele jovem que se arrastava doente, esfarrapado e magríssimo. Era filho do Vicente, aquele que pertencia à Banda Musical da Cidade do Dundo, e eu tinha-o visto com frequência no hospital daquela cidade, por motivo da epilepsia que o afligia.

Nesta prisão, tinha-se cruzado já várias vezes comigo, mas as barbas que me acompanhavam eram-lhe estranhas. Falou-me, então, das condições de completo abandono com que acompanhavam a sua doença, e confessou-me a suspeita de que todos os outros jovens que com ele haviam sido presos já tivessem sido fuzilados.

Numa daquelas madrugadas de má memória foi despachado, numa camioneta de bancos de madeira, para a Kibala, numa viagem de dor inenarrável, nos seus trezentos e cinco quilómetros intermináveis. Na Kibala, sem qualquer tipo de assistência médica, não lhe podíamos augurar grande futuro.

A São Paulo chegavam também notícias da morte de conhecidos e desconhecidos. Desta vez a notícia veio com a ex-secretária de Nito Alves, a [...] Dina que, regressada da Kibala, anunciava a morte de uma mulher chamada Stela, também ela secretária de Nito Alves quando este era Ministro da Administração Interna. A notícia confirmava os ditos vários acerca daquele degredo sob o mando de Lopo Loureiro e desvelava mais uma vez o facto de se morrer de fome na Kibala.




Desenho ilustrativo de um conto de Pepetela: a víbora tem a cabeça de Nito Alves.



Assim que me foi possível abordei o Bravo da Rosa, primo daquele Lopo Loureiro, para juntar mais algumas notas aos meus escritos. Esse encontro proporcionou alguma desconfiança, uma vez que, pouco depois, se acercou de mim um soldado, um tal Bumba, para me pedir um lápis, uma caneta, qualquer coisa que escrevesse. Mas tarde veio o tenente Miranda e o soldado Ambrósio com uma cantilena semelhante. Provavelmente estava a acumular-se alguns resíduos de desconfiança, mas certo é que nunca olhos alguns me viram escrever, durante aqueles longos três anos e meio.

Todas as notícias confirmavam que as migrações para a Kibala anunciavam sempre resultados trágicos. O prognóstico confirmava-se quase sempre quando, por coincidência, algum dos presos de São Paulo se cruzava no hospital com um antigo camarada de cela, agora deslocado para o campo da Kibala.

Este caso diz respeito a um homem de uns vinte e sete anos de idade que, em 1978, foi levado de São Paulo para a Kibala. Quando mais tarde alguns companheiros da sua antiga prisão reviram no Hospital Psiquiátrico aquele homem, outrora forte e saudável, tiveram mais uma confirmação do que se passava no campo da Kibala. Apresentava agora sinais preocupantes de demência e uma magreza que não deixava lugar para qualquer mentira sobre o que acontecia na Kibala - diziam que, aí, a morte era a "conta gotas" (apesar destas circunstâncias, na propaganda do MPLA, e em concreto nas palavras de Carlos Jorge, este campo era uma verdadeira estância de turismo).


O campo de concentração da Sapu

Situada nas proximidades da cidade de Luanda, esta era uma grande exploração no tempo colonial. Aí desenvolveu a sua actividade uma das maiores empresas agro-pecuárias, tornando-se mesmo no principal fornecedor de leite de Luanda. No interior podia encontrar-se uma enorme lavra com cerca de mil e duzentas galinhas poedeiras e com umas quatro centenas de porcas reprodutoras.

A empresa dispunha de um conjunto vasto de equipamentos - posto médico, escola, carpintaria e oficinas de electricidade, etc. - bem como uma vasta e diversificada área residencial. Ocupada pelo MPLA, logo nos primeiros meses de 1975, foi a morada, durante algum tempo, de Agostinho Neto e da sua família próxima. A residência principal foi ocupada por este. Mas aí instalaram outros nomes da elite do MPLA, entre eles, Ludi, Nzagi e Loy - membros do bureau político do Comité Central do MPLA. O pouco que passou a ser produzido era distribuído, em primeiro lugar, pelas casas dessa elite. Mas foi também nos terrenos dessa exploração que se veio a instalar o campo de concentração da Sapu - herdando o nome dessa propriedade nos arredores de Luanda.






Já antes de 11 de Novembro de 1975, data da independência, o MPLA tinha começado a fazer deste local reservado um campo profissional para os fnla's capturados. Eu conheci alguns destes militantes da FNLA na Casa de Reclusão. Os destinos desse campo estiveram sob o comando, até Fevereiro de 1977, de um mulato de nome Fernando Jesus Leitão Coelho Fortes, conhecido por Kilombelombe.

Em Janeiro de 1978, Kilombelombe - antigo director do campo da Sapu - estava já junto de mim; a proximidade acabou por dar várias oportunidades à conversa. As informações acerca daquele gulag - o primeiro instituído pelo MPLA em Angola - coincidem com alguns ditos dispersos já registados. Em certos dias, chegaram a entrar quatrocentos presos naquele campo; vinham do centro de Angola, particularmente do Bié, Moxico e Huambo. Muitos deles, os combatentes da mata, caíram no engodo das promessas do MPLA: todos os arrepesos da UNITA ou da FNLA se poderiam apresentar, pois o MPLA apenas pretendia a reconciliação em ordem à reconstrução nacional. Chegavam ao campo da Sapu com as marcas da fome traçadas no corpo, rotos, descalços e infestados de parasitas. Mesmo nestas condições, tinham que estar disponíveis para o teatro da "reeducação" - pelas três da madrugada já estavam de pé para cantarem hinos revolucionários.

Com uma improvisada enfermaria e um enfermeiro, nem sequer podiam dispor de um carro para transportar os doentes - aliás, as orientações iam no sentido de não prestar demasiada atenção aos problemas de saúde. Kilombelombe referiu que todas as alterações a este regime de desumanidade dependiam das ordens explícitas de Carlos Jorge, que adiava, permanentemente, qualquer decisão que visasse diminuir a precariedade das situações. Este cenário não era diferente daquele em que vivíamos em São Paulo: até esta data nenhum doente baixou ao Hospital Militar sem a autorização de Carlos Jorge.

A conversa fugiu, pois, naturalmente, para aqueles casos gritantes de horror que ali, ao nosso lado, se mostravam. O Manuel Campos, com um traumatismo craniano, o Fernando Correia, a quem romperam a membrana do tímpano. Cai-Cai, a autoridade sanitária deste antro, é aquele que maiores responsabilidades tem no terreno. Os seis médicos presos só podem intervir quando a sua colaboração é solicitada, mas as suas indicações passam sempre pelo crivo de Cai-Cai, simples agente sanitário.

Entre as informações que fui coligindo, destaque-se um facto; a primeira geração de presos e torturados foi constituída por portugueses e fnla's. Entre os portugueses retive alguns nomes: Manuel Magalhães Linares, que ali acabou por ser morto, um tal Lazeiro, técnico agrícola algarvio, que ficou cego e paraplégico em consequência de torturas, e que nesse estado acabou por ser transferido para a Casa de Reclusão e daí para Lisboa.

Antes de o campo da Kibala ter ganho a preponderância conhecida, foi para o campo da Sapu que enviaram grupos enormes de gentes do centro do país, que ali chegavam já num estado de penúria tal que não iludia o que antes haviam passado. A proximidade da residência de Neto acabou por obrigar a transferir muitos dos presos para a Kibala.














Algumas das práticas repressivas que os presos experimentavam neste campo de concentração foram-me assim descritas nas palavras de um dos seus autores. A Sapu, segundo a descrição de Kilombelombe, tinha-se tornado num autêntico campo de trabalhos forçados. Chegavam continuamente presos, cuja magreza era iniludível, depois de longas caminhadas, muitos provenientes do Bié. Trabalhavam no que restava do empreendimento agro-pecuário. Dali, os produtos seguiam para as casas dos dirigentes do MPLA, mas lá morria-se de fome. Kilombelombe recorda-se do casamento do chefe de gabinete de Ludi - foram requisitados uns dez porcos, umas boas dezenas de galinhas e ainda umas centenas de ovos. Lembro, também, as palavras de Kilombelombe que se referiam ao facto de os presos serem obrigados a levantarem-se logo pelas três da madrugada para, durante pelo menos uma hora, cantarem hinos heróicos pelo MPLA.

Moisés, também preso em São Paulo, tinha sido um dos coadjutores de Kilombelombe. Ao castigo e doutrinação pelo canto heróico ele acrescentou que frequentemente a música era acompanhada pela "caixa" - não nos equivoquemos, trata-se de um exercício de flexões forçadas. Quando se descobria que alguém, distraída ou intencionalmente, se abstinha de cantar, chovia coronhada - parece ter sido essa a sorte de um português que por ali passou. Acontecimentos semelhantes preenchiam alguns rituais civis como o hastear da bandeira do MPLA. Na memória de alguns presos estava o sucedido com o grupo de catorze mulheres que foram mobilizadas para uma dessas formaturas. Tudo terminou com o regresso às celas por entre um arsenal de pancadaria pesada, simplesmente porque um grupo delas de recusou a cantar. E tudo podia ser muito pior se Kilombelombe e os seus assistentes estivessem bêbados.

Certo dia, anunciaram que iam ser executados trezentos unitas. O comando da operação estava nas mãos de Miguel. A guarnição da Sapu estava bem apetrechada de armas para o "serviço". Depois de dispostos na configuração devida para o massacre, os trezentos presos são chamados. O Director discursa lembrando que a morte é paga por tantos faplas mortos com o fogo das armas da UNITA.

O medo foi crescendo entre aquela multidão (chegou a ter 2000 presos), sob um mando de gritos, súplicas, intercessões, pedidos de uma última comunicação com a família. Já o pavor tinha derrubado alguns desses corpos comidos pela fome, quando uma voz de comando sentencia: "Hoje ficamos por aqui... vamos pensar nos vossos pedidos". Hoje alguns dos sobreviventes sabem que estas encenações tinham a finalidade de sustentar o clima de terror que pesava sobre o quotidiano do campo.


(...) Clamoroso silêncio

A história repete-se

Algumas das notícias recolhidas ao longo dos últimos anos indiciam que a situação das prisões angolanas não deverá ter sofrido grandes alterações. Veja-se esta notícia do Correio da Manhã de 27 de Novembro de 1997:

Dez prisioneiros, incluindo membros da UNITA, sufocaram até à morte numa prisão governamental, onde estavam acomodados em condições sub-humanas, 50 presos - afirmou ontem um alto responsável da ONU, que condenou com veemência aquele 'acto bárbaro e cruel' das forças policiais angolanas.






Segundo David Wimhurst, porta-voz da missão da ONU em Angola, a Polícia governamental deteve no passado dia 12 cerca de 50 pessoas na província de Malange, tendo-as alojado numa única cela de uma prisão onde não existiam condições mínimas de sobrevivência, incluindo suficiente ar.

Os estrangeiros, que não portugueses, salvo algumas excepções que eu próprio refiro, não puderam sequer entender o que se passava, limitados que estavam pelo facto de não compreenderem a língua portuguesa. Os gritos, a violência das armas, não eram indicadores suficientes para perceber, com alguma profundidade, o drama que atravessava o destino dos angolanos.

Por outro lado, tenha-se em conta a dificuldade que quase todos os presos teriam se quisessem registar, na prisão, algumas das suas experiências, em razão da falta do material imprescindível e da ausência da privacidade necessária.

De facto, quando chegou o fim daquele inferno angolano e regressei a Portugal, espantaram-me os repetidos sinais de completa ignorância acerca da real dimensão das violações dos direitos humanos em terras angolanas. Muitos foram os colóquios internacionais que se preocuparam, por exemplo, com os "desaparecidos" dos regimes autoritários da América Latina, mas nunca se ouvia uma palavra sobre Angola. No entanto, pelas informações que me foram transmitidas, sabemos que algumas províncias como o Huambo, o Bié e Benguela sofreram um clamoroso banho de sangue. Em tais condições, crescia em mim o mais deslavado desencanto, pois, na comunidade internacional, não se ouvia uma palavra sobre os crimes de guerra que devassavam a população angolana.


A Casa de Reclusão e a "cela 14"

Manuel Garcez, técnico português da Diamang, tinha passado pela Casa de Reclusão. Na sua memória permanecia uma cena, registo indelével do terror que ali viveu. Lá conhecera um angolano que tinha, num dos braços, uma tatuagem com cerca de 8 cm por 2,5 cm. Vendo a violência que selvaticamente se abatia sobre os presos da FNLA e da UNITA, não hesitou em fazer desaparecer a marca que no seu braço denunciava a sua pertença política. Com uma colher em brasa procurou danificar a tatuagem provocando, no braço, uma queimadura tal que ninguém ficava indiferente perante a visão das lesões.

Na "cela 14" da Casa de Reclusão se resume o inferno das prisões angolanas. Os portugueses Jaime Barata dos Santos e Luís Oliveira Lopes, entre outros, conheceram aquele horror fétido e escuro onde a vida parecia já morte e o ar era quase irrespirável.



Américo Cardoso Botelho na prisão




Em primeiro plano e da esquerda para a direita, Américo Cardoso Botelho, enquanto Presidente da Câmara Municipal da Azambuja, aparece na companhia de Henry Ford (II) e do Embaixador dos EUA em Portugal, Almirante Anderson, na inauguração de uma fábrica da Ford na Azambuja, em 1964.



A densidade era tal que cada vez que alguém se queria movimentar acabava por pisar os outros, os pratos, ou os montes de fezes e as manchas de urina perdidos pelo chão, pois raramente eram autorizadas saídas para os sanitários. Luís Lopes confessa que estas circunstâncias acabavam por o paralisar no chão deitado sobre o seu casaco, esperando, de cada vez, ser poupado pelas ratazanas que se passeavam no escuro entre os corpos.

Da Casa de Reclusão trazia-se o rasto da violência sem medida. Machado, mais um entre tantos, passou por aquela fábrica de violências. Pelo que me contaram, este era um antigo funcionário da Coca Cola em Luanda. O Machado tinha sido preso logo em 1975. Na Casa de Reclusão conheceu a pior das violências, em Outubro desse ano foi transferido para São Paulo. As torturas foram vincadas no corpo com cabos de aço, daqueles que se usam nos mastros dos navios. Os companheiros que agora estavam com ele em São Paulo confirmaram que, de facto, o seu corpo apresentava monstruosos vestígios daqueles cabos de aço.

Quando no dia 6 de Agosto de 1980 fui posto em liberdade conduziram-me à Casa de Reclusão, com mais três colegas da Diamang. Pretendiam fazer uma última revista. Eu tremi porque tinha por baixo das palmilhas dos sapatos correspondência vária de presos ingleses, americanos e sul-africanos para enviar às respectivas famílias. Mas um facto chamou-me a atenção: já não se encontrava lá ninguém daqueles que ali tinha visto em 1977 - incluindo a própria guarnição. Segundo o conhecido que me levou daí para o aeroporto, esses militares e agentes estavam presos ou tinham sido fuzilados.


Direitos humanos?

Era noite avançada, pelos finais de 1978, os presos da Casa de Reclusão foram acordados com os gritos lancinantes de um preso que, adivinhava-se, estava a ser torturado no primeiro andar (o sector do Comando). No meio daqueles gritos, ouvia-se uma voz aflita e revoltada clamando pelos "direitos humanos". Mas de acordo com as informações conseguidas, cada reclamação arrastava atrás de si mais pancadaria, e um esclarecimento: "Direitos humanos é levares nos cornos!". Depois da sessão saiu do Comando um vulto ensanguentado, rolando pelas escadas à força de pontapé: "Parto-te os cornos, filho da puta!", ecoava pela Casa de Reclusão.

Esse homem agredido foi para a cela dos portugueses, onde foi possível saber alguma coisa da sua história (40). Era técnico da televisão angolana e tinha sido destacado para um serviço no aeroporto 4 de Fevereiro de Luanda. Segundo as suas palavras, ter-se-á encostado a um vidro que cedeu e se partiu, trazendo-lhe o incidente a prisão e o espancamento na Casa de Reclusão, onde passou dois meses. A violência e a humilhação experimentadas na prisão mostraram-lhe uma realidade que, para ele e para a maioria da população de Luanda, era desconhecida. A experiência teve nele um impacto enorme, a medir pelo descontrolo psíquico que apresentava na hora da saída.



Onambwe, carrasco e Director-Adjunto da DISA



Cardápio de torturas

A recolha e a acumulação de testemunhos permitiram-me constituir uma espécie de cardápio da tortura, repertório que daria para programar um autêntico museu de horrores.

O n'Ghelelu era também conhecido como "tortura do Leste", precisamente porque se diz que seria usada, já em tempos mais recuados, no leste de Angola. Trata-se de algo parecido, com um capacete ajustável, com uma dobradiça atrás, que é colocado à volta da cabeça, com um dispositivo de aperto. A pressão, segundo as descrições, causava uma dor imensa na cabeça e quase insensibilizava o resto do corpo. Esta insensibilidade era, aliás, testada com fósforos acesos e pontas de cigarro em várias partes do corpo. Para além desta violência, amarravam os braços a uma corda e puxavam-na até que os cotovelos tocassem atrás um do outro. Depois do suplício, muitos presos demoravam a recuperar a sensibilidade em alguns dos seus membros.

As coronhadas constituíam um importante lote de recursos. Nas palavras do próprio Primeiro-Ministro, Lopo do Nascimento, que foi membro do Bureau político do MPLA, "era preciso partir os dentes à burguesia". As faplas, os disas e a ODP cumpriram com desenvoltura essa indicação. Elas podiam atingir os maxilares, o nariz ou uma qualquer outra região do rosto, a garganta ou o estômago.

As matracas de karaté eram usadas com frequência contra o tronco dos presos quando interrogados. As lesões estavam na origem de problemas respiratórios subsequentes.







De entre a panóplia de torturas, as agressões aos orgãos sexuais estavam entre as mais temidas. Rodeavam os testículos com filamentos de aço, amarravam com os mesmos o pénis e, depois de dar um nó corrediço, puxavam violentamente. Os gritos eram lancinantes, mas não chegavam para o tamanho da dor. Em alguns casos, segundo as informações recolhidas, as lesões e as perturbações prolongavam-se no tempo.

Devem indicar-se ainda as agressões com barrotes, daqueles que são usados na construção civil. Usavam-se sobretudo para atingir as articulações, causando fracturas, deslocamentos e derrames internos com graves consequências.

As chicotadas de mangueira deviam ser a tortura mais universal. Todos a conheciam nos fatídicos interrogatórios. Eram usadas mangueiras de cerca de uma polegada de diâmetro, muitas vezes enriquecidas com um arame enrolado para aumentar os danos. A mangueira era substituída, em alguns casos, pelas correias das ventoinhas dos automóveis ou mesmo por chicotes propriamente ditos. Estas agressões podiam provocar todo o tipo de danos, como lesões nos olhos ou, como já aqui referi, na membrana do tímpano.

Recolhi também informações acerca do uso de prensas de madeira, para comprimir as mãos e os pés, sobre o uso de agrafadores para perfurar o corpo dos interrogados, bem como sobre outro tipo de penetrações, como as esferográficas ou os pregos no ânus.

A cinqualha era, como o n'Guelelu, um clássico da tortura. Com uma corda atavam os braços e os pés, para depois a puxarem de modo a curvar para trás a coluna vertebral do preso. Como se não fosse suficiente essa pressão, elevavam o corpo do chão e deixavam-no cair desamparadamente.

Depois de os Cubanos terem deixado São Paulo, o tenente Nelo e o seu primo Lopes tornaram-se os grandes especialistas na tortura de descargas eléctricas nos testículos. Não me saem da cabeça as imagens daqueles presos que, depois de sofrerem tamanhas agressões, ficavam com os testículos do tamanho de abóboras. Fernando Costa deixou-me um testemunho sobre o caso de Sousa - um familiar de Nito Alves. Certo dia foi chamado ao Comando. Mandaram-no despir. Entretanto José Vale, maliciosamente, passa-lhe a mão pelo corpo com o intuito de o humilhar perante os presentes. De seguida, coadjuvado por um outro agente, atingiu o sexo de Sousa com choques eléctricos - os gritos que se seguiram ecoaram em toda a cadeia. Esta tortura repetiu-se, frequentemente, nos militares que estavam isolados no "comboio". Muitas vítimas conheceram o fuzilamento; os sobreviventes, em consequência dos maus-tratos, perderam a capacidade de erecção.

As torturas abriam golpes que perduravam no tempo. Não me refiro apenas àquelas feridas inscritas na carne, refiro-me àquelas que sobrevivem no carácter - pois é sabido, como o vêm lembrando os relatórios da Amnistia Internacional, que as torturas têm devastadoras consequências psicopatológicas.

Aviões B-26 americanos bombardeando depósitos de munições inimigas em Wonsan, Coreia do Norte, 1951.




Fuzileiros americanos avançando pela Coreia do Norte.




Tanque americano atira contra norte-coreanos (10 de Janeiro de 1952).


Para além das agressões, eram frequentes os interrogatórios ininterruptos, durante vários dias, até que o cansaço vencesse o discernimento - muitos comparavam este regime de tortura ao que se dizia acerca do calvário a que foram submetidos os prisioneiros de guerra americanos, e outros, na Coreia do Norte, em 1952.

No caso do inferno angolano, os efeitos da tortura eram prolongados nos atalhos da humilhação quotidiana. Quando as sessões de tortura eram ornadas com o macabro indecente, isso era permanentemente recordado sempre que os torturadores se cruzavam com as vítimas: assim as mulheres cujas vaginas tinham sido violentadas com canos de metralhadora, assim os homens cujo ânus tinha sido agredido por canetas e outros objectos igualmente adaptáveis ao flagelo. Estas eram também feridas abertas, por vezes mais graves que aquelas que os corpos semi-nus passeavam ao sol.


(...) Um terço, uma cruz e um presépio

Era o dia 18 de Março de 1978. As horas iam noite dentro. Os "conduzes" vieram buscar um preso a uma das celas - o destino era um desses interrogatórios de pancadaria (qualquer motivo podia sustentar o exercício da violência e do ódio). Entre as mãos o preso apertava um terço, vestígio indesmentível da sua religiosidade. O "inquisidor", de boa escola "revolucionária", não suportou a visão: "Mas que é isso de vires para aqui com o Cristo, seu traidor!". O preso justificou-se com o seu catolicismo, o que não impediu de ser penalizado como mais uns golpes.

Os motoristas do aparelho do poder eram fontes de informação proveitosas. Em meados de 1977 conheci um português que tinha exercido essas funções ao serviço de António Garcia. De entre as suas memórias destacava-se aquele episódio tecido na Caala, próximo do Huambo, que exaltou os fervores da população. Tratava-se de um grupo de faplas, deixando um rasto de provocações, insultos e outras violências. No curso destes desvarios, encontraram uma igreja rodeada de uma pequena multidão. Içaram as suas akas e desataram aos disparos sobre a cruz e o templo. O crucifixo desmoronou-se e caiu no chão. Os populares dispersaram-se e os militares gritaram a sua fanfarronice: "Matámos o Cristo, matámos o Cristo!". Alterados pelas emoções reentraram na viatura e partiram, com grande alarido. Não se sabe em que circunstâncias, mas é certo que, uns quilómetros à frente, acabaram por mergulhar nas águas do rio. A população que se deu conta do sinistro correu para o local, mas os militares tinham sido levados pela corrente. Afrontados pela violência daquele grupo, a população fez explodir o seu regozijo - depressa se começaram a ouvir ritmos de festa.

Refira-se que na Caala estava instalada uma guarnição muito odiada porque, para além de tudo o resto, contava com muitos cubanos. O povo, que já tinha sido agredido muitas vezes por causa do seu catolicismo (os cubanos diziam à boca cheia "mi cago en Cristo"), aproveitou o incidente para mostrar o seu descontentamento. E ele foi de tal forma visível que o comandante daquela unidade achou por bem fazer um comício para alardear a sua resolução: nunca mais incomodariam as populações por causa do seu cristianismo.






Por vezes a invenção coloria de novidade e contraste o cinzento dos horizontes da prisão. Foi o caso daquele Natal de 1979. Socorrendo-se de pedaços de papel de restos de embalagens de pasta de dentes, os mercenários ingleses e americanos moldaram várias figuras alusivas àquela época festiva. Mesmo sob a perplexidade e a desconfiança dos militares da guarnição, a obra tornou-se um lugar de visitação muito frequentado pelos presos.


(...) "Limpeza política"

Ao longo do itinerário que estamos a fazer tem-se tornado cada vez mais evidente a descomunalidade do regime de terror, em Angola, de Cabinda ao Cunene. Pode falar-se de uma autêntica geografia do terror, uma vez que as operações militares foram particularmente violentas em algumas regiões.

Note-se que o primeiro grande objectivo político do MPLA foi destruir os Movimentos que consigo negociaram a independência de Angola, seguindo a via de uma violenta estratégia de limpeza política. Desenvolveram-se campanhas à escala nacional com o fim de efectivar tal intento político. Juntos, a UNITA e a FNLA tinham em suas mãos cerca de 80% do território angolano. A área de implantação dos movimentos correspondia, precisamente, à geografia dos seus apoios. O MPLA só pôde fazer face a esta situação com o auxílio militar da URSS, de Cuba, e de outros países do pacto de Varsóvia. A revolta de 27 de Maio de 1977 é disso evidência. Toda a guarnição de Luanda se revoltou. Mas a intentona logo foi esmagada com o total apoio das forças de Fidel Castro.

Os crimes do MPLA só adensaram o ódio generalizado. O povo angolano recusava-se a trabalhar nos campos porque tinha de vender tudo ao governo que não pagava a tempo nem a preço justo. Por outro lado, pouco tempo e dinheiro sobravam depois de passar horas e dias nas filas tentando conseguir alguns bens essenciais Neste contexto, qualquer reclamação, qualquer grito de insatisfação de um angolano depressa se tornava uma traição.

O massacre que decorreu entre Setembro e Novembro de 1976 é, sem dúvida, um dos maiores crimes políticos da história de Angola. A operação, Tigre de seu nome, tinha como objectivo desmantelar a UNITA no Moxico e no Bié - operações semelhantes foram estendidas a outras regiões angolanas. Um contingente de vinte e cinco mil homens, helicanhões pilotados por alemães da RDA, Migs pilotados por soviéticos, alemães e cubanos, artilharia e tanques - arsenal apropriado ao extermínio indiscriminado - foram mobilizados para esta operação. As verdadeiras vítimas são as populações, pois só capturaram uns cinquenta guerrilheiros da UNITA. O MPLA sabia que estas populações davam guarida aos guerrilheiros da UNITA, pois muitos deles eram seus familiares.






Conhecendo os métodos das FAPLA, as populações fugiam para fora das aldeias e cidades. Mas o MPLA tinha alguns "truques na manga"; obrigava alguns nativos a tocar no tantã uma qualquer fórmula de chamamento, organizava comícios fictícios. Objectivo único: prender todos os homens, incluindo velhos e rapazes, As mulheres e as crianças eram então reunidas e levadas para as "aldeias da paz". Estas "aldeias" não passavam de campos de concentração situados nas proximidades das vilas. Os homens e rapazes, esses eram transportados para as cadeias das capitais de província e daí deslocados para os campos de café, como os do Cuanza Norte ou do Uíge. Os mais rebeldes tinham um tratamento "especial" nos campos da morte de São Nicolau ou da Sapu. Muitos conseguiram fugir para as matas, mas aí acabavam por viver em condições infrahumanas, sem roupa para se protegerem e subnutridos (41). Alguns camponeses anciãos foram acusados de serem guerreiros da UNITA e, apesar do protesto das populações, eram fuzilados publicamente em campos de futebol. Mas havia um grupo mais numeroso do que aquele dos prisioneiros, deslocados e fugidos: era o grupo dos simplesmente assassinados. Os testemunhos recolhidos da prisão apontavam para o número de 150 000 angolanos mortos no contexto desta acção repressiva sustentada por uma aliança firmada entre o MPLA e exércitos estrangeiros.

Estes angolanos eram apelidados pelo MPLA de contra-revolucionários, simplesmente porque, seguindo aquilo que é tradicional em África e à luz dos acordos de Alvor, escolheram o movimento que entre eles estava enraizado. A esta legítima opção respondeu o MPLA com uma política de "terra-queimada", prendendo, deslocando, queimando haveres. Desapareceu grande parte da população de Andulo, Camacupa, Catabola, Nhareia e outras.

A DISA tinha no Bié uma cadeia com 9 celas. Como não havia espaço suficiente, enviava muitos para a cadeia da comarca. Steiman contava-me que, entre Dezembro de 1977 e Janeiro de 1978, seriam uns 1000 presos, de entre os quais morreram 50, só nesse curto período.


Moxico: o terror concentrado

Quando na Província do Moxico começaram a aparecer, por todo o lado, cadáveres que denunciavam a morte violenta que os havia vitimado, os circuitos de vingança foram reactivados. Durante as três primeiras semanas de Junho de 1976, o território foi palco da mais sanguinária barbárie (como já foi referido, a chamada operação Tigre tinha como alvo principal desmantelar a UNITA no Moxico e no Bié). Foram mobilizados uns vinte e cinco mil homens. Angolanos recrutados noutras províncias e catangueses, com a colaboração de soviéticos, alemães e cubanos, apoiados por aviões a jacto, helicanhões, atacaram uma área vastíssima, com o objectivo de neutralizar a guerrilha da UNITA, acabando por dizimar as populações daquelas províncias: o chão coberto de cadáveres, as povoações destruídas (nas matas, os kimbos foram arrasados com a acusação de darem apoio aos guerrilheiros da UNITA). A situação tornou-se caótica. Grupos militarizados diversos "emboscavam-se" com frequência deixando atrás de si um rasto de sangue. Os comandantes militares, que estavam no Moxico, Manhinga e Dembo, revelavam-se incapazes de controlar a situação (42).

Armando Dembo, a mando de Neto, liderou uma nova vaga de violência que tinha como objectivo liquidar uma boa porção de "fraccionistas". Ao que parece estariam seleccionados uns vinte e quatro, mas Dembo acabou por mandar executar  umas seis dezenas. Esta violência acompanhou o regime de opressão generalizada que habitou Angola no pós 27 de Maio (43). A limpeza política, seguindo os interesses de Agostinho Neto, encontrou uma boa tradução no linguajar de Sapilinha, um dos responsáveis do MPLA no Moxico: "É só riquidar! É só riquidar!".


A situação no Moxico tornou-se explosiva, exigindo que Agostinho Neto fizesse deslocar de Luanda para aquele palco de chacinas uma comitiva militar de peso: Xietu (Vice-Ministro da Defesa), Fito, Jamba Ya Mina (Comissário Provincial do Bié). Viram-se, assim, envolvidos num fogo que eles próprios tinham ateado e não sabiam agora como apagar.

O Moxico foi, também, um destino de morte para "fraccionistas" condenados. Como já se referiu, eram penosas aquelas descrições das marchas que os torturados eram forçados a empreender, do edifício do antigo Liceu Paulo Dias de Novais para o Ministério da Defesa, exercícios de humilhação que exibiam homens torturados, os pés descalços, o tronco nu, as mãos atrás da nuca, visão angustiante de um fim que se anunciava.

Numa dessas marchas, alguns recém-chegados a São Paulo pelos finais de Maio de 1977 contavam que tinham visto Amadeu Azevedo Amaral, preso logo após o 27 de Maio de 1977, e que depois do tratamento de choque no Ministério da Defesa foi transferido para a Casa de Reclusão (este foi um dos poucos a quem, nestas circunstâncias, pouparam a vida).

Muitos destes militares foram mortos numa qualquer chana por ali perto. Outros beneficiaram de uma daquelas viagens nos aviões Boeing 737 para Luena (Moxico), cuja descrição não é senão uma tímida aproximação da realidade. Retiravam aos aviões todos os bancos e amarravam os presos às argolas que faziam parte do dispositivo que fixava as cadeiras (era necessário prevenir qualquer insurreição dentro do avião). Os aviões saíam do aeroporto de Luanda, da zona militar, na direcção de Luena.

O piloto português da TAAG António Praça, ainda hoje em actividade numa empresa de aviação, em Portugal, fez um destes voos no 737. Doía-lhe a memória daquele dia em que, quando tomava o seu lugar, ouviu uma voz familiar, mas distorcida pelo desespero: "Comandante Praça!... Sou eu". Reconheceu imediatamente aquele amigo de infância. "Diz à minha família que fiz esta viagem", pediu-lhe aquele amigo de longa data. Os militares armados que iam a bordo estavam atentos a todo e qualquer movimento - o piloto foi imediatamente advertido de que não poderia estabelecer qualquer comunicação com os presos.

Estas aeronavegações terão deslocado de Luanda para Luena cerca de dois mil e seiscentos prisioneiros - a quase totalidade conheceu a morte como destino.





(...) Angola sovietizada

Uma amizade com um preço elevado

No seu programa de implementação de um poder a ferro e fogo - perseguindo os estrangeiros, os jovens universitários, os quadros angolanos a trabalhar no exterior, sob a capa da reconstrução nacional, bem como vastos sectores da população angolana - o MPLA procurou agradar aos seus parceiros de conveniência. Esse é o contexto, por exemplo, daquele discurso de José Eduardo dos Santos, em Moscovo, no XXVI Congresso do Partido Soviético, realizado em Fevereiro de 1981:

Ao longo de 15 anos de luta libertadora e dos cinco de trabalho para o ressurgimento do país temos recebido constantemente o apoio e a ajuda da pátria de Lénin [...]. Permita-me camarada Leonid Ilitch Brejnev sublinhar especialmente a contribuição que nos é dada pelos valorosos internacionalistas cubanos que, ombro a ombro com os combatentes do MPLA sem regatear a vida marcham ao combate para que Angola possa salvaguardar a sua independência e dar início à construção da sociedade nova [...] Ao Partido Comunista de Cuba, a todo o povo cubano, encabeçado pelo querido camarada Fidel Castro, eu quero exprimir... desta elevada tribuna, os nossos profundos sentimentos de amizade, de solidariedade e gratidão [Pravda, 27.02.81].

O preço desta amizade parece ter sido elevado para o povo angolano. O poder do MPLA sustentou-se sobre uma política neocolonial que foi tornando o povo refém de uma "solidariedade" e de uma "gratidão" devastadoras. Numa nota do célebre The Kissinger Transcripts, os editores referem que a 12 de Novembro de 1975, estavam em Angola cerca de 60 conselheiros militares soviéticos. Na sua obra sobre a política expansionista de Fidel, Benemelis refere:

A aversão da população aos soviéticos é profunda pois o comportamento destes contribui para isso, sobretudo a sua descriminação racial, o seu isolamento em bairros e hotéis reservados, a sua ausência total no contacto com o resto da comunidade internacional no país. O centro das cidades novamente se povoa de estrangeiros e os angolanos mantêm-se nos seus musseques e quimbos. Os cubanos, soviéticos e alemães orientais ocupam vivendas e fazendas que haviam pertencido aos portugueses (44).









São muitos os testemunhos que permitem perceber que a presença de russos e cubanos no território angolano se tornara um fardo pesado, expressão de um neocolonialismo. Apesar de viverem em residências que lhes permitiam um certo isolamento do conjunto da sociedade angolana, os oficiais russos estavam presentes em todas as chefias militares e das regiões militares, e estavam presentes nas mais altas esferas políticas (45).

Sanga e Faria, que tinham com eles contactado, respectivamente, no comando de tropas e no curso de militares juristas (aqui eram já proverbiais as provocações que os alunos dirigiam aos técnicos russos), não calavam aquele sentimento negativo. Sanga conhecia bem o general Yury, que trabalhava permanentemente na Escola Gika (46), em Luanda - era um homem experiente em missões no exterior, pois, já anteriormente, tinha estado no Egipto, na Líbia e no Vietname. De acordo com alguns testemunhos, terá sido este o estratega da expulsão da FNLA do norte de Angola.


Memórias da URSS

Os pedaços de experiências contados por todos aqueles que haviam passado algum tempo de formação na URSS interessavam-me sobremaneira. Recordo as peripécias de que deu testemunho Didi que, com outros colegas da DISA, tinha estado em Moscovo num curso de formação na área da segurança, ministrado na KGB.

Didi falava de como puderam descobrir que os seus quartos estavam sob escuta segundo um sistema de vigilância rigoroso. Certo dia, comentaram entre si que os lençóis estavam muito sujos - há muito tempo que não eram mudados; no dia seguinte, receberam a visita da empregada como se aquele comentário tivesse sido imediatamente ouvido pela direcção da residência. Poderia ter sido coincidência, mas a reincidência dos acontecimentos, alguns dias depois, viria a dissipar qualquer dúvida: era indesmentível que os quartos tinham um qualquer sistema de escuta. Munidos de aparelho de rádio em FM, sem que estivesse sintonizado com qualquer posto emissor, no máximo do seu volume e com antena levantada no todo da sua extensão, percorreram as paredes do quarto. Descobriram então o sinal de vários aparelhos retransmissores, quer nas paredes quer em objectos como os candeeiros.

A partir desse momento, deixaram de passar tanto tempo nos seus aposentos, o que os levou a conhecer melhor algo do que Moscovo lhes poderia oferecer, para além da formação técnica. Foi numa dessas deambulações que encontraram, num amplo jardim, um "parque de diversões" - daqueles que têm várias bilheteiras para uma diversificada oferta de entretenimento. Compraram bilhetes para a sala de dança. Estava repleta de gente. Notaram alguma perplexidade por parte dos moscovitas e das moscovitas - não era vulgar terem por aqueles lugares grupos de africanos. Mas a festa e o entretimento acabam por derrubar alguns muros. Ficaram convencidos de que as raparigas moscovitas tinham gostado daqueles passos de dança que experimentaram com os africanos.

Foi esta convicção que os levou lá, de novo, alguns dias depois. O excesso de entusiasmo não lhes permitiu perceber que, enquanto dançavam, grande parte dos soviéticos havia abandonado a sala, e foi com o mesmo entusiasmo que ficaram com as suas parceiras de dança até ao encerramento da casa.


Quando saíram para a rua, encontraram uma grande comitiva de moscovitas zangados. Munidos de objectos vários, os moscovitas lançaram-se sobre eles numa carga de agressões tal que a única saída era tentar a fuga. E foi isso mesmo que os angolanos procuraram; mas um deles, já sob o efeito do álcool, não conseguiu acompanhar o ritmo nem a direcção da fuga. Viu-se obrigado, assim, a esconder-se o mais depressa possível - serviu-se da estação de metropolitano mais próxima. Entretanto, a direcção que tomou, quando entrou para dentro do comboio, não conduziria à zona da sua residência; quando saiu do metropolitano já estava a 80 km do centro de Moscovo.

Tinha começado, assim, uma noite de peregrinação sem norte, na procura de uma possibilidade de regresso. A impossibilidade de uma comunicação eficiente conduzia-o a lugares cada vez mais remotos. Encontrou, então, um coronel soviético que na troca impossível de gestos e palavras acabou por concluir que aquele angolano desejava ir para a terra natal de Lenine. A prolongada ausência do angolano chegou, é claro, ao conhecimento do KGB, que imediatamente destacou um grande número de agentes para lhe procurarem o rasto. Não deixaram o crédito por mãos alheias; era já madrugada quando devolveram à residência o angolano transviado.

Retalhos do quotidiano, como este, eram contados entre nós, não como se de anedotas se tratasse, mas como testemunho de uma certa imagem que muitos angolanos conservavam daquela potência neocolonial. Recordo, neste contexto, as expressões de indignação de Mendes de Carvalho que, integrado na comitiva presidencial, em 1977, visitou a URSS. Tinham sido deixados a 60 km de Moscovo sem qualquer transporte para aí se deslocarem, apenas podiam fazer as deslocações e os percursos que os próprios soviéticos deliberavam. Esta mesma indignação foi servida por Mendes de Carvalho a Agostinho Neto num banquete oficial, diante de todos os comensais. O amargo de boca e o embaraço não ficou por aqui, pois num dos anos que se seguiram, talvez 1981, Mendes de Carvalho foi passar férias aos EUA - onde chegou mesmo a visitar familiares de presos como o George Gause -, alegando que se fosse para a URSS apenas poderia ir para onde o levassem.

Entre os presos, aqueles jovens que tinham sido recambiados da URSS, de Cuba, da Roménia, entre outros países, havia uma lúcida consciência crítica acerca da realidade do neocolonialismo que se escondia por detrás do "internacionalismo proletário". Essa consciência tornava-se ainda mais amarga quando eram confrontados com a situação interna dessas nações-messias do comunismo. O comentário repetia-se: "São estes novos senhores que vêm fazer progredir Angola? Na casa deles vive-se pior do que aqui, antes de eles terem chegado!"






Os mesmos estudantes faziam eco de uma "catequese" que lhes enchia os ouvidos: o Ocidente imperialista seria destruído e todos os países socialistas seriam beneficiários das riquezas desses povos. Um desses estudantes referia-se explicitamente ao caso de uma escola russa que tinha um mapa indicando com clareza a geografia dos países socialistas e, por exclusão, a distribuição dos povos a serem vencidos, sob a mira do saque final. Esse mapa mostrava as conquistas do império comunista. Mas o olhar didáctico fixava-se nas riquezas do Ocidente não sovietizado, com a promessa de que um dia aquelas riquezas "seriam do povo".


Contestatários da intervenção cubana em Angola

A nível das altas patentes militares cubanas havia quem discordasse da intervenção cubana em Angola. Eis o caso de dois generais que ilustram essa discordância. O primeiro chamava-se Rafael del Pino. Como atrás referi, conheci-o na base aérea de Saurimo que por vezes se abastecia na Diamang, no Dundo.

Farto das loucuras de Fidel e da sua crueldade, este general, máximo responsável da força aérea cubana e segundo chefe do Estado Maior do Ministério da Defesa, na Primavera de 1987, apoderou-se de uma avioneta militar e, na companhia da esposa e dos seus três filhos, fugiu de Cuba, voando para Miami, nos Estados Unidos. Aí escreveu um livro, Proa a La Libertad, sobre a sua actividade como general, que é bem esclarecedor do extermínio em Angola.

O outro, também já por mim referido, chamava-se Arnaldo Ochoa e era o comandante supremo em Angola.

Perante a onda de destruição que avassalou este país, este general sugeriu a Fidel Castro que pusesse fim à missão militar em Angola, pois estava convencido de que os angolanos não queriam aquela guerra e que tão logo chegassem a um acordo os cubanos se veriam obrigados a sair de lá. A mesma opinião fez chegar a Raul Castro, que não só discordou como o intimou a cumprir até ao fim as ordens de Fidel. Como insistisse nas suas objecções àquela intervenção ordenaram-lhe, a ele e ao seu adjunto, General Patrício de La Guardia, que regressassem a Havana.

A hostilidade com que foi recebido prenunciava-lhe um futuro incerto. Ainda assim não fugiu de Cuba pois estava convencido de que tendo procedido correctamente, explanando, dentro dos preceitos militares e com toda a franqueza e frontalidade, a sua opinião, Fidel não o mandaria eliminar. Puro engano. Nem Fidel nem o seu irmão lhe perdoaram a ousadia de pôr em causa as suas ordens. Pouco depois da sua prisão, quando esperava ser libertado, o fuzilamento foi o preço da sua discordância. Melhor sorte teve o seu adjunto que acabou por ser libertado. O leitor interessado poderá confirmar o que aqui é dito lendo a este respeito a obra Fidel Castro - El Final del Camino, de Santiago Aroca...






Ainda sobre a tragédia angolana valerá a pena citar mais um passo da obra de Juan F. Benemelis, Castro - Subversão e Terrorismo em África (várias vezes referenciada neste meu livro, onde, na página 241, ele faz uma descrição da batalha de Quifandongo: [...] a unidade 3051 (do exército cubano) compunha-se de oficiais do exército regular e tropas reservistas. Para o caso destes eventualmente falharem no momento de disparar contra uma massa de civis (integrada por guerrilheiros mas, sobretudo, por mulheres e crianças) foi posto no comando de cada bateria um membro das tropas especiais.

A 19 de Setembro desembarcaram em Luanda as tropas cubanas a bordo do navio Almirante Sierra Maestra. Embora muitos dos homens tivessem sofrido enjoo durante toda a travessia puseram-nos de imediato atrás dos tanques T-34 e T-35 que deviam reforçar as defesas da capital, sem lhes dar tempo a recomporem-se. Por sua vez a infantaria começou a cavar trincheiras em redor da cidade. 

Os simpatizantes da FNLA nada podiam fazer. No dia seguinte, pelas dez da manhã, começou a ouvir-se o rufar dos tambores misturados com gritos e disparos isolados dos avançados cubanos. Uma enorme multidão corria, sem saber, os últimos metros que a separavam de uma morte segura. Sem lhes dar tempo para compreender o que acontecia, uma chuva de projécteis incendiários caiu sobre a multidão e produziu grandes clareiras nas suas fileiras. Simultaneamente, os tanques disparavam projécteis de fragmentação de tiro directo.

Os cadáveres caíam destroçados, praticamente partidos em dois pelos disparos dos tanques soviéticos que os faziam saltar pelo ar. Presa de pânico, aquela massa humana retrocedia como podia, deixando atrás de si um caminho coberto de cadáveres. A cerca de dois quilómetros começou a ouvir-se por cima das suas cabeças o sibilar dos mísseis de 122 mm, seguido de uma série interminável de explosões que acompanhavam a sua fuga ao longo de 20 quilómetros. Os aviões de reconhecimento permitiam ajustar os tiros indirectos e, para o cúmulo dos horrores, os MiG-21 desciam em picada e disparavam contra os fugitivos como se fossem coelhos.





Angola como país invasor

Para um ocidental como eu, ido para Angola para trabalhar naquela que foi, durante anos, a maior companhia daquele território, a cuja competência estava subordinado o equipamento aéreo, constituído por aviões próprios e arrendados a uma empresa canadiana que ao serviço da companhia voavam dentro de Angola e para vários países estrangeiros, sempre em missões de abastecimento, foi um verdadeiro mundo de surpresas aquele que se me deparou.

Em primeiro lugar por ver que Angola, após a independência, pelo braço do MPLA, se transformara num país invasor. Com excepção da Namíbia, quase todos os outros países começavam a ser invadidos.

À boa maneira hitleriana principiaram essas invasões pela ocupação de S. Tomé e Príncipe que, para maior agravamento, foi coadjuvada pelas forças militares soviéticas e cubanas. Seguiu-se o Congo Kinshasa que por três vezes foi alvo desse intento. Duas em que Angola o invadiu com o auxílio dos cubanos - invasões que se saldaram pela expulsão dos ocupantes graças à acção dos países amigos do presidente Mobutu; e uma em que Angola colaborou com outros países para invadir novamente o Congo, substituir todos os seus orgãos de soberania, nomeadamente o presidente Mobutu que foi expulso e substituído por outro presidente da confiança do MPLA.

Esta terceira invasão teve consequências trágicas para o Congo já que se traduziu na perda de milhões de cidadãos nos anos de total anarquia que decorreram até ser recuperado, em eleições recentes, uma vida que se espera democrática e duradoura.

o Congo Brazaville também não escapou a esse tipo de intromissão violenta tendo sido invadido pelas forças militares angolanas e visto os seus orgãos legítimos, presidente e governo, serem substituídos por outros, congoleses, da simpatia totalitária do MPLA.

Como é óbvio todas as intromissões se mantinham escondidas na política do MPLA.


Crimes de guerra contra a humanidade

Desde os primeiros meses que, devido às minhas frequentes viagens aéreas dentro de Angola e do contacto com as povoações, me fui apercebendo de que a vida humana em Angola não era respeitada. Havia mortos e desaparecidos por todo o lado.

Bem cedo me dei conta de que só em Quifandongo teriam sido eliminados milhares de angolanos pelos soviéticos e pelas forças afectas ao MPLA. A cidade de Luanda, durante os dois dias anteriores à independência, ouviu imensos estrondos provenientes de bombas disparadas para os lados de Quifandongo e viu múltiplos jeeps, com cubanos negros, atravessarem Luanda a caminho do Hotel Presidente. Ocupado pelo MPLA este hotel iria servir para alojar uma parte dos 7000 cubanos que já se encontravam em Luanda.



Ver 1 e 2



Avenida Marginal, Luanda (1970). Ver aqui



Depois do movimento de libertação mais antigo e internacionalmente conhecido, que iniciou a luta contra o colonialismo, Quifandongo, que com a UNITA representava 80% das etnias do povo angolano, seria a grande vítima dessa repressão vendo o seu solo imerso num imenso mar de sangue dos seus naturais, mulheres e crianças incluídas.

Outro drama, ainda maior do que esse, estava porém para surgir na província do Moxico. Com uma área de cerca de 200.000 quilómetros quadrados, área semelhante a metade da área do Japão, essa província iria ser vítima de uma das maiores devastações da história do mundo.

Estando eu no Dundo tive conhecimento de que o MPLA levara a cabo nesta província uma operação militar denominada Operação Tigre, em que predominavam as forças armadas cubanas, soviéticas e outras, com o objectivo de a destruir.

A minha presença nessa região devia-se ao facto de ter sido nomeado pela minha Administração para receber uma comissão militar do MPLA que no Dundo vinha exigir o empréstimo de material circulante e outro muito diverso e importante para uma missão secreta no Moxico. A Administração entregou o que pôde e, tempos depois, soubemos que aquela enorme área tinha sido objecto de uma total destruição acerca da qual pouco se sabia dado que o MPLA a classificou como uma "área interdita". Só muitos meses mais tarde soubemos o que aconteceu. Que a quase totalidade das grandes áreas daquela província tinham sido incineradas bem como as suas populações cujo número se estimava em cerca de 50.000/60.000. É que tudo havia obedecido ao objectivo de fazer desaparecer para sempre, sem deixar o mínimo vestígio, todas as povoações: habitações, animais e tudo quanto tivesse vida ou pudesse servir de testemunho vindouro.

Refiro-me a este extermínio por o considerar como um dos maiores crimes de guerra e contra a humanidade que se cometeram neste planeta nestes últimos trinta anos e por achar que ele exige, a nível internacional, um inquérito exaustivo não só para julgar e punir os responsáveis que ainda forem vivos como também para saber onde estão essas povoações destruídas que existiam à data da independência.

Além de que algumas das pessoas que comigo falaram acerca desta tragédia, como os governadores do Kuanza Norte, António Gaspar da Conceição - com quem muito falei até ele ser fuzilado -, e do Bié, Jamba Ya Mina, me disseram que efectivamente houve dos cubanos (o General Rafael del Pino terá tomado parte nessa carnificina) e soviéticos uma acção de verdadeira destruição das habitações e populações que aí existiam antes da independência. Acções cujo único móbil era destruir todas as populações desta província que não eram da simpatia do MPLA.

Da esquerda para a direita: general Arnaldo Ochoa, general Senén Casas, Fidel Castro, general Rafael del Pino, o general chileno Anaya Castro  e Victor Drake.


Embora as três províncias, Moxico, Huambo, Bié, tenham sido também profundamente atacadas e o saldo de duas delas se cifre em 100.000 mortos, como expressamente referiu o governador do Bié, cuja província esteve ocupada pelo mesmo exército da Operação Tigre, nenhum acto de destruição se pode comparar ao da província de Moxico.

Os dois governadores acima citados disseram-me que, entre outros graves aspectos, havia que investigar o que teria sido feito dos ossos de todas as populações dizimadas. Tê-los-iam levado para outro local? Ou terão, o que se afigura mais provável, sido enterrados? Neste caso a investigação irá descobrir onde estiveram todas as povoações e populações destruídas. Porque o Moxico pode ser descoberto pelo índice dos anuários que se publicavam no tempo colonial (edições ABC). Através delas se poderá saber onde existiam efectivamente, nessa época, essas populações.

Moxico tem também outro problema para investigar. É do nosso conhecimento que foram destacados para o Moxico, em aviões da TAAG, cerca de 2.500 presos, conotados com o 27 de Maio, que na sua maioria foram mortos e enterrados numa vala que teria umas centenas de metros de comprimento. Tal foi, aliás, afirmado na prisão de S. Paulo, por um dos seus últimos responsáveis, que se gabava de ter matado uma boa parte deles. Também aqui se impõe uma profunda investigação a fim de se ficar a saber quantas pessoas foram mortas no semestre posterior à independência de Angola e, depois, a seguir ao 27 de Maio. Reclama-o a verdade e muitas famílias que ainda não sabem onde param os corpos dos seus parentes (in ob. cit, pp. 170-183; 242; 273-277; 351-358).


Notas:

(34) Estivera na caserna C de São Paulo e fora transferido posteriormente para a Kibala.

(35) Eu tinha contactado com este Vicente no Dundo.

(36) Tinha sido mandado para a Kibala sem culpa formada. Lá permaneceu cento e vinte dias. Em virtude de pressões internacionais, incluindo a imprensa de Lisboa, veio a ser julgado e absolvido pelo Tribunal Popular Revolucionário, mas depois de dois anos de prisão.

(37) Estes alimentos que, em certas ocasiões, os presos possuíam eram cozinhados num fogão a lenha também conhecido na Casa de Reclusão e em São Paulo. Tal fogão era assim engendrado: marcava-se, na parte superior de uma lata, com um prego e um cordel, um círculo. Em seguida, cortava-se pela linha do círculo, não esquecendo uma abertura lateral para entrada do ar. Depois, era necessário soldar, na parte superior, uma outra lata. E estava o fogão pronto. A lenha obtinha-se a partir de caixotes desaproveitados, de ramos secos e outras pequenas peças de madeira.






(38) Capim designa um conjunto de plantas forraginosas, com uma variedade muito grande, que em Angola apenas os animais comem.

(39) Existia um outro preso, esse negro, com o mesmo nome.

(40) Na Casa de Reclusão estavam vários portugueses: Joaquim Manuel dos Santos Brizida, Fernando Nunes Maria, Gilberto Almeida Ribeiro, Manuel Moreira Garcez, Manuel Pires da Mota, António João Pires.

(41) Estas fugas para a mata eram frequentes. Numa batida feita pelo MPLA, nos primeiros meses de 1980, foram encontrados cerca de cinquenta mil angolanos que haviam fugido em virtude das constantes perseguições.

(42) Os comissários de Benguela, Cuanza Sul e Malange, presos em São Paulo, falavam de um resultado vergonhoso: cento e cinquenta mil mortos.

(43) A consciência do holocausto angolano tem-se erguido timidamente, mas começa a lançar os seus sinais. Numa carta aberta dirigida ao Presidente da República Angolana, no Público de 27.05.03, um grupo de angolanos reivindicava a construção de um memorial, que recordasse a vida daqueles que foram sumariamente executados e assassinados em 1977 e 1978, e o sofrimento de tantos que sobreviveram mas transportam dentro de si os traços de uma reclusão violenta e injustificável e foram, depois, em alguns casos, obrigados a viver no exílio.

(44) Juan Benemelis, Castro, subversão e terrorismo em África, Europress, 1986, 264.

(45) Estava-se num período em que se expandia ainda a política dos "dois blocos". Grande parte da humanidade viu nas promessas comunistas, representadas por um dos blocos, a redenção possível. Mário Soares descreveu essa ilusão com argúcia: "A Revolução, com R grande, revolução comunista dos amanhãs que cantam como a suprema utopia que anunciou a igualdade entre os humanos e a libertação das pessoas dos constrangimentos impostos pelo exterior, atraiu e mobilizou milhões de seres humanos em todo o Planeta - revoltados, famintos de pão e de justiça, generosos, idealistas - que por ela se sacrificaram, combateram e frequentemente morreram. Foi um fenómeno universal, quase uma nova religião anunciadora da felicidade na Terra, um colossal embuste, como se viu depois, em função das odiosas realidades a que se deu origem em toda a parte em que se implantou. Alastrou por três continentes, durante mais de 70 anos (1917/89) e aluiu por dentro, numa espécie de implosão incontrolável", Expresso, 30.12.98.

(46) Tratava-se de uma escola de formação militar.




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