quarta-feira, 8 de abril de 2015

Arte, a Dianteira

Escrito por José de Almada Negreiros






«Arte vem do latim ars, artis. É uma raiz na língua latina. É natural que venha também do grego. A etimologia desconhece-lhe a procedência.

Temos pois que seguir por outro caminho. Vamos, por exemplo, às palavras compostas com a raiz latina Arte. E temos imediatamente artelho, articular, artificial, isto é, palavras que designam não só o movimento como também o próprio fornecimento do movimento. Além disto, encontramos também a palavra inerte que quer dizer «sem movimento» ou à letra: sem arte.

E a seguir aparece-nos o mais extraordinário destes exemplos, a palavra artilharia. Extraordinário porque é anterior à invenção da pólvora e dos canhões. Mas incomparavelmente mais anterior do que possa imaginar-se. E nesse caso o que significava então artilharia? Exactamente isto: o poder do engenho, a força do artifício.

E ficamos sabendo então o que quer dizer Arte através destas palavras que são suas filhas legítimas.

Mas onde está a ligação da palavra latina Arte com a palavra grega architekton? Vai agora:

Não será Arte uma palavra feita com a primeira sílaba de cada uma das duas palavras que foram a palavra architekton? Ar de archos e te de tekton?

Se o não é, ainda ninguém disse que não o era, pela simples razão de que ninguém propôs até hoje, que fosse desta maneira que dizemos, agora, aqui, pela primeira vez.

Ligadas que ficam estas duas palavras Arte e architekton, salta aos olhos da cara uma única conclusão:

Architekton significa o operário-chefe da colectividade. Arte não pode deixar de ser a própria cabeça da colectividade.

E é o que é: Arte é a cabeça da colectividade.

(...) Nesta hora do mundo e na qual são impossíveis quaisquer iniciativas dos particulares, em que o Estado é por isso mesmo e por direito próprio o único capitalista do capital da colectividade, é ao Estado a quem compete atender à sorte dos indivíduos da sua colectividade e que ele representa.

Não estamos a mostrar mazelas do Estado nem a pedir asilo ou esmola para indigentes. Não! Conhecemos sem rancor, sem queixas nem delírios o que acontece exactamente com a colectividade portuguesa e cada um dos seus indivíduos. As faltas da colectividade portuguesa para com os seus indivíduos são as mesmas que as destes indivíduos para com a sua colectividade. Absolutamente as mesmas de parte a parte. O fiel da balança marca zero, inutilmente: são iguais as faltas onde deviam estar apenas os valores.

Mas, os imediatamente mais prejudicados são, claro está, os indivíduos. Nós todos, portugueses, um por um, estamos expiando hoje essas faltas duma e dos outros.

Nas recentes entrevistas de Salazar com o Diário de Notícias há uma frase sua onde diz: «Nem a colectividade pode prescindir do indivíduo, nem o indivíduo pode prescindir da colectividade». É o conhecimento exacto de como funciona a máquina social. Ninguém pode estar em desacordo com isto. E nós ainda menos do que ninguém, pois cremos ter sido os primeiros a escrever e a proferir publicamente essa mesma frase, com as mesmas palavras, na nossa conferência Direcção Única, em Lisboa e Coimbra, Maio passado.




Estas coincidências que muito nos honram vêm confirmar que o Estado em Portugal conhece finalmente o seu verdadeiro posto de intermediário entre a colectividade portuguesa e cada um dos seus indivíduos».

Mestre Almada Negreiros («Arte e Artistas. II e III partes»).



ARTE, A DIANTEIRA


PÍNDARO


«VÓS SOIS DEUSES»

NÚMERO

Número = Númen


Primeiro captámos o Todo.

O arquétipo primeiro é o sagrado.

Sagrado não tem plural, tem singularidades: Artes, Religiões.

O único Absoluto é o Sagrado e suas aparências primeiras Arte e Religião.


ANTIGUIDADE PRIMEIRA

Templo de Poseidon (Grécia).

Humanidade é incomparavelmente mais antiga do que sabemos.

Quanto mais sabemos mais nos afastamos da fronteira Pré-História - História.

O milagre Grego: depois das civilizações faltava a universal.

Europa é nome mitológico.

Europa é a Dianteira da civilização universal.


MITOLOGIA É A ANTERIORIDADE DE HISTÓRIA


Histórico não elimina o mitológico, revive-o, isto é, tem pela segunda vez a virtude da mónada. Do mesmo modo, o lógico não elimina o pré-lógico. Pelo contrário, a única constante é o pré-lógico, a Mónada, o Uno, o Todo, o uno e o múltiplo do Todo, ao passo que lógico pretende ser o modo mesmo da constante do Todo.

Ficam então duas versões da unidade: a da Mónada e a da lógica.

No significado de enteléquia diz Aristóteles estas duas versões:

«O conhecimento que pode fazer ciência e a observação que conhece».

Isto é, com ciência ou sem ela, o que importa é conhecer.

Há, por conseguinte, conhecimento anterior a ciência, e mais, conhecimento que não passa por esta.

Assim é que Aristóteles dá esta definição de unidade:

«Unidade, isto é, o ponto não-espacial».

A ciência é espacial.

A seguir, ainda Aristóteles, e para que se veja ser movimento a sua definição da unidade, diz:

«O desigual, isto é, o relativo».

Aristóteles

TEKNÉ


Palavra grega designando ao mesmo tempo Arte e Ciência.

E não havendo palavra grega apenas para Arte ou apenas para Ciência.

Evidentemente há conhecimento que antecede Ciência, pois há conhecimento que pode fazer ciência. E também há acto de conhecimento que não passa por ciência. De modo que, na mesma palavra Tekné, Arte não pode deixar de ser como conhecimento a anterioridade mesma que pode ou não fazer Ciência. De ambos modos é anterioridade a esta. Porque Ciência não pode produzir artes. Arte é «conhecimento de nascença». Não se aprende, não se ensina. É o nosso élan vital pessoal. Ou se desoculta ou morre sem contemporização possível.

Ao passo que ciência, ou melhor, o espírito científico contemporiza fomentando técnicas imediatas suficientemente duradoiras para simular o da plenitude pessoal.

Enquanto que Arte é o recheio mesmo duma plenitude pessoal. Nascemos com o nosso recheio.

Não pode portanto Ciência ficar limitada pelo lógico demonstrável. Ciência excede o demonstrável. Ciência é palavra neutra que não tem fim senão de gente, e se este fim significa reabilitação de paraíso ou de idade d'oiro, esta reabilitação implica transmutação total de seres humanos esquecidos ou desviados das suas natais capacidades.

Estamos aqui talvez na causa de gregos não separarem em duas palavras o da Arte e o da Ciência. São dois os modos do conhecimento que é um, os do tu-cá-tu-lá com o sagrado:

Um que antecede Ciência e a excede sem passar pelos seus chamados modos científicos, ou o de ciência que é ultrapassar-se constantemente, perenemente, perpetuamente, até o seu fim ser o homem mesmo, este mesmo o espelho mesmo do sagrado, senão o sagrado mesmo.

Oráculo de Delfos

A Sibila de Delfos, de Michelangelo

Arte e Ciência, Religião e Mitologia nascem comuns aparências do sagrado.

Mas qual seja destas aparências a que nos marque sina, nós somos também veículo do sagrado.

Os gregos tinham palavra própria para designar este nosso modo meramente pessoal da nossa voz.

Essa palavra era a que hoje chamamos Poesia.

E por então ela não corria perigo de a confundirmos com a lógica Poética, a qual lhe estava inconcebivelmente posterior e outra.

Poesia é pujança da nascença pessoal.

Nasce-se Poeta. Todos. Cada um.

Que a ninguém se lhe tire a sua única via, a via pessoal, a sua Poesia, a sua voz, a sua vocação.

«O menino segue sempre pela primeira via até envelhecer» (Salomão)

A primeira via: a vocação.

Não deve haver palavra de sentido mais completamente perdido que a de vocação. Vocação é o intransmissível secreto de cada um conhecer tudo sem que lho ensinem.

Os Gregos, ao perpetuar os dados da sua civilização universal, dispuseram-nos de modo que nada e ninguém interviessem na vocação natal.

Dissemos dados, no plural. Deve-se pôr o singular, dado. O único dado para a civilização e cultura universais: não tocar na vocação pessoal.

Que nem o próprio toque na sua vocação pessoal.

A vocação é sagrada. Tanto como o sagrado.

Não há mais sagrado nem menos sagrado. Há sagrado. Não se lhe toca. Temos sagrado connosco, em cada um e em todos. Nascemos Poesia.

É depois da Poesia que vem o jogo, as recreações da Tekné, Arte e Ciência (in Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, pp. 320-323).










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