domingo, 8 de dezembro de 2013

Regresso ao Admirável Mundo Novo (ii)

Escrito por Aldous Huxley




«Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico».

Álvaro Ribeiro («George Orwell, 1984 ou a verdade ao alcance das mãos», in prefácio a 1984, trad. port. de Paulo Santa Rita, 1955).


«Nos nossos dias, a utopia não deixou de ser cultivada, mas é significativo que, em vez de advogar a instauração do comunismo, se dedique precisamente a mostrar a relação que há entre ele e o industrialismo e a suscitar a sua mais extreme condenação. É o que acontece nas utopias de A. Huxley e G. Orwell, O Admirável Mundo Novo e 1984».

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»).


«Na educação das crianças [em Esparta] tinha-se principalmente em vista formar soldados obedientes, sofredores, ágeis e robustos. A criança que nascia doentia ou disforme era barbaramente precipitada das rochas do Taígeto, como inútil à pátria. As crianças que os magistrados julgavam dignas da vida, por serem robustas, eram desde tenra idade submetidas a um regime próprio para as acostumar ao trabalho e torná-las insensíveis à dor.

O espírito guerreiro predominava tanto nas instituições de Licurgo, que até as estátuas dos deuses estavam armadas. O culto de Ares (Marte), deus da guerra, tornou-se por vezes tão cruel, que chegaram a imolar-lhe vítimas humanas. Uma das orações que os espartanos dirigiam aos deuses era concebida nestes termos: Dai-nos um espírito são num corpo são».

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal»).







«Ao ritmo de crescimento que prevaleceu entre o nascimento de Cristo e a morte da rainha Isabel I, foram necessários dezasseis séculos para que a população da terra duplicasse. No ritmo presente, a população mundial duplicará em menos de meio século. E esta duplicação fantasticamente rápida do número de seres humanos ocorrerá num planeta cujas áreas mais procuradas e produtivas já estão densamente povoadas, cujos solos estão a ser desgastados por esforços frenéticos de maus agricultores, com a finalidade de obterem mais alimento, e cujo capital de minerais facilmente utilizáveis está a ser dissipado com a extravagância estouvada de um marinheiro embriagado que se despoja rapidamente dos salários que acumulou.

(...) Nesta segunda metade do século XX, nada fazemos com carácter sistemático pela nossa procriação; mas, com o nosso modo ocasional e irregular, estamos não somente a superpovoar o nosso planeta, mas também, parece, procedendo seguramente para que estas massas de população cada vez maiores, sejam da mais pobre qualidade biológica. Nos maus dias de outrora, as crianças com defeitos hereditários consideráveis, ou até leves, raramente sobreviviam. Hoje, graças à higiene, à farmacologia moderna e à consciência social, muitas das crianças nascidas com defeitos hereditários atingem a maturidade e multiplicam a sua espécie. Sob as condições actualmente vigentes, cada avanço na medicina tenderá a ser superado por um avanço correspondente no ritmo de sobrevivência dos indivíduos atingidos por qualquer insuficiência genética. A despeito das novas drogas milagreiras e dos melhores tratamentos (de facto, em certo sentido, precisamente devido a estas coisas), a saúde física da população, em geral, não mostrará qualquer melhoria, e poderá piorar. E a par com um declínio da saúde média bem pode ir um declínio na inteligência média. Na verdade, algumas autoridades competentes estão convencidas de que tal declínio já ocorreu e está a continuar.

(...) Ajudar os desafortunados é obviamente bom. Mas, a transmissão maciça, aos nossos descendentes, dos resultados das mutações desfavoráveis, e a contaminação progressiva da reserva genética de que os membros da nossa espécie terão de beber, não é menos obviamente mau. Estamos nas pontas de um dilema ético, e para acharmos a via média é necessária toda a nossa inteligência e toda a nossa boa vontade.

(...) O caminho mais curto e mais largo em direcção ao pesadelo do Admirável Mundo Novo passa, como já indicámos, através da superpopulação e do aumento acelerado do número total de seres humanos - dois mil e oitocentos milhões hoje, cinco mil e quinhentos milhões no dobrar do século, com a maior parte da humanidade encarando a escolha entre a anarquia e o controlo totalitário. Mas a pressão crescente do número de seres humanos sobre os recursos disponíveis não é a única força que nos impele na direcção do totalitarismo. Este cego inimigo biológico da liberdade é aliado com forças muitíssimo poderosas, geradas precisamente pelos progressos efectuados no campo da tecnologia, de que mais nos orgulhamos. De que nos orgulhamos justificadamente, pode acrescentar-se; porque estes avanços são os frutos do génio, e do áspero trabalho persistente, da lógica, da imaginação, do sacrifício - numa palavra, de virtudes morais e intelectuais pelas quais se não pode ter senão admiração. Mas a Natureza das Coisas é tal que ninguém neste mundo pode atingir coisa alguma sem dar algo em troca. (...) Muitos historiadores, muitos sociólogos e psicólogos escreveram longamente, e com profunda aflição, acerca do preço por que o homem do Ocidente tem de pagar e continuará a pagar o progresso técnico. Eles sublinham, por exemplo, que pouca esperança se pode ter em que a democracia floresça em sociedades onde o poder económico e político está a ser progressivamente concentrado e centralizado.

(...) O auto-governo está na razão inversa do quantitativo de seres humanos. Quanto mais numeroso for o eleitorado, menor é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um entre milhões, o indivíduo eleitor sente-se uma quantidade irrelevante e impotente. Os candidatos em quem votou estão muito longe, no topo da pirâmide do poder. Teoricamente são os servidores do povo; mas, de facto, são os servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base distante da grande pirâmide, que deve obedecer. O aumento do número da população e os progressos da tecnologia resultaram num aumento do número e da complexidade das organizações, num aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos dirigentes, e numa diminuição correspondente da intensidade do controle exercido pelos eleitores, do mesmo passo que se dá uma diminuição do interesse do público pelos processos democráticos. Já enfraquecidas por vastas forças impessoais que operam no mundo moderno, as instituições democráticas estão a ser agora interiormente minadas pelos políticos e pelos seus propagandistas».

Aldous Huxley («Regresso ao Admirável Mundo Novo»).


«Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual é a importância do tema do respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos últimos tempos, está a assumir uma relevância sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza e desenvolvimento às questões relacionadas com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo é de várias maneiras impedido.


Papa João Paulo II


Não só a situação de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regiões, mas perduram também, em várias partes do mundo, práticas de controlo demográfico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracepção e chegam a impor o aborto. Nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural. Também algumas organizações não governamentais trabalham activamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas sanitárias que realmente implicam a imposição de um forte controlo dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico.

A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento de uma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca...».

Carta Encíclica CARITAS IN VERITATE de Sua Santidade Bento XVI aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos fiéis leigos e a todos os homens de boa vontade sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.




Persuasão subconsciente

Numa nota de roda-pé inserta na edição de 1919 do seu livro A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que havia publicado recentemente um artigo onde descrevia as suas experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um instrumento que se apresenta sob duas formas - uma espécie de caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fracção de segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com obturador ultra-rápido que pode projectar, pelo espaço de uns segundos, uma imagem sobre uma tela). Nestas experiências, «Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que tinham notado conscientemente de uma imagem que fora exposta à vista deles no taquistoscópio... Depois chamava-lhes a atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite seguinte e pedia-lhes mais uma vez, que desenhassem aquilo de que se lembrassem. Os resultados mostravam, inequivocamente, que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido notados pelo paciente, forneciam os elementos da construção do sonho».




Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente, pelo dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o problema dos sonhos e «a percepção preconsciente», no Journal of the American Psychoanalitic Association. Entretanto, os psicologistas clássicos não ficaram inactivos. Confirmando as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as pessoas vêem e ouvem de facto muito mais coisas do que aquelas de que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e ouvem, sem que o saibam, é recordado pelo subconsciente, e pode afectar os pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes delas.

A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e finalmente tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber torna-se em poder, as fórmulas e os experimentos de laboratório sofrem uma metamorfose, e emergem como a bomba H. No presente, o belo fragmento de ciência pura descoberto no campo da percepção pré-consciente, retiveram a sua prístina pureza durante um lapso de tempo surpreendemente longo. Depois, em começos do Outono de 1957, exactamente quarenta anos depois da publicação do primeiros artigos de Poetzl, anunciou-se que a pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido aplicadas, haviam entrado no reino da tecnologia. A revelação fez considerável sensação, e em todo o mundo civilizado se falou e escreveu acerca disso. E não é para admirar; porque a nova técnica de «projecção subliminal», como lhe chamaram, estava intimamente associada com a distracção das massas, e na vida do ser humano civilizado a distracção das massas desempenha agora um papel comparável ao que foi desempenhado pela religião na Idade Média. Têm sido dados vários apelidos à nossa época - a Idade da Ansiedade, a Idade Atómica, a Idade do Espaço. Poder-se-ia chamar-lhe, com igual propriedade, a Idade do vício da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Gira-Disco. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projecção subliminal não podia deixar de despertar o mais intenso interesse entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a nova técnica era-lhes directamente dirigida, e o seu objectivo era a manipulação dos seus espíritos sem que eles pudessem suspeitar do que lhes estava a ser feito. Por meio de taquistoscópios especialmente concebidos, seriam projectadas palavras ou imagens durante um milionésimo de segundo ou menos, sobre as telas dos aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem depois) o programa. «Bebam Coca-Cola» ou «Fume Camel» seriam projectadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe amargurada, e os nervos ópticos dos espectadores recolheriam estas mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e, na devida altura, teriam o desejo consciente de coca-cola e do cigarro. E entretanto outras mensagens secretas seriam retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como «Querida, amo-te»; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos incrivelmente sensíveis, registariam a boa notícia a desodorizantes e a laxantes.

Este género de propaganda comercial é realmente eficaz? Os dados trazidos pela empresa comercial que usou, pela primeira vez, um processo de projecção subliminal são vagos e, de um ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a intervalos regulares durante a exibição de um filme num cinema, a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de cinquenta por cento, a venda de milho torrado durante o intervalo. Mas uma só experiência prova muito pouco. Além disso, esta experiência particular tinha sido mal montada. Não havia controle e não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras variáveis que indubitavelmente afectam o consumo do milho torrado por uma assistência num cinema. E, além disso, era esta a maneira mais eficaz de aplicar o conhecimento acumulado havia alguns anos pelos investigadores científicos da percepção subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a mera projecção do nome de um produto e a ordem de o comprar fossem bastantes para quebrar a resistência à compra e recrutar novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é evidentemente negativa. Mas isto não significa, talvez, que as descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não tenham qualquer importância prática. Habilmente aplicado, o bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode muito bem tornar-se num instrumento poderoso de manipulação de espíritos desprevenidos.




Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, desviemo-nos dos vendedores de milho torrado para aqueles que, com menos barulho mas com maior imaginação e melhores métodos, fizeram experiências no mesmo domínio. Na Inglaterra, onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os investigadores sublinharam a importância prática de criarem as condições psicológicas adequadas à persuasão subconsciente. Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais susceptível de ser eficaz se aquele que a recebe está num estado de ligeira hipnose, sob a influência de certas drogas, ou se encontra debilitado pela doença, pela inanição ou não importa que tensão psíquica ou moral. Mas o que é verdadeiro para sugestões feitas acima do limiar de consciência é também verdade em relação a sugestões feitas abaixo deste limiar. Numa palavra, quanto mais inferior for o nível psicológico de uma pessoa, tanto maior será a eficácia das sugestões estrombonicalmente injectadas. O ditador científico de amanhã estabelecerá as suas máquinas de transmitir mensagens secretas e os seus projectores subliminais nas escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente sugestionáveis), e em todos os lugares públicos onde os auditórios possam receber um amaciamento preliminar por intermédio de um discurso ou de rituais que aumentam a sugestibilidade.

Das condições sob as quais podemos esperar que a sugestão subliminal seja eficaz passamos agora à própria sugestão. Em que termos deverá dirigir-se o propagandista ao subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens directas («Compre milho torrado» ou «Vote em Jones») e afirmações peremptórias («O Socialismo cheira mal» ou «A pasta de dentes X suprime o mau hálito») só terão provavelmente efeito naqueles espíritos que já são por Jones e pelo milho torrado, já despertos para os perigos dos odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de produção. Mas para fortalecer a fé existente não basta isto; o propagandista, se é digno desse nome, deve criar nova fé, deve saber como levar o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve ser capaz de amolecer e até de convencer os que lhe são hostis. À asserção subliminal e à ordem, deve acrescentar a persuasão subliminal.

Acima do limiar de consciência, um dos métodos mais eficazes da persuasão não-racional é o que pode chamar-se persuasão «por associação». O propagandista associa arbitrariamente o seu produto escolhido, ou o seu candidato ou a sua causa com uma ideia, uma imagem de uma pessoa ou de uma coisa, que muita gente, de uma dada cultura, considera indiscutivelmente um bem. Assim, numa campanha de vendas, a beleza feminina pode ser arbitrariamente associada com qualquer coisa, desde o «bulldozer» até um diurético, numa campanha política o patriotismo pode ser associado com qualquer causa desde a segregação até à integração, e com qualquer género de pessoa, desde Mahatma Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América Central, observei um exemplo de persuasão por associação que me encheu de admiração aterrada pelos homens que a imaginavam. Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas são os calendários coloridos gratuitamente distribuídos pelas companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos Índios. Os americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades seminuas sobre os seus calendários; mas para os indígenas, os cães não passam de objectos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram de ver todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem nenhum interesse, talvez até um pouco repugnantes. Por consequência, os calendários americanos tinham muito menos sucesso do que os calendários alemães, porque os anunciantes germânicos haviam tido o cuidado de procurar o que os Índios apreciavam, o que lhes interessava, e lembro-me em particular de uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da imagem, via-se a marca familiar sobre o familiar tubo de comprimidos brancos. Por cima, nada de paisagens nevadas ou florestas no Outono, cães felpudos ou de beldades despidas. Não - os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro extremamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria, de um sortido de santos e de revoadas de anjos. As virtudes miraculosas do ácido acetil-salicílico eram garantidas deste modo, nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo Deus Pai e por toda a corte celeste.




Este género de persuasão por associação é algo a que parecem prestar-se particularmente bem as técnicas de projecção subconsciente. Numa série de experimentos levados a efeito pela Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto Nacional de Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma pessoa acerca de qualquer imagem conscientemente vista podem ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com outra imagem, ou melhor ainda, com palavras portadoras de valor. Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra «feliz», uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha amigavelmente, acolhedoramente. Quando a mesma face era associada, também no plano subconsciente, com a palavra «furioso», parecia agressiva, desagradável e hostil. (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito masculina - ao passo que, quando era associada com a palavra «feliz», viam a face como se ela pertencesse a um membro do seu próprio sexo. Pais e maridos, façam favor de tomar nota). Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são, como é óbvio, altamente significativas. Se puder pôr as suas vítimas num estado anormalmente elevado de sugestibilidade, se puder mostrar-lhes, quando se encontram neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a causa que tem para lhes vender, e se, no plano subconsciente, pode associar essa coisa ou pessoa  ou símbolo, com qualquer palavra, ou imagem portadora de valor, o propagandista pode ser capaz de modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas tenham a mais pequena ideia do que ele está a fazer. Será possível, segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orléans, aumentar, mediante o emprego desta técnica, o valor distractivo dos filmes e peças de televisão. As pessoas gostam de sentir emoções fortes e, portanto, gostam de tragédias, de melodramas, de filmes policiais e de narrações de grandes paixões. A dramatização de uma batalha ou de um beijo produz emoções fortes nos espectadores. Podia produzir até emoções mais fortes se fosse associado, ao nível subconsciente, às palavras ou símbolos adequados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada mais lancinante do que já é, mediante a repetida projecção subliminal, sobre a tela, durante o desempenho da cena, de palavras tão ominosas como «dor», «sangue» e «morte». As palavras não serão conscientemente vistas; mas o seu efeito sobre o subconsciente pode ser muito grande, e estes efeitos podem reforçar poderosamente as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela acção e o diálogo. Se, como parece certo, a projecção subliminal pode intensificar poderosamente as emoções sentidas pelos frequentadores de cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota - se os produtores de peças de televisão se não apropriarem, em primeiro lugar, da ideia.

À luz do que se disse acerca da persuasão por associação e da intensificação de emoções por sugestão subliminal imaginemos o que será uma reunião política no futuro. O candidato (se ainda se tratar de candidatos), ou o representante qualificado da oligarquia dirigente fará o seu discurso que todos ouvirão. Entretanto, os taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e segredadas, os projectores de imagens tão fracas que só o subconsciente lhes pode reagir, reforçarão o que ele diz, por intermédio da associação sistemática do homem e da sua causa, as palavras carregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e pela «injecção estronbónica» de palavras carregadas de valores negativos e de símbolos odiosos, sempre que ele mencione os inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da América, rápidos reflexos de Abraham Lincoln e as palavras «governo pelo povo» serão projectadas na tribuna. Na Rússia, o locutor será decerto associado a imagens rápidas de Lenine, com palavras «democracia do povo», e a barba profética do Pai Marx. Porque tudo isto se passará num futuro ainda tranquilizadoramente distante, podemos sorrir. Mas, daqui a dez ou vinte anos, provavelmente, um pouco menos divertido. Porque o que é, agora, mera ficção científica, tornar-se-á um facto político de todos os dias.






Poetzl foi um dos profetas que descurei ao escrever o Admirável Mundo Novo. Na minha fábula não há qualquer referência à projecção subliminal. É um erro de omissão que, se voltasse a escrever o livro agora, eu corrigiria certamente (ibidem, pp. 165-178).


Um comentário:

  1. MENSAGEM SUBLIMINAR NÃO EXISTE, O QUE TEMOS SÃO ANALFABETOS AUDIOVISUAIS.

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