segunda-feira, 20 de maio de 2013

A polémica Pascoaes/Sérgio (ii)

Escrito por António Quadros 





Fernando Pessoa



«A doutrinação do saudosismo como movimento afastou Fernando Pessoa que, apoiado aos modernistas Sá-Carneiro, Armando Côrtes-Rodrigues, Almada Negreiros, Alfredo Guisado, Raul Leal e outros, se cindiu do aguilismo, para criar o Orpheu e, quanto este veio a determinar. No entanto, ao pensar e ao rescrever um estudo tão significativo como A Nova Poesia Portuguesa (1912), embora utilizando uma diversa metodologia, distante do abstraccionismo dos arquétipos de Pascoaes, Fernando Pessoa (1888-1935) acabava por aceitar, já as teses acerca da queda, postuladas por Bruno, Rêgo e Pascoaes, já os teoremas relativos a um ocultismo que o messianismo saudosista não previa de todo, ao menos no princípio, transferindo para a poesia a vinda do Encoberto, que outro ser não é o Super-Camões, profetizado por Fernando Pessoa, e que corresponde ao D. Sebastião do nacionalismo redentorista - tudo isso parafraseado no Infante de Sagres, que um Álvaro Ribeiro mencionou esperar para a Filosofia Portuguesa.  Importa assinalar que tais menções devem ser lidas segundo o que significam, nunca segundo o que designam, por constituírem mitos dinamizadores e não crenças dogmáticas. Tanto quanto parece, a cisão pessoana deve-se a causas estéticas, se pensarmos em que Pessoa não só aderiu a uma exegese ôntico-psicológica do povo português, mas ainda levou o messianismo às instâncias propostas no poema Mensagem, que é uma outra forma de pensar a Arte de Ser Portguês, que Pascoaes intuíra, pensara e escrevera. O que afastou Pessoa de Pascoaes foi um formalismo estético, não um ideário filosófico, mesmo e ainda quando se admitia ter sido - ao menos do que se julga saber - Pessoa mais erudito do que Pascoaes, e que o racionalismo daquele tenha entrado em oposição ao intuicionismo deste.

Mas a teoria saudosista, que não fez, só por ela, cindir Pessoa, fez cindir António Sérgio, cujo espírito pragmático, informado por um certo maurrasismo esquerdista, jamais poderia conciliar-se com as visionações messiânicas, evolucionistas e ascensionistas de Pascoaes e de Leonardo Coimbra. A influência deste, patente na revista, havia implicitado uma prioridade à especulação filosófica, para situar, primeiro, a filosofia e, depois, a política, o que Sérgio de forma nenhuma aceitava, uma vez dar prioridade à pedagogia em função da vida política. Sérgio representava a ideologia, enquanto, mais próximos, Pascoaes insistia na etno-psicologia portuguesa, e Leonardo visava um dinamismo estritamente filosófico, criacionista e centrífugo, mas filosófico antes de mais. O ideário republicano dos primeiros tempos sentia-se segregado nas páginas aguilistas e a cisão deveio. A polémica contra o Saudosismo foi o definitivo pretexto. Na verdade, o que se passava, era a profunda oposição entre os que preferiam o compromisso ideológico (António Sérgio e aderentes) e os que visavam a ascética filosófica (Leonardo, Pascoaes e discípulos). Que a Seara Nova constitua uma bifurcação ideológica de matriz aguilista, é facto a considerar».

Pinharanda Gomes («A "Escola Portuense"»).


«... Compreende-se o doloroso espanto do Poeta ao desembarcar na Ribeira. Diante dele erguia-se a sombra da Pátria de olhos fechados - morta! Ei-lo divagando, entre fantasmas, pelas ruas da cidade, verdes de Primavera e do abandono... E o seu Poema sublime, onde marulham as ondas do mar e as estrelas brilham e as almas dos heróis? Ah! É um livro para ser lido aos defuntos! Camões devia ter chorado... Mas a sua angústia maior veio depois; depois, quando recitou o Poema aos vivos que o não sentiram nem amaram: aquela gente surda e endurecida.

Então o Poeta, corrigindo o último canto d'Os Lusíadas, acrescentou-lhe aqueles terríveis versos do seu desânimo: a dor da sua alma incompreendida...

Só um homem, na flor da idade e da beleza, onde o génio da Raça num último esforço, se entranhou para fulgir o último relâmpago sangrento - sentiu e compreendeu Os Lusíadas. Foi na serra de Sintra, futuro paraíso de Lord Byron, que Luís de Camões leu a D. Sebastião essas estrofes que voavam de encontro ao seu desejo de guerras e aventuras. A expedição a Marrocos, que o jovem Rei premeditava, seria nova matéria para novo canto. Ah! Como se lhe cravou na alma aquele verso:


Dareis matéria a nunca ouvido canto...





D. Sebastião, ouvindo Os Lusíadas, antegozava a sua futura existência nas estrofes imortais de um Poema... Ser cantado não é o máximo desejo dos Deuses, dos Heróis e das Mulheres?

Mas o Herói e o Poeta estavam a dois passos do sepulcro.

Há sonhos que já parecem sonhados durante o sono da Morte. Têm mais amplidão e inconsistência, mais negrume sem estrelas, na sua indefinida curva misteriosa. O fundo em que eles se esboçam, é de uma fluidez incolor, uma distância inverosímil, abstracta. O nada, o nada absoluto vagamente a figurar-se, para além de tudo, é a fantástica matéria destes sonhos que a sombra da Morte próxima introduz no sono dos moribundos, - esse aflito prelúdio negro da calma Eternidade.

Assim, D. Sebastião sonhava um novo Império e Camões a sua Sebastianeida... O Poema não foi trasladado para o papel. Existe ainda gravado, por dentro, nos ossos de uma caveira, e a sua música divina ouve-se ainda naquele vento que chora, inconsolável, durante certas noites portuguesas... É um vento que não sopra em outros países, um vento estranho e fúnebre, levantado dos areais de Alcácer, feito de um negro bater de asas agoirentas, num clamor de almas penadas, que estiola as folhagens e mete medo...

A Sebastianeida ficou dispersa no Limbo. D. Sebastião no Deserto e na Saudade, e Portugal sob o jugo de Castela. A noite do cativeiro demorou-se sessenta anos acima do horizonte português. A nossa independência e liberdade ressurgiam, mais por esforço alheio que por virtude própria. Mas a alma cantada n'Os Lusíadas jaz ainda no deserto africano...

(...) Camões, talvez o maior e o mais imperfeito lírico do mundo, foi a voz suprema de uma Raça que nasceu das entranhas da terra, para morrer nas entranhas do mar. Mas a Voz sobrevive encantada no seu corpo de harmonia, como D. Sebastião, o sublime rei camoniano, em seu espectro de névoa...

Este Espectro e aquela Voz são hoje a velha Lusitânia, descarnada, reduzida ao seu espírito imortal: a sombra de eterna Beleza em que um Povo inteiro se dissolveu, pairando sobre uma Pátria defunta...

Mas o Encoberto, embriagado do canto de Camões, divaga ao luar da nossa evocação, na ilha do Encantamento... a ilha do nosso Desejo».

Teixeira de Pascoaes («Os Poetas Lusíadas»).


«... Os valiosos estudos da obra de Pascoaes que até agora têm vindo a ser feitos por pensadores da tradição portuguesa, os estudos de um Afonso Botelho, de um António Cândido Franco, de um Manuel Patrício, de um Paulo Borges ou de um Pedro Sinde, se obedeceram à preocupação de situar essa obra no quadro da nossa filosofia, nem sempre o fizeram de acordo com o conceito de filosofia portuguesa, e de tudo o que nela se implica, tal como foi formulado por Álvaro Ribeiro, o mestre entre nós dos que sabem...» .

António Telmo (Prefácio ao volume 21 das Obras de Teixeira de Pascoaes - Assírio & Alvim, 2002). 



António Telmo


Curiosamente, o kabbalista de Estremoz não cuidara de futuramente mencionar o caso do socialista maçon Pedro Martins - ficamos entretanto mui recreados perante o esmiuçar cronológico que em nada, obviamente, altera a inteligência, ou vá lá, o cerne da questão. Logo, três aspectos dessa mesma questão por ora se levantam, a saber:

1. No que estaria propriamente congeminando o mestre António Telmo ao afirmar que os autores supracitados, «se obedeceram à preocupação de situar essa obra - a de Pascoaes - no quadro da nossa filosofia, nem sempre o fizeram de acordo com o conceito de filosofia portuguesa, e de tudo o que nela se implica»?; 


2. «...e de tudo o que nela se implica» significa o quê?... que a filosofia portuguesa se reduz agora ao mantra de um alegado e distinto veio do esoterismo, a uma instância do «subconsciente judaico» e do anti-romanismo à luz da Kabbalah, do Quinto Império, da Maçonaria e do Martinismo? E teria sido, de facto, nessa auspiciosa direcção por demais enviesada que o próprio Álvaro Ribeiro teria realmente concebido a filosofia portuguesa? Não nos parece e, se teria, estaria certamente destinada ao fracasso; 

3. Enfim, para só darmos um exemplo, convém aqui notar como o autor do alegado Segredo do Grão Vasco (2011), confessa, sem a devida certeza, ou a respectiva memória, ter, em conversa telefónica com António Telmo, se referido a S. Pedro como sendo uma figura diabólica, para, açulado e aculeado por quem lhe arrevesara e armara o laço, assim julgar, querer ou imaginar ver estupefacto aquela figura com dois cornos diabólicos na "dissimulada" pintura de Vasco Fernandes; logo, é caso para perguntar se não estaria antes o autor a traçar o perfil cornudo que, no fundo, dá de si próprio? Coisa sinistra, sem dúvida.

Mas há mais: o tricoso e manga-de-alpaca que dá pelo nome fictício de 'Miguel Real', em «Pedro Martins: Decálogo do Portugal Oculto» (in Cadernos de Filosofia Extravagante, Interiores, Zéfiro, 2012, pp. 100-101), lá escrevinha as patacoadas do costume sobre a filosofia portuguesa de que não percebe nada nem faz a mínima ideia. E não é que, na sua obsessão delirante, enreda-se na configuração de um alegado "decálogo civilizacional" de que Pedro Martins seria, no âmbito da cultura portuguesa, a "memória milenária rejuvenescida" do século XXI através da sua pena esotérica (entenda-se maçónica e, por conseguinte, hostil à Igreja de Pedro, dita "subversora da primitiva vivência comunitarista da Igreja Católica"). Depois, o pior ainda é quando o escrevente nos diz que o Padre Mário de Oliveira, no livro intitulado Evangelho de Jesus, Segundo Maria, Mãe de João Marcos, e Maria Madalena, explora igualmente, "de um modo profético", a "tradição religiosa oculta" presumivelmente presente no Evangelho de S. João por contraposição à Igreja de Pedro. Logo, aqui chegados, é, sem dúvida, de um bom pontapé no traseiro que estes imbecis e pseudo-esotéricos estão, de facto, a precisar.

Miguel Bruno Duarte








«Porém, já agora, e como impressão de conjunto, permita-se-me que consigne que essa Lei Orgânica do Partido Republicano Português me parece um decalque feito sobre o Estatuto da Maçonaria.

Filho de maçon, com altos graus na ordem, eu nunca pertenci à Maçonaria. Respeito a sua tradição histórica; e sei que os serviços que ela prestou à causa da liberdade na Europa e na América a tornam digna da veneração de todos os espíritos progressivos. Quanto à Maçonaria Portuguesa actual, não ignoro também que ela regista nas suas fileiras homens credores de toda a estima, pela sua inteligência e pelo seu carácter.

Todavia, - quero ter a coragem de dizê-lo, consoante ainda mui rapaz me atrevi a dizê-lo a meu próprio pai, - em regra, e como princípio geral superior, não simpatizo com associações secretas por que é força da sua essência que elas façam prevalecer sobre a ideia de justiça para todos, a ideia da protecção para alguns; e, assim, sacrifiquem o direito do profano à iniquidade do iniciado, com cuja causa o laço da misteriosa solidariedade se aperta.

Seja assim, não seja assim, - o que se me afigura, indisputavelmente, certo é que o Estatuto da Maçonaria é, com exacta perfeição, adequado a uma instituição hierárquica e oculta. Por isso mesmo jamais poderá quadrar a uma organização sua antagónica, qual seja a do partido republicano, agremiação pública e democrática.

O estatuto da Maçonaria tem de basear-se neste princípio fundamental: - a obediência aos superiores. A Lei do partido republicano deveria possuir por alicerce irredutível o conceito igualitário da autonomia de grupos e de pessoas.

Na nova Lei Orgânica do Partido Republicano Português (como o demonstrarei) o povo republicano não tem voz nem voto. É uma massa amorfa, à mercê dos chefes.

Isto o presumi eu a partir do primeiro instante. Contra esta absorção dos direitos do povo me insurgi; contra este menosprezo da dignidade do povo me levantei».

Sampaio Bruno («Aos amigos conhecidos e desconhecidos. Aos inimigos desconhecidos»).





        
  «Como se sabe, o lema da Franco-Maçonaria é: "Jura, perjura, mas guarda segredo"».

Carlos Aguiar Gomes (in Agência de Informação e Maçonaria).


« - Filiado oficialmente no Partido Republicano Português, aqui na Póvoa, desde Janeiro de 1914, o etnólogo, o jornalista, o político dos "cem" costados, o comerciante da Rua da Junqueira com a sua "Casa do Amarelo", Sa
ntos Graça quis, quase forçou o espiritualista e cristianíssimo Leonardo a aderir à Maçonaria.

Quando li as crónicas do tempo sobre este inédito acontecimento, faltou-me animo para o crer. Coimbra, o "Messias" duma "Nova Idade" como o classificou, profeticamente, o poeta Pascoais, aderir a uma loja maçónica? Não era possível. De modo algum. Não tinha feitio, nem filosofia, para ser "maçon" à portuguesa, mesmo que o maior Amigo lhe tivesse sugerido, na Loja poveira, o criptónimo de Kant.

Claro. Enquanto teve a confiança da Maçonaria lisboeta, Leonardo fez carreira política. Interessante. Graça, nos seus escritos jornalísticos nunca fez alusão a estes factos. Claro também: quer por deixar de pagar as "quotas" quer por nunca ter mostrado inclinação por secretismos duvidosos, Leonardo foi expulso da Maçonaria. E muito bem, remato eu. Teria sido uma precipitação, um ilusório engano».

Antero Simões («O Deus e os Homens de Leonardo Coimbra»).







«JOVEM FILÓSOFO:

O Desembarque desagradou aos Portugueses que o leram, deixe-me dizer-lho, por causa do seu autor ter posto na Ilha de Camões os Maniqueus. O maniqueísmo, tal como é vulgarmente compreendido, afasta de nós Deus e aproxima o diabo.

O diabo é o feio, o caos. Não do caos foi criado o mundo, escreve o nosso poeta num dos seus poemas, "mas do pensamento casto e puro".

ANTÓNIO TELMO:

Dou-lhe inteira razão. Talvez fosse por isso que o Agostinho da Silva, embora aceitando a minha visão da Ilha do Amor, não gostou que eu o tivesse feito desembarcar nela juntamente com outros escritores de filosofia portuguesa...».

António Telmo («A Aventura Maçónica. Viagens à Volta de um Tapete»).


«Dá-nos Agostinho da Silva uma imagem de si que é a imagem do filho pródigo antes de regressar a casa de seus pais. A casa que abandonou é a escola de Leonardo Coimbra, a Renascença Portuguesa, a mitologia de Pascoaes, a filosofia portuguesa de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Sempre a casa lhe esteve e está aberta, com o lume aceso e o pão na mesa. Amuos de Menino – ele é que é o Menino dos “Impérios” – prendem-no lá fora ao frio de um cientismo que deu o que não tinha a dar, à secura de um racionalismo sergista de que já se não vê o que ficou e coisas semelhantes que são o que mais há por esse mundo das universidades, das academias, das instituições, das teocracias sem Deus onde Agostinho parece dizer que gosta de fazer figura. 


Da casa o viram a andar pelo Brasil e alegraram-se. Como os caminhos do Brasil passam perto da casa, esperam-no prestes, puseram mais um pão na mesa, mais uma acha ao lume. Em vão. Já velho, admirável velho, várias vezes passou à vista da casa, ouviu as vozes, parou, mas os amuos de menino foram mais resistentes. Álvaro Ribeiro ainda lhe demonstrou que o V Império, a ser coisa de Portugueses e do Espírito e se algum sentido tem, só pode ser a “filosofia portuguesa”. Inútil. Todavia, para ficar a meio caminho e ainda lhe chegar algum calor do lume, agarrou-se a Pessoa. Mas Pessoa está atirado à fama como um osso aos cães e é preciso esperar que, envenenados pelo osso, os cães o larguem. Teimou em retomar o blá-blá socializante da sua juventude sergista e, contentes, os dos poleiros dos galinheiros do Estado cobrem-no de flores, mostram-no na televisão, põe-no na capa de revistas, plebeízam-no. 

Orlando Vitorino

No fundo, porém, ainda o têm por suspeito. Por isso o querem atirar agora para os confins da África perdida. O que lhes é suspeito é “aquela luzinha no alto dos céus” que ele um dia nos disse ser donde lhe vem toda a filosofia. É o que o fez dizer que “ Portugal é um dos nomes de Deus”. É o patriotismo e a Pátria que nele dá pelo nome de V Império. É o que fez dele um dos nossos mestres. É o que o fará, inevitavelmente, regressar à casa de seus pais». 

Ernesto Palma («Agostinho da Silva, filho pródigo»).


«... a Igreja o que encontrou mais perto de Cristo, dos Evangelhos, para pregar ao pagão foi exactamente o neoplatonismo. Mas o platonismo, mesmo no neoplatonismo, é muito difícil de entrar na cabeça do homem vulgar, do homem comum, do homem cuja vida se não faz meditando nessas coisas metafísicas, mas no físico da vida. E, de facto, a Igreja estava em crise perante as populações, quando foi salva pela invasão muçulmana da Península. Paradoxalmente, o que salvou o cristianismo nessa altura foi os muçulmanos terem invadido a Espanha e trazido com eles Aristóteles, que tinha uma filosofia muito mais compreensível para o homem vulgar, ao passo que Platão a ideia que dava era a da filosofia do abstracto, do inexistente, do sonhado. Aristóteles dava a filosofia do concreto, eram coisas que se passavam na Terra, era aquilo que toda a gente podia compreender e lhes dava até com a lógica um instrumento de trabalho extremamente simples: o silogismo foi a chave para abrir muita porta, que para outros estava fechada...».

Agostinho da Silva («Vida Conversável»).


«...Estávamos, então, sentados ao redor de uma fogueira, já acesa por Heráclito de Éfeso no meio de um olival e pelo nosso lado - enquanto a luz e o calor do fogo nos retemperavam do esforço da jornada da vida - olhávamos, com curiosidade, para o filósofo que costumava garantir ninguém ser capaz de atravessar duas vezes o mesmo rio porque, à segunda tentativa, nem o trespassador nem o rio seriam já os mesmos.







Aos saltos, vestido de bobo, andava também por ali Aristóteles, o "arrumadinho", guinchando ser Heráclito um homem estranho e padecendo de problemas mentais, tal como alguns intelectuais da nossa praça julgavam Agostinho da Silva.

Se soubéssemos o que teria acontecido para além do que, na realidade, tem de acontecer, diríamos haver razões para acreditar num maior equilíbrio do pensamento e da civilização ocidentais caso tivéssemos trocado Aristóteles por Heráclito na altura da cerimónia da colocação da primeira pedra deste edifício europeu em ruínas.

Assim, continuamos a perseguir, como suicidas, o ter em lugar do ser...».

Victor Mendanha («Conversas com Agostinho da Silva»).


«A lógica de Aristóteles não é apenas uma arte de raciocinar coerente e consequente mas uma arte de raciocinar de acordo com a realidade. Se nos é fácil refutar os sofismas grosseiros sempre que sem mediação (imediatamente) vejamos inadequação entre o pensamento e a realidade, como no caso das afirmações tão absurdas que se cobrem de ridículo, já é mais difícil discernir o elemento que sustenta a falsidade dos paralogismos, da dialéctica e da metafísica. Um estudo analítico da sofismação nos adverte lucidamente contra o hábito pernicioso de aceitar como raciocínios completos e perfeitos, de incidência ontológica, fragmentos ou elementos de uma argumentação que convém interpretar. Cada época é dotada de um tipo especial de sofismação, e bem sabemos quanto nos custa estar alerta para não sermos surpreendidos e vencidos pelos sofismas dos nossos contemporâneos. Correm mundo os sofismas parlamentares, jornalísticos, estatísticos, etc. A analítica de Aristóteles continua, todavia, a dar-nos os melhores ensinamentos de defesa contra os raciocínios incompletos, isto é, contra todos os processos de sofismação».

Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).





(...) A réplica de Teixeira de Pascoaes


Solar de Gatão, onde viveu Teixeira de Pascoaes (Amarante).





Mas voltemos aos ataques de António Sérgio ao saudosismo, que Pascoaes não teve qualquer dificuldade em aparar. Não sem ironia, mas com que outro voo! Antes de entrarmos no coração da polémica sobre o sebastianismo, entendamos que a querela de Sérgio não era só com os sebastianistas, era com quantos procurassem assumir, como o poeta do Maranus, o génio do lugar, a qualidade de uma estrutura cultural, o enigma, a paixão, a «obscuridade» luminosa de um povo e as «palavras intraduzíveis» da sua língua, que, afinal de contas, exprimem em profundidade a sua circunstância. Depois dos Sérgios e da sua acção «racionalista» e «cívica», surgiram decerto gerações de homens políticos empenhados numa acção cooperativista e socialista, mas Portugal tornou-se mais cinzento, mais medíocre, mais alinhado com os lugares comuns de todas as convenções europeias ou internacionalistas, cada vez mais divorciado da sua identidade psicológico-cultural, até se chegar à insignificância complexada em que se vê hoje, impotente para reencontrar uma autonomia cultural, intelectual e criadora capaz de corresponder, como um conteúdo, aos slogans formais de «independência nacional» ou de «país restituído ao seu destino», que não logram ultrapassar a esfera da demagogia política.

Sérgio troçara da definição de saudade de Duarte Nunes de Leão, retomada por Teixeira de Pascoaes, lembrança de alguma coisa com o desejo dela, «mostrando-a» como aplicável não só ao homem como a toda a animalidade; e compusera uma historieta satírica em que o saudosismo surgia descrito tem termos caricaturais e redutores, sob a sugestão da teoria dos reflexos condicionados de Pavlov.

Diz Pascoaes, na sua resposta, onde se sente uma projecção de autenticidade poética e intelectual:

«António Sérgio confessa todavia que o que caracteriza a Saudade é um certo quid de sentimento. Perfeitamente. É nesse quid que existe a sua essência original, representativa de uma Raça autónoma. Pois saiba o ilustre escritor que esse quid se contém na definição de Duarte Nunes e na minha. Consideramos a Saudade um sentimento-síntese, um sentimento-símbolo, resultante da fusão harmoniosa dos dois princípios do Universo e da Vida que, desde a origem, se digladiam: Espírito e Matéria, Desejo e Lembrança, Dor e Alegria, Treva e Luz, Vida e Morte.

«António Sérgio não quis compreender assim e afirma erradamente que nós não definimos a Saudade, mas um rude facto geral de toda a animalidade. E, como prova, apresenta uma chalaça canina que pode fazer arreganhar os dentes... só para rir, é claro.

«Sim, meu caro amigo, eu conheço alguns cães bem mais capazes de sentirem a Saudade que certos seres da espécie humana. Quanto mais conheço os homens, mais amo os cães».




E responde, em seguida, à troça incompreensiva de Sérgio:

«A Saudade, como todos os sentimentos, é susceptível de graus inferiores e superiores. Há a saudade rudimentar, acessível talvez às próprias árvores; e entre esta e a Saudade lusíada, há outros graus decerto não comuns a todos os países, mas também a todos os seres vivos... A Saudade de um belo almoço em dias de fome, de uma esposa, de um filho, etc., evidentemente que é um sentimento comum de todos. Pretender o contrário seria infinitamente ridículo» (18).

Mas Pascoaes falava de uma outra Saudade, que Sérgio não podia, no seu humanismo de curto voo, entender. A que já cantava Camões:


... a Saudade
D'aquela santa idade
D'onde est'alma descendeu.


E o poeta do Regresso ao Paraíso conceptua e define:

«Não há grande Poeta português que não viva dramaticamente esta Saudade. É ela a dolorosa essência metafísica da nossa autêntica literatura, incluindo a Poesia popular. É a Saudade do Céu, divina sede de perfeição e redenção, o eterno Sebastianismo da alma portuguesa e a sua transcendente e poética atitude perante o Mistério infinito!».

Pascoaes acrescenta esta nota com interesse:

«Deixe-me frisar ainda o seguinte: o que torna este alto Sentimento extraordinário e nosso, é o haver nascido da alma colectiva do Povo e não do temperamento excepcional de certos indivíduos».

Mas mais importante é a réplica de Pascoaes à acusação sergista de que o saudosismo seria reaccionário, voltado para o passado:

«Também erra, meu caro amigo, quando afirma que a Saudade é retrógrada e paralítica, o que, aliás, se depreende do já exposto. Não resulta ela da combinação activa e amorosa dos dois princípios da Vida? Na Saudade, o desejo e a lembrança perpetuamente se casam e fecundam, porque ela é o símbolo da Natureza, desenhado pelo nosso espírito lusíada... D'aqui tirou Leonardo Coimbra a sua filosofia criacionista, a filosofia de maior mobilidade, anticoisista por excelência, que só vê no Universo o seu constante devenir, a sua eterna criação espiritual.




«Sim: a Saudade é a grande criadora do futuro, mas não tira o Futuro do Nada, não consegue um Futuro de geração espontânea ou caído miraculosamente das estrelas. Ela constrói o Futuro com a matéria do Passado» (19).

E aqui, Teixeira de Pascoaes ironiza por seu turno a respeito de toda a cultura de base exclusivamente sociológica, que faz tábua rasa dos valores arquétipos, julgando assim ficar liberta de um peso de reacção:

«O meu querido camarada parece querer eliminar o Passado. É apenas um belo gesto quixotesco... O Passado é indestrutível, nele murmura a fonte onde bebemos as novas energias. Ai de nós, se não tivermos Passado! Ai da árvore, sem profunda terra onde mergulhar as raízes" Não pode frutificar» (20).

Noutro passo da sua segunda carta, António Sérgio não só repelia a ideia das palavras intraduzíveis (ignorava ainda a lição de Heidegger, que foi bem mais longe do que Pascoaes, dizendo: «Só se pode traduzir o grego para o grego» (21) ou ainda, «ser grego é pensar grego», como ainda recusava originalidade à palavra saudade. Neste ponto, Pascoaes dá uma lição de filologia a Sérgio, para quem as palavras são meros instrumentos polémicos ou casuísticos, e não, como dizia Heidegger, a morada do ser. Depois de sublinhar que a saudade galega ou a anyoranza catalã estão próximas da saudade portuguesa, por evidentes parentescos culturais, escreve: «De resto, eu sei lá o sentido íntimo d'essas palavras arrevesadas, doru, saknad, savn, saknor, etc!!! Eu não sei, nem o meu caro amigo!».

E ainda, com ironia:

«O meu caro António Sérgio ama a chalaça; a Europa deu-lhe cepticismo de mistura com electricidade e carvão de pedra... As suas palavras modernistas são aviadoras; pairam, portanto, sobre as coisas, sem pousar...

«Desça, desça, um pouco à alma da sua Raça...» (22).

Por último, Teixeira de Pascoaes dá a Sérgio o conselho que ele nunca será capaz de seguir: «Uma Pátria necessita de se afirmar constantemente na sua individualidade esculpida pelos séculos. De contrário, será uma sombra apagada, um ninguém neste mundo. Para agir, é preciso ser antes de tudo» (23).

Ideia profunda, esta última, e antecipadamente heideggeriana, ideia de que os pragmatistas, os activistas, os racionalistas judicativos, os materialistas ou os marxistas ficaram sempre aquém. Trinta e três anos mais tarde, Heidegger diria praticamente o mesmo, na Carta sobre o Humanismo. Assim principia esse texto de 1946, traduzido para português em 1973: «Vamos longe de pensar, com suficiente radicalidade, a essência do agir. Conhecemos o agir apenas como o produzir de um efeito. A sua realidade efectiva é avaliada segundo a utilidade que oferece. [É o conceito vulgar dos racionalistas judicativos e voluntaristas como Sérgio, e também dos marxistas]. Mas- continua o autor de Sein und Zeit -, a essência do agir é o consumar. Consumar significa: desdobrar alguma coisa até à plenitude da sua essência; levá-la à plenitude, producere. Por isso, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que, todavia, "é", antes de tudo, é o ser» (24).



Martinho Heidegger


Assim, Heidegger confirma a posteriori a fulgurância das intuições de Pascoaes, jamais entendidas por Sérgio. Pascoaes disse, efectivamente: «Todas as línguas têm as suas palavras intraduzíveis. São elas que mostram o que há de original e característico na alma de um Povo» (25). Heidegger escreveria: «A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem» (26).

Pascoaes: «Para agir é preciso ser, antes de tudo». E Heidegger: «... a essência do agir é consumar [...] apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que, todavia, "é", antes de tudo, é o ser».

Pascoaes, precursor de Heidegger? A muitos títulos o é, como inspirador que foi de filósofos portugueses, tais Leonardo Coimbra e José Marinho. Pascoaes, inesperadamente mais moderno do que Sérgio? Certamente (in ob. cit., pp. 285-291).


Notas:

(18) A Águia, loc. cit., pp. 104-105.

(19) Ibid., p. 106.

(20) Ibidem.

(21) Martin Heidegger, Qu'apelle-t-on penser? (trad. francesa), Paris, Presses Universitaires de France, 1959.

(22) A Águia, loc. cit., p. 106.

(23) Ibid., p. 109.

(24) Martin Heidegger, Carta sobre o Humanismo, tradução portuguesa de Arnaldo Stein, com prefácio de António José Brandão, Lisboa, Guimarães Editores, 1973, p. 37.

(25) A Águia, loc. cit., p. 109.

(26) Carta sobre o Humanismo, p. 37.


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