quinta-feira, 7 de março de 2013

A Batalha das Termópilas (i)

Escrito por Heródoto de Halicarnasso






«A palavra pátria, entre os antigos, teve o significado de terra dos pais, terra patria. A pátria de cada homem era a parte do solo que a religião doméstica, ou a nacional, santificara, a terra onde estavam depositadas as ossadas de seus avós e por suas almas o seu túmulo e o seu lar. Pátria grande era a cidade, com o seu pritanado e os seus heróis, com o seu recinto sagrado e o seu território demarcado pela religião. «Terra sagrada da pátria», diziam os gregos. E não era palavra vã esta. Esse chão tornara-se verdadeiramente sagrado para o homem, porque os seus deuses o habitavam. Estado, Cidade e Pátria não eram conceitos abstractos, como entre os povos modernos; representavam, verdadeiramente, todo o conjunto das divindades locais com o culto de cada dia, e ainda com crenças, a agirem poderosamente sobre a alma.

Assim se explica o patriotismo dos antigos, sentimento enérgico, entre eles virtude suprema e a suster todas as demais virtudes. Tudo quanto o homem possuía de mais caro se confundia nesta sua noção de pátria. Na pátria encontrava o homem a sua segurança, o seu direito, a sua fé, o seu deus e tudo quanto lhe pertencia. Perdendo-a, tudo estava perdido para o homem. Deste modo era quase impossível que o interesse privado estivesse em desacordo com o interesse público. Platão disse: É a pátria que nos dá a luz, nos alimenta e nos educa. E Sófocles acrescenta: É a pátria que nos mantém.









(...) A pátria prende o homem com o vínculo sagrado. É preciso amá-la como se ama a religião, obedecer-lhe como se obedece a Deus. «É preciso dar-mo-nos inteiramente a ela, tudo lhe entregar, votar-lhe tudo». É preciso amá-la gloriosa, ou obscura, próspera ou desgraçada. É preciso amá-la como Abrãao amou o seu Deus, até lhe sacrificar o seu próprio filho. O grego ou o romano, não morrem apenas por dedicação a um homem, ou por gestão de honra, mas dão a sua vida pela pátria. Na verdade, se esta é atacada, é a religião que é agredida. Verdadeiramente, a pátria combate pelos seus altares, pelos seus fogos, pro aris et focis, e isto porque, se o inimigo se apoderar de sua urbe, os seus altares serão derrubados, os fogos extintos, os sepulcros profanados, os seus deuses destruídos e o culto para sempre olvidado. No amor da pátria está a piedade dos antigos.

A posse da pátria devia ser muito preciosa, porque os antigos não imaginavam castigo mais cruel que privar um homem dela. A punição ordinária, pelos grandes crimes, era o exílio».

Fustel de Coulanges («A Cidade Antiga»).


Xerxes: «Rende-te e entrega as armas».

Leónidas: «Vem buscá-las!»





Conversa entre Xerxes e Demarato









Depois de ter inspeccionado a frota a bordo de uma nave, Xerxes desembarcou e mandou que trouxessem Demarato, filho de Aristão - que o acompanhava na sua expedição contra a Grécia - e, depois de lhe dizer que se aproximasse, perguntou-lhe o seguinte: «Demarato, neste momento, apetece-me perguntar-te algo que desejo saber. Tu és grego e, segundo tenho entendido pelas tuas manifestações e pelas dos demais gregos que falaram comigo, natural de uma cidade que não é a mais insignificante e débil da Hélade. Esclarece-me agora, por isso, se os gregos se atreveriam a oferecer-me resistência. Porque, na minha opinião, ainda que se coligassem todos os Gregos e os restantes povos que residem no ocidente, não seriam capazes de conter o meu ataque, sobretudo se não existir coordenação entre eles. Não obstante, quero conhecer também o que opinas pessoalmente a esse respeito».

Isto foi o que lhe perguntou Xerxes. Demarato, por seu lado, respondeu-lhe, dizendo: «Majestade, devo falar-te com sinceridade ou agradar-te?». O monarca, então, ordenou-lhe que falasse com sinceridade, assegurando-lhe que não lhe pareceria menos simpático do que antes por isso.

Ao ouvir estas palavras, Demarato disse o seguinte: «Majestade, já que mandas que, nas suas manifestações, uma pessoa se expresse com absoluta sinceridade, para evitar que, um dia, seja culpado por te ter mentido, dir-te-ei que a pobreza tem sido, desde sempre, uma companheira inseparável da Grécia, mas nela tem assentado também a hombridade de bem - conseguida à base de inteligência e de umas leis sólidas -, cuja estrita observação lhe tem permitido defender-se da necessidade e do despotismo. Em consequência, só tenho elogios a fazer em relação a todos os Gregos que habitam por aquelas terras; no entanto, as minhas próximas palavras não as vou aplicar a todos eles, mas exclusivamente aos Lacedemónios: tens de saber, antes de mais, que jamais aceitarão as tuas condições, que representam a escravidão para a Grécia; em vez disso, hão-de sair para te enfrentar no campo de batalha, ainda que os restantes Gregos abracem a tua causa na totalidade. E, relativamente ao seu número, não perguntes quantos são para que adoptem semelhante atitude; pois, ainda que se dê a circunstância de serem mil os que integram o seu exército, esses mil lutarão contra ti e assim farão, independentemente, de serem mais ou menos».










Ao ouvir estas palavras, Xerxes riu-se e exclamou: «Demarato, o que disseste? Que mil homens lutarão contra um exército tão poderoso como este? Vamos lá ver, diz-me: tu mesmo, segundo contas, foste rei desses indivíduos. Estarias disposto, portanto, a confrontar-te, sem demora alguma, com dez homens? E mais, se todos os vossos cidadãos são tal como afirmas, não há dúvidas de que tu, que és o seu rei, deves, de acordo com as vossas leis, enfrentar o dobro dos adversários, pois, se cada um deles equivale a dez homens do meu exército, espero que assim tu valhas por vinte, já que assim podia ser certa a informação que me deste.

«Agora, se, com umas qualidades pessoais e físicas como as tuas e as dos gregos que costumam falar comigo, vos vangloriais tanto, tem cuidado, não vá essa afirmação que fizeste ser uma grosseira fanfarronice. Porque [falha no texto original], vamos ver, deixa-me considerar a questão com uma lógica rigorosa! Como poderiam opor-se a um exército tão poderoso com esses mil, dez mil ou inclusive cinquenta mil homens, se todos eles gozam da mesma liberdade e não estão às ordens de uma só pessoa? Pois, supondo que os Lacedemónios sejam cinco mil, é indubitável que somos mais de mil contra um. Se estivessem, seguindo o nosso exemplo, às ordens de uma só pessoa, poderia ser que, por temor ao seu amo, se vangloriassem de um valor superior, inclusive, à sua natureza, e que, apesar de estarem em inferioridade numérica, se vissem obrigados, a chicotadas, a avançar contra um inimigo superior em efectivos; em contrapartida, se são vítimas da liberdade, não poderão fazer nem uma coisa nem outra.




«Para além disso, estou pessoalmente convencido de que, até com forças em igual número, dificilmente os Gregos poderiam medir-se única e exclusivamente com os Persas. Ao contrário, [só] entre nós se dá esse arrojo que tu mencionas (contudo - há que o reconhecer - não é muito frequente, antes pelo contrário, é escasso): entre os Persas da minha guarda há vários que estão dispostos a medir-se com três gregos em simultâneo. Tu disparatas tanto, porque não os conheces».

«Majestade - responde Demarato, perante este comentário -, desde o princípio que sabia que, se falasse com sinceridade, as minhas palavras não te iam agradar; mas, visto que me obrigaste a dizer a verdade e nada mais que a verdade, assim o fiz sobre o perfil dos Espartanos. E olha que tu sabes, melhor do que ninguém, o apreço que sinto, actualmente, por eles, que me despojaram do meu cargo, e das prerrogativas que herdei dos meus antepassados, e me converteram num expatriado exilado; o teu pai, em contrapartida, acolheu-me, facilitando-me meios para subsistir e uma casa. Não é lógico, portanto, que uma pessoa sensata menospreze as mostras de afecto que lhe dispensam, mas deve sim valorizá-las profundamente.

«Eu não pretendo ser capaz de enfrentar dez homens, nem sequer dois, e, se dependesse de mim, não desejaria defrontar-me com nenhum. Mas, se fosse imperioso, ou me sentisse impulsionado a fazê-lo por um objectivo que valesse a pena, com quem me debataria com mais gosto seria, sobretudo, com um desses indivíduos, que asseguram valer por três gregos cada um. Ocorre a mesma coisa com os Lacedemónios: nos combates singulares não são inferiores a ninguém, ao passo que, em compacta formação, são os melhores guerreiros da terra. Pois, apesar de serem livres, não o são totalmente, já que rege os seus destinos uma entidade suprema, a lei, a qual, no seu foro interno, temem muito mais, inclusive, do que os teus súbditos te temem a ti. De facto, cumprem todos os seus mandamentos e sempre manda o mesmo: não lhes permite que fujam do campo de batalha perante algum contingente inimigo, pelo que permanecem nos seus postos, para vencer ou para morrer.



«Agora, se isto que te digo te parece um disparate, concordo contigo, mas, de agora em diante, prefiro reservar as minhas opiniões (e mais, nesta ocasião falei porque mo exigias). Não obstante, oxalá tudo suceda conforme os teus desejos, Majestade».


(...) Motivos da recusa de Xerxes em exigir vassalagem a Atenas e a Esparta

E é certo que Xerxes não enviou heraldos, para exigir terra, nem a Atenas, nem a Esparta pela seguinte razão: anos atrás, quando Dario enviou os seus heraldos com idêntica missão, os Atenienses atiraram os que formularam a dita exigência ao báratro, enquanto que os espartanos os atiraram a um poço, instando com eles para que levassem dali terra e água ao rei. Nesse sentido, não posso especificar que desgraça chegou a suceder aos Atenienses por, no passado, terem tratado assim os heraldos de Dario, que não seja o facto do seu território e cidade terem sido saqueados; contudo, creio que isso não ocorreu por esse motivo.


(...) Batalha das Termópilas. Posições dos dois exércitos

Pois bem, Xerxes acampou na região de Traquín, em Mélide, enquanto os Gregos o fizeram na passagem. E é certo que essa passagem é conhecida pela maior parte dos Gregos com o nome de «Termópilas», se bem que entre os habitantes da região e as gentes dos arredores de denomine «Pilas».

Como digo, ambos os adversários tinham acampado nessas posições, pelo que o monarca tinha sob o seu controle toda a zona norte, até Traquín, ao passo que os Gregos controlavam a zona continental, pela sua parte mais meridional.

Perfil dos Espartanos



(...) Xerxes enviou um ginete em missão de espionagem, para que averiguasse quantos eram e o que estavam a fazer; pois, quando ainda se encontrava em Tessália, tinha ouvido dizer que, naquela paragem, se tinha concentrado um pequeno contingente de tropas, cujo comando estava por conta dos Lacedemónios e, concretamente, de Leónidas, que era descendente de Héracles.

Quando o ginete chegou às imediações do acampamento, não conseguiu, a partir da posição, contemplá-lo na sua totalidade, pois, de onde estava, era impossível ver os que se encontravam posicionados no outro lado do muro, obra que os Gregos tinham restaurado e que mantinham vigiada. Não obstante, pôde avistar os que estavam acampados fora, com as armas disseminadas na parte exterior do muro (naquele momento, dava-se a circunstância de serem os Lacedemónios que estavam posicionados fora). Pois bem, o ginete viu que uma parte dos soldados realizava exercícios atléticos, enquanto os demais penteavam a cabeleira.

Como é natural, perante aquele espectáculo, ficou perplexo, mas fixou o seu número. E, depois de ter reparado demoradamente em todo do tipo de detalhes, regressou com absoluta tranquilidade, pois beneficiou da despreocupação geral, pelo que, regressando, contou a Xerxes tudo o que tinha visto.

Ao ouvi-lo, Xerxes não podia intuir a realidade, isto é, que os Lacedemónios se estavam a preparar para morrer e matar na medida das suas possibilidades. Daí que, como lhe palpitava que o seu procedimento era risível, mandasse chamar Demarato, filho de Aristão, que se encontrava no acampamento. E, à sua chegada, Xerxes foi-lhe fazendo perguntas acerca dos pormenores da informação que tinha recebido, com o fim de entender a atitude dos Lacedemónios. Então, Demarato disse-lhe: «Em outra ocasião - quando empreendemos a expedição contra a Grécia -, já me ouviste falar desses indivíduos, mas, perante as minhas palavras, riste-te de mim. Porque obedecer à verdade na tua presença, majestade, constitui o meu máximo objectivo. Por isso, presta especial atenção neste momento. Esses indivíduos estão aí para discutirem connosco o controle da passagem e estão a preparar-se com esse propósito: pois, entre eles, rege a seguinte norma: sempre que colocam em perigo as suas vidas, organizam a cabeça. E apercebe-te bem: se consegues submeter esses homens e os que ficaram em Esparta, não haverá, em todo o mundo, nenhum outro povo que se atreva a oferecer-te resistência, majestade. Pois nesse instante, vais lutar com o reino mais glorioso e com os mais corajosos guerreiros da Grécia».



Como é natural, para Xerxes, as ditas informações pareceram-lhe extremamente inverosímeis, pelo que voltou a fazer da palavra e perguntou-lhe qual a táctica que os Gregos iam empregar, já que contavam com tão poucos efectivos para lutar contra as suas tropas. «Majestade - replicou-lhe Demarato -, trata-me como um embusteiro, se as operações não se passam como te digo» (As suas palavras não conseguiram convencer Xerxes).


Primeiros confrontos: os Persas repelidos

Ao princípio, o monarca deixou passar três dias, acreditando que os Gregos fugiriam a qualquer momento. Mas, ao fim de quatro dias, vendo que não retiravam, mas que continuavam nas suas posições (na sua opinião, faziam-no, dando claras mostras de soberba e de imprudência), irritou-se e lançou uma ofensiva, composta por contingentes medos e císios, com a ordem de que os capturassem vivos e os conduzissem à sua presença. Contudo, quando os Medos se lançaram à carga contra os Gregos, as baixas foram numerosas; ainda que os novos efectivos substituíssem os caídos e não desistissem, apesar das grandes perdas, evidenciaram perante todo o mundo, e em particular perante o próprio monarca, que havia muitos combatentes, mas poucos soldados. O caso é que o combate se prolongou durante todo o dia.

Perante a dura reviravolta que sofreram, os Medos acabaram por se retirar, passando ao ataque, na sua vez, os Persas, a quem o rei denominava «Imortais» (no comando encontrava-se Hidarnes), plenamente convencidos de que eles, sim, conseguiriam facilmente a vitória. No entanto, quando esses novos efectivos travaram combate com os Gregos, não obtiveram melhores resultados que o contingente Medo, mas sofreram a mesma sorte, dado que lutavam num lugar estreito e com lanças mais curtas que as do adversário, pelo que não podiam tirar partido da sua superioridade numérica.







Os Lacedemónios, pela sua parte, combateram com uma coragem digna de elogio e, com as suas diferentes tácticas, demonstraram - frente a inimigos que não o sabiam fazer - que sabiam combater perfeitamente. Por exemplo, cada vez que voltavam a espada sabiam fugir, mas sem quebrar a formação, de maneira que os Bárbaros, ao ver que fugiam, se lançavam contra eles, gritando com grande alarido; mas, no momento em que estavam prestes a ser agarrados, davam a volta para se confrontarem com o adversário e, com essa manobra, acabavam com uma ingente quantidade de Persas. No decurso da batalha, também se produziram algumas baixas entre os próprios Espartanos. Finalmente, dado que não se podiam apoderar de nenhuma zona do desfiladeiro, ainda que o tivessem tentado, atacando em formação compacta, como de todas as maneiras possíveis, os Persas recuaram para as suas posições.

Segundo contam, no decurso desses confrontos, o monarca, que assistia ao seu desenvolvimento, saltou três vezes do seu trono, temeroso pela sorte das suas tropas. Assim foi como se travaram os combates durante aquela jornada.

No dia seguinte, os Bárbaros não tiveram mais êxito nos seus ataques: como os seus inimigos eram pouco numerosos, lançaram-se ao assalto, supondo que estariam dizimados pelas feridas e que já não se encontrariam em condições de oferecer resistência. Contudo, os Gregos estavam alinhados por secções e nacionalidades e combateram nos seus respectivos postos, com a única excepção dos Focenses (os seus efectivos tinham sido posicionados na montanha, para vigiar o caminho). Ao comprovar, pois, que a situação não apresentava um cariz distinto do dia anterior, os Persas retrocederam (in «A Batalha das Termópilas, Babel Editores, 2008, pp. 75-79 e 93-94).





































Continua


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