sexta-feira, 23 de março de 2012

O Ouro dos Templários (iii)

Escrito por Maurício Guinguand






«(...) Os nove cavaleiros não tiveram apenas por missão proteger os peregrinos, mas sobretudo encontrar, guardar, obter algo de particularmente importante, ou particularmente sagrado no lugar do Templo de Salomão: a Arca da Aliança e as Pedras da Lei.

(...) Não sabemos, ao certo, qual a origem do saber dos Egípcios, mas a verdade é que ele se manifestou de um modo relativamente súbito, sem precursores, por assim dizer; é bastante provável que as Tábuas da Lei sejam, elas mesmas, extraídas de documentos sagrados egípcios obtidos por Moisés aquando do Êxodo, o que explicaria a perseguição dos Hebreus à qual se entregaria o Faraó para os impedir de fugir.

Diz o Génesis que as Tábuas são de Pedra, mas que estão, no entanto, encerradas num cofre coberto de ouro: a Arca.

Parece que os Hebreus, antes de Salomão, não souberam utilizar as Pedras da Lei, e até o próprio Salomão, que tinha toda a sabedoria dos Egípcios, não pôde, por inépcia dos construtores, senão apelar à ajuda do rei de Tyr para construir o seu monumento.

Se Israel jamais pôde construir uma civilização própria, é ainda assim notável que duas civilizações tenham procedido do "Livro", da Bíblia, a muçulmana e a cristã, e que as duas tenham, a título não menos notável, conquistado Jerusalém, isto é, o lugar onde se encontravam as Tábuas da Lei. E ambas a conquistaram por via guerreira.

Ora, nós constatamos dois fenómenos idênticos: a ruína da civilização do Islão depois da tomada de Jerusalém, assim como a ruína da civilização do Ocidente após a tomada da mesma».


Louis Charpentier («Os Mistérios Templários»).



«Que existe um ouro interior, ou, melhor dizendo, que o ouro possui simultaneamente uma realidade externa e uma realidade interna, era uma conclusão perfeitamente lógica para uma mentalidade que, de forma espontânea, soubera reconhecer no ouro e no Sol uma mesma substância. Aqui e só aqui vimos a deparar com a raiz da alquimia, a qual, em si mesma, remonta aos tempos do antigo Egipto, onde era praticada pelos sacerdotes. E acontece que a tradição alquímica que se espalhou pelo Próximo Oriente, tendo vindo depois a alcançar terras do Ocidente, além de também ter provavelmente influenciado a alquimia hindu, reconhece como seu fundador Hermes Trismegisto, "o três vezes grande Hermes", o qual não é outro senão o deus do antigo Egipto a que os Gregos chamavam Thot, deus que regia as artes e ciências sagradas, à semelhança do papel que o deus Ganesha desempenhava no hinduísmo.

A palavra alquimia deriva do vocábulo árabe al-kimiya, que, por seu turno, e ao que tudo indica, provém do egípcio kême, significando a "terra negra", algo que tanto poder ser a denominação do próprio território do Egipto quanto o símbolo da matéria-prima dos alquimistas. Do mesmo modo, a expressão também poderia derivar do grego chyma, que significa "fundir" ou "derreter". Seja como for, os apontamentos alquímicos mais antigos que chegaram até nós foram lavrados em papiros egípcios. O facto de não possuirmos documentos alquímicos da primeira civilização egípcia nada prova por si só, uma vez que uma das características essenciais de toda a arte sagrada é a transmissão oral. Na maior parte dos casos, o seu registo por escrito ou representa um primeiro indício de decadência, ou, pelo menos, revela o temor de que a transmissão oral pudesse vir a perder-se. Assim sendo, é perfeitamente natural que o chamado Corpus Hermeticum, o qual abarca todos os textos atribuídos a Hermes-Thot, tenha chegado até nós em língua grega e redigido num estilo mais ou menos platónico. Contudo, no essencial, tais textos constituem realmente uma recolha do autêntico legado de uma civilização distinta, não sendo de modo algum invenções gregas arcaizadas, facto que a sua profunda fecundidade espiritual demonstra à saciedade».


Titus Burckhardt («Alquimia»).





UM LUGAR PORTUGUÊS

Tal como as estrelas da Via Láctea, os Visigodos dividiram-se em dois grupos e os que tomaram a direcção de Espanha pararam em Toledo, onde foi encontrada, em 1858, uma parte do tesouro.

Os mais ousados continuaram a avançar em direcção a Oeste, até Tomar, e a partir deste ponto espalharam-se em direcção ao Norte de Portugal.

Depois de terem conquistado a capital dos Alanos, Portucal, deram-lhe o nome de Braga e lá se instalaram.

De acordo com as tradições visigóticas, Tomar era um ponto telúrico extremamente propício e esta terra privilegiada foi, posteriormente, confirmada várias vezes através da história.

Mosteiro de Alcobaça


Nesta região, São Bernardo mandou edificar um dos mais belos florões da Ordem Cisterciense, o Mosteiro de Alcobaça, que, ainda hoje, continua a ser uma das obras-primas mais puras da arquitectura gótica no seu início (17).

Tomar passou a ser o berço onde nasceram as mais belas páginas da História de Portugal e continua a ser, ainda hoje, uma terra de eleição para os que permanecem atentos aos fenómenos cósmicos.

E mais uma vez a lenda permite-nos alcançar as fontes longínquas seguindo caminhos floridos que a História não pode utilizar.

As palavras-chave – sempre as mesmas – são transmitidas de geração em geração, respeitando fielmente um significado oculto que permanece intacto entre os pormenores maravilhosos que a lenda vai enriquecendo lentamente.

Conta a lenda que, um dia, enquanto trabalhava no campo, Wamba foi informado de que acabava de ser eleito rei dos Godos. O novo rei declarou que não aceitaria o título a menos que se desse imediatamente um milagre. De súbito, a aguilhada que tinha na mão, e que normalmente utilizava para picar os bois que puxavam o arado, ficou coberta de folhas de oliveira de ouro.

Em Reddae havia quarenta carniceiros. Aqui, encontramos um boieiro com os seus bois e folhas de oliveira de ouro, enquanto a Constelação de Boieiro – ou Charrua – está situada a treze graus da Constelação da Virgem.

É pois sob a protecção da Virgem que é escondido o ouro dos carros visigóticos, junto do santuário telúrico que mais tarde terá o nome de Nossa Senhora das Oliveiras.

Aí ficará o ouro durante muito tempo e um convento habitado por quarenta e quatro monges protegerá o local com os seus cuidados e preces.

Este santuário está ligado ao convento de Santa Iria por um subterrâneo e as pedras de apoio que encontramos confirmam a sua origem visigótica por meio de motivos esculpidos de cabeças bovinas.

A passagem deve ter sido reforçada ulteriormente em certos pontos, visto que encontramos abóbadas ogivais, características de uma restauração feita por Templários, sem dúvida contemporânea da época em que foi aberto o subterrâneo que liga o convento ao Castelo dos Templários.

Como se apresenta o enigma em Nossa Senhora das Oliveiras?

A capela propriamente dita, de estilo visigótico, respeitou a orientação de um santuário primitivo. Essa orientação corresponde ao nascer do Sol no dia 28 de Agosto, dia de Santo Agostinho, o santo representado no quadro de Valcrose.

O campanário, que dista uma quinzena de metros da construção principal, está orientado de acordo com o nascer do Sol no solstício do Verão, dia de São João Baptista.






O conjunto está portanto de acordo com uma tradição antiga e com a cosmogonia moderna.

O chão da capela está actualmente coberto por lajes tumulares de um cemitério que existia em volta do edifício.

Uma estrela mural cobre um nicho lateral onde foram colocadas as cinzas do herói e fundador de Tomar, o cavaleiro Gualdim Pais.

A arquitectura não revela outros indícios, mas os pilares e as pedras estão marcados com os sinais tradicionais da época gótica, escrupulosamente respeitados e transmitidos sem qualquer alteração, como sempre, mesmo quando o seu significado permanece inacessível às gerações vindoiras.

Os que edificaram a capela nova cingiram-se à tradição.

E assim a estátua da Virgem, que data do século XV ou XVI e que ainda hoje podemos admirar na capela de Nossa Senhora das Oliveiras, continua a ser uma estátua tradicional, visível no local onde foi originalmente colocada.

Sobre o braço esquerdo está sentado o Menino Jesus e ambos apontam na mesma direcção com a mão direita.

Basta seguir a indicação dada – muito diferente da que é fornecida pelo diabo da igreja de Rennes-le-Château – para compreendermos que aponta uma direcção.

Esta direcção está confirmada nas lajes do chão por meio de uma linha que passa entre os pilares da nave até à parte lateral direita. Aí encontramos uma laje oblíqua.

O Convento de Santa Iria fica na direcção do ângulo inferior desta laje. E é a colocação desta laje que pode marcar o acesso ao subterrâneo que faz a ligação com o convento.

O poço, situado no exterior da capela, permitiria a ventilação do subterrâneo.

Este subterrâneo foi o campo de jogos preferido pelas crianças desta região de Tomar. Há menos de quarenta anos, ainda lá brincavam. Segundo afirmam, o subterrâneo prolongava-se para sul, numa extensão de cerca de dois quilómetros, até à antiga Nabância romana.

Num ângulo de trinta e quatro graus para leste, em relação a Nossa Senhora das Oliveiras, foram descobertas as fundações de uma propriedade senhorial visigótica. No mesmo ângulo, mas para Oeste, encontramos as de Nabância.

No centro da fachada principal da igreja, ficamos precisamente a treze graus do eixo miradouro do Castelo dos Templários.

Temos pois mais uma vez reunidas as coordenadas que permitem deduzir que o tesouro pode muito bem ter sido enterrado. E este tesouro foi confiado à vigilância de dois conventos e entregue à guarda de um miradouro, de acordo com a ideia também utilizada pelo abade Saunière, que, com a mesma finalidade, mandou construir a Torre Magdala.


O SOL DE OIRO – HORUS

O valor de um tesouro não reside obrigatoriamente no seu volume nem nas vantagens que pode providencialmente oferecer do ponto de vista material e social.

Há diversas espécies de tesouros. O conhecimento é uma espécie, que não procura necessariamente a obtenção de lucros inesperados. O conhecimento permite a acumulação dia após dia de qualquer coisa igualmente preciosa. Saberemos realmente em que consistiam alguns destes tesouros fabulosos?

Ruínas Célticas na "Pedra de Cashel" (Irlanda).


(…) Alguns milénios antes da nossa era, os pré-Celtas partiram de Oeste para Leste à procura de algo de novo que lhes permitisse transpor os limites hiperbóreos, oferecendo às civilizações encontradas pelo caminho os cristais límpidos do seu saber original.

Foram em direcção ao Oriente colher pérolas maravilhosas que o sol ardente tornava mais fascinantes. Em seguida, carregados de jóias preciosas, regressaram, século após século, ao ponto de partida e deixando para a história somente os megálitos que cobrem os territórios do antigo continente.

Mais tarde, os Gauleses, que também partiram do norte, foram até à Pérsia e à Ásia Menor, fundaram a Galácia, depois a Galícia e a Galileia, mais tarde regressaram à sua terra de eleição, dirigindo as esperanças para o Sol poente onde a «Terra acaba», a Gália e a Galiza.

Roma, desejosa de alcançar o apogeu supremo, inicia em direcção Oeste ataques belicosos necessários à manutenção da grandeza de um império que não consegue aumentar as suas riquezas para Leste. As hordas visigóticas, movidas por uma intuição primária, foram até ao Oriente em busca das bases de um saber e, depois dos Romanos, do ouro precioso que só é comparável ao Sol.

Uma vez no Ocidente, o metal precioso que na Ásia Menor ornava paredes rutilantes, perde o seu significado à luz de um Sol avermelhado. Há que enterrá-lo e protegê-lo dos raios solares.

Como muitos dos seus antecessores, os Visigodos limitaram-se a seguir os filões da terra que se amplificam com os eflúvios solares. As deslocações que efectuaram sobre a superfície do globo, transformou-os, diremos mesmo que os transmutou. Deixaram de ser guerreiros nómadas para passarem a ser agricultores.

Quando o viandante pára, deixa de procurar e o Graal enterra-se. O ouro erguido verticalmente para o Sol é aferidor cósmico. Escondido passa a não ser nada.

Mas a caminhada prossegue movida por um impulso místico.

Portadores de um germe oriental guardado num cofre céltico, os monges são detentores de tesouros esotéricos fundamentais.

Os Beneditinos dirigem os peregrinos para Oeste, alimentando assim o impulso da fé, o desenvolvimento da Ordem e a expansão cristã. Trata-se de Santiago de Compostela.

Vêm em seguida os Cistercienses, que não hesitam em se dirigirem simultaneamente em duas direcções, para o Sol nascente e para o Sol poente.

Os templários seguem as mesmas directrizes que os Cistercienses, tornando mais uma vez secretos os mistérios egípcios.




Mas apesar de se esforçarem por pôr as riquezas obtidas ao serviço de todos, por saberem que não era permitido que cada um possuísse pessoalmente uma parte, não conseguiram, ao contrário dos Egípcios, ter pelo ouro o respeito que merece e sagrá-lo repondo ao Sol, como Quéope, que ornou de ouro o cimo da grande Pirâmide.

Os Templários não souberam restituir ao ouro o seu trono solar. Foi o maior erro que cometeram.

Apesar de terem encontrado os meios de abastecer os cofres, limitaram-se a ampliar a massa de um metal demasiado comercializado.

Nele deixou de haver a quota-parte do Sol-Rei e o Graal desapareceu. Enquanto isto, muito mais longe em direcção ao poente, os Incas testemunhavam para com o ouro a mesma grandeza desinteressada que os Egípcios.

Mais tarde foi necessária a cobiça ignorante dos europeus do Oeste, que procuravam a renovação do materialismo, arrastados pela corrente nociva que o Renascimento tinha iniciado, para destruir cegamente esta civilização.

Ao fugirem de França, os Templários levaram para Oeste o tesouro que iria alimentar as esperanças de renovação.

Mas, segundo parece, só conseguiram embarcar sobre a Argo uma parte do Tosão, aquela que de um ponto de vista territorial dependia do controle celeste da constelação da Águia.

As riquezas que se encontravam abaixo de Burgos não puderam ser transportadas para além dos limites do Hexágono e julga-se que tenham ficado sujeitas a novas leis que impuseram que fossem escondidas.

Os cofres dos Templários transformaram-se em ataúdes.

Os locais escolhidos para esconderijos subterrâneos situam-se nas regiões em que os Gauleses se desfizeram do ouro de Delfos e onde os Visigodos confiaram à terra o tesouro de Alarico.

Chegamos portanto à conclusão de que, neste domínio, não houve qualquer evolução entre a época gaulesa e o século XIV, visto os Templários não terem trazido outra inovação além da forma de «re-nascer».

Seja como for, tudo nos leva a pensar que a cosmogonia dos Templários, e sobretudo a Cisterciense que está na sua origem, ultrapassou ligeiramente, movida pelo seu activismo impaciente, as leis dos dois Sóis – nascente e poente – que foram aplicadas simultaneamente devido a uma pressa imensa e a uma precipitação verdadeiramente nefasta.

E foram os Templários, precisamente porque possuíam a massa de metal catalisador, as vítimas das primeiras reacções, aliás as mais violentas.

Apesar de as repercussões terem sido menores para os Cistercienses, que eram possuidores do contravalor do ouro em bens de raiz, não deixaram de existir em relação a esta Ordem, que, de modo mais ou menos aberto, se erguera contra outro tipo de místicos – os Cátaros -, que, à semelhança dos Antoninos, souberam efectuar um regresso mental às origens do Sol nascente.

Castelo de Montségur


Os monges tinham tido como única finalidade dar apoio ao Papado, poder religioso mas também poder financeiro entre os maiores do mundo, apesar deste não ter vivido somente horas de fausto, como o prova a invenção das «cruzadas».

Depois de terem saído de França, os Templários ficaram ao serviço de Portugal, mas compreendemos agora bastante melhor, à luz destes comentários, qual foi a natureza fundamental dos erros que provocaram a extinção ulterior da Ordem e ao mesmo tempo o declínio do reino que lhes deu refúgio.

Depois do Reinado de D. Manuel I, o «Rei-Sol» dos Templários, construtor e arquitecto, Portugal deixou de ser capaz de consagrar ao Sol nascente as riquezas que as caravelas traziam do poente. A questão mística solar inverteu-se, provocando a perda do saber e da tradição. O caminho simbólico do Reinado de Prestes João passou a ser a rota materialista do comércio.

Tanto o Templo como a Pirâmide são exemplos de uma arquitectura erigida em honra do homem, para a sua evolução mental e para o colocar na devida correspondência espiritual por meio da sua própria projecção sobre uma abstracção.

A pedra é o médium que assegura a ligação entre o solo e o céu por intermédio do Sol, quando é dimensionalmente chamada à sagração por meio do côvado, medida vertical e feiticeiresca.

Embora a pedra – a carne da Terra – seja dotada de uma ressonância própria, adquire no Santo dos Santos uma finalidade mais perfeita quando se reveste de ouro.

Este ouro que coroa a arquitectura como no cimo da pirâmide de Quéope, ou que se adapta a uma superfície mural como no Templo de Jerusalém ou nos santuários maias, ganha com a luz uma eficiência ritmada e perfeitamente harmónica desde que se baseie no valor secreto do côvado.

Isto para o templo exterior, a fim de constituir o templo interior. É nesta altura que intervém a alquimia, cujas diversas correntes de inspiração e de iniciação se limitaram a seguir coordenadas permanentes, terrestres e solares, e as diversas correntes de influência mística.

Com a única diferença de se tratar de recriar um ouro palpável ou abstracto, não a partir das duas facetas do côvado – a medida concreta e a sombra visível -, mas a partir da vibração destas duas facetas, a hipotenusa, utilizada numa quarta dimensão. É a restituição do filho do Sol.

Dar ao ouro a forma de uma pedra – um lingote – é escondê-lo, é destruir o templo invisível, a pedra invisível (in ob. cit., pp. 197-200 e 225-230).


(17) Alcobaça situa-se a sessenta e cinco quilómetros para poente de Tomar e a meio caminho de Fátima.



Castelo de Tomar



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