domingo, 30 de outubro de 2011

Diotima de Mantineia (i)

Escrito por Platão






«O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel».

Platão


«Outrora, a nossa natureza não era como agora; era bem diferente. A princípio, havia três espécies de seres humanos, e não duas, como agora: o masculino e o feminino e, além destes, um terceiro, composto pelos outros dois, que veio a extinguir-se. Apenas nos resta a sua designação, pois a espécie desapareceu. Era a espécie andrógina, que tinha a forma e o nome das outras duas, masculina e feminina, das quais era formada: hoje, já não existe e não passa de uma designação pejorativa».


Aristófanes



«No seu aspecto mais profundo o eros incorpora um impulso tendente a vencer as consequências da queda, a sair do mundo "cessante" da dualidade, com o fim de restabelecer o estado primordial e ultrapassar a condição de uma existencialidade «dual», fracturada e condicionada pelo "outro". (...) Esta é, pois, a chave de toda a metafísica do sexo: "Através da díade para a unidade"».

Julius Evola



«Misterioso Afán! Mientras en todos los otros casos de la vida nada repugnamos tanto como ver invadidas por otro ser las fronteras de nuestra existencia individual, la delicia del amor consiste em sentir-se metafísicamente poroso para otra individualidad, de suerte que sólo en la fusión de ambas, sólo en una «individualidad de dos» halla satisfacción. (...) Sin embargo, no para en esto el anhelo de fusión. Cuando el amor es plenario culmina en un deseo más o menos claro de dejar simbolizada la unión en un hijo em quien se prolonguen y afirmem las perfecciones del ser amado. Este tercer elemento, precipitado del amor, parece recoger en toda pureza su esential sentido. El hijo ni es del padre ni de la madre: es unión de ambos personificada y es afán de perfección modelado en carne y en alma. Tenía razón el ingenuo Platón: el amor es anhelo de engendrar en lo perfecto, o como otro platónico, Lorenzo de Médicis, habia de decir: es appetito di bellezza».


José Ortega y Gasset



«Existe, pois, o amor "platónico", ainda quando o neguem os especialistas de psiquiatria. Poderia inclusivamente dizer que tão-só existe o amor "platónico". O que também habitualmente se logra chamar de amor pertence ao reino do intangível. Um só amor se nos revela: o amor por Beatriz, a adoração pela Madonna. Para o coito está destinada a prostituta babilónica».

Otto Weininger 




Discurso de Sócrates


Parthenon


(...) desejo relatar-vos um discurso sobre Eros que, há tempos, ouvi a uma mulher de Mantineia, Diotima, que era deveras sabedora destes assuntos e de muitos outros. Foi ela quem, outrora, oferecendo sacrifícios aos deuses, conseguiu protelar por dez anos a praga de peste que viria a assolar os atenienses. Com ela aprendi o que sei sobre Eros, e são as suas palavras que vou tentar reproduzir, partindo dos princípios em que Agatão e eu assentámos. Fá-lo-ei como puder, sem recorrer a qualquer interlocutor. Torna-se necessário que vos explique, em primeiro lugar, como tu próprio fizeste, caro Agatão, a natureza e os atributos de Eros e, em seguida, os seus actos. Creio que o mais fácil ainda é relatar-vos a conversação segundo a mesma ordem e o mesmo método interrogativo, utilizado pela estrangeira, ao fazer-me as perguntas. Também eu próprio lhe respondia mais ou menos as mesmas coisas que Agatão me respondeu: que Eros é um grande deus e o mais belo dos que existem. Então ela demonstrou-me, com os mesmos argumentos, há pouco apresentados por mim a Agatão, que Eros nem é belo, nem bom, como eu julgava que fosse.

Sócrates – Que dizes, Diotima, então Eros é feio e mau?

Diotima – Vê lá o que dizes! Julgas, por acaso, que o que não é belo deve ser necessariamente feio?

Sócrates – Com certeza!

Diotima – Julgas que quem não é sábio é ignorante, e desconheces que existe um meio-termo entre a sabedoria e a ignorância?

Sócrates – Que meio-termo é esse?

Diotima – Não sabes que a opinião acertada sem conveniente justificação não é sabedoria – pois como poderia uma coisa ser sabedoria se não sabemos fundamentá-la? E também não é ignorância, porque o que atinge a verdade não pode ser ignorância? A opinião verdadeira é, por conseguinte, como que um meio-termo entre a sabedoria e a ignorância.

Sócrates – Sinto que falas a verdade!

Diotima – Não concluas, então, apressadamente, que o que não é belo é feio, e que o que não é bom é mau. Assim se passa com Eros: não julgues, porque tu próprio reconheces que o que não é belo, nem bom, seja necessariamente feio ou mau. Ele é algo de intermédio entre estes dois extremos.

Sócrates – Todavia, toda a gente reconhece que Eros é um deus poderoso…

Diotima – Quando dizes «toda a gente» o que pretendes dizer: todos os ignorantes ou também os sábios?

Sócrates – Referi-me a toda a gente, sem excepção.

Diotima – Como, Sócrates – disse sorrindo – poderia ser reconhecido como um deus poderoso por aqueles mesmos que defendem que Eros não é um deus?

Sócrates – Quem são esses?

Diotima – Tu, em primeiro lugar, e eu própria, em seguida.

Sócrates – Que estás para aí a dizer?

Diotima – Nada que não possa demonstrar facilmente. Diz-me: não te parece que os deuses são felizes e belos? Ousarás defender que, entre os deuses, possa existir um que não seja belo e feliz?

Sócrates – Por Zeus, nunca!


Zeus






Diotima – Ora, os felizes não serão, conforme disseste, os que possuem as coisas boas e belas?

Sócrates – Seguramente!

Diotima – Mas reconheces que Eros, porque lhe faltam as coisas boas e belas, deseja aquilo de que carece?

Sócrates – Com efeito, reconheço-o.

Diotima – Nesse caso, como poderia ele ser um deus, uma vez que não participa, nem das coisas boas, nem das belas?

Sócrates – Não poderia ser um deus, parece-me…

Diotima – Nesse caso, já vês que também tu concordas em que Eros não é um deus!

Sócrates – Que poderia ser, então? Um mortal?

Diotima – Nada disso.

Sócrates – O que poderia ser, nesse caso?

Diotima – Pretendo dizer que é um demónio poderoso, Sócrates, e, com efeito, tudo o que é de natureza demoníaca representa o meio-termo entre os seres divinos e os seres mortais.

Sócrates – E quais são as qualidades de um demónio?

Diotima – O demónio interpreta e leva aos deuses o que é próprio dos seres humanos e traz aos homens o que é próprio dos deuses. As orações e os sacrifícios de uns, os mandamentos de outros e as recompensas pelos sacrifícios! Situado entre uns e outros, preenche este espaço intermédio, de maneira a manter unidas estas duas partes de um todo. É dele que procedem a arte divinatória, bem como as artes sacerdotais relativas aos sacrifícios, às iniciações, aos encantamentos e a toda a magia em geral. Os deuses não se aproximam dos homens, e é por intermédio deste demónio que os deuses estabelecem comunicação com os homens, seja durante a vigília, seja durante o sono. O homem que conhece estas coisas é de carácter demoníaco, inspirado, enquanto o homem que tem engenho para fazer qualquer outra coisa, arte ou ofício, não passa de um artífice. Os demónios são em grande número, de muitas espécies e, um deles, é Eros.

Sócrates – E quem foram os seus progenitores?

Diotima – É um pouco difícil responder, todavia, vou fazê-lo: quando foi do nascimento de Afrodite, os deuses reuniram-se para festejar o acontecimento com um banquete e, entre eles, encontrava-se Poros [o Engenho, filho de Métis, a Prudência]. No decorrer do banquete, Pénia [a Pobreza] chegou para mendigar os sobejos da mesa e, para isso, sentou-se à porta.


Afrodite


Entretanto, Poros, turbado pelo néctar que tinha bebido – nessa altura ainda não havia vinho – saiu para o jardim de Zeus e, atordoado como estava, adormeceu. Pénia, possuída pela indigência, teve a ideia de aproveitar o ensejo para conceber um filho de Poros que minorizasse a sua indigência. Deitou-se ao lado de Poros e, assim, concebeu Eros. Deste modo, Eros tornou-se o companheiro e escudeiro de Afrodite, porque foi concebido no mesmo dia do nascimento da deusa e, também, porque Eros é, por natureza, amante do belo e Afrodite é bela. Na qualidade de filho de Poros e de Pénia, Eros herdou caracteres de ambas as partes. Em primeiro lugar, é pobre, e, longe de delicado e belo como geralmente imaginamos, é rude, sujo, anda descalço, sem eira nem beira. Não tem outro leito além do chão, dorme ao ar livre, desagasalhado, junto às portas e nas ruas. Assim imita a indigência de sua mãe, indigência que é sua eterna companheira. Por outro lado, herdando a natureza do pai, vive à procura do belo e do bom; é bravo, audaz, ardente, filósofo, bom caçador, gastando muito tempo a filosofar, mago, habilidoso, e sofista. Por natureza não é mortal, nem imortal mas, num só dia, tão depressa se encontra pleno de vigor e belo, vivendo na abundância, como tão depressa morre, pois renasce por causa do dom natural que herdou da linha paterna. O que adquire escapa-lhe sem cessar, de maneira que nunca se encontra, nem na pobreza, nem na opulência. Eis porque Eros constitui o meio-termo entre a sabedoria e a ignorância.

Nenhum dos outros deuses filosofa, ou deseja tornar-se sábio, porque os deuses já são sábios e, em geral, os sábios não filosofam. Os ignorantes também não são filósofos, nem desejam tornar-se sábios, porque a ignorância caracteriza-se justamente por se julgar bem dotada, mesmo não possuindo, nem beleza, nem bondade, nem sabedoria. Ora, quando não pensamos que nos falta uma coisa, não a procuramos adquirir.

Sócrates – Quais são, neste caso, Diotima, os que filosofam, se não os sábios, nem os ignorantes?

Diotima – Uma criança compreenderia logo quem filosofa: são os que se encontram entre uns e outros, e Eros é um desses. Com efeito, a sabedoria encontra-se entre as coisas mais belas e Eros tem o amor das coisas belas, de onde se torna necessário que Eros filosofe e, se filosofa, é porque se encontra no ponto intermédio entre o sábio e o ignorante. A causa de assim ser está na sua origem, pois é filho de um pai sábio e pleno de recursos e de mãe sem saber, sem recursos.

Eis meu caro Sócrates, qual a natureza desse demónio.

Quanto à maneira pelo qual representavas Eros, o teu caso nada tem de estranho, pois julgavas, segundo posso conjecturar pelo que dizias, que Eros é o objecto amado e não o sujeito amante. Eis porque penso que tu o imaginavas assim tão belo. Efectivamente, o amável é o realmente belo, delicado, perfeito, feliz; mas o que ama tem outra essência, aquela que acabei de expor-te.

Sócrates – Devemos render-nos aos teus argumentos, estrangeira, porque são sábios, mas, sendo Eros tal como acabaste de dizer, que utilidade tem para os homens?

Diotima – É isso justamente, Sócrates, o que vou tentar explicar-te agora.

Conheces a natureza e a origem de Eros e reconheces, tu mesmo, que Eros consiste no amor do belo mas, se nos perguntassem: - por que motivo, Sócrates e Diotima, Eros é o amor do belo? Ou, para ser mais clara: o que se deseja ao amar o belo?


Eros e Afrodite


Sócrates – Com certeza que se deseja possuí-lo…

Diotima – Essa resposta sugere-me outra pergunta: o que possuirá quem chegar a possuir o belo?

Sócrates – Não sei o que responder… já disse.

Diotima – Mas se, por exemplo, substituirmos a palavra belo por bem, e perguntássemos: o que deseja quem ama o que é bem?

Sócrates – Possuí-lo.

Diotima – Mas o que possuirá quem possuir o bem?

Sócrates – A resposta é difícil, conquanto mais acessível: será feliz!

Diotima – Exactamente, porque é na posse do bem que consiste a felicidade e, por isso, já não se torna necessário perguntar os motivos pelos quais quem deseja a felicidade pretende ser feliz. Chegámos ao termo da questão, julgo.

Sócrates – Está certo.

Diotima – Mas, essa vontade, esse amor, são eles, no teu entender, comuns a todos os homens e todos querem, igualmente, possuir o que é bem? O que te parece?

Sócrates – Penso que são comuns a todos os homens.

Diotima – Neste caso, Sócrates, porque não dizermos que todos os amam, pois todos amam sempre as mesmas coisas? Porque havemos de dizer que uns amam e outros não?

Sócrates – Realmente isso é para admirar!

Diotima – A tua admiração resulta do facto de aplicarmos a uma espécie particular de amor o nome do género por inteiro, enquanto que, para as outras espécies, nos servimos de outras designações diferentes.

Sócrates – Por exemplo?

Diotima – Eis um: sabes que a palavra poesia é de múltiplo significado. Geralmente chama-se poesia à causa que torna possível a passagem de qualquer coisa do não-ser ao ser, de maneira que as criações de todas as artes são poesia, e que os criadores são poetas!

Sócrates – É verdade!



Diotima de Mantineia



Diotima – Todavia, bem sabes que não se chama poetas a todos eles, e que há outras designações, que só uma pequena parte, relativa à arte musical e à arte versificatória, é chamada pela designação do género; pois esta parte chama-se poesia e os que a cultivam chamam-se poetas.

Sócrates – Efectivamente assim é.

Diotima – O mesmo acontece com o amor; geralmente, o desejo do bem e da felicidade, sob qualquer forma, é o que para toda a gente significa o grande e industrioso Eros. Há muitas maneiras de nos entregarmos ao amor, e dos que procuram ganhar dinheiro, dos que se dedicam à ginástica e à filosofia, ninguém diz que sejam amantes, nem amados. Contudo, há uma espécie particular de amor cujos adeptos e seguidores recebem o nome do género, por inteiro: amor, amar, amantes…

Sócrates – Parece-me que tens razão!

Diotima – Por vezes, diz-se que os que amam procuram a sua própria metade. Eu digo, meu caro, que amar não consiste em procurar, nem a metade, nem o todo de si mesmo, a menos que isso seja o Bem. Os homens estão preparados para cortar os seus próprios pés e mãos, se virem que essas partes do corpo lhes são prejudiciais, pois, se esta metade e este todo não forem bons, qualquer homem consentirá em deixar que lhos extirpem. Não amamos o que é nosso só pelo facto de ser nosso, a menos que tenhamos por bem o que nos pertence, e por mau o que é alheio. Os homens não amam senão o que lhes parece bom! Não és da minha opinião?

Sócrates – Sim, por Zeus!

Diotima – Nesse caso, pode dizer-se, muito simplesmente, que os homens amam o que é bom?

Sócrates – Podemos.

Diotima – Mas não será necessário acrescentar que os homens também desejam possuir o que é bom?

Sócrates – Também.

Diotima – Nesse caso, o amor será, em suma, o desejo de possuir sempre o bem?

Sócrates – Perfeitamente.

Diotima – Se o amor, em geral, é o amor do bem, como, e em que casos, os que perseguem a posse do bem, devem praticá-lo? Em que consiste esta operação essencial? Podes dizer-me?

Sócrates – Se o soubesse, Diotima, não estaria perante a tua sabedoria e não viria a tua casa para me instruir, precisamente sobre estes assuntos.

Diotima – Então, vou dizer-te: é a criação da beleza segundo o corpo e o espírito.

Sócrates – É preciso adivinhar para compreender o que disseste. Não compreendo.



As três Meras (Moirai) ou Parcas do nascimento, do casamento e da morte.


Diotima – Ora bem; vou falar mais claramente: todos os homens são fecundáveis, Sócrates, segundo o corpo e o espírito. Quando chegamos à idade própria, a nossa natureza sente o desejo de gerar, mas não pode gerar no feio, não pode gerar a não ser no belo e, com efeito, a união do homem e da mulher é um acto de geração, de procriação. É uma obra divina, e o ser mortal participa da imortalidade através da fecundação e da procriação. Todavia, estes actos não se realizam no que não possui harmonia. O feio não se harmoniza com o divino, enquanto o belo se harmoniza. A Beleza preside à geração, como Moira e Ilitia. Assim, quando o ser, impulsionado pelo desejo da procriação, se aproxima do belo, sente o desejo e o prazer aumentarem e concebe. Em contrapartida, quando se aproxima do feio, retrai-se, contrai-se e, triste, não fecunda. Guarda o germe e sofre. Daí resulta a mudança, que se verifica no ser fecundo e viril, em presença do belo, pois este o liberta do sofrimento do desejo, porque o amor, Sócrates, não é o amor do belo, como antes julgavas…

Sócrates – Que é então?

Diotima – É o desejo de geração e procriação no belo!

Sócrates – Admito que seja…

Diotima – Pois admite sem reserva, porque nada é mais verdadeiro. Qual é a importância da procriação? Para um mortal é uma possibilidade de imortalidade, de eterno, pois o amor é o desejo da perpétua posse do bem. Segue-se por consequência, que Eros é igualmente o desejo da imortalidade! (in O Simpósio, Guimarães Editores, 1986, 201d - 207a).

Continua


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Amor Cortês: trovadores e cátaros

Escrito por Denis de Rougemont






«Mais vale casar do que abrasar».

São Paulo («Epístola aos Coríntios»).


«Amor não é amor; Amor é Anti-Roma».

Sampaio Bruno («Os Cavaleiros do Amor»).


«Amor, anti-Roma, não vem com a Igreja Romana; vem com a Roma cesarista e cesarina. (...) Tanto Bruno como Pascoaes leram a tradição anti-Roma como dirigida à Igreja romana, mas, ao que julgamos, a tradição anti-Roma é anterior à cristianização peninsular. O carácter anti-Roma eclesial só lhe foi dado, por antonomásia, no movimento albigense, nunca antes».


Pinharanda Gomes («A Patrologia Lusitana»).


«A poesia dos trovadores, que se aclimou entre nós durante o reinado de D. Afonso III, tem origens imprecisas que tanto podem ser atribuídas à poesia árabe como à poesia provençal».

Álvaro Ribeiro («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica»).



«Aquele que ama, que se abstém de tudo o que é interdito, que guarda o seu amor secreto e que morre de seu segredo, esse morre mártir».


(Versículo do Al-Quran).



«Em Portugal, o catarismo foi tão episódico como, mais tarde, o protestantismo. É inegável, porém, que as cantigas d'amor e só as cantigas d'amor podem ser interpretadas como cifras da iniciação cátara: o amor que nasce é um mal que ensandece; a afinidade do amor com a morte; a recusa por parte da amiga de se entregar ao amigo, que a deseja fisicamente; e tudo o mais pode ser referido à endura, termo que, aliás, os poetas galaico-portugueses usam para caracterizar a paixão. Pelo contrário, nas cantigas d'amigo, em que várias vezes vem referida a consumação do acto sexual, onde nunca o marido aparece como obstáculo à união dos amantes, mas a mãe (o que faz supor tratar-se de raparigas solteiras), onde a natureza conspira com os amantes na realização do amor, parece residir a cifra doutro tipo de iniciação erótica, que subsistiria ao lado e ao mesmo tempo do catarismo importado com as cantigas d'amor. Os investigadores portugueses que trataram do assunto, de Rodrigues Lapa a Natália Correia, atribuíram às cantigas d'amigo um fundo pagão, especificamente celta, que explicará a ressonância naturalista. Hernâni Cidade, procurando fontes mais próximas, sugere uma origem em Prisciliano nas cantigas d'amigo».


António Telmo («História Secreta de Portugal»).








«O voi, ch’avete gl’intellectti sani
Mirate la dottrina che s’asconde
Soto’l velame versi strani».

Dante Alighieri


«Oh vós, qu’Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades, quando lerdes
N'um breve livro, casos tão diversos,
Verdades puras são, e não defeitos;
Entendei que, segundo o Amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos».

Luís de Camões («Os Lusíadas»).



«Ved cómo Platón va derecho, sin vacilaciones, y agarra com sus pinzas mentales el nervio tremebundo del amor. "El amor – dice – es un anhelo de engendrar en la belleza". Qué ingenuidad! – dicen las damas doctoresas en amor, tomando sus cocktails en todos los hoteles Ritz del mundo. No sospecham las damas la irónica complacência del filósofo cuando ante sus palabras ve saetear en los ojos encantadores de las damas esa atribución de ingenuidad. Olvidam um poco que quando el filósofo les habla sobre el amor, no les hace el amor, sino todo lo contrario».


José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).







O Amor Cortês: trovadores e cátaros

Que toda a poesia europeia tenha saído da poesia dos trovadores no século XII, é um facto que ninguém contestará. «Sim, entre os séculos XI e XII, a poesia, donde quer que fosse (húngara, espanhola, portuguesa, alemã, siciliana, toscana, genovesa, pisana, picarda, flamenga, inglesa, etc.) fora previamente languedociana, isto é, o poeta, não podendo ser senão trovador, era forçado a falar – e a aprendê-la se a não soubesse - a língua do trovador, que sempre foi o provençal» (1).

Que é a poesia dos trovadores? A exaltação do amor infeliz. «Há em toda a lírica occitana e na lírica de Dante e de Petrarca um só tema: o amor; e não o amor feliz, realizado ou satisfeito (espectáculo que nada pode engendrar) mas, pelo contrário, o amor perpetuamente insatisfeito; ou seja, apenas duas personagens: o poeta que, oitocentas, novecentas, mil vezes, reedita a sua queixa e uma bela que diz sempre que não».

A Europa não conheceu poesia mais profundamente retórica: não só nas suas formas verbais e musicais, como também, por paradoxal que isso pareça, na sua própria inspiração, uma vez que esta tem como fonte um sistema fixo de leis que serão codificadas sob o nome de leys d’amors. Mas deve também dizer-se que nunca a retórica foi mais exaltante e ardente. O que ela exalta é o amor fora do casamento, porque o casamento significa apenas a união dos corpos, enquanto o «Amor», que é o Eros supremo, é o transporte da alma para a união luminosa, para lá de todo o amor possível nesta vida. Eis por que o Amor supõe a castidade. E d’amor mou castitaz (de amor vem castidade), canta o trovador de Toulouse, Guilhem Montanhagol. O amor supõe também um ritual: o domnei ou donnoi, vassalagem amorosa. O poeta conquista a sua dama pela beleza da sua homenagem musical. Jura-lhe, de joelhos, uma eterna fidelidade, como se faz a um suserano. Como garantia de amor, a dama dava ao seu poeta-paladino um anel de oiro, ordenando-lhe que se erguesse e depondo-lhe um beijo na fronte. A partir daí, os amantes estão ligados pelas leis da cortesia: o segredo, a paciência e a «mesura» que não é totalmente sinónimo de castidade, como veremos, mas antes de contentação… E, sobretudo, o homem será o servo da mulher.



Denis de Rougemont


Donde vem essa concepção nova do amor «perpetuamente insatisfeito» e esse louvor entusiasta e queixoso de «uma bela que diz sempre que não»? E donde vem esse sábio lirismo que de repente aí se encontra para traduzir a nova paixão?

Não será exagerado sublinhar o carácter miraculoso deste duplo nascimento, tão rápido: no espaço de cerca de vinte anos, nascimento duma visão da mulher inteiramente contrária aos costumes tradicionais – a mulher vê-se elevada acima do homem, para quem se torna o ideal nostálgico – e nascimento duma poesia de formas fixas, muito complicadas e requintadas, sem precedente em toda a Antiguidade nem nos poucos séculos de cultura românica que se sucedem ao renascimento carolíngio.

Ou tudo isso «cai do céu», quer dizer, brota duma inspiração súbita e colectiva – mas ainda seria necessário explicar porque é que se produziu em dado momento e dados locais bem definidos; ou tudo isso resulta duma causa histórica concreta, - e então trata-se de saber por que razões ela permaneceu obscura até aos nossos dias.

O que é extremamente curioso é o embaraço dos romanistas mais sérios logo que chegam a reconhecer a questão, e a facilidade com que decidem não responder.

Toda a gente admite hoje em dia que a poesia provençal, e as concepções do amor que ela ilustra, «longe de se explicar pelas condições em que nasceu, parece em contradição absoluta com essas condições» (2). «É evidente que ela não reflecte de modo algum a realidade, já que a condição da mulher não foi, nas instituições feudais do Sul, menos humilde e dependente que nas do Norte» (3). Ora, se é «evidente» a esse ponto que os trovadores não colhiam nada da realidade social, parece não menos evidente que a sua concepção do amor tem outra origem. Qual poderia ela ser?

A mesma pergunta se põe em relação à sua arte, quer dizer, à sua técnica poética. «Criação extremamente original», escreve Jeanroy (mesmo que censure a cada um destes poetas, tomado separadamente, não terem mostrado nenhuma espécie de originalidade e se terem limitado a apurar formas fixas e lugares-comuns: mas ainda era preciso que um deles, pelo menos, as tivesse criado!». Ora desde que um historiador se arrisca a formular uma hipótese sobre a origem da retórica cortês, os especialistas cumulam-no das mais ácidas ironias, sobretudo em França.

Sismondi fazia remontar aos Árabes o misticismo do sentimento: afasta-se desdenhosamente «essa enormidade» (4). Diez mostrou as semelhanças de forma (ritmos e cortes) entre a lírica árabe e a lírica provençal: não é sério, dizem-nos. Brinkmann e outros supuseram que a poesia latina dos séculos XI e XII podia ter fornecido modelos: bem vistas as coisas, essa hipótese não é sustentável porque os trovadores, parece, não tinham suficiente cultura para conhecer essa poesia. E assim, para cada resposta proposta, a «seriedade» dos sábios parece consistir sobretudo numa propensão para qualificar de enormidade ou de fantasia tudo o que ameace dar um sentido ao fenómeno que passam a vida a estudar.




É certo que Wechssler, numa obra famosa (5), julgou poder esclarecer tudo distinguindo na origem da lírica provençal influências religiosas, neoplatónicas e cristãs adulteradas… Mas essas «afirmações ousadas» em breve ergueram contra si o conjunto dos nossos eruditos. Wechssler viu-se tratado de «doutrinário» - suprema injúria – e vários insinuaram que a qualidade de alemão desse professor os dispensava de refutar um sistema incompatível com o claro génio da nossa raça.

Resta, portanto, dum lado um fenómeno estranho e, doutro, sábias refutações de tudo o que pretenda explicá-lo. «É igualmente possível – escreve um dos nossos professores – ver nessas canções de amor, que constituem três quartas partes da poesia provençal, uma imagem fiel da realidade e uma pura colecção de fórmulas vazias de sentido». Sem dúvida. Mas aí o autor anuncia que, como «historiador escrupuloso», evita pronunciar-se. O que equivale a dizer que a lírica cortês de que se ocupa permanece a seus olhos, e até haver mais ampla informação, «uma colecção de fórmulas vazias de sentido». Excelente «material» é certo, para um filólogo que se preze e que não queira «forçar» os textos, nem sequer pela menor tentativa de os compreender.

Pela minha parte não poderei contentar-me com uma hipótese a tal ponto escrupulosa. Recuso-me a supor um só momento que os trovadores foram uns fracos de espírito, apenas bons para repetir incansavelmente fórmulas aprendidas não se sabe de onde. E a mim mesmo pergunto, depois de Aroux e Péladan, se o segredo de toda essa poesia não deveria ser procurado muito mais próximo dela do que se tem feito – lá mesmo: lá, no próprio meio em que ela nasceu. E não no meio puramente «social» no sentido moderno, mas sim na atmosfera religiosa que determinava as formas, mesmo sociais, desse meio (6).

Partindo daí, verificamos que um grande facto histórico domina o século XII provençal.

Ao mesmo tempo que o lirismo do domnei e nas mesmas províncias – Languedoc, Poitou, Renânia, Catalunha – uma heresia poderosa se desenvolvia. Pôde dizer-se da religião cátara que ela representou para a Igreja um perigo tão grave como o do arianismo. Não vão alguns ao ponto de pretender que ela fez no Ocidente milhões de fiéis secretos, apesar de tão sangrenta cruzada dos Albigenses no século XIII e até à Reforma?

Pode atribuir-se como origem precisa da heresia as seitas neo-maniqueístas da Ásia Menor e as Igrejas bogomiles da Dalmácia e da Bulgária. Os «puros» ou cátaros (7) ligam-se às grandes correntes gnósticas que atravessam o primeiro milénio do cristianismo. E sabemos bem que a Gnose, assim como as doutrinas de Mani ou Manés, mergulha as raízes na religião dualista do Irão.

Qual era a doutrina dos cátaros? Longamente se repetiu que «nunca se saberá», e isso pela excelente razão de que a Inquisição queimou todos os livros de culto e tratados da doutrina da Heresia e que os únicos testemunhos subsistentes eram os interrogatórios pelos escrivães. De facto, a descoberta e a publicação, em 1939, duma obra teológica (tardia, é certo) o Livre des deux Principes (8), acrescentada à recuperação dum Novo Testamento e de rituais utilizados pelos Heréticos (9), permite hoje conhecer, no seu conjunto e em algumas das suas variantes, os dogmas da «Igreja de Amor», nome que por vezes se deu à heresia também chamada «albigense» (10).

A origem permanente e sempre tragicamente actual da atitude cátara ou, duma maneira mais geral, do dualismo nas religiões mais diversas, como na reflexão de milhões de indivíduos, foi e permanece o problema do Mal, tal como o homem espiritual o experimenta neste mundo.






O cristianismo traz ao problema uma resposta dialéctica e paradoxal que se resume nas palavras liberdade e graça. Mais pessimista e duma lógica mais maciça, o dualismo estabelece a existência absolutamente heterogénea do Bem e do Mal, quer dizer, de dois mundos e de duas criações. Com efeito, Deus é Amor mas o mundo é mau. Portanto, Deus não poderia ser o autor do mundo, das suas trevas e do pecado que nos rodeia. A sua primeira criação na ordem espiritual, depois anímica, foi terminada na ordem material pelo Anjo revoltado, o Grande Arrogante, o Demiurgo, isto é, Lúcifer ou Satanás. Este tentou as Almas ou Anjos dizendo-lhes «que mais lhes valia estar cá em baixo, onde podiam praticar o mal e o bem, do que lá em cima, onde Deus só lhes permitia o bem» (11). Para melhor seduzir as Almas, Lúcifer mostrou-lhes «uma mulher duma beleza esplendorosa que os inflamou de desejo». Depois deixou o Céu com ela para descer para a matéria e para a manifestação sensível. As Almas-Anjos seguiram Satanás e a mulher duma beleza esplendorosa, foram presas em corpos materiais que lhes eram e permanecem estranhos. (Esta ideia parece-me esclarecer uma sensação fundamental do homem, mesmo em nossos dias). A alma, a partir de então, encontra-se separada de seu espírito, que permanece no Céu. Tentada pela liberdade, torna-se de facto prisioneira dum corpo com apetites terrestres, submetido às leis da procriação e da morte. Mas Cristo veio até nós para nos mostrar o caminho de regresso à Luz. Esse Cristo, nisso semelhante ao dos Gnósticos e ao de Manés, não incarnou verdadeiramente: apenas tomou a aparência dum homem. É aqui que reside a grande heresia docetista (do grego dokesis, aparência) que, de Marcião até aos nossos dias, traduz a nossa recusa «natural» em admitir o escândalo dum Deus-Homem. Os Cátaros rejeitam portanto o dogma da Encarnação e, a fortiori, a sua tradução romana no sacrifício da missa: eles substituem-no por uma ceia fraterna simbolizando acontecimentos puramente espirituais. Rejeitam também o baptismo pela água e não reconhecem senão o baptismo pelo espírito consolador: esse consolamentum tornou-se o rito maior da sua Igreja. Este era dado, a quando de cerimónias de iniciação, aos irmãos que aceitavam renunciar ao mundo e se comprometiam solenemente a consagrar-se unicamente a Deus, a jamais mentir nem prestar juramento, a não matar nem comer animal algum, e finalmente a abster-se de todo o contacto com suas mulheres, se fossem casados. Parece que um jejum de quarenta dias (12) precedia a iniciação e que um outro de duração igual se lhe sucedia (mais tarde, no século XIV, esse jejum ritual ou endura conduzirá alguns dos «puros» até à morte voluntária, morte por amor de Deus, consumação do desapego supremo de toda a lei material). O Consolamentum era administrado pelos bispos e comportava a imposição de mãos, no meio do círculo dos «puros», seguido do beijo da paz trocado pelos irmãos. Após o que o iniciado era objecto de veneração para os simples crentes não ainda «consolados»: tinha direito à «saudação» dos crentes, isto é, a três «reverências».

Viu-se o papel da Mulher, engodo do Diabo para arrastar as almas para os corpos. Em contrapartida (em compensação, dir-se-ia), um princípio feminino, pré-existente à criação material, desempenha no catarismo um papel análogo ao da Pistis-Sophia nos gnósticos. À Mulher, instrumento de perdição das almas, responde Maria, símbolo da pura Luz salvadora, Mãe intacta (imaterial) de Jesus e, parece, Juiz cheio de doçura dos espíritos libertados.

Os maniqueístas conheciam há séculos os mesmos sacramentos que os Cátaros: a imposição das mãos, o beijo da paz e a veneração dos Eleitos (ou «puros»). É importante mencionar aqui a veneração maniqueísta dirigida à «forma de luz» que em cada um representa o seu próprio espírito (que permaneceu no Céu, fora da manifestação) e que acolhe a homenagem da sua alma por uma saudação e um beijo.


Lúcifer

Sendo o inferno a prisão da matéria, Lúcifer, anjo revoltado, não pode aí reinar a não ser durante o tempo que durar o «erro» das almas. No termo do ciclo de suas provas – comportando várias vidas, físicas ou outras, para os homens ainda não iluminados – a criação será reintegrada na unidade do Espírito original, os pecadores arrastados por Satanás serão salvos e o próprio Satanás entrará de novo na obediência do Altíssimo.

O dualismo dos Cátaros resolve-se portanto num verdadeiro monismo escatológico, enquanto a ortodoxia cristã, decretando a condenação eterna do Diabo e dos pecadores endurecidos, conduz a um dualismo final, se bem que, ao contrário do maniqueísmo, ela professe a ideia duma criação única, divina e boa na origem.

Notemos finalmente este último aspecto: como sucedeu com tantas seitas e religiões orientais – jainismo, budismo, essenismo, gnosticismo cristão – a Igreja cátara dividia-se em dois grupos: os «Perfeitos» (perfecti) (13) que haviam recebido o consolamentum, e os simples «crentes» (credentes ou imperfecti). Só os segundos tinham o direito de se casar e de viver no mundo condenado pelos puros, sem se submeterem a todos os preceitos da moral esotérica: mortificações corporais, desprezo pela criação, dissolução de todos os laços mundanos.

São Bernardo de Claraval (citado por Rahn) pôde dizer dos Cátaros, que todavia combatia com todas as suas forças: «Não houve certamente sermões mais cristãos que os deles e seus costumes eram puros…».

Este juízo redime, em parte, as calúnias da Inquisição. Mas admiramo-nos de ver este Santo doutor qualificar de «cristã» uma prédica que nega vários dos dogmas fundamentais da sua Igreja. Quanto à pureza dos costumes dos Cátaros, vimos que ela traduzia crenças muito diferentes das que fundamentam a moral cristã ortodoxa. A condenação da carne, onde alguns julgam ver hoje uma característica cristã, é na verdade de origem maniqueísta e «herética». Porque, é essencial notá-lo aqui, a «carne» de que fala São Paulo não é o corpo físico mas o total do homem não crente, corpo, razão, faculdade, desejos – e portanto também a alma.

A cruzada dos Albigenses, conduzida pelo Abade de Cister no princípio do século XIII, destruiu as cidades dos Cátaros, queimou os seus livros, massacrou e queimou as populações que os amavam, violou os seus santuários e o seu último lugar sagrado, o castelo-templo de Montségur (14) – ou seja, saqueou brutalmente a civilização tão requintada de que tinham sido a alma austera e secreta. E, contudo, dessa cultura e de suas doutrinas fundamentais somos ainda tributários, para lá do que se possa imaginar…


Dante herético?






Independentemente dos trabalhos muito sérios de um Asín Palacios sobre uma possível influência da mística sufi na Comédia, pode ter interesse citar a tese difícil e um pouco ousada de dois autores do século passado: Eugène Aroux e, depois dele, Péladan. Aroux expõe o resultado das suas induções, numa obra, hoje em dia praticamente impossível de encontrar, intitulada: Dante, révolutionnaire, hérétique et socialiste (1854). Dante não só fazia parte da Ordem dos Templários, mas a ordem teria estado ligada à heresia cátara – apesar das aparências – como o braço secular à autoridade espiritual. Então, toda a Comédia, o Convívio e até o De vulgari eloquentia deveriam ser interpretados simbolicamente. Num opúsculo posterior, Aroux concretiza a sua interpretação. O título da brochura é significativo: Clef de la Comédie anticatholique de Dante Alighieri, Pasteur de l’Église albigeoise de la ville de Florence, afflié à l’ordre du Temple – donnant l’explication du langage symbolique des fidèles d’Amour dans les compositions lyriques, romans et épopées chevaleresques des troubadours (1856). É um léxico que dá o sentido de cerca de 500 palavras, como por exemplo:

«Árvores mortas». – Os católicos. Os trovadores chamavam aos membros do clero católico árvores outonais mortas.

«Albigenismo, Albigense». – Palavras que não se encontram na Comédia, mas cuja ideia está sempre presente.

«Damas». – Os iniciados do templarismo albigense que, por um desdobramento místico de alma e corpo, se supunha terem os dois sexos, homens enquanto corpo e forma material, e mulheres enquanto inteligência e pensamento livre da união com a miséria.

«Lancelote». - «(…) Foi preciso que os decifradores dos velhos manuscritos tivessem uma preocupação total com a letra para não terem visto em toda a literatura que passou sob os seus olhos senão contos sem sentido, com difusão europeia, e amores de uma pureza angélica a serem imitados como modelo pelas raças futuras!».

Não vou examinar estas «explicações», por vezes muito penetrantes, outras muito arbitrárias. Mas a história literária e religiosa confirmou, mais tarde, a exactidão de muitos dos pontos de vista de Aroux. (Gaston Paris quando estabeleceu em 1880 a filiação trovadores-troveiros-romance bretão; Asín Palacios quando retomou o problema da heresia em Dante, etc.) [in O Amor e o Ocidente, Vega, pp. 64-71 e 298-99).


Notas:

(1) Charles-Albert Cingria, Ieu oc tan (em Mesures, n.º 2, 1937). «Provençal» quer realmente dizer aqui: tolosino.

(2) A. Jeanroy, La poésie lyrique des troubadours, 1934.

(3) A. Jeanroy, Introdução a uma Anthologie des Troubadours, 1927.

(4) Jeanroy, La poésie lyrique des trobadours, I, p. 69.

(5) E. Wechssler, Das Kulturproblem des Minnesangs, Halle, 1909.

(6) Foram tentadas algumas explicações sociológicas da «cortesia». Ligam-se a suposições – muitas vezes contraditórias – sobre a condição da mulher no Languedoc. Vernon Lee, por exemplo, num ensaio intitulado Medieval Love, diz que nas cortes medievais havia «uma enorme preponderância numérica de homens», dos quais poucos podiam casar. Daí a idealização do objecto de um desejo tão difícil de satisfazer. Podemos aceitar a informação mas no fundo nada explica de exacto sobre a retórica cortês.

(7) Cátaro vem do grego catharoi, puros.


Castelo de Montségur

(8) Liber de duobus principiis, publicado por A. Dondaine, O. P., Roma, 1939. Dondaine e Arno Borst datam este tratado da segunda metade do século XIII.

(9) Cf. La Cène secrète publicada por Döllinger em Munique em 1890.

(10) Foram recentemente publicadas três obras importantes sobre o catarismo: Études manichéennes et cathares, de Déodat Roché (1952); Le Catharisme, de René Nelli, Charles Bru, cónego de Lagger, D. Roché, L. Sommariva (1953); Die Katharer, de Arno Borst (1953). Esta terceira obra opõe-se em muitos pontos às duas primeiras, mas o seu confronto é muito esclarecedor quanto à natureza exacta, evolução e complexidades da heresia.

(11) Cf. Prière cathare, citada por Döllinger. Repare-se que a liberdade do homem, o poder de praticar o mal ou o bem, teria a sua origem não em Deus mas no Diabo.

(12) Este número é arquetípico. Jesus permaneceu quarenta dias no Deserto. Os Hebreus erraram durante quarenta anos entre o Egipto e a Terra Prometida. O Dilúvio foi provocado por uma chuva de quarenta dias. No tantrismo budista, o «serviço» da Mulher está dividido em provas de quarenta dias, etc. Quarenta é o número da Provação.

(13) A expressão «perfeitos» só a encontramos nos registos da Inquisição. A palavra «bonshommes» (ou simplesmente cristãos) parece ter sido utilizada pelos próprios Cátaros, e «perfeitos» teria um sentido irónico.

(14) Ver o excelente trabalho de Fernand Niel, Montségur, la montagne inspirée, 1955. «Se Montségur não era o castelo do Graal [como afirmava Rahn], nenhum outro na Europa se adapta melhor do que ele às lendas graálicas». Para F. Niel o problema levantado por Rahn continua por solucionar. Acrescento que os adversários mais violentos desta hipótese são os que não conhecem o local de Montségur. O choque emocional provocado pela fantástica aparição do pico sagrado contém uma evidência de ordem diferente da que as «provas» escritas podiam trazer.






sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O romance (ii)

Escrito por Álvaro Ribeiro



Sacada da casa dos Capuleto

Não pode o romancista cingir-se às breves frases da narrativa erótica, que está ao alcance dos naturalistas; não lhe cumpre chamar a atenção para o instinto animal, que o composto humano contém, porque mais alta é a finalidade da arte; o verdadeiro romance tem de simbolizar o regresso ao paraíso perdido, por consequência da redenção. Depois de demonstrar que o matrimónio é um sacramento, cumprir-lhe-á demonstrar que é também um mandamento. Há gestos simbólicos, e mal vai ao romancista que não saiba apreciar o simbolismo das mãos.

A fisiognomia das mãos atingiu um desenvolvimento tal em alguns estudiosos que vai ao ponto de legitimar conjecturas divinatórias, como na quiromancia, mas é susceptível de verificação experimental em alguns aspectos de grafologia. Mau observador será, porém, aquele que não souber ver nas mãos alheias os sinais evidentes do trabalho ou da ociosidade, do asseio ou do desleixo, da generosidade ou da avareza. A alma humana imprime no corpo das mãos o que nem sempre exprime pela palavra sincera, clara e eloquente.

Relacionada com a fisiognomia das mãos, dá-nos as ciência de Crépieux-Jamin seguros elementos para estudo do carácter humano. A palavra escrita apresenta com maior ou menor descontinuidade as vicissitudes da palavra falada e pensada. A caligrafia feminina, com seus desenhos rítmicos que lembram a arte da rendilheira e da bordadora, contrasta à primeira vista com a caligrafia masculina, cuja regularidade significa o trabalho sóbrio e certo de quem reflecte antes de agir.

A oposição mais clara da grafologia não é a que está referida aos sexos, porque a alteração das idades e de situações sociais determina muito maiores diferenças nos outros grupos humanos. A assinatura ilegível do «senhor muito importante», que desdenhosamente subscreve um texto dactilografado por outrem, representa o termo oposto à assinatura desenhada pela modéstia do jovem que ainda presta culto à caligrafia. Entre os opostos, ou contrários, um movimento existe que, devidamente conhecido, permitirá dar estrutura científica à grafologia.

O romancista que não descreve as mãos dos amantes, e que não caracteriza os respectivos manuscritos, segundo a nomenclatura usual dos livros de grafologia, falta a um dos preceitos da arte, e jamais compreenderá o simbolismo que a interferência dos anéis confere às cerimónias de noivado e casamento. É fácil defender a ignorância alegando que no caso se trata de acaso ou de convenções sociais. A estética é a leitura dos símbolos, e sem estudos de estética não será possível interpretar as ordens de mediação entre a antropologia e a cosmologia.

Nem a antropologia pura, nem a pura cosmologia, são ciências capazes de explicar isoladamente a verdade do amor. Só no domínio intermediário entre o Homem e a Natureza, no vago domínio em que a palavra intercala a Cultura, é possível ver como se imanentiza aquela transcendente realidade. A consciência do amor é-nos dada, por isso, em condições adversas à facilidade rítmica da vida erótica, para nos impor obstáculos que exigem superação.

Verona: cidade italiana de Romeu e Julieta




Ao romancista não satisfaz definir a oposição de sexo, de idade e de condição social. Há-de marcar também a oposição das índoles, dos temperamentos e dos caracteres, segundo uma terminologia científica, discernir na oposição os rasgos compatíveis e incompatíveis, enunciar as leis do mútuo comportamento dos amantes perante um obstáculo exterior. Se o romance não concretizar até à visualidade as diferentes feições antropológicas, se descrever apenas linhas esquemáticas, realizará apenas uma abstracção, nunca atingirá o plano da obra de arte.

Compete ao historiador da literatura, e ao crítico da literatura, examinar se o romancista conhece ou não os nexos reais da biotipologia, com a fisiognomia e com a caracterologia, e verificar se ele aplica as leis da contrariedade, da polaridade e da oposição dos temperamentos. Estas leis alteram o comportamento normal dos tipos sociais, e concorrem para ocasionar o imprevisto da narrativa. Os escritores que não cultivam a precisão fisiognómica poderão conduzir arbitrariamente a acção das personagens, mas por isso mesmo vão perdendo as maiores probabilidades de êxito artístico; os escritores que ignoram a caracterologia incorrem no erro maior de conduzir as personagens para situações absurdas, falsas ou contraditórias.

O tema central do romance, o motivo de interesse para o leitor, a causa profunda do romancista é, sem dúvida, a contradição, o impedimento à vida amativa, o obstáculo alegorizado, simbolizado ou personificado em qualquer grau de especulação artística. Ao imaginar o terceiro elemento da intriga, para o alegorizar, simbolizar ou personificar, já o romancista revela a sua preparação filosófica, mas só declarará o sistema a que subordina o seu pensamento, quando disser qual foi o elemento vencedor da intriga. O romancista, por quanto supera o poeta lírico, há-de aceitar um mito, que o leitor atento reconhecerá dentro da mais subtil dissimulação, e ao optar entre os mitos trágicos e os mitos épicos, demonstrará o pensamento que presidiu à formação do drama, visto que o drama é um caminhar para a tragédia erótica ou para a epopeia amorosa.

Há sempre três personagens numa história de amor, e desta verdade inegável deveria estar consciente cada homem que se enamorasse pela beleza de uma mulher. O pretendente sabe, ou deve saber, que toda a mulher está virtualmente apaixonada por outro homem, por aquele que ela admira, se não estiver realmente encantada pelo seu namorado, noivo ou marido, conforme os costumes sociais. Enquanto não identificar, e não caracterizar, a pessoa pela qual a mulher está realmente ou virtualmente apaixonada, o pretendente encontrará imprevistas dificuldades no seu procedimento de sedução.

A italiana Monica Bellucci

A mulher está virtualmente em paixão, porque lhe é vedado exprimir os seus sentimentos e manifestar as suas emoções, ou porque receia as represálias de uma sociedade que considera ridículo o amor, de uma sociedade que tende a transigir com a disciplina erótica de novas doutrinas sexuais. Obrigada a transferir a sua actividade, que se destina geralmente a pessoas, e especialmente a crianças, para as coisas de valor social, a mulher altera a sua personalidade por masculinização, até chegar à idade em que naturalmente se desinteressa de todos os atributos da feminilidade. Mau psicólogo será aquele que não souber ouvir, no discurso aparentemente neutro da mulher, um fio de voz que pede liberdade para a vida sentimental, e lealdade do homem que mereça o sacrifício dessa liberdade em dedicação.

Esta regra, seguida pelos romancistas, de considerar a mulher virtualmente apaixonada por um homem, é como todas as regras susceptível de sofrer excepções. A excepção cai sempre abaixo da regra, porque a excepção superior, se existisse, abriria caminho para uma regra melhor. Esta regra literária costuma ser, aliás, confirmada pela tese social acerca da tendência monogâmica da mulher, naturalmente mais fiel do que o homem, e pelo seu reconhecimento no direito civil.

Quando a paixão da mulher é meramente virtual, e se exprime em termos de admiração por um homem superior, ou por um homem que ela considera superior, não faltam ao pretendente processos ou recursos de dissolver tão vaga ou imprecisa ilusão de amor. Já assim não acontece quando a mulher está verdadeiramente apaixonada pelo noivo, namorado ou marido. Mais vale ao pretendente desistir de uma acção que, além de oferecer muitas dificuldades, será sempre frustrada por sérios motivos de ordem jurídica, moral ou religiosa.

A monogamia é perfeitamente respeitável, mas requer uma legitimação diferente daquele vulgar paralogismo segundo o qual todos os homens e todas as mulheres gozam do direito civil de contrair casamento. Mostrando a motivação antropológica das diversas relações ilegítimas, a literatura demonstra que a fiscalização, a proibição e a repressão nunca realizam o propósito dos moralistas e dos juristas, porque apenas deslocam o sujeito do sofrimento humano e muitas vezes agravam um mal que pretendiam aliviar. O erro dos juristas resulta de esquecerem que as relações das pessoas com as pessoas não podem ser reguladas por analogia com as relações das pessoas com as coisas, e que um direito civil, como o casamento, nem a todos é dado com a mesma facilidade com que é concebida uma certidão a quem a requer na respectiva repartição pública.

Não conseguem sair do celibato muitas mulheres, e muitos homens, que se consideram aptos para a vida conjugal e que de boa vontade se associariam por casamento. O casamento é, porém, legalmente definido por contrato, por contrato bilateral, cuja celebração exige, além das cláusulas necessárias, as oportunidades contingentes, as quais escapam ao domínio considerável por sociólogos, moralistas e juristas. Enquanto o casamento não estiver efectivamente ao alcance de todas pessoas que o desejem realizar, será injusta – se bem que legal numa sociedade que só dá protecção às famílias já constituídas, e na razão directa do número de filhos – a severidade que possa recair sobre os celibatários sem vocação.

A australiana Nicole Kidman

Grande parte da temática romanesca está efectivamente dedicada aos diversos impedimentos que demoram ou obstam a realização do casamento, mas pressupondo sempre que os pretendentes possuem contudo a respectiva capacidade legal. Salvam-se, assim, as contradições sociais perante o carácter abstracto das relações jurídicas. Todo o engenho do romancista está em alterar – e para isso deve conhecer as leis da alteração – o obstáculo que serve de impedimento ou de contrariedade, e alterá-lo durante o tempo indispensável para que as condições sociais (de família, profissão, classe, partido político ou seita religiosa) sejam vencidas pelas leis naturais.

Na descrição fenomenológica dos impedimentos à união dos amantes, intercala o romancista por vezes o elemento doutrinal que explica e justifica a oposição das gerações. Entre pai, filho e neto vai o tempo adulterando a tradição, que é o vínculo espiritual, mais depressa do que o vínculo de sangue, o tipo hereditário, a semelhança de família. Três gerações se comportam diferentemente perante os novos esquemas de habitação, vestuário e alimentação que vão lentamente alterando os costumes (quer dizer, a moral) três gerações se desentendem ainda que discutam de harmonia com a mesma razão social.

Deste modo se explica que todos os romances valham de documentos históricos, e que as obras-primas sejam superiores aos livros de historiografia. Os historiadores nem sempre respeitam a verdade das relações causais quando obedecem a intuitos secretos de escola, partido ou seita, enquanto os artistas descrevem e narram com maior liberdade. Vemos, infelizmente, que os romances não costumam ser registados nas bibliografias das ciências auxiliares da história.

A alimentação, o vestuário, o mobiliário e a habitação dependem hoje de grandes empresas industriais que não respeitam os valores da antropologia. A empresa de iniciativa privada prepara os seus produtos sem atenção às condições higiénicas, parecendo ignorar até o clima, visto que procede apenas dentro das normas convenientes para a concorrência comercial. Os romancistas que descrevem os feios ambientes em que o homem e a mulher são obrigados a viver proclamam o voto de que a direcção cultural das fábricas seja confiada aos artistas plásticos.

Ao descrever nos romances a desumanidade dos ambientes, nem sempre o artista se dá consciência de que estuda antropologia. A circunstância, que mais parece determinar a família do que o amor, condiciona porém a veracidade da narrativa romanesca. Logo que à alimentação, ao vestuário, ao mobiliário e à habitação seja dada a respectiva interpretação simbólica ou estética, o romancista verá e fará ver a situação existencial dos amantes.

Terminam os romances no capítulo narrativo do casamento, porque os casamentos felizes não são susceptíveis de história. Cessando o obscuro silêncio da paixão, e também a linguagem alegórica do sentimento, para reinar a eloquência directa das emoções, a mulher realiza na intimidade conjugal uma liberdade ideada, aquela liberdade de que a sociedade a privara, enquanto solteira, visto que a expressão das emoções, se em certos limites é proibida ao sexo masculino, em muito maior escala o é ao sexo feminino. Os cônjuges felizes guardam zelosamente os segredos da sua felicidade, não revelam as causas ocultas, abstêm-se pudicamente de comunicar receitas que, provavelmente, não seriam úteis a pessoas de outras índoles, de outros temperamentos e de outros caracteres.


Carl Gustav Jung


O romancista tem de conhecer as leis da felicidade conjugal, leis a que chegou por indução sobre os dados da biotipologia, da fisiognomia e da caracterologia. Considerando este tema verdadeiramente importante para a educação das novas gerações e para a felicidade dos povos, o psiquiatra C. G. Jung ensinou quais são os temperamentos compatíveis e os temperamentos incompatíveis, e quais os modos por que a compatibilidade ou a incompatibilidade se acentua ao longo do tempo. Moldando o temperamento está sempre o carácter, por motivação moral, ética e religiosa.

À medida que as mulheres vão adquirindo maiores habilitações escolares e, consequentemente, ascendendo na escala social, maior consciência adquirem da superioridade do sexo feminino sobre o sexo masculino. Não observam os homens este sinal precursor da sociedade futura que lhes deveria ser mostrado pelos romancistas. É evidente, porém, e já vai tomando um aspecto clamante e alarmante na vida social, o desencanto do amor entre cônjuges que se encontram habilitados a mutuamente julgarem os valores intelectuais e espirituais.

A inteligência da mulher, exercitada por uma cultura masculina e masculinizante, desenvolve-se em detrimento daquela intenção preservativa da beleza e da bondade. A mulher muito inteligente vai-se tornando ou feia ou má. O homem, demitido da sua função de chefe de família ou de cabeça-de-casal – pois nunca devemos esquecer que chefe significa aquele que pensa -, sofre, na vida doméstica, ou nas relações mundanas, uma humilhação terrível de que há-de compensar-se humilhando os seus inferiores e, mais ainda, os seus semelhantes.

A curiosidade feminina, que leva à quebra dos segredos defensores da felicidade amorosa, e a mulheril discursividade que infringe o sigilo conjugal, denunciando primeiro com malícia o que virá depois a revelar impudicamente, são temas que proporcionam a transição do romance para a novela. Mal vai quando um cônjuge apresenta queixa do outro, e pior ainda quando a queixa é apresentada fora do círculo da família. Quem quebra o segredo conjugal não tarda a submetê-lo a juízo da opinião pública e, consequentemente, a requerer sentença do tribunal.

Deveríamos chamar divórcio a esta separação que de facto os cônjuges realizam quando procuram alívio dos seus desenganos em confidências com terceira pessoa. O problema moral está em saber se os nossos costumes consentem ou não que o divórcio de facto possa ser seguido de divórcio de direito. Transferido o problema da ordem moral para a ordem ética, equivale ele a interrogar-nos sobre se, adulterado, minorado ou desaparecido o amor, pode existir sincera e verdadeira vida conjugal.

Eis-nos perante uma questão de muito interesse para os teólogos, que justamente se indignam quando o Estado se arroga o direito de separar o que foi unido pela Igreja. A impossibilidade de verificar e, portanto, de proclamar a dissolução do matrimónio em vida de ambos os cônjuges limita de certo modo o poder sacerdotal de administrar sacramentos, e parece até de pouca simetria doutrinária com a faculdade de absolver os pecados veniais e mortais. Não parece absurdo conjecturar que em futuro mais ou menos próximo seja conferida ao sacerdote a faculdade de anular o matrimónio, sempre que a vida conjugal, perdidas as virtudes teologais que lhe asseguram a sobrenaturalidade, não seja mais do que uma situação de incessante e clamante pecado contra o Espírito Santo.

Absolvição significa libertação ou, melhor, é de esperar que o direito canónico venha a admitir que um novo amor sacramentado redima o ex-cônjuge dos erros e pecados que cometeu. Só em nome de uma doutrina materialista, que considere mais a morte do corpo do que a morte da alma, será possível negar ao divorciado o direito, que é concedido ao viúvo, de contrair um novo matrimónio.

Curioso é observar que muitos escritores que lamentam o divórcio, condenem o adultério, combatem a bigamia, desenvolvem mais engenho em defender as suas opiniões morais do que em estudar as causas desses três factos consideráveis, observáveis e verificáveis, que no conjunto formam um flagelo social. A transigência para com aquelas leis que, alegando motivos de ordem pública e até de força maior, afastam os cônjuges da residência no mesmo lar, é um exemplo da incoerência e da inconsequência de muitos doutrinadores. Análoga irreflexão conduz à doutrina simplista de admitir, como único motivo justo de divórcio, o facto consumado pelo adultério.




A incompreensão do que é verdadeiramente o divórcio leva muitos romancistas a cultivar como tema literário o adultério da mulher. O triângulo da intriga começa a desenhar-se aos olhos do leitor logo nos primeiros capítulos do livro. A rigidez do esquema triangular, susceptível de poucas variantes, e a falta de imaginação do escritor realista concorrem para que não haja surpresa no inevitável aparecimento do sedutor.

A mulher que não goza da felicidade conjugal também não pode deixar de dar sinais visíveis e audíveis da sua infelicidade. Rara é a mulher que, no seu comportamento rigorosamente honesto, não deixe escapar uma frase denunciante de juízo depreciativo acerca do marido, frase que profere em termos de indulgência tão pouco oportunos que logo provoca o ridículo. Tal juízo, que não passa desatendido dos ouvidos atentos, é suficiente para revelar os gostos e os desgostos da mulher.

Qualquer homem que surpreenda a mulher em conversa depreciativa do valor do marido reflectirá inteligentemente sobre os termos da confissão espontânea e aplicará o seu engenho na simulação de sentimentos convenientes. Dotado de imaginação para variar os modos de requestar a mulher desiludida, e munido de paciência para esperar a hora oportuna, cultivará um afecto que outro homem desprezou, ou que poderes mais altos o obrigaram a abandonar. O sentimento real e o sentimento imaginário, combinados nas suas melhores proposições, simulam e por vezes imitam o verdadeiro amor.

Sabido é que a origem da inclinação sentimental para o adultério está nas confidências femininas. A inconfidência da mulher casada incita uma falsa amiga a preparar o encontro fatal com o sedutor. A intermediária, que desaparece depois de desenhada a intriga, tem a prudência de evitar gradualmente as maiores e as menores responsabilidades.

O romancista que adoptar o tema do adultério há-de situar a intriga no quadro caracterológico. Sem oposição de temperamentos, sem a mediação de outro temperamento habilmente descrito, a narrativa será fruste, por inverosímil, e parecerá reprodução insignificante de um modelo esgotado. A oposição caracterológica tem por fim condicionar, se não explicar o drama, que é o movimento do novo romance.

A tendência monogâmica da mulher não lhe permite atingir felicidade plena durante as horas de ilusório amor, porque a emoção limitada, contraída, ou inibida se transforma em indescritível tristeza que precede o remorso e o arrependimento. A má consciência, ou a consciência da ruptura do vínculo conjugal, e portanto de um movimento contrário ao da maternidade, impele a mulher para solução de tragédia. No fim deste tipo de romance, uma das figuras esquematizadas no triângulo é substituído pela imagem fria da morte.

Temos assim a prova de que o romance, sempre que esteja certo ao descrever o modo por que as personagens tomam consciência do amor, promove a imaginação do leitor até às fronteiras do preternatural e do sobrenatural. O vínculo conjugal é dotado de um poder simbólico que, reconhecido no direito, transita para a arte, e que da arte transita para a religião. Compreende-se, portanto, a importância que um estudo sobre a teoria do amor nos romancistas pode assumir para a caracterização da filosofia de cada povo (in ob. cit., pp. 240-48).




terça-feira, 18 de outubro de 2011

O romance (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro



Eros e Psique

A prioridade do pensamento e do sentimento sobre a expressão literária e sobre a comunicação artística, prioridade admitida nas investigações de antropologia cultural, obriga-nos a subordinar ao critério psicológico todas as classificações admissíveis em filologia. A gradação dos sentimentos humanos forma a escala em que estão situadas as obras poéticas, mas quando o sentimento se consciencializa em pensamento, por adequação ontológica do idealismo ao realismo, os géneros literários respondem e correspondem a investigações filosóficas. O romance será, por este critério, a narrativa em prosa ou em verso que tenha por tema essencial o amor.

Esta doutrina da subordinação do romance a um só motivo – o amor – parecerá injustificada aos críticos literários que, contra ela, protestarão nomes de autores e títulos de livros, como se os exemplos aduzidos em contrário, ou as excepções que sempre confirmam a regra, pudessem logicamente alargar o âmbito de uma definição. A análise revelará, porém, que o autor de uma obra classificada de romance orientará o pensamento do leitor para o segredo natural da união amorosa, ainda quando se proponha outro fim, e sempre a narrativa incluirá as vicissitudes de dois amantes, quer a narrativa ascenda a gama das dificuldades triviais até à impossibilidade trágica, quer descenda a escala da desilusão agónica até ao relaxamento das ligações morais. Nunca o romancista, por mais que multiplique os caracteres, complique os incidentes, amplie as circunstâncias, dissolverá no ânimo do leitor a reminiscência do diálogo dos amantes.

Todas as pessoas que foram ensinadas a ler inteligentemente romances, e de certo modo a exercer crítica literária, sabem discernir os elementos constitutivos das obras de ficção. São esses elementos os seguintes: o diálogo, a narração, a descrição, o retrato, além dos comentários do autor, ou do interposto narrador. Fácil é distingui-los, e assinalá-los à margem de cada página do livro, para que da desarticulação do romance mais facilmente ressaltem os méritos característicos do autor.

Quem não apreciar distintamente o valor destes elementos, e não souber dizer em qual deles se afirma o mérito, o talento ou o génio do romancista, poderá ter a certeza de que não efectuou uma leitura educativa. Resumir a narrativa, em méia dúzia de frases para que o esquema permaneça na memória, equivale a praticar uma adulteração por minoração, equivale a anular o valor ontológico da obra literária. Tais resumos abundam, porém, nos compêndios de história da literatura, sabido que estes livros são redigidos na intenção de habilitar os estudantes a responder nos exames, segundo um processo que inicia os intelectuais no vício de reduzirem o desconhecido ao já conhecido.

Verdadeiro apreciador de romances é o leitor capaz de determinar os conceitos opostos, entre os quais se realiza o movimento ou o progresso das obras literárias. Há-se, portanto, estar prevenido por uma doutrina e munido de um questionário. Ler sem saber classificar o que de diferente, de novo, de melhor um romance nos apresenta em relação a outro, é ler apenas para esquecer a literatura e passar o tempo.

A literatura degenera sempre que se submete a um realismo servil, incompatível com o pensamento criacionista. O êxito de uma obra meramente realista será tão efémero como o fenómeno observado. Nunca foi possível conciliar duradouramente o realismo com uma verdadeira filosofia da arte.

O realismo postula indispensavelmente o primado do ver. São as palavras, porém, que realizam o prodígio de nos fazer ver, e de nos facultar o intuir. O romancista que não for feliz na escolha do vocabulário, verá frustrada a sua obra, como o cientista que não interrogar o movimento das imagens, dos conceitos e das noções.




Não há, para o verdadeiro romancista, maior dificuldade do que a de descrever perfeitos retratos das personagens. Qualquer pessoa de normal inteligência, ao ver a fotografia de um rosto humano, imediatamente dirá se o retratado é varão ou mulher, e poderá até calcular a respectiva idade. Raro será, porém, o observador capaz de enunciar com palavras exactas as razões estéticas da afirmação feita, porque só o artista se distingue e distancia da razão prática.

A literatura é, neste aspecto, inferior às artes plásticas, nomeadamente à pintura, porque na falta da palavra exacta tem de recorrer à expressão metafórica. Difícil é dizer, com precisão científica, o que distingue um rosto feminino de um rosto masculino, porque igual é o número de palavras designativas dos caracteres anatómicos e fisiológicos de cada sexo, e poucos termos existem para denominar os efeitos visíveis das secreções internas que estão sendo estudadas pela endocrinologia. À custa de adjectivos poderá o romancista descrever as linhas puras de um rosto, mas omitirá na maior parte das vezes a significação fisiognómica de cada pormenor, e limitar-se-á a uma opinião indecisa sobre o conjunto das feições.

Julgamos indispensável o estudo da fisiognomia a quem se dedica à literatura, porque mantemos a convicção de que a ciência de Lavater, auxiliar da antropologia, é tão útil aos autores como aos críticos e aos historiadores. A descrição das fisionomias não pode ser arbitrária, porque condiciona o procedimento das personagens ao longo da narrativa. Infelizmente, porém, não é raro ler obras literárias em que a contradição entre os dados fisiognómicos e os procedimentos caracterológicos chega a atingir o inverosímil.

Os literatos deveriam proceder a este respeito como os médicos. Sem fisiognomia é impossível a interpretação dos sintomas mórbidos e, consequentemente, a diagnose. Sem fisiognomia é impossível interpretar um carácter humano e, consequentemente, prever as linhas normais do seu procedimento social.

Muitos romancistas parecem ignorar que a cabeça humana se divide em três partes, para efeitos de descrição fisiognómica. Nada nos dizem quanto à forma do crânio, à cor dos cabelos, à largura da testa, e de um modo geral à fronte, tão significativa da vida intelectual; nada nos dizem quanto às sobrancelhas, à cor e ao brilho dos olhos, aos nervos faciais, à mobilidade dos lábios, sinais de maior expressão; nada nos dizem quanto às mandíbulas e ao queixo, tão significativos da vida instintiva. Atrevem-se muitos a escrever romances sem prévios estudos de fisiognomia, como se as características do corpo humano não condicionassem a índole, o temperamento e o carácter das personagens.

Monica Bellucci

É ao longo do diálogo que o romancista costuma intercalar alguns traços fisiognómicos, mais para concretizar do que para caracterizar as personagens. Depois de uma frase significativa, surge um gerúndio para advertir o leitor de que vai ter lugar a descrição de uma atitude, de um gesto ou de um acto, que intensifica a significação do diálogo. Outras vezes é o próprio narrador quem interrompe a conversa, descreve algum pormenor fisiognómico, faz um comentário biotipológico, na intenção de mostrar que, embora mais interessado pela psicologia, não se esqueceu da antropologia.

À medida que o escritor descreve as personagens, anotando os movimentos voluntários dos braços e os movimentos involuntários das mãos, a inclinação do tronco quando se sentam e quando se levantam, enfim, o modo de andar tão significativo para a caracterização das idades, vai o leitor reconhecendo as tendências individuais para as várias doenças, e das doenças para a morte. Conforme predominar a verticalidade ou a horizontalidade na configuração do corpo humano, assim a personagem tenderá para o tipo asténico ou para o tipo artrítico, segundo as classificações da biotipologia. Será principalmente pelos actos, que o escritor lhes for atribuindo, que imaginaremos as particularidades fisiológicas das personagens, e assim saberemos se nelas predomina o sistema locomotor, ou o sistema digestivo, ou o sistema circulatório e respiratório (1).

Certo é, porém, que da antropologia ao romancista mais interessa a psicologia, e assim verificamos que ele prefere compor o seu romance por dialogação, movido por três razões: porque o desenho das personagens vai resultando das frases, porque com o diálogo preencherá tipograficamente maior número de páginas, e ainda porque a simples conversa prende sem cansaço a atenção do leitor. O diálogo é fácil porque não obriga a artifícios, ao aprofundamento do idioma, já que o escritor realista, inimigo da imaginação, exige que as falas das personagens aparentem naturalidade, quer dizer, sejam mera transcrição de prosa alheia, e às vezes de lugares-comuns. As almas falam simplesmente, mas o logos da psique, ou psicologia, está longe de representar toda a verdade do composto humano.

A palavra assume particular importância no romance, porque é palavra que humaniza a vida erótica para a transformar em vida de amor. O ritual, por intermédio do mito, daquilo que se diz, vai até à porta do indizível, ou do mistério, e assim ascende à dignidade da liturgia. Sem palavras valorativas de bondade, de beleza e de verdade não pode haver linguagem comunicativa de graça entre os homens.

A narrativa literária, que entre nós é designada por romance, obedece a um esquema pouco variável que pode ser actualizado por indefinidas variantes de tempo e de espaço, de oportunidade e de circunstâncias. O essencial deste tipo de obra de arte literária define-se no momento em que uma personagem toma consciência, por emoção, sentimento ou paixão, de que o egoísmo se transmutou em altruísmo, isto é, no momento em que o romancista produz a prova de que para cada liberdade existe um destino sobre-humano e transcendente. Sem este elemento de ordem filosófica, sem o simbolismo próprio da cosmologia, a que o prosador haja ascendido por mediação cultural ou por directa intuição, a obra literária não será digna do qualificativo de romance, antes merece ser classificada entre vulgares produtos de profanação.

Intermediário entre a antropologia e a cosmologia, o amor tende para a configuração edénica, mas não vai além da configuração idílica, porque se perde na penumbra discreta dos quadros da Natureza. É de uso, entre as pessoas cultas, lembrar a propósito deste naturalismo o nome de Jean-Jacques Rousseau. A verdade, porém, é que a admiração perante a paisagem, que é uma contemplação de ordem estética, não deve ser confundida com o chamado sentimento da Natureza.


A distinção equivale à diferença entre o belo e o sublime, superiormente elaborada por Kant (2). Já são raros os momentos em que o homem atinge a consciência de estar vibrando em uníssono com a Natureza, porque são muitos os obstáculos interpostos pela Civilização. A arte literária vai perdendo assim a possibilidade de descrever a integração do finito no infinito, prefere exprimir a contradição entre estes dois termos, conforme se verifica na estética da ironia.

As descrições de belas paisagens, tão frequentes nas obras de escritores românticos, que assim exprimiam a emoção, o sentimento ou a paixão da Natureza, podem ser substituídas por descrições de ambientes urbanos ou de interiores domésticos, desde que o artista não se esqueça de que em qualquer parte do mundo está o elemento simbólico da cosmologia. Variável também, segundo o arbítrio do escritor, é a ordem dos factores que hão-de constituir a intriga romanesca. Sabido que os romancistas são mais ou menos memorialistas, na medida em que lhes falta imaginação, não estranhemos que geralmente comecem por descrever o encantamento do varão pela beleza da mulher, segundo paradigmas de autobiografia.

Muitos romances são primeiramente escritos na forma de confissão autobiográfica, para em segunda redacção serem transladados da primeira pessoa gramatical para a terceira, segundo um artifício de estilo que não ilude nem encanta o leitor avisado. A permanência da identificação do autor, ou do narrador, com a personagem mais simpática lá está para denunciar a falta de imaginação psicológica. O escritor de talento, pelo contrário, começará por apresentar uma das personagens menos simpáticas, parecendo identificá-la com o narrador, para assim adoptar o ponto de vista mais propício à dramaticidade indispensável na obra de ilusão artística.

A arte de amar, ensinada por vários tratadistas que se limitavam a explicar o que é explicável, não preceitua mais do que exercício incessante da imaginação. Quem pela primeira vez declara o amor, por palavras bem ou mal inspiradas, assume o compromisso de repetir diariamente essa declaração, mas obriga-se também a inventar processos sempre diferentes de manifestar a fidelidade e a lealdade ao ente amado. Fazer voto de amor, por qualquer fórmula de juramento, é devoção que logo se transforma em obrigação.

Toda a arte do homem está em saber louvar a mulher amada, em evitar a repetição que mecaniza, banaliza e adormece a vida sentimental, em reconhecer a gradação subtil dos diferentes vínculos de amor. A graciosidade da linguagem do adolescente que perpassa na dialéctica dos amantes, o ideal de fidelidade electiva que enobrece e sublima os mútuos juramentos, o encanto sentimental que se corporiza no apogeu da volúpia, constituem graus de uma fenomenalidade que só o escritor de génio pode exprimir sem banalidade, estultícia ou profanação. Torna-se patente a inépcia do romancista que se demora no descritivo e no narrativo, por preconceitos naturalistas ou realistas, quando seria o momento literário de vencer o empirismo pelo raciocínio e o realismo pela imaginação.

Na penumbra propícia a um ritual sagrado existem segredos naturais que o literato vulgar não sabe descrever. Quem não os respeita, reverencia e venera, quem sobre eles se propõe projectar a cruenta luz meridiana, confessa por isso não compreender a analogia profunda da morte com o amor, patenteia ignorar a significação da palavra metamorfose. Confessa assim, e também, que ainda não soube atribuir significado religioso aos actos habituais da vida quotidiana.

Túmulo de D. Inês de Castro (Mosteiro de Alcobaça).

Conhece talvez o literato a antiquíssima comparação do sono com a morte, mas não aproveita, antes despreza, essa comparação que a literatura tornou banal. Nunca meditou, porém, na analogia do cerrar dos olhos com o cerração da noite, do leito com o túmulo, dos brancos lençóis como os alvos mármores. Ao despir-se, ao deitar-se, o homem desenvolve-se das roupas que o aquecem, protegem ou mascaram; goza um prazer que não é mais do que alívio do sofrimento inconsciente que lhe deu a canseira do trabalho quotidiano; não repara, porém, que no acto prefigura o despir das faculdades vigilantes que a alma há-de perder para atingir a nudez esotérica.

O artista que não respeita o ritual da desnudação é artista que não compreende o nascimento, o amor e a morte; não sabe distinguir a verdade nua da verdade revelada; tenderá sempre a descrever o encontro dos amantes em termos de pornografia ou, seja, de profanação. Não compreenderá, por isso, o significado mítico da mútua dádiva de duas vidas, conforme é celebrado no sacramento do matrimónio. Não compreenderá a beleza secreta da palavra sacrifício, nem, portanto, o encanto eloquente da renascença ou, que o mesmo é dizer, da ressurreição (in A Razão Animada, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009, pp. 233-39).


Notas:

(1) Álvaro de Caires, Biotipologia, O Conhecimento da Pesonalidade, Lisboa, 1942, 2.ª ed., revista pelo autor.

(2) Immanuel Kant, Kritik der Urteilskraft, 1790.

Continua