segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O Ideal da Cavalaria

Escrito por Feliciano Ramos



S. Miguel Arcanjo


«O pensamento medieval estava na generalidade saturado das concepções de fé cristã. De igual modo, e numa esfera mais limitada, o pensamento de todos aqueles que viviam nos círculos da corte ou dos castelos estava impregnado do ideal da cavalaria. Todo o seu sistema de ideias se baseava na ficção de que a cavalaria governava o mundo. Esta concepção tende mesmo a invadir o domínio do transcendente. O feito de armas primordial de S. Miguel Arcanjo é glorificado por Jean Molinet como "o maior feito de cavalaria e das proezas cavalheirescas jamais realizado". Foi do Arcanjo que "a cavalaria terrestre e as proezas cavalheirescas" extraíram a sua origem, e por isso imitam as hostes angélicas em volta do trono de Deus.

(...) O ideal de coragem, de honra e de fidelidade encontrou outras formas de expressão além das do torneio. À parte os desportos marciais, as ordens de cavalaria abriram uma vasta clareira onde o gosto pela alta cultura aristocrática podia expandir-se. Tal como os torneios e a accolade, as ordens de cavalaria mergulham as suas raízes nos ritos sagrados de um passado remoto. As suas origens religiosas são pagãs, somente o sistema feudal de pensamento as cristianizou. Estritamente falando, as várias ordens são simples ramificações da ordem da cavalaria propriamente dita. Porque a admissão na cavalaria, que era uma irmandade sagrada, era feita por meio de solenes ritos de iniciação. A mais complicada forma destes ritos mostra uma curiosíssima mistura de elementos cristãos e pagãos; o acto de rapar a barba, o banho e a vigília de armas vêm indubitavelmente dos tempos pré-cristãos. Aqueles que se sujeitassem a estas cerimónias eram chamados "cavaleiros do Banho", para distingui-los dos que eram armados por simples accolade. O termo deu ulteriormente lugar à lenda de uma ordem especial, a Ordem do Banho, instituída por Henrique IV, e depois ao estabelecimento de uma ordem real por Jorge I.

As primeiras grandes ordens, as do Templo, de S. João e dos Cavaleiros Teutónicos, nascidas da mútua penetração das ideias monásticas e feudais, cedo assumiram o carácter de instituições económicas e políticas. O seu fim não era já em primeiro lugar a prática da cavalaria; esse elemento, tanto como as suas aspirações espirituais, tinha sido mais ou menos apagado pela sua importância financeira e política. Foi nas ordens de origem mais recente que a primitiva concepção de um clube, de um jogo, de uma federação aristocrática reapareceu.

(...) A palavra "ordem" conservava assim muito do seu significado espiritual; ela alterna com "religião", a qual usualmente designava uma ordem monástica. Vemos referência à religião do Velo de Ouro e a um "cavaleiro da religião de Avis". As regras do Velo de Ouro são concebidas dentro dum espírito verdadeiramente eclesiástico; missa e exéquias ocupam nela vasto lugar; os cavaleiros estão sentados em cadeirais de coro como os cónegos. Ser membro duma ordem de cavalaria constituía um laço exclusivo e sagrado».

Johan Huizinga («O Declínio da Idade Média»).


«"Dar um estilo ao amor" tal é, segundo J. Huizinga, a aspiração suprema da sociedade medieval na ordem ética. "É uma necessidade social, uma necessidade tanto mais imperiosa quanto mais ferozes são os costumes. É preciso elevar o amor à altura dum rito, a violência transbordante da paixão o exige. Só se as emoções se deixarem enquadrar em formas e em regras, se evitará a barbárie. A Igreja tinha por tarefa reprimir a brutalidade e a licenciosidade do povo, mas não bastava. A aristocracia, fora dos preceitos da religião, tinha a sua cultura própria, a saber, a cortesia, e nela baseava as normas da sua conduta". (Sabemos, com efeito, que a cortesia não só não devia nada à Igreja como se opunha à sua moral. Eis o que nos pode incitar a rever bastantes juízos sobre a unidade espiritual da sociedade medieval!). Ora se é verdade que essa moral cortês não conseguiu transformar os costumes privados das classes elevadas, que permaneceram "duma rudeza espantosa", pelo menos desempenhou o papel dum ideal criador de belas aparências. Triunfou na literatura. E, por outro lado, conseguiu impor-se à realidade mais violenta do tempo, a da guerra. Exemplo único dum ars amandi, que dá origem a uma ars bellandi.


Arcanjo S. Miguel derrotando o diabo (portal de entrada da Igreja de S. Miguel, em Hamburgo).


Não é apenas no pormenor das regras de combate individual que se faz sentir a acção do ideal cavalheiresco; mas também na própria condução das batalhas e até na política. O formalismo militar reveste nessa época um valor de absoluto religioso. É frequente alguém deixar-se matar para respeitar convenções duma maravilhosa extravagância. "Os cavaleiros da ordem da Estrela juram que em combate não recuarão jamais além de quatro arpentos; terão de morrer ou render-se. Essa regra estranha, segundo Froissart, custou a vida, desde o início da ordem, a mais de oitenta dos seus membros". Do mesmo modo, as necessidades da estratégia são sacrificadas às da estética ou da honra cortês. "Em 1415, Henrique V de Inglaterra vai ao encontro dos franceses antes da batalha de Azincourt. Por engano, vai além da aldeia que os forrageadores lhe indicaram para dormir nessa noite. Ora o rei como aquele que mais respeitava as cerimónias de honra mui louvável, acabava precisamente de ordenar que os cavaleiros em "reconhecimento" abandonassem a cota de armas a fim de, no seu regresso, não serem obrigados a recuar vestidos de guerreiros. Agora, envergando a sua cota de armas, não pode retroceder; passa a noite no lugar onde está e manda a guarda alinhar conformemente a este novo plano". Os exemplos abundam em carnificinas inúteis, provocadas por votos duma louca fatuidade, que se procura cumprir a todo o custo. É bem o perigo em si, que se procura, porque noutros casos não se é inapto para encontrar pretextos para fugir aos compromissos. A casuística "não regula apenas a moral e o direito; estende-se a todos os domínios onde o estilo e a forma são coisas essenciais: as cerimónias, a etiqueta, os torneios, a caça e sobretudo o amor". Exerceu mesmo uma influência determinante sobre o direito das pessoas, por nascença. "Direito de saque, direito de ataque - fidelidade à palavra dada - são regidos por regras semelhantes às que governam o torneio e a caça". L'Arbre des Batailles de Honoré Bonet é um tratado sobre o direito de guerra onde se encontram discutidas, à mistura com textos bíblicos e artigos de direito canónico, questões deste género: "Se na peleja se perder uma armadura emprestada, é-se obrigado a devolvê-la? - É permitido combater em dia de festa? - É melhor combater depois das refeições ou em jejum? - Em que casos pode uma pessoa evadir-se do cativeiro? Numa outra obra, vêem-se dois capitães disputarem entre si um prisioneiro diante do chefe: "Fui eu que o agarrei primeiro, pelo braço e pela mão direita e lhe arranquei a luva, - diz um deles. - Mas a mim, diz o outro, deu ele essa mesma mão com a sua palavra".

Quanto às ideias políticas inspiradas na Idade Média pela concepção cavalheiresca, são elas, segundo Huizinga, essencialmente, a luta pela paz universal baseada na união dos reis, a conquista de Jerusalém e a expulsão dos Turcos. Ideias quiméricas mas cujo domínio não deixará de se exercer sobre os príncipes até ao século XV, a despeito das transformações de toda a ordem sobrevindas entretanto na Europa e contra os mais urgentes interesses reais.

É aqui que se marca melhor o carácter particular do ideal cortês, radicalmente contraditório com a "dura realidade" da época: ele representa um pólo de atracção para as aspirações espirituais desprezadas. É uma forma de evasão romântica, ao mesmo tempo que um freio para os instintos. O formalismo minucioso da guerra opõe-se às violências do sangue feudal como o culto da castidade, nos trovadores, se opõe à exaltação erótica do século XII. "Na consciência da Idade Média formam-se, por assim dizer, lado a lado, duas concepções da vida: a concepção piedosa, ascética, atrai a si os sentimentos morais; a sensualidade, entregue ao diabo, vinga-se terrivelmente. Que uma ou outra destas inclinações predomine, e temos o santo ou o pecador; mas em geral mantêm-se num equilíbrio instável, com desvios de grande amplitude".

(...) Existe porém um domínio onde se opera a síntese mais ou menos perfeita dos instintos eróticos e guerreiros e da regra cortês ideal: é o terreno nitidamente circunscrito da liça onde se jogam os torneios.


Tristão e Isolda com a poção mágica, por John William Waterhouse (cerca de 1916).


Aí, os furores do sangue correm sem freio mas sob a égide, nos quadros simbólicos, duma cerimónia sacral. É um equivalente desportivo da função mítica de Tristão tal como a definíramos: exprimir a paixão em toda a sua força mas valendo-a religiosamente, de maneira a torná-la aceitável ao juízo da sociedade. O torneio "desempenha" o mito fisicamente: - "Os transportes do amor romanesco não só deviam ser apresentados sob forma de leitura, como deviam sobretudo ser dados em espectáculo. Esse jogo pode revestir duas formas: a representação dramática e o desporto. Na Idade Média, é este, de longe, o mais importante. O drama, então e em geral, tratava apenas da matéria sagrada; a aventura amorosa era aí excepcional. O desporto medieval, pelo contrário, e sobretudo o torneio, era em si dramático ao mais alto grau e continha, além disso, uma forte dose de erotismo. Sempre e em toda a parte o desporto associou estes dois factores: o dramático e o amoroso; mas enquanto os desportos modernos regressaram quase à simplicidade grega, o torneio do fim da Idade Média, com os seus ricos ornamentos e a sua encenação, podia desempenhar as funções do próprio drama".

Nada me parece mais próprio para restituir a atmosfera de sonho do Romance de Tristão que as descrições dos torneios que se podem ler nas obras de Chastellain e nas Memórias de Olivier de la Marche, ambos historiógrafos do faustoso e cavalheiresco ducado de Borgoha no século XV.

O amor e a morte aí se desposam numa paisagem artificial e simbólica de elevada melancolia. "O heroísmo por amor - eis o motivo romanesco que deve aparecer sempre e em toda a parte. É a transformação imediata do desejo sensual numa abnegação que parece fazer parte do domínio da ética (...) A expressão e a satisfação do desejo, que parecem igualmente impossíveis, transformam-se em algo de mais elevado: a acção empreendida por amor. A morte torna-se então a única alternativa para a realização do desejo, e a libertação fica, portanto, forçosamente assegurada".

A encenação dos torneios colhe suas ideias nos romances da Távola Redonda. Assim, no século XV, o Pas d'Armes dito de La Fontaine des Pleurs é baseado numa aventura romanesca imaginária. "A fonte é construída para esse efeito. Durante um ano inteiro, no primeiro dia do mês, um cavaleiro anónimo virá erguer, diante da fonte, uma tenda na qual está sentada uma dama (em efígie, naturalmente); esta segura um licorne que traz três escudos. Todo o cavaleiro que tocar o escudo obriga-se a um combate de armas nas condições descritas pelos capítulos do "torneio". Os escudos devem ser tocados a cavalo; os cavaleiros encontrarão sempre cavalos prontos para esse fim". "O cavaleiro é sempre desconhecido; é o 'cavaleiro branco', o 'cavaleiro desconhecido', o 'cavaleiro de capa'; surge, por vezes como herói do romance e chama-se cavaleiro do cisne, ou usa as armas de Lancelote, de Tristão ou de Palamedes (...) O mais das vezes, um véu de melancolia se estende por sobre toda a acção: o nome de Fonte das Lágrimas é eminentemente sugestivo. Os escudos são brancos, roxos e negros, semeados de lágrimas brancas; toca-se neles, por piedade para com a "Senhora das lágrimas". Na festa do Dragão, celebrada por ocasião da partida da sua filha Margarida, que se tornou rainha de Inglaterra, o Rei René aparece de negro, num cavalo negro coberto de panos negros, com uma lança negra e um escudo negro com lágrimas de prata (...) Para a linhagem de Carlos Magno os escudos são negros e roxos com lágrimas negras ou oiro".

O elemento erótico do torneio aparece ainda no costume de o cavaleiro usar o véu ou uma peça de vestuário da sua dama, que ele lhe devolve, depois do combate, maculada com o seu sangue (assim faz Lancelote nos romances da Távola Redonda).

Lancelot at the Chapel of the Holy Grail by the Pre-Raphaelite painter Edward Burne-Jones



The arms attributed to Sir Lancelot: argent, three bendlets gules


"A atmosfera de paixão que envolvia os torneios explica a hostilidade da Igreja por esses desportos. Estes provocam por vezes estrondosos adultérios, como o testemunha a propósito do torneio de 1389, o Religioso de Saint-Denis e, baseado neste, Jean Juvénal des Ursins".

Todavia, a grande voga dos torneios é o indício dum declínio da cavalaria. Esta debate-se desde o início do século XV (batalha d'Azincourt) com realidades cada vez mais brutais e materiais que a lançam na literatura, nas festas e nos jogos simbólicos. "Enquanto princípio militar, a cavalaria tornara-se insuficiente; a táctica havia desde há longo tempo renunciado a conformar-se com as suas regras: a guerra, nos séculos XIV e XV, era feita de aproximações furtivas, de incursões e de raids". Todavia, "cerca do ano 1400, ainda os brasões e as bandeiras e os gritos de guerra conservam nos combates um carácter individual e a aparência dum desporto nobre". Mas no decorrer do século XV, começa-se a combater a pé e em fileiras. Outra transformação significativa no fim do século: os lansquenets [nome dos soldados de infantaria alemã no século XVI] introduzem o uso do tambor, de origem oriental. "Com o seu efeito hipnótico e desarmonioso, o tambor simboliza a transição entre a época da cavalaria e a da arte militar moderna; é um elemento na mecanização da guerra". Finalmente, o golpe de misericórdia será dado à cavalaria pela invenção da artilharia. "E não será ironia do destino que essa flor dos cavaleiros andantes à moda de Borgonha, Jacques de Lalaing, tenha sido morto por um tiro de canhão?".

Não deixa porém de ser verdade que as convenções da guerra e do amor cortês marcaram os costumes ocidentais duma maneira tal que só no século XX ela será apagada.

A ideia de valor individual ou de feito guerreiro, apresentada pelo duelo e pela proeza (torneio, combate singular de dois chefes em presença); a ideia de reger as batalhas de acordo com um protocolo quase sacral; a concepção ascética da vida militar (jejuns prolongados antes da prova das armas); as convenções que permitiam determinar o vencedor (que seria, por exemplo, aquele que passa a noite no campo de batalha); finalmente e sobretudo, o paralelismo exacto dos símbolos eróticos e militares - tudo isso não deixará de determinar os modos de guerrear durante os séculos seguintes. De tal modo que se poderá considerar toda a mudança na táctica militar como relativa a uma mudança nas concepções do amor ou inversamente».

Denis de Rougemont («O Amor e o Ocidente»).



«Ditosa Pátria que tal filho teve».

Luís de Camões («Os Lusíadas», Canto 8, Est. 32).


«Em 1373, (...) contava Nun'Álvares treze anos, com a virilidade precoce. Os homens formavam-se muito mais breve nesses tempos agrestes, de uma barbárie aliada, porém, aos requintes e contradições inerentes ao período de civilização confusa a que se chama Idade Média. Chocavam-se os elementos de criação espontânea, de violência pristina e bárbara, próprios de povos que emergiam do cativeiro muçulmano ao som da guerra, por entre os escombros da civilização antiga, derruída por completo na Espanha à mão dos árabes: chocavam-se com as tradições, com as ruínas, com os restos dispersos e pervertidos dessa Antiguidade, que parecia às imaginações ter acabado afogada no sangue de Cristo. A Igreja era o veículo da tradição clássica, e também, por isso mesmo, a autoridade suprema, como representante, na Terra, do poder de um Deus temido. Os ministros da religião dominavam as almas por um processo de auto-intimidação, semelhante ao dos feiticeiros primitivos; e se a barbarização do pensamento e do saber frequentemente rebaixava os dogmas teológicos e os cânones rituais até ao limite da feitiçaria simples, a violência dos costumes levava os sacerdotes a envergar também a armadura e a empunhar a espada, aparecendo soldados numa sociedade essencialmente guerreira. Disto veio a instituição dos monges militares; e neste sentido, o prior do Hospital era um homem tipo do seu tempo. Era-o também, como astrólogo; porque a Astrologia, exprimindo as ambições do espírito secular, surge como a alvorada do pensamento científico desabrochado na Renascença. Era-o, finalmente, na carnalidade dissoluta dos seus costumes, geral a uma época libertina, particularmente na Espanha, onde o exemplo da poligamia muçulmana mais concorria para obscurecer o instinto casto do povo ariano.

D. Nun'Álvares Pereira

Estandarte de Nun'Álvares Pereira

Da Idade Média, germinando nestes elementos sociais e morais, brotou a flor extravagante da Cavalaria, ideia incoerente e superiormente bela, em que as contradições do pensamento contemporâneo e a noção católica da vida e do mundo aparecem sublimadas, aspirando para um ideal indefinido, subindo para as nuvens, como as agulhas dos templos, braços erguidos, de mãos postas para o céu. O valor e o milagre, o herói e a protecção de um Deus sempre activo, o destino sacrossanto da vida votada ao resgate do túmulo do Redentor, a definição paradoxal do heroísmo pela abnegação e sacrifício, a castidade e a pobreza no império desbragado da luxúria e da cobiça: uma como que volta dos sentimentos morais e constitucionais do tempo, contra a realidade, exagerando a vida activa para a negar absolutamente, extraindo do naturalismo espontâneo dos costumes um idealismo fantástico: eis aí o que foi a Cavalaria, que aparece, ao terminar da Idade Média, como flor da poesia, sempre niilista.

Foi assim também que do herdeiro do Rodrigo Gonçalves, o herói bravio da tragédia de Lanhoso, do turbulento bispo D. Gonçalo, e do prior, pai de trinta e dois filhos, nasceu Nun'Álvares. Trazia hereditariamente consigo todos os elementos que geraram a Cavalaria, e por isso a flor incoerente da Idade Média apareceu humanizada no bastardo de D. Fr. Álvaro. Os homens superiores são sempre símbolos: nem a superioridade está noutra coisa. O homem é maior, ou menor, conforme a porção de humanidade que lhe corre na alma. E para que a este carácter típico de Nun'Álvares não faltasse um único traço, veio também ao mundo por bastardia. Por que será que o instinto agudo se compraz na antítese, sublimando quase sempre a negação da ordem? Será a adivinhação de que essa ordem é apenas abstracta, e um ente de razão, visceralmente oposto à anarquia real das coisas?

Tudo, pois, fadava Nun'Álvares para herói da Cavalaria nacional; e a iniciação que o pai e o seu astrólogo pedagogo, mestre Tomás, lhe deram nos livros da época, definiu, logo desde a infância, o carácter predestinado do futuro condestável de D. João I. "Havia grão sabor e usava muito de ouvir e ler livros de histórias, especialmente usava mais ler a história de Galaaz, em que se contém a soma da Távola Redonda". Pela primeira vez surgia em Portugal um homem formado pela educação literária; mas este género, que posteriormente foi até à cópia servil, iniciava-se de um modo ainda espontâneo. Com o crescer dos anos, Nun'Álvares ia criando em si uma natureza nova, assimilando, sem o sentir, a alma fantástica de Galaaz: numa confusão de realidade e fábula, num misto de pureza e extravagância, como tudo quanto o rodeava e lhe constituía o ambiente fantasmagórico da vida. Essas primeiras impressões cunharam-se-lhe de um modo indelével no espírito infantilmente plástico; e nem de longe sonhava que o facto de se confundir a si com Galaaz, irmãos na bastardia: o facto de ambicionar glória igual, e ir fantasiando uma existência semelhante de sacrifícios e aventuras: o facto de se estar formando, assim, por educação literária, em vez de obedecer espontaneamente à lei da natureza, era o sinal certo de que os velhos tempos acabavam com ele.

Surgia, com efeito, uma era nova para o mundo, para Portugal, Nun'Álvares, sem dúvida alguma, foi o nosso Messias. Remiu-nos a um tempo do pecado antigo da inconsciência, definindo claramente o destino piedoso e heróico da vida sobre o passado de inconsciência bravia. Remiu Portugal do cativeiro castelhano iminente, abstraindo a nação dos limbos obscuros da política pessoal dos reis, para a assentar sobre os alicerces firmes da vontade popular; aclamando-a num voto de acção heróica, e deixando-a, de pé e armada, pronta para a conquista do seu lugar épico na história da civilização moderna. Mal pensava em criança Nun'Álvares, ao ouvir a história de Galaaz, cujo "corpo bem talhado e contenente manso" era também como o dele próprio, que tal seria a sua demanda do Santo Sepulcro e do Graal de José de Arimateia! As fantasmagorias que lhe enchiam de assombro educativo a imaginação infantil haviam de tornar-se, porém, em realidades gloriosas. Seria o Galaaz português: não um tipo de fantasia, mas sim um homem com a ideia, doidamente arrebatada pelo misticismo cavaleiroso. Seria o precursor das gerações alumiadas pelo claro pensamento que na sua infância, e nesse signo fatídico traçado à sua vida pela fantasia de um poema, desabrochava com todo o viço e toda a frescura espontânea de uma alma virgem, temperada no aço do heroísmo, coroada com açucenas de piedade mística. A poesia foi, será sempre, iniciadora e medianeira. Por mão dela saía, primeiramente, o pensamento, das névoas da inconsciência espontânea e natural, para o reino claro da razão reflexiva.

O Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda

O lugar de Tristão acha-se vago na Mesa redonda dos cavaleiros: foi esse lugar que Nun'Álvares, ou Galaaz, preencheu. Era um sólido perigoso, uma cadeira de morte, que acabava com todos os que nela se sentavam. Quando o herói apareceu na sala, cerraram-se todas as portas e janelas por encanto; mas um raio de sol, entrando milagrosamente, iluminou em cheio a figura do herói que aparecia armado de loriga e bravoneiras, com dois sinais vermelhos sobre o braço. Por onde entrara? Ninguém o vira. Com ele vinha um ermitão, que assim disse para o rei Artur:

- Eu te trago o cavaleiro desejado que vem de el-rei David e de José de Arimateia, por quem as maravilhas desta terra e das outras haverão acima.

E Galaaz sentou-se na cadeira terrível, dizendo todos compassadamente:

- Dom Galaaz, sede o bem-vindo!

Era aquele o bastardo de Lançarote, sobrinho do rei Marte da Cornualha: o cavaleiro de quem Merlim e os profetas haviam falado como o que descobriria o Santo Graal, terminando assim as aventuras do Reino de Logres. Era ele que havia de descobrir o sacrário da pátria, dando a comungar aos seus filhos a hóstia santa do sacrifício; era ele quem terminaria, também, as aventuras do Reino de Portugal, com façanhas que gradualmente iam avultando na sua imaginação, à medida que os anos cresciam, e, com o crescer, o sol da vida, subindo, ia desmanchando as névoas da flor da terra.

Em torno sentavam-se, confundidos em admiração, os cento e cinquenta cavaleiros presididos pelo rei Artur. Eram Booz de Gaunes, o velho pai do presidente e do imperador Alaíno de Constantinopla, nascido de uma filha do rei da Grã-Borgonha, que o seduzira por encantamento, obrigando-o a mentir aos votos de castidade; era Percival, de Galles, e Eric, o filho de el-rei Lot; eram Ganet e Garriet, Leonel e Brandinor, Ocursus, o Negro, Orinides, o Branco, e Sagramor, e Garda-montanha, mais Arnal, o Formoso, com Martel-do-grande-escudo, e os outros em cujo grémio entrava Galaaz - como Nun'Álvares, quando o pai o levou à Corte de el-rei D. Fernando, em 1373.

A ideia da partida para Santarém, à Corte, aparecia-lhe como a do seu herói para a sala dos cavaleiros: ia sentar-se aí na cadeira vazia e terrível, para vencer o Fado numa sucessão de aventuras e façanhas inauditas. Também levava uma armadura forjada com o lume da virtude; e mais de uma vez simulara com os ermitões do Bonjardim a cena do cemitério, quando Galaaz quis ver a campa do cavaleiro desleal sobre que os demónios dançavam em permanência. O defunto gemia agonias no seu túmulo, ensombrado por uma velha árvore, e, soluçando, pedia a Galaaz que se afastasse; mas o cavaleiro impávido levantou a campa, donde saiu um fumo negro como pez, depois chamas, depois o próprio demónio em pé:

- Ai, Galaaz, santa cousa vejo em ti... Vejo-te cercado de anjos, que não posso durar contra ti. E porém te deixo o meu lugar, em que longo tempo folguei...

E foi-se o diabo. No fundo do túmulo estava o defunto armado. E a história termina dizendo que a campa do momento demonstra a dureza dos corações que Nosso Senhor achou no mundo, quando aqui veio, porque "na terra nom achou el se nom duros corações": e bem parecia, porque o filho não amava o pai, nem o pai o filho, e por isso iam todos ao inferno.

Já as histórias tinham um simbolismo moral; e esse momento novo de educação entrava no espírito do nosso herói, apresentando-lhe a vida como um exercício de virtude, ensinando-lhe que o mérito das acções não está no que são, mas sim no que significam; dizendo-lhe que o supremo destino da existência é converter os homens ao bem, levantando de sobre eles a campa dos pecados da carne, em corações endurecidos pela vida bravia dos tempos.

Por isso o ermitão acompanhara sempre Galaaz, para lhe mostrar a significação e o alcance da sua vida aventurosa, como os coros da tragédia antiga, comentando as acções dos heróis. E Nun'Álvares relia a fala do ermitão, onde se faz a apoteose da bastardia, considerando-se necessário o pecado de origem para a consumação das façanhas:

- Filho!, cousa santa e honrada, flor e louvor de todos mancebos, outorga-me, se te praz, que te faça companhia em toda a minha vida, enquanto te puder seguir... E não sei no mundo que hoje me pudesse confortar mais, como ver tão santo cavaleiro, como tu hás-de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus que te fez nascer em tal pecado, como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa grande virtude te outorgou por sua piedade e pela boa vida que tu começaste de tua meninice até aqui, que te dará poder e força, e bondade de armas e de ardimento sobre todos os cavaleiros que nunca trouxeram armas no Reino de Logres (ou de Portugal?) assim que tu darás acima a todas as outras maravilhas e aventuras, onde todos faleceram e falecerem. E quero todos teus feitos saber que acabarás, pois foste feito em tal pecado, onde os mouros não puderam vir, que foram feitos em leal casamento...

Assim educado, partia Nun'Álvares para a Corte aos treze anos. A própria bastardia que, embora corrente e comum no tempo, podia levantar-lhe pensamentos deprimentes no ânimo, encontrava sanção e apoteose nos livros da sua paixão. Os bastardos eram eleitos. Deus escolhia os manchados por esse pecado de origem. A virtude do pecado é preferente. Ia disposto a exceder todas as façanhas e prodígios, de valor e de abnegação. Floria-lhe o lírio da virtude cândida na alma ingénua; pulava-lhe nas veias o sangue com os impulsos da força exuberante».

Oliveira Martins («A Vida de Nun'Álvares»).


«De Nosso Senhor Jesus Cristo, até aos doze anos, sabemos só que fora "crescendo em graça e sabedoria". E que tal como as estrelas o haviam anunciado a magos e pastores, o Menino que entrava no templo e embasbacava os doutores nascera predestinado a inaugurar a nova terra e os novos céus.






Depois de um nascimento auspicioso, também pouco sabemos da infância daquele a quem Oliveira Martins chama "o nosso Messias". Diz-nos o autor anónimo da Crónica do Condestabre que foi "criado a grão viço" e que "havia grão sabor e usava muito de ouvir e ler a história de Galaaz que contém a soma da Távola Redonda". A partir daqui, e até à sua entrada na corte, tudo se faz, escreve ou imagina à luz da sua vida pública e "ressurreição".

Quando conta aos pequenos portugueses a infância adivinhada do futuro Condestável, diz Jaime Cortesão que Nuno era um menino respeitador e sério, leal e amigo da verdade, levando sempre a cabo as suas promessas com esforço e empenho. E que este rapaz "de poucas e pensadas palavras", terá passado a infância ao vento, à chuva e ao sol, correndo, lutando, jogando a lança de arremesso e caçando pelos montes veados, ursos e javalis.

Oliveira Martins, pegando no mote lançado pela Crónica do Condestabre, preferira imaginá-lo a simular repetidamente com os ermitãos do Bonjardim cenas da vida de Galaaz e a sonhar-se irmão do cavaleiro na bastardia e na pureza, no sacrifício e na glória - sem sonhar que o facto de se confundir com Galaaz e de "se estar formando, assim, por educação literária, em vez de obedecer espontaneamente à lei da natureza, era sinal certo de que os velhos tempos acabavam com ele". Assim vê Oliveira Martins a infância daquele que, pela força "iniciadora e medianeira" da poesia ou da imaginação, iria inaugurar a modernidade, "remindo Portugal do cativeiro castelhano iminente, abstraindo a Nação dos limbros obscuros da política pessoal dos reis para a assentar nos alicerces firmes da vontade popular; aclamando-a num voto de acção heróica, e deixando-a de pé e armada, pronta para a conquista do seu lugar épico na história da civilização moderna". E descreve-o depois, aos treze anos, a caminho da corte, na companhia do pai que, aproveitando a viagem para Santarém e a sua larga experiência, o vai (e nos vai) instruindo na história e na verdade do mundo. Diz ainda o autor de Vida de Nun'Álvares que D. Nuno, ao ouvir de D. frei Álvaro os pérfidos "casos do tempo" ("com a firmeza dos videntes e a indiferença dos eleitos"), mais se ia convencendo da necessidade de "travar a roda da maldade, estabelecendo o reinado da candidez e da força heróica".

"Estavas lá? Viste?" - pergunta-lhe depois Eça de Queirós a propósito da minúcia e da vivacidade do seu reconto e da recriação de alguns aspectos da vida de Nun'Álvares: "haveria a discutir se não lhe meteste na alma muita coisa que é só do nosso século". Mas acaba, na mesma carta, por agradecer ao autor o facto de ter conseguido "ressuscitar" o personagem e "o sentimento esquecido da pátria".

Ninguém estava lá, ninguém viu, nem mesmo o autor da Crónica do Condestabre; mas por ter sido o homem que foi, Nun'Álvares terá sido por certo "criado a grão viço", como queria o cronista anónimo, ou "adestrado em quantas boas prendas fazem o homem esforçado e rijo", como queria Jaime Cortesão. E é também certo que na sua formação muito pesaram a fé, a imaginação, os ideais de Cavalaria, o exemplo de Galaaz e a devoção à Virgem Maria».

Jaime Nogueira Pinto («Nuno Álvares Pereira»).




«Sob calma aparente, Nun'Álvares descobre rasgos de emotividade primária, frenesim de acção e luta, uma pujança expressa em destemor, não sofreados repentes e rapidez de estratégia, o que tudo leva a inseri-lo também no tipo caracterológico denominado colérico - grupo dos condutores ("meneurs"), pelo poder da simpatia, feita de misticismo e desembaraço do que foi um verdadeiro condestável. A vivência religiosa de igual modo intensa e a bondade da sua índole, refrearam-lhe contudo, e com o tempo, os impulsos, acentuando aspectos secundários do seu carácter. O "colérico fiel", acabou por vencer o colérico lutador nesse extraordinário "guerreiro e monge"».

Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).


«Nos vários textos o Graal é apresentado essencialmente sob três formas:

1) Como um objecto imaterial, dotado de movimento próprio, de natureza indefinida e enigmática ("não era de madeira, nem de qualquer metal, nem de pedra, de chifre ou de osso").

2) Como uma pedra - "pedra celeste" e "pedra da luz".

3) Como uma taça, uma bacia ou uma salva, muitas vezes de ouro e, por vezes, incrustada de pedras preciosas. Quer sob esta forma, quer sob a forma anterior, são quase sempre as "mulheres" que levam o Graal (outro elemento completamente estranho a todo o ritual cristão; pelo contrário, não é referida a presença de sacerdotes).

Uma forma mista é a de uma taça talhada numa pedra (por vezes numa esmeralda). O Graal é qualificado, ora como "santo", ora como "rico" - "é a coisa mais rica que em vida se pode ter", diz-se na "Morte Darthur". Este texto, tal como muitos outros do mesmo período, usa a expressão Sangreal, susceptível de três interpretações: Santo Graal, Sangue Real (de Realeza).

As principais virtudes do Graal podem ser resumidas do seguinte modo:

1) Virtude de luz, isto é, virtude iluminante. Do Graal emana uma luz sobrenatural. (...) Robert de Boron descreve a aparição do Graal na prisão de José de Arimateia como a de uma grande luz, acrescentando que José, "apenas visto o vaso, foi completamente inundado pelo Espírito Santo". Em Vaucher, o "Rei Pescador" que de noite leva consigo o Graal, ilumina com ele o caminho. Falando da sua aparição a José, o Grand St. Graal diz que dele emanava "um tal clarão, como se ardessem mil velas", e refere-se a uma espécie de êxtase para lá da condição temporal: de facto, os quarenta e dois anos que José passou na prisão com o Graal pareceram-lhe apenas três dias.

Em Gautier, Parsifal segue uma donzela numa floresta obscura, apesar da sua proibição. De súbito surge uma grande luz, a donzela desaparece, desencadeia-se uma terrível tempestade e, no dia seguinte, Parsifal vem a saber que a luz provinha do Graal, levado pelo "Rei Pescador" através da floresta. Em Wolfram ele é a "pedra da luz": "Satisfação perfeita de todos os desejos e paraíso, eis o Graal, a pedra da luz, perante a qual todo o esplendor terreno nada é". Na Queste du Graal, Galaad, ao ver o Graal, é tomado de um grande frémito e diz: "Agora vejo claramente tudo aquilo que a língua não poderia jamais exprimir nem o coração pensar". "Aqui vejo o princípio das grandes façanhas e a causa das proezas, aqui vejo a maravilha das maravilhas". Na Morte Darthur a manifestação do Graal é acompanhada por um ribombar de trovão e por um raio solar sete vezes mais resplandecente que a luz do dia" e, naquele momento, "todos foram iluminados pela graça do Espírito Santo". Nesta ocasião o Graal apresenta-se sob uma forma enigmática, "ninguém podia vê-lo nem pegar-lhe", se bem que cada cavaleiro dele recebesse "o alimento que mais desejava no mundo".

Geografia da Grã-Bretanha por volta de 500 d. C.

2) Isto corresponde à segunda virtude do Graal. Além de ser luz e força sobrenatural iluminante, ele dá alimento, dá "vida". Pelo Graal, concebido como uma "pedra", lapsit exillis, são alimentados, em Wolfram, todos os cavaleiros templários: sie lebent von einem steine.

Levado para a mesa, ou ao aparecer magicamente sobre ela, cada cavaleiro recebe precisamente aquilo que mais deseja. Falar aqui de alimentos físicos correspondentes aos diversos gostos, significa, na realidade, a materialização de uma verdade superior, em relação aos efeitos de um único dom de "vida", segundo a vontade, a vocação e a natureza própria ou qualificada daqueles que o recebem. Finalmente, esse alimento transforma-se naquilo que destrói todo o desejo material; é por essa razão que, em Perceval le Gallois, em virtude do aroma exalado pelo Graal, os convidados se esquecem de comer e Galvão, num enlevo extático, tem a visão dos anjos. No Grand St. Graal, o Graal reproduz o milagre da multiplicação dos pães. Na Queste du Graal, em que a sua aparição é precedida por uma "luz resplandecente como o sol", ele move-se magicamente e, depois de ter dado a cada um o seu "alimento", desaparece, tal como na já referida narração da Morte Darthur. É dito em particular que os fortes, os heróis gostam de alimento fornecido pelo Graal - assim, Robert de Boron apresenta a seguinte etimologia: "Chama-se Graal porque agrada aos bravos: agree as pordes homes". Já tivemos ocasião de ver que o próprio José de Arimateia, juntamente com os seus cavaleiros, recebeu do Graal, além de luz, vida (alimento), durante todo o período da prisão que lhe foi imposta pelo rei Crudel ao longo de quarenta anos.

3) Porém, o dom da "vida" do Graal também se manifesta na virtude de curar feridas mortais, de renovar e prolongar sobrenaturalmente a vida. Em Manessier, Perceval e Heitor, combatendo um contra o outro, ficam ambos feridos de morte e esperam o fim quando, à meia-noite, o Graal, trazido por um anjo com rosto "imperial", surge e os cura instantânea e completamente. O mesmo episódio encontra-se na Morte Darthur, onde se produz um fenómeno semelhante em relação a Lancelote. Na Queste du Graal é narrada a visão respeitante a um cavaleiro doente, estendido numa urna, que se arrasta até ao Graal e, ao tocar-lhe, se sente revigorado e o seu sofrimento dá lugar ao sono. Mas neste caso há ainda a interferência de um outro motivo, o dos reis que, à espera do restaurador ou vingador predestinado, são mantidos pelo Graal numa vida artificialmente prolongada. - Wolfram, ao referir que, em virtude do Graal, "a Fénix se consome e se torna em cinzas, mas também se transforma, reaparecendo em seguida em todo o seu esplendor e mais bela do que nunca", estabelece claramente uma relação entre o dom de "vida" do Graal e a regeneração, de que a Fénix sempre foi tradicionalmente um símbolo. Wolfram diz, com efeito, que "uma tal pedra (o Graal) infunde no homem um tal vigor que os seus ossos e a sua carne reencontram imediatamente a sua juventude - selhe kraft dem menschen gît der stein daz im fleisch und bein - jungent enpfaeht al sunder twâl". Portanto o Graal, além de iluminar, renova; porém, recusa o seu alimento simbólico ou "dom de vida", àqueles que estiverem manchados de pecados - segundo alguns textos, aos vis e aos mentirosos.

4) O Graal transmite uma força de vitória e de domínio. (...) Segundo Robert de Boron, todos aqueles que conseguem vê-lo, além de gozarem da alegria eterna, não serão jamais privados do seu direito e não serão jamais vencidos em batalha. No Lorengel, o Graal apresenta-se como a "pedra da vitória", com a qual Parsifal repele o rei Átila e os seus Hunos, no momento em que eles se preparavam para subverter a cristandade. Acerca daquele que supera a prova do Graal, diz-se em Wolfram: "De resto não existe no mundo ser que te supere em nobreza e honra. És o Senhor de todas as criaturas. Ser-te-á transmitida a potência suprema". Este aspecto do Graal, segundo o qual ele confere uma força de vitória, será, por outro lado, mais acentuadamente realçada em relação à "espada do Graal". Mas já neste passo de Wolfram se anuncia a essência mais alta do Graal, a sua relação com uma realeza transcendente, com o princípio do "Senhor do mundo". Veremos, aliás, que o próprio Graal designa, como um oráculo, os cavaleiros chamados a assumir a dignidade de reis em diferentes terras. Há quem, não a despropósito, tenha aproximado o Graal do objecto que simboliza e encarna a força celeste da realeza segundo a anti-tradição irânica, o hvarêno, e que assume os diferentes aspectos de pedra mágica, de pedra da soberania e da vitória, de taça: aspectos que, efectivamente são também comuns ao Graal.


Parsifal

5) Se, por um lado, o Graal tem uma virtude vivificante, por outro lado, tem uma virtude temível, destruidora. O Graal cega. O Graal fulmina. Ele pode agir como uma espécie de voragem. Nescien reconhece no Graal o objecto do desejo, por ele já alimentado quando era um jovem cavaleiro mas, mal abre a custódia, treme e perde a vista e, com ela, todo o domínio sobre o seu próprio corpo. A Queste du Graal acrescenta que Mordrain, num acto semelhante, tinha procurado contemplar aquilo que a nenhuma língua é dado exprimir: a sua tentativa desencadeia um vento sobrenatural que lhe destrói a vista, e ele é condenado a ficar em vida neste estado, até à chegada do herói que realizará o mistério do Graal e o curará. O tema não é novo. O próprio Dante, ao contemplar o Empireu, perde a vista, embora a recupere, posteriormente, ainda mais penetrante. As proezas do herói persa Rostan visam restituir a vista e a liberdade a um rei, cujas vocações prometeicas são claramente comprovadas pela sua tentativa de escalar o céu, servindo-se de águias. Outros exemplos poderiam ser facilmente citados. Segundo a narração de Gebert, Mordrain, que construiu um altar para o Graal, encontra o seu acesso interceptado por um anjo com uma espada de fogo (o que nos recorda a análoga intercepção do "lugar primordial" na Bíblia, o muro de fogo que, segundo alguns textos, rodeia a "ilha", etc). Como castigo pela sua tentativa, o anjo anuncia-lhe que ele não poderá morrer e que as suas feridas ficarão abertas até à vinda do cavaleiro que "levantar a questão". No Diu Crône declara-se que pôr-se no caminho do Graal é "uma coisa mortalmente perigosa". Mas é precisamente a essa visão de perto do Graal, que atingiu Mordrain e Nescien, que aspira Galvão, o qual parte em busca de aventuras, decidindo não regressar antes de o ter conseguido.

A natureza perigosa do Graal revela-se, em segundo lugar, em relação ao tema do "lugar perigoso" e à prova que este constitui para quem quiser assumir o papel de "herói esperado" e a função de chefe supremo da cavalaria da Távola Redonda. Trata-se do "lugar vazio" ou "décimo terceiro lugar" ou "lugar solar"...; lugar sob o qual se abre o abismo ou é fulminado quando nele se senta um indigno ou um não-eleito. Assim, quando Moisés se prepara para ocupá-lo, é agarrado por sete mãos de fogo e destruído "como a chama destrói um pedaço de madeira" - em seguida, o texto apresenta o problema nestes termos: metade do fogo que queima Moisés apagou-se, mas a outra metade não se apagará até que Galaad venha levar a bom termo a aventura do Graal. Uma variante é "a prova do vaso": desfrutam do êxtase do Graal aqueles que, à mesa de José de Arimateia (que se confunde com a Távola Redonda, a não ser que seja considerada como antecedente desta) não se encontrem manchados de pecados; nesta altura Moisés, tendo-se sentado no lugar perigoso, é tragado por um abismo que se abre a seus pés - segundo a interpretação cristã, por causa da sua falta de fé, porque era um falso discípulo.

Também se encontra ainda este outro tema: só poderá realizar a conquista do Graal quem se tiver sentado no trono de ouro construído por uma mulher sobrenatural. Seis cavaleiros que nele tentaram sentar-se, foram tragados por uma súbita voragem. Parsifal também aí se senta, por sua vez; ribomba um terrível trovão, a terra rasga-se, mas ele permanece tranquilo no seu lugar. Impassível, na sua dignidade calma, na pureza da sua força, nada pode contra ele. Em Robert de Boron, depois disto, é imposta ao audacioso cavaleiro que realizou esta prova, assim como a todos os cavaleiros da Távola Redonda, uma série de posteriores aventuras que constituem o meio para a conquista definitiva do Graal. A Queste du Graal e a Morte Darthur apresentam o tema de uma forma ainda mais directa: o lugar perigoso só é ocupado com êxito por aquele que tiver superado a "prova da espada", que tiver conseguido arrancar uma espada da pedra, demonstrando assim ser o melhor entre os cavaleiros. Quando uma tal prova, cujo significado já explicámos, é bem sucedida, o Graal manifesta-se na corte do Rei Artur, uma luz brilha, mais resplandecente que o sol, o Graal surge magicamente, emanando o seu aroma e dando a cada cavaleiro o alimento adequado.




Este aspecto perigoso do Graal é considerado como o máximo que o Graal pode precisamente produzir, segundo a natureza diferente daqueles em contacto com ele. A força do Graal destrói todos aqueles que tentam pegar-lhe sem possuírem a adequada qualificação, que tentam de qualquer modo usurpá-lo, repetindo o gesto titânico, luciférico ou prometeico. Encontra-se a este respeito, uma expressão bastante significativa em Wolfram, quando ele diz figurativamente que, para os pecadores, o Graal se torna tão pesado que, mesmo reunindo os seus esforços, não conseguiram pegar-lhe. É o próprio excesso que a potência transcendente representa para um ser condicionado e preso à sua limitação, que faz actuar como força destruidora uma força de "vida" (cf. o fogo que consome Moisés). Uma variante deste significado pode ser encontrada na Morte Darthur, sob a seguinte forma: ao ver "uma grande claridade, como se todas as tochas do mundo estivessem reunidas naquela sala", devida ao Graal, Lancelote avança. Uma voz adverte-o de que não deve entrar, mas sim fugir, ou terá de arrepender-se. Ele não obedece e entra: um fogo atinge-o no rosto, ele cai por terra e já não pode erguer-se, tendo perdido todo o controlo sobre os ombros. Aos companheiros, que o julgam morto, um velho diz: "Em nome de Deus, ele não está morto, mas mais cheio de vida que o mais forte de todos vós". Lancelote permanece neste estado de morte aparente durante vinte e quatro dias e as primeiras palavras que depois pronuncia são: "Por que razão me acordaram? Estava muito melhor do que agora". Esta experiência relaciona-se, na narrativa, com o facto de ter visto o Sangreal como alguém jamais o poderá ver - trata-se, evidentemente, de um estado iniciático, de um estado em que a participação na potência do Graal é impossibilitada por uma suspensão da consciência de vigília e pela limitação individual que lhe é relativa: é isso que evita o efeito negativo, destruidor e perturbador que a experiência do "contacto" tem para quem não souber passar a formas superiores de consciência, a outros estados do ser.

6) O carácter duplo das virtudes do Graal está, de certo modo, relacionado com o significado que se atribui universalmente, nas tradições concordantes dos vários povos e mesmo para além de qualquer relação com o simbolismo cristão, à dualidade taça-lança, correspondendo a taça sobretudo ao aspecto feminino, vivificante e iluminante e a lança ao aspecto viril, ígneo ou real (ceptro) de um mesmo princípio: a primeira corresponderá, se quisermos, à árvore "lunar" e a segunda à árvore "solar"...; a primeira ao aspecto "Sapiência santa" e a outra ao aspecto "fogo" e "domínio" do mesmo princípio. Mas, no mesmo contexto, poder-se-ia ainda inferir a ambivalência da própria lança, retomada pela tradição irlandesa, a qual, por um lado, inflige o coup douloureux, provocando uma destruição, enquanto, por outro lado, encerra a virtude de curar.

Esta rápida resenha das virtudes atribuídas ao Graal ilustra o lado, digamos assim, subjectivo, da sua própria procura. Esta procura é, na realidade, uma vivência interior. Não se trata, como experiência, de algo comparável a um simples êxtase místico. É antes um poder primordial que acaba por ser positivamente evocado. Quem souber assumi-lo, está qualificado para as altas tarefas sugeridas pela lenda, e que constituem mesmo o seu núcleo central».

Julius Evola («O Mistério do Graal»).


«Quando Nun'Álvares assentou o seu arraial contra Coria, estava o rei de Castela em Burgos. De lá mandou o arcebispo de Toledo com milhar e meio de lanças em socorro da cidade ameaçada; mas retiraram prudentemente sobre Salamanca, não se atrevendo a investir com o exército português que já tinha todas as suas forças reunidas, No dia imediato ao da chegada do Condestável, chegara o rei com a retaguarda. O exército inteiro da revista da Vilariça estava junto, sob os muros de Coria.




Junho entrara já; o calor apertava. Estabelecia-se o cerco; destacavam-se algaras até Plasência, pelo vale de Alagón acima, para forragearem mantimentos. Deu-se um assalto, mas foi repelido. Os sitiantes não traziam consigo o pesado material dos cercos. A empresa oscilava, desprovida de direcção firme e enérgica. Nun'Álvares, obedecendo, dizia porém ser loucura estar matando gente inutilmente contra os muros. Para ele, os cercos eram erros. Via claramente que, na insuficiência de meios de um exército improvisado sobre um reino vacilante, só as correrias aventurosas, os voos rápidos, as temeridades ousadas, podiam ser fecundas: e nunca, a guerra, segundo as regras clássicas da arte, aparatosas e graves, que seduziam a imaginação menos aguda do moço rei.

Depois do malogrado assalto, D. João I, na sua tenda, queixava-se melancolicamente:

- Grande falta nos fizeram hoje os bons cavaleiros da Távola Redonda: se aqui fossem, de certo tomávamos este lugar...

Nun'Álvares, para quem a Cavalaria fora mais do que uma fórmula de guerra e de Corte, calou-se. A Távola Redonda, para ele, era já um altar sagrado; e a imagem de Galaaz da sua mocidade transfigurara-se por duas vias: transcendentalizando-se sob o influxo do pensamento, dissipando-se no contacto com a realidade. A imagem desvanecera-se, a ficção apagara-se, depois de o ter levado pela mão, como uma sombra, até às portas do Reino de Deus. Mem Rodrigues, porém, o alferes da ala dos namorados, rapaz alegre, de língua solta e coração ardente, respondeu quase atrevidamente ao rei:

- Senhor, não fizeram aqui míngua os cavaleiros da Távola Redonda. Aqui está Martim Vasques, tão bom como Dom Galaaz, e Gonçalo, melhor do que Dom Tristão. Eis aqui João Fernandes Pacheco,  igual de Lançarote, e estou eu que valho tanto como Dom Caio... Não fizeram míngua os cavaleiros que dizeis: o que nos faltou aqui foi o bom rei Artur, flor-de-lis, senhor deles, que conhecia os bons e servidores.

Mem Rodrigues, rindo, estendia a mão para pedir. Não ficava isso mal na Corte; mas o rei, fazendo-se desentendido, respondeu:

- Nem eu excluía esse, que era cavaleiro da Távola Redonda como cada um dos outros.

A Corte de D. João I era como todas, sempre. O egoísmo trajava as galas do requinte. Na Cavalaria estava o bom-tom, e nos romances do ciclo de Artur, a literatura da moda. Quando nos lembramos de Valverde e da oração fervorosa entre os dentes da rocha diorítica do promontório do Guadiana: erupção ígnea da terra sobre a qual, em trono condigno, se dava a erupção de uma alma para o Céu; quando comparamos as correrias terríveis, quase fúnebres, da falange do Condestável; ou a véspera de Aljubarrota no medo horrível da morte: com esta expedição de Coria, cerco semelhante a um sarau, exército já convertido numa Corte pela doçura inebriante da vitória da véspera: compreendemos, perante o contraste, o silêncio do Condestável. A Cavalaria não fora para ele um torneio, mas uma empresa dura e prática; a vida não a olhava como um prazer, mas sim como um voto de dedicação extrema para a conquista do Céu. O silêncio de Nun´Álvares, no cerco de Coria, é revelador».

Oliveira Martins («A Vida de Nun'Álvares»).



D. Nun'Álvares ao tempo da conquista de Ceuta (1415). Pintura do século XVII, cedida por Teresa Schönborn.


«Não é esta a ocasião de multiplicarmos os exemplos de amor de Deus e do próximo de que deu provas Nun'Álvares como cavaleiro. O que desejamos frisar como conducente ao nosso fim, é que a vida do soldado, pelas muitas virtudes de que deu provas é uma anunciação do estado de religioso, em que vai entrar aos 63 anos. E que é dentro de uma intensa vida espiritual que se opera esta ascensão! Nem compreenderíamos que tivesse chegado à renúncia total quem não se tivesse preparado para ela pelo exercício das virtudes cristãs!

E se insistimos no que há de "heróico" nesta ascensão para a santidade é para divergirmos da interpretação que Oliveira Martins deu um dia deste abandono do mundo. Para Oliveira Martins (...) a entrada de Nun'Álvares na clausura foi um abdicar perante o niilismo que o penetrava. A tentação do aniquilamento, do suicídio levava ao tempo, diz Oliveira Martins, ou à clausura, ou ao campo das batalhas... Em metade de um capítulo Frei Nuno de Santa Maria é entrevisto através de pseudas aspirações de suicídio, de anseios de aniquilamento, de desejos de morte! Despojando-se de tudo quanto era seu, Nun'Álvares, ainda segundo Oliveira Martins, atingira a liberdade absoluta, aniquilando-se. A morte social fora mesmo a sua primeira morte. E o humilde frade carmelita, que se contentou sempre com os trabalhos humildes de irmão leigo, e que tantas vezes repetia "que na casa de Deus tudo é grande e que não viera a ela para descansar, mas para trabalhar como os outros", na opinião de Oliveira Martins concluíra, entre várias ideias luminosamente fúnebres - que o Nada é a síntese suprema das coisas! Não passava de um filho espiritual de Siddharta aquele que iniciaria no claustro a verdadeira solidariedade humana pela beatitude cristã e levaria nove anos em contacto com as dores humanas, não para as contemplar passivamente, mas para redimir umas e sarar outras!

Não é historicamente aceitável esta interpretação de Oliveira Martins em a Vida de Nun'Álvares. De modo nenhum! O Nirvana, transformado por Çakya-Mouni numa espécie de aniquilamento, pelo menos do pensamento, é uma fonte de estéril resignação e de infantil conformidade. A vida de Nun'Álvares em religião não é aniquilamento, mas superação do homem imperfeito, uma ascensão, uma escalada para o Bem e para a Verdade - o que não foi alcançado, certamente, sem ásperas lutas. Não é negação do espírito social; é antes a sua revalorização, dentro da norma cristã, fielmente cumprida».

Álvaro da Costa Pimpão («O Santo Condestabre», in «S. Nuno de Santa Maria. Nuno Álvares Pereira. Antologia de Documentos e Estudos sobre a sua Espiritualidade»).


«(...) enquanto cavalgavam, Artur disse: "Não tenho espada". "Não importa", disse Merlin, "aqui perto há uma espada que será vossa, se eu o conseguir".

Assim cavalgaram até que chegaram a um lago de águas largas e formosas, e bem no meio do lago Artur divisou um braço vestido de brocado branco, que segurava uma bela espada na mão.

"Oh!", disse Merlin, "eis ali a espada de que vos falei".

E nisto viram uma donzela caminhando sobre as águas.

"Quem é aquela donzela?", disse Artur.

"Aquela é a Dama do Lago", disse Merlin, "e no fundo do lago há uma rocha e uma gruta, e aí há um lugar tão belo e aprazível como se fosse em terra e ricamente acomodado. E esta donzela virá em seguida até vós; falai-lhe então gentilmente para que ela vos dê a espada".

E logo veio a donzela até Artur, e o saudou, e ele a ela.


Ver aqui


"Donzela", disse Artur, "que espada é aquela, que aquele braço segura ao de cima da água? Gostaria que fosse minha, pois não tenho espada".

"Senhor Rei Artur", disse a donzela, "aquela espada é minha, e, se quando eu o pedir, me oferecerdes uma prenda, tê-la-eis".

"Por minha fé", disse Artur, "dar-vos-ei a prenda que me pedirdes".

"Bem!", disse a donzela, "subi para aquela barca, remai até à espada, e tomai-a com a bainha, que eu vos pedirei a minha prenda quando o tempo for chegado".

Apearam-se Sir Artur e Merlin e amarraram os seus cavalos a duas árvores; subiram então para a barca e quando chegaram até à espada que a mão segurava, Sir Artur agarrou-a pelo punho e puxou-a, e o braço e a mão sumiram-se para dentro de água; voltaram então para terra e a cavalo puseram-se a caminho...

(...) Então Sir Artur mirou a sua espada, que muito lhe agradou.

"Que mais vos agradou", disse Merlin, "a espada ou a bainha?"

"Gosto mais da espada", disse Artur.

"Sois desavisado", disse Merlin, "pois a bainha vale por dez espadas, já que enquanto a tiverdes convosco não perdereis sangue nem sereis ferido com gravidade; por isso guardai sempre a bainha convosco e guardai-a bem".

(...) entrou na corte uma dama que tinha por nome a Dama do Lago. Chegou montada num cavalo, ricamente ataviada, e saudou o Rei Artur, e pediu-lhe a prenda que lhe havia prometido quando ela lhe dera a espada.

"É bem verdade", disse Artur, "uma prenda vos prometi, mas esqueci o nome da minha espada, aquela que me destes".

"O seu nome", disse a dama, "é Excalibur, e o mesmo é dizer Aço Afiado"...».

Thomas Malory («A Morte de Artur», Vol. I).







«(...) Vossas Mercês por acaso nunca leram os anais e crónicas de Inglaterra? - respondeu D. Quixote. - Pois é pena que não tenham lido os livros que tratam das façanhas famosas do rei Artur, no nosso idioma geralmente chamado o rei Ártus. Segundo uma tradição muito antiga, mas comum a todo o reino da Grande Bretanha, esse rei não morreu. Por artes de encantamento, mudou-se em corvo e há-de vir um dia recobrar o seu trono e tornar a reinar quando forem revolutos os tempos. Os ingleses tanto assim o crêem que ninguém iria jurar que, desde então até hoje, algum deles tenha matado um corvo. Pois em vida deste bom rei é que foi instituída a célebre Ordem de Cavalaria da Távola Redonda e se passou a história dos amores de Lançarote do lago com a rainha Genebra, sendo medianeira e confidente a honrada matrona D. Quintanhona. Daqui nasceu aquele corriqueiro romance, tão popular da nossa Espanha:

Nunca fora cavaleiro
De damas tão cortejado,
Como fora Lançarote
Mal de Bretanha chegado.

- Sim - prosseguiu D. Quixote - quando veio da Bretanha com todo o prestígio de herói, herói duma série, que nunca mais tem fim, de amorosos e altos feitos. Desde então, de elo em elo, esta Ordem de Cavalaria cresceu e foi-se estendendo às diversas partes do mundo. No seu seio se geraram, tão distintos como famigerados por seus feitos, o valente Amadis de Gaula com filhos e netos até a quinta geração, o esforçado Felizmarte de Hircânia, e o nunca assaz louvado Tirante el Blanco. Da mesma procedência, na aurora já dos nossos dias, é o invencível e valoroso cavaleiro D. Belianis de Grécia. Aqui está pois, senhores, o que é ser cavaleiro andante. E a Ordem de que vos falei é a Ordem da mesma Cavalaria, na qual, ainda que pecador, tomei votos, professando o mesmo que professaram os mencionados cavaleiros. Já vêem a razão por que ando por estas solidões e descampados em cata de aventuras, determinado a jogar a vida no passo mais perigoso que possa deparar-me a fortuna em prol dos débeis e dos desventurados.

Proferidas estas palavras, tanto bastou para os viajantes se arraigarem na convicção de que D. Quixote era falto de juízo e que género de loucura o trabalhava. Vivaldo, que era pessoa de génio alegre e espirituoso, como forma de matar o tempo até chegarem ao lugar de enterro, procurou fornecer-lhe ensejo a que fosse mais além com os seus disparates. E disse-lhe:

- Parece-me, senhor cavaleiro, que a profissão de Vossa Mercê é das mais severas que há no Universo e que nem os frades capuchos lhe levam...

- Tão severa bem poderá sê-lo, agora mais necessária ao mundo é uma coisa que estou a dois passos de negá-lo. A falar verdade, o soldado que executa uma ordem que lhe dá o seu capitão não é menos meritório que o capitão que o manda. Com isso quero dizer: os religiosos com todo o ripanço e sossego pedem ao céu o bem da terra; nós, soldados e cavaleiros, pomos em execução o que eles pedem, renhindo com o valor do nosso braço e o fio das nossas espadas, não debaixo de telha, mas a céu aberto, servindo de alvo no Verão aos insofríveis raios do Sol, no Inverno aos seus eriçados gelos. Somos desta sorte ministros de Deus na terra e o braço secular da sua justiça. E como as coisas da guerra e todas as que lhe dizem respeito não se podem efectuar senão à custa de muita lida, muito suor e cuspindo às mãos, segue-se que aqueles que andam nela têm por certo mais trabalho do que aqueles que em plena quietude e remanso rogam ao Senhor para que se digne tomar debaixo de sua divina protecção os infelizes que precisam dela. Não vou até o ponto de pretender que o estado de cavaleiro andante seja tão bom como o do monge ajoelhado no seu claustro. Tão-somente tenho em mira inferir do que padeço que sem dúvida nenhuma é mais trabalhoso e aporreado, faminto e sedento, miserável, roto e piolhoso. Muitas horas amargas passaram os cavaleiros andantes do passado. Se alguns se guindaram a imperadores pela força do braço, honra lhes seja que o mereceram. Tantas vezes, valeram-lhes os magos e os encantadores, quando não teriam ficado bem defraudados em suas esperanças».

Miguel de Cervantes Saavedra («D. Quixote de la Mancha», I, Versão de Aquilino Ribeiro).





«(...) a sabedoria antiga foi tornada mais respeitável e digna de fé, graças à vaidade e à leviandade dos que propuseram coisas novas, principalmente na parte activa e operativa da filosofia natural. Com efeito, não têm faltado espíritos presumidos e fantasiosos a cumularem, em parte por credulidade, em parte por impostura, o génio humano de processos tais como: prolongamento da vida, retardamento da velhice, eliminação da dor, reparação de defeitos físicos, encantamento dos sentidos, suspensão e excitação dos sentimentos, iluminação e exaltação das faculdades intelectuais, transmutação das substâncias, aumento e multiplicação dos movimentos, compressão e rarefacção do ar, desvio e promoção das influências dos astros, adivinhação do futuro, reprodução do passado, revelação do oculto, e alarde e promessa de muitas outras maravilhas semelhantes. Portanto, não estaria longe da verdade, acerca de espíritos tão pródigos, um juízo como o seguinte: há tanta distância, em matéria filosófica, entre essas fantasias e as artes verdadeiras, quanto em história, entre as gestas de Júlio César ou de Alexandre Magno e as de Amadis de Gaula ou de Artur da Bretanha. É notório, pois, que aqueles ilustres generais realizaram muito mais que as façanhas atribuídas a esses heróis espectrais, em forma de acções reais, nem um pouco fabulosas ou prodigiosas. Não obstante, não seria justo negar-se fé à memória do verdadeiro porque tenha sido lesado e difamado pela fábula. Mas, tampouco, se deve estranhar que tais impostores, quando tentaram empresas semelhantes, tenham infligido grande prejuízo às novas proposições, principalmente às relacionadas com as operações práticas. O excesso de vaidade e de fastígio acabou por destruir as disposições magnânimas para tais cometimentos».

Francisco Bacon («Novum Organum», Aforismo LXXXVII).


«Em Brasão, Portugal é o rosto com que a Europa fita um Ocidente que, ao plenamente ser, justificará todo o passado de miséria que a humanidade tiver atravessado; a missão de Portugal não poderá ser outra senão a de resgatar o que a Europa fez e de a salvar a seus próprios olhos; por isso o seu campo, o dos Castelos, é o que serve de base ao das Quinas, o das Chagas de Cristo, este o campo de Portugal: é expirando na cruz, esgotando-se no seu sangue e na sua piedade, que Portugal poderá salvar o mundo.

No dos castelos, porém, Portugal porá, como seu alicerce, o que de mais fundamental a Europa poderá ter dado ao mundo: com Ulisses, a ideia de que o mito é mais importante do que a realidade, de que o poder vir a ser é o substracto do que é, de que as coisas morrem à medida que são; com Viriato, a de que a verdadeira força propulsora da vida não é a inteligência, mas a reminiscência, e de que o ponto criador não é a definição, mas o pressentimento; com o Conde D. Henrique a de que a acção, se Deus é o agente, se faz para além das intenções e das possibilidades do herói, consistindo o heroísmo apenas em se não recusar o que se não compreende; com D. Tareja, juntamente com a da contemporaneidade do temporal e do eterno, a de que o dever perante a obra consiste em a ela se dedicar com a bruta e natural certeza com que a Mãe amamenta a seu filho; com D. Afonso Henriques, a de que para se vencerem infiéis, só vale uma indefinível arma, que, espinosianamente, tenha como um dos aspectos o da espada e como outro o da benção, como um, o do corpo, como outro, o do espírito; com D. Dinis, a de que a intuição poética vale mais do que o plano; com o sétimo castelo, o que junta D. João e D. Filipa, o que se afirma é que a história, ao ser, toma dois aspectos: o do homem e o da obra, sendo as modificações de qualquer desses o reflexo das modificações do outro; e ainda, que o milagre da concepção humana consiste em que cada filho, sendo de seus pais, não tem ao mesmo tempo nada que ver com eles: a cada nova geração reafirma o Espírito Santo a liberdade de criar. A Europa em que Portugal assenta não é, felizmente, a Europa cartesiana.


Nun'Álvares num batel, atravessando para Lisboa, no fim do cerco, por entre a esquadra castelhana. Ilustração de Martins Barata do episódio narrado por Fernão Lopes.


Se a força de alicerce de Portugal vem de ter afirmado a existência de uma Europa que duas vezes se perdeu a si própria, primeiro na Idade Média grega, depois na Idade Média Ocidental, a sua força de salvação virá de, voluntariamente, ter incluído em seu brasão as chagas de Cristo, não pintando-as apenas, mas consubstanciando-as em gente sua: primeiro em D. Duarte, o mártir do dever; depois em D. Fernando, o mártir da grandeza de alma, superior sempre a seu destino; e em D. Pedro, o mártir da fidelidade a uma ideia claramente pensada e claramente sentida; e em D. João, o mártir de não querer senão o todo, ou o seu nada; e, finalmente, em D. Sebastião, o mártir do sonho de grandeza que está para além das circunstâncias históricas. Coroando os campos, a santidade activa de Nuno Álvares, a sua pureza guerreira, o halo que no céu gravam suas acções terrestres; e, numa afirmação final da energia que a tudo subestá, o Grifo com sua cabeça de águia adivinhando o mundo como um perfeito globo, ou melhor, obrigando o mundo a ser o globo que pensava; com uma de suas asas rasgando o firmamento num sulco de vontade, com a outra das asas o rasgando num sulco de poder».

Agostinho da Silva («Um Fernando Pessoa»).


Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

Fernando Pessoa




O IDEAL DA CAVALARIA

Costumes medievais e romances de cavalaria

Os jograis e outros cantores que, no decurso dos séculos XIII e XIV, visitavam os solares e castelos e andavam pelas romarias e feiras, entoando cantigas alheias, também começaram cedo a difundir os romances de cavalaria (1). A gente medieval possuía uma mentalidade francamente permeável a estas narrativas. Elas correspondiam, pelo seu espírito guerreiro e aventuroso, às exigências e aspirações da sociedade e dos indivíduos.

As instituições da cavalaria tinham prestigiado a vida militar, a bravura e a valentia dos combatentes. Cedo, o simples «pagem» passava à categoria de «escudeiro», tomava posse da espada e logo era submetido a uma rígida educação militar. Pelos 20 anos, o escudeiro era solenemente armado cavaleiro e entrava a sério nos combates e competições militares. Fazia a guerra ao lado do rei e dos grandes senhores.

Por outro lado, os tempos eram de muita cristandade, e se a desenvoltura dos costumes, a crueza e a agressividade dos indivíduos, marcavam às vezes de baixeza a sociedade medieval, era também certo que a submissão à Igreja era o final de muitas contendas, e as instituições religiosas dominavam de alto a vida social de então.




Existiam almas cheias de elevação e pureza, que renunciavam aos prazeres do mundo e viviam uma vida exclusivamente espiritual, de oração, abnegação e sacrifício. Abundavam os monges e os santos, a religiosidade era substancial e sincera, diferindo em muito do cristianismo superficial de outros tempos.

A religião morigerou a própria acção dos «cavaleiros», cristianizou profundamente a Cavalaria, e esta foi posta ao serviço de desígnios puramente morais e espirituais. Tornara-se defensora dos pobres e dos humildes, tomara ainda a defesa dos fracos e dos doentes, abandonados então à sua sorte. Certas ordens religiosas, como os Hospitalários, albergavam nos seus conventos monges militares, que são honra espiritual daqueles tempos.

Além da paixão pela vida militar e dos altos sentimentos religiosos, havia então o gosto pelo fantástico e pelo inverosímil. Gostava-se de tudo que estimulasse a aventura e ultrapassasse as possibilidades da força humana. Fenómenos estranhos, acontecimentos milagrosos, intervenções do sobrenatural, realização de actos sobre-humanos, tudo acariciava os espíritos de então.

Os seres imaginários e os animais fantásticos atraíam largamente a curiosidade. As fadas, os dragões, as feiticeiras, os duendes e os gigantes povoavam a imaginação do homem de então. Os romances de cavalaria fascinavam a sensibilidade e a inteligência na medida em que satisfaziam o amor da bravura e da aventura, ou em que correspondiam às solicitações sobrenaturais e fantásticas. Atraíam ainda pela magia do inalcançável e do imaginário.

Havia nestes romances, designadamente nos de origem bretã, um elemento idealista que denunciava o gosto pelo vago e pelo incerto, a atracção do distante, enfim aquele saudosismo das raças celtas. Os acontecimentos heróicos, que as canções de gesta e os romances de cavalaria elaboravam, provinham de Alexandre e outros guerreiros antigos, de Carlos Magno e os doze pares de França, do lendário rei Artur e seus cavaleiros. Daqui nasceram os três ciclos, respectivamente: o ciclo greco-latino ou clássico, o ciclo carolíngio ou francês e o ciclo bretão.

Progrediu ainda no Ocidente uma poesia histórico-lendária que teve como centro de referência as célebres façanhas do Cid, na Espanha. O Mio Cid foi a grande obra saída dessa temática guerreira e aventurosa.


O Ciclo Clássico

Buscou a sua matéria predilecta na Antiguidade Clássica, detendo-se nos cometimentos dos guerreiros de Tróia, de Alexandre Magno, de César e doutros combatentes. Dido, Penélope e Helena são também figuras femininas rememoradas. Os episódios históricos e bélicos a que estão ligadas estas figuras são narrados à luz da fantasia e sem intenção de observar a verdade histórica. É o que sucede, por exemplo, no Roman de Troie, de grande notoriedade literária, e devido à pena de Benoit de Sainte-More. O Roman de Alexandre, obra dos hábeis metrificadores Lambert de Tours e Alexandre de Bernay, é escrito em versos de doze sílabas, e daqui a designação de verso alexandrino, em memória deste poema.

Os versejadores do Roman de Troie ou do Roman de Alexandre, muito embora descrevam os episódios da Antiguidade e nomeiem realmente as figuras históricas que neles tomaram parte, não individualizam as pessoas e acontecimentos em relação ao que elas foram historicamente, com sua feição própria, mas tudo vêem estes autores à luz das ideias e dos costumes do seu tempo. Essas figuras históricas vestem, pensam e vivem à maneira medieval. Os castelos, os costumes da cavalaria e as armaduras dos guerreiros, que se deparam nestes romances, lançam-nos em plena Idade Média e não na Antiguidade.






Império de Alexandre o Grande (clique em cima para ampliar).



O Ciclo Carolíngio

Forma-se à volta das proezas guerreiras do imperador Carlos Magno e seus doze pares. Entre os poemas deste ciclo conta-se, entre outros: Pèlegrinage de Charlemagne e Chanson de Roland, sendo este o mais belo de todos. Na Chanson de Roland nota-se a mesma tendência, já verificada nos romances greco-latinos, para a não observância da verdade histórica. O exército de Carlos Magno é derrotado pelos Árabes em 778, no desfiladeiro de Roncesvales. Aqui morre gloriosamente o famoso Rolando. O poeta da Chanson de Roland tinha elevada sensibilidade patriótica e manifesta o seu especial afecto pelos que morriam pela «douce France». É visível a sua impressionabilidade ante a morte de Carlos Magno. Rolando mortalmente ferido pelos Árabes, vai perdendo as forças. Sente que o seu fim se aproxima. O coração acusa-lhe a aproximação da morte. Empalidece, não pode conter-se de pé e cai junto de um pinheiro, fica estendido sobre a erva verde. Lembra-se então do seu passado de guerreiro glorioso, recorda com lágrimas Carlos Magno e os seus companheiros de guerra, que vão mais longe. Pede depois perdão a Deus e morre serenamente. Os anjos vêem buscá-lo e levam-no imediatamente para o Paraíso. Esta passagem da Chanson de Roland é uma página de contagiante beleza e contrasta, pela sua delicadeza emotiva, com a rusticidade medieval (2).

A Chanson de Roland, redigida no mais expressivo francês arcaico, foi escrita aí por 1110, ou talvez um pouco antes, e é a obra-prima do ciclo carolíngio.

No teatro vicentino, nos nossos romances populares, em certos nomes próprios e em diversas publicações como a História Verdadeira da Princesa Magalona e a História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, muitas vezes editada nos séculos XVIII e XIX, marca-se bem concretamente a simpatia dos portugueses pelas matérias do ciclo carolíngio.


O Ciclo Bretão

Dos três ciclos foi este último o que mais apaixonou a gente de Portugal. A «matéria de Bretanha» circulava em Castela desde a segunda metade do século XIII. Já na época dionisíaca do trovadorismo, tinham em voga em Portugal as lendas bretãs. Em composições dos trovadores Fernando Esguio, Estevão da Guarda e D. Dinis, há alusões a personagens da novela bretã, como já se viu. O atavismo céltico da Galiza e do Além-Douro Litoral criou ambiente psicológico adequado à circulação das lendas da Bretanha e do País de Gales.

No próprio Cancioneiro da Ajuda, figuram cinco lais bretões, poemetos que se cantavam, sendo alguns de indiscutível procedência gaulesa (3).

Nos Livros de Linhagens, nas crónicas medievais, deparam-se frequentes reminiscências dos contos bretões. A «Lenda de Gaia», um conto bretão, anda narrada nos Nobilitários; os pais baptizam os filhos com os nomes dos combatentes e aventureiros das narrativas bretãs; os oficiais do exército do Mestre de Avis conhecem os feitos dos cavaleiros do rei Artur; o grande cabo de guerra medieval, Nun'Álvares Pereira, adora as novelas de cavalaria de procedência bretã.


A «Demanda do Santo Graal»

Os romances bretões circulam em várias traduções e adaptações. Umas perderam-se, de outras ficaram apenas vagas menções. É directamente traduzido do francês, como o demonstrou o romanista Rodrigues Lapa, o seguinte texto português sobre matéria da Bretanha: a Demanda do Santo Graal (4). Esta obra era conhecida só através de isolados extractos publicados em revistas e antologias. O manuscrito da novela, arquivado na Biblioteca Palatina de Viena de Áustria, aguardava o aparecimento de um especialista que o publicasse. Surgiu esse homem de letras no Brasil. Efectivamente, o eminente filólogo brasileiro, Augusto Magne, empreendeu a edição da Demanda do Santo Graal (5). O preciso trabalho consta de três volumes: os dois primeiros contêm o texto da Demanda do Santo Graal, acompanhado de introdução e anotações; o terceiro é constituído por um glossário arcaico. Anuncia-se um quarto volume sobre a morfologia e a sintaxe históricas do texto (6).


O filólogo Magne, muito modestamente, não considera a sua restauração do texto como definitiva, pois pretendeu apenas fazer um «esboço de edição crítica», observando a seguinte orientação: «Desfaço as siglas e as abreviaturas, adopto um sistema gráfico racional e coerente, abro alíneas, e, acima de tudo, acrescento, em grifo, os vocábulos, ou mesmo as cláusulas, que me pareceram indispensáveis para tornar o nosso texto compreensível. O próprio tipo, diferente, afasta a possibilidade de se cometerem equívocos. Para maior garantia de fidelidade ao texto, sempre que dele me afasto reproduzo em nota, tal e qual, o respectivo lanço do manuscrito. Destarte, ficam, até certo ponto, associadas as vantagens da reprodução diplomática e da edição crítica». É, portanto, digna de nota a probidade científica de Magne na tentativa de recuperação do texto desta obra, bastante desfigurada pelos escribas, como também notou Rodrigues Lapa.

A Demanda do Santo Graal é um dos mais antigos repositórios do português escrito, e se a obra remonta, mais ou menos, aos meados do século XIII, é de registar a perfeição que atingira a prosa arcaica naqueles recuados tempos. O manuscrito de Viena é um apógrafo do século XV. Os copistas adulteraram muito o texto primitivo.

José de Arimateia, que havia recolhido numa taça, o Graal, o último sangue de Jesus Cristo Crucificado, vem a fixar-se na Bretanha com os companheiros. O sagrado recipiente, guardado no castelo misterioso de Cobernic, só poderia ser descoberto por um cavaleiro valente, cheio de valor militar e dotado de virtudes. Diversos cavaleiros partem em busca do Graal. Praticam grandes façanhas militares, enfrentando perigos, vencendo dificuldades inauditas. Distinguem-se por suas excepcionais virtudes e feitos militares os cavaleiros da corte do rei Artur, o lendário rei vencedor dos Saxões. Ora estas narrativas da novela bretã dão origem não só à Demanda do Santo Graal, mas ainda, quanto à primeira parte, ao texto do José de Arimateia, manuscrito português que se guarda na Torre do Tombo.

De entre os cavaleiros da Demanda, cita-se Galaaz, soldado valente e rigoroso observador da virtude da castidade. Entrega-se este cavaleiro aos mais difíceis empreendimentos, vence os adversários e todos que o hostilizam, domina as maiores dificuldades. Aparecera uma espada estranha enterrada num bloco de mármore mergulhado em certo rio, e, entre todos os cavaleiros da Távola Redonda, foi Galaaz o único capaz de a arrancar. De tal maneira são sobre-humanos e estranhos os seus actos que, no dizer de alguns medievistas, Galaaz, muito mais que um ser vivo, é um «tipo abstracto de espiritualidade».

O nome de Galaaz é de origem bíblica. Uma zona geográfica da Transjordânia, situada entre o Hermon e a ribeira de Amon, terra de bálsamos e perfumes, tem o nome de Galaad, Na Sagrada Escritura, a palavra assume algures uma significação simbólica e tornar-se-á um termo evocativo de Jesus Cristo. Mais tarde, por meados do século XIII, Galaad indica os membros espirituais de Igreja que vivem em comum, isto é, designa uma forma especial de vida religiosa. Dá-se depois o nome de Galaad, Galaaz na Demanda do Santo Graal, ao cavaleiro privilegiado e escolhido que virá a encontrar, depois de uma vida de pureza e actividade guerreira, o santo vaso de Graal (7). Eis algumas fases evolutivas, entre outras, do mito de Galaaz, que tanto apaixonou certos homens da época.

Foi esta personagem mitológica de Galaaz que Nun'Álvares se esforçou por imitar. Era para ele o cavaleiro por excelência. Empolgava-o esta misteriosa criatura, que se volveu em instrumento do seu aperfeiçoamento moral e militar. Fernão Lopes demorou-se a historiar a figura de Nun'Álvares, e pensou no Galaaz da novela bretã, ao delinear com rigor histórico o perfil angélico e sobre-humano do vencedor de Aljubarrota. Evidentemente que as novelas de cavalaria não são estranhas à arte de Fernão Lopes.

O Santo Condestável




Cavalo Lusitano


Os esforçados oficiais do exército de Nun'Álvares eram largamente versados na leitura dos romances bretões, o que sucedia também com D. João I. Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, declara que o rei, em certo momento da campanha contra os Castelhanos, exprime aos oficiais o desejo de ter ao seu lado, nas lides da guerra, os bons cavaleiros da Távola Redonda. O fidalgo Mem Rodrigues de Vasconcelos respondeu-lhe defendendo os seus camaradas e registando a falta de monarca bretão... Observa-lhe que não fazem ali falta os cavaleiros do rei Artur, porquanto Gonçalo Vasques Coutinho vale bem Tristão, João Fernandes Pacheco pode equiparar-se a Lançarote e Martim Vasques da Cunha merece comparar-se a Galaaz (8). A cena passa-se nos fins do século XIV, época em que os romances bretões tinham ainda imensa popularidade. Os acontecimentos militares e guerreiros, respeitantes à luta que o rei Artur manteve com os Saxões, invasores da Inglaterra do Sul, sugestionavam poderosamente certos guerreiros portugueses, como se vê.

O rei Artur, depois de ter sucumbido aos ferimentos que recebera na luta contra os Anglo-Saxões, viveu saudosamente na imaginação dos Bretões. Os seus companheiros e compatriotas subjugados pelo invasor, refugiaram-se no país de Gales, ou procuraram abrigo na actual região de Bretanha francesa. Esta desgraça nacional feriu a alma bretã, que buscou conforto para seus males em esperanças e crenças ilusórias. E assim um certo messianismo, que se concentrou à volta do rei Artur, começou a absorver as almas e os corações. O valoroso monarca vivia num país de sonho, a ilha de Avalon, para onde as fadas o haviam transportado a ocultas de todos. Deste misterioso esconderijo sairia um dia para salvar os Bretões do jugo estrangeiro.

E ainda como longínqua manifestação do espírito democrático da Inglaterra, atribuiu-se ao mesmo rei de sangue celta a instituição da Távola Redonda, mesa a que se sentaram os Doze Pares, indiferentemente, sem se atender à categoria de cada cavaleiro. Estes cavaleiros, que andavam na corte do rei Artur, viviam absorvidos pela ideia de encontrar o Graal, afrontando para isso todas as lutas e os maiores perigos.

A mística gerada pela matéria bretã deu origem a imensas lendas, que englobaram não só elementos originariamente bretões, mas ainda matéria cristã e reflexos da cavalaria medieval. Esta última influência está bem patente nas páginas da Demanda do Santo Graal. O cavaleiro Lançarote é convidado por uma donzela a deslocar-se até um convento. Aí pede-lhe o ermitão que arme cavaleiro seu filho Galaaz.

«Quando eles chegarom à abadia, levarom Lançarote a ua câmara, e desarmarom-no. E veio ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz, e Galaaz tam fremosa cousa era, que maravilha era. E andava tam bem vestido, que nom podia melhor. E a abadessa chorava muito com prazer, tanto que viu Lançarote, e disse-lhe:

- Senhor, por Deus, fazede vós nosso novel cavaleiro, ca nom queriamos que seja cavaleiro per mão de outro. Ca milhor cavaleiro ca vós nom no pode fazer cavaleiro; ca bem creemos que ainda será tam bom, que vos acharedes ende bem, e que será vossa honra de o fazerdes; e se vos ele ende nom rogasse, vó-lo devíades de fazer, ca bem sabedes que é vosso filho.


A apresentação de Galaaz ao Rei Artur e aos cavaleiros da Távola Redonda, segundo o pintor pré-rafaelita Walter Crane.


- Galaaz, disse Lançarote, queredes vós seer cavaleiro?

Ele respondeu baldosamente:

- Senhor, se prouvesse a vós, bem no queria seer, ca nom há cousa no mundo que tanto deseje como honra de cavalaria e seer da vossa mão, ca de outro nom no queria seer, que tanto vos ouço louvar e preçar de cavalaria, que nenhum, a meu cuidar, nom podia seer covardo nem mau, que vós fizéssedes cavaleiro. E esto é ua das cousas do mundo que me dá maior esperança de seer homem bom e bom cavaleiro.

- Filho Galaaz, disse Lançarote, estranhamente vos fez Deus fremosa criatura. Par Deus, se vós nom cuidássedes seer bom homem ou bom cavaleiro, assi Deus me aconselhe, sobejo seria gram dano e gram malaventura de nom seerdes bom cavaleiro, ca sobejo sodes fremoso.

E ele disse:

- Se me Deus fez assim fremoso, dar-me-á bondade, se lhe prouguerer, ca, em outra guisa, valeria pouco. E ele querrá que serei bom e cousa que semelhe minha linhagem e aaqueles onde eu venho; e metuda ei minha esperança em Nosso Senhor; e por este vos rogo que me façades cavaleiro.

E Lançarote respondeu:

- Filho, pois voz apraz, eu vos farei cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a ele aprouver e o poderá fazer, vos faça tam bom cavaleiro como sodes fremoso.

E o ermitam respondeu a esto:

Dom Lançarote, nom hajades dulda de Galaaz, ca eu vos digo que de bondade de cavalaria, os melhores cavaleiros do mundo passará.

E Lançarote respondeu:

- Deus o faça assim como eu queria.

Então começarom todos a chorar com prazer quantos no lugar estavam».

É um passo que documenta interessantemente a presença dos costumes de Cavalaria no romance.

Mas o espírito medieval patenteia-se ainda na soma de maravilhoso que inunda o romance de lés a lés. Entre os animais fantásticos, aparece-nos um bicho ladrante, «besta ladrador», para cuja composição física vem o concurso de vários animais: o leão, o leopardo, a serpente e o veado. A voz deste estranho irracional assemelha-se aos latidos confusos duma matilha de cães.





Os acontecimentos misteriosos e inexplicáveis deparam-se a cada passo: a entrada de Galaaz no palácio do rei Artur, estando fechadas as portas e as janelas; o aparecimento do santo vaso do Graal e sua circulação perante cada cavaleiro sem ninguém o transportar; a visita aos infernos, onde penam as almas de Lançarote e da rainha Genebra, mulher do rei Artur. E bastam estes exemplos para nos dilucidarem sobre a atmosfera de maravilhoso que envolve todo o romance.

Ainda dentro do ciclo da novelística bretã, mas especialmente relacionado com o manuscrito do Livro de José de Arimateia, não pode esquecer-se o texto de origem francesa, intitulado História de Vespasiano Imperador de Roma, incunábulo de 1496, onde se conta a cura milagrosa de Vespasiano, o cerco de Jerusalém e o castigo que Deus infligiu a Pilatos, condenando-o a morrer afogado (9).


Amadis de Gaula

Este romance, porventura redigido na segunda metade do século XIII, inclui-se também no ciclo da novelística bretã. A sua redacção deve-se, talvez, a dois membros da família portuguesa de Lobeiras: João da Lobeira e Vasco da Lobeira. Ao primeiro destes prestáveis novelistas, que foi também um trovador dionisíaco, cavaleiro da corte de Afonso III, pode atribuir-se a primeira parte do Amadis de Gaula, constituída pelos dois primeiros livros; o segundo redactor, acima mencionado, teria sido, mais tarde, o continuador da obra do seu parente. Nestas condições, Vasco da Lobeira teria não só escrito o terceiro livro da novela aí por 1370, como poderia ter ainda refundido integralmente o texto do seu parente (10).

Infelizmente perdeu-se o original português, e o que se conhece, e só a partir de 1508, é um texto castelhano de Garcia Rodrigues de Montalvo, publicado em Saragoça com o título seguinte: Los Quatro Libros del virtuoso caballero Amadis de Gaula. Aos três livros portugueses, Montalvo teria acrescentado, ele ou outro, mais um livro. O chanceler Lopes Ayala, que ficou prisioneiro na batalha de Aljubarrota e foi encarcerado no castelo de Óbidos, leu o Amadis em data anterior à da sua estada em Portugal. João Lobeira, autor do «lais de Leonoreta», que se arquiva no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, reproduziu na novela essa composição quase intacta, atribuindo-a a Amadis, que assim quer homenagear a filha de Lisuarte. Para os defensores do original português do Amadis, a intervenção do primeiro Lobeira no romance ficou assim indiscutivelmente documentada (11). Em reforço ainda da origem portuguesa da novela, cita-se o passo do livro I em que se menciona o facto de um irmão de D. Dinis, o Infante de Portugal, morto em 1312, ter ordenado uma alteração do texto no sentido de satisfazer, ainda que temporariamente, a paixão amorosa de Biolanja, que se enamorou de Amadis sem pensar na fidelidade que este devia a Oriana. Em favor da tese portuguesa milita ainda o ambiente sentimental e melancólico do romance, que denuncia um autor lusíada (12).

A colaboração do segundo Lobeira é ainda testemunhada pelo cronista Gomes Eanes de Zurara, em meados do século XV (Crónica do Conde D. Pedro de Meneses), o qual afirma que o Amadis de Gaula é de Vasco Lobeira.

No século XVI, o livro continua a ser conhecido e atribuído a Vasco de Lobeira, filho de um mercador de Elvas.

António Ferreira conheceu o romance e, familiarizado como estava com a linguagem dele, compôs, inspirando-se na célebre Briolanja do romance, dois sonetos em português arcaico. Miguel Leite Ferreira, ao explicar, no fim do século XVI, a origem destas duas poesias na edição das obras do pai, declara que o manuscrito original do Amadis de Gaula se guardava então na Casa de Aveiro e era da autoria de Vasco da Lobeira. Ora esse misterioso original português, por infelicidade, perdeu-se. Apenas subsiste o texto de Garcia Ordõnez de Montalvo, que é uma refundição de «antigos originais».

Os elementos extraídos do próprio texto e os dados fornecidos por Zurara e Ferreira impelem-nos para a aceitação de um original português do Amadis, todavia estes argumentos, se bem que poderosos, não demoveram completamente o Prof. Fidelino de Figueiredo, que hesita ainda. Rodrigues Lapa fez a mais perfeita defesa da autoria portuguesa (13). No entanto, Lapa é sistematicamente nacionalista nas suas teses medievistas, e sente-se-lhe o honroso esforço para valorizar o nosso património literário medieval.

Seja, porém, como for, nenhum texto português do Amadis se descobriu até hoje, todavia, existem vestígios da sua existência ainda nos séculos XIV, XV e XVI, mas não é possível chegar a uma conclusão segura. A boa vontade de admitir ou não um original português de certo modo aumenta ou enfraquece o valor probativo dos argumentos classicamente invocados pela tese portuguesa, que aliás tem uma viabilidade lógica muito superior à que se pronuncia pela origem castelhana do Amadis. Confiemos, porém, no aparecimento do primitivo original português do célebre romance, que foi tão popular na Europa a partir do século XVI (14).

(in História da Literatura Portuguesa. Desde o século XII aos meados do século XX, Braga, Livraria Cruz, 4.ª Edição, 1960, pp. 71-84).


Notas:

(1) Ramon Menendez Pidal, Poesia Juglaresca Y Juglares, Buenos Aires, segunda edición, pp. 73-80.

(2) Joseph Bédier, La Chanson de Roland, publiée d'après le manuscrit d'Oxford, L'Édition d'Art, Paris, pp. 180-183.

(3) Como informa o filólogo Augusto Magne, «chamavam-se "lais de Bretanha" composições acompanhadas de música, que os jograis da Bretanha Menor e da Inglaterra cantavam ao som de instrumentos de corda, como a rota ou a harpa pequena ou, por vezes de flauta». Os lais portugueses foram principalmente estudados por D. Carolina Michaëlis.

(4) Rodrigues Lapa, A «Demanda do Santo Graal». Prioridade do texto português, Lisboa, 1930.

(5) Augusto Magne, A Demanda do Santo Graal, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1944. São 3 volumes num total de mais de 1.300 páginas. Esta obra monumental, que um Ministro da Educação do Brasil, Gustavo Capanema, patrocinou, honra a cultura e a ciência do Brasil. O diligente paleógrafo e filólogo brasileiro, Magne, a ela se consagrou durante mais de 20 anos.

(6) A Demanda do Santo Graal, vol. I, p. 33.

(7) Pierre David, Sentiers dans la Forêt du Saint Graal, Coimbra, 1943, pp. 94-97.

(8) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. LXVI.

(9) Francisco Maria Esteves Pereira, História de Vespasiano Imperador de Roma, Lisboa, 1905.

(10) Esta doutrina foi emitida por Carolina Michaëlis no Prefácio que antecede o Romance de Amadis, de Afonso Lopes Vieira.




(11) Contestou este poderoso argumento o lusófilo inglês, William J. Entwistle, admitindo a hipótese de uma interpolação: «The passage may well have been an interpolation into de original text, design to cover the introduction of Lobeira's lyric» (in The Arthurian Legend in the Literatures of the Spanish Península).

(12) No entanto, o escritor galego, Benito Varela Jácome, afirmava ainda recentemente na sua Historia de la Literatura Galega, Santiago de Compostela, 1951: «Hay una serie de indícios para afirmar que el Amadis de Gaula por su asunto, por su lirismo, por su entronque com los temas bretones, ál Noroeste de la península, y tal vez fuera su autor el canónigo compostélano, de finales de siglo XIII, Juan de Lobeira, autor de la bella canción dedicada a Leonoreta, hermana de Oriana». Há aqui evidente confusão, pois o cónego galego Juan de Lobeira nada tem que ver com o trovador João de Lobeira, homem de letras alentejano, que frequentou a corte de D. Afonso III.

(13) M. Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa - Época Medieval, 3.ª edição revista e acrescentada, Coimbra, 1952, pp. 238-247.

(14) O Conde de Ericeira afirmou, em 1726, que um texto do Amadis de Lobeira tinha sido catalogado em 1686 «entre manuscritos do Conde de Vimieiro» (Carolina Michaëlis, Prefácio de O Romance de Amadis de A. L. Vieira).


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