segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O enigma do Preste João

Escrito por Elaine Sanceau



Papa Urbano II



«Coube ao Papa Urbano II a glória de ser o primeiro a executar o projecto duma cruzada. Parece que já no Concílio de Placença fora tratada esta questão, decidida afinal no Concílio de Clermont (Agosto de 1095).

Ali exortou o Papa os cristãos a irem socorrer os seus irmãos cativos e livrar o túmulo de Cristo do poder turco. As suas palavras agitaram a Europa; logo a ideia da expedição começou a ser propagada na Itália, na França e na Alemanha por pregadores populares, dos quais o mais célebre foi Pedro o Eremita.

Por toda a parte se ouvia o brado - Deus o quer! - e todos os que se alistavam punham no ombro uma cruz vermelha como distintivo pelo que receberam o nome de cruzados.

Em princípios de 1096 partiu sob a direcção de Pedro o Eremita uma grande multidão de homens sem disciplina, dos quais muitos pereceram na Bulgária; os que passaram à Ásia foram quase exterminados pelos turcos.

Os numerosos guerreiros que tomaram a cruz, com mais prudência e ordem, partiram pouco depois, formando quatro grandes exércitos que seguiram por caminhos diferentes e deviam reunir-se em Constantinopla.

(...) Os provençais e os italianos, guiados pelo legado do Papa e pelo conde de Tolosa, Raimundo IV, atravessaram a Itália, a Dalmácia e o Epiro.

Os alemães e alguns franceses do norte seguiram pelo vale do Danúbio, dirigidos por Godofredo de Bouillon, duque da baixa Lorena, seu irmão Balduíno e outros chefes.


Godofredo de Bulhão



O príncipe Boemundo de Tarento e seu sobrinho Tancredo embarcaram no Adriático; atravessaram o Epiro e a Trácia, com um exército formado na Itália meridional de cruzados italianos e cavaleiros do reino normando da Sicília.

Os franceses do norte, sob a direcção de Hugo, conde de Vermandois, irmão do rei de França; de Roberto, duque da Normandia; dos condes de Chartres e de Flandres, atravessaram a Itália até Brindes e seguiram o mesmo caminho que Boemundo.

Entre os chefes distinguia-se Godofredo de Bouillon, duque da baixa Lorena.

Depois de passarem à Ásia em navios que lhes forneceu Aleixo Comneno, imperador de Constantinopla, os cruzados tomaram a cidade de Niceia, venceram os turcos em Dorileia e noutras batalhas; apoderaram-se de Antioquia (Junho de 1098), e, já muito dizimados, foram pôr cerco à cidade de Jerusalém, que afinal caiu em seu poder (15 de Julho de 1099).

Godofredo de Bouillon foi proclamado barão e defensor do Santo Sepulcro, e não tomou o título de rei por não querer "cingir a coroa de ouro, no mesmo lugar onde Jesus Cristo cingira uma de espinhos".

Depois da tomada de Jerusalém fundaram-se no Oriente diversas ordens, ao mesmo tempo religiosas e militares.

Logo depois da conquista da cidade, alguns fidalgos franceses, querendo fundar um hospital destinado a recolher os peregrinos, formaram uma congregação religiosa cujos membros se obrigavam a dedicar-se ao serviço dos pobres e dos doentes. O hospital chamava-se "Casa dos Pobres do Hospital de Jerusalém" ou "Hospital de S. João". Posteriormente a congregação tornou-se em núcleo de guerreiros que se obrigavam a combater os infiéis; e continuaram a chamar-se Hospitalários ou Cavaleiros de S. João de Jerusalém.

Em 1123, oito cavaleiros franceses formaram uma congregação cujos membros se obrigavam a escoltar os peregrinos no caminho de Jerusalém para os defenderem contra os infiéis; e escolheram para grão-mestre da Ordem Hugo de Payens. O rei Balduíno deu-lhes parte do seu palácio, o Templo, situado no local do antigo Templo de Salomão; tomaram o título de irmãos pobres do Templo de Jerusalém ou Templários.





Balduíno II de Jerusalém cede o Templo de Salomão a Hugo de Payens e a Godofredo de Saint-Omer.














Castelo de Malbork (Polónia), construído pela Ordem dos Cavaleiros Teutónicos. A Ordem chamou-lhe Marienburg (Castelo de Maria).



Torre que dá para os claustros do Castelo Alto.


Vista parcial do claustro


Sala do Capítulo


Imagem da Virgem (1937).


Destruição de mais de metade do castelo no contexto da II Guerra Mundial (1945).


Torre teutónica em Acre (actual Israel).


Moeda da Ordem Teutónica

Em 1190 fundaram também os alemães no Oriente um hospital para os doentes da sua nação, e em 1197 organizaram-no à semelhança do Hospital de S. João. Os membros desta nova ordem eram cavaleiros alemães, que se obrigavam a tratar os doentes e a combater os infiéis. Intitulavam-se "irmãos da casa alemã" e ficaram mais conhecidos pelo nome de "Cavaleiros da Ordem Teutónica".

(...) Os godos que, depois da batalha do Guadalete, não quiseram submeter-se ao jugo muçulmano, refugiaram-se ao norte da península [Ibérica], nas serranias das Astúrias, e escolheram para seu chefe Pelágio, homem nobre da sua raça. Ali formaram contra os invasores um núcleo de resistência, que pela primeira vez afirmou a sua força na batalha de Covadonga, perto de Cangas de Onis, em que os infiéis foram desbaratados (718).

O pequeno reino das Astúrias, assim fundado por Pelágio, foi depois dilatado pelos sucessores deste à custa de repetidas batalhas empreendidas pelos cristãos da Espanha contra os sarracenos.

Durante cerca de três séculos, os cristãos apenas ocuparam a orla setentrional da península, entre a linha marcada pela serra de Guadarrama e o mar; e quando, nas suas invasões, conquistavam terras mais ao sul, não logravam possuí-las por muito tempo.

Por vezes o território cristão se dividiu em diversas monarquias; e estas, guerreando-se umas às outras, perdiam forças perante o inimigo comum.

Nos fins do século X estava bem decadente o reino cujos fundamentos haviam sido lançados por Pelágio; mas nos princípios do século seguinte ganhou nova força representando Sancho, rei de Navarra, papel preponderante na luta contra os muçulmanos. Sancho chegou a dominar quase todos os territórios cristãos da Península.

O filho de Sancho, Fernando I, que foi denominado Magno (1035-1065), reuniu as coroas de Leão e Castela, e alargou consideravelmente os seus Estados para o sul, conquistando Viseu e Lamego (1057), Coimbra (1064) e outras terras. Quando faleceu deixou os seus Estados divididos entre os filhos: o reino de Castela coube a Sancho; Afonso herdou Leão e as Astúrias; Garcia a Galiza; e duas filhas tiveram em sorte diversos senhorios.










(...) Na Galiza estava compreendido o distrito ou terra portucalense, que tirava o seu nome da povoação chamada Portucale, na margem esquerda do Douro.

(...) Todos estes domínios foram afinal reunidos sob o poder dum só dos filhos de Fernando, Afonso VI, que aos muçulmanos conquistou a cidade de Toledo (1085), antiga capital do império visigótico; e tanto avançou para o sul, que em 1093 se apoderou de Santarém, Sintra e Lisboa, terras que anos depois (1111) voltaram ao poder dos infiéis.

Depois que Afonso VI dilatou a fronteira até à foz do Tejo, foi o extenso território ocidental dividido em distritos, governados por condes; e porque estes, afastados da acção imediata do Rei, podiam deixar-se dominar por ideias de revolta e independência, procurou Afonso VI evitar o perigo, cometendo a pessoa de família o governo da Galiza até ao Tejo.

Por essa ocasião tinham passado à península dois ilustres cavaleiros, talvez procurando fortuna em aventuras de guerras e conquistas: Raimundo, filho de Guilherme, conde da Borgonha, e seu primo Henrique, quarto filho de Henrique, neto de Roberto duque da Borgonha e bisneto de Roberto rei de França.

Afonso VI deu em casamento a Raimundo sua única filha legítima, D. Urraca, e encarregou-o do governo da parte ocidental da monarquia.

Em princípios de 1095 também Henrique estava casado com Tareja ou Teresa, filha bastarda que Afonso VI tivera duma nobre dama chamada Ximena Nunes ou Muniones. A Henrique foi dado, nesse ano ou no anterior, o governo da terra portucalense, sob a dependência de Raimundo; mas tal sujeição terminou breve, talvez por ser difícil defender a fronteira, estando tão afastado o centro do governo da província.

Foi a terra portucalense governada até 1114 por D. Henrique, e à morte deste pela viúva D. Teresa, até que em 1128 dele tomou conta seu filho D. Afonso Henriques.


Estátua de D. Afonso Henriques


Castelo de Guimarães








Painel de azulejos retratando o "Recontro de Valdevez" na Estação de São Bento (Porto).






Arcos de Valdevez


Rio Vez, em Arcos de Valdevez

Este príncipe conseguiu realizar o pensamento de seus pais, obtendo na conferência de Samora (1143) que Afonso VII de Castela lhe reconhecesse o título de Rei dos portugueses».

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal», Vol. II).


«Por intermédio dos monges clunistas a Igreja tenta envolver de perspectivas aliciantes a ajuda que é necessário prestar aos reis cristãos da Península Ibérica na luta que mantêm contra os Mouros. Assim, estes soberanos vêem chegar em breve uma corte de cavaleiros, vencidos pela atracção da aventura, pela esperança de recompensas valiosas, pela promessa de indulgências que uma guerra levada a cabo contra os inimigos da fé não pode deixar de merecer.

Neste assunto continua a desempenhar um papel de primeiro plano uma casa senhorial do Ocidente muito poderosa – a Casa de Borgonha. O casamento de Afonso VI, rei de Leão e de Castela, com uma princesa borgonhesa tinha criado laços fortes e os senhores borgonheses viriam a ser os mais fortes defensores, e ao mesmo tempo os principais beneficiários da cruzada quase permanente que será feita contra os Árabes.

Assim são recompensados os feitos de armas de Raimundo de Borgonha, que se vê herdeiro de Afonso VI, com cuja filha legítima, Urraca, vem a casar, e de Henrique de Borgonha, seu primo, que recebe o condado "Portucalense", dote de Teresa, também princesa real. Como consequência do casamento, este descendente dos Capetos vem a ser o fundador da primeira dinastia monárquica portuguesa. Seu filho, Afonso Henriques, será efectivamente o primeiro soberano de um novo reino cristão arrebatado aos infiéis.

Nada disto desagrada a São Bernardo, cuja personalidade domina o mundo cristão. O eminente abade de Clairvaux tem numerosos objectivos e, a par da sua actividade incansável que desenvolve para o progresso da sua ordem monástica, não se poupa a esforços em favor da expansão religiosa e do florescimento da Cristandade nesta parte do Ocidente.

S. Bernardo e a Virgem

Em trinta anos, sob o impulso do abade Bernardo, a Ordem Cisterciense sofre efectivamente um impulso espectacular. Os seus mosteiros multiplicam-se por toda a Europa. Borgonhês de nascimento, São Bernardo mantém os laços que o unem aos compatriotas da península e põe toda a eloquência ao serviço da causa, encorajando a luta contra os Árabes na primeira frente da Cristandade.

Possuidor de um sentido da realidade muito agudo, apoia as ideias novas que sabe serem indispensáveis a uma geração ávida de renovação intelectual e espiritual.

Movido por uma vontade ardente de europeização, de universalização, este diplomata apoia a sua acção sobre uma visão muito vasta e muito clara do futuro.

É dentro desta óptica que é sem dúvida necessário situar a sua acção a favor da futura Ordem dos Cavaleiros do Templo, na qual não vê simplesmente os defensores do mundo cristão e os protectores da segurança dos bens monásticos. Sabendo medir a amplidão da iniciativa e o interesse de que se reveste, é provavelmente o único, no seu tempo, que consegue pressentir a projecção que esta Ordem terá no futuro.

A jovem Milícia de Cristo, fundada na Terra Santa por nove cavaleiros, não era mais do que o instrumento da vontade de São Bernardo, por conta de quem desempenhava uma missão especial. Só por este preço conseguiria obter o apoio necessário para ser reconhecida oficialmente.

Membros da Ordem de Santo Agostinho, Hugues de Payns, Godefroi de Saint-Omer, André de Montbard, Gundomar, Godefron, Roral, Geoffroy Bisol, Nisard de Montsésir e Archambaud de Saint-Aignan fundam uma ordem de monges-soldados e, durante cerca de dez anos, ficam ao serviço dos reis de Jerusalém, garantindo a protecção das estradas, defendendo os peregrinos e participando na luta contra os muçulmanos.

Ao assumirem um papel que lhes foi oficialmente confiado com uma fé e um ardor inabaláveis, os cavaleiros não perderam de vista a sua missão secreta».

Maurício Guinguand («O Ouro dos Templários»).











«Os Templários eram (...) acusados de terem entendimentos secretos com os muçulmanos e de estarem mais próximos da fé islâmica, que da fé cristã. Esta última referência explica-se provavelmente pelo facto de a anticristolatria caracterizar igualmente o Islamismo. Quanto aos "entendimentos secretos", eles exprimem um ponto de vista menos sectário, mais universal e, portanto, mais esotérico que o do Cristianismo militante. As Cruzadas, nas quais os Templários e a cavalaria gibelina, em geral, tiveram um papel fundamental, criaram, sob vários aspectos, e apesar de tudo, uma ponte supra-tradicional entre o Ocidente e o Oriente. A cavalaria cruzada acabou por encontrar-se diante de uma espécie de réplica de si mesma, isto é, de guerreiros com a mesma ética, os mesmos costumes cavaleirescos, os mesmos ideais de uma "guerra santa" e, o que é mais, vias iniciáticas similares. Assim, aos Templários, correspondeu exactamente, no Islão, a Ordem árabe dos Ismaelitas, que também se consideravam os "guardiões da Terra Santa" (igualmente em sentido esotérico, simbólico) e que tinham uma hierarquia dupla, uma oficial, e outra secreta). Esta Ordem, com o mesmo duplo carácter, guerreiro e religioso, correu o perigo de ter um fim parecido com o dos Templários, e por um motivo análogo: o seu fundo iniciático e a afirmação dum esoterismo que desprezava a letra dos textos sagrados.

(...) Templários e Ismaelitas tinham as mesmas cores: vermelho e branco, uns, na cruz e no manto, os outros, no cinto e na túnica. O chefe supremo dos Ismaelitas, o "Senhor da Montanha", Sheikh al-giabal, era concebido como um dominador invisível "tendo nas mãos a vida e a morte dos reis". À sua pessoa e à sua residência inacessível, identificada com o "Paraíso", aplicou-se um simbolismo que corresponde ao do Rei do Graal e, genericamente, ao "Senhor Universal". Uma das acusações contra os Templários foi a de ter uma "estreita ligação" com o "Senhor da Montanha".

(...) É igualmente interessante que no esoterismo ismaelita reapareça o mesmo tema da saga imperial gibelina: o dogma islâmico da "ressurreição" (quiama), que é interpretado como a nova manifestação do chefe supremo (Iman), tornado invisível no chamado período de "ausência" (ghaiba): o Iman desaparecera num dado momento, subtraindo-se à morte, subsistindo, no entanto, para os seus seguidores, a obrigação de jurar-lhe fidelidade e submissão, como ao próprio Allah. Pode assim estabelecer-se gradualmente um reconhecimento inter pares, para lá de todo o espírito de facção e de toda a contingência histórica, uma espécie de entendimento supra-tradicional, como supra-tradicional era o símbolo do "Templo". Sendo, além disso, o exclusivismo e o sectarismo, características do exoterismo, ou seja, aspectos exteriores e profanos duma tradição, reafirma-se igualmente aqui a atitude de "superação" já apontada nos Templários. De resto, na referência às Cruzadas, ressalta da História que este "entendimento secreto" não correspondeu nunca a qualquer traição militar, figurando os Templários, nestas empresas, entre as tropas mais corajosas, fiéis e combativas. Esse entendimento terá, antes, correspondido provavelmente à libertação da "guerra santa" do seu aspecto materialista e exterior, de guerra contra o "infiel" e de morte pela "verdadeira" fé; foi a restituição dela ao seu significado mais puro e metafísico, segundo o qual não importava já uma profissão de fé específica, mas a simples capacidade de fazer da guerra uma preparação ascética para a realização da imortalidade. Também do lado muçulmano, o significado último da "guerra santa", a jihad, não era diferente deste.


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Ver 12 e 3




Ver 123, 4 e 5




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Ver 1 e 2







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Brasão de Armas da Marinha Portuguesa


Fuzileiros navais portugueses















Ora no ciclo do Graal, encontramos algo de semelhante aos "entendimentos", tomados no sentido de compreensão supra-tradicional, sob a forma duma mistura de elementos árabes, pagãos e cristãos. Wolfram (...) acabou por atribuir a uma fonte "pagã" a narrativa do Graal encontrada por Kyot. Vimos, da mesma forma, que o pai de Parsifal, embora cristão, não sente escrúpulo algum por combater sob as ordens de príncipes sarracenos; que o próprio José de Arimateia nos é descrito a usufruir do Graal ainda antes de ser baptizado; que lutaram pelo Graal não só cavaleiros cristãos, mas também pagãos; que o pagão Firefiz chegou ao ponto de mostrar-se superior, na prova das armas, ao seu irmão cristão e que, de qualquer modo, já antes do baptismo fazia parte dos cavaleiros do Rei Artur. Buruch, pelo contrário, é-nos apresentado como um Califa, ou seja, mais uma vez, como um não cristão. A dinastia do Preste João, à qual, como é sabido, está ligada a do Graal, compreende pagãos e cristãos tendo mesmo, segundo alguns, uma maioria de príncipes pagãos. Em suma, à parte alguns textos tardios artificiosamente cristianizados, uma grande fracção da literatura do Graal apresenta o mesmo espírito anti-sectário e supra-tradicional, ao qual deve referir-se a acusação de "entendimentos secretos", feita aos Templários; esses entendimentos deviam, provavelmente, reduzir-se à capacidade de reconhecer a tradição única, mesmo sob formas diferentes das da tradição cristã».

Julius Evola («O Mistério do Graal»).


«Et maintenant, il faut bien examiner ces rapports tant proclamés entre les chevaliers du Temple et les Initiés musulmans - rapports qui seraient allés, a-t-on dit, jusqu'á des pactes de sang.

Il est très difficile de "faire le point" sur cette affaire après les séries de romans plus ou moins vraisemblables qui ont vu le jour, soit au moment du procès pour créer une "mauvaise presse" à l'Ordre du Temple accusé de trahison, soit au XIXe siècle oú le bon ton voulut que toute lumière ait dû venir d'Orient.

J'ai dit ce que l'on pouvait penser de la "chevalerie issue d'Arabie", copiée sur celle des Arabes alors que l'on sait pertinemment, au contraire, qu'elle fut recréée de toutes pièces en Occident mais, il est vrai, à l'époque des Croisades.

T. E. Lawrence, dans Les Sept Piliers de la Sagesse, a montré assez que la conception des forteresses militaires de l'Ordre de Malte était entièrement occidentale et que celle des Templiers l'était également, quoique teintée de byzantinisme, ce qui n'est, en tout état de cause, nullement musulman.

Le soin jaloux que mirent toujours les Musulmans à mettre à mort Templiers et Hospitaliers prisonniers montre également assez que, sur le plan militaire, cette fameuse entente n'avait absolument rien de cordial.

Encore: l'accusation de copie des "Assassis" ismaéliens du Vieux de la montagne dans l'organisation des "dignités" du Temple pourrait aussi bien être appliquée à n'importe quelle organisation - fût-ce celle de l'armée française actuelle - dont les grades trouveront toujours un "répondant" dans n'importe quelle autre organisation mondiale.


Hassan Ibn al-Sabbah ('O Velho da Montanha').


Enfin, que l'on veuille bien considérer que voilá un corps d'armée qui pendant près de deux cents ans s'est battu ou, au moins, a escarmouché presque sans arrêt, que sa force résidait principalement dans son habileté aux armes et dans sa discipline et donc dans son entraînement.

Combats, entraînement, discipline, offices religieux, repas, sommeil. Quand donc les combattants du Temple auraient-ils pu avoir des rapports suivis, des rapports que l'on dit, que l'on veut nous dire, philosophiques, avec des adversaires qui ne parlaient pas la même langue qu'eux.

Que l'on songe que sur 22 Grands-Maîtres, 6 sont morts au combat. Il m'apparaît donc exclu, du moins em ce qui concerne la milice du Temple - et quelle qu'ait été la courtoisie des relations entretenues entre adversaires durant les trèves -, qu'elle ait put échanger de profundes pensées philosophiques avec les Musulmans.

Mais cela n'est qu'une apparence de la question. Il n'existait pas que des combattants dans le Temple, il n'existait pas que des combattants chez les Musulmans, et si les chevaliers laïques se désintéressaient certainement de la philosophie coranique, il est peu probable que les chevaliers moines, surtout parmi les maîtres, s'en soient, eux, désintéressés.

Le Proche-Orient en ces temps était encore un creuset oú se côtoyaient, se mêlaient et parfois se fondaient, des docteurs hébraîques, des philosophes gnostiques, des chrétiens nestoriens et manichéens et, pour les Musulmans, des Soufis.

Il est certain que des échanges d'idées eurent lieu qui, entre initiés, durent alller plus loin que de simples conversations.

Il n'est évidemment pas possible de savoir si les symboles gnostiques relevés dans certaines constructions templières leur vinrent d'Orient ou tout bonnement d'Occident oú cette philosophie n'était pas ignorée, quoique assez secrète.

Il existe aux Archives Nationales um sceau du Temple apposé sur une charte par André de Coulours, précepteur du Temple en France, résidant en la Commanderie de Coulours, en forêt d'Othe. Ce sceau porte les mots Secretum Templi (repaire du Temple) entourant un personnage aux pieds en têtes de serpent et dont la tête semble être celle d'un coq vu de profil, ce que les gnostiques nomment un Abraxas (mais les Templiers n'étaient pas seuls à employer en Occident des symboles gnostiques).

Antiga Biblioteca de Alexandria



D'autre part, on sait que certains Templiers se livrèrent à l'alchimie, comme en témoigne le fameux Baphomet du procès; or, ils n'eussent guère pu tenir cette science - en Orient - que des Soufis persans qui semblent eux-mêmes l'avoir tirée des documents égiptiens, et sans doute de la fameuse bibliothèque d'Alexandrie avant qu'Omar la brûlât - ou qu'il parût la brûler, car il n'est pas exclu que les manuscrits les plus précieux en aient été retirés avant que le reste servît de chauffage aux bains.

On sait qu'avant Saint-Denis, les Soufis persans, mathématiciens et alchimistes, avaient pu fabriquer des vitraux de verre alchimique et il n'est pas impossible qu'un certain enseignement soit passé des soufis à Saint-Denis par le canal des Templiers; mais aucune certitude ne peut être retenue, la voie de transmission ayant pu être autre; et après tout, les Cherétiens avaient disposé de la bibliothèque d'Alexandrie bien avant les Persans, et l'évêque Athanase en avait lui-même brûlé une partie.

Enfin il est assez révélateur que les Rose-Croix constructeurs, ceux qui bâtirent de si belles rosaces à nos cathédrales, aient pris ce symbole de la rose, produit alchimique persan, rapporté par Thibaud IV de Champagne à Provins (Thibaud IV, protecteur du Temple en son comté), oú la cultivèrent les jardiniers du Temple et oú l'atelier des mâitres d'oeuvre de Provins, "Enfants de Salomon", protégés du Temple, l'incorpora à la croix.

Mais là encore, aucune preuve ne peut être donnée que les Templiers aient été la voie que allait des alchimistes soufis aux jardiniers et constructeurs de Provins».

Louis Charpentier («Les Mystères Templiers»).


«Depois de terem saído de França, os Templários ficaram ao serviço de Portugal...

Depois do Reinado de D. Manuel I, o "Rei-Sol" dos Templários, construtor e arquitecto, Portugal deixou de ser capaz de consagrar ao Sol nascente as riquezas que as caravelas traziam do poente. A questão mística solar inverteu-se, provocando a perda do saber e da tradição. O caminho simbólico do Reinado de Prestes João passou a ser a rota materialista do comércio».

Maurício Guinguand («O Ouro dos Templários»).




«A GUERRA DOS MOUROS TENHAMOS QUE é bem de a fazer, pois que a Santa Igreja assim o determina, e não dá lugar a fraqueza do coração que faça consciência onde haver se não deve.

E sobre ela eu vi uma questão que por êles se dizia ser feita em esta guisa. Diziam:

- Por que razão faríamos contra êles peleja, ou moveríamos guerra, pois suportávamos entre nós viverem judeus e outros mouros tais como êles? Cá se todos aquêles primeiro matássemos, ou tornássemos à nossa lei, razoado lhes pareceria que os guerreássemos, mas suportar êstes, e matar êles, por lhes ocupar e filhar as terras, não pareceria justamente feito.

À qual respondo que, assim como êles por poderio temporal e deliberação de suas vontades contradizem nossa Fé, daquela guisa pertence aos senhores contrariar ao temporal poderio e pô-los de sob a obediência da Santa Igreja. Em a qual ela não os manda forçar para filharem nossa lei, mas quer que sejam de tal guisa sujeitos, que se alguns a ela se quisessem tornar, livremente o poderem fazer; e por os outros, aos cristãos, nojo ou mal se não faça.

E por mui justamente Nós e todos os Senhores católicos lhes devemos fazer guerra, para tornar suas terras à obediência da Santa Madre Igreja, e pôr em liberdade todos aquêles que à nossa Fé quiserem vir, que livremente o possam fazer; e os outros aos cristãos não façam empecimento.

E dês que são em nosso poder, não é razão fazer-lhes mais prema do que por o Santo Padre for mandado.

Porque, assim como cada um dia contra os desobedientes aos mandados da Santa Igreja somos chamados, em ajuda de braço sagral, e, dês que os fazemos obedecer, a ela pertence determinar o que dêles se faça, dessa guisa, com muito maior razão, para restituir as terras em que o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo foi louvado, que por os infiéis, por temporal poderio, são forçosamente ocupadas, o Santo Padre mui direitamente nos requer e com prometimento de tantas perdoanças nos induz para fazer-mos tal guerra. Da qual ser justa, pessoa fiel, contra seu mandado, não deve haver dúvida; com tanto que o procedimento dela seja com boa tenção e justamente feita por tais pessoas a que convenha».

D. Duarte («Leal Conselheiro», Cap. XVII).










«Vindos da África do Norte, os Árabes invadiram a Península em 711, com um exército de doze mil homens, comandado por Tárique. A invasão procedeu de sul para o norte da Península Ibérica, mas foi detida nas Astúrias, pelos últimos representantes do reino visigótico. Entre o Islão e a Cristandade manteve-se, durante séculos, um intercâmbio linguístico, cultural e moral que a história política, quando reduzida ao simbolismo militar, não deixa perceber. Certo é, porém, que proveniente das cidades do Oriente, como do Cairo e de Bagdade, a cultura islâmica se tornou notabilíssima pela divulgação de textos gregos. Escreve Renan: "Os árabes aceitaram a cultura grega, tal como lhes fora transmitida. Os livros que mais exactamente exprimem esta transmissão foram a Teologia de Aristóteles, um apócrifo que é de crer que haja sido composto por um Árabe, e esse livro De Causis cujo carácter indeciso manteve em suspenso toda a escolástica. A filosofia árabe conservou para sempre esta marca de origem: a influência dos Alexandrinos ressurge a cada passo". Os Árabes utilizavam principalmente os textos de Porfírio e de Alexandre de Afrodísia.

Al Hakam II, antes de ser califa em 961, reuniu em Córdova 400 000 volumes de manuscritos, recolhidos de várias partes do Oriente. Esta biblioteca serviu de exemplo a muitos aristocratas que quiseram imitar o soberano. No império dos Almóadas brilha a doutrinação de Averróis, morto em 1198.

A reconquista cristã da Península Ibérica, operada de norte a sul, significa não só a submissão dos Árabes mas também a dos Judeus; não podemos, portanto, dá-la por concluída antes de 1498. Para alguns autores espanhóis, esta reconquista religiosa deveria ser completada pela unificação política dos cinco reinos cristãos, o que se operou só no século seguinte, em 1580. Convém comparar a data em que os Árabes foram expulsos do Algarve, 1260, com a de 1492, referente à conquista de Granada pelos Reis Católicos. A poesia dos trovadores, que se aclimou entre nós durante o reinado de D. Afonso III, tem origens imprecisas que tanto podem ser atribuídas à poesia popular árabe como à poesia provençal».

Álvaro Ribeiro («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica»).


«Conquistada Adém, as duas empresas que [Afonso de Albuquerque] meditava eram relativamente fáceis na sua simplicidade temerária. Levaria quatrocentos homens de cavalo em taforeias ou caravelas e iria desembarcar em Liumbo, partindo num galope até Meca, lugar santo mal guardado por gente prostrada em adorações. Roubaria o tesouro sagrado e o próprio corpo do profeta: com ambos se resgataria o Santo Sepulcro de Jerusalém, cativo. Consumar-se-ia a obra malograda das Cruzadas, tradição piedosa que na Renascença passara das nações do norte para a Itália e para a Espanha, arrastando mais tarde Portugal a Alcácer Quibir. Ao mesmo tempo, e por outro lado, a grande empresa do Mar Vermelho descarregaria um golpe mortal no Egipto, que era a jóia do império dos turcos e o arsenal de onde vinham as armadas à Índia. O seu plano consistia em "cortar uma serra mui pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste-João, para lançar as correntes dele por outro cabo que não fossem regar as terras do Cairo". Desviando o Nilo secaria o Egipto. Já pedira a D. Manuel que lhe mandasse oficiais da Madeira, onde os havia mestres no corte das serras para formar as levadas de rega dos canaviais. Tudo isto continha a empresa de Adém, cujo malogro cortou os voos às ambições grandiosas do herói».

Oliveira Martins («História de Portugal»).




Afonso de Albuquerque



O enigma do Preste João

Um mundo de fantasmas envolvia a Cristandade medieval. A Europa considerava-se um pequeno oásis - mancha de luz onde reinava a verdadeira religião e a vida era normal, ao passo que, tudo quanto ficava para além, estava oculto pelo mistério e pela magia.

A ocidente bramia o Oceano, que ninguém cruzara ainda, impassível e enigmático como o infindo; para oriente e para sul mergulhava tudo nas trevas exteriores. A Terra continuava, era certo, mas ninguém sabia como. Era um mundo maravilhoso e mau que os Cristãos desconheciam - mundo de gentios e de infiéis, de feitiçaria e de encantamentos. Estranhas histórias conseguiam chegar de lá, de quando em quando, como ecos de outro planeta; de vez em quando surgiam estranhas aparições, como quando um homem, de raça desconhecida, vindo do cabo do Mundo, aparecia nos confins da Cristandade, ou então, às vezes, um cristão muito ousado desaparecia nas sombras. Outras vezes, mais terrível do que tudo isso, ouvia-se o galopar de cavalos que transportavam ferozes guerreiros amarelos através da estepe oriental, e a Europa tremia com o receio de ser submergida por aquelas hordas diabólicas, soltas de qualquer região de horror indizível.

As Cruzadas contribuíram para levantar uma ponta do véu. Os Cruzados, ao atingirem a orla do desconhecido, viram e viram muitas coisas. E a Europa teve, assim, conhecimento da longínqua Catai, do grande Cão e do Velho da Montanha e seus assassinos, e foi assim que da pálida luz do além surgiu e tomou corpo a lenda do Preste João.

Ninguém sabia, ao certo, onde ficaria o reino do Preste João, único príncipe cristão num continente gentílico, mas não se duvidava da sua existência. Rei como Preste João não o havia na Terra. Os seus vestidos eram lavados no fogo e tecidos pela salamandra. Morava num palácio encantado, nas montanhas, e em frente havia um espelho mágico onde ele podia ver os seus vastos domínios num relance. Sete reis serviam, constantemente, o Preste João, bem como sessenta duques, trezentos e sessenta condes, e cavaleiros e fidalgos sem conta. Trinta arcebispos sentavam-se à sua direita e vinte bispos à esquerda. Por cozinheiro tinha um rei-abade, um rei-bispo por copeiro, um arquimandrita por comandante de cavalaria, e um arcebispo por mordomo. Cercado de serviçais de tão elevada categoria, como poderia ele designar-se também rei? Além disso, este poderoso soberano era perfeito, e, portanto, humilde. Era, pois, conhecido por Presbyter ou Preste João.




O seu reino era a terra onde os sonhos saem certos. Lá brotava a Fonte da Mocidade e corriam rios subterrâneos de pedras preciosas. Podia lá encontrar-se a pedra mágica que dá vista aos cegos ou torna os homens invisíveis. Pobre não os havia na terra do Preste João, nem avarentos, nem ladrões, nem assassinos, nem, tão-pouco, lisonjeiros. Lá todos diziam a verdade e o vício não existia. Era o paraíso terreal, que ainda ninguém descobriu.

Tal era a miragem que fulgia aos olhos do século XII. As suas cores foram empalidecendo com o decorrer dos anos, mas o mito durava ainda. Como um homem errante na noite vai atrás de um fogo-fátuo, assim a imaginação medieval seguia o Preste João, cujo reino da mesma forma se deslocava de um extremo para o outro da Ásia. Às vezes afirmava-se que ficava para além das montanhas da Pérsia, às vezes na Índia, e outras nas distantes estepes mongólicas, perto da China.

Por volta do século XIV havia-se deslocado para ocidente. Tinha chegado ao conhecimento da Europa que existia na África um reino cristão. Peregrinos abexins visitavam, às vezes, a Terra Santa, mas ninguém sabia, ao certo, donde vinham. Serras inacessíveis, segundo corria, cingiam, em círculo, a sua pátria. Que outra podia ser senão a terra do Preste João? Preste João das Índias, lhe chamavam ainda, porque a incerta geografia da época confundia a Índia com a África Oriental.

O reino do Preste João tinha deixado de ser sinónimo de país das fadas, mas continuava a estar, aliciadoramente, remoto. Este posto avançado da Fé, perdido e isolado, exercia quase igual atracção sobre a imaginação. Quando os sonhos medievos cederam o lugar à investigação dos factos, os homens puseram-se, então, a procurar a realidade.

Foi um infante de Portugal que abriu o caminho. D. Henrique, o navegador, ficava entre dois mundos - a Idade Média, que findava, e o Renascimento, que rompia. O misticismo daquela e a curiosidade insaciável deste foram as forças impulsoras que lhe dominaram a vida. Foi cruzado e homem de ciência ao mesmo tempo.


Rosa-dos-Ventos na Fortaleza de Sagres


D. Henrique nasceu em 1394 - termo de uma época - numa nação que se encontrava no limiar de novos destinos. Era o terceiro filho do rei D. João I - esse valente bastardo, que tinha sustentado a independência do reino contra os exércitos de Castela, e alcançara, para si, a coroa de seu pai.

A Revolução de 1382 e as guerras demoradas que se lhe seguiram tinham abalado Portugal até aos alicerces, mas haviam-no deixado, espiritualmente, rejuvenescido. A ordem velha tinha sido escorraçada com a corte corrupta do falecido rei D. Fernando; no trono estava uma nova dinastia; uma nova geração de estadistas reunia-se em sua volta; havia novas ideias no ambiente, novas energias agitavam o sangue - era a primavera da nação.

O infante D. Henrique herdou os instintos guerreiros do pai e a devoção sincera da mãe, D. Filipa de Lencastre, a filha da «boa duquesa Branca» de Chaucer. Era, além disso, neto de João de Gande, protector das letras, e descendente de Alfonso X, el Sábio de Castela, e de D. Dinis, fundador da Universidade de Coimbra. Havia, assim, uma ascendência intelectual das duas partes; D. Henrique e os irmãos revelaram sede de saber, desde tenra idade, e a partir da infância liam e coleccionavam livros.

A influência do ambiente, porém, era contrária ao mero culto contemplativo da alma e do espírito. Os cinco filhos preclaros de D. João e de D. Filipa nasceram na hora do triunfo, num país que acabara de sair de uma luta pela existência. Andavam cercados de homens de acção, e foram os heróis que tinham alcançado a vitória que lhes serviram de guias e modelos na mocidade. Entre estes e a mãe, os jovens príncipes foram criados numa atmosfera de piedade prática e militarismo exaltado. A última guerra tivera carácter defensivo - «guerra justa para alcançar a paz», como a definira o condestável D. Nuno Álvares Pereira, em palavras que nos lembram o moderno estribilho «guerra para acabar a guerra».

A abolição completa da guerra, porém, era utopia com que os medievais raras vezes sonhavam. Todos os cavaleiros e fidalgos tinham de ser soldados, mas a geração de D. Henrique herdara a tradição de combater pelo bem. As espadas de seus pais tinham conquistado a liberdade da pátria, os filhos, que se criavam numa terra em paz, aspiravam a alcançar as esporas de oiro na defesa de uma causa justa.

Para os homens da Península Ibérica, uma causa justa não era preciso procurá-la longe. Os seus reinos eram os estados de choque da Cristandade, que se opunham às hordas muçulmanas de fora do grémio cristão. A guerra santa rugia-lhes ainda quase à porta; tinha havido intervalos de tréguas, mas nunca paz, durante seiscentos anos. É certo que o Mouro fora expulso de Portugal, mas para além do Estreito, da outra banda do mar, as suas cidades de palmeiras floresciam quase à vista dos Cristãos. Quando D. Henrique e os irmãos quiseram ganhar as esporas de cavaleiros pareceu-lhes que seria empreendimento nobre e santo conquistar Ceuta.

Painel de azulejos na Estação de São Bento, retratando o Infante D. Henrique na conquista de Ceuta.

A rainha D. Filipa secundou a sugestão dos filhos perante o pai. - "Nom queria per nehuua guisa, pois lhe Deos por sua mercee quis dar a deposiçom dos corpos e do emtender", disse ela, "que elles per seu trabalho falecessem de conseguir feitos daquelles..." (1).

E assim aconteceu que, levando consigo a benção da mãe moribunda, D. Henrique e os irmãos atravessaram o Estreito e foram armados cavaleiros pelo pai na cidade mourisca conquistada.

Nessa hora se fixou o destino da nação. Um jovem de espírito investigador tomara o primeiro contacto com a África, e reconheceu que tinha diante de si o mistério.

Ceuta era a cidade mais formosa na orla da costa mourisca. Abundava em coisas belas que vinham de muito longe. Era rica em pérolas oriundas do Golfo Pérsico, em rubis do Ceilão, perfumes da Síria e sedas do Egipto. Dentro das casas de terraços e de fachadas de azulejos havia tapetes dos teares persas e bordados da Índia. Por detrás das casas havia pátios de mosaico, perfumados por laranjeiras e animados por fontes melodiosas; por trás da cidade ficavam as culturas de cana-de-açucar, pomares e vinhas; atrás dos pomares os montes fragosos, e por trás destes que ficaria?

Ceuta, separada do mundo cristão por algumas léguas de mar, era o último elo de uma longa cadeia que começava no desconhecido. E esta cadeia poderia seguir-se, sabia-o D. Henrique, até aos domínios de Satanás - as terras onde o Islão reinava, incontestável e supremo. Durante séculos, o infiel havia possuído as chaves dos tesouros mais ricos da Terra. Agora que o jovem príncipe vira a mesquita de Ceuta transformada em igreja cristã, sonhava com novos e maiores triunfos para a Cruz. Não deviam os guerreiros de Cristo perseguir a «seita abominável de Mafoma» através do Mundo, e arrancá-la como erva ruim do seu longínquo baluarte oriental? Ceuta era, apenas, o começo - Ceuta entre o deserto e o mar, com um vasto continente desconhecido atrás dela. Até onde era que o maldito Crescente dominava nesta terra de mistério? A África tinha fim, ou iria até o pólo? Em que parte, para além daqueles montes de negrume, ficava o reino de Preste João - esse campeão solitário da Fé que, certamente, receberia de bom grado auxílio contra o inimigo comum? Se o Preste João pudesse reunir forças com os cristãos do Ocidente, não poderiam eles destruir o Islão? E a terra do Preste João ficava no caminho da Índia, esse fabuloso tesouro de especiarias e oiro. São Tomé não tinha penetrado na Índia e instituído lá a igreja cristã?

Adamastor

D. Henrique regressou à pátria com o espírito cheio de interrogações. Como se havia de chegar ao Preste João e tomar contacto com essa Índia misteriosa, que os exércitos de Alexandre tinham visto há tanto tempo? Os caminhos terrestres do Oriente estavam fechados à Europa. O Crescente por toda a parte lhe cerrava o passo, e, por isso, para alcançar os cristãos do Oriente, D. Henrique escolheu o caminho do Mar Tenebroso.

Era empresa arriscada. «Quem passar o Cabo não voltará ou não!» dizia o saber medieval. Para além estendia-se uma região de horror indizível. A idade Média formulou teorias e não foi mais longe, mas o Renascimento estava animado pelo desejo de provar. Intelectualmente, D. Henrique era homem do Renascimento, embora vivesse e morresse na geração anterior. Quando começou a interrogar-se, concluiu que era preciso descobrir.

A esse fim consagrou a sua vida. Estabeleceu residência no extremo sul de Portugal, no cabo de Sagres, última ponta da Europa. «... Ali onde se combatem ambolos mares: o grande Mar Oceano como mar Medioterraneo» (2), entregou-se à tarefa de resolver o enigma do Universo, «com atenção de chegar ao fim dos seus pensamentos, que era descobrir, destas partes Ocidentais, a navegação para a Índia Oriental» (3).

Prazeres, influência política, e até os laços de família, nada valiam para o recluso de Sagres, e todas as receitas da Ordem de Cristo, de que era o grão-mestre, foram destinadas a este cometimento. No seu rochedo, batido pelos ventos, o infante reuniu, em volta de si, uma corte única: matemáticos, astrónomos, cartógrafos, fabricantes de instrumentos de precisão, construtores navais congregavam-se ali, vindos de toda a parte, contribuindo cada um com a sua quota-parte de saber ou de habilidade para a tarefa. Com os teóricos vinham os homens de acção: todos os marinheiros, pilotos e jovens fidalgos ousados de Portugal, bem como os vagueantes estrangeiros que queriam ver mundo e buscavam fortuna. E de mistura com os sábios e marinheiros do Ocidente, viam-se tipos mais exóticos. O infante, com a sua liberalidade, atraía para a sua órbita peregrinos do Levante - sírios e coptas, e outros moradores dos confins da Cristandade, que traziam consigo ecos do mundo exterior. Destes colhia informações relativas ao comércio dos Árabes com o Extremo Oriente, e averiguava como as suas gelbas carregadas de tesouros subiam até Suez, trazendo as especiarias da Índia para Alexandria e Cairo. Mas as narrativas mais estranhas eram feitas por cativos como o mouro Adahu, que falou de distantes mares inferiores situados no coração da África, das caravanas do sal que atravessavam o Sara para o Sudão, e de centenas de camelos carregados de oiro, que desciam ao Mar Vermelho, procedentes de Timbuctu.

Cercado assim de homens de «... desvairadas nações de gentes», (4), o infante D. Henrique passava os dias e as noites a coordenar todos estes indícios, a meditar nos relatos dos viajantes, a examinar velhas cartas, a organizar outras, entregando-se às matemáticas, estudando as estrelas e deduzindo de tudo isto uma ciência nova: - como os homens poderiam dirigir-se sobre os ínvios mares. E enviava, continuadamente, navios - cada ano mais - com instruções de navegarem cada vez mais para o sul, até encontrarem o extremo da África.












Navegaram - cautelosamente a princípio, pois não era possível que algum monstro infestasse o Atlântico Meridional? - e depois com impávida serenidade, pois que, afinal, nenhum papão apareceu, e embora penetrassem nos trópicos, o mar nunca ferveu, como supunham aqueles que eram tidos por sabedores. Verificaram até, com espanto, que Ptolomeu - esse oráculo de todos os sábios medievais - «o illustrisimo Ptolomeu, que muitas boas cousas escreveu» - diz um dos homens de D. Henrique - «porem falhou nesta parte!» (5) Ptolomeu afirmara, quanto à região dos trópicos, «... não ser habitada por motivo do extremo calor. E tudo isto achamos no contrario» (6). Foi o esfarelar de ideias preconcebidas. Até o fantasma Cabo Bojador se reconheceu por terror exagerado. É verdade que o navio não podia fazer a viagem de regresso contra a corrente que descia ao longo da costa, mas a solução era perder vista de terra e descrever um círculo pelo mar alto.

O Mar Tenebroso cedo deixou de assustar os navegadores de D. Henrique. Internaram-se no mar, afastando-se de todos os continentes, e descobriram as formosas ilhas perdidas no Atlântico. Desafiaram, um a um, todos os cabos africanos - Bojador, Branco, Palmas, e outros mais além. Viram as praias desertas dar lugar ao verde dos trópicos, viram apagar-se todos os vestígios dos Árabes e Berberes, que foram substituídos pelo tipo negro puro - todavia a costa enigmática continuava, aparentemente para sempre.

D. Henrique manifestou sinais de desânimo. Colonizou a Madeira e os Açores; construiu fortalezas e feitorias de comércio na costa de África, e enviou as suas caravelas pelo mar fora em direcção ao Ocidente desconhecido. Se atingiram as Antilhas quarenta anos antes de Colombo, ou o Brasil cinquenta anos antes de Cabral, é questão que os historiadores discutem ainda. É certo que o infante procurava penetrar no mundo ainda não descoberto em todas as direcções, mas nunca perdeu de vista o Oriente e o Preste João.

Quanto fez, ao certo, para Oriente, está envolto em mistério ainda mais profundo que as explorações atlânticas que ele organizou. Os seus emissários devem ter conseguido fazer algum avanço por terra, a julgarmos pela crónica enigmática de Azurara: «Fizeste ajuntar o Levante com o Poente...» (7), diz este escritor, que morreu em 1474 - vinte e quatro anos antes do descobrimento do caminho marítimo para a Índia. E, numa das suas efusões retóricas, este mesmo cronista pinta-nos um quadro brilhante de como os habitantes do vale do Nilo se podiam ver com a divisa do infante e adornados de jóias e adereços de Portugal. - «... Que fez isto» - exclama ele, apostrofando o seu herói - «senão larguesa de tuas despesas e o trabalho de teus servidores, movidos por teu virtuoso engenho, pelo qual tresmudaste nos fins do oriente as cousas criadas e feitas no Ocidente» (8). Já se alegou que Azurara, à semelhança da maior parte dos seus contemporâneos, supunha que o Níger era um braço do Nilo. Pode ser que assim seja, mas tanto um como outros distinguiam o Oriente do Ocidente, e não podiam descrever como «fins do Oriente» a costa ocidental da África.


A região da Núbia hoje



Mais enigmático ainda é um documento há pouco descoberto na Chancelaria de Afonso V. Nele se menciona um certo Jorge, "embaixador de Preste João", que estava em Portugal em 1452. Nunca mais se sabe acerca desta personagem. Nenhum cronista, contemporâneo ou posterior, se lhe refere, e quando, sessenta anos depois, chegou à corte de D. Manuel um enviado da Abissínia, foi acolhido como primeiro embaixador do Preste João.

Quem era, então, Jorge, e que era ele? Seria algum peregrino abexim vindo a Roma ou a Jerusalém, que os agentes de D. Henrique encontraram e persuadiram a visitar Portugal? (9) Esta explicação parece muito provável, mas porque lhe chamaram, então, embaixador?

Foi em 1454, dois anos após esta visita misteriosa, que D. Afonso V concedeu à Ordem de Cristo, de que D. Henrique era mestre, jurisdição espiritual sobre a Guiné, Núbia e Etiópia.

Podemos especular à vontade a este respeito. É enigma a que faltam tantos elementos que o não poderemos resolver senão pela imaginação.

Quando D. Henrique morreu, em 1460, os problemas que ele tinha posto a si mesmo estavam ainda, na sua maioria, por resolver. A terra do Preste João quase não passara de Lenda. O sonho do caminho marítimo para a Índia ainda se não tinha corporizado. Mas, em sua vida, D. Henrique havia transformado o Mundo. Com a sua mão arredara, para sempre, os fantasmas de que a imaginação dos homens povoara o Atlântico. Uma nação havia que tinha perdido todo o pavor do Oceano. E a nação que o Infante instruíra na arte da navegação era jovem e forte - povo ainda não corrompido pelo luxo, que tinha vivido da agricultura e da espada. Os seus antepassados haviam-lhe legado uma grande tradição guerreira. Poucos em número, estavam habituados a vencer contra enormes desigualdades. Filhos dos vencedores de Mouros e Castelhanos, sentiam-se invencíveis. Quanto aos perigos do mar - uma viagem marítima já não era aventura de acaso, mas um problema a resolver pelas regras de uma ciência exacta. Portugal enfrentava assim o mundo desconhecido, e não o temia.

O grande empreendimento continuava. Afonso V, o Africano, embora muito ocupado na conquista de Marrocos, não o esqueceu inteiramente, e seu filho, o futuro D. João II, ao chegar à idade viril, fez incidir sobre o problema todo o vigor da sua inteligência inquieta. «Determinou de prosseguir», somos informados, «ho descobrimento da costa da Guiné que seus antecessores tinhão começado; porque por aquela costa lhe parecia que descobriria ho senhorio do Preste João das Índias de que tinha fama; pera que por ali podesse entrar na Índia» (10).



Padrão dos Descobrimentos (Belém, distrito de Lisboa): Bartolomeu Dias e Diogo Cão (ao centro) levantando um padrão.



Estátua de Bartolomeu Dias em Londres



Estátua de Bartolomeu Dias na África do Sul (Cape Town).




Os pequenos navios continuaram, pois, a procurar novos horizontes. Em 1471, Álvaro Esteves transpôs o Equador. Em 1484, um padrão foi levantado perto do rio Congo, por Diogo Cão. Finalmente, em 1486, Bartolomeu Dias meteu-se, ousadamente, ao mar, e navegou muito para o sul das regiões descobertas. Durante treze dias, as suas caravelas, de cinquenta toneladas, correram, cegamente, perante os ventos impetuosos e mares enfurecidos, e o cabo, há tanto procurado, foi, inconscientemente, dobrado, no meio da tempestade rugidora. «Cabo das Tormentas», lhe chamaram os marinheiros, quando viram o gigante na viagem de regresso. «Chamai-lhe antes Cabo da Boa Esperança!» - disse Bartolomeu Dias, com visões do áureo Oriente diante dos olhos, e assim o nome ficou. Mas nessas praias agrestes não se colheram novas do Preste João.

Entretanto, em Portugal, o rei D. João II tentava o empreendimento noutra direcção. Enquanto Bartolomeu Dias procurava o Preste João na costa oriental da África, dois homens haviam sido enviados de Santarém, em missão igualmente emocionante.

Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã levavam ordem de internar-se em África, partindo do Egipto, e recolher todas as informações que pudessem sobre as vias do comércio do Oriente e da Índia. Iam encarregados de atingir a Etiópia, de qualquer forma, e levar uma carta do seu rei ao Preste João (in Elaine Sanceau, Em Demanda do Preste João, Livraria Civilização, Porto, pp. 10-21).


Notas:

(1) Zurara - Crónica da Tomada de Ceuta, cap. XX, pág. 63, edição de Francisco Maria Esteves Pereira.

(2) Zurara, Crónica da Guiné, cap. V.

(3) Damião de Góis - Crónica do Príncipe D. João, cap. VII.

(4) Zurara - Crónica da Guiné. cap. IV.

(5) Diogo Gomes - Relação publicada no boletim da Sociedade de Geografia, 1898.

(6) Ibid.

(7) Crónica da Guiné, cap. VI.

(8) Ibid., cap. II.

(9) Ver «Do Sigilo Nacional sobre os descobrimentos», de Jaime Cortesão, na Lusitânia, Janeiro de 1924.

O Sr. Duarte Leite, no seu artigo «O Preste João das Índias», publicado no Primeiro de Janeiro de 26 de Agosto de 1939, supõe que o tal Jorge fosse um dos membros de uma missão abexim enviada, em 1450, ao papa Nicolau V. É certo que os Abexins apareciam, de vez em quando, no Ocidente, sem, porém, deixarem da sua terra quaisquer informações precisas.

(10) Castanheda - Liv. I, cap. I.




Brasão de Armas do Reino de Portugal (1385-1580).




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