sexta-feira, 26 de junho de 2015

Ainda a "descolonização de Angola"

Escrito por Silvino Silvério Marques



António de Spínola na tomada de posse do I Governo Provisório.

Álvaro Cunhal na tomada de posse como ministro sem Pasta do I Governo Provisório.






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«Da autoria de José Pestana, transcrevo, com a devida vénia, da Revista Visão de 6 de Outubro de 1994, o artigo intitulado KGB recrutou oficiais das FA portuguesas. Numa Europa varrida pelo euro-comunismo, Álvaro Cunhal era um amigo com que se podia contar...

"Álvaro Cunhal era, na Europa Ocidental, um dos comunistas em quem melhor se podia confiar", afirmou à VISÃO o major-general Oleg Kalugin, antigo chefe da contra-espionagem do KGB — o Primeiro Directório. "Toda a operação foi possível devido ao envolvimento do PCP", acrescenta, a propósito do desvio de arquivos da ex-PIDE/DGS para a embaixada soviética em Lisboa e, posteriormente, para Moscovo. "Os comunistas portugueses tinham os seus próprios amigos infiltrados nas forças de segurança e nos que tomavam conta dos arquivos da PIDE e foram eles que ajudaram a transportar os documentos para a nossa embaixada", recorda.

O antigo dirigente da polícia secreta soviética afirma que foram recrutados agentes entre os oficiais das Forças Armadas Portuguesas, no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

"Foram recrutados pelas afinidades ideológicas", acrescenta, esclarecendo que, por essa razão, não trabalhavam em troca de remuneração.

Na conversa com a VISÃO, Oleg Kalugin demonstrou um perfeito conhecimento da situação política e dos protagonistas do pós-25 de Abril. E revelou conhecer em profundidade a situação então vivida nas ex-colónias portuguesas. Acima de tudo, o ex-chefe da contra-espionagem soviética mostra que sabe do que está a falar.

Referindo-se a Álvaro Cunhal, Kalugin abriu um sorriso e disse que o antigo secretário-geral do PCP era um dos melhores amigos que os soviéticos podiam ter. E recorda que o euro-comunismo que varria a Europa e tinha a sua expressão maior no PC italiano de Enrico Berlinguer, provocava grande inquietação em Moscovo.

O ex-oficial soviético esclarece que o maior interesse era o de obter informações relativas ao funcionamento da NATO. Interrogado se os oficiais então recrutados ainda estão no activo, respondeu com um lacónico "não sei".

GROTESCO. Na sequência da Revolução portuguesa, e numa operação descrita como uma das mais audazes do mundo da espionagem, Oleg Kalugin conta, num livro acabado de publicar nos EUA, como simpatizantes comunistas portugueses passaram aos serviços secretos da União Soviética um camião carregado de documentos que permitiriam a Moscovo forçar alguns antigos agentes da PIDE a espiar para o KGB.

A obra, intitulada precisamente O Primeiro Directório, escrita com a ajuda do antigo correspondente em Moscovo do The Philadelphia Inquirer, Fen Montaigne, foi editada pela St. Martin's Press, Nova Iorque. Numa das suas 364 páginas, o antigo oficial de Moscovo relata:

"Um dos mais grotescos episódios das operações europeias do KGB durante a minha comissão ocorreu em meados dos anos 70 em Portugal, logo a seguir à queda da ditadura de Salazar. O Partido Comunista Português era o terceiro maior da Europa (depois do italiano e do francês), e na segunda metade da década o socialismo e o comunismo gozavam de amplo apoio no país. A verdade é que nós tínhamos agentes em todos os escalões do serviço secreto português, e no caos que sucedeu à revolução socialista que derrubou Salazar (sic) os nossos agentes executaram um audacioso golpe. Certa noite, com o auxílio de toupeiras e simpatizantes no interior do aparelho de segurança, portugueses ao serviço do KGB foram de camião até ao Ministério da Segurança (sic) e tiraram de lá para fora um monte de documentação classificada, incluindo listas de agentes da polícia secreta que haviam trabalhado para o regime de Salazar. O carregamento foi entregue na nossa embaixada de Lisboa e mais tarde transportado por via aérea para Moscovo, onde os analistas gastaram meses a analisar todos esses papéis. Portugal era membro da NATO, de onde haver algum material sobre operações militares norte-americanas na Europa, se bem que de limitado interesse. Mas o material realmente importante era a lista de milhares de agentes e informadores que tinham trabalhado para a ditadura de Salazar - informação que os nossos funcionários posteriormente usaram para forçar alguma dessa gente a trabalhar para nós. Na história dos golpes de informação secreta da guerra fria, a operação portuguesa não terá sido um êxito colossal; mas pela sua absoluta audácia - safar do próprio Ministério da Segurança (sic) um camião repleto de material - poucas acções terão rivalizado com ela".

Assinatura do Tratado do Atlântico Norte (1949).

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A referência ao inexistente "Ministério da Segurança" é explicável pela confusão instalada em Portugal nessa altura. As atribuições de segurança estavam repartidas entre diversos organismos, no seio dos quais simpatizantes de várias tendências políticas de esquerda lutavam pelo controlo das informações. Destacavam-se, entre eles, a 2.ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas e o Copcon. Mas quem, no seu perfeito juízo, poderia conceber, em plena guerra fria e num país da NATO, tão inacreditável operação?

(...) Da Revista Visão de 6 de Outubro de 1994, p. 24, transcrevo, com a devida vénia, o artigo que segue de Pedro Vieira


O Mistério dos Arquivos Voadores 

Se a operação de transferência de material dos arquivos da PIDE para Moscovo foi feita com a colaboração do PCP, então Álvaro Cunhal teve a última palavra.

"Aquilo está a saque», diz-nos um oficial no activo e antigo membro do MFA (Movimento das Forças Armadas), referindo-se à situação na sede da PIDE nos primeiros dias a seguir ao 25 de Abril de 1974. Terá sido nesse período inicial de euforia e de confraternização que se operou a primeira "limpeza" nos arquivos. Militantes comunistas terão avançado para se apropriarem dos dossiers dos dirigentes do PCP e de outros militantes, designadamente daqueles cujo comportamento na polícia interessava verificar: se tinha denunciado alguém, se foram informadores a troco da liberdade, se só falaram depois de torturados. Coincidência ou não, Canais Rocha, um sindicalista e ex-preso político, inicialmente indicado pelo PC para ministro do Trabalho do I Governo Provisório, acaba por ser preterido a favor de Avelino Gonçalves, que haveria de ter a mesma sorte sob a acusação de "pecados" idênticos. Entretanto, desembarcavam em Lisboa funcionários soviéticos com o estatuto de quase-libertadores. O Hotel Tivoli foi um dos seus centros operacionais. Para evitar escutas, utilizavam a velha técnica da torneira aberta: o ruído da água cobre a voz humana.

O advogado José Augusto Rocha, jurista da Comissão de Extinção e da Associação de Presos Anti-Fascista, lembra-se de que poucos dias depois do 25 de Abril entrou na Rua António Maria Cardoso, onde viu não só arquivos - por exemplo os processos de escutas a Pinto Balsemão e Sá Carneiro - mas o seu próprio processo e o de Saldanha Sanches (MRPP), bem como equipamento de escuta.

A facilidade de acesso às instalações da Rua António Maria Cardoso explica-se pelo amadorismo político da maioria dos militares, apenas preocupados em controlar um alvo estratégico sem derramamento de sangue.

FOGUEIRA. O brigadeiro Manuel Monge, membro da Casa Militar do Presidente da República e um dos conspiradores do falhado golpe das Caldas da Rainha de 16 de Março de 1974, regista que oficiais da Marinha, apesar de serem minoritários no MFA, tentaram controlar tudo o que se relacionava com informações, só não tendo tomado conta da Legião Portuguesa graças à oposição de Adérito Figueira, actualmente general do Exército.

O general Galvão de Melo assumiu a tutela da Comissão de Extinção da PIDE/DGS e da Legião Portuguesa até Junho, data em que foi substituído pelo almirante Rosa Coutinho. Galvão de Melo, que voltou àquela comissão quando o almirante foi nomeado presidente da Junta Governativa de Angola, disse à VISÃO que, na altura, alguns oficiais da Marinha lhe confessaram pertencer ao PCP, mas que tal facto não os inibiria de colaborar com ele.

"Tive ocasião de consultar o volume que me era dedicado. Tinha um tamanho razoável, o que me levou mesmo a perguntar como seria a 'biblioteca' de Álvaro Cunhal. Claro que esse era um dos ficheiros que já lá não estava", acrescenta.

Álvaro Cunhal


Por decisão da JSN, que assumiu o poder na sequência do golpe, a documentação da PIDE/DGS fora transferida ao fim de um mês ou dois para o reduto Norte de Caxias, um espaço amplo e seguro tornado disponível pela libertação dos presos políticos. No entanto, o material de escuta continuava na Rua António Maria Cardoso, sede da extinta PIDE. Os fuzileiros guardaram o material e armadilharam os ficheiros. Se alguém tentasse retirá-los, explodia tudo.

No reduto Sul de Caxias, onde a polícia política procedia a interrogatórios e torturas, também havia documentação relativa a presos políticos. Segundo nos afirma o comandante Conceição da Silva, antigo presidente da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, nos dia 25 e 26 de Abril os agentes da polícia queimaram muita dessa papelada numa piscina, cujas paredes até rebentaram devido ao calor. Também no terceiro andar da António Maria Cardoso, os agentes da PIDE, surpreendidos pela Revolução, queimaram a maioria dos ficheiros relativos aos seus informadores. Em Caxias, o principal responsável era o comandante Abrantes Serra, que dirigiu a operação de libertação dos presos políticos na noite de 26 para 27 de Abril.

"Quando fui nomeado rodeei-me de pessoas de confiança, nomeadamente o jurista Alfredo Caldeira [afecto ao MRPP] e Fernando Oneto, que ficou encarregado do caso Humberto Delgado, um processo emblemático que ficou pronto antes de eu sair da Comissão de Extinção", disse à VISÃO o comandante Conceição e Silva. Acrescentou que não tinha conhecimento do que se passava em Caxias, mas salienta que, quando foi para a sede da polícia política, "no terceiro andar, onde se encontravam os arquivos, havia sinais de armários arrombados. Eram armários metálicos verticais e as fechaduras apresentavam indícios de violação".

Uma outra fonte que não se quis identificar refere também que os dossiers relativos à África seriam fundamentais para a URSS, nomeadamente no acesso a toda a estrutura dos movimentos de libertação e dos contactos, em particular com os serviços secretos sul-africanos e rodesianos. Aliás o KGB terá contado também com o auxílio dos serviços secretos da ex-RDA para a espionagem tanto em Portugal como nas suas colónias africanas.

Depois da subida ao poder de Yeltsin, em 1991, o KGB dividiu-se em Serviço Federal de Contra Espionagem (SSK) e Serviço de Espionagem Exterior (SVR). Mas o pardo edifício, de aparência sinistra, é o mesmo, na Praça Lubianka, antiga Praça Djerzinski, homenagem ao fundador da polícia política soviética. Vladimir Avrovski, número dois da Embaixada da Rússia, disse à VISÃO que a sua representação diplomática está a seguir o assunto apenas através dos meios de informação, salientando que o "caso tem a ver com um Estado que já não existe".

Praça Lubianka

Ultrapassados os primeiros dias que se seguiram à Revolução, com a situação mais controlada, desenha-se o plano de desmantelamento da PIDE. Apesar de estar enquadrada por militares, designadamente da Marinha, as tarefas de análise dos documentos cabia aos civis que actualmente [agem] de acordo com uma lógica partidária. Por decisão da JSN, os partidos políticos então existentes poderiam ter acesso à documentação da PIDE/DGS. Cada força política encarregava-se dos "seus" dossiers. Havia elementos do PCP, do PS, da LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) e do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado). Não se discriminava ninguém, mas, na prática, só o PCP dispunha de estrutura, organização e funcionários em número suficiente e com capacidade para aproveitar essa possibilidade de acesso. 

O PCP destacou para a Comissão de Extinção elementos de primeira linha, como Rogério de Carvalho, António Graça, Gaspar Ferreira, João Honrado e Veiga de Oliveira. 


Segundo uma fonte muito bem colocada, durante cerca de um mês, Rogério de Carvalho, membro do comité central do PCP, caminhou diariamente para o reduto Norte de Caxias com uma equipa de 10 funcionários do partido. Eles cumpriam um horário de trabalho de oito horas, com saída às 18, vasculhando os arquivos de ponta a ponta. 


Um alto dirigente militar do MFA, que pediu para não ser identificado, classificou Rogério de Carvalho como o "elemento-chave do PCP dentro da Comissão de Extinção da PIDE/DGS e da Legião Portuguesa". Revelou ainda que se encontrou por diversas vezes com aquele elemento do comité central do PCP em casa de militantes comunistas, onde lhe eram fornecidas informações específicas que constavam dos arquivos da polícia política. 


Veiga de Oliveira, ex-preso político e dissidente do PCP, que também trabalhou na Comissão de Extinção, interrogado pela VISÃO, disse que passou por lá pouco tempo e só no início, nada sabendo a esse respeito. 


Fernando Oneto, já falecido, que estava na Comissão de Extinção em nome da dupla ligação ao PS e à LUAR, fez em Março de 1975, com grande impacto público, a denúncia de que se pretendia criar uma nova polícia política e reclamou uma sindicância à Comissão de Extinção da PIDE/DGS. 


Uma fonte digna de crédito disse à VISÃO que elementos do PCP utilizaram os ficheiros da PIDE para exercer chantagem política sobre militares. Citou o caso concreto de um oficial do Exército que, para surpresa dos amigos, viria a assumir posições radicais durante o processo revolucionário. Mais tarde, esse oficial confidenciou que foi convidado a colaborar com o PCP ao mesmo tempo que era confrontado com uma carta em que se dispunha a ingressar na DGS (novo nome da PIDE). Entretanto, conseguiu matricular-se na Academia Militar e desistiu do emprego na PIDE.


KGB. Numa entrevista a Carlos Fino, transmitida pelo Canal 1 no Telejornal do último dia 27 (e que despoletou este caso), Oleg Kalugin afirmou que "directamente sob a minha responsabilidade, foram criados núcleos de agentes nas Forças Armadas, no Exército, na Marinha e na Polícia".



Atenta, a NATO levou a sério a suspeita de que Lisboa passava segredos para o Leste, e, assim, desde Agosto de 1974 até Junho de 1980, deixou de mandar para Portugal documentação classificada. Durante esse período, o nosso país foi tratado como se não fizesse parte da estrutura militar da Aliança Atlântica. A situação só foi resolvida na sequência da participação do general Ramalho Eanes numa cimeira da NATO.

Antigos colaboradores da Comissão de Extinção, que trabalhavam no reduto Norte da Prisão de Caxias, contaram à VISÃO que um dia, às 7 da manhã, encontraram "a fotocopiadora a ferver" e os funcionários afectos do PCP a trabalhar. No entanto, os serviços encerram, como habitualmente, no fim do dia anterior: durante a noite ou de madrugada, aqueles elementos entraram nas instalações e fotocopiaram documentos.

"Num dia faltavam umas folhas, na semana seguinte faltavam mais e, pouco depois, o dossier resumia-se a meia dúzia de folhas sem qualquer significado", afirma um ex-funcionário da Comissão de Extinção, que solicitou o anonimato. 


APETITES. Um dissidente comunista assegurou à VISÃO que o PCP tem em Moscovo numerosos documentos - cópias ou originais - relativos à sua vida interna e à sua história: até 1943, no Centro de Conservação de Documentação Contemporânea, antigo arquivo do Instituto de Marxismo-Leninismo, onde se conserva o espólio da Internacional Comunista (e de onde acabam de sair revelações concernentes nomeadamente a esse ponto escaldante chamado Pavel); de 1943 até Agosto de 1991, no Centro Russo de Conservação e Utilização de Documentos da História Contemporânea, antigo arquivo do PCUS.


O arquivo oficial do PCP, esse está na Rua Soeiro Pereira Gomes, aberto à consulta de investigadores. No entanto, mantém um núcleo de documentação secreta, havendo alguns documentos que, de tempos a tempos, são libertados para o arquivo oficial.

As grandes questões que se colocam é saber que documentos da PIDE foram entregues ao KGB, com a colaboração de quem, e como e quando foram enviados para Moscovo.

O major Sousa e Castro, antigo membro do Conselho da Revolução e responsável da Comissão de Extinção desde o pós-25 de Novembro de 1975 até 1982, diz-nos que qualquer polícia secreta tinha interesse em determinados documentos portugueses. Aliás, duas fontes asseguram-nos de forma taxativa que um dos elementos da Comissão, não afecto ao PCP, trabalhava para os serviços secretos franceses. Admitem, por isso, que alguns documentos (originais e fotocópias) estejam em França.

"É credível que alguns documentos tivessem ido para a URSS, mas não nessa quantidade que se diz. Quando se fala em vários camiões ou contentores é um exagero, é um provincianismo. As secretas da URSS o que queriam eram informações sobre sistemas de armas e doutrinas militares" - de acordo com a tese de Sousa e Castro.

Segundo Rosa Coutinho, alguns documentos poderão estar em Moscovo, mas também estarão em Washington, Paris e Berlim Leste.

OAS. O facto é que, além de pastas individuais de membros do PCP, dossiers tão sensíveis como o das relações com outros serviços secretos ocidentais, designadamente a CIA (Agência Central de Informações) norte-americanas, o SDECE (Serviço de Documentação Externa e Contra-Espionagem) francês - um parceiro privilegiado, rebaptizado DGSE (Direcção Geral de Segurança Exterior) na era Mitterrand - o Ml5 inglês e a Mossad israelita, acabaram por desaparecer.


Vista aérea do quartel-general da CIA (Langley, Virginia).






Do mesmo modo, os dossiers da OAS (Organisation de L'Armée Secrète/Organização do Exército Secreto), uma força terrorista-defensora da manutenção da Argélia francesa, que chegou a atentar contra a vida do presidente de Gaulle, também levou descaminho. À pasta do "caso Angoche" aconteceu o mesmo do que à tripulação daquele navio, desaparecida sem deixar rasto depois de levantar âncora da Beira, no início da década de 70.

O dossier da OAS não pertencia à PIDE, mas foi descoberto na sequência dos contactos da polícia política com a Aginter Press, uma agência de informação francesa criada por ex-elementos da OAS, que tinha escritório na Rua das Praças, em Lisboa. A Aginter era dirigida por Jacques Ploncard d'Assac, um francês já falecido que vivia em Portugal desde 1945. O seu braço direito era Jean Haupt, que também já morreu. Este serviço identificava-se com o governo de Vichy, que colaborou com os invasores alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Os seus dirigentes eram frequentadores do Círculo Eça de Queiroz, onde tinham contactos frequentes com o cineasta António Lopes Ribeiro e com Ramiro Valadão, presidente da RTP à data de 25 de Abril de 1974.

Foi através da Aginter Press que a Comissão de Extinção teve acesso aos dossiers da OAS, um dos mais disputados pelos serviços secretos. Nas instalações foram encontrados passaportes falsos, fotografias, carimbos e muitos relatórios que revelavam a rede da organização em Portugal, Espanha e Brasil. O chefe da OAS em Lisboa era um francês com o nome de guerra [Ives] Sérac.

CAMIÕES - Um antigo dirigente comunista disse à VISÃO que uma operação de transferência de arquivos para Moscovo, se envolveu o PCP, teve de ser decidida ao mais alto nível do poder real dentro daquele partido, o que, na prática, quer dizer Álvaro Cunhal e o seu número dois Octávio Pato. No entanto, Oleg Kalugin atribui quase a uma movimentação informal a participação do PCP nesse processo. Outras fontes salientam ainda que, de qualquer forma, a entrada e saída de Caxias de um camião com documentação só poderia acontecer com autorização expressa dos militares.

De acordo com o general do KGB, os arquivos, uma vez entregues na Embaixada da URSS, seguiram para Moscovo numa carreira regular da Aeroflot. Como viajaram de Caxias ou da António Maria Cardoso até à Embaixada? De camião, responde Oleg Kalugin. Mas quem o carregou e quem o conduziu?

A prevalecer a afirmação do envolvimento do PCP ou de alguns dos seus membros, só depois das crises de 28 de Setembro de 1974 ou, até de 11 de Março de 1975, o ascendente daquele partido poderá ter criado condições para uma operação de tal envergadura. No 28 de Setembro, o PCP receou uma reviravolta da situação política e pôs a salvo ficheiros do partido, entregando-os a pessoas da sua confiança. É plausível que nessa altura tenha também despachado documentos para Moscovo. 




A dita Junta de Salvação Nacional (1974).

Em Agosto de 1974, por decisão do general Galvão de Melo enquanto membro da JSN, o material relativo às relações com polícias estrangeiras foi transferido da sede da PIDE para a 2.ª Divisão - DINFO, instalado no Palácio da Cova da Moura (onde está hoje na Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus). Criada por Costa Gomes no âmbito do EMGFA (Estado-Maior General das Forças Armadas), controlava informações militares e de segurança do Estado. O primeiro chefe da 2.ª Divisão foi o general Melo Xavier, mas adoeceu e foi substituído pouco tempo depois pelo brigadeiro Pedro Cardoso, uma figura de consenso entre Spínola, Costa Gomes e Vasco Gonçalves. A 2.-ª Divisão ainda sobreviveu algum tempo às mudanças revolucionárias de 11 de Março de 1975, mas em Maio foi substituída pelo SDCI (Serviço Director e Coordenador da Informação), na dependência do Conselho de Revolução e dirigido por três dos seus membros: director, o comandante Almada Contreiras; subdirectores, o major Pereira Pinto (Força Aérea) e o capitão Ferreira Macedo (Exército). "Era o trio revolucionário", segundo comentou uma fonte militar. 

Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP, disse à VISÃO não estar preocupado com as recentes acusações de o seu partido ser o responsável pelo desvio de arquivos da PIDE/DGS para Moscovo. "Nesta última semana ninguém do partido dormiu a pensar nos arquivos da PIDE", ironizou. Considerou "absurdas" aquelas acusações e classificou de "manobra de distracção" desenterrar agora uma história com 20 anos».

Fernando Pacheco de Amorim («25 de Abril. Episódio do Projecto Global»).


«É no Partido Comunista, nas novas gerações da oposição democrática e nos católicos liberais, que a oposição à guerra de África encontra os seus apoiantes. Mas foi nas universidades - donde entretanto foram saindo aquelas centenas de oficiais milicianos que em cada incorporação eram necessários - que o movimento anti-guerra encontrou melhores dias.

A guerra, ao permitir e justificar o investimento de recursos nos territórios africanos, deu origem, sobretudo em Angola, a uma dinâmica de crescimento que facilitou, depois do confronto e reconquista de 1961-1965, o disparar de um desenvolvimento económico-social rapidíssimo, que embora beneficiando em primeiro lugar e em maiores proporções "os colonos", acabou por beneficiar toda a sociedade.

Isso explica a melhor situação militar na então jóia da Coroa do Império português, em relação aos outros territórios. Aí funcionou a contenção militar e a consolidação desse controlo que trouxe a estabilidade que permitiu o desenvolvimento económico e social.





Outro factor importante, foi a participação crescente do pessoal local no esforço de guerra. Em 1974, em Moçambique, havia nas forças governamentais mais militares do recrutamento local, que metropolitanos. Em Angola equivaliam-se. Só na Guiné, o número do contingente metropolitano, continuava a ser dois terços dos cerca de 36.000 homens em operações.

Até ao 25 de Abril de 1974, nunca se registou um caso de uma povoação ou um aquartelamento importante que tivesse sido tomado ou ocupado pelo inimigo; os prisioneiros portugueses eram, até essa data, em números ínfimos.

Mao Tse-Tung, tão celebrado pela "Intelligentsia" esquerdista pelos seus escritos e feitos de guerra, tinha considerado que o problema militar das guerras revolucionárias não era de como acabar com a guerra. Este - como "acabar e vencer a guerra" - era questão à qual os pensadores militares ocidentais dirigiram a maior parte da sua atenção e esforços intelectuais e práticos. Mas para Mao, a questão era saber não como acabar, "vencer a guerra", mas continuá-la indefinidamente, fazendo o opositor perder.

Ou seja, para o grande Timoneiro, estas guerras (as guerras "subversivas", "coloniais" ou "revolucionárias") não se ganhavam mas podiam perder-se. E quando uma parte perdia, a outra, o inimigo, ganhava.

Salazar pensava assim e procurou equacionar a defesa do Ultramar nesses mesmos termos: organizar o país e as Forças Armadas para um conflito de longa duração, esperando que "os outros" se cansassem primeiro.

Até que ponto, a alteração desta perspectiva, a partir de 1968, com a recolocação do "problema do Ultramar" como "problema nacional" e alguma ânsia e nervosismo quanto à sua solução, não veio atingir, politicamente, essa vontade? Até que ponto a não alteração do modelo de organização militar, não respondendo a problemas centrais do Corpo de Oficiais - os Exércitos territoriais podiam ter sido uma alternativa - não contou para a deterioração, não tanto da situação militar mas da situação política e psicológica da população e do país, tornando-os vulneráveis à propaganda e aos "ventos da mudança"?

Não sabemos e a História acontecida, com todo o peso e pedagogia dos factos consumados, impede-nos de especular na linha de um what if, ainda que este seja sempre intelectualmente gratificante».

Jaime Nogueira Pinto («Prefácio in «Guerra d'África 1961-1974: Estava a Guerra Perdida?»).






«... tive a honra de conhecer e de contactar numerosas vezes com o Senhor Contra-Almirante Pinheiro de Azevedo. Tive então ocasião de perguntar ao Senhor Contra-Almirante a que tinha obedecido a alteração do programa das FA e da legislação então publicada, em relação ao Ultramar, isto é, porque não se tinha aguardado uma nova Constituição para então dar cumprimento às resoluções da ONU.

O Senhor Contra-Almirante informou-me então que o que levou a alterar o compromisso assumido pelo MFA perante a Nação, tinha sido uma resolução tomada em reunião do Conselho de Estado. Disse-me que estivera várias vezes para denunciar publicamente este facto, mas que sempre hesitara com o receio de aumentar ainda mais, com a sua revelação, a grande confusão então existente.

Que se passara em tão importante reunião do Conselho de Estado, mantida tão secreta pelos seus membros num País onde não é possível guardar segredos?

Logo me assaltou a suspeita de que só a má consciência dos seus membros poderia conseguir um tal milagre neste País de linguareiros.

O Senhor Contra-Almirante confirmou-me essa suspeita! Na verdade informou-me que em determinada reunião daquele órgão de soberania, o Prof. Freitas do Amaral defendera, numa extensa exposição, que não seria necessário esperar por uma nova Constituição para se dar início ao processo de descolonização, pois que a legislação em vigor permitia que se lhe desse início.

O Senhor Contra-Almirante, ainda a propósito do Prof. Freitas do Amaral, disse-me que após a sua exposição, os militares, embaraçados, se entreolharam, surpreendidos, mas naturalmente sem argumentos para combater os da tese apresentada e que, os restantes membros do Conselho que poderiam ter argumentado dada a sua formação académica, logo se manifestaram em calorosos elogios à proposta apresentada, tendo ficado desde logo decidido dar-se início à descolonização.

Estava dado o primeiro passo de uma grande tragédia.

Tendo, mais tarde, procurado informar-me de quem tinha acesso às actas do Conselho de Estado, para me certificar da exactidão da informação que o Senhor Contra-Almirante me tinha dado, constou-me que o Senhor General Eanes, logo após a tomada de posse da Presidência da República, tendo querido chamar a si aquelas actas e as da Comissão da Descolonização foi informado do seu desaparecimento. Será verdade? Não me surpreende que o seja. Haverá alguém que se surpreenda?».

Fernando Pacheco de Amorim («25 de Abril. Episódio do Projecto Global»).








Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Ribeiro Teles

Freitas do Amaral, Sá Carneiro, Mário Soares e Álvaro Cunhal




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«Em Abril de 1973, entrei para a tropa e parti para uma outra África. Depois de fazer o curso de APSIC (Acção Psicológica), e tendo ficado bem classificado, não devia ser mobilizado para servir no Ultramar, já que a escala de mobilização começava pelos últimos. Paradoxalmente era assim que funcionava. Por isso achei que o mínimo que podia fazer era oferecer-me voluntariamente. Foi o que fiz em Janeiro de 1974, mas como, ainda assim, não fui chamado, troquei com um outro aspirante do meu curso que tinha sido mobilizado para Angola - o Arnaldo Cadavez.

Tudo isto em vésperas do 25 de Abril.

E acabei por embarcar para Angola em Julho de 1974. Desta vez ia para a África real - a física, a viva, a verdadeira. Dois meses depois do 25 de Abril, quando se jogava a perder o projecto político em que acreditava, mas ia. E era por isso que ia, talvez ainda a tempo de uma última cartada que pudesse emendar a mão.

Lisboa vivia então aquele caos benevolente do princípio do PREC, em que choviam promessas de tudo para toda a gente. Com o governo de Palma Carlos, variando de Sá Carneiro a Álvaro Cunhal, Spínola tentava gerir o fervilhar de um caldeirão tapado há quase meio século. Valiam os brandos costumes e o sermos uma nação antiga em que quase toda a gente se conhece ou relaciona, uma nação com uma identidade - religiosa, étnica, linguística - consolidada por novecentos anos de vida em comum. Eu estava discretamente na linha da frente da organização das "forças de direita", fazendo o go-between entre estas e alguns possíveis beneméritos.

Nas Forças Armadas confrontavam-se o MFA, apoiado pelo PC e pela extrema-esquerda, minoritário mas com estratégia, e uma massa de oficiais conservadores, despolitizados e sem estratégia alguma, que se acolhiam à sombra do "spinolismo".

A questão de África era vital. Em Moçambique e na Guiné, a FRELIMO e o PAIGC intensificavam os ataques, ao mesmo tempo que a propaganda esquerdista contribuía para a indisciplina das tropas. Tratando-se de um exército de contingente geral, era até compreensível a desordem: se o abandono incondicional estava iminente, ninguém queria ser o último a morrer na véspera do cessar-fogo.

A estratégia das forças civis e militares que ainda se preocupavam com o destino do Ultramar, e onde Spínola se inseria, era tentar salvar os interesses portugueses em Angola, retardando o processo de independência e animando ali os sectores pró-portugueses e anticomunistas.

Para pôr em prática esta política, Spínola e a Junta de Salvação Nacional escolheram para governador-geral o general Silvino Silvério Marques. O general já tinha sido governador de Angola e de Cabo Verde. Era um nacionalista católico e integracionista, pai de uma numerosa família, conhecido pela sua honorabilidade e humanidade nas relações com as populações. O alegado excesso de zelo com que sempre defendera e promovera as gentes do ultramar chegara-lhe até a valer, nalguns sectores mais apoplécticos, o epíteto de "governador dos pretos". Silvino Marques estivera primeiro para ir para Moçambique, mas, por oposição de Almeida Santos e do grupo de Democratas de Moçambique que queriam um homem seu para o cargo, acabou por ir para Angola. O que dava mais algum espaço à minha esperança.

(...) Em poucos dias estava em acção: visitei as pessoas a quem ia recomendado - o João Raposo Magalhães, o Carlos Eugénio Paço d'Arcos, o Comandante Carlos Almeida Pinheiro. Enquanto aguardava destino, ia até ao Palácio do Governo na Cidade Alta, onde estava o Nuno Cardoso da Silva. Havia grande tensão em Luanda, formavam-se grupos e grupúsculos, com o MPLA a actuar através da LNA - Liga Nacional Africana. Mas no resto a vida seguia igual, com a força de uma cidade com grandes carros, bons restaurantes, bons hotéis - o Trópico, o Continental - mulheres bonitas e a praia na ponta da ilha, na Barracuda. Uma cidade muito portuguesa onde parecia não ter chegado o 25 de Abril - ou eu, que vinha da Metrópole, assim o entendi.


Barcos ancorados na então chamada Praia da Câmara em Lourenço Marques, no segundo decénio do século XX. Ao fundo vê-se o Paiol e à sua esquerda o edifício da então Câmara Municipal.
Vista da Praça Mouzinho de Albuquerque, em Lourenço Marques (1960).

A 24 de Julho

A fachada do edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques (1960).

A escadaria em frente da Câmara Municipal

Vista da Câmara Municipal de Lourenço Marques (1969).

Vista da Praça Mouzinho de Albuquerque em Lourenço Marques (1960).

A estátua equestre de Mouzinho de Albuquerque que existiu entre 1930 e 1975.

Vista de longe da então Praça Mouzinho de Albuquerque - hoje Praça da Independência (10 de Junho de 1973). Na cidade realizava-se uma parada militar. No ar, quatro helicópteros Alouette voando em formação.

O desmantelamento da estátua equestre de Mouzinho de Albuquerque no primeiro semestre de 1975. Foi substituída por uma estátua de Samora Machel.



A cidade era, como todas as cidades de África, duas cidades. A cidade do asfalto, onde viviam os brancos, os mestiços e os negros das classes médias; e os muceques, os bairros negros da periferia. Embora a separação não fosse rígida (tal como havia negros assimilados a viver no asfalto, também havia famílias brancas de menores recursos a viver nos muceques), notavam-se diferenças. Mas ainda assim, o clima inter-racial em Angola era diferente e mais relaxado do que o de Moçambique. Havia, em Luanda, engraxadores e criados de mesa brancos, coisa que não se via na outra costa, muito influenciada pela África do Sul e pela tradição britânica.

Enquanto corria na Metrópole o Verão morno de 74, Silvino Silvério Marques procurava fazer qualquer coisa a partir do Palácio. Era vigiado de perto e muito controlado pelos MFAs - chefiados pelo Pezarat Correia, que tinha estado como comandante dos catangueses e era o homem do MFA em Angola. Mas Pezarat vivia isolado da grande maioria da oficialidade e sob desconfiança dos civis.

Entretanto, recomeçara a minha guerra. Andava a conspirar desde o 25 de Abril, e fazê-lo agora ali, naquela Luanda onde não se fazia outra coisa, era estar como os peixes na água de Mao Tse-Tung. A diferença em relação a Lisboa era que ali já não era a feijões, ali morria-se.

A violência em Luanda, que fora tremenda entre Fevereiro e Abril de 1961, ressuscitara com o 25 de Abril. A agitação, muito contida pela DGS e pela sua rede de informadores, renascia em força e começava a ter reflexos raciais.

Quando, no dia 11 de Julho, foi esfaqueado um taxista no muceque do Marçal, os taxistas de Luanda, que eram uma corporação forte e exclusivamente branca, uniram-se para exercer represálias e partiram para os bairros periféricos em expedição punitiva. Com mortos e feridos.

Na sequência da investida dos taxistas, foi convocada por passa-palavra uma grande manifestação dos soldados negros da guarnição de Luanda, organizada, entre outros, pelo então aspirante Joaquim David (mais tarde Presidente da Sonangol, ministro da Indústria e uma das figuras políticas importantes de Angola). Fardados, desarmados, silenciosos, os soldados marcharam sobre a Fortaleza de S. Miguel, a sede do Comando-Chefe. Eu estava lá nessa manhã. Era impressionante a enorme espiral de muitas centenas, senão milhares, de homens, subindo o caminho de acesso ao forte, vindos da cidade e da ilha, sem tumulto, naquela ameaça muda da disciplinada indisciplina. Quando as primeiras filas chegaram, pôs-se a questão: abria-se-lhes as portas ou chamava-se a tropa de intervenção? Predominou a ideia de deixar entrar uma representação.

Mas entre os soldados e graduados brancos continuava a discussão. Perante a prevalência da linha conciliatória, a que defendia a entrada da delegação, disse-me um sargento: "Oh meu Alferes, deixe lá esses bimbos! Eu armo a minha secção e vou lá para cima! Não confio nestes gajos!". E foi mesmo. Eu fiquei.

Ganhou o modo dialogante. Uma representação dos manifestantes acabou por entrar e ficou a discutir com os oficiais, MFAs incluídos. E lá se chegou a uma solução, com garantias dos manifestantes de que dispersariam ordeiramente, e dos responsáveis militares de que não se repetiriam actos de violência de civis armados contra os muceques.

No dia seguinte, uma representação da Liga Nacional Africana (uma espécie de organização cultural frentista muito influenciada pelo MPLA) avançou para o Palácio do Governo em manifestação ruidosa. O General Silvério Marques recebeu-os como o fazia a toda a gente.

Com os dirigentes da Liga entrou, como se fosse um séquito, uma multidão de dezenas de militantes exaltados, hostis, gritando muito, embora contidos. Enquanto o general recebia os dirigentes, nós - eu, o Cardoso da Silva, o Dr. Pinheiro da Silva, que era membro do Governo, e os ajudantes - ficámos a discutir com eles na sala dos secretários, como num comício ou plenário. Alguns dos LNA eram bem preparados e até com sentido de humor. Como um que, quando Pinheiro da Silva disse que até o tinham ameaçado de morte, retorquiu: "Oh, Doutor Pinheiro da Silva, isso deve ter sido lá em Viana do Castelo!", aludindo a Pinheiro da Silva ter sido deputado por Viana, no tempo de Salazar.

Palácio do Governo (Luanda).

Silvino Silvério Marques foi sempre um homem de coragem - as portas do Palácio estavam e continuavam abertas e sem segurança especial. Tinha um jeito de ser tranquilo, aberto, muito nos antípodas dos tradicionais altos funcionários do regime - emproados, quando não arrogantes. Mas faltava-lhe o lado maquiavélico, o dark side ou o que se quiser chamar-lhe, aquela astúcia das serpentes, essencial para sobreviver e triunfar num período como o pós 25 de Abril, com um processo revolucionário em curso e em pleno centro do vendaval, numa Angola tão cobiçada, onde se teciam guerras e intrigas. No seguimento das represálias dos taxistas, da manifestação dos militares negros e da ida dos delegados da LNA ao Palácio, o MFA, de conluio com elementos esquerdistas de Luanda, fizera a cama ao Governador e preparava-lhe agora a queda.

Para tirar definitivamente o general do caminho, os dirigentes da LNA decidiram ir a Lisboa apresentar queixa de Silvério Marques. E dirigiram-se ao Banco Pinto & Sottomayor para levantar o dinheiro das passagens. O João (Jana) Raposo Magalhães, que era o Administrador-Delegado do Banco, telefonou-me a prevenir-me da jogada e disse-me: "Diz ao General que se for preciso eu demoro os tipos, não lhes dou já o dinheiro". Fui ter com o general e transmiti-lhe a mensagem. E ele: "Não, o Jana que lhes dê o dinheiro, que vão à vontade...".

E foram. Uma semana depois, estava Silvério Marques a ser chamado a Lisboa, por Spínola e pela Junta de Salvação Nacional - "para consultas".

(...) Assisti ao episódio: na casa de jantar de todos os dias do Palácio estávamos o Governador, a D. Marcelle, sua mulher, o Vasco Silvério Marques, seu filho e ajudante, o ten.coronel Mariz Fernandes, o Nuno Cardoso da Silva, eu e a Zezinha, que entretanto tinha vindo ter comigo a Luanda.

Quase no fim do jantar, um criado entrou para dizer ao Governador que tinha uma chamada de Lisboa, do Presidente da República. O general disse que atendia mesmo ali ao lado e que lhe passasse para lá a chamada. E assim foi.

Seguiu-se uma conversa tensa - de que nós íamos ouvindo parte e concluindo o resto. A meio, caiu a ligação e o general insistia com a menina da rede para repor a chamada: "Minha Senhora, esta chamada é muito importante!" E a menina da rede, do lado de lá: "É histórica, Senhor Governador, é histórica!".

Quando o general terminou a conversa, disse para a Mulher num tom ligeiramente emocionado: "Celinha, faz as malas!" Resposta: "Nunca as desfiz, Silvino!".

Seguiu-se uma discussão cerrada à volta da mesa, discussão muito pouco hierárquica, em que todos falávamos ao mesmo tempo, dizendo ao general que não podia nem devia ir a Lisboa, que se fosse não voltaria e que, com a sua saída, se acabava a hipótese de fazer qualquer coisa a partir de Angola, por Angola e por Portugal.

Partiu no dia seguinte. Pouco depois, a 27 de Julho, era o discurso de Spínola oficializando o fim do Império Português. Nessa noite, em Luanda, enquanto afogava a tristeza a beber qualquer coisa, veio-me à memória a frase de um fuzileiro de partida para uma operação: "Oh meu alferes, acha que vale a pena ir combater os turras pró mato se eles já estão no Governo em Lisboa?"

Esperava-se Rosa Coutinho, o novo Alto-Comissário, uma espécie de Yul Brynner com cara de mau e riso sardónico que ficaria conhecido como o almirante vermelho.




Yul Brynner


Na véspera da chegada do almirante, jantámos pela última vez na salinha do Palácio. Estávamos sós, os mais novos - o Vasco Silvério Marques, o Nuno, a Zezinha e eu. Reinava uma grande tristeza pela partida do general e pela chegada do tenebroso Rosa Coutinho, figura a todos os títulos sinistra, e sobretudo pelo caminho irreversível para o fim desse Portugal grande, imperial, das Descobertas, que era o nosso.

Foi um jantar melancólico - mas divertido. No fundo éramos uns miúdos, genuinamente tristes com o andamento que as coisas estavam a levar, conscientes da gravidade do momento, com a perfeita noção do que estava em jogo, mas incapazes de resistir ao lado lúdico das coisas, continuando sempre a reinventar esperanças nos destroços, cheios daquela excitação de estarmos a viver a história em primeira-mão. E porque essa era também a nossa maneira de continuarmos vivos e actuantes, acabámos a recordar amigos comuns e a efabular planos de contingência. Uns mais delirantes que outros, como o de precipitar o fim do Alto-Comissário armadilhando-lhe, logo ali, a cama.

Quando saímos com o Cardoso da Silva, a caminho do hotel D. João II, olhámos como se fosse a última vez, a fachada iluminada do Palácio. E seguimos na noite estrelada de Luanda, no cacimbo, cruzando as luzes da cidade indiferente e vazia, a caminho do Largo do Quinaxixe.

Com a partida de Silvério Marques e a chegada de Rosa Coutinho a situação agravou-se muito em todos os sectores. O Almirante Vermelho, que logo se fizera rodear de uma segurança nunca vista e que assustara os locais com a sua fama de comunista, mostrava-se frio e eficaz no prosseguimento dos seus objectivos. Achei que era tempo de passar a formas superiores de luta».

Jaime Nogueira Pinto («Jogos Africanos»).



«Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos...».

Carta de Rosa Coutinho dirigida a Agostinho Neto


Ver aqui



Fuga de portugueses da cidade angolana de Gabela em 1975.

Refugiados abandonam Angola (Janeiro e Setembro de 1975).









«No Verão de 1975, Angola lembrava um desses mundos de utopia negativa, uma antestreia em cenário real do Mad Max ou de outras ficções pós-catástrofe dos anos 80. O êxodo dos portugueses, a saída da tropa e da polícia, a chegada fragmentada dos movimentos armados com militares recrutados à pressão, adolescentes em farrapos fardados e armados ao calhas, rapidamente transformara a paisagem humana e a própria paisagem física das cidades.

As estradas asfaltadas, antes rapidíssimas vias de comunicação cheias de tráfego de camiões e ligeiros, estavam agora, não só a deteriorar-se por falta de manutenção, mas cortadas, aqui e ali, por barreiras e controlos. Para tal tudo servia: bidões de gasolina vazios, árvores, peças de mobiliário e as habituais tábuas de pregos. Os raríssimos viajantes - que não fossem dos movimentos -, ao chegar a estas barreiras, tinham que ter um único cuidado, mas um cuidado que lhes seria literalmente vital: ao dirigirem-se aos controladores armados, deveriam fazê-lo de modo correcto - "Camaradas" se fossem do MPLA, "Irmãos" ou "Maninhos" se fossem da FNLA ou da UNITA. Qualquer engano - aqui como noutras situações de guerra civil - seria eventualmente fatal, acabando o equivocado por ser despachado pelos homens das barreiras.

(...) A partir de [Julho] o movimento de Neto dominava a futura capital. Uma força portuguesa residual permanecia ainda ali com o COPLAD [Comando Operacional de Luanda], registando-se alguns incidentes entre estas e as FAPLA [Forças Armadas para a Libertação de Angola]. O caso mais importante foi o da Vila Alice. Um sargento do exército português foi gravemente ferido por elementos de um controlo do MPLA. O movimento recusou-se a entregar os culpados. O comando português decidiu que ou os culpados eram entregues ou haveria represálias imediatas. Deixar impune o acto era um perigoso precedente, com muitos soldados ainda por embarcar. Como o MPLA não entregou o culpado ou os culpados, a Vila Alice, onde se encontrava o comando militar do MPLA, foi investida por forças dos Comandos e de um agrupamento blindado, chefiados pelos tenentes-coronéis Almendra e Moreira Dias. Estas forças causaram vários mortos e feridos entre as FAPLA. O MPLA, curiosamente, não reagiu. Era claro que percebia as culpas próprias no caso e que não queria uma nova frente de conflito.

Por essa altura, intensificou-se o êxodo dos portugueses de Angola. Entre Setembro e Outubro de 1975, embarcaram dos aeroportos de Luanda e Nova Lisboa para a Metrópole cerca de 85 000 pessoas. Entre o 25 de Abril de 74 e o 11 de Novembro de 75, saíram para Portugal, por via aérea ou marítima, cerca de 300 000 pessoas e umas 17 000 viaturas. E há ainda que somar-lhes os 10 000 portugueses do Sul de Angola que seguiram para o Sudoeste Africano em colunas automóveis. E a esquadra de 25 traineiras que zarpou rumo a Walvis Bay, com famílias inteiras de pescadores (mais de 500 pessoas).

No fim deste êxodo, Luanda, a cidade do asfalto, era uma cidade fantasma, uma espécie de grande metrópole no fim do Verão, desertificada pelos seus habitantes. Com o fim do cacimbo e a chegada das chuvas e do calor vinha uma outra doença de morte para a cidade: os serviços públicos tinham acabado. Não havia polícia, nem lixeiros, nem bombeiros, e as imundícies acumulavam-se junto dos prédios e das vivendas abandonadas pelos habitantes da cidade "branca". Nas ruas ficaram muitas viaturas, restos de caixotes, salvados, memórias. E grandes bandos de cães de raça, abandonados pelos donos, vagueando pela cidade procurando comida junto dos hotéis também sem clientes. Sobreviveram enquanto a tropa portuguesa os alimentou com os seus restos. Depois, um dia, sumiram também.

As faltas de luz e água tornavam-se a regra. A cidade fantasma e os seus senhores preparavam-se para proclamar, em 11 de Novembro, a independência. Apesar de quase sem força militar no 24 de Abril, o MPLA, graças à "solidariedade internacionalista", recebera rapidamente muito material de guerra desembarcado pelos soviéticos e seus aliados: blindados ligeiros, as BM-21, os lança-foguetes de 122 mm, popularmente conhecidos por "orgãos de Estaline", e outras armas pesadas e convencionais. Este material desembarcou em Porto Amboim, ou entrou a partir do Congo-Brazaville (Ponta Negra) e seguiu para Luanda. E no final chegaria em força ao próprio aeroporto de Luanda, perante a indiferença da tropa portuguesa: "Não queriam saber, diziam que não era nada com eles, que não tinham nada a ver, que era a descolonização total!", conta o general Ndalu, na altura um dos comandantes militares das FAPLAs. E chegavam também os conselheiros e militares regulares cubanos. Desde Março que os primeiros tinham aparecido ali como civis. Mais tarde tinham-se fixado em Henrique de Carvalho, nas Lundas, na base aérea. E no Verão chegavam às centenas. Seriam 2000 nas vésperas do ataque.


A direcção do MPLA, agora em força na capital, calculara bem a sua estratégia: conquistar a capital antes da independência, constituindo ali o seu feudo forte, fazendo-se valer do apoio popular nos bairros periféricos. O MPLA concentra ali a logística, contando com reforços exteriores dos países amigos - URSS, países do Leste e Cuba.

"Foi uma política deliberada, não foi ao calhas". Confirma Ndalu. "Em todos os países do terceiro mundo, quem toma conta da capital é que conta. E nós tínhamos muitas pessoas das cidades antigas e então éramos menos étnicos, mais cosmopolitas e naturalmente atraíamos as pessoas da cidade. Ao princípio ainda estávamos a ver o que ia acontecer, mas quando começaram os confrontos, aquilo não era bem afastar os outros movimentos de Luanda, era derrotá-los mesmo. Na zona do Palácio ninguém tocava, ainda estavam lá os portugueses. Mas mesmo as casas da cidade ficaram quase todas fechadas, todas como estavam, não houve saque. Como os automóveis, abandonados nas ruas. Alvalade não se ocupava, que ia ser para as Embaixadas, e as outras casas, casas grandes daquelas, para nós, naquela modéstia, eram uma oversose".

(...) O João Ferreira da Fonseca, que trabalhava com o Miguel Quina e que acompanhava as andanças de Holden pelo Norte nas vésperas do ataque a Luanda, assistiu à proclamação da independência feita pela FNLA na então cidade de Carmona, hoje Uíge.

Com a praça cheia de povo, a cerimónia, presidida por Daniel Chipenda, começou com um discurso moderado e simpático para os portugueses e à meia-noite lá se arriou a bandeira nacional. Na falta de uma autoridade portuguesa para receber a bandeira, esta foi dobrada com muito cuidado e alguém sugeriu que se mandasse pelo correio. Entretanto, os ânimos e os espíritos foram aquecendo e a dada altura o João Ferreira da Fonseca vê um importante dirigente da FNLA atirar para o chão a bandeira portuguesa - a tal dobrada com todo o respeito - e começar a dançar em cima dela. Eis senão quando vem de lá o Chipenda, enfia um murro no líder-dançante e recolhe outra vez a bandeira com a maior reverência.

Incomodado com o ritmo dos acontecimentos, o João decide abandonar o palanque e deslocar-se até à varanda da Câmara Municipal onde se encontravam as personalidades mais selectas da assistência. Chegado à varanda, uma jovem dirigente, mesmo ao seu lado, desata a gritar "morras" a Portugal, aos colonialistas portugueses e aos brancos, mas, reparando na cor e no aspecto do vizinho do lado, interrompe momentaneamente os berros furiosos e as palavras de ordem exaltadas com um "o Senhor não leve a mal que não é nada consigo!". Mais incomodado, o João Ferreira da Fonseca volta para a praça... onde é abordado por uma velha que irrompe intempestivamente do meio de um grupo e lhe grita: "Não se vá embora, Senhor! Os portugueses não podem deixar-nos!" E voltada para o grupo de patrícios mais ou menos indiferentes de onde irrompera, a dita velha passa então a explicar-lhes que sem os brancos caminhariam todos rapidamente para a desgraça...».

Jaime Nogueira Pinto («Jogos Africanos»).


«Revejo o meu País, o que dele resta e o que encontro? Uma tremendíssima falta de respeito para com o Povo, em nome do qual se cometem os maiores dislates. O povo tão falado, tão evocado, mas tão humilhado.

Que se me depara a cada passo? À minha frente uma cambada. Nas minhas costas outra cambada. De ambos os lados mais outra cambada, ainda.

(...) Quem pôs o País em ruínas a partir do 25 de Abril? Quem nos arrasou, criou e cria um clima constante de intranquilidade? Quem desestabiliza? Quem todos os dias faz comícios, "festas", gritaria demagógica?






(...) Culpa têm os governos que nos têm desgovernado e que têm passado a vida a apontar o papão do fascismo. Já cansa.

O fascismo é nosso inimigo? Evidentemente. Não pretendemos, não desejamos e não devemos consentir que volte a instalar-se no nosso País? Evidentemente. Temos que nos unir para enfrentar os seus perigos? Evidentemente. MAS MÁRIO, O PERIGO NÃO É SÓ ESSE!

Para dizer a verdade, a minha verdade, o perigo contra o qual temos de nos unir e lutar é o perigo Cunhalista. O perigo que nos ameaçou implacavelmente em 1975. Ter-te-ás, Mário, esquecido?

É lá possível esquecer as maquinações do Cunhal, e dos seus lacaios, o Pato, o Carlos de Brito, o Vital Moreira, o Vítor Louro (de Sá)? E da cambada subalterna e solícita do PC, do Luso Soares, do João de Freitas Branco, do Miguel Rodrigues, do Urbano Tavares Rodrigues, do Artur Ramos, do Castrim, do Teixeira Ribeiro, do Rogério Paulo, do Sttau Monteiro que já desmascarei nos "Revolucionários que eu conheci"? E o traste do Luís Filipe Costa? E a sinistra Alcina Bastos? E o sacripanta do Lopes Cardoso? E o ignóbil Mário Ruivo? E o abominável Pedro Ramos de Almeida? E o mentecapto do Pereira de Moura? E o canalha do Mário Murteira? E o António Vitorino de Almeida - o "Manolo" de Viena de Áustria?

Mário Soares, eles vêm aí! Eles estão em escalada. Eles estão em todas as greves. Eles estão em todos os boicotes. Eles estão em toda a parte.

Posso perder amigos, posso perder empregos, posso inclusivamente perder a vida. Mas não sem ter tentado, a todo o preço, impedir que a Cambada se instale.

Revejo o meu País. Pois não é verdade que o "gonçalvismo" - agora que o "Salazarismo" está demasiado longe para justificar a agudeza da crise - apesar de apontado pelo próprio PS como a principal fonte das nossas desgraças após o 25 de Abril, continua a ser permitido na prática? Pois não é verdade que o PS ao mesmo tempo que formula essas críticas, manteve, cultivou leis gonçalvistas e sancionou e prorrogou decisões e intervenções do tempo de Gonçalves e seus capangas? Por outro lado, em particular nos meios empresarial e laboral, isto é evidente. Há ainda - e por quanto tempo? - "comissões administrativas", por exemplo, abusiva e ilegalmente impostas pelo companheiro Vasco a empresas que eram prósperas (e agora estão na ruína) e que continuam a ser renovadas mensalmente, numa real e escandalosa contradição. Critica-se a figura de Gonçalves, mas mantêm-se muitas das suas directivas, normas, leis e decisões. Critica-se a figura de Gonçalves, mas aceita-se e perpetua-se o gonçalvismo, com todas as suas consequências altamente lesivas da economia nacional e da harmonia laboral. Desvaloriza-se, por exemplo, o escudo para, entre outras coisas, "incentivar a exportação", mas acontece que para exportar é preciso produzir. E a produção está cada vez mais emperrada e sabotada por situações decretadas por Gonçalves e exigidas por Cunhal, a que o PS não pode ou não quis pôr cobro. Uma Cambada!

Melo Antunes (a sinistra figura)


Melo Antunes

(Mais outra ida à Judiciária...)

acaba a viagem a Cuba, vai à Roménia, segue para a Jugoslávia e volta a Angola. Apresenta as suas "ideias". Ideias? Reabilitar e proteger de novo o PC? Ou o paizinho?

Não é Pezarat (outra figura sinistra), que também vai à Hungria? Fazer o quê? Conquistar a promoção por "escolha" a brigadeiro? Toda essa escumalha vive à tripa forra, anda à solta e é paga por nós!

E Vítor Crespo, impune depois do que se soube sobre o caso "Angoche", continuando empunhando o copo que o celebrizou? Para quando o castigo? Para quando a justiça?

Uma Cambada!...

Revejo o meu País. Junho de 1978. Dia 13, dia fatídico. Fatídica notícia. Foi instaurada a pena de morte em Angola. Pena de morte que já existia, mas apenas para militares e que agora abrangerá também os civis. E aos civis estrangeiros que residam naquele "país", agora satélite da URSS e de Cuba.

Portugal que foi uma das primeiras nações a abolir a pena de morte, tem hoje um governo que se ufana das relações com um regime totalitário, escravo de Moscovo, que tem por símbolo a morte.

Portugal tem hoje um governo (é bom lembrar que os direitos humanos são também aqui atropelados) que, sabendo embora que o MPLA não representa senão uma minoria de fanáticos agentes comunistas, pretende legislar de modo a que a resistência à tirania em Angola seja por todos os modos impedida no nosso país.

O "enxofrável" Antunes foi a Luanda.

(Podem julgar-me cem vezes, que nunca o chamarei de outra forma)

e como resultado trouxe-nos - rica prenda - o seu amigo Costa Martins!

Mas não trouxe mais nenhum prisioneiro. Qual o futuro que espera os outros portugueses que jazem nas masmorras angolanas? Irão eles ser vítimas da pena de morte que Neto acaba de proclamar?

Que diligências já fez o Governo de Lisboa para obter a liberdade desses novos compatriotas? Como foi possível aceitar (e com que alegria!...) a nomeação de um embaixador do MPLA em Portugal, sem que, ao menos, esse gravíssimo problema fosse resolvido?

A pena de morte vai ser, pois, aplicada "legalmente" em Angola. E o governo que temos não só recebe de braços abertos o embaixador de Neto, como vai tentar proibir que os portugueses contactem (ou ajudem) com os angolanos que não se submetem à ilegítima tirania russo-cubana.

Impunidade absoluta. A Cambada continua à solta - o Costa Gomes, o Vasco Gonçalves. O Rosa Coutinho, o Melo Antunes, o Corvacho, o Costa Martins, o Diniz de Almeida, o Fabião, o Durant Clemente, o Judas, o Almada Contreiras, o Arnão Metelo, o Correia Jesuíno, o Montez, o Paulino, o Fernandes (das G3), os torcionários da Polícia Militar, os energúmenos da 5.ª Divisão, os "gajos porreiros" do Ralis...




(...) Revejo o meu País. Aparecem todos nas recepções das embaixadas. E quem vai a essas recepções? Ora todos os de antigamente e os de agora. Isso mesmo. A nova burguesia toda de vestido comprido. Todos se odeiam e se cumprimentam ternamente. Alguns mesmo aos beijinhos...

Plumas, senhoras que foram pegas e agora são intelectuais (está muito na moda ser-se intelectual e toda a gente escreve um livro contando o seu passado anti-fascista).

(...) E na despedida de Carlucci? Caíram lá todos! Toda a Cambada! Come-se bem na Embaixada, pois não há razão nenhuma para estarem em "austeridade", como certas embaixadas estiveram o ano passado.

(...) Eles aparecem em toda a parte. Quantas e quantas vezes tenho deparado até com o "capachinho vermelho" Carlos do Carmo, ao lado do Ary e do novel progressista Paulo de Carvalho, cada vez mais marrequinho (nem o PC o endireitou, caramba!). Comem desvairadamente. O que admira, pois têm comido muito, sempre. Mesmo durante a "longa noite fascista". O Zé Viana também faz parte da Cambada.

E a Sophia de Mello Breyner Andersen de Sousa Tavares (o seu a seu dono) ela tem estes nomes todos. Tareco não usa (oh, diabo!) porque é só do marido.

Sousa Tavares falta. Sousa Tavares rola, rola, rola, rola...

Sousa Tavares nunca está onde está a oposição!

No verão quente de 75, onde estava o Tareco?

Em Madrid, a beber copos, fazendo várias "revoluções" na capital espanhola... Alguém o viu em manifestações contra o Gonçalvismo? Quando o camarada Vasco estava no Poder, alguém viu o Tareco no Norte, onde o "possível" explodir da guerra civil estava latente em cada esquina?

Mas onde estava o Tareco, logo após a invasão da Índia em 1961? Na rua, à frente duma manifestação, chorando a perda de Goa, Damão e Diu. A manifestação era a favor das teses do governo: manter as colónias.

Sousa Tavares está sempre onde está o governo.
Sousa Tavares filho

Vera Lagoa

E a Gulbenkian? O sub-mundo incrível e infecto dos concertos, das exposições, das recepções? É o mesmo. Precisamente o mesmo. Cai lá toda a Cambada. O casal Perdigão sempre a esperar todos os presidentes. É uma das suas especialidades. Tal como no tempo do Thomás, as mesmas curvaturas, os mesmos Beija-mãos, os mesmos "vosselências".

(...) E também o Joaquim Letria, com a sua irresistível vocação de PIDE (tem estado desde o 25 de Abril com todas e todos - mas, até quando?), o vómito do Jacinto Baptista, o nauseabundo do Baptista Bastos (a sua vocação são as retretes, desde as do Ribadouro na noite em que regressava do Porto Humberto Delgado) e tantos e tantos outros!...

(...) Revejo o meu País. No que nos reduziu o PC. Ao que nos reduziu também o PS. Sim, o PS! O PS donde obviamente saí a tempo e horas. Ao contrário da frase cuspida por Mário Soares (aquele que não sabe perder), em Catalazete: "Quem deve governar o País é o PS".

(Citada pelo "Diário" amigo dele Mário)

É justamente o PS quem não deve governar o País. Porque já demonstrou largamente a sua incapacidade para o fazer. Lançando-nos na miséria, deixando reinar o compadrio de Argel, com a cumplicidade do PC.

Quem se poderá esquecer do coio de mentirosos, de imbecis, de oportunistas, de vendidos e delinquentes do PS que deixaram este pobre País em pantanas? E, ainda têm o descaramento de falar em "pesada herança". Quem se poderá esquecer do celerado Almeida Santos, o advogado dos grandes monopolistas de Moçambique, o responsável pela trama jurídica da desgraça da descolonização, o presumível passador de moeda para a Suiça antes da independência de Moçambique (isso não chega para o classificar de crápula?), a alma danada da intriga, da perfídia de todas as etapas do PREC? O tenebroso manobrador dos últimos conluios do PS para encostar Eanes à parede, com uma ardilosa interpretação do artigo 190.º da Constituição, na chamada crise do III Governo Constitucional ou, se quiserem, do IX Governo Provisório?

Quem poderá esquecer do caquético e prostático arranjista que dá pelo nome de António Macedo, o tal da "casa" no Porto, do café e das "viagens" a Angola e das "conversas" com o Agostinho Neto? E do tartufo do Campinos que nunca é carne nem peixe, antes pelo contrário? E, também do Zenha (custa-me, mas é verdade!) que dizia que não existiam presos políticos em Portugal, quando as nossas cadeias estavam ainda mais cheias do que as do Chile? E o pobre Raul Rego (também me custa, mas também é verdade) que, a pretexto de um anti-fascismo idiota fez aumentar o ódio e as divisões quando se impunha e se impõe a reconciliação e a pacificação de todos os portugueses? E do demagogo e ditador Manuel Alegre que só lhe resta ir-se embora - já! - para Argel? E da arteroesclorose itinerante do Tito de Morais que arrumou toda a família em bons empregos e também deverá arrumar - enquanto for tempo! - as malas para Argel?

E do vendedor da banha da cobra, do parlapatão de província Arnaud (que até levou o Torga à certa, mas nunca terá o nome nas páginas do 13.º volume do "Diário", com grande mágoa sua!) e que insiste em assoprar nos comícios de fim de semana gaitadas do S.N.S.? E do submarino vesgo Saias, que sabe tanto de Agricultura como eu sei de trânsito? E do intrujão do Marcelo Curto que até deixou crescer as barbas para fingir que é o Antero de Quental a dar ordens ao José Fontana? E do assexuado José Luís Nunes que não passa de um fala-barato, com tiques, ou de um idiota útil e que foi atirado para o julgamento no caso Delgado como uma cronista do Parque Mayer para ver se safa o bando de Argel?

Uma Cambada! Uma Cambada!... Uma Cambada que dava para uma enciclopédia ou para uma biblioteca, quanto mais para um livro...

Revejo o meu País. Quem não deve governar o País é o PS.

O povo não se deixou enganar mas o certo é que essa "maioria de esquerda" esteve sempre em exercício (embora por vezes veladamente) e, por fim, até com a cobertura imbecil e oportunista das cúpulas do CDS. Não me refiro evidentemente à grande maioria dos militantes e aderentes deste partido, que foi gente que sofreu na carne e na alma a tragédia de Abril e agora está lançada na maior perplexidade.




O facto de o PS e o PC (ainda bem que mostraram o jogo) se recusarem a colaborar no governo orientado por Nobre Costa, é a prova do conluio que vem de longe e cujo objectivo é tornarem impossível a governação patriótica e independente que ponha o interesse nacional acima dos partidos. Acima dos partidos e, em especial, acima dessa autopropagandeada "maioria de esquerda". Os interesses da nação não são, com efeito, os seus interesses. Pretendem o poder não para salvar o país (pois destruíram-no e venderam-no), mas para satisfazer longas e antiquíssimas ambições pessoais e de grupo. Não têm o sentido de Pátria, bem pelo contrário: a Pátria foi por eles traída, esquartejada, vendida. Vendida às internacionais comunistas e capitalistas».

Vera Lagoa («A CAMBADA»).


«Vale a pena referir a visita de Mobutu, Presidente do então Zaire - agora República Democrática do Congo. Os serviços da Diamang foram solicitados para tão solene acontecimento. Mas desta vez o convidado trazia consigo coisas surpreendentes. Com ele, de avião, veio uma série de macacos congelados para serem cozinhados. A iguaria não era conhecida entre o nosso pessoal, por isso, com os macacos, vieram também os respectivos cozinheiros. A carne cozinhada não se distinguia muito, no aspecto, de uma carne de borrego, mas a sua apresentação deixou muitos presos ao espanto. Em cada travessa vinha uma cabeça de macaco inteira, tal como aquela que conhecemos dos macacos em vida, separada do resto da comida por um pano branco. Esse jantar, junto à piscina do Palácio Presidencial, ficou na memória de todos.

No curso das minhas actividades de gestão, fui acumulando conhecimentos sobre a jovem Angola no dealbar da independência. Por vezes, foi-me dada a possibilidade de estabelecer alguns contactos privilegiados. Recordo, por exemplo, que acolhemos no palácio da administração da Diamang o Embaixador cubano, que gostava de ali passar alguns dias. Com ele vinha uma comitiva de oficiais cubanos, bem como outros militares equipados com câmaras de filmar - havia já o interesse claro de registar o real valor dos equipamentos e bens daquela empresa. Tirando a missão de espionagem, esta era até uma ocasião interessante, pois permitia perceber o estado de espírito dos oficiais cubanos.

Lembro, em particular, o general cubano Ochoa, comandante supremo das forças cubanas, sempre interessado em conhecer os diversos equipamentos da empresa - mas, também, as queixas dos seus militares ali destacados da sua pátria, apesar das compensações económicas. Os momentos passados com esta alta patente cubana eram, por vezes, preenchidos de humor. Como quando me falou do acidente em que um militar teria morto um tal "burro com cornos" - tratava-se do animal a que os angolanos davam o nome de "boi-cavalo", ou quando se lançou a uma merenda de croquetes pensando estar perante chocolates. Fiquei chocado quando, poucos anos depois, soube da prisão e condenação, e imediato fuzilamento, em Cuba.

General Ocho e Fidel Castro (1972).

(...) Sambala (Manuel Sebastião Silva) tinha sido um dos responsáveis pelo Departamento de Investigações de Segurança. Mas, agora, estava ali junto de nós, em São Paulo... nem o França, seu irmão e elemento da DISA [Departamento de Informação e Segurança de Angola], lhe pôde valer, nem o facto de ser ainda parente de Neto desmobilizou a violência que sobre ele se abateu.

Estávamos no dia 17 de Junho de 1977. Era mais um daqueles dias em que a exibição de violência nos vinha alimentar de medo e recordar que o caminho para a execução estava permanentemente desimpedido. Sambala vinha das bandas do posto de socorros - acompanhava-o o Miranda e uma escolta de Akas -, descalço, as mãos manietadas atrás das costas, o tronco nu expondo uma outra nudez, a das feridas que lhe cobrem de sangue o corpo (algumas parecem ter sido feitas com golpes de faca, talvez aquela espécie de sabre que o chefe da guarnição militar de São Paulo, o tenente Miranda, empunhava). Foi uma via de horror aquela até à Automotora, onde depositaram aquele corpo quase abandonado, de mãos atadas, durante cinco dias, comendo de um prato que lhe colocavam no chão como se de um animal se tratasse.

Sambala terá sido preso algures, naquela primeira quinzena de Junho de 1977. Quando entrou em São Paulo, contava-nos o americano Marcelo Grillo, que tinha estado ao serviço da FNLA, trazia já as chagas que denunciavam um primeiro acolhimento de choque num outro qualquer departamento de tortura. Mas ali, em São Paulo, esperava-o a humilhação e o sofrimento desmedidos. Aqueles cinco dias foram a antecâmara da morte que viria a conhecer. Viemos a saber que foi queimado vivo, com as chamas de um maçarico. A notícia invadiu as celas de incredulidade e repugnância... apesar da experiência permanente da violência de assassínio, a DISA conseguia, ainda, surpreender-nos.

(...) Cabinda tinha a infelicidade de conhecer também o major Margoso; havia pertencido à UPA [União das Populações de Angola] de Holden Roberto e, agora, membro do Conselho da Revolução do MPLA, era a principal chefia militar em Cabinda. Os cabindas não abandonavam a memória daqueles cerca de quarenta militares, que tinham pertencido à FNLA, assassinados barbaramente sob as ordens de Margoso, com a cooperação "executiva" de um outro oficial, Mar Vermelho. Depois de amarrados com as mãos atrás das costas foram distribuídos pelo pavimento da estrada. Em seguida, o próprio Mar Vermelho os cilindrou até à morte com um jipão num espectáculo de horror desmedido.

Este militar era um dos delfins de Agostinho Neto, e essa condição explicava a sua presença em Cabinda, terra do petróleo - aí era necessário alguém da sua total confiança.

(...) O MPLA implementou uma intensa acção de "limpeza" de todos os afectos à UNITA e à FNLA, na Huila. O são-tomense Lourenço de Vasconcelos foi, a este respeito, muito explícito: recebeu uma ordem por escrito, na Vila Alice, na sede do MPLA em Luanda, que anunciava o iminente extermínio. À boleia da retórica da reconstrução nacional, depois da independência, estas investidas tornaram-se um caminho curto para a ditadura do partido único.

O impacto desta maquinação do MPLA no Lubango foi tal que o próprio Comissário Provincial se viu obrigado a pedir contas aos agentes de tal barbárie. Entretanto, é descoberto o segredo, mal disfarçado, da Tundavala - um precipício de cerca de dois mil metros, na Serra da Leba, onde tinham sido despejados cadáveres aos montes, no contexto de processos de "limpeza política". Em São Paulo soube da permanência na cadeia de elementos de um tal "Grupo de Acção Talahady" do Lubango que terá tido um papel preponderante neste circuito de terror. O nome de Lourenço Vasconcelos surgia também, com frequência, associado a esta chacina. Só numa visita àquela falha geológica - outrora de interesse turístico - foram encontrados cinquenta cadáveres (entre eles, um português). Mas era muito difícil, dadas as condições topográficas, chegar perto do número de corpos que ali terão sido lançados.

Fenda da Tundavala



A indignação generaliza-se e Agostinho Neto vê-se impelido a deslocar-se ao Lubango em missão de apaziguamento - demite os directores da operação, bodes expiatórios de uma missão sempre sancionada por ele próprio. Aliás, o Camarada Presidente sabia que tudo continuava sob o seu controlo, pois ali permaneceu Quiosa, que passou a orientar as acções da DISA segundo um recorte mais cirúrgico, barbárie que se prolongou até Agosto de 1977, altura em que o mandaram para Moscovo para aperfeiçoar as suas metodologias nos alfobres do KGB (estes estágios nas fileiras do KGB eram fundamentais para que os mecanismos de controlo se aperfeiçoassem; em muitos casos, esta experiência revelava-se uma boa oportunidade para que as portas da ascensão política se escancarassem - constava que Nzage, Director da Segurança de Angola para o sector militar, se deslocava a Moscovo com alguma frequência para aperfeiçoar as estratégias de contra-espionagem militar, caminhos que o seu substituto, o comandante Kito, terá, também, calcorreado).

(...) Camacho tinha sido funcionário do campo de São Nicolau, mas agora estava em São Paulo gozando uma prisão preventiva que já durava há dois anos. Quando Kundi Payama veio a São Paulo, no dia 16 de Dezembro de 1979, dirigiu-se a este descendente de portugueses, que havia sido seu colaborador no Cunene, num tom claramente amistoso. Camacho tinha sido chefe do Departamento de Transportes daquela província e parecia ser mais uma vítima das operações de cosmética que o MPLA realizava frequentemente - foi o próprio Kundi Payama quem referiu que nada havia contra aquele preso. O seu percurso deu-lhe, no entanto, a qualidade de testemunha preciosa das consequências da política do MPLA nos anos que se seguiram à independência de Angola. Algumas das informações que aqui se noticiam passaram pelo crivo desta importante fonte.

As palavras de Camacho sobre o campo da Serra da Leba (Lubango) eram impressionantes. Situado a uns setenta quilómetros do Lubango, numa antiga exploração de Venâncio Guimarães, este campo estava saturado de simpatizantes (ou suspeitos disso) da UNITA. A sua bandeira era a fome, aquela morte que devagarinho espreita e vai revestindo os corpos de fragilidade e horror.

Enquanto chefe dos serviços de transportes da província do Cunene, Camacho foi encarregado de levar presos para o campo de São Nicolau. Depois de lá chegar, disseram-lhe que não cabia mais um único preso para além dos muitos milhares que já lá estavam entregues à dureza do trabalho nas salinas sem a alimentação e a assistência médica adequadas.

Camacho conhecia bem o que se passava no Sul de Angola. Segundo o seu testemunho, no Lubango matava-se frequentemente com a finalidade de roubar. Em concreto, Camacho recorda aquele par de irmãos portugueses - eram conhecidos como os "irmãos Judas": o próprio chefe da polícia do Lubango, o Martinha, se encarregou de os mandar prender e conduzir ao precipício conhecido por Tundavala. Com a boca violentamente tapada, foram precipitados para a morte, porque o chefe da polícia se queria apoderar dos seus bens. Mais tarde, este Martinha foi preso. Mas, pouco tempo depois, era posto em liberdade. Ao que parece, matar para roubar portugueses não era grande coisa.

Camacho falou-me, também, de Oswaldo Neto (as suas notícias foram confirmadas pelo testemunho do Juca, ele próprio vítima da actividade de Oswaldo Neto). Tratava-se de um dos responsáveis máximos da DISA no Cunene, bem conhecido pelos seus métodos sanguinários. De entre o cardápio de violências refira-se a sua paixão por aquelas torturas e execuções em que usava uma viatura como instrumento de suplício. Atava as vítimas ao carro, pelas mãos, e arrastava-as até ao abismo da morte. Era conhecido pelas vítimas que fazia quando cobiçava a mulher ou a namorada de alguém.

A revolta das populações do Cunene contra este assassino tomou proporções perigosas. Resolveram prendê-lo. Veio para a Casa de Reclusão, mas foi sempre bem tratado. Não tinha passado muito tempo sobre a sua prisão quando o libertaram para exercer a sua actividade na DISA.


Malange (1971).

(...) Através do americano George Reginald Gause Jr. e do companheiro de cela, Vasconcelos, tive conhecimento do sucedido a algumas famílias alemãs com propriedades muito produtivas em Malange e no Cuanza-Sul, vítimas da violência disseminada pelo território - são relatos de destruição e ocupação (e de fuga, pois outra coisa não restava a estas famílias). Eram proprietários de empreendimentos que davam trabalho a muitos angolanos. Foram os próprios trabalhadores que avisaram os seus patrões acerca da iminente ocupação por parte de forças governamentais. Em alguns casos, só com o auxílio de religiosos missionários foi possível a estes cidadãos alemães regressarem ao seu país.

Em concreto recolhi notícia de uma fazenda de ananases, situada entre Lussusso e a Kibala, junto ao rio Luati, da baronesa Von Loen, senhora que conheceu o pior dos destinos - depois de lhe matarem os cães de guarda, arrombaram-lhe a casa e mataram-na à catanada sem que os seus trabalhadores pudessem evitar a tragédia. A exemplaridade da violência era uma mensagem para todos estes estrangeiros, sublinhando que não havia lugar para eles em Angola. Do mesmo modo tive notícia de uma fazenda de café, cujos proprietários, senhores de melhor sorte, conseguiram fugir para a Alemanha, antes de mais desgraças.

(...) As mulheres jovens eram particularmente visadas pela máquina de humilhação. Quando se preparavam interrogatórios, inspecções e torturas, apareciam todos, e sobre os seus corpos desnudados despejavam a mais torpe violência. A tortura tornava-se, neste caso, abuso sexual, uma vez que era frequente usarem objectos vários para penetrar as vaginas das jovens presas (recordo imediatamente uma delas, a portuguesa Dulce Helena Fonseca, que com desassombro cuspiu na cara dos agentes). Em São Paulo, alguns estavam sempre disponíveis para este espectáculo canalha: Talahadi, Limão, Nelo Ambrósio, Bonifácio, Kanhangulo, Silva, Cardoso, Brandão, Nelson (Pitoco), Kassua, Leopoldino, Ferro, Nhianga, Baião, capitão Carlos Jorge, N'Gunga, Nascimento Cadete e Domingos Cadete.

(...) Diga-se que as agressões da zona genital dos presos não se restringiam às mulheres. Zeferino Campos, também preso por ser simpatizante ou militante da OCA [Organização Comunista de Angola - maoísta], foi vítima de um golpe que o fez sofrer até aos limites do suportável: como noutros casos, amarraram-lhe um fio eléctrico aos testículos e puxaram várias vezes. Neste domínio, o tenente Nelo, que chegou a director de São Paulo, e o seu primo, o agente Lopes, pesavam na memória de muitos presos. Eram conhecidos por uma especialidade em concreto, a urológica. O mesmo é dizer que tinham um particular interesse em exercitar a violência sobre os testículos dos interrogados. E não se tratava apenas de golpes de pancadaria, porque o requinte exigia mais. Como já se sublinhou noutro lugar, era bem conhecida a táctica de queimar, com cigarros ou outros objectos, os testículos dos presos torturados. Os presos que eram vítimas destas agressões facilmente se reconheciam, pois tendo os testículos terrivelmente inchados eram obrigados a caminhar ou a sentar-se de forma notoriamente alterada. Quando apanhávamos sol, eles esticavam-se nos bancos de pedra que estavam fixos às paredes exteriores dos edifícios. Sempre que podia, eu fazia-lhes chegar medicamentos que os ajudassem a calar um pouco a sua dor. O Mendes de Carvalho, governador da Província de Luanda, passava muitas vezes por lá, mas apesar da sua formação na área não se dignava intervir nestes casos. Os presos comentavam: "Já lá vai o homem do chinó".

(...) Devo dizer que enfrentei sempre muitas dificuldades para contactar pessoalmente com as mulheres presas - as que identifiquei pertenciam à OCA, precisamente a força política que reunia algumas das sensibilidades mais críticas do MPLA. Estavam instaladas num complexo junto do Comando. Na prática, apenas podia observá-las quando vinham receber tratamentos ao posto de socorros. Só nessas alturas eu as podia ver passeando a sua magreza sob o escárnio da guarnição atenta.

Quando elas passavam pelo pátio, os agentes e militares lançavam comentários indecorosos exibindo o conhecimento que tinham da intimidade daqueles corpos femininos. Como já foi referido, durante os interrogatórios, os seus corpos eram completamente desnudados para assim ficarem disponíveis para a pancadaria e a humilhação. As suas vaginas eram frequentemente violadas por canos de armas e os corpos domados à cacetada.




Registem-se os nomes de algumas dessas mulheres (boa parte delas sob a acusação de pertencerem à OCA): a Nandy, da unidade militar de Luanda e irmã do Comandante Kissang (como estava grávida, deixaram que o fim do tempo chegasse para depois a conduzirem ao fuzilamento); a Dalila Fonseca, com quem falei pessoalmente e a quem vi os joelhos massacrados pela violência das agressões feitas com uma tábua (durante meses, só com muito sacrifício conseguiu andar); a Graça Vieira Lopes, jovem irmã do subdelegado de saúde do Moxico, morto depois do 27 de Maio, com mais algumas centenas de pessoas, como noutro momento deste livro se dá conta; a mulher de um militar, o Dédé, que tinha experimentado nua a humilhação de um interrogatório no Ministério da Defesa, humilhação que acabou mais cedo do que o previsto devido à intervenção de Carlos Macedo, indignado pelo facto de a tal submetida ser a mulher de um oficial (Carlos Macedo viria também ele a ser preso e a fazer-nos companhia em São Paulo).

A Dulce Fonseca, madrinha do agente Cadete, que tinha pertencido ao comité central da OCA. Num daqueles teatros de humilhação, não tendo já palavras para gritar a sua repulsa, cuspiu na cara daquele seu afilhado e no agente que o acompanhava, o Rasgado, naquela tortura insultuosa. O caso, entre as falas dos outros presos, deu-lhe ares de heroína; mas o corpo desta heroína continuava magro, com uma tuberculose pulmonar cada vez mais perigosa, habitado por muitos vestígios de violência. Em Portugal contava com a coragem determinada de um irmão que, em Coimbra, iniciou uma greve de fome para chamar a atenção para a situação de sua irmã. Depois de dois anos de cárcere, deram a Dulce Fonseca a liberdade, expulsando-a para Portugal.

Acrescente-se a estes nomes o de Dina, a secretária de Nito Alves - chegou a ser uma pessoa influente no MPLA antes de ser presa. Em 14 de Dezembro de 1979 estava encarcerada na Casa de Reclusão. Era acusada, com mais cinco mulheres, de ter participado no 27 de Maio. Doía-lhe o amiguismo e o compadrio reinantes no sistema: "Se eu fosse de Catete já tinha saído daqui há muito tempo. Mas como sou de Malange, ainda estou presa" - Catete era a terra natal de Agostinho Neto.

Contou ela ao Luís Lopes que, quando foi operada ao estômago, no Hospital Militar, se viu forçada a uma alta, oito dias passados, sem que a sua situação tivesse ultrapassado os perigos do período pós-operatório. Como o próprio Carlos Jorge lhe confessaria: "os médicos não mandam nada". Foi nesse estado de risco para a Kibala, onde se encontrava desterrada desde Fevereiro de 1979, e onde naquele estado continuou a ser forçada a trabalhar nas hortas deste campo prisional. O seu estado era tal que incomodava os próprios companheiros de desterro - tinha tecidos já necrosados. Esse alarme chegou a Luanda, mas só passado um mês a fizeram regressar ao hospital para remediar o mal causado. Depois de nova alta, despejaram-na na Casa de Reclusão.

Entre as mulheres contavam-se, também, Margarida e Maria José Simões. Acerca de Margarida ouvi o inglês McIntyre contar que ele próprio, numa altura em que foi levar café ao Comando, assistiu a uma sessão de agressões em que ela, no centro de um grupo de agentes e militares, inteiramente nua, sob uma forte iluminação, era alvo dos piores insultos e apreciações jocosas relativas ao seu corpo. Como se a humilhação não bastasse, a esses comentários grosseiros seguia-se o prazer sádico da agressão física.

No dia 21 de Abril de 1980, o Tribunal Popular Revolucionário mandou chamar a Margarida Simões, a sua irmã Maria José Simões, a Dalila, o Hélder e o Liras. A ansiedade era grande, uma vez que estes presos nunca tinham tido direito a uma defesa, nem oficial, nem particular. Margarida Simões foi a primeira a entrar. A sentença não demorou a sair do Presidente daquele tribunal, Adolfo João Pedro: quatro anos de prisão. E antes que alguma dúvida pudesse ser levantada ou contestação proferida, foi despachada com um "ponha-se na rua". Do mal, o menos, uma vez que ela sabia que alguns influentes no MPLA tinham pedido a sua condenação à morte. As sentenças continuaram: à irmã coube a conta de três anos, o mesmo que ao Liras; ao Hélder, a soma mais pesada, quatro anos.

(...) João Faria contava de forma muito viva a história daquele seu amigo, adjunto do 1.º Secretário da JMPLA que foi enviado a Cuba para participar numas jornadas da Juventude Comunista. Mal chegou a Havana foi imediatamente informado por um delegado da Juventude Comunista Cubana de que a reunião teria lugar no dia seguinte, este era um dia livre. O jovem angolano, gozando a companhia deste delegado cubano, acabou por se ver, sem que o esperasse, numa rota turística pelos meandros da cidade. Quando voltou ao hotel, esperavam-no, no quarto, uma garrafa de whisly e uma cubana.

Segundo observação corrente esta era uma das estratégias usadas para cativar os angolanos que se deslocavam a Cuba. Mas nem todos viam aquela oferta da mesma forma. Luís Kitumba, filho do Comissário Provincial de Malange, exigiu mesmo, telefonando para a recepção, que lhe retirassem do quarto a mulher que aí haviam instalado para si. Kitumba acabou fuzilado no contexto do 27 de Maio, bem como um seu irmão e a sua irmã.


Proliferavam as notícias tristes acerca do comportamento dos cubanos. Esta dizia respeito ao aproveitamento que faziam da sua posição de força para se apropriarem das mulheres que queriam. O Sanga, de quem já falámos noutros momentos, sublinhava que o sucedido em Duque de Bragança, na província de Malange, tinha ultrapassado todos os limites. Nenhuma mulher estava a salvo, nem mesmo as mulheres dos sobas. Entre o assédio e a mais torpe violação, tudo se passava como se as mulheres angolanas fossem propriedade destes "amigos" de Angola.

Muitas destas violações passavam-se nas lavras, quando as mulheres estavam a trabalhar. Aí, com frequência, eram surpreendidas por bandos de cubanos. Por vezes, uma só mulher era a vítima de um grupo numeroso. Foi este o caso daquela que foi violada por uma dúzia de cubanos - acabou por morrer, já no hospital. Não menos impressionantes eram os ditos que se referiam ao sucedido em Agosto de 1977, quando os cubanos violaram um homem, e de seguida a sua mulher, também quando estes cuidavam do seu sustento. A dimensão da indecência e do horror levou os sobas a Luanda para apresentarem os seus protestos indignados ao camarada presidente Neto.

(...) Como foi referido, os jovens angolanos que estudavam fora do país, em Cuba, na URSS ou na RDA, viam frequentemente interrompidos os seus cursos e carregavam uma ordem de regresso com a máscara de uma qualquer missão urgente e secreta. Em tais circunstâncias, regressou da URSS, no ano de 1979, um grupo de dezassete estudantes - pelo que apurei, todos eles eram militares -, que foi recebido por militares, de Akas em riste, e conheceu o imediato destino da Cadeia de São Paulo.

Neste grupo vinha João Van Dunem, ex-aluno da Universidade de Lisboa, que havia regressado a Angola embalado pela cantiga da reconstrução nacional. Depressa deu conta de que algo de estranho se passava. Quando percebeu que ninguém sabia do paradeiro de dois irmãos seus que pertenciam aos quadros da DISA, não pôde deixar de suspeitar que os teriam entregado à morte - viria a ser objecto de uma condenação de três anos em trabalhos forçados.

Um a um, todos os elementos daquele grupo foram submetidos a cerrado interrogatório. O próprio Carlos Jorge, na companhia de Carmelino Pereira, chamou a si o testemunho de outros estudantes regressados de Cuba sobre aquele grupo recém-chegado. Mas o "monte não tardou a parir o rato". Era já proverbial o interesse dos jovens angolanos pela música popular. O cantor brasileiro Roberto Carlos era um dos eleitos mais venerados. Acontece que este cantor estava no "índice" cubano - por qualquer conotação política que não me foi dado discernir -, e ouvi-lo era uma ofensa ao regime de Castro.

É claro que todos os jovens negaram terem difundido a música do popular cantor brasileiro, mas não custa a crer que o tivessem feito dada a simpatia que nutriam pela sua música. Mas esta simpatia viria a sair-lhes cara: foram remetidos para o campo da Kibala com um comentário cínico dos militares responsáveis pela viagem: "Agora vão ouvir música do reaccionário Roberto Carlos".

A história destes jovens repetia-se com alguma frequência. Tinham recebido a oportunidade de estudar fora do país pela mão de alguém com alguma influência no MPLA. Mas, frequentemente, esses estudos eram interrompidos, ou porque por alguma razão o MPLA perdia a confiança neles, ou simplesmente porque o seu "padrinho" tinha sido preso. Pelos depoimentos que recolhi, os procedimentos tenderam para a normalização. Aquele que perdia a confiança era chamado à embaixada angolana nesse país, e aí lhe era comunicada a urgência de participar numa missão secreta. Quando chegavam ao avião descobriam que o segredo era partilhado por outros, ou seja, essas viagens de retorno juntavam quase sempre um bom número de indesejados. Em Luanda, as coisas começavam a complicar-se e a desconfiança crescia, mesmo se lhes era contada a história de que o carácter secreto da missão exigia a renúncia ao contacto com a família e a estadia num estabelecimento prisional».

Américo Cardoso BotelhoHOLOCAUSTO em ANGOLA»).





«Em África, onde em larga medida ainda pontificam os regimes prepotentes, há líderes que, embora isentos de responsabilidades por delitos de genocídio político acontecidos no tempo dos seus antecessores, se têm esforçado desde o princípio por proteger os carniceiros do passado, perdoando-lhes os crimes e confiando-lhes cargos no governo e em empresas públicas. Angola é, inquestionavelmente, o maior paradigma onde este tipo de impunidade tem feito escola depois dos crimes hediondos de 1977-78 no regime de Agostinho Neto. Aqui milhares de pessoas foram vítimas de execuções sumárias, fuzilamentos, torturas e desaparecimentos forçados».

Carlos Pacheco («Repensar Angola»).


«Diz o dr. Domingos Arouca, que foi durante anos militante da Frelimo:

"Muitos negros têm sido presos e até mortos por se terem indignado com as atitudes anti-portuguesas de Samora Machel e dos poucos oportunistas que com ele pactuam. Não devemos de modo algum confundir a actuação da Frelimo com o povo de Moçambique, no que se refere à sua actuação em relação a Portugal".

À semelhança do que fez o dr. Domingos Arouca, parece-nos que, também, nos cabe o direito de recomendar que não se confunda o Povo Português com a chamada "descolonização", pois aqueles que conseguiram impor as suas concepções, na resolução do "problema ultramarino", não receberam qualquer mandato dos portugueses - que, na quase totalidade, encara como figuras odiosas alguns dos que colaboraram no processo, e, se não teve ainda posição ampla de repúdio, que é de esperar da sua maneira de sentir, isso deve-se a não estar suficientemente esclarecido sobre a importância de todos os que tiveram lugar de relevo na chamada "descolonização".

(...)"O homem moçambicano", diz o dr. Domingos Arouca, "esse ficará e permanecerá sempre em Moçambique enquanto a Frelimo e outros do mesmo jaez passam". "É preciso não esquecer que os Samoras" são apenas um acidente e que "essa realidade cultural e sanguínea que une Portugal e Moçambique voltará de novo à superfície, talvez ainda mais vivificada". (...) "Em escassos meses, os homens daquela confraria de malfeitores, tanto ao nível das cúpulas, como a nível regional, conseguiram levar a zero e ao caos toda a vida nacional em Moçambique. Dir-se-á e com toda a razão, que sendo a Frelimo um corpo totalmente inepto e desorganizado, sem quaisquer possibilidades de assumir tarefas governamentais, administrativas ou outras dentro de um país, a ruína e a miséria seriam a consequência da tremenda fraude que foi a entrega de Moçambique nas suas mãos".

(...) Se antes dos seus guerrilheiros aparecerem nas áreas urbanizadas, já era muito pequena a sua representatividade junto dos povos de Moçambique, só quem não estava na "Província" poderá duvidar de que as afirmações do dr. Domingos Arouca correspondem ao sentimento dominante dos que ali estavam e não faziam ainda uma ideia segura do nível da gente da Frelimo.

"Guerrilheiros cujo nível cultural não podia ser mais baixo. Facto este a que se junta ainda a agravante de, na sua quase totalidade, não serem moçambicanos, mas marginais de países vizinhos".

 "O que vimos quando da entrada dos seus guerrilheiros em Moçambique e se tem verificado ao longo da sua permanência são amostras de tal modo incoerentes e desajustadas, que muitas perguntas se põem quanto à sua própria actividade de guerrilha. O que é óbvio é que a Frelimo não ganhou militarmente Moçambique, e muito menos à data da entrega do território moçambicano àquele movimento"».

Luiz Aguiar («Livro Negro da Descolonização», 1977).



Oliveira Salazar


«No vetusto e augusto sentido romano, Salazar é ditador. Com efeito, só do escol saía o ditador romano: realmente, frente à crise que punha seriamente em perigo a vida do Império, o Senado elegia um ditador dotado de poderes excepcionais, que duravam enquanto persistisse a crise. O ditador ditava - e eis a origem da dignidade - os caminhos a trilhar para vencer a crise... No sentido actual, porém, Salazar nunca foi nem poderia ser ditador. Não lho consentiriam nem o seu natural, nem a sua formação moral, estruturada no mais puro Cristianismo, nem, ainda, o seu profundo conhecimento do ser humano, em geral, dos portugueses, em particular. Além disso, Salazar era um autêntico humanista, no lídimo sentido em que no século de Quinhentos se empregava a amena expressão, para definir a riqueza da cultura literária e a actuação, rica de consequências, do escol sócio-político. Por isso, é preciso ser muito ignorante, estúpido, psitacista e perverso para atribuir a Salazar o apodo infamante de ditador.

Efectivamente, dos textos dos discursos e entrevistas, da lavra de Salazar, escritos no seu primoroso estilo seiscentista, dos numerosos livros que em torno da sua incomparável figura e insuperável obra em prol de Portugal e do Ocidente foram trazidos a lume por nacionais e estrangeiros de alto merecimento, não se colhe absolutamente nada que autorize quem quer que seja a considerar Salazar como ditador... Mereceu o respeito da generalidade da população, não tanto pelo alto cargo que desempenhou, mas por ser indiscutivelmente carismático. A nobreza de carácter e a genialidade do intelecto eram de todos reconhecidas. Desconhecia a indolência, pelo que trabalhava incansavelmente. Não era prepotente. Longe disso. Era um excelso governante que se impunha pela compostura e pela competência. Acreditava piamente no imperativo da História. Por isso, a defesa intransigente do nosso Ultramar, descoberto, povoado e valorizado secularmente por nós, era indiscutível e exigia a colaboração dos "portugueses europeus e africanos", segundo Salazar afirmou em memorável discurso de 1965.

É de notar que a esmagadora maioria da população de cor transmarina colaborou de alma e coração na defesa em apreço, de armas na mão, permitindo que fosse realidade o reconfortante surto de desenvolvimento material da retaguarda, designadamente em Angola e Moçambique. Na verdade, esse desenvolvimento, motivo de admiração e espanto de todos os que conheciam a África sub-sariana, apenas superado pelo da República da África do Sul, no caso de Angola, não seria possível sem a estreita colaboração de europeus, luso-africanos e nativos. Era o corolário dum estrénuo e bem orientado trabalho levado a efeito em clima de franca, livre comunhão de interesses e objectivos, proporcionado pela "pax lusitana", que de longe vinha...

Trabalho forçado em Angola, em Moçambique, na Guiné? A OIT (Organização Internacional do Trabalho) investigou oportunamente o assunto no terreno, tendo concluído sem rebuço pela sua inexistência e elogiado sinceramente a alta qualidade e a sã aplicação do Código de Trabalho, que visava inquestionavelmente a protecção da mão-de-obra aborígene.

(...) Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde, em 1963, fez um relatório sobre as nossas três Províncias do Continente Africano, relatório que é prova insofismável de como Portugal é um gigante em matéria de realização do progresso humano. Efectivamente, eis as suas conclusões, amoravelmente referidas por Jacques Soustelle na sua obra intitulada "Carta aberta às vítimas da descolonização", de impressionante actualidade:

"1.º Que os Serviços de Saúde destes três territórios são 'exemplares';

2.º Que o Código de Trabalho (destinado a proteger a mão-de-obra autóctone contra o abuso) é estritamente aplicado;

3.º Que os hospitais são first class;

4.º Que não existe discriminação racial"

Direi, entre parêntesis, que recordo, emocionado, a luta tenaz contra a tripanossomiase (doença do sono), no Congo, Angola, na minha adolescência, e bem assim contra a furunculose, a biliarziose, a biliosa, o paludismo, a lepra, etc, etc..

Ausente na Metrópole durante dezoito anos, ao regressar a Angola, em 1963, as doenças tropicais haviam sido debeladas, continuando, porém, os Serviços de Saúde a exercer acção pertinaz de vigilância.

Curiosamente, Portugal, cioso do legado árabe, é o maior difusor da flora e fauna do Ocidente. Com efeito a base da alimentação dos africanos é constituída de milho, mandioca, batata doce, amendoim, muitas variedades de feijão, e fruta denominada tropical, como o abacaxi, a manga, o caju, etc, etc., tudo levado para a África pelos portugueses, do Brasil e da Ásia, em especial. É de notar que tudo quanto é de fina qualidade, vegetal ou animal, assaz utilizado na alimentação, de Cabinda ao Cunene, na Angola Portuguesa era tido pelos nativos como sendo do "Puto", isto é, Portugal...

Uma patrulha de soldados portugueses, africanos incluídos (1961).






Rádio em Angola com o locutor José Guize (anos 60).

A estação central dos correios em Lourenço Marques (anos 60). Situada na Baixa da capital moçambicana, na Av. da República (hoje Av. 25 de Setembro).
Av. da República em Lourenço Marques (1960). Em vermelho, um Machimbombo.

A esquina do Café Continental, no cruzamento entre as avenidas da República e Dom Luiz (hoje avenidas 25 de Setembro e Marechal Samora Machel).
Baixa de Lourenço Marques (anos 60).

O Café-Restaurante Djambu, no edifício do Hotel Tivoli na Baixa de Lourenço Marques (anos 60).

Desfile militar na Baixa de Lourenço Marques (27 de Outubro de 1963).


Av. da República em Lourenço Marques (1970).

Baixa de Lourenço Marques 

Quem diz Angola ou Moçambique diz corolário da actuação lusíada naqueles territórios africanos, em todos os domínios materiais e morais. Desde a delimitação das fronteiras ao que concerne à língua culta, à saúde, educação, vias de comunicação, agricultura e pecuária, comércio e indústria - tudo quando é fruto da civilização é obra incontestável de portugueses, civis, militares e religiosos, que tiveram o condão de merecer a colaboração franca e leal dos nativos... Antes da presença lusíada não havia Angola nem Moçambique, sequer no nome...».

José Pinheiro da Silva («Algumas Palavras», in «Comentários às Quase Memórias de Almeida Santos», de Silvino Silvério Marques).


«... Outra vila do Alentejo. O homem abre-nos a porta. Conduz-nos por corredores silenciosos até uma sala enorme, ao fundo de uma casa deserta. Quando chega o momento de falarmos do que há a fazer pela minha candidatura, o homem baixa a voz, embora ninguém nos pudesse ouvir, e encolhe os gestos num reflexo instintivo de defesa e medo. Diz-nos: "Só os comunistas é que são activos. Nada os faz recuar. Nem mesmo matar um homem". E conta-nos, em voz cada vez mais baixa, histórias de crimes. Não há dúvidas: o Alentejo está amedrontado... e amordaçado, como dizia outrora Mário Soares. 

(...) Mais histórias do medo que amordaça o Alentejo. Dizem-me que numa aldeia vive o famoso, já esquecido, sempre desgraçado, assassino de um lavrador que, vinda a revolução comuno-socialista, foi celebrado como um herói, louvado em prosa e verso, e fez cercar o Tribunal de Tomar, onde ia ser julgado, por uma multidão de punho erguido que exigia um "julgamento popular" como o que, há dois mil anos, condenou Jesus Cristo. O homem acabou por ser transferido para Lisboa e aí condenado. Mas depressa o transportaram para Moçambique - já independente e marxista - e de lá voltou ao fim de três anos, todos os tempos somados. Voltou para a aldeia. Mas os vizinhos afastam-se dele. Os próprios comunistas, que tanto o celebraram, procuram ignorá-lo. Ali fica, numa aldeia do Alentejo, fixado em sua imagem trágica, exemplo da impunidade, pedra do amedrontamento...». 

Orlando Vitorino («O processo das PRESIDENCIAIS 86»).


«Os meus anos oitenta foram marcados por esta segunda Guerra Fria, a campanha ou a cruzada dirigida por Ronald Reagan contra a União Soviética.

Tinha-me tornado um expert na África Austral e na África lusófona. Reforcei relações com os movimentos de oposição dos PALOPS's e com os círculos europeus e norte-americanos que se ocupavam destas áreas e passei a ser uma fonte e uma opinião a considerar.

A base de tudo isto era ideológica, mas nos dois círculos que ligava consolidei um núcleo de relações fortes. Algumas transformaram-se em amizades.





A política activista da administração Reagan no apoio aos movimentos anticomunistas foi decisiva. Multiplicaram-se as iniciativas, não só no eixo Washington-Londres, mas também em Paris e em Roma. Lembro-me, por exemplo, de terem aparecido três livrarias polacas em Paris no espaço de 3 meses, isto logo a seguir ao golpe militar da Polónia, quando o general Jaruselski sufocou a liberalização e deteve os dirigentes da Solidarnosc. Nos Estados Unidos, habitualmente pouco internacionalistas, surgiram, por iniciativa da administração Reagan, os institutos dos partidos - o International Republic Institute e o National Democratic Institute - semelhantes às fundações partidárias alemãs e destinados a promover os valores ocidentais em todo o mundo. E choviam iniciativas político-culturais como, em 1984, o "Ano Orwell", que em Londres promoveu um encontro de representantes das oposições de todos os países do mundo dominados pelos comunistas, numa conferência presidida por Jeane Kirkpatrick e por Lord Chalfont, onde estive. Ou o encontro promovido, também em Londres, por Melvin Lasky, do Encounter, para editores de revistas culturais antimarxistas (eu fui pelo Futuro Presente), onde pontificavam judeus e emigrados do leste, como Leo Labedz e todos os ex-trotskistas de Nova Iorque passados ao neoconservadorismo: Norman Podhoretz, Irving Kristol, Midge Decter.

Nesse encontro, durante o jantar, Edward Shills, com quem conversava, disse-me, meio a sério, meio a brincar: "I guess you, Johnson and I are the only people in this room who are not ex-leftists, jews or Eastern-European émigrés..."

Por detrás de tudo isto, ou de quase tudo isto, estava o dedo dos americanos e uma série de fundos expressamente libertados para esta batalha cultural. Nos Estados Unidos houve três nomes centrais nesta guerra ideológica - William (Bill) Buckley, que com a National Review manteve uma linha geral de pensamento e filosofia de direita; Ed Feulner, que com a Heritage Foundation criou um instrumento de estudo de ideias e de soluções à direita para os temas e os problemas contemporâneos; e Robert (Bob) Barteley, que na página editorial do Wall Street Journal divulgou e popularizou, durante mais de 30 anos e até à sua morte em 2002, uma visão alternativa à posição liberal dos grandes jornais da Costa Leste.

São anos cheios de memórias e de histórias que o tempo vai tornando nostálgicas. O Cercle reunia-se duas vezes por ano: uma sempre em Washington DC, geralmente no primeiro fim-de-semana de Dezembro, com o frio e o sol a caírem sobre a cidade iluminista desenhada por Lanfant, um dos grandes arquitectos de Paris. A outra podia ser em qualquer ponto do mundo, variando o local em função da importância dos acontecimentos ou das facilidades logísticas de alguns membros do grupo. E assim se ia encontrando pelo mundo fora a confraria dos cold-warriors do Cercle: ora na Vila Adenauer, em Cadenabia, no Lago de Como, ora na Fleur du Cap, em Stellenbosh, na África do Sul, a convite de Pik Botha e de Anton Rupert; quer em Wildbathkreuth, na Baviera, na Hans-Seidel Stiftung de Franz Joseph Strauss, quer em Muscate, no Sultanato de Oman, a convite do Sultão Qaboos; em Londres como em Paris, Nice, Berlim, Atenas, Viena ou Bruxelas.

A função destes grupos informais, desta espécie de clubes políticos internacionais, nem sempre é entendida. A sua vantagem para os membros depende, num quase ciclo vicioso, de quem lá está e de quem lá vai. A composição mista - políticos, empresários, académicos, militares, serviços - pretende, dentro de um denominador comum de princípios (que ao tempo era o activismo anticomunista), juntar diversas experiências profissionais, sociais e nacionais. Mas estes grupos só podem e devem funcionar como um círculo de informação, de discussão e de encontro. E estão acabados no dia em que queiram ter um papel activo como grupo ou enveredar pelo tipo de acção conjunta, formal e coordenada que alguma imprensa sensacionalista e de teoria da conspiração atribui a grupos como o Clube de Bilderberg.





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José Sócrates na reunião de Bilderberg, em Stressa, na Itália (Junho de 2004, antes de se tornar secretário-geral do PS e depois primeiro-ministro de Portugal).

O bilderberg Santana Lopes

António Guterres da reunião de Bilderberg em Rottach-Egem, na Alemanha (Maio de 2005 antes de ser indigitado para Alto Comissário da ONU).

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Francisco Pinto Balsemão. Ver aqui

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António Vitorino. Ver lista de convidados para a reunião de Bilderberg de 2015.

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David Rockefeller e Nelson Mandela



Christine Lagarde, directora do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ver aqui

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Há, nestes encontros, sínteses informativas de bons conhecedores dos temas num espaço de discrição e confidencialidade e, sobretudo, a criação de relações que, no caso de interesses bilaterais, podem evoluir para projectos comuns. Mas é sempre de uma influência difusa e indirecta que se trata, de uma influência dos seus membros.

Ao Cercle foram, em diferentes épocas, personalidades como Henry Kissinger, David Rockfeller, William Simon, Franz Joseph Strauss. Para o rapaz nado e criado num pequeno país periférico e saído do exílio era interessante - mas não ofuscante - esta vizinhança dos "grandes"».

Jaime Nogueira Pinto («Jogos Africanos»).




AINDA A "DESCOLONIZAÇÃO DE ANGOLA"

«...os Estados Unidos da América, a União Soviética, a Nato, a França, a Holanda, os "bilderbergers", membros influentes e esquerdistas da Igreja estão na origem pecaminosa dessa revolução que se diz libertadora, mas que na realidade abandonou ignominiosamente os nossos amoráveis territórios e populações de Além-Mar - vasto campo da capacidade de realização de portugueses de lei de todas as etnias, durante séculos. O 25 de Abril é filho dilecto do conluio diabólico de todos os inimigos de Portugal, internos e externos, da aliança sacrílega do execrável mundo da alta finança e da sida ideológica do terrível século XX - o comunismo.

Para a obtenção dos objectivos anti-portugueses, nascidos da estreita colaboração entre o famigerado Movimento das Forças Armadas e a estranja, já se vê que o General Silvino Silvério Maques, português de alma e coração, era quem nos servia... Nunca participou no MFA e a sua presença em Angola deveu-se ao Ministro da Coordenação Interterritorial, Dr. Almeida Santos... O MFA precisava dum traidor e não de um homem, com maiúscula, que tinha o amor e respeito dos nativos de Angola - sentimentos granjeados brilhantemente durante o tempo em que fora Governador-Geral, quando Salazar olhava pelos verdadeiros interesses da Nação, com inteira obediência aos ditames do ser nacional. Caluniá-lo, impedi-lo de trabalhar eram exigências inelutáveis dos torvos interesses que moviam o MFA.


Silvino Silvério Marques


Estou em crer que este trabalho esclarece quanto se viveu naqueles dias em que os comunistas, dominantes no seio do MFA, usaram todos os meios de que são mestres na subversão das sociedades...».

José Pinheiro da Silva («Duas palavras», in «Governo Geral de Angola. Dias do Fim», de Silvino Silvério Marques).



Foi ultimamente publicado novo livro (Gen. Gonçalves Ribeiro, A Vertigem da Descolonização, Ed. Inquérito, Lisboa, 2002), muito importante, sobre a história da denominada "descolonização" de Angola e nela especialmente sobre o refugir, e não "o retorno", dos portugueses que decidiram não ficar no novo Estado cujas populações tiveram de ser abandonadas à sua independência. Pormenorizadamente descrita, a organização e o accionamento da operação "refugir", põem em relevo a complexidade de que se revestiu e as qualidades de humanidade, devoção, coragem e iniciativa de quem a foi concebendo, a dirigiu e a levou a bom termo e do grupo de que se soube rodear para tal efeito.

É justo e será consolador que muitos portugueses conheçam as dificuldades enfrentadas e vencidas para que meio milhão de ultramarinos, sem distinções, que quisessem acolher-se ao Portugal europeu o pudessem fazer atempadamente, como desejavam, isto é, antes da independência. Será consolador, pois os sentimentos de respeito e gratidão que tal missão cumprida, merecidamente provocam em gente sã, só assim podem ser reconhecidos.

Mas, além de tudo, trata-se de um documento para a história de um período confuso, de acontecimentos muito graves e de comportamentos sujeitos a juízos nem sempre sérios. Pois andam por aí réus de política partidária a acusar o "refugir" das culpas do que veio a acontecer?...

Valorizo especialmente a referência a esta missão, tão pouco recordada nos meios de comunicação, pelo muito que me deu a conhecer. Mas não quero obscurecer todas as restantes peças do livro as quais são relatos fundamentais de situações passadas, e muitas sofridas, em Angola, por alguém que as viveu, nesses tempos de especial agitação.

Alguns lapsos merecem ser corrigidos. Refiro os que me pareceram essenciais, numa primeira leitura que fiz de um texto que lerei mais vezes (com especial interesse nas páginas baseadas em informação do Diário de Notícias da época que não na vivência do autor).

Na 2.ª quinzena, isto é: na primeira quinzena do meu último Governo Geral de Angola (desembarquei na Província a 15 de Junho), não se deu, como se diz, e sugere, no livro, Cap. 7 a pág. 65, um motim de reclusos na cadeia de Luanda, não se evadiram 200 de entre eles, passando os restantes a ocupar as instalações, nem foram libertados de imediato mais de mil presos de delito comum. É mesmo a primeira vez que tomo conhecimento de ter havido um motim, evasão de presos e ocupação de instalações. Em "A descolonização - 24 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975 - os mensageiros da guerra - Angola", outro livro importante que estou lendo do jornalista Marques Rocha, escreve-se que, em Maio, teria havido agitação entre os presos da Cadeia Central de Luanda da qual, antes, haviam sido libertados 85 presos, classificados de políticos, e que, também em Maio, havia sido fechado o Posto Administrativo de São Nicolau (Posto Administrativo do meu tempo onde desde o Governo do Gen. Deslandes se fixava residência temporária do inimigo detido, na retaguarda, pela Polícia Internacional) e saíram 1220 africanos com mais de 2800 familiares, por ordem da Junta de Salvação Nacional.
Também não é correcto referir-se o assassinato do enfermeiro Benge como acontecido no meu Governo. Já há tempo corrigi, em escrito publicado, ao Alm. Rosa Coutinho, este lapso que deve ter origem num opúsculo escrito por pessoa, já falecida, a mando do Movimento dos Democratas de Angola (MDA) cujos dirigentes acabaram, em geral, por se acolher ao Portugal europeu, por não suportarem a agitação que ajudaram a desencadear. O escritor, por razões que desconheço, resolveu hostilizar-me depois do 25 de Abril. Quereria branquear-se de algo, como aconteceu com tantos? Seja como for, li em jornais de Lisboa, dias antes de partir, a notícia do assassinato, e fixei o facto por conhecer bem o enfermeiro Benge que me havia ficado grato pela atenção que havia tido consigo e sua família, quando Governador de Cabo Verde, ante uma doença fatal de seu pai, ali detido, depois de julgado e condenado em Luanda.

Estas ocorrências relatadas não são pois do meu tempo. Antecederam a minha chegada a Luanda e certamente tiveram influência no agravamento do ambiente gerado com o 25 de Abril.

Já é do meu tempo, mas nunca referida, a insistência para a demissão da vereação eleita do Município de Luanda e sua substituição por um grupo ad-hoc de mplas. Não deixei. Seria iniciar as ocupações selvagens que se verificavam nos municípios do Portugal europeu. Aguardar-se-iam eleições. O meu sucessor, mal chegado, logo sancionou o assalto e a ocupação da Câmara, segundo o padrão daqui (1). E assim o Mpla se apoderou do governo da capital, recebendo em relação ao resto da Província a ajuda dos mfas...

A versão que tem sido difundida de se ter desencadeado em Luanda uma "conflitualidade" entre o Governador e os mfas de Luanda, é incorrecta, falsa e injusta. Não conhecia praticamente nenhum dos raros mfas com quem falei em Luanda. Não tinha quaisquer razões para os hostilizar. Quando cheguei, nas palavras da minha apresentação fui sincero, como costumo ser, e esclareci a disposição em que ali me encontrava, e os ajustamentos que a situação criada pelo 25 de Abril me impunham. Um camarada militar, em livro publicado, denomina o meu texto de "discurso bissectriz", dando a entender que procuro com ele agradar a todos. Está enganado. Sou apenas sincero, dando voz a sentimentos que na altura o Programa do Mfa consentia criar. E é pena que militares, em geral de promoções mais recentes, pensem que a todos nós esta política estragou... Pensou por ele?

Fui para Angola dependendo do Governo que me havia nomeado e directamente do Ministro da Coordenação Interterritorial que me havia convidado. Do Mfa pretendia cumprir o respectivo programa e as declarações que sobre ele tinham sido feitas pelo Primeiro Ministro e pelo Ministro da Coordenação Interterritorial: ia, essencialmente, preparar o referendo que decidiria do futuro de Angola. Alguns dias depois de chegado, convoquei o Conselho de Defesa. Perguntado pelo seu secretário, Gen. Igrejas, sobre quem deveria comparecer, disse-lhe que os Generais que o constituíam e os Comandantes da Polícia de Segurança Pública de Angola e da Organização Provincial de Voluntários e de Defesa Civil de Angola (vim a saber que a PSPA tinha passado à tutela do Comandante-Chefe, por um despacho do Gen. Costa Gomes que me fora omitido). Quando cheguei à reunião, estavam instalados na sala seis ou sete mfas trazidos pelos generais por indicação do Comandante-Chefe. Fiquei surpreendido! Ninguém me pedira nada. Facto consumado! Deslealdade! Reagi, naturalmente, com o grave acto de falta de consideração.

O Dr. Savimbi suspendera hostilidades na altura em que cheguei a Luanda. O Dr. Almeida Santos, Ministro de quem eu dependia, comunicou-me que alguém viria de Lisboa contactar o Dr. Savimbi. Pedi-lhe que quem viesse passasse pelo meu Gabinete, pois pretendia juntar-lhe um representante do Governo (desejava convidá-lo a representar-se no Governo, como estava tentando com o hoje Cardeal Alexandre Nascimento que considerava simpatizante do Mpla e era pessoa moderada, e inteligente). Certo dia apareceu-me, vindo de Lisboa com tal missão, o Maj. Charais que eu conhecia por ter despachado comigo algumas vezes no Estado-Maior do Exército. Combinámos que o Secretário-Adjunto Dr. Pinheiro da Silva o acompanharia para a diligência que eu desejava que fizesse. Ficou combinado entre os três. O Maj. Charais despediu-se e nunca mais soube dele nem da sua missão. Ninguém me disse nada! Facto consumado!


A situação vinha-se mantendo agitada. A polícia comandada por um excelente oficial (o Cor. Segismundo Revés) e tutelada pelo Comando-Chefe, estava procurando dar conta da ordem pública. Mas surgiu o assassinato do taxista. Preveni o Comandante-Chefe e os taxistas que qualquer retaliação podia provocar efeitos explosivos. Infelizmente de 11 para 12 de Julho, houve retaliação, não soube se de taxistas se de outra gente. A agitação subversiva, certamente reforçada, com muitos dos libertados, penetrou em Luanda, o que nunca tinha acontecido desde 1962. O Comando-Chefe (com os mfas nele instalados) detentor de toda a informação e das forças adequadas para enfrentar tal emergência fez o que lhe foi possível. Logo ao meio-dia de 12, reuni elementos do Governo e do Comando-Chefe, no meu Gabinete, para analisar a situação. Resolvemos pôr restrições na circulação em certas zonas e certas horas e passar a fazer patrulhamentos em conjunto por militares africanos e europeus. A 16, dei uma conferência de imprensa sobre o mês de governo que havia decorrido e a situação surgida com o assassinato do taxista.

O resultado nefasto da agitação em vítimas foi sendo conhecido e difundido dia-a-dia por informação do Comando-Chefe e pelos jornais, praticamente pela última vez. Desde então, e até à morte do Dr- Savimbi, pode dizer-se que já não houve organização administrativa, nem sensibilidade ou conveniência que pudessem ou quisessem dar conta das vítimas que o prosseguimento da agitação foi produzindo.

Como reagiram perante este evoluir do 25 de Abril os mfas e o Comandante-Chefe? Atribuindo a culpa ao Governador-Geral e sem lhe dar uma palavra, reunindo-se, escrevendo e enviando delegação a Lisboa, pedindo a sua cabeça. Isto é branqueando-se. É claro que inteiramente apoiados por alguns companheiros do Mpla e até por empresários europeus que tinham esperanças de virem também a ser governo e acabaram, em geral, por ter de se refugiar aqui... Última deslealdade para quem, anos antes em Cabo Verde e Angola, muito mais novo, apenas major e tenente-coronel, lidando com coronéis e generais muito mais antigos, sempre fora respeitado.

A 19 de Julho, o último Governador-Geral de Angola deixou Luanda. Foi substituído por uma Junta Governativa que incluía representantes do Mfa como os mfas de Luanda desejavam e preparavam...

Será legítimo que face a tudo isto se continue com a afirmação de "conflitualidade" do Governador para com os mfas e não destes (e não só) para com o Governador? É curioso que no outro livro citado do jornalista Marques Rocha o sentido desta conflitualidade está apresentado de forma mais correcta, como o está a situação do Governador e do Comandante-Chefe face à ordem pública.

Finalmente diz-se que a minha nomeação foi mais um equívoco

Equívocos?...

Foram muitos os criados com o 25 de Abril. Houve-os antes da minha escolha. Mas foram tantos e tão graves os originados já depois do meu regresso que, no que se refere à descolonização, em que não cheguei a poder intervir, houve quem com definitiva autoridade os classificasse de tragédia. A dificuldade estará em reconhecer os que seriam saudáveis e os que saíram perversos (in Governo Geral de Angola. Dias do Fim, Nova Arrancada, 2003, pp. 18-23).



(1) A ocupação da Câmara Municipal de Luanda foi festejada com o içar da bandeira do MPLA no edifício camarário. Logo que conhecido o facto no QG da Região Militar, foi mandada a Polícia Militar arriar a bandeira do MPLA e içou a bandeira nacional. A ocupação da CML foi sancionada por portaria do Alm. Rosa Coutinho, lida aos mplas, no Salão Nobre do Palácio do Governo, pelo hoje Brigadeiro Pezarat Correia. Ficou como Presidente o arquitecto Troufa Real.









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