domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um Alberto Caeiro

Escrito por Agostinho da Silva






«(...) Começando por alguma coisa que, sem o ser, ainda se poderia considerar mais externa, Alberto Caeiro logo revelou a Álvaro de Campos quanto a sua forma era inteiramente desajustada ao que tinha realmente para sentir, ao que tinha realmente para exprimir; a um homem que até aí se sentira preso, e desajeitadamente, a uma forma digamos tradicional, como preso se sentira a tédios de suecas e de condes, Alberto Caeiro quebrou as peias de servidão, mostrando-lhe como a forma tem de ser como a marca exterior da personalidade que se exprime e como a um homem novo tem efectivamente de corresponder a forma nova. Quanto a ele mesmo, Alberto Caeiro, o problema se simplificara, porquanto a sua quase nula educação, evitando-lhe as deformações que a escola sempre provoca, não o metera nunca pelos caminhos da métrica habitual; o verso de Caeiro era, escrevendo, o descuidado, irreflexivo, anti-reflexivo passeio e anti-discursiva contemplação que adoptara como seu tipo de vida. E depõe a favor do que de melhor havia em Álvaro de Campos que, tendo-lhe sido a forma nova revelada por Alberto Caeiro, tendo sofrido a impressão de absoluta serenidade e de majestade que, sem o querer, o poeta impunha, o seu verso seja, no entanto, tão diferente do de Caeiro. Neste, o ritmo é, como nos passeios com o Menino Jesus, o do caminho que houver; em Álvaro de Campos o que se deu foi o despedaçar de uma forma pelos surtos de energia: aldeias alinhadas e caiadas que erupções destroem.

Efectivamente, a influência de Alberto Caeiro exerceu-se em domínio muito mais profundo do que poderia faser supor o exame do campo da métrica. Deu a Álvaro de Campos a lição suprema de que a única obrigação que a alguém cabe, o único dever a que não pode faltar, é o ser ele próprio; e o único pecado que pode cometer contra o Espírito Santo é o de não ser ele próprio, em toda a sua plenitude, aceitem ou não os outros sua maneira de ser. Assim, Caeiro, num mundo de reflexivos e de metafísicos era, ou pelo menos pretendia ser, o não-metafísico, o não-discursivo, o não-reflexivo; cumpria-lhe ser calmo, porque o era, cumpria-lhe ser, porque o era, uma coisa entre as coisas. A coragem de ser, eis aí o que daria a Álvaro de Campos o remédio de seus insondáveis tédios.

(...) É evidente, no entanto, que a escola é apenas um dos elementos de um sistema; a pedagogia está ligada à sociologia, à economia e à teologia racionais por laços muito mais íntimos do que se pensa; tudo são fabricações de adultos. Pensam eles, os pobres, que pode jamais haver no mundo alguma forma satisfatória de governo organizado, de economia organizada ou de discurso do sobrenatural, a não ser que os pensemos sempre dentro de um mundo de adultos: fora dele, num universo de qualidades infantis, num Paraíso, - e é por isso, porque os adultos aí eram crianças com Adão e Eva, e só as houve depois que, para podermos comer e se vestir, principiaram eles a ser adultos, - num Paraíso, todo o governo que não for amar será absurdo, toda a economia que não for colher será absurda, toda a teologia que não for contemplar será absurda.

Poderia parecer que por este caminho se poderia Fernando Pessoa opor a todo o crescimento da técnica; mas é técnico Álvaro de Campos nos melhores momentos de si próprio e, se não exerce a sua profissão, é decerto pelos seus arrebatos melancólicos, mas também porque se não percebe um engenheiro naval num País que não mais constrói navios - embora possa, como a Holanda, fabricar paquetes ou cargueiros: e o grupinho de Pessoa sabe perfeitamente através dele que é exactamente pela técnica, mas pela técnica tomada como um jogo geral e não como um meio individual de ganhar dinheiro ou poder, que pode o homem abrir o seu caminho de regresso ao Paraíso: mas, para tomar a técnica como um jogo, é preciso que se seja anteriormente criança: a conversão religiosa ao Menino Jesus deve preceder a revolução social. O contrário seria materialismo, coisa de padres sem religião, como dizia Alberto Caeiro; o que também se poderia afirmar da religião que avassalou Portugal a partir do século XVI.




Ligando os pecados da Europa ao que foi Portugal antes de a noite vir, poder-se-ia pensar que o D. Sebastião da Mensagem, o Encoberto, o que há-de voltar na manhã de mais cerrado nevoeiro, quando toda a esperança parecer perdida, é ao mesmo tempo o Menino que jamais se resignou a ser adulto no Rei de Alcácer e o Menino que jamais se resignou a ser adulto nos melhores homens do mundo; a grandeza qual a Sorte a não dá seria, não a grandeza deste mundo em que logo se pensa, mas a grandeza do Reino que Jesus afirmava ser o seu e que seria povoado dos pequeninos que a si chamava e que apontava como modelo a seus discípulos; e à volta de D. Sebastião, iniciando no mundo o novo Império, cada homem e cada mulher, redimindo-se de ser adultos, iria oferecer a um Deus também Menino, libertado finalmente de sua Cruz e de seu distante céu, o seu ramo infantil de contempladas flores.

É por esse Império, que nem ele nem os seus companheiros têm a coragem ou a força ou a hora de construir, porque numa história movida por Deus tudo vem a ser o mesmo; é por esse Império, que não tem lugar marcado nos mapas porque vive no sorriso, no olhar, nos sonhos dos meninos; é por esse Império, que se tornará consciente ou inconsciente a nós, como se torna consciente ou inconsciente a uma criança o que, dormindo, a faz sorrir; é por esse Império, que só poderá surgir quando Portugal, sacrificando-se como Nação, apenas for um dos elementos de uma comunidade de língua portuguesa; é por esse Império, o que já foi aurora de realidade e que hoje é apenas o cavo passo que se escuta em palácios desertos, que Fernando Pessoa pensa, escreve, concebe génios, sofre recolhido e ignorado morre. Mas sobre ele reina, como já reinou sobre nós outros, aquele Menino Imperador que, em oposição ao Imperador germânico, o Imperador dos adultos, e iniciando seu Império pela abertura das prisões e pela abundância para os pobres, coroavam, por amor do Futuro, os portugueses do melhor tempo; e que ainda hoje coroam os homens de Santa Catarina, entre os quais vivo e escrevo: aqui, também, esperemos, por amor do Futuro».

Agostinho da Silva («Um Fernando Pessoa»).




Um Alberto Caeiro

Nascido em 1889, dois anos depois de Ricardo Reis, e em Lisboa, Alberto Caeiro passou, no entanto, quase toda a sua vida fora da cidade, numas propriedades do Ribatejo que possuía um primo seu e onde veio a conhecê-lo Álvaro de Campos, cujas notas, juntamente com algumas de Fernando Pessoa, são os únicos elementos de que dispomos para aquilo que poderíamos chamar a biografia externa do poeta. De estatura média, um pouco mais baixo do que Ricardo Reis, era de frágil compleição, embora o não aparentasse; usava cara rapada e o cabelo, sobre o abundante, era louro, acastanhando-se um tanto quando a luz lhe faltava; os ombros baixos, os malares salientes, a cor um pouco pálida, as mãos para o delgado poderiam indicar, a um bom observador, que qualquer fraqueza interna o derrubaria de um instante a outro. Contudo, o calmo, intemerato, infantil, directo olhar azul, o sorriso que era como que uma afirmação ou uma constatação da plenitude de existir, a testa alta de poderosa brancura, a voz igual, média, natural e, depois, no decurso das conversas, o tranquilo, inocente, seguro discorrer, tudo nele dava, por outro lado, a impressão de que o fim não poderia estar muito próximo. Durou, porém, apenas vinte e seis anos, tendo falecido anos antes de Ricardo Reis, de quem era amigo, ter embarcado para o Brasil.


Deste poeta, que, à pergunta que lhe fora feita de se estava contente consigo, respondeu apenas que estava contente, o que significa que o seu contentamento era apenas o contentamento de existir ou que tinha tantas ou tão poucas razões de estar contente consigo como com nuvens, aves, vagas ou perfumes, tão partes como ele de um reino natural, não se poderia naturalmente esperar uma obra feita com o meticuloso, exacto cuidado de um Ricardo Reis, o homem para o qual a mentira era detestável por ser sempre uma inexactidão; nada de tarefa regular lhe seria provavelmente suportável, como igualmente não o prenderiam nem a submissão a rigorosas regras métricas nem sequer o trabalho de revisão que se supõe indispensável a todo o artista. E sabemos, efectivamente, que grande parte da produção poética de Alberto Caeiro foi escrita a jactos de inspiração e composição, podendo depois passar directamente das mãos do escritor para as do tipógrafo. Só no dia 8 de Março de 1914, mais ou menos um ano antes de morrer, escreveu os trinta e tantos poemas de O Guardador de Rebanhos.

O pensador ou o imaginador, ou o fantasiador, que seria talvez o termo exacto para reunir as duas categorias geralmente separadas que, juntamente com o artista, formam o poeta, é naturalmente em Alberto Caeiro muito semelhante ao escritor. Embora declare que sabe igualmente fazer conjecturas, a verdade é que tem consciência, plena ou confusa, de que na conjectura há, até etimologivamente, o voluntário reunir de ideias que andavam dispersas e o esforço de as lançar todas juntas a um determinado alvo. Ora, para Caeiro, o ideal é que se não junte coisa alguma daquelas que o mundo, naturalmente, nos apresenta separadas; que se viva sem esforço de existir; e que, finalmente, não quebre o homem a harmonia da vida distribuindo os seres pelas três classes dos arqueiros, das setas e dos alvos.

A conjectura, além de tudo, segundo lhe parece, a nada conduz senão àquilo a que anteriormente se for levado apenas por se deixar flutuar na própria corrente da vida. Que se poderia descobrir ao fim de um longo, difícil, angustioso filosofar? Aquilo mesmo que se descobre sem filosofar, e tendo-se ainda poupado a amargura de, para dissecar, ter transformado em cadáver o que era ser vivo.


Agostinho da Silva

Realmente, pensa Caeiro, o fazer conjecturas levá-lo-á à conclusão de que em cada coisa existe, animando-a, dando-lhe o ser, aquilo que ela é; na planta é a exterior ninfa pequena que a abandona quando seca; no animal, já interior, é como uma confusa inspiração longínqua, não trágica, no entanto, porque no animal se contém e com ele desapareceria se morresse; no homem é a alma que é ele, que vive com ele, mas que não tem o mesmo tamanho que seu corpo, o que igualmente não é trágico desde que o homem aceite a diferença de tamanhos e, na impossibilidade de fazer comungar a sua alma com coisas tão diferentes como a exterior ninfa pequena da planta e o ser interior longínquo do animal, reconheça que só lhe é possível a comunhão dos corpos; a única dúvida que se poderia pôr era pelo que respeita a outros seres humanos; e, mesmo aí, talvez não subsista: se a alma é a distinção entre ser e ser, todas elas serão diferentes umas das outras e portanto impossível será a coincidência total, o que já não acontece com o corpo. Por fim, vêm os deuses: nesses, o que eles são tem naturalmente de ocupar a totalidade do que são, visto que, caso contrário, haveria neles alguma coisa que não era divino; por outro lado, a substância tem de ser una, sendo por conseguinte absurda, quanto a deuses, qualquer distinção entre o corpo e alma; os deuses são então alguma coisa que corresponda ao que em nossa linguagem se chama o espaço; mas aquilo que entre nós ocupa espaço chama-se corpo: logo os deuses são só alguma coisa idêntica ao que entre nós se chama corpo. É evidente também que têm os deuses de ser eternos, primeiro, porque só ocupam espaço, e depois porque, caso contrário, o ser superior do mundo não seria nenhum deus, mas a Morte, conclusão que todo o instinto vital de Caeiro se recusa aceitar: o que é perfeitamente compreensível num homem essencialmente visado pela morte. Se os deuses são só corpo, será então o corpo e não a nossa alma ou espírito o que existe de imortal; o que estará certo em nós é, portanto, aproximar-nos o mais possível da estabilidade, da segurança, da pureza, diríamos da virgindade do corpo; e não nos importarmos muito com as fraquezas, as fragilidades e as corruptas imaginações da alma.

A tudo isto se pode chegar, como dizíamos, ou tudo isto se pode ser, se assim se preferir, apenas sendo. O vício de pensar é porventura dos mais daninhos que se abateu sobre a humanidade e quanto mais felizes seríamos se pudéssemos regressar a tempos que, simbolicamente, chamaríamos de ante-socráticos, quando a filosofia ainda não aparecera com a pretensão de substituir o conto de fadas, ou até antes disso, quando o conto de fadas ainda não aparecera com a presunção de substituir a vida. O primeiro remédio para nossos males será o de nos convencermos que há metafísica bastante em não pensar em nada; que a única coisa realmente misteriosa do mundo é haver gente que, em lugar de viver, passa o seu tempo, seu limitado tempo, pensando no mistério; e que é totalmente absurdo andarmos procurando o sentido íntimo das coisas, quando elas não têm sentido íntimo algum senão esse de serem coisas e de não terem, por conseguinte, sentido íntimo. Quem sabe viver, vive, não se interroga sobre a vida; substitui o pensamento pela sensação: pensa, como os deuses, pelos pés, pela boca, pelos ouvidos, pelos olhos. E, para resumir tudo, o Deus que Alberto Caeiro está disposto a adorar não é um Deus teológico, abstracto, que não se vê, que não se ouve, mas um Deus que é as flores, as árvores e os montes, um Deus ao qual se pode amar sem pensar nele ou um Deus que se pensa ouvindo e vendo.


Neste mundo de coisas, de corpos, de sensações e de perfeito negar-se ao pensamento, até os sonhos são tão nítidos, tão ordenados, tão contempláveis em sossego como uma fotografia; e pela afirmação deste facto principia Alberto Caeiro o que é talvez o seu poema fundamental. Jesus desce dos céus e vem ter com o poeta, fugindo a tudo que sobre ele lançaram as invenções dos homens que pensam; Cristo abandona no céu a sua cruz, os seus instrumentos de suplício, seu Padre Eterno, demasiado adormecido e sua Eternidade, S. José, tão velho que o não pode ver como Pai, sua Mãe que não amara antes de o ter, e o Espírito Santo que, sendo criança, apenas vê como Pomba. Para fugir do céu teve que usar de dois milagres: do primeiro para que ninguém soubesse que ele tinha fugido, do segundo para deixar eternamente pregado na cruz um eterno Cristo sofredor. O terceiro milagre que é, porém, o mais importante: com ele ganha Cristo a liberdade de ser eternamente humano e menino.

Menino, pois, vem Jesus viver com o poeta, naturalmente o único ser cuja inocência é compatível com a sua e o único que jamais teria tentações de construir sobre a fuga e a nova vinda à Terra uma complicada teologia de terceira Revelação, quando se trata ainda da segunda, oculta pelos homens. Vem viver para a aldeia, exactamente como Alberto Caeiro, porque o ar da cidade se encontra demasiado corrompido pela acumulação de metafísicas, não sendo o próprio urbanismo, provavelmente, mais do que a consequência de uma falta de naturalidade; e vem viver não para ser um pregador da bondade e da justiça, ambas daninhas por serem abstracções ou sobre abstracções terem seu alicerce, mas para chapinhar nas poças de água, limpar o nariz ao braço direito e atrever-se até, a outras mais ousadas artes. Ligada a esta, a de ser uma criança natural, tem ainda outra missão, a de ensinar o poeta a olhar para as coisas, a descobrir todos os encantos, por serem coisas, que na flor existem ou que existem nas pedras quando devagar as tomamos e lentamente as vamos deixando ser. É ele, pegando Alberto Caeiro pela mão, que o leva de passeio, enquanto a outra mão do Menino se dá a tudo quanto existe, e vão os três andando, não pelo caminho que há e em que demasiado é patente a obra e a determinação dos que pensam, mas pelo caminho que houver; o que, por ser, existir. Tão bem se dão os dois, que até nessa relação de humano a humano foi possível desaparecer o pensar: não pensam um no outro; juntos são, por um acordo íntimo. E a prece final do poeta é para que, um dia, o Menino Jesus, a ele o tomando como criança, o deite em sua cama e o conserve dormindo, dormindo e sonhando, até que nasça aquele outro dia que só Jesus sabe qual é.




Para que esta paz se estabelecesse foram precisos três milagres de Cristo. Num mundo de adultos e de adultos habituados a pensar, Jesus teria de crescer, para pregar, porque os homens só entendem a pregação e não a vida, e para de novo ser crucificado, porque eternamente os homens estão crucificando, pelo que os não vale, o melhor de si próprios. E, num mundo de pensadores, logo os metafísicos viriam com o argumento, já não falando de contradições, de que toda a filosofia de Caeiro peca pela base: pensar que se não deve pensar; chamar coisa a uma coisa, ou flor a uma flor ou amarelo ao que é amarelo é entrar imediatamente no reino da abstracção; e supor eterna uma criança, ou tê-la como Mestre supremo envolve, imediatamente, uma Concepção do Universo e uma Teoria da História. A doutrina de Caeiro é tão frágil como a sua saúde: ambas estão ameaçadas por infecções, o raciocínio e a tuberculose, que sendo infecções são fenómenos de vida e têm de ser explicados na vida, mesmo para serem destruídos. O destino do poeta foi o de morrer como homem e como pensador, embora sobreviva como artista e como profeta: e foi perante o desaparecimento do profeta, apesar de o saber redivivo no Futuro e de o saber fazendo do Nada alguma coisa de luminoso e alto, que confessou a sua angústia e a sua tristeza o que foi o maior amigo e o maior discípulo do poeta: Álvaro de Campos (in Um Fernando Pessoa e Antologia de Leitura, Guimarães Editores, 1996, pp. 51-63).


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