segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ausência e presença da filosofia

Escrito por Álvaro Ribeiro



Mosteiro dos Jerónimos

«Todo o positivismo português devém no plano da superficialidade cultural, exercendo, é certo, os seus malefícios na zona própria dos medíocres que tudo aferem pela admiração do estrangeiro. Não chegou, porém, tal doutrina a ser absorvida, apropriada, assimilada pelos verdadeiros pensadores nacionalistas. A leitura dos textos, que é a prova real, constituirá, para muitos estudiosos, surpreendente fonte de desenganos.

É indispensável, todavia, para chegar a tão certeira conclusão, partir da dúvida sobre o valor das citações de filósofos estrangeiros, incluídas nos textos das obras dos escritores nacionais. A citação é quase sempre motivada por pedantismo, moda ou ortodoxia, e degenera, muitas vezes, em ornato de estilo que não pertence àquela natural sequência de frases em que o autor se dá ao tema, por assim dizer, de alma e coração. Não passam tais citações de adereços postiços - emprestada vestimenta de erudição que ilude o leitor ingénuo -, mas não logram enganar o intérprete que no corpo do discurso analise os elementos lógicos do raciocínio argumentante e os tropos da imaginação persuasiva».

Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).



Ausência e presença da filosofia

A mocidade estudiosa, que procura habilitar-se para intervir criativamente na literatura, na política e na religião, enfrentar-se-á certamente com este problema essencial: «Que é a filosofia? Como determinar, fundamentar e legitimar o pensamento filosófico português?» Efectivamente, só desta arte poderão ser abstraídos os lineamentos que permitam à mocidade traçar as directrizes futuristas de um ideal a realizar em plena adultidade. Se os adolescentes não forem avisados e aconselhados no tempo próprio, jamais alcançarão a inteligência das ideias novas, antes ficarão presos aos preconceitos falsos, errados ou inúteis que causaram a demência das gerações que sofrem o juízo e o castigo da história.

Há muitas definições de filosofia, mas todas oscilam entre os conceitos de ciência e de arte. Pensadores há que a subordinam às ciências positivas, outros a consideram como ciência autónoma, que nesse caso merecerá a designação de metafísica. Apreciada ao longo da sua verdade, desde os sete sábios da Grécia, a filosofia assume a figura de arte de pensar e de viver segundo os valores supremos da Verdade, da Beleza e da Bondade.

A metafísica é uma ciência que pode ser estudada teoricamente, em qualquer idade ou estado de evolução humana. A filosofia, ou arte de filosofar, consiste num aprendizado que começa na adolescência e que ocupa a vida inteira. Não existe em Portugal o magistério particular ou público, iniciático ou profano, da arte de filosofar, com os seus princípios, meios e fins, mas apenas uma simplista didáctica de pretensas ciências filosóficas, ministrada fora de qualquer programa inteligente, útil e fecundo.

A análise histórica do que tem sido em Portugal a literatura, a política e a religião, manifestações directas da actividade do homem pensante, conclui pela falta de originalidade, isto é, pelo predomínio das escolas estrangeiras sobre as débeis tentativas do nacionalismo português. Tal se apresenta evidente e clamante no exame praticado por Teófilo Braga em seus estudos notáveis e admiráveis. Adoptado pelos universitários um critério francês, inglês ou alemão, clássico, romântico ou realista, na alternância ou na sucessão das modas literárias, dos partidos políticos e das seitas religiosas, logo os juízos serão desfavoráveis às pessoas, aos actos e às obras que na essência constituem a História de Portugal.


Teófilo Braga


Não se encontram, portanto, os assistentes universitários devidamente habilitados para procederem à indagação metódica de qual o pensamento filosófico que ao longo dos séculos inspirou a literatura, a política e a religião dos Portugueses. O modo por que nas Faculdades de Letras se ensina a História da Filosofia em Portugal comprova até à evidência a tese estrangeirada de que os livros principais significam uma linha de traduções, adaptações e vulgarizações dos sistemas metafísicos que foram ordenadamente surgindo nas escolas da Europa Central. O estudo tridimensional do composto humano segundo as leis evolutivas do corpo, da alma e do espírito, não tem sido entre nós praticado de modo a evidenciar o que é verdadeiramente a filosofia, com as suas repercussões artísticas, tecnológicas e sociais.

Revogando o magistério escolástico de Aristóteles, nunca os legisladores do século XIX e do século XX, responsáveis pela instrução pública ou pela educação nacional, traçaram um programa correcto da disciplina de filosofia, a ensinar nos liceus centrais ou nas faculdades universitárias. Os relatórios que precedem os decretos revelam mais as intenções administrativas do que o resultado sério de uma meditação profunda sobre o que é a filosofia portuguesa. A gradação didáctica dos temas, das teses e dos teoremas do nosso pensamento original, oculto e profundo é nas escolas substituída pela distribuição temporal de determinado número das noções mais ou menos filosóficas que persistem nas técnicas tendentes para a autonomia do estado positivo.

Os adolescentes confessam a sua desilusão e o seu descontentamento perante o que lhes é exigido para a prova escolar do exame de filosofia. Pedagogistas houve que até preconizaram a eliminação da disciplina em futura reforma do curso dos liceus. Os licenciados universitários não revelam criatividade de pensamento livre na qualidade e na quantidade dos escritos para que foram habilitados escolarmente.

Já é tempo de a mocidade estudiosa se deixar da submissão paciente perante programas escolares que não conduzem à dignificação do homem, já é tempo de começar a inquirir da autenticidade, ou seja, do valor, do ensino imposto pela rotina inconsciente dos improvisados legisladores. Será verdadeiramente filosofia a ordenação compendial de noções e de exemplos que conduzem à habilitação para a prova escrita do exame? Responde o programa oficial às interrogações próprias do adolescente que aspira a viver com adulta mentalidade, isto é, que aspira a ser homem perfeito nos seus aspectos tridimensionais?

A vida não é tão longa que deixe perder inutilmente os melhores anos de escolaridade. Se o homem francês, o homem inglês, o homem alemão recebem educação filosófica que lhes permite compatibilizar a cultura com o culto, ou realizar obra criadora na literatura, na política e na religião, por que há-de o homem português continuar a receber passiva e esterilmente as directrizes intelectuais de livreiros, escritores e jornalistas estrangeirados? Não haverá, entre nós, quem seja capaz de resolver o problema da filosofia portuguesa? (in «Ensaio», Folha de Cultura e Opinião dirigida por Francisco Moraes Sarmento, n.º 2, Fev/Março 1981, pp. 4-5).





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