sábado, 26 de dezembro de 2009

'Socialismo universitário' (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte






A campanha contra a filosofia portuguesa continua na ordem do dia. A confirmá-lo estão as opiniões vazias e desorbitantes de um anarca universitário apostado em relegar Álvaro Ribeiro para as trevas do inexistente. Quer dizer: no seu entender, Álvaro Ribeiro, embora passível de ser caracterizado pelo «brilho estilístico» - «nada de palpável» - a par de José Marinho e de outras personalidades da filosofia portuguesa, pouco ou nada nos legara no sentido - ora bem - do já podre e vil socialismo (1).

Por outras palavras, o nacionalismo alvarino – que o dito-cujo aparenta não ter compreendido, assim seguindo o exemplo dos seus congéneres universitários –, não somente peca por não ter atendido ao ideário geo-estratégico de Pascoaes para Portugal, como também por não ter vivamente repudiado a ditadura salazarista. E assim se implicam ad hoc todos aqueles que, repudiando o socialismo no âmbito da filosofia portuguesa, ora ficam eventualmente conotados com um presumível «totalitarismo de direita», ora directa ou indirectamente conotados com «qualquer outro reaccionário integralista» (2).

Depois, há ainda a questão do iberismo no quadro da segunda República espanhola, perante a qual o dito-cujo, vendo em Pascoaes a «evidente simpatia pelos anarquistas espanhóis e por um projecto político ibérico de natureza federal», exulta pelo que «parecia propender para a constituição duma União das Repúblicas Socialistas de Espanha, inspirada por republicanos e por anarco-sindicalistas e longe da influência de Moscovo» (3). Pois claro: a iminência do comunismo ibérico sob o auxílio maciço da União Soviética, ora determinado pelo envio de armas e conselheiros militares, ora pelo recrutamento, a nível internacional, de milhares de revolucionários prontos a combater e a destruir em solo espanhol, tudo isso estava longe de se fazer sentir no âmbito do ideário federalista e independentista da Espanha unitária (4). E daí até ao tumulto, ao caos e ao assassinato praticado por republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas, trotzquistas - a que necessariamente correspondera a reacção violenta e não menos incisiva das forças de sinal contrário -, talvez tudo isso não passasse de uma questão de pormenor, e sem nenhum perigo para Portugal no contexto de um iberismo a fortiori (5).

No lance, Pinharanda Gomes é, efectivamente, um dos poucos portugueses que sabe pesar e avaliar as múltiplas implicações decorrentes da unidade hispânica ou ibérica, sobretudo quando afirma que o «mote "Espanha una, grande, livre" tanto serve o unionismo monárquico como o unionismo republicano, em que o peso de Castela é predominante»(6). De resto, Pinharanda Gomes, admitindo a «coexistência de nações reais em sua diversidade, num diálogo de estados» assente na respectiva autonomia e liberdade em relação a Castela, refere casos em que o nosso sentimento de independência pátria estivera indubitavelmente presente, a saber: «O Integralismo Lusitano não foi iberista havendo matizes a evidenciar: face ao poderio da Europa, António Sardinha preconizou uma aliança e uma aproximação estratégicas, de modo algum comprometedoras da independência nacional, nem outra coisa seria de esperar de um movimento que a si mesmo se intitulou de Integralismo Lusitano. A Guerra Civil (1936-1939) provocou receios, e a política diplomática de António de Oliveira Salazar levou a efeito o projecto de António Sardinha, o de uma coexistência em paz, de onde o Tratado de Amizade e de Não-agressão (1939, ratificado em 1948), e o Bloco Peninsular (1942), ambos denunciados ou reformulados após a Revolução de 25 de Abril de 1974. [Curiosa e contraditoriamente, os encontros entre chefes de Governo de Espanha e de Portugal eram chamados, na nomenclatura oficial, "Cimeira Luso-Espanhola". Hoje em dia, o Governo socialista fez desaparecer o Luso, passando a usar a designação "Cimeira Ibérica"]».








Por outro lado, o caso de Agostinho da Silva é também particularmente digno da mais funda atenção. Decerto que o seu pensamento, especialmente expresso no contexto de um nacionalismo místico e ecuménico, constitui uma das mais notáveis produções de que a cultura portuguesa se pode e deve realmente orgulhar. No entanto, revela igualmente aspectos insólitos no âmbito desse mesmo pensamento, designadamente no que à política e à economia se reportam.

Relembremos, pois, Agostinho da Silva aquando de uma sua resposta a Luís Machado, que, no papel de entrevistador, pergunta ao entrevistado se acha realmente que a paixão e o amor «são coisas que, quando existem, é difícil que existam»: «Eu acho [responde Agostinho da Silva]. Quando você me diz: "Gosto muito de quintas", eu posso perguntar-lhe de imediato: "Tem alguma?" E você responde: "Tenho uma!" Então eu desconfio que isso não tem nada a ver com amor... É simplesmente o lucro, é a comodidade, qualquer coisa do género... Se, por outro lado, você me diz: "Não tenho nenhuma quinta, nem quero!", então aí já eu penso: "Este sabe o que é amar". Como vê, são dois verbos distintos, o verbo "amar" e o verbo "ter"; a posse destrói sempre o amor» (7).

Ora, aqui mesmo deparamos com um paralogismo cuja origem podemos situar no que já Ernesto Palma caracterizara como sendo o retomar agostiniano do «blá-blá socializante da sua juventude sergista» (8). E assim é porque, além de partir de uma suspicácia já de si escudada na «pobreza escolhida», conforme bem vira e exprimira António Quadros (9), a verdade é que, não obstante a existência dos ambiciosos e sôfregos de lucro, também existem os que, consciente ou inconscientemente, procuram reconhecer na propriedade uma categoria simultaneamente primeira e final que resulte em benefício dos homens, ou, se quisermos, uma categoria que, traduzindo e reflectindo a realidade do que é próprio das coisas e do mundo, permita, não uma relação de posse ou de destruição, mas antes uma relação de mútua complementaridade entre o homem e o mundo (10). Aliás, só assim se compreende que a propriedade, mais do que uma relação económica, seja uma relação que, referida mais propriamente à fortuna do que à riqueza, assegure e perpetue, em termos de substância religiosa, o culto e o património familiares.






Entretanto, haverá sempre quem, com inteira razão, encontre em Agostinho da Silva um natural repúdio pela colectivização da propriedade levada à cabo por experiências comunistas e socialistas do século XX (11). Sobre isso, não há, portanto, dúvida nenhuma, bastando, aliás, ver como Agostinho da Silva, atendendo à tradição municipalista portuguesa, preconizara, de algum modo, a economia comunitária de produção e consumo da Idade Média (12). Porém, se de facto assim é, não menos verdade é igualmente o facto de que Agostinho da Silva, a avaliar pelos «claros vestígios nos Dispersos», teria, apesar de tudo, tido «a ilusão de que o comunismo teria trazido a abundância aos povos que se lhe submeteram e hoje são alimentados a rações» (13).

Não admira, pois, que do pensamento de Agostinho decorram e prevaleçam interpretações que facilmente redundam nas falsas e vazias abstracções provenientes do esquerdismo triunfante, tais como as relativas à «repartição da riqueza», bem como à «distribuição justa e paritária da capacidade de “fazer política”» (14). Enfim, tudo ilusões alicerçadas em simplismos mentais e bem-pensantes como o que ora se segue: «Numa sociedade em que “nossas” seriam apenas as coisas que nos eram imediatamente mais próximas, como a roupa e uma habitação, tudo o mais seria gratuito e a ficção do dinheiro e da eterna e fátua necessidade deste seria desfeita. Se precisássemos de transporte, tomá-lo-íamos. Se precisássemos de um livro, buscá-lo-íamos numa biblioteca ou livraria (tornada neste modelo, numa espécie de biblioteca de bairro), se precisássemos de alimentos, ou os buscávamos na nossa horta, plantada com gosto e prazer, ou a procurávamos no mercado automatizado ou provido apenas daqueles vendedores que retirassem prazer do contacto humano e da actividade mercantil característica do festivo “espírito de feira” da nossa medievalidade» (15).


Notas:

(1) Cf. António Cândido Franco, «Nota corrida sobre o pensamento geo-estratégico de Teixeira de Pascoaes», in revista Nova Águia, 2009, n.º 4, p. 100.




António Sardinha




(2) Id., p. 100. É curioso observar como já nem a Universidade, ou pelo menos uma parte dela, consegue fazer tábua rasa do nacionalismo inerente aos poetas e filósofos portugueses, tais como Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, etc. Contudo, a Universidade, mercê das estruturas socializantes que a informam, continua a decidir quem, de facto, merece ou não o devido reconhecimento no domínio da cultura portuguesa. Caso típico é o de Miguel Real, cuja aparente consideração por Pascoaes dá-se em nome do carácter «lírico» e «amorável» da respectiva obra, pois «nunca assume um conteúdo xenófobo» como aquele que supostamente transparece no nacionalismo «absolutista» e «cruzadístico» de António Sardinha (cf. «O perfil de Portugal segundo Teixeira de Pascoaes», in Nova Águia, n.º 4, pp. 41-42).

(3) Id., p. 99.

(4) No contexto da situação revolucionária em causa, são de realçar as Brigadas internacionais organizadas pela Internacional Comunista, particularmente apostada em Paris como a grande e crucial placa giratória para inocular os brigadistas em Espanha. E nesse mesmo contexto, saliente-se ainda as tentativas de assassinato de Largo Caballero, Ortega y Gasset e Jiménez de Asúa.

(5) Após referência aos intelectuais de franca oposição aos regimes de Franco e Salazar, Pinharanda Gomes não deixa de reconhecer que, «(...) com ou sem razão, é exacto que se temeu a implantação de uma República comunista em Espanha pelos riscos de absorção que ela poderia trazer à identidade nacional. O que se diz da ameaça comunista é dizível da ameaça maçónica, mas é também dizível da ameaça falangista e dos fundamentalismos nacionalistas» (in Meditações Lusíadas, Fundação Lusíada, 2001, p. 126).

(6) Id., p. 123.

(7) A Última Conversa, entrevista de Luís Machado a Agostinho da Silva, Editorial Notícias, 1998, p. 79.

(8) Cf. «Agostinho da Silva, filho pródigo», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, n.º 4, p. 41.

(9) Cf. «Resposta do autor a Agostinho da Silva», in A Arte de Continuar Português, Edições do Templo, 1978, p. 199.

(10) Cf. Orlando Vitorino, Refutação da Filosofia Triunfante, Teoremas, 1976, Cap. III.






(11) Rui Martins, «Dez parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”, in NA, n.º 3, 2009, p.81.

(12) Cf. Victor Mendanha, Conversas com Agostinho da Silva, Pergaminho, p. 43.

(13) Cf. Ernesto Palma, «Agostinho da Silva, filho pródigo», p. 41. De resto, o paralogismo que se segue é igualmente esclarecedor: «... não há propriedade alguma que Deus possa abençoar; Deus só abençoa a não propriedade» (Agostinho da Silva, «Considerando o Quinto Império», in Dispersos, Lisboa, ICALP, 1988, p. 193).

(14) Rui Martins, ibidem, p. 83.

(15) Id., p. 81.

Continua


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