sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Vacances avec Salazar

Escrito por Christine Garnier






«Vendaval de alegria» e «desordem perfumada», assim retratava Salazar a romancista e jornalista francesa Christine Garnier. Insinuante e determinada, Garnier confessou que ficou, desde a primeira hora, paralisada de espanto ante «os olhos, muito negros, triangulares,  intensos, de um chefe que há vinte e três anos comanda e é obedecido». Corria então o ano de 1951, em que Salazar, numa atmosfera dominada por manobras e intrigas políticas, recusava receber os jornalistas estrangeiros que procuravam obter uma entrevista com o Chefe do Governo.

Uma excepção, porém, caberia a Christine Garnier, que, para o efeito, solicitara a intervenção bem sucedida do embaixador de Portugal em Paris, Marcello Mathias. Enfim, Salazar mostrara-se encantado com a bonita parisiense, a ponto de aprazar nova entrevista na residência oficial de S. Bento.

De resto, a francesinha confessara a sua intenção de escrever um livro sobre Salazar para o editor Bernard Grasset. Salazar, no lance, anuíra. E, de facto, em Fevereiro de 1952, viria a lume a edição francesa intitulada Vacances avec Salazar. «Logo de imediato – aventa Franco Nogueira publica-se em Lisboa a tradução portuguesa. Em torno da obra, suscita-se curiosidade acesa, e polémica também» (in Salazar, Livraria Civilização Editora, Vol. IV, p. 259). 

Quanto ao mais, adianta o biógrafo:

«Entretanto, Férias com Salazar é largamente difundido em França e na Bélgica. Muitos jornais publicam críticas elogiosas; e Christine Garnier é solicitada para conferências, palestras na rádio, entrevistas com homens de fama; recebe uma proposta, que recusa, para escrever um trabalho semelhante sobre o generalíssimo Franco; e o príncipe Carlos, da Bélgica, manda adquirir todos os exemplares com encadernação de luxo. Mas em Portugal as reacções são contraditórias. No grande público, há curiosidade; nos círculos políticos, alguns fazem ironia, consideram piegas o trabalho; e outros têm-no por simples propaganda pessoal, tomando-se as declarações de Salazar como desprovidas de sinceridade, mesmo como hipócritas. É entre as mulheres portuguesas, todavia, que a celeuma levanta ruídos, e são maiores as reacções. Salazar procedera com ligeireza, com leviandade, ao conceder entrevistas em passeios bucólicos, solitários, ou sentado com Christine Garnier numa fraga à beira do tanque. É um ciúme generalizado» (in ob. cit., pp. 260-261).






Em nota acrescida, prossegue ainda Franco Nogueira:

«Lido e estudado à distância de quase trinta anos, o volume aparece a uma luz inteiramente diferente. O retrato que Salazar traça de si próprio e as afirmações que Garnier lhe atribui, quando confrontadas com a documentação hoje disponível e a análise da personalidade que resulta da mesma, demonstram que tudo é muito mais sincero e genuíno do que na altura se supôs. Nas "Férias" Salazar confessa que em novo fez versos de amor. Empresta assim verosimilhança à notícia de que terá publicado um volume de poemas – Ais – que depois fez destruir. (…) No conjunto, todavia, a obra é frouxa, mesmo superficial em alguns capítulos, que de nenhum modo vão ao fundo dos problemas».

Seja como for, segue-se, agora, a transcrição de um dos capítulos da obra. Consta, aliás, que esse capítulo resultara, em grande parte, de uma situação fictícia criada pela autora, não obstante a inclusão de personagens bem reais, como o latifundiário José Palha, o director do Diário de Notícias, Augusto de Castro, e o banqueiro Ricardo Espírito Santo. Em suma: «Aos três tinham sido pedidos – por sugestão de Salazar ou a pedido de Garnier – "apontamentos" – e notas sobre vários assuntos, a Augusto de Castro sobre a política de neutralidade portuguesa durante a II Guerra Mundial, a Ricardo Espírito Santo e José Palha sobre aspectos respeitantes à guerra, à política internacional e ao carácter e estilo de governo do líder do Estado Novo. Estes textos foram revistos por Salazar, que os mandou traduzir e enviou a Christine Garnier, que depois os introduziu no seu livro, como afirmações proferidas num encontro que nunca existiu» (cf. «Uma desordem perfumada», in Os Anos de Salazar, PDA, 2008, 10, pp. 12-14).

Miguel Bruno Duarte

Vacances avec Salazar


«De todas as conjunturas em que a autoridade de um só pode ser útil ao público, nenhuma é tão manifesta como a da guerra».

Luís XIV


Regressei a Portugal. Lentamente, prudentemente, retomo contacto com esta doce terra sentimental e como não sei conservar recordações, que se desfiam entre os meus dedos, sinto-me desorientada. Há quem torne a encontrar, sem esforço, a cor das paisagens perdidas, o eco das palavras extintas, mas, para mim, os dias passados velam-se de esquecimento. E isto causa-me uma pena imensa e empobrece-me…




Assim, mão invisível e familiar como que apagou com uma borracha todas as imagens da minha última permanência em Lisboa.

Partirei amanhã para o Vimieiro. Esta manhã atravesso de automóvel as lezírias, ruivas planícies das margens do Tejo onde se criam os toiros bravos. Camponeses com os seus lenços de cores violentas, curvam-se nos arrozais em longas filas. Durante quilómetros, apenas se vê a imensidade do céu sem nuvens e, depois, aparecem os campinos de barrete verde. A manta de riscas dobrada atrás da sela do cavalo, pampilho na mão, conduzem nobremente os bois na estrada poeirenta.

Vou almoçar ao Monte de Santo Isidoro, a casa de José Palha. A herdade branca surge por entre os sobreiros, com grandes abóboras sobre as telhas rosadas e cinzentas e no meio dos gerânios do terraço. As pombas fizeram ninho nos jasmineiros, encostados aos painéis de azulejo levemente coloridos de azul. Em torno, grandes rebanhos de carneiros avançam lentamente nas pastagens. Os chocalhos das vacas enchem o ar de sons bucólicos. Quanta calma… E é já Paris que recua, foge da minha lembrança.

O dono da casa vem ao meu encontro, movendo o seu chapéu preto de aba larga. É um grande lavrador que ama por igual cavalos, toiros e o canto plangente das guitarras. Junto dele, sorrindo sob o sol da campina, encontram-se Ricardo Espírito Santo e Augusto de Castro. O primeiro, semelhante a um «viking», é um financeiro de Lisboa, grande amador de arte; o segundo, antigo diplomata e escritor de fama, dirige o «Diário de Notícias», o mais importante jornal português.

Assim que entramos na casa, entre móveis vermelhos do Alentejo decorados com flores e corações, vou logo directa ao que me interessa, conforme o meu costume:

– Falem-me do Presidente, - digo-lhes.

– Oh, – peço silenciosamente, – não percamos tempo! Expliquem-me, por favor, as maneiras de Salazar. Ajudem-me a reatar os fios que me escaparam. Tenho de saber se posso fazer perguntas ao Presidente com a minha habitual espontaneidade e rir diante dele sem constrangimento. E dirijo-me a Ricardo Espírito Santo:

– Todos gostam de falar no ar sério de Salazar, «sério» que se nota nas maneiras e na voz. A um dos seus colaboradores declarou um dia: «Devemos ser sempre sérios. Até quando se organizam festas para divertir os homens devemos fazê-lo com seriedade». Diga-me, Salazar fala sempre assim?

– De forma alguma –, responde o banqueiro. Tem muitas vezes reflexões divertidas. Um dia, falando-me de um homem para o qual procurava emprego, disse-me: «Conheci a mulher dele quando ainda era pequenina e trouxe-a ao colo. Quem me diria, nesse tempo, que ainda havia de trazer o marido às costas»? Doutra vez, citou o caso de um cantor que lhe pedia um subsídio para ir a Itália: «Se há tanta gente que me pede auxílio a chorar, sem que a possa socorrer, como quer o senhor que eu dê dinheiro aos que cantam»?


Castelo de Almourol


Quando está à vontade, longe dos cuidados de Lisboa – e vê-lo-á assim, amanhã, no Vimieiro – abandona-se por vezes a uma alegria que surpreende. Já o vi rir como uma criança por uma graça dita a tempo, por uma anedota inocente. Se ele tivesse seguido a sua inclinação natural pode estar certa de que levaria uma vida bem diferente daquela que a si próprio impôs. Foi para melhor servir o Estado que renunciou a todos os prazeres e ao encanto da vida. Desde que se encontra no Poder em poucas recepções apareceu e, no entanto, gosta de festas. Lembro-me da ilha de Almourol iluminada, dos jardins de Queluz preparados para um baile, de um castelo alcandorado num monte e no qual se preparara, segundo as suas ordens, uma refeição à antiga… Ainda há pouco felicitei Salazar pela forma como determinara os detalhes de uma recepção e incitei-o a dar mais vezes festas. Respondeu-me com um meio sorriso: «Não; era capaz de me habituar».– António Ferro, que encontrei em Berna na semana passada, contou-me, – apoiei, – uma história do mesmo género. Pedira a Salazar para assistir uma noite, em sessão privada, à exibição de um filme português. No dia seguinte o Presidente disse-me: «Gostei talvez demais do filme porque não consegui dormir e hoje de manhã não pude trabalhar como de costume. Não está bem. Faça-me o favor de não me tornar a convidar para esse género de distracções».Estamos instalados diante de uma chaminé vazia, em cadeirões de madeira. Em volta de nós, dispostas graciosamente, vêem-se arcas pregueadas de cobre, faianças antigas, inúmeras imagens de santos, que fazem desta morada campestre um vivo museu de arte popular. Pelas janelas abertas chega-nos o som benfazejo das campainhas dos rebanhos que, em todos os países do mundo, nos dá o sentimento da segurança, a ilusão da felicidade.

– Será então pela renúncia às mais simples alegrias que Salazar mantém o seu prestígio?

– Julgo que sim, – admite Ricardo Espírito Santo. Se os seres não têm coragem para agir de acordo com os seus pensamentos, acabam, como diz Bourget, por pensar de acordo com a sua maneira de viver. Não lhe parece? Pois bem, Salazar sempre quis e sempre soube aplicar à sua existência o rigor dos seus princípios. E é isto, na minha opinião, o que o torna respeitado até pelos próprios adversários.

Augusto de Castro descansa o seu copo de vinho do Porto na velha mesa rústica.

– Salazar, – afirma ele, – deve todo o seu prestígio sobretudo à sua inteligência, ao desprezo pela popularidade, por essa popularidade fácil e ruidosa que tanta vez corrói os ídolos.

José Palha, abana a cabeça.

– O que mais nos impressiona em Salazar, o que o distingue dos outros estadistas, – declara, – é o seu espírito de pobreza. Poder-se-ia dizer: o seu «neo-franciscanismo».

Há um instante de silêncio. Cada um destes homens pensa na ideia particular que faz de Salazar e que não está resolvido a desvendar-me. Na casa ao lado, uma criada de saia engomada dispõe em volta dos pratos perfumadas guirlandas de reseda.

Augusto de Castro, que contemplava as traves pintadas de verde com flores, continua em voz surda:

– Na nossa época, ninguém se preocupa com a verdade porque não se está habituado a encontrá-la em parte alguma. Todavia, em Portugal, a verdade conservou o seu valor graças a Salazar, que sempre a apresentou sem artifícios nem disfarces. Nos seus discursos, relatórios, comunicados, não há que procurar subentendidos, frases sibilinas, intenções ocultas. Salazar vai directo à rectidão, à clareza, à verdade pura, sem se preocupar com desagrados. É a verdade a sua melhor arma política. Eis o que nos leva a prestar homenagem ao Presidente.






José Palha, que cruzou as suas longas pernas calçadas de botas altas, inclina para mim a face burilada.

– Uma das qualidades menores de Salazar, – diz, – contribui igualmente para a sua nomeada: o respeito de que sabe rodear as funções alheias. Ouça um exemplo. Quando o Cardeal Spellman voltou em 1947 do último conclave de Roma e passou por Lisboa, o Presidente organizou um jantar em sua honra. A recepção estava prevista para as oito horas mas o avião chegou apenas quarenta minutos antes. O Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros fez notar ao Presidente que as formalidades da Alfândega iriam causar um grande atraso ao jantar e que se poderia abreviá-las ou até suprimi-las. O Presidente respondeu: «É impossível. Só o Ministro das Finanças nos socorreria neste caso e ele não está em Lisboa – Mas, V. Ex.ª é o Presidente do Conselho, exclamou estupefacto o Secretário-Geral, e pode tudo. – Sim, sou Presidente do Conselho, replicou Salazar, mas não sou Ministro das Finanças!»– Em Paris, – disse eu, – Paulo Osório contou-me um dia que muitos portugueses no estrangeiro atribuíam o prestígio de Salazar aos seus êxitos. Será o que devemos concluir da nossa conversa?

– Talvez, – responde o escritor. Porque é um facto: os acontecimentos deram sempre razão a Salazar, quer se tratasse de endireitar as finanças em 1928, de alinhar o escudo pela libra em 1931, de tomar posição ao lado dos nacionalistas desde o primeiro dia da guerra de Espanha e, enfim, de respeitar os compromissos internacionais no decorrer da última guerra. Salazar soube então, graças à habilidade da sua diplomacia, poupar-nos aos horrores da invasão e manteve a soberania de Portugal através de dificuldades sem conta!

Em redor da casa, o som das campainhas torna-se mais intenso. Uma pomba branca vem poisar no rebordo da janela.

– Quer, – pedi docemente, – falar-me de Salazar tal como o viu durante esta guerra?

Augusto de Castro levantou-se. Apoiado a um bufete vermelho constelado de corações, fica um instante silencioso.

– O Governo português, – diz, por fim, – havia assegurado desde os primeiros dias do conflito uma posição de neutralidade. Esta posição fora tomada de perfeito acordo com a nossa velha aliada, a Inglaterra, que, podendo garantir-nos meios de defesa, não tinha interesse em dilatar a guerra até à Península. A nossa neutralidade, porém, – diplomaticamente forte e militarmente fraca – era muito difícil de manter. Como disse então Salazar: «A neutralidade não é cómoda, nem barata…».Por mais de uma vez nos vimos ameaçados pela invasão. Tropas italianas, disse-se, haviam chegado a ser embarcadas com destino a Lisboa. Os aliados afirmavam que os alemães se interessavam fortemente pelos Açores e os alemães espalharam o boato de que os aliados preparavam um ataque a essas ilhas e até propriamente a Portugal. Passámos dias cheios de ameaças e de perigos e as negociações que Salazar teve de dirigir, no decorrer desta «batalha de neutralidade», foram extremamente delicadas.




O meu pensamento escapa-se por um instante e imagino o Salazar dessa época, tal como mo descreveu António Ferro: «Durante a guerra, o Presidente recebia-me sentado, defronte de uma mesa coberta de telegramas cifrados que chegavam de todos os cantos do mundo. Absorvido como um telegrafista na sua cabina de escuta, Salazar tomava nota das comunicações e ele próprio respondia, raciocínio frio e coração ardente, a todas as ameaças de guerra, a todas as ilusões de paz. Outros telegramas chegavam, às pilhas. Conversávamos um pouco. Assim que me levantava para me despedir, Salazar dirigia-se de novo para a sua cabina de escuta, tal como num aeroporto o chefe da torre de comando, que se sente responsável pelas inúmeras vidas suspensas em pleno céu…

«Eu via então, na rua, as pessoas que olhavam tranquilamente as montras opulentas. Os seus rostos ignoravam a angústia. E eu pensava naquele homem tão calmo, de gestos ponderados, que assegurava dia e noite, à sua mesa de trabalho, uma neutralidade permanentemente em perigo. Pensava no homem cujo esforço sobre-humano era totalmente desconhecido de toda a gente que ia jantar para as suas casas tranquilas, enquanto em tantos outros países só havia sofrimento, lágrimas e ruínas…».A voz rude de José Palha traz-me à realidade:

– Quando os aliados pediram, em 1943, a concessão de bases nos Açores, indispensáveis à vitória do Atlântico, Salazar respondeu «sim», logo ao primeiro contacto. Pediu somente que nos fornecessem meios de defesa contra um eventual ataque aéreo. A assinatura desse acto constitui um dos pontos culminantes da nossa história diplomática e poderia servir de matéria para um estudo fecundo.

– Contudo, – prossegue Ricardo Espírito Santo, – à medida que a posição alemã se tornava mais crítica, os aliados insistiam para que abandonássemos uma neutralidade «in nomine». Salazar que continuava a resistir a estas pressões, disse-me um dia: «O oportunismo só é possível para as grandes nações, seguras da sua força e da sua riqueza. Nós, que somos fracos e pobres, apenas nos poderemos fazer respeitar à força de rectidão e de honestidade. Neste momento, podemos desagradar aos nossos amigos mas, mais tarde, eles compreenderão».

– Isso lembra-me uma anedota pouco conhecida, – exclama José Palha. No princípio da Guerra, um embaixador estrangeiro insistia com Salazar para que este respondesse a certos pedidos. Depois de ter recorrido a muitos argumentos o embaixador admirou-se: «Mas, senhor Presidente, sem esquadra, sem exército, sem dinheiro, que é que julga ter?» E Salazar replicou sobriamente: «Razão, senhor embaixador!».

– Contaram-me outra frase de Salazar – diz Augusto de Castro. A história é da mesma época. O representante de um país amigo apresentou ao Presidente um pedido difícil. Seguiu-se acesa discussão. O representante não hesitou em formular ameaças. Então Salazar, levantando-se, cortou bruscamente: «Saiba, senhor, que não tenho medo de morrer de medo!».

A criada que dispusera as resedas vem convidar-nos a ir para a mesa.

– Ainda uma pergunta! – imploro. A última! Ouvi dizer que Salazar previra durante a guerra a organização política que hoje se chama Pacto do Atlântico. É exacto?



Bandeira da NATO (North Atlantic Treaty Organization).








– Sim, – responde Ricardo Espírito Santo. Num dos seus discursos, em 1944, disse que os países banhados pelo Atlântico seriam chamados dentro em breve a desempenhar um papel importante ao lado dos Estados Unidos e que a América ajudaria a Europa a erguer-se das suas ruínas. Após este discurso profético, Salazar recebeu a visita de um jornalista americano que lhe perguntou como concebia o futuro do mundo. Assisti precisamente a essa entrevista. O presidente expôs longamente as suas ideias sobre a dominante do após-guerra: o afastamento da Europa do predomínio mundial. Via ainda o Atlântico que, em vez de separar os continentes e os povos, seria um elo de ligação entre as Américas, a Europa Ocidental e a África.

«Esta comunidade, disse, terá o encargo de defender a herança da civilização cristã e europeia contra o assalto dos asiáticos».

Alguns anos mais tarde, tal como o previra Salazar, nascia o Pacto do Atlântico (in Férias com Salazar, 3.ª edição, Lisboa, 1952, pp. 89-99).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A doutrina fadista (ii)

Escrito por Álvaro Ribeiro




Ana Moura


Na maneira de cantar o amor, por exemplo, se vê a divergência enorme entre a emoção campesina e a emoção fadista. O amor domina os seres humanos; o amor não admite desobediência nem rebelião. Mas, dominado pelo amor, como o campesino, o fadista tem mais viva e dolorida consciência do inevitável. E como, para o homem e para a mulher do bairro popular da cidade, as circunstâncias, em que a aventura e o drama amoroso se travam, são mais complexas do que aquelas que se apresentam normalmente aos habitantes dos bairros luxuosos e aos camponeses, o fadista tem de acentuar traços agudos e penetrantes na expressão comovida da verdade.

Quem chama decadente ou doentio ao fado de tal motivo, porque não condenará todas as obras-primas da poesia, musicada ou não, onde o amor atinge profundidade, exaltação e tragédia? É doentio o fado, ou o sentimento humano que ele popular e grandiosamente nos exprime?

E na maneira de cantar a morte. Quem não compreenderá que a morte assume um aspecto mais violento e terrível, por qualquer lado que se observe, no bairro popular da cidade do que no campo, junto da natureza, da deusa-mãe de seio acolhedor?

A solidariedade familiar e a luta pela vida, as relações duma com a outra, apresentam-se ao povo da cidade segundo uma fenomenologia inconfundível. O fado exprime, nos seus frequentes temas de amor de filho e mãe, fenómenos, sentimentais e sociais, de altíssimo significado ético e religioso. Há fados que valem em expressão oral certos quadros de pintores célebres, quadros representativos da mãe com o filho ao colo, cuja lição nunca deixará de ser meditada com alcance e proveito. Não é sem razão que se fala da Santa do fado.

O trabalho popular, na cidade, é muitas vezes inseguro. Quer se trate de profissões de exercício intermitente, quer de profissões de exercício ambulante, quer de profissões não salariáveis, quer de todas as profissões que podem ser atingidas por crises, tudo contribui para que o trabalho urbano desenvolva uma certa psicologia popular, onde os traços de dignidade e de melancolia aparecem nitidamente. O fadista canta a sua profissão, que aperfeiçoa e ama, e diz como consegue ligar o trabalho e o fado; o fadista, que canta a primor, começa por dizer aos que o escutam qual é a sua arte, nos dois significados desta palavra; liga a ideia de trabalho à ideia de destino, e nunca à de lucro, posse ou exploração, para assim demonstrar que é povo, e que não deseja sair do povo.

A ideia de destino gera, no fadista, um sentimento de solidariedade e de irmandade que dificilmente se poderá encontrar fora do povo português; não que a outros falte um sentimento comparável, mas falta-lhes a mesma fundamentação emotiva. A união mística dos portugueses da metrópole com os portugueses de além-mar, que o fado realiza, é já de si altamente eloquente. O mesmo culto religioso une povos de diferentes continentes; o mesmo sentimento patriótico une, por exemplo, o povo alemão em todo o mundo; um hino, uma marcha, uma canção, uma poesia, etc., podem apertar laços desleixados, reviver emoções, comover fortemente. Mas o sacramento do fado produz um milagre maior e diferente, coisa que só poderia exprimir em palavras um grande artista, coisa que só pode ser negada por quem seja isento de emotividade autêntica. Há no fado um não sei quê, que só o próprio fado pode dizer, mas que se não pode negar. A ideia do destino e de fatalidade, compreendida de uma maneira especial por um povo moderno, esclarece um pouco este problema, mas não aniquila o mistério que envolve.


Cristina Branco


Seria interessante pôr a claro outros aspectos do fado, embora estas noções já bastem a quem sobre elas quiser reflectir; seria até urgente explicá-las, para maior eficiência pedagógica; é possível que isso em breve seja feito, se para tal houver ambiente e estímulo.

Nem tudo que se canta com acompanhamento de guitarra e viola é fado; e seria conveniente demonstrar, até vitória decisiva, que os piores inimigos do fado não são os detractores, mas sim as pessoas que aos detractores fornecem argumentos e razões.

Como será possível defender o fado, se não há uma doutrina fadista e um preceituário fadista? Se tudo é possível e permitido, se pululam contradições e divergências, como será possível distinguir o fado autêntico das adulterações que o degeneram e extinguem?

A Inspecção-Geral dos Espectáculos só encara o fado como espectáculo, e apenas proíbe ofensas directas à ordem moral e política garantida pelas leis vigentes; não tem, nem ninguém desejaria que tivesse, competência para formular juízos estéticos sobre o fado.

Urge, porém, que uma instituição genuinamente fadista, ou uma doutrina tipicamente fadista, evite a adulteração e decomposição, a que assistimos, duma arte popular, quando deslocada para um meio que não é o seu.

Deveria, em primeiro lugar, escrever-se um preceituário simples e correcto, a fim de limitar a determinados tipos as formas e os assuntos da canção fadista; deixaria de ser considerada fado muita cançoneta reles que irrita os apreciadores; fechar-se-ia a ordem aos ignorantes ou inimigos da arte popular. Será possível realizar-se tal benefício, ou por reunião e congresso dos poetas fadistas, ou por inquérito promovido pela imprensa, ou por qualquer processo mais eficiente?

À imprensa fadista competiria, pela crítica, fazer o respectivo policiamento, e obrigar a cumprir o preceituário-lei; mais ainda lhe competiria persuadir cantores e cantadeiras a que contribuíssem, pela aceitação de uma disciplina tão justa, para o aperfeiçoamento do fado.

O leitor calculará como seria agradável deixar de ouvir cantadores e cantadeiras adolescentes referirem-se às toiradas e esperas de toiros, em falsos termos de saudade, insultando a inteligência do público com anacronismos ridículos e passadismos doentios. O fado é o destino, mas não é obrigatoriamente o passado.

Há que respeitar o carácter do fado; mas a cada cantador e a cada cantadeira cumpre também respeitar o carácter próprio.

É horrível ouvir a adolescente cantar versos que se referem a qualquer caso em termos de mulher adulta; é nojento ouvir a velha a cantar versos que exprimem um amor primaveril. A fadista de temperamento acanalhado e de gestos desembaraçados não deverá cantar fados exageradamente sentimentais nem simular atitude contemplativa; e vice-versa.

Cada cantador ou cantadeira deve cuidar do seu carácter; só assim poderá aperfeiçoar-se e marcar a sua individualidade perante o gosto do público.

O trajo fadista deve também ser defendido das fantasias estranhas dos alfaiates e guarda-roupeiros, bem como dos caprichos da moda ou do gosto habitual. Ou se adopta o trajo tradicional, usado outrora pelos fadistas mais antigos e mais típicos, ou se desenham figurinos compatíveis com a nossa época, de traço popular da gente que trabalha e canta. O trajo fadista não é arbitrário como uma farda de porteiro ou um vestido de passeio. O xale preto tem elegância e encanto; mas que pode ele valer quando se apresenta em conflito com os horríveis arrebiques dos vestidos das nossas damas?

Maria Ana Bobone

Sabe-se que, em questão de feitio, há nos fatos dos homens uma certa uniformidade, mas o vestido de mulher varia de pessoa para pessoa, e de situação social para situação social. A cantadeira fadista é muitas vezes antipopular no trajo que apresenta: carregada de luxos, jóias e tecidos, arrebiques e penteados, exibe arrogantemente os sinais da sua superioridade na maneira de viver. Nesses casos o trajo colide com a canção.

Que uma cantadeira, à força de se apresentar nos cafés e nos salões, vá pouco a pouco saindo do povo, quer porque enriqueça quer porque case com um burguês, – é acontecimento inevitável. Mas impõe-se que nunca mais cante o fado em público, se lhe é impossível deixar de profanar a arte do povo. Exibir as gorduras que acumulou em consequência de ter deixado de trabalhar, exibir as jóias que adquiriu de qualquer maneira, expor as reservas corporais ou financeiras que a livram de regressar ao trabalho e ao povo donde saiu, é, no próprio momento em que canta, um insulto a quem a ouve e a quem preze a dignidade popular. Quem se serviu do fado não pode servir o fado.

Qualquer que tenha sido a transformação da vida privada da cantadeira, esta deve manter a apresentação e a figura de quem não renega o povo, nem sequer na maneira de vestir.

É pasmoso que muitos fadistas consintam aspectos que acabam de ser condenados. A sensibilidade fadista estará tão enfraquecida? Até que ponto, até quando? Até à extinção do fado?

Observe-se o que está acontecendo há alguns anos a esta parte, e saiba-se ser inteligente, ver os perigos com antecedência, pois ver-se o perigo na ocasião é próprio de todos os animais, que dele se defendem na medida em que baste o instinto.

Observe-se que de há alguns anos a esta parte, o fado começa a ser orientado e dirigido, não pelas autoridades, não pela imprensa, não pelos fadistas, mas… pelos empresários dos salões, retiros, esplanadas, etc. Quer dizer: o fado tende a cair nas mãos dos comerciantes de café, cerveja, vinho, etc. Tais cavalheiros, preocupados apenas com o lucro, manobrando habilmente com a publicidade de jornais diários, e inserindo as condições mais arbitrárias nos seus contratos, poderão num futuro bem próximo construir e destruir reputações de fadistas, transformar uma arte num negócio. O público ouvirá então somente certos fadistas e certos fados, segundo o critério do negociante; e, de mistura com o fado, terá de suportar tangos, modinhas, imitações, variedades e cães amestrados.

Consumo obrigatório, pela boca, pelos olhos e pelos ouvidos; impossibilidade de beber cerveja de tal marca, e de ouvir a voz de tal fadista.

Urge que os fadistas elaborem, e proponham à aprovação da Inspecção-Geral dos Espectáculos, um regulamento que os defenda, e que defenda o público dos abusos dos negociantes de comidas e bebidas. Abusos possíveis, ameaçadores, mas fáceis de prever. De prever e de evitar, por uma decisão inteligente e oportuna.

Assim, deverá exigir-se que todo o salão de fado tenha lotação limitada, ventilação e iluminação segundo as exigências científicas, mobiliário cómodo e revestido de tacões de borracha, largas coxias cobertas de passadeiras, retretes suficientes, vestiários próprios, etc., condições que um público civilizado deve exigir aos exploradores dos recintos fadistas. A organização e a apresentação do espectáculo deverá obedecer às normas da estética fadista: trajos dos artistas, decoração do palco e do salão, jogo de luz, programa previamente publicado e distribuído, números extraprograma, redução do tempo e intervalos, publicidade nos jornais diários e nos jornais da especialidade, etc., tudo deve obedecer a normas insofismáveis. Contrato dos artistas, elaboração de escalas e turnos, preços dos bilhetes, quantitativo dos consumos, espectáculos extraordinários e sessões de moda, exclusão de espectáculos mistos, etc., serão também assuntos a regular.

A defesa do fado, dos fadistas e do público fadista não pode ficar ao descuido dos negociantes; urge elaborar um regulamento que a Inspecção-Geral dos Espectáculos aprove e que possa servir de lei.

Ao contrário do que no primeiro momento poderá parecer, a execução dum preceituário ou dum doutrinal fadista, tende a aumentar a expansão da arte urbana. Com o desaparecimento de certas razões de queixa contra o fado, aumentará o número de apreciadores e, consequente, o número de artistas e dos salões.






O ideal seria ver abrir e funcionar, em cada bairro de Lisboa, um amplo e belo salão de fados, junto do qual existiria um curso para guitarristas e cantadores, durante as horas da tarde.

Atrair a juventude, chamar à actividade artística dezenas de rapazes e de raparigas, criar novas equipas de cantadores e de cantadeiras, trabalhar pela beleza e pela expansão da língua pátria e da arte popular, – será por acaso condenável? Em vez de tavernas com receptores roufenhos, em vez de recintos de más conversas, jogos viciosos, languidez, desmoralização, degenerescência, – não será melhor promover a formação de centros de educação musical e de arte popular?

Singular exemplo oferece o povo de Lisboa ao país inteiro! Diz-se que os portugueses têm perdido pouco a pouco o gosto de cantar; observa-se que a transferência para a cidade diminui no ser humano a aptidão espontânea para o canto; que cada vez mais se acentua a apagada e vil tristeza. As cidades da província possuem cafés que se propõem imitar os da capital; as cidades da província possuem teatros e cinemas por onde transitam produções internacionais; mas as cidades da província não têm locais acolhedores aonde o povo possa levar diariamente a sua voz e fazer ouvir o seu folclore, onde em doces horas de conforto e de prazer espiritual se aprecie a arte da região. Seria interessante que as cidades da província fizessem o que Lisboa, amaldiçoada por ser o berço do fado, lhes ensina a fazer, em reacção contra um aspecto de decadência social, como é, sem dúvida, a mudez do homem entre os ruídos das máquinas e dos transportes urbanos. Admirável lição do povo fadista ao país inteiro, oferecendo-lhe a canção dos que vencem pelo trabalho e pela arte!

Café Palladium, 12 de Julho de 1937*.


* Em consequência das repercussões [na Imprensa do País e na do Brasil], veio a ser publicada, no ano XV, n.º 194, de 1 de Janeiro de 1938, p. 2, [em Canção do Sul], a seguinte carta:

«… Sr. João Reis

Digníssimo director da Canção do Sul

Para satisfazer o seu pedido de rectificação de um passo da minha conferência de doutrina fadista, nada me custa declarar que de forma nenhuma pretendi atingir a reputação moral dos cantadores e das cantadeiras de fado. A origem das jóias exibidas nos tablados não interessava ao ponto de vista em discussão, e sobre ela não fiz sequer o mais leve juízo depreciativo.

Custa-me, porém, ter de acreditar que o meu simples ensaio, escrito numa intenção de defesa do fado, de quem o cultiva e de quem o propaga, pudesse ser lido com tanta malícia. É caso para recordar mais uma vez o célebre dito: Honni soit qui mal y pense ["vergonha sobre quem puser nisto malícia"].

Às cantadeiras e aos cantadores que lhe manifestaram dúvidas sobre as minhas intenções de escritor, pode V. Ex.ª comunicar este esclarecimento que é a expressão da verdade.

Sem outro assunto, creia na consideração de quem se assina…

Álvaro Ribeiro (Lisboa, 30-XII-1937)».


Ana Moura

domingo, 11 de dezembro de 2011

A doutrina fadista (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro






«Vive a teu modo. Não tomes
De estrangeiro a estranha ideia;
Alma e corpo têm medidas:
Não lhes serve a roupa alheia...».

António Correia de Oliveira («É Portugal que vos fala»).


Amália Rodrigues





«…os dois primeiros filmes sonoros portugueses são duas das obras mais interessantes que o cinema dedicou ao fado. A Severa, que Leitão de Barros rodou em 1933, e sonorizou em estúdios franceses, inspira-se na peça teatral de Júlio Dantas, e dá-nos um retrato castiço dos tempos de Severa, e da sua hipotética relação com o marquês de Marialva, em meados do século XIX (1848). Para lá dos elementos biográficos referentes à fadista e meretriz Maria Severa Onofriana (elementos esses muito romanceados e traindo a verdade histórica em certos aspectos), o filme de Leitão de Barros aborda um tema muito curioso e que mostra como o fado evoluiu no interior das classes sociais portuguesas, desde o tempo em que as influências vieram trazidas do lundu africano (via Brasil, e escravos) e do fandango de Sevilha (que está na base certamente do flamengo, já de si com influências da Índia e do Oriente) e se mesclaram com a realidade social e cultural portuguesa dos séculos XVII e XVIII.

Os escravos negros e as suas festividades devem ter-se fundido umbilicalmente (na verdade, fala-se mesmo de uma dança de origem africana a que era dado o nome de "umbigada") com a "arraia-miúda" branca que se divertia nos bairros populares e fora de portas de Lisboa. Depois foi esperar que a "gente da sociedade" (como o aqui citado marquês de Marialva) se interessasse ou pelas escravas negras ou pelas prostitutas brancas para estas começarem a penetrar nos ambientes da burguesia comerciante ou da aristocracia decadente, para o fado ser apreciado e depois cultivado nestes novos ambientes sociais. A Severa refere bem esse resvalar do fado do terreiro do povo para os salões da sociedade, mostra o desdém de uns (sobretudo das damas ameaçadas pela licenciosidade das "fadistas") e o interesse de outros (sobretudo dos marialvas seduzidos pela mesma licenciosidade das "fadistas"), aponta o fascínio da nobreza e da burguesia pelo exotismo e pelos ambientes e personagens da boémia alfacinha, ilustrando de alguma forma a parte final de um percurso acidentado que conduziu o fado das sanzalas e da escravidão até aos palcos e aos salões». 

«O Fado no Cinema Português» (in Os Anos de Salazar, Centro Editor PDA, 2008, 15, p. 135).


A doutrina fadista


Alfama (Capital do Fado).

O fado é uma arte popular. O primeiro problema duma doutrina do fado consistirá, pois, em investigar quais sejam o verdadeiro significado e o real valor da arte popular.

Arte popular não pode ser entendida como arte que ao povo se dirige, descendo e simplificando, divulgando e degradando, até se tornar acessível ao público e à multidão. Arte popular não é o contrário de arte para raros apenas. Arte popular não é a arte que desce, é, pelo contrário, a arte que sobe, a que procura sempre uma expressão mais alta. O artista, que desce até ao povo, demonstra nesse movimento que do povo não provém; a sua missão cultural, por muito útil e valiosa que seja, é estranha ao povo. Tal como um professor de língua estrangeira; tal como um missionário ou um conquistador.

Não se pretende com isto dizer que se repudie a dádiva generosa dos artistas clássicos; antes pelo contrário. Para com o povo têm os artistas superiores a grande dívida, mais do que o grande dever, de o educar esteticamente; e sempre competia ao Estado como às mais altas instituições representativas da arte superior, realizar a expansão das obras-primas, e alargar o respectivo público. Devem ser dadas às gentes todas as possibilidades (especialmente as escolares e as financeiras), de emoção compreensiva do património artístico da Humanidade. Mas este movimento escolarizante que, sem ideia pejorativa, pode ser chamado de descida é totalmente diferente do movimento de subida.

Arte popular é aquela que do povo parte, que no povo tem a sua origem; cada aspecto da arte popular morre quando atinge certo grau do que se costuma chamar estilização; arte popular é aquela que começa por sê-lo, não aquela que acaba por sê-lo.

Convém, pois, não confundir arte popular com arte clássica, vulgarizada, diminuída; a expressão arte popular não pode designar simultaneamente, sem perigo de erro, duas actividades contrárias, mas não contraditórias.

Há quem negue a arte popular, como há quem negue o povo. Nesta negação está a base mais forte dos argumentos dos detractores do fado; há, porém, dezenas de fadistas que ao adversário concedem aquela premissa, não vendo que dessa concessão, dessa concordância, resultam, a breve prazo, a decadência do espírito fadista, e o definhamento da sua atitude polémica.




O fadista talvez seja levado a tal doutrina, quando impelido por um sentimento de justiça social, legítimo e louvável. Somente, saltando do sentimento de justiça para o ideal do igualitarismo colectivista, opõe à evidência de cada momento uma ilusão utópica e ucrónica, pois imagina possível uma sociedade sem povo, ou melhor, uma sociedade onde não haja a distinção entre povo e outras categorias sociais. Repare-se que não se critica neste ponto qualquer ideal político, o que está fora de discussão; chama-se apenas a atenção para a necessidade eterna da existência do povo, na sua peculiar função em qualquer organismo nacional. Haverá sempre indivíduos que queiram sair do povo; mas a ilusão está em querer, permita-se a frase, que todo o povo saia do povo, abandone o povo, deixe de ser povo. As flores e as folhas parecem querer sair do caule e da raiz; mas não é possível reduzir as plantas assim estruturadas somente a caule ou somente a flor; o fenómeno do fototropismo não vai de encontro ao valor e à dignidade da planta inteira, solidária e una.

Há povo – povo que se modifica, transforma e aperfeiçoa –, há arte popular radicalmente distinta da arte proveniente das outras camadas sociais.

Do estudo do folclore e da etnografia, em seus variadíssimos ramos, resulta bem evidente que existe uma mentalidade popular; mas, o que mais curioso parece, tal mentalidade popular, longe de ser docilmente formada pela alta cultura de origem estranha (ou estrangeira, ou clássica), muitas vezes se opõe, em misteriosa resistência, ao cultismo vampírico.

Leia-se os livros dos etnólogos portugueses, e consulte-se demoradamente o folclore: afirmar-se-á eloquentemente a arte popular, arte que do povo sobe para dizer e exprimir, para revelar uma alma.

O povo tem as suas profissões, os seus costumes familiares e locais, a sua maneira de reagir a todos os fenómenos colectivos, as suas danças, as suas canções, os seus provérbios, as suas locuções e o seu vocabulário, etc. – enfim uma cultura popular irredutível à cultura clássica, uma cultura que evolui e progride por leis internas e próprias, uma cultura que só morre quando atingida pelo crime.

Combater a arte popular, na intenção de extingui-la para substituí-la por arte burguesa ou aristocrática, ministrável ao povo em simplificações, resumos, pílulas, sessões baratas, etc. – é um crime. A vida é revelação de possibilidades; há que deixar o povo viver, revelar-se, exprimir-se. Mandar calar o povo, ensinar-lhe uma língua estranha, e pô-lo a ouvir o que outrem julgue superior, é um crime. Isto é: um delito social irreparável.

É já evidente, nesta altura dialéctica: que mereceria o nome de pedante todo aquele que levantasse a bandeira da rebelião contra o folclore e a etnografia; que mereceria o nome de bárbaro todo aquele que quisesse destruir as indústrias artísticas regionais, para as substituir por uma indústria de tipo único, talvez americana; que mereceria o nome de filisteu todo aquele que quisesse proibir as danças e as canções provinciais, do Minho à Madeira, para as substituir pela música estrangeira, difundida pela TSF ou pelas fanfarras locais. No entanto, se é compreensível o espírito de ódio à diversidade das manifestações populares, é ilógico e incompreensível o ódio votado somente a uma modalidade da música e da poesia populares, ao fado.




É demasiadamente conhecida a lengalenga dos detractores do fado; somente convém em primeiro lugar saber se a cada acusação ao fado não corresponde acusação igual, ou paralela, a outras expressões artísticas que os detractores respeitam, ou dizem respeitar. Valeria a pena colocar, lado a lado, os argumentos contra o fado e as excepções a favor de outras poesias, de outras músicas, de outras canções, quer nacionais, quer estrangeiras; valeria a pena, sim, porque ficaria demonstrado que contra o fado não há razões, mas apenas ódio.

Estranho jeito de ódio! Ódio ao povo, ódio proveniente de quem nas cidades do litoral não é povo!...

E repare-se bem: os detractores do fado pertencem mais à classe média – aos que do povo saíram há uma ou duas gerações –, do que à alta fidalguia, tão compreensiva de tudo quanto revele as virtudes da terra e da grei.

Na alta província, não pode haver ambiente desfavorável à arte popular local; não é possível um desprezo snobe pelo folclore. O fado tem o destino da arte popular na grande cidade do litoral e na grande capital. Se em Londres, Paris ou Berlim houvesse uma arte popular tão digna como o fado é em Lisboa, as classes médias dessas cidades comportar-se-iam segundo as leis da sociologia da cultura.

Que seria do nosso teatro ligeiro, da revista ou da opereta, se lhe extraíssem a beleza folclórica? Imagine-se a pobreza e o desgosto das cenas, dos quadros e dos actos!... Acontece, porém, que só os quadros de fado arreliam o snobismo burguês – esses mesmos quadros que exaltam enebriantemente o povo de Lisboa. Mas, por nobre contraste, o povo de Lisboa não pede a supressão do folclore provinciano, desse folclore que não briga com o gosto artístico dos detractores do fado, se acaso gosto artístico possuem.

O fado é arte popular, e arte do povo da cidade, especialmente dos bairros frequentados por trabalhadores marítimos.

Não se imagina bem o semeador ou a ceifeira, quer durante o trabalho quer durante a diversão, a cantar qualquer coisa de semelhante ao fado. A vida campesina, desde os trabalhos rurais até às feiras das vitórias, sempre activa e variada, de acordo com a saúde e a natureza, não oferece cambiantes emotivas que se possam captar numa canção como o fado. O gosto e o desgosto dos camponeses, por muito significativo que sejam, não revestem o carácter fadista, tão sensível no mundo urbano; o camponês vive as suas alegrias e as suas dores referindo-se à Natureza e à Providência, mas de modo nenhum ao Destino ou Fado (in Canção do Sul, Ano XV, números 187-189, Lisboa, 1-22/10/1937, pp. 2-3).



Continua

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

História marxista é charlatanismo

Escrito por Olavo de Carvalho





O Globo, 27 de maio de 2002

Com honrosas e inevitáveis exceções, a historiografia disponível no mercado livreiro nacional é de orientação predominantemente marxista ou filomarxista. Por isso nossa visão da História é estereotipada e falsa ao ponto de confundir-se com a ficção e a propaganda. A História que os brasileiros aprendem nas escolas e nos livros é uma História para cabos eleitorais.

É que ninguém pode ser marxista também sem ler tudo com suspicácia paranóica em busca de motivações políticas ocultas, e abster-se, por princípio, de fazer o mesmo com aquilo que se escreve. Com a maior naturalidade um marxista escarafunchará o “discurso do poder” nas entrelinhas dos autores mais apolíticos e devotados à pura ciência, ao mesmo tempo que se recusará a examinar a presença do mesmo elemento em tipos que, como ele, estão ostensivamente empenhados na luta pelo poder.

Para o marxista, a História, por definição, não é ciência descritiva ou explicativa, mas arma de luta por um objetivo bem determinado. “Não se trata de interpretar o mundo, mas de transformá-lo.” O passado não tem pois aí nenhum direito próprio à existência, senão como pretexto para o futuro que se tem em vista. Daí que deformá-lo seja, para o historiador marxista, um direito e até um dever.

Marxismo, em suma, é inconsciência sistematizada.

E note-se que estou falando do marxismo melhorzinho, intelectualmente “respeitável”. Decerto não é esse tipo de marxismo que se pratica majoritariamente, no Brasil ou fora: é um marxismo de “agitprop”, que busca antes o escândalo das denúncias anticapitalistas do que o conhecimento histórico mesmo num sentido longínquo e metafórico do termo.

Um exemplo é esse desprezível “Genocídio americano — A Guerra do Paraguai”, de Júlio J. Chiavenato, que consagrou por vinte anos o mito comunista de uma luta genocida a serviço do banco Rothschild, até ser completamente destroçado por Francisco Fernando Monteoliva Doratioto no recém-publicado “Maldita guerra — Nova história da Guerra do Paraguai”.

Mesmo em obras de pura consulta o charlatanismo marxista não deixa de introduzir as mais escabrosas falsificações. Já denunciei aqui um grotesco “Dicionário crítico do pensamento de direita”, obra de 114 sumidades acadêmicas, que excluía sistematicamente todos os pensadores direitistas mais célebres — de T. S. Eliot a von Mises, de Böhm-Bawerk a Irving Kristol e Russel Kirk — colocando em lugar deles grosseiros panfletários nazistas como Goebbels e Streicher, para dar a impressão de que direitistas não pensam e, quando pensam, é para premeditar crimes hediondos.

Mas o caso mais escandaloso, pelo volume e pelas ambições, é o “Livro negro do capitalismo”, preparado às pressas por uma equipe de historiadores filocomunistas para neutralizar o vexame do “Livro negro do comunismo”. Neste último, um grupo de marxistas arrependidos, com Stéphane Courtois à frente, fazia as contas e confessava que, com seu total mínimo de cem milhões de vítimas, o comunismo tinha sido o maior flagelo de todos os tempos, superando os efeitos somados de todas as guerras, epidemias e terremotos do século mais violento da História.

Mais que depressa, a tropa esquerdista designou uma equipe de emergência, com Gilles Perrault no comando, para transmutar o prejuízo em lucro. Missão: produzir a ferro e fogo cem milhões de vítimas do capitalismo, de modo a estabelecer, na impossibilidade do resgate da imagem comunista, ao menos um arremedo de equivalência moral entre os dois regimes.




É verdade que países capitalistas se meteram em guerras e mataram pessoas. Mas uma coisa é matar inimigos em guerra, outra coisa é um Estado dizimar sua própria população civil. O total de cem milhões de vítimas apontado por Stéphane Courtois excluía, por princípio, soldados mortos em campo de batalha, atendo-se ao genocídio praticado pelos comunistas contra populações desarmadas, quase sempre nos seus próprios países. Nada de semelhante podia-se encontrar nas nações capitalistas, exceto mediante o expediente de chamar “capitalistas” o regime nacional-socialista ou o feudalismo da China imperial. Perrault e assessores não hesitaram em fazer isso, mas ainda assim os números ficavam muito abaixo do desejado. Era preciso, pois, falsear mais fundo, incluindo na soma das “vítimas do capitalismo” os combatentes mortos em batalhas. Mas mesmo então o capitalismo saía bonito. Os EUA, por exemplo, em todas as intervenções militares em que se meteram ao longo de um século, não mataram mais de dois milhões de inimigos, uma quota bem modesta para um país que se pretendia carimbar como a mais agressiva potência imperialista de todos os tempos.

Perrault e sua turma, por fim, salvaram-se da encrenca mediante a decisão cínica de atribuir ao capitalismo a culpa por todas as mortes ocorridas na II Guerra Mundial (50 milhões no total, incluindo as efetuadas pelas tropas nazistas e soviéticas), na guerra civil da Rússia (6 milhões, incluindo a metade liquidada pelo governo revolucionário), na guerra do Vietnã (2 milhões, incluindo as vítimas dos vietcongues), na guerra na Argélia (um milhão e duzentas mil, incluindo as que foram mortas pelos rebeldes comunistas), na guerra civil espanhola (700 mil mortos dos dois lados) e — santa misericórdia! — no massacre de Ruanda (500 mil mortos, todos eles sacrificados pela incitação igualitarista dos “pobres” hutus contra os “ricos” tutsis).

E assim por diante.

Resultado: debitando-se na conta capitalista os crimes cometidos pelos comunistas, o capitalismo se revelava mesmo um regime tão violento e maldoso quanto o comunismo, ficando assim estabelecida a equivalência moral, quod erat demonstrandum.

Será que chamar isso de vigarice, de intrujice barata, de propaganda enganosa, é apenas uma “opinião política”, tão discutível e moralmente relativa quanto sua contrária? Ou é uma questão de moralidade elementar?

Mas se o leitor pensa que alguns dos protagonistas dessas façanhas sente ao menos um pouco de vergonha do que fez, está muito enganado. Todos têm a consciência tranqüila de trabalhar pelo bem e pela verdade. Se lhes atiramos na cara a iniqüidade de seus feitos, eles nos viram as costas com a altivez principesca de quem não dá atenção a qualquer um, muito menos a (vade retro!) anticomunistas.




Mais ainda, com a mesma cara-de-pau com que deformam o conjunto eles mentem nos detalhes. Logo atrás do sucesso de Perrault aparecia o dr. Emir Sader, nas orelhas de um livro de Alain Besançon, falsificando com a maior sem-cerimônia o conteúdo da obra: se no corpo do texto o autor afirmava que os crimes nazistas eram muito mais alardeados pela mídia do que os comunistas, o homúnculo das orelhas, mentindo duplamente, nos fatos e na fonte, invertia a informação, alegando que todos só queriam falar do comunismo e nunca do nazismo...

Será exagero dizer que a falsa consciência levada a esse ponto é uma forma de sociopatia?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Primeiro, extinguir a Universidade, depois, restaurar o ensino

Escrito por Orlando Vitorino






«(…) pobre sempre foi a cultura portuguesa, a de Leonardo, Pascoaes, Pessoa, Marinho, Régio, Álvaro (…) como rica sempre foi a engravatada e sórdida incultura das universidades, das academias, das fundações, das televisões, dos Dantas, dos Carrilhos, dos Saramagos, odiosos jarretas, emproados lacaios». 
Do Pensamento Varão de Orlando Vitorino

Foi, entre nós, Orlando Vitorino o Filósofo da liberdade. E se, numa tal condição e destino compreendera, com José Marinho, que o não-ser e o nada hajam de ser lidos como o sem-limite – ou, se quisermos ainda, profundamente intuídos enquanto teoria pura do espírito e da liberdade que se não confunde com as condições em que um e outra se manifestam e tornam reais –, já com Álvaro Ribeiro soubera que o princípio da liberdade, não estando imediatamente referido à acção nem, por intermédio desta, à vontade, surge, então, como garantia da liberdade absoluta do espírito, além de toda a real e concreta liberdade.

Não identificava, porém, Orlando Vitorino tão nobre princípio com o eventual carácter vazio e indeterminado da subjectividade humana, na medida em que a liberdade, insusceptível de ser possuída ou abandonada, é, em virtude de sua transnaturalidade, inconquistável. Daí tratar-se de um princípio que mal se manifesta no domínio das formas, dos conceitos e das ideias, logo desaparece quando deles fugiu e os abandonou. Fica, no entanto, o pensamento como manifestação e realização da liberdade, tornando-se apenas um substituto permanecente em todo o real e não a própria liberdade, sempre volátil e fugaz.

Ora, sabia perfeitamente Orlando Vitorino que a zona da cultura, da política e das instituições representa a zona onde artificialmente se fabricam e recebem já fabricadas as opiniões, os sofismas e os preconceitos triunfantes. E, apesar de tudo, também sabia muito bem como a Universidade moderna, racionalista e anti-teológica se constituíra e ampliara, no tempo, como uma pesada instituição cheia dos mais elementares erros, obstáculos e malefícios para a formação superior da inteligência humana. Não fora, pois, por acaso ou por capricho que, por adesão à liberdade do espírito que sempre tivera como horizonte último, pensava, agia e escrevia à revelia de uma superficial e pretensiosa função repetidora tal como recorrentemente aparece cultivada nas instituições universitárias dominantes.

Filósofo na plena acepção da palavra, Orlando Vitorino situava-se no extremo oposto do professor universitário. Era, aliás, um portentoso espectáculo poder assistir ao modo varonil como Orlando rebatia qualquer docente universitário que ficava pura e simplesmente inerme perante a mais poderosa inteligência do seu interlocutor. De resto, a forma inusitada como o fazia residia na aguda consciência que o próprio em si mesmo trazia da Universidade enquanto «herdeira de todas as limitações ao desenvolvimento intelectual e de todas as proibições de informação cultural e científica ancestralmente atribuídas a organizações que, no progresso de actualização, as vieram abjurando, como as do ensino e da censura eclesiásticos».

Por outro lado, conhecia Orlando Vitorino, até por via da nossa literatura, como os nossos escritores, pesando-lhes o bacharelato universitário, tendem a exprimir, nos termos «de um socialismo falso e abstracto de ideal humano, universal e fraterno, denunciador de todas as injustiças sociais», o «pavor pela vida de pobreza e miséria do proletariado» em contraste com a «possibilidade de um emprego burguês, um casamento burguês, uma vida burguesa». Tal é, ademais, o que permite explicar a ambição e a sofreguidão de domínio com que a maioria dos universitários se apoia no alegado prestígio dos títulos académicos adquiridos ao longo da vida. E, perante tanto formalismo, até Sant’Anna Dionísio chegara mesmo a propor uma designação assaz curiosa, mas não menos indiciadora do fenómeno em causa: «as refracções intelectuais do donjuanismo».


Posto isto, segue-se agora mais um escrito de Orlando Vitorino, com o título «Primeiro, extinguir a Universidade, depois, restaurar o ensino». Este escrito, dado a lume a 15 de Janeiro de 1980, mantém ainda a sua actualidade a respeito duma instituição de ensino que nunca, na verdade, deixou de ser estruturalmente positivizante e, nessa medida, o maior inimigo da cultura lusíada.

Miguel Bruno Duarte




                                 «O maior inimigo da cultura portuguesa é a universidade».

António Braz Teixeira (Professor universitário e pretérito Secretário de Estado da Cultura).


«Para aquilatar da qualidade é necessário distinguir duas existências na situação portuguesa: a filosofia em Portugal, e a "filosofia portuguesa".

Na primeira existência considera-se a filosofia que, dita universal, foi pensada por portugueses, em língua portuguesa ou qualquer outra, dentro de esquemas ideológicos ou não; define toda a espécie de aculturação ou de cultura filosófica livresca propriamente dita.

Na segunda existência, proclama-se uma filosofia, tão descomprometida das instituições escolares de há muito vigentes, como da esfera religiosa, disposta a assumir a liberdade de filosofar originalmente, perante os sucessivos desenganos da tradição colegial, sobretudo a partir do reformismo iluminista das instituições universitárias». 

Pinharanda Gomes, o «Doutor Honorífico» («Meditações Filosóficas»).


«Há dois séculos – digamos: em 1772 – a reforma pombalina da Universidade de Coimbra, eliminando o ensino da filosofia de Aristóteles, cuja tese fundamental é a da oposição entre as cracias e as arquias, abriu as aulas aos professores de doutrinas estrangeiradas que haveriam de enfraquecer e dissolver a mentalidade tradicional dos portugueses. Sucessivas reformas da instrução pública, que se operaram desde então aos nossos dias, foram obedientes a motivos políticos e politécnicos, mas deixavam de servir a legitimação e a fundamentação filosófica, patriótica e religiosa, o que significa trair o ideal educativo que tem por fim assegurar a liberdade de pensamento ou, concretamente, a liberdade humana. A exclusão ou a minoração da lógica, a pretexto de corrigir, combater ou refutar Aristóteles, privou-nos do ensino escolástico que é um estudo directo sobre a realidade do Espírito; deu-nos em compensação a psicologia, que é apenas a ciência empírica da alma; e assim, por acção didáctica sobre os adolescentes, foi o escol do nosso povo perdendo o juízo e, portanto, a razão».
 
Álvaro Ribeiro (revista «Escola Formal»).


«Nos povos meridionais, entre os quais nunca se anulou completamente um certo atavismo clássico com a permanente disposição para uma harmonia natural e cósmica onde o mal não possui realidade ôntica, onde a cisão e o pecado dificilmente se reconhecem como inatos ao mundo e ao homem e antes facilmente se aceitam como imagens e mitos, nos povos meridionais o catolicismo conseguiu resistir à obsessão do pecado própria das interpretações agostinianas e protestantes do cristianismo e pode dizer-se que nunca entre eles o primado da vontade foi tomado a sério ou recebido sem suspeita. Embora absorvidos e esmagados nos modos de civilização e cultura nórdicos, dominados pela técnica e pela indústria resultantes da ciência moderna, regidos pela política e pelo direito inerentes ao "dogma da vontade", sempre lhes resistiram ou menos passiva ou mais tacitamente. Tal resistência se reflecte, muitas vezes se tornando manifesta e hostil, no pensamento filosófico onde se liga ao reaparecimento medieval de Aristóteles, à sistematização tomista de modelo aristotélico, à renascença da cultura antiga que os povos nórdicos imediatamente traduziram num estreito humanismo, e à permanente suspeição perante os sistemas que a filosofia nórdica, através das instituições colegiais ou universitárias, teima em lhes impor».

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»).


«A estatização do ensino é, entre nós, uma constante desde a fundação da universidade pombalina nos finais do século XVIII, quase contemporânea portanto da fundação da actual ordem da sociedade pelo primeiro plutocrata. O caso insólito do aparecimento de universidades privadas, há dois séculos rigidamente proibidas pelo Estado, no momento em que a revolução socialista de 74 estatizava violentamente as instituições, as grandes empresas financeiras e até as propriedades fundiárias, seria o desmentido desse controlo se não acontecesse terem sido as universidades privadas condicionadas, na formação dos seus corpos docentes e nos seus programas escolares, de tal modo que não passam de extensões administrativas das universidades do Estado. O caso insólito da sua fundação reduziu-se, afinal, a um recurso da corporação universitária para pôr ao abrigo de algum excesso revolucionário os seus professores. Como, depois, os graus inferiores do ensino, em especial o secundário, sempre tratados com humilhante desdém, estão limitados pelo Ministério da Educação a transmitir os conhecimentos ministrados na universidade, fica controlada a totalidade do ensino escolar.

(...) A estatização do ensino permitiu fazer das universidades escolas para a formação das mentalidades pelas várias versões da doutrina igualitarista: o marxismo na totalidade do ensino nas Faculdades de Letras e de Ciências e grande parte dele nas Faculdades de Direito, o Keynesianismo, última bóia de salvação a que se agarrou o naufragado socialismo, nas Faculdades de Economia, outras variantes, dispersas mas predominantes, nas demais escolas.

O ensino secundário e o primário são derivados do ensino universitário que forma os quadros mentais do respectivo professorado. Esta formação é, por assim dizer, inconsciente, dada e recebida como se fosse a do saber objectivo e científico, e são frequentes os casos de professores que assumem posições políticas ferozmente anti-igualitaristas, isto é, anti-comunistas e anti-socialistas, e não se apercebem de que transmitem aos alunos as doutrinas a que se opõem.

As escolas, em especial as universitárias, são abastecidas de alunos por aquela classe média onde o plutocrata recrutou os seus revolucionários. Uma vez “licenciados”, dispersam-se por todos os meios de actividade, os mais opiniosos pelas carreiras políticas e jornalísticas, onde infiltram e espalham a mentalidade geral exaltante do igualitarismo e aberto à planificação, em especial a da cultura».
 
Ernesto Palma («O Plutocrata»). 





«Em geral, a filosofia das universidades é esgrima em frente de um espelho; no fundo, o seu verdadeiro fim é dar aos estudantes opiniões ao sabor do ministro que distribui as cadeiras. Nada melhor, no ponto de vista do homem de Estado; mas a consequência é que tal filosofia é, por assim dizer, nervis alienis, mobile lignum; não poderia considerar-se como séria: é uma filosofia para rir».

Arthur Schopenhauer («Da Necessidade Metafísica»).



Primeiro, extinguir a Universidade; depois, restaurar o ensino


Em 1970 Sedas Nunes e Miller Guerra, professores universitários e, então, representantes do povo português na Assembleia Nacional e na Câmara Corporativa, moveram uma campanha sobre a organização do ensino que precedeu imediatamente o ministério de Veiga Simão, como eles, e como todos os ministros da Educação desde há muitos decénios, também professor universitário.

Num volume hoje esquecido, com o título “A Situação Universitária Portuguesa”, reuniram assim os textos dessa campanha: discursos nas referidas Assembleias, artigos e entrevistas de jornais, folhas policopiadas postas a correr entre as mãos dos estudantes. Tudo isto tinha um carácter muito mais político do que didáctico mas apresentava-se como um combate corajoso, fundamental e decisivo: o progressismo erguia-se enfim contra aquilo a que Sedas Nunes e Miller Guerra chamavam “a universidade napoleónica”.

Lido hoje, o livro aparecerá ao leitor distante dos acontecimentos como mais um exemplo do lançamento, montagem e imposição de uma campanha contra o que está, apenas com o fim de manter, e até fortalecer, isso que está. Combatendo a Universidade, os nossos dois autores tiveram sempre o cuidado de preservar as “excepções” entre as quais, naturalmente, se incluíam eles próprios e quantos se viessem a reconhecer na mesma situação. Dando à Universidade a designação de “napoleónica”, evitavam dar-lhe o nome que efectivamente lhe cabe, o de “pombalina”, com todas as consequências que, veremos, isso teria. Apresentando-se como corajosos “progressistas”, não faziam mais do que reproduzir, dois séculos mais tarde, os argumentos de Pombal contra a Universidade Jesuítica e justificativos da Universidade que a substituiu, argumentos que estabeleciam a utilidade socioeconómica como finalidade do ensino e a abominação da filosofia como ponto de partida da sua organização; evitavam, ao mesmo tempo, situar o problema na realidade portuguesa, permitindo-se ignorar todos os estudos, críticas e propostas feitas durante estes dois séculos em Portugal para a reforma do ensino. Preparando a sua total estatização, que logo Veiga Simão e o 25/Abril iriam estabelecer, passavam por alto e ocultavam ao trocarem a designação de pombalina pela de napoleónica, que a Universidade portuguesa era, há dois séculos, a estatização do ensino superior e constituía o mais próximo exemplo de todos os males que a estatização neste domínio necessariamente contém. Ignorando, finalmente, que não há organização do ensino que não provenha de um sistema de filosofia, mantinham ou preservavam a ignorância de que a “Universidade Pombalina” provém da filosofia iluminista e, como tal, pudera transitar, sem perturbações, do iluminismo ao positivismo e, deste, ao actual marxismo. Do que, portanto, se tratava, na campanha de Miller Guerra e Sedas Nunes, era de manter o que estava.


Os universitários Marcello Caetano e Veiga-Simão


À campanha de Miller Guerra e Sedas Nunes, logo se seguiram as “reformas”, ou meras adaptações, de Veiga Simão, segundo um esquema encomendado a um técnico francês. Incidiram tais reformas, não sobre a Universidade, como esperaria o espectador desprevenido, mas sobre o ensino secundário, no qual uma tradição ainda mantinha uma certa presença daquilo a que alude a palavra liceal. Às reformas Veiga Simão, sucederam-se, sem qualquer, mínimo desvio, as dos socialistas do 25/Abril que, obedecendo ao imperativo, agora constitucional, da utilidade, procederam à unificação marxista da escolaridade secundária.

Resumindo, temos em todo este processo as seguintes características: abominação da filosofia, tal como foi proclamado por Pombal; utilização ou manipulação dos estudantes previamente enquadrados num ensino unificado com as escolas previamente estatizadas, intocabilidade da Universidade, ocultação do pensamento pedagógico e didáctico português.

Se convém chamar a atenção dos leitores, sobretudo para as últimas características, insistimos em fazê-los observar como o ensino universitário se mantém incólume, estando até preservadas todas as possibilidades de ele reabsorver os raros casos de “saneamento” e redisciplinar os raros casos de algumas superficiais alterações didácticas, uns e outros resultantes de ambições pessoais que se aproveitaram dos fogachos revolucionários. E insistimos especialmente em como é significativa a ocultação do pensamento pedagógico e didáctico português.

Para se avaliar como esta ocultação tem remota persistência universitária, basta lembrar que se mantiveram ignorados, desatendidos ou praticamente inéditos os seus principais e admiráveis estudos. Por exemplo: o livro “Educadores Portugueses”, de Ferreira Deusdado, cujos poucos exemplares existentes datam de 1909; “A Instrução Nacional”, de D. António da Costa, datado de 1870; os textos de Leonardo Coimbra enterrados nos Diários das sessões do parlamento da 1.ª República do ano de 1919; as investigações de Delfim Santos, que chegou a escrever relatórios para o Ministério da Educação; o magistral ensaio de José Marinho sobre o ensino da filosofia; os ensaios de Santana Dionísio; a admirável obra de Álvaro Ribeiro, de uma singularidade sem paralelo em qualquer didáctica estrangeira. Nas duzentas ou trezentas páginas do livro de Miller Guerra e Sedas Nunes, nos milhares de páginas legisladoras do ministério de Veiga Simão, não se encontra uma única vez referido o nome de algum destes didactas portugueses, não é adoptada, sequer atendida, sequer citada, uma única das suas teses, enquanto as estrangeiras eram docilmente seguidas.






Todo o pensamento didáctico português implica uma condição prévia e imprescindível: a extinção da Universidade, primeiro, a sua consequente remodelação, depois. Considerando que não é o inferior que determina o superior, mas que é o superior que determina, explica e condiciona o inferior, entende-se que nenhuma reforma do ensino secundário e primário tem consequências que não sejam negativas ou degradantes se, antes dela, não for remodelado o grau superior do ensino, ou a Universidade. Ferreira Deusdado, em 1909, e, antes dele, Mota Veiga em 1872, mostraram bem que a “Universidade Pombalina”, abolindo o primado didáctico da filosofia, se havia condenado a uma contínua degradação. Leonardo Coimbra mais tarde viria a verificar que a famosa “abominação da filosofia aristotélica” por Pombal conduzira rapidamente, como se pretendia, à abolição de toda a filosofia e considerou, quando ministro da Instrução, que o seu restabelecimento era condição para tornar real a liberdade republicana. O seu discípulo Delfim Santos deu à questão uma expressão mais dura: descreveu exemplos significativos da incompetência dos professores universitários e pôs como condição da existência de um ensino superior o saneamento geral dos corpos docentes da Universidade. A expressão mais recente e actualizada da necessidade de reformar o ensino superior, atingindo previamente a Universidade, foi dada, já depois do 25/Abril, pela revista ESCOLA FORMAL que, ao mesmo tempo, apresentou um esquema, bastante pormenorizado, do que será a nova forma do ensino superior.

Estas propostas são, sem dúvida, escandalosas para a aconchegada mentalidade dominante. Como são escandalosas muitas das suas teses: a prioridade do direito de ensinar sobre o direito de aprender, a prioridade universal do ensino da língua, a distinção entre a aprendizagem feminina e masculina, o predomínio absoluto da ciência e do saber sobre a sociologia e a utilidade, a abolição do exame, a ociosidade do estudante, etc.

A extinção da Universidade obrigará, naturalmente, ao encerramento do ensino superior ou, pelo menos, de alguns dos seus institutos, pelo período de 1 a 2 anos, o que constituirá, sem dúvida, motivo de perturbação para uma geração de estudantes. Mas para uma finalidade sem qualquer justificação didáctica ou nacional, todo o ensino superior tem sido vedado, nos últimos anos, com o inútil e imoral “curso propedêutico”, durante igual, e para muitos maior, período de tempo.